Capítulo 03: Um começo

A segunda-feira chegou com uma garoa fina a capital coreana. Kyuhyun dormira a manhã toda depois de virar a noite trabalhando. Felizmente, o bar não funcionava nos três primeiros dias da semana, por falta de movimento, assim ele teria as noites para descansar. Ele acordou as dez da manhã ainda sem roupas, deitado em sua cama. O som do chuveiro indicava que Sungmin ainda estava em seu apartamento.

Por mais que ele ainda tivesse um dia inteiro na faculdade, seu humor estava realmente bom. Talvez aquela tenha sido a ultima noite dos dois juntos, pois pela conversa da noite anterior, parecia que Sungmin estava interessado em outro rapaz. Kyu de forma alguma se importava com aquilo, ele ficou satisfeito em saber que seu colega mantinha relacionamentos saudáveis por aí. Mesmo que aquele tenha sido um sexo de despedida, fora bom o suficiente para Kyuhyun.

Ele calmamente saiu da cama e se enrolou em um lençol antes de adentrar o banheiro. O outro rapaz desejou um sonolento bom dia, antes de desligar o chuveiro e começar a secar a água em seu corpo. Kyuhyun sorriu para ele e adentrou o box, precisava retirar o cheiro de sexo de sua pele antes de sair de casa. Sungmin sorriu para ele e se despediu, afinal, tinha compromissos aquele dia.

Sendo assim, quando Kyu saiu do banheiro enrolado em uma toalha, Sungmin já tinha ido embora e felizmente, ele havia preparado café. Depois de um rápido desjejum, ele pegou os lençóis que os dois usaram na noite anterior, assim como algumas peças de roupas suas e seguiu para a lavanderia de seu prédio, onde ficou até perceber que não teria tempo de preparar seu almoço antes de ir para a aula.

Sendo assim, ele trocou de roupas, pegou seus materiais e correu em direção ao metrô, afim de chegar o quanto antes a faculdade e lá comprar algo para comer. No metrô Kyu tinha a leve impressão de estar esquecendo algo, e por isso começou a checar sua pasta afim de tentar descobrir. Suas chaves e seu celular estavam ali, ele não tinha compromissos aquele dia, então talvez fosse algo relacionado a faculdade.

A fim de tentar se lembrar ou descartar de uma vez a hipótese, Kyuhyun folheou a agenda que ele anotava as tarefas da faculdade. Ao ver o que ele havia escrito ali, sentiu um frio incômodo na barriga, por ter esquecido algo que ele deveria ter ponderado em seu tempo livre, “Ajudar o Changmin na terça a noite, ou não”.  Ele havia escrito aquilo antes de dar fim ao seu artigo de macroeconomia que com alguma sorte seria publicado no boletim do curso. E no final das contas, ele se esquecera completamente do outro rapaz.

Kyuhyun guardou a pequena agenda e forçou sua memória para relembrar da sexta-feira, quando em seu intervalo, Changmin aparecera com uma bebida e eles conversaram normalmente. Era estranho para Kyu, um rapaz como ele agir tão naturalmente próximo a si. Ele decididamente precisava de ajuda, e certamente ninguém mais naquela sala poderia fazê-lo. No entanto, como ele mesmo havia dito ao rapaz, os problemas dele em cálculo não importavam a Kyuhyun.

Talvez ele desse sorte e o rapaz sequer se lembraria de ter estado no Candy Bar, ou de ter conversado consigo naquele beco. Mas se o cobrasse uma resposta, certamente não a teria. Kyuhyun deveria ter pesado os prós e contras de ajudar a Changmin e o esquecera completamente. E assim, um tanto agoniado e desistindo de tomar uma decisão no caminho, ele colou o rosto no vidro e esperou pacientemente sua estação chegar.

Kyu chegou a faculdade trinta minutos antes da aula. Foi o tempo necessário para que ele passasse na biblioteca para pegar um livro que havia reservado e correr para o prédio de exatas, onde compraria algo para comer. Ele escolheu um sanduiche de atum e um chá quente que levaria para a sala, onde comeria. Ao chegar ao caixa, Kyuhyun se atrapalhou por carregar um pesado livro nos braços, além de sua comida, e ele ainda tentava remexer em sua pasta quando alguém parou atrás de si. Uma voz conhecida disse:

– Eu quero um expresso e pode cobrar o dele também.

Kyuhyun estava pronto para protestar, mas antes resolveu se certificar de quem se tratava. Changmin estava logo atrás de si, sorrindo com o canto dos lábios. Ele entregou um cartão ao atendente e digitou a senha, somente depois que pagou pelo consumo de ambos, voltou a se manifestar, sorrindo novamente simpático. Não, ele não havia esquecido e aquela não era uma boa notícia para Kyuhyun.

– Como vai, Kyuhyun?

– Bem, obrigado. Eu vou pra sala, quando você chegar lá eu te pago.

E terminando a frase, Kyuhyun deu as costas ao outro e saiu a passos largos em direção a saída da cafeteria. Changmin arqueou as sobrancelhas e saiu logo atrás do rapaz que aparentemente fugia de si. O mais alto não conseguiu evitar rir daquela situação, e da atitude um tanto infantil do outro rapaz. Assim que o alcançou, ele parou a sua frente, impedindo sua passagem para o corredor da faculdade.

– Hey,hey! Por que você não senta aqui e come? Assim, nós poderíamos conversar.

– Changmin, nós temos aula e se você não quiser pegar dependência nessa também, é bom chegar no horário.

– Eu passei na sala, tem um aviso no quadro, a professora não vem.

– Eu não caio nessa, Changmin, não vou matar aula só porque você quer.

– Não acredita em mim?

– Claro que não, agora sai da minha frente que eu tô atrasado.

– Vamos fazer assim, deixa o lanche e o livro comigo que eu te espero aqui. Vai lá olhar a sala.

– Eu vou assistir aula senhor esperto e até lá o meu chá vai estar gelado!

– Não tem aula!! – Insistiu Changmin. – Se você não voltar em dez minutos, eu levo o teu lanche e mais um chocolate pra você comer na sala.

– Aish!

Kyuhyun entregou-lhe suas coisas e seguiu para sua sala de aula. Ele decididamente não acreditava em Changmin, e ficaria realmente irritado se o rapaz não aparecesse com seu lanche. Ele detestava ficar com fome. Ao chegar a sala, encontrou a mesma vazia e um grande aviso no quadro sobre a licença médica da professora e que as aulas seriam repostas no final da semana. Kyu suspirou pesadamente fitando o quadro, afinal detestava estar enganado e provavelmente socaria o rosto de Changmin se ele o fitasse triunfante.

Quando ele voltou a cafeteria, Changmin havia escolhido uma mesa ao centro e deixado o lanche e o livro de Kyuhyun a sua frente. Ele estava sentado, saboreando seu café expresso com o olhar fixo em uma das moças na mesa pouco adiante de si. Kyu revirou os olhos ao perceber, mas ainda assim se aproximou do rapaz e se se sentou a sua frente, recebendo novamente a atenção do mesmo e é claro, um sorriso triunfante.

– Eu disse que não…

– É, você disse. – Interrompeu Kyuhyun com ar sério, ajeitando os óculos de grau em seu rosto. – O que quer, Changmin?

– Saber se você pensou na minha proposta.

– Esqueci completamente. – Afirmou Kyuhyun. – Além do mais, achei que estava bêbado demais para se lembrar que passou a noite em um bar gay, conversando com o nerd da faculdade.

– Foi a melhor noite do ano, eu não me esqueceria.

– Ótimo, e quando você volta para a sua realidade?

– Sei lá, quando me der na telha.

– Não demore, eu não pretendo sorrir para você por muito tempo.

– Não faço questão.

– Vou perguntar de novo, o que quer de mim, Changmin?

– Eu já respondi a sua pergunta, agora é minha vez. Do que você tem medo aqui, Kyuhyun?

– O que quer dizer com isso?

– Na sexta a noite, você conversou comigo como qualquer outro cara faria. E agora está se esforçando para me dispensar. Eu não aceito não de mulher nenhuma, por que acha que aceitaria um seu?

– Vai mesmo me comparar com aquele tipo de vadia que você come? Está me ofendendo, Changmin.

– De forma alguma, até porque não tenho a menor intenção de fazer sexo com você. Apenas queria deixar claro que você não vai se livrar de mim sendo rude. E eu acho que toda essa sua pose arrogante esconde uma insegurança, quanto a esse ambiente, estou errado?

– E concluiu tudo isso nos últimos três minutos de conversa?

– Não. Pensei em você nesse final de semana, em como você é diferente no Candy Bar e concluí isso, você deve ser inseguro e ter medo de muitas coisas.

– Está me insultando, Changmin.

– Mas não estou mentindo. Agora me diga, por que não quer me ajudar?

– Porque não é problema meu!

– Qual é, Kyuhyun?! Você é o único que entende aquela porcaria de matéria, que mal ia te fazer me dar umas aulas? Não tô te pedindo nada demais, e você sabe disso.

Kyuhyun suspirou pesadamente e esfregou o rosto com ambas as mãos. Seu dia havia começado tão bem que ele não tinha ideia de como chegara aquele ponto. Changmin era tão irritante, prepotente e observador que ele não podia evitar de sentir raiva do mesmo. O rapaz havia cruzado os braços em frente ao peito e agora esperava seu veredicto.

– Se eu te ajudar, isso é só uma hipótese, você vai ter que se esforçar.

– Vai me ajudar. – Concluiu Changmin.

– Se isso fizer você largar do meu pé, eu ajudo. Mas saiba que se eu te ajudar e mesmo assim você pegar dependência eu te jogo da escada, seu babaca.

– Você é gentil assim com todos os caras?? Deve ser difícil arrumar namorado assim.

– E o que você entende de relacionamento gay, Changmin? –Disse Kyuhyun rindo irônico.

– Nada. Melhor não me comprometer.

Kyuhyun negou com a cabeça e finalmente abriu seu sanduiche. Claro que aquela altura seu chá já estava gelado, mas parecia que finalmente Changmin iria deixa-lo em paz. Ele começou a saborear seu lanche agora em silêncio, enquanto era observado pelo outro rapaz. Quando seus olhares se encontraram, Kyuhyun tentou buscar algo falso no olhar de Changmin, algo que traduzisse qualquer má intenção do mesmo, mas apenas encontrou a mesma sagacidade comum do rapaz.

Kyuhyun não o respondeu, apenas deu atenção a seu sanduiche, enquanto Changmin mantinha os olhos em si. Ele parecia analisar cada ação do outro, com uma curiosidade que não cabia em si. Durante o final de semana, ele conversara muito com Jaejoong sobre o que eles denominaram, a dupla personalidade de Kyuhyun, mas nenhum dos dois conseguiu descobrir quem ele era de verdade. E lá estava ele, de frente para com seu objeto de estudo totalmente alheio a sua curiosidade.

– E como foi o seu final de semana, Kyu-ah?

– Por que quer saber? – Disse Kyuhyun após um longo gole de chá.

– Por que você é sempre tão evasivo? Qual a dificuldade em responder a uma pergunta simples como essa?

– Você é sempre invasivo assim ou o problema é comigo?

– Invasivo? Kyuhyun, eu perguntei como foi o seu final de semana, não se você trocou de cueca hoje.

– Mas é claro que eu troquei!

– Como é que você me responde uma pergunta dessa e não me responde como foi o seu final de semana?

– Se você soubesse como é legal te contrariar, faria o mesmo.

Foi a vez de Kyuhyun sorrir triunfante com a frustração do outro. Changmin negou com a cabeça e riu soprado, enquanto ainda fitava o outro rapaz. O mais alto deixou que o outro terminasse de comer em silêncio. Kyuhyun não olhava mais para ele e sim para o copo a sua frente que aos poucos ia se esvaziando. Assim que terminou sua refeição, Kyuhyun voltou a falar.

– Meu final de semana foi bom, eu terminei meu artigo no sábado e ontem o Minnie dormiu comigo. E o seu?

– Quem é Minnie? O seu namorado?

– E o seu final de semana?

– Se eu responder, você me conta quem é o Minnie?

– Pode ser, mas você conhece ele.

– Eu??

– Claro. Agora me fala, quantas você comeu no final de semana?

– Nenhuma. – Riu-se Changmin. – Eu até saí com uma da academia, mas nem rolou nada. Não teve clima. E domingo eu fiquei em casa com o Jae, nós vimos uns filmes e tal.

– Que filmes?

– Ah, o primeiro foi Transformers…

– Lixo. – Afirmou Kyuhyun.

– Eu sei, foi o Jae que escolheu porque ele gosta da Megan Fox. O outro fui eu que escolhi, foi A Janela Indiscreta.

– De Hitchcock?

– Esse mesmo, já assistiu?

– Adoro Hitchcock, o meu favorito é Os Pássaros. – Disse Kyuhyun, animado. – Sabia que na cena final foram jogados pássaros de verdade na atriz?

– Aah, eu li isso em algum lugar também. E o que acha de Psicose?

– Um clássico né Changmin-ah!

Changmin sorriu abertamente ao outro quando este concordou consigo. Ele meneou a cabeça afirmativamente recebendo em retorno um sorriso discreto de Kyuhyun. Finalmente eles concordavam com algo e Changmin percebeu que apesar de sua opção sexual, Kyu não era assim tão diferente assim de si.

– Acho melhor ir pra sala, vai começar a próxima aula. – Afirmou Kyuhyun.

– Só depois que você me disser quem é o Minnie.

– É o Sungmin, o outro bartender do Candy Bar. Foi ele quem eu levei pra casa na noite passada. Mudando de assunto, quanto deu o meu lanche? – Disse Kyuhyun remexendo em sua pasta até encontrar sua carteira.

– Deixa, é por minha conta.

– De jeito nenhum – Kyuhyun estendeu uma nota que obviamente pagava por seu lanche e guardou a carteira.

– Eu não vou aceitar.

– Eu é que não vou aceitar você pagando as coisas pra mim! Pega Changmin, e vê se usa esse dinheiro pra alguma coisa que preste, não pra beber.

– Aish, como você é teimoso!

– Você é bem pior! Agora vamos pra sala!

– Só quando você me contar o que você e o Minnie fizeram.

– De jeito nenhum!

– Por que não? Eu te contei o que eu e o Jae fizemos.

– É diferente, agora se você quer ficar aí é problema seu, eu vou pra aula!

– Não sem o seu livro!

Com uma velocidade surpreendente, Changmin pegou o livro que descansava na mesa e saiu correndo em direção a saída da cafeteria. Kyuhyun arregalou os olhos, agarrou a pasta e correu atrás do rapaz que se afastava cada vez mais de si. Ele queria gritar com o outro, mas não desejava fazer escândalo no meio da faculdade. Quando chegou ao lado de fora, Changmin jogou o livro em um dos bancos e se sentou sobre este, sorrindo para o outro que parecia prestes a mata-lo.

– Changmin, devolve!

– Só depois que…

– Esse livro não é meu, é da biblioteca e se você estragar, vai pagar.

– Não vou estragar!

– Escuta, eu já tô atrasado, quer me devolver essa droga de livro?

– Me conta, o que você e o Minnie fizeram e eu te devolvo! – Provou Changmin.

– Eu vou matar você! – Disse Kyuhyun, cerrando os dentes.

– Fala o que eu quero ouvir, que eu te devolvo.

– A gente transou está bem?? Eu e ele fizemos sexo a noite inteira, você quer os detalhes também?

– Eu sabia!! – Changmin sorriu e se levantou estendendo o livro ao outro rapaz. – Você vive cheio de ironia sobre os meus casinhos por aí, mas você também tem os seus!

– É diferente, Changmin-ah! – Explicou Kyuhyun.

– Diferente como? Você está apaixonado por ele ou algo assim?

– Não…

– Então é exatamente igual aos meus. – Disse Changmin com firmeza começando a caminhar ao lado de Kyuhyun em direção a sala. – Seus sentimentos são tão superficiais quanto os meus.

– Talvez. – Afirmou Kyuhyun pensativo. – Mas eu não deixei os meus estudos de lado para transar por aí.

– Hey, isso é outra história! – Justificou-se Changmin.

– E por falar em estudar, eu quero que você tire cópia dos três primeiros capítulos do livro de calculo, pra gente começar por lá. – Disse Kyuhyun

– E onde vamos nos encontrar? Aqui mesmo? – Disse Changmin adentrado a sala ao lado do outro, e encontrando a professora arrumando o Datashow para sua aula.

– Pode ser, amanhã na biblioteca, depois da aula.

– Você não trabalha amanhã?

– Não, o bar só abre a partir de quinta-feira, até domingo. Você vai voltar lá?

– Claro que vou, Kyu-ah, quero experimentar outros drinks e o Jae gostou de lá. Ele se deu bem com um cara lá, eles conversaram bastante.

– E o que o seu amigo quer com esse cara? – Disse Kyuhyun, malicioso.

– Yah! Ele só quer a amizade, eu tenho certeza!

– Estou brincando, Changmin-ah! Eu sei do que vocês dois gostam. E agora vai sentar e vê se estuda, seu preguiçoso!

Changmin riu e seguiu para seu costumeiro lugar no fundo da sala. Claro que assim que se sentou, ele foi questionado sobre sua proximidade com Kyuhyun a qual ele justificou como coleguismo, apenas pelo outro ajuda-lo com suas dificuldades em calculo. Aparentemente a desculpa foi engolida, mas ele se sentiu mal por dá-la. Não que Changmin tivesse vergonha de ser amigo de Kyuhyun, apenas não tinha certeza de sua amizade ainda, sendo assim, por enquanto, eles continuavam colegas.

Kyuhyun sentia-se bem, mesmo com o começo conturbado e estranho de sua amizade com Changmin. Ao mesmo tempo que sentia aversão ao rapaz, ele se sentia acolhido pelo mesmo. Kyuhyun sentou-se a mesa e abriu seu caderno ainda pensativo. Changmin parecia um cara legal, mas ele tinha certeza que todas as meninas com quem ele dormira pensavam o mesmo. Ao fim, ele riu por voltar a se comparar com elas, afinal o mais alto deixara claro que não queria sexo. Talvez ele quisesse mesmo somente ajuda na matéria e assim que acabasse o semestre voltaria a ignora-lo. Aquilo não seria problema desde que Kyu não se apegasse.

As aulas daquele dia se passaram maçantes e tediosas como sempre. Eram cálculos, autores, teorias e é claro, trabalhos e cobranças. Foram apenas duas matérias, cada uma com duas horas de aula e ainda assim no final da tarde, todos os alunos tinham a impressão de estarem afogados em conteúdos que deveriam aprender ou no mínimo, memorizar antes do final do semestre. Essa era a rotina universitária que Changmin insistia em deixar a sua própria sorte.

Quando o final da tarde chegou a garoa já havia se dissipado mas o clima ainda estava úmido e frio. Kyuhyun se levantou e se espreguiçou demoradamente, assim que o professor liberou a sala. Ele ainda guardava suas coisas quando sentiu uma mão quente de dedos longos apoiar-se em seus ombros. Ao seu lado, Changmin sorria para si com um ar tranquilo e brevemente sonolento.

– Eu e o Jae vamos a um barzinho aqui na frente, tá afim?

– Foi mal, mas eu trabalho em um bar. A última coisa que eu faço pra me distrair é voltar para o bar. – Kyuhyun negou com a cabeça, sorrindo discreto. – Mas eu agradeço o convite.

– Tem certeza? – Disse Changmin sentando-se sobre a mesa de Kyuhyun. – Eu pago a primeira rodada.

– Certeza absoluta. Agora vê se não toma um porre porque você tem que estar inteiro para estudar amanhã.

– Sim, senhor. – Changmin riu-se e desceu da mesa.

– Até amanhã.

Kyuhyun sorriu com o canto dos lábios e ajeitou sua pasta nos ombros. Finalmente ele estendeu a mão para o mais alto que a tomou com firmeza, e o saudou em despedida. Kyu riu discreto com a feição pensativa de Changmin antes de desviar o caminho e seguir porta afora. Changmin observou a silhueta do outro se afastando tão calmamente de si, e concluiu que aquele rapaz ainda era uma incógnita para si, mas ele parecia mais receptivo.

Os motivos pelos quais Changmin sentiu aquela necessidade de ser bem recebido pelo outro era algo que também ainda era misterioso. Seus pensamentos foram interrompidos por um colega que o apressou para que saíssem dali e fossem para o bar. Ele sorriu em afirmativa e seguiu para fora da sala, já não encontrando Kyuhyun a vista. Jaejoong os esperava na saída e eles seguiram para o já conhecido bar, um tanto vazio por ser uma segunda-feira e a chuva ameaçar aquele começo de noite.

Os três colegas sentaram-se em uma mesa e não demorou muito para serem alegrados por companhias femininas das quais jamais lembrariam o nome. Talvez o colega de Changmin se lembraria com quem eles conversavam, mas os outros dois não se importavam muito com isso. Changmin parou na primeira dose de bebida, afinal prometera a Kyuhyun não estar de ressaca no dia seguinte. E assim, depois de sua segunda coca-cola, Jaejoong se afastou para atender o celular, e permaneceu afastado pela meia-hora seguinte.

O mau-humor da garota que ele fez esperar estragou o clima para Changmin. Quando ele perdeu a paciência, se levantou e encontrou Jaejoong sentado em um banco ao lado do banheiro, rindo ao telefone. Ele não sabia de quem se tratava, mas certamente nenhuma conhecida de Jae o fazia rir daquela forma. Assim que o viu, Jaejoong se despediu da pessoa do outro lado da linha e sorrindo, se aproximou do mais alto:

– Changmin-ah!

– A sua garota não para de reclamar e já tava me dando nos nervos. – Afirmou Changmin, cruzando os braços em frente ao peito. – Com quem estava falando?

– Aahh com ninguém, Changminie! – Disse Jaejoong com um sorriso discreto nos lábios.

– Você sumiu meia-hora e vem me dizer que não falava com ninguém? Ahhh conta outra Jae-ah!

– Você vai me zoar. – Disse Jaejoong rindo sem jeito. – Era com o Yunho-hyung… o cara do bar. Ele me ligou pra me pedir o telefone daquele apartamento do nosso lado que está pra alugar e a gente acabou se distraindo.

– Por meia-hora?? Foi bem mais do que uma distração.

– Tsk, não foi nada demais. Vamos voltar lá, as garotas devem estar esperando.

– Vamos que depois você vai me contar o que era tão importante pra você largar a gente lá assim.

Jaejoong riu-se do comentário do outro e eles voltaram juntos para a mesa onde se acomodaram mais uma vez. Não demorou muito e Changmin e Jaejoong se despediram das moças a fim de voltarem para suas casas, pegando seus telefones para os quais jamais ligariam. Eles poderiam facilmente terminar aquela noite com uma sessão de sexo no banheiro do bar ou em um motel barato de beira de estrada, mas decidiram por voltar para casa mais sóbrios afim de conseguirem descansar.

Eles chegaram em casa antes das nove da noite e lá pelas dez já estavam quietos na sala assistindo a um filme qualquer na televisão. Para Changmin e Jaejoong chegar a essa hora e ficar em casa a noite era algo novo e bastante agradável, sendo assim eles aproveitaram aquela noite da melhor maneira possível. Dormiram relativamente cedo e na manhã seguinte, acordaram renovados como há muito tempo não se sentiam.

Kyuhyun seguiu direto para casa e depois de revisar e imprimir o artigo que entregaria no dia seguinte, terminou de arrumar suas roupas, para só então relaxar. Ele tomou um longo e demorado banho, no qual deixou as tensões do dia a dia escorrerem ralo abaixo. Depois de fechar as cortinas de seu flat Kyu colocou uma música de fundo baixinha, algo calmo que fez sucesso nos anos 70 em países como a Inglaterra.

O rapaz jantou calmamente, deixando sua mente divagar sobre o que faria primeiro na manhã seguinte, decidindo por marcar seu dentista e sair para comprar meias novas. Assim ele terminou sua refeição e foi assistir ao noticiário, finalmente respondendo as mensagens de Donghae que não passava um dia sequer sem checar se tudo estava bem consigo. A noite foi se aprofundando e quando ele sentiu o sono pesar em seus ombros, decidiu tomar um chá antes de ir definitivamente para sua cama.

Kyuhyun desligou os aparelhos eletrônicos e preparou para si uma xícara de chá de camomila que o acalmaria e o levaria a uma boa noite de sono. Enquanto soprava calmamente a fumaça do copo, ele voltou a pensar em sua nova proximidade com Changmin. Querendo ou não, aquele rapaz estava mais próximo a si e céus como ele era teimoso. Mas estranhamente, Kyuhyun não sentia incomodo algum ao pensar que teria que se relacionar com o outro novamente no dia seguinte. O que incomodava na verdade era o desconhecido, era não conseguir prever as ações e reações do outro. Changmin era surpreendente, e Kyuhyun estava ansioso por ser mais uma vez, surpreendido.

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