Capítulo 04: Me fale de você

A aula já estava prestes a terminar e Kyuhyun estava ansioso. Ele olhava para o relógio insistentemente e logo em seguida para a porta, esperando-a se abrir e revelar um dos poucos estudantes que não estavam presentes ali. Era estranho, Changmin parecia decidido a passar de ano quando falara consigo no dia anterior e acabara faltando justamente na data de entrega do artigo. Ele era um caso perdido, e Kyu sentia-se ansioso para perguntar os motivos do rapaz.

Faltavam cinco minutos para a aula acabar quando o rapaz atrasado apareceu na sala. Com um sorriso cínico de quem não se importa com nada, ele deixou seu trabalho sobre a mesa, devidamente encadernado e seguiu para a porta. No caminho, ele passou por Kyuhyun e deixou um papel dobrado sobre sua mesa e se dirigiu para a saída, sem olhar para trás. Kyu fitou o papel pensativo e um tanto aborrecido, mas ainda assim o abriu e neste dizia:

“Kyu-ah! Acredita que eu esqueci essa droga de artigo? Passei a manhã e a tarde toda fazendo e com certeza ficou um lixo. Aish, eu queria ter a sua memória sabia? Como não tivemos tempo de conversar, queria te avisar que a nossa noite de estudo ainda está de pé. Te vejo na biblioteca, não falte e boa aula.”

Kyuhyun riu discreto daquele bilhete extremamente pessoal que Changmin o escrevera, utilizando apelidos e imperativos. Assim que terminou de ler, ele guardou o pequeno papel e logo a porta da sala foi aberta pelo professor que avisava o término da aula e dizia que logo as notas dos artigos seriam devidamente divulgadas em edital. Kyuhyun não se demorou ali, mas antes de ir a biblioteca ele passou na cafeteria e se muniu de um potinho de salada de frutas.

Kyuhyun saboreou tal sobremesa enquanto atravessava o Campus em direção ao prédio separado em que se encontrava a biblioteca. Depois de guardar seus pertences em um armário próprio e munir-se apenas de seu caderno e estojo, ele seguiu biblioteca adentro. Changmin o esperava no local combinado, estava sentado em uma poltrona próxima a estante de livros de calculo.

Kyuhyun se aproximou deste e aos poucos a silhueta do colega foi ficando mais clara para si. Havia uma mesa em frente a Changmin onde ele dispusera algumas páginas fotocopiadas de exercícios, uma caneta e uma chave. O rapaz estava absorto em um pequeno livro repousado em seu colo, o qual ele corria os olhos atentamente, até Kyuhyun se manifestar.

– O que está lendo?

– Ah, oi Kyu-ah! Fiquei com medo que você não viesse. – Disse Changmin sorrindo abertamente, e se ajeitando na poltrona.

– Eu disse que vinha. – Disse Kyuhyun dando de ombros. – Não respondeu a minha pergunta.

– Estou lendo Lolita. – Disse Changmin se levantando e juntando suas coisas espalhadas sobre a mesa. – Eu peguei uma cabine para nós podermos conversar melhor.

– Ah, certo. – E dizendo isso, Kyuhyun seguiu ao lado do mais alto sem mais fita-lo enquanto falava. – Lolita de Nabokov? É meio bizarro não é?

– Um pouco. Você já leu?

– Sabe aquela fase da adolescência em que tudo que é proibido atrai a sua atenção? Minha noona disse que eles tinham proibido esse livro em sei lá quantos países e por isso eu parei pra ler.

– E o que achou?

– Na época, eu achei estranho, mas depois eu reli e é uma narrativa interessante. Apesar do exagero erótico.

– Nem é tão exagerado assim.

Kyuhyun estava pronto para argumentar quando foram interrompidos por um “ssshhhhh” do bibliotecário. Eles se entreolharam e seguiram a passos largos em direção a cabine de estudos que Changmin prontamente destrancou. Assim que eles adentraram o local, riram por alguns instantes da feição mal-humorada do responsável pela biblioteca para por fim se ajeitarem em volta da mesa de estudos.

– Você tirou as cópias? – Indagou Kyuhyun.

– Tirei. – Disse Changmin apontando a lista de exercícios a sua frente. – Disso eu não esqueci.

– Eu não entendo como você foi capaz de esquecer o artigo. O professor mesmo lembrou semana passada.

– Eu sei lá, tava tão preocupado com a nota de cálculo que esqueci todo o resto.

– Tem que anotar essas coisas, Changmin-ah. Você quase que perde 70% da nota.

– Mas eu anotei, só que me esqueci de olhar.

– Aish, como você é… deixa pra lá, vamos estudar.

– É eu sei, não precisa esculachar também. Agora me explica, como faz isso aqui.

Kyuhyun aproximou mais a cadeira do outro e calmamente explicou a equação ali exposta, para em seguida deixar Changmin resolver a seguinte. Ele repetiu o processo cada vez que algo mudava nas fórmulas ou nas contas, e aos poucos o rapaz aparentava entender como aquilo funcionava. Changmin há muito não sentia-se tão compenetrado nos estudos, mas a concentração do outro rapaz parecia contagiante.

Os olhos de Changmin não saiam do papel, por mais que vez ou outra ele se sentisse tentado a fitar o outro rapaz. Ele atribuía aquela vontade de dar atenção ao outro pelo perfume do mesmo que o inebriava enquanto sua mão corria sobre o papel descrevia números e símbolos que dariam um resultado preciso. Ele já se aproximava do fim quando Kyuhyun se levantou e esticou o corpo preguiçosamente.

Changmin terminou uma das últimas equações e ergueu os olhos para o outro rapaz que agora em pé fitava o papel concentradamente. Assim que seus olhos chegaram ao fim, ele deu tapinhas amigáveis no ombro do outro e meneou a cabeça afirmativamente. Changmin sorriu aliviado ao final, e também se espreguiçou, soltando um longo e demorado bocejo.

– Viu? Não é tão difícil assim, Changmin-ah, é só se concentrar.

– Não sei porque, mas com você falando parece bem mais simples. – Disse Changmin pensativo.

– Eu só repeti o que o professor falou, não fiz nada demais. – Disse Kyuhyun dando de ombros enquanto ajeitava seus materiais. – Eu tô com fome, só peguei uma salada de fruta antes de vir pra cá.

– Vamos comer alguma coisa então. – Disse Changmin se levantando e segurando seus pertences. – Ah e quando vamos nos encontrar aqui de novo?

– Pode ser toda terça? Eu tenho pouco tempo livre e trabalho a noite, não posso…

– Toda terça está perfeito. – Interrompeu Changmin, abrindo a porta e dando espaço ao rapaz. – Vamos jantar e depois eu te deixo em casa. Aliás, onde você mora?

– Não precisa, eu pego o metrô, moro longe daqui. – Disse Kyuhyun passando pela porta e esperando o outro tranca-la e segui-lo para a saída da biblioteca.

– Longe onde, Kyu?

– Perto do Candy Bar, é duas quadras pra baixo do bar, mas sério, não precisa dar carona.

– Aproveita que eu tô de carro pra chegar mais cedo e descansar.

Kyuhyun terminou meneando a cabeça afirmativamente e essa foi sua maneira de aceitar a proposta do outro. Changmin voltou a sorrir para o rapaz e assim eles devolveram a chave da cabine e saíram do local. Eles deixaram o campus e se dirigiram a um restaurante em frente a  faculdade, uma vez que desejavam ter uma refeição de verdade. Enquanto atravessavam a rua, uma garota passou correndo e esbarrou em Kyuhyun o fazendo se desequilibrar e esbarrar no mais alto. Kyuhyun murmurou “desculpe” e os dois seguiram normalmente para o local.

Changmin tentava agir normalmente, mas sua mente trabalhava rapidamente, inconscientemente fazendo observações sobre o outro rapaz. Ele ainda sentia o perfume do mesmo quando este andava mais próximo a si, em certo momento da noite, os cabelos curtos do outro roçaram em seus ombros e ele pôde notar como estes eram macios. E por último o rapaz esbarrara em si, revelando quão quente sua pele estava, ainda que escondida por uma ou duas camadas de tecido.

Eles ainda estavam silenciosos quando adentraram o restaurante e se ajeitaram em uma das mesas. Não demorou muito e o atendente se aproximou e anotou o pedido de ambos que escolheram refeições simples acompanhadas de suco. Enquanto esperavam pela refeição o silêncio entre eles se tornou incômodo e desta vez foi Kyuhyun quem o cortou e acordou Changmin de seus longos devaneios.

– Me fala de você. – Disse Kyuhyun simplista, tentando não demonstrar exagerado interesse.

– De mim?

– Você já me fez todo tipo de pergunta invasiva e até agora as únicas coisas que eu sei de você é que gosta de Hitchcock e esta lendo Lolita.

– E o que mais precisa saber? – Disse Changmin entre risos.

– Ah, sei lá. Você poderia ser um psicopata que sequestra hamsters e pede doces como pagamento de resgate para crianças de cinco anos de idade, e eu jamais saberia se não perguntasse.

– Se eu fosse um psicopata, por que eu te contaria?

– Porque você veria como eu sou esperto e influente e iria me querer minha parceria nos crimes, é claro.

– Me diga da onde saiu essa coisa de hamsters e crianças? – Disse Changmin sem mais segurar o riso.

– Eu não sei, sinceramente. – Disse Kyuhyun rindo juntamente com o outro rapaz. – Mas é sério, Changmin-ah, se vamos estudar juntos eu preciso saber quem você é.

– Não sei o que dizer, o que você quer saber?

– Você trabalha?

– Meu estágio terminou semana passada.

– E como se sustenta?

– Meus pais me sustentam. Eles não moram aqui, estão no Japão e me mandam dinheiro de lá.

– Mora sozinho?

– Com o Jaejoong.

– Viu? Já é um começo, agora continue falando.

– Eu e o Jae somos amigos de infância e moramos juntos desde o começo da faculdade. E por falar nele, aconteceu algo engraçado ontem. – Disse Changmin pensativo.

– O que?

– Lembra que eu te chamei pra ir ao barzinho com a gente?

– Lembro.

– Nós estávamos lá, eu, o Jae e o Jong.

– Que Jong?

– O Kim Jonghyun da nossa sala, não se lembra dele?

– Aahh esse Jong. Uma vez nós ficamos sozinhos no banheiro da faculdade, acho que nunca vi alguém tão constrangido quanto ele naquele dia. – Lembrou-se Kyuhyun entre risos. – Ele deve ter achado que eu ia ficar olhando pra ele, sei lá.

– Ele é legal, mas é meio reservado, deve ser isso.

– Deve ser, mas termine a sua história.

– Ah, sim. Bom, estávamos nós três no bar, aí é claro, logo três meninas se juntaram com a gente e começaram a beber também, e assim a noite continuou. Mas teve uma hora que o telefone do Jae tocou e ele saiu pra atender, e não voltou mais. Aí é claro que a menina que tava afim de dar uma com ele ficou com raiva, começou a reclamar e acabou com o clima.

– E onde estava o Jae?

– No telefone, sentado na frente do banheiro. Mas o que eu mais achei curioso foi com quem ele estava falando.

– Quem?

– Com o Yunho-hyung. O rapaz que ele conheceu lá no Candy Bar e que mora com o namorado. Eles ficaram pelo menos meia-hora no telefone, Kyu-ah.

– Ah, não tem nada demais, Changmin-ah.

– Foi estranho, Kyu. O Jae não desiste de uma menina assim tão fácil e muito menos pra ficar conversando com outro cara.

– De repente ele não gostou da menina e quis se livrar.

– Ela era muito gostosa, não tinha como ele não gostar. Não com aqueles peitos.

– Que nojo, Changmin!

Quando o atendente chegou com a comida dos dois, Changmin tinha lágrimas nos olhos de tanto rir. Kyuhyun também ria, muito mais da reação do outro do que de sua resposta, mas um tanto mais discreto. Os dois respiraram profundamente assim que os pratos e copos foram posicionados a sua frente, finalmente controlando o riso. O clima entre eles já não estava pesado como no começo da noite.

– Desculpe, Kyu, não imaginei que a sua reação fosse essa.

– Não foi nada, Changmin-ah. Mas vamos voltar a falar do Jae, porque o outro assunto me tira o apetite. – Disse Kyuhyun levando uma pequena porção de comida a boca, a provando.

– Então, quando eu perguntei o que eles ficaram conversando de tão importante naquele tempo, o Jae me garantiu que não foi nada demais. Que eles falaram do apartamento que o hyung quer alugar, da faculdade do Jae, do namoro do hyung, foi uma conversa casual apesar de longa.

– Então, não tem nada de estranho, eles só gostam de conversar.

– Mas gostar tanto assim a ponto de abandonar a menina? Eu acho que ele está escondendo algo de mim.

– Aish, não seja paranoico, Changmin-ah! Mas sabe pelo que o seu amigo pode estar passando?

– O que?

– Sabe quando você conhece uma pessoa e tem a impressão de que vocês já se conhecem há anos? Parece que você tem tanto comum com ela que quer continuar conversando e descobrindo coisas novas sobre essa personalidade que combina tanto com a sua. Não estou afirmando que o seu amigo está se apaixonando nem nada do gênero, mas acho que ele começou uma amizade muito bonita e deve estar curtindo isso.

– Eu não tinha pensado nisso. Você já conheceu alguém assim?

– Com o Donghae-hyung e o Hyukjae-hyung foi assim. Logo que me foram apresentados nos demos bem, e hoje eu trabalho para eles.

– E como vocês se conheceram?

– Hey, nós combinamos que falaríamos de você e não de mim.

– Então me faça perguntas Kyu-ah, minha vida é um livro aberto.

– Mesmo? Olha que eu tenho imaginação para as perguntas mais indiscretas possíveis.

– Pode dar o seu melhor.

– Tá, vamos começar com uma fraquinha. Você já namorou alguma vez? Namoro sério, não esses casinhos que você tem por aí.

– Uma vez, com dezessete anos eu namorei uma menina, duraram três meses.

– E por que vocês terminaram?

– Porque ela descobriu que eu gostava de pornografia, ficou com nojo e me largou.

– E como foi que ela descobriu isso? – Indagou Kyuhyun entre risos.

– Ah, ela achou uma revista embaixo da minha cama. Nada demais, coisa de adolescente.

– E você não tem vergonha nenhuma de admitir que via pornografia.

– Eu vejo até hoje, Kyu-ah!

Kyuhyun fitou-o estupefato, antes de colocar outra porção na boca, vendo que seu prato estava quase terminado e ele sequer percebera como comera rápido ao longo da conversa. Changmin riu discreto de seu olhar e depois de saborear outro gole de seu suco, voltou a se manifestar:

– Eu sei exatamente o que você está pensando nesse momento.

– Então fala, no que eu estou pensando.

Que nojo, Changmin! – Changmin o imitou e depois voltou a rir de tal comentário.

– De fato. Mas também estou pensando que você é muito despudorado.

– E lá se vai mais um adjetivo para a sua lista sobre mim.

– Até agora nenhum deles é bom, Changmin-ah.

– Isso vai mudar quando nos conhecermos melhor. Eu sei que vai, porque um dos adjetivos que eu criei pra você está mudando.

– Qual deles?

– Você já não é tão evasivo comigo.

Kyuhyun não o respondeu de imediato, afinal precisava analisar a situação. Ele terminou sua comida em silêncio e não foi interrompido pelo outro que também tratou de dar atenção a sua refeição. Eles terminaram de comer e somente quando seus pratos e copos se encontravam vazios sobre a mesa Kyuhyun voltou a falar e respondeu a sentença do outro.

– Acho que eu tenho mais um adjetivo sobre você.

– Diga, Kyu-ah!

– Você é carismático.

– Aah, até que enfim um adjetivo bom.

– Não necessariamente. Ele pode ser bom pra você, mas carisma deve ser usado com cuidado, Changmin-ah.

– Por que diz isso?

– O carisma é uma característica da personalidade do líder, é o tipo de pessoa que consegue causar boa impressão a todos a sua volta e normalmente se destaca em grandes grupos. Você é assim, Changmin.

– E isso não é bom?

– Hitler também era carismático e isso não muda o fato dele ter sido um monstro da história mundial. O carisma é bom se você usa-lo para o bem, é uma característica muito relativa, Changmin-ah.

– E você acha que eu uso pra conseguir o que quiser com qualquer mulher por aí, não é?

– Acho. Mas isso não me interessa, o que me intriga é por que você usa ele comigo? Já conseguiu o que queria, as suas aulas de calculo.

– Acha que eu estou te manipulando?

– Se eu disser que sim você vai negar.

– Isso é porque eu não estou. Agora me deixe adivinhar algo sobre você.

– Adivinhar? Isso está ficando interessante.

– Alguém quebrou a sua confiança e você ainda não superou isso.

– Eu já superei, mas me responda, como chegou a essa conclusão?

– Você é muito cético e desconfiado. Mesmo eu oferecendo a minha amizade, você tem convicções de que eu possuo segundas intenções com você.

– Não consigo acreditar que não tenha. E se você fosse gay eu saberia exatamente o que você quer.

– Como assim?

– Se você fosse gay, eu apostaria todas as fichas que você quer transar comigo.

– Explique como você concluiu isso. – Disse Changmin entre risos.

– É a única coisa que eu tenho pra te oferecer, a única coisa pela qual você poderia se interessar em mim. Isso é claro, se você gostasse de transar com outros caras, o que eu sei que não é o caso.

– Agora suponha que eu só quero a sua amizade, como o Jae quer a amizade do Yunho, por que isso é tão difícil de aceitar?

– Porque eu sou cético, desconfiado e é claro… inseguro.

– Eu sei que posso vencer o seu ceticismo e a sua desconfiança.

– E a insegurança?

– Essa parece ser profunda demais e está escondida em algum lugar da sua alma. Essa ainda me é inalcançável.

– Essa conversa sobre personalidade já ficou séria demais e foi longe demais para uma única noite.

– Então vamos guardar alguns segredinhos para a próxima terça. – Disse Changmin sorrindo abertamente. – Venha, eu vou te levar pra casa.

Kyuhyun meneou a cabeça afirmativamente e sorriu discreto ao rapaz. Foi a primeira vez que ele teve um momento agradável com Changmin. Os dois se levantaram e pagaram por seu consumo antes de saírem do local. Novamente durante o caminho até o estacionamento eles ficaram silenciosos e pensativos. Quando se aproximaram de seu carro, Changmin destravou as portas e indicou a Kyuhyun a direção.

O menor adentrou o luxuoso veículo e se acomodou no banco do passageiro. Claro que pelo horário eles pegariam algum trânsito, mas nenhum deles estava preocupado com isso. Changmin ouviu atentamente as instruções do outro sobre como chegar a sua casa e assim, guiou para fora do estacionamento da faculdade. Vez ou outra ele fitava o rapaz ao seu lado que estava atento a rua a sua frente. Novamente incomodado com o silêncio, Changmin voltou a falar:

– E então, o que vai fazer amanhã na sua folga?

– Eu pretendo dormir e muito amanhã.

– Só dormir? Se você quiser podemos fazer algo depois da aula.

– O que tem em mente? E se for o maldito barzinho…

– Não, eu sei que você não gosta. Mas fale sério, você já foi em algum bar da frente da faculdade?

– Não, nunca.

– Você deveria experimentar ir lá, pode ser divertido.

– Aahh Changmin-ah, eu não sou como você. Pra mim não tem graça ir a um lugar caçar uma mulher que vai topar uma trepada rápida no banheiro.

– E não tem muito mais o que fazer no bar, não é?

– Exatamente.

– Me explica, o que você faz quando tá afim de uma trepada? Pega alguém no Candy Bar?

– Mais ou menos. Eu tenho um parceiro fixo nesse caso.

– Um namorado?

– Não, eu não namoro e nem tenho a menor intenção de namorar. É só uma amizade colorida.

– É o Minnie?

– Ele mesmo. Respondendo a sua pergunta, quando eu tô afim, eu ligo pra ele e a gente se resolve. Mas sei lá, acho que ele tá meio apaixonadinho por um chinês aí.

– E agora? Se ele começar a namorar, o que vai fazer?

– Ah, eu descubro quando der vontade. Você gosta de falar de sexo, não é Changmin? Não sei como se sente tão a vontade falando disso.

– É menos complicado do que falar de relacionamentos.

– Como você pode saber se nunca viveu um?

– Eu te falei que namorei aquela menina…

– Changmin, aquilo foi uma paixonite de adolescente e não um relacionamento de verdade. – Kyuhyun apontou para um prédio pequeno de no máximo três andares com um grande portão cinza. – É ali, já chegamos!

– E qual a diferença? – Disse Changmin parando o carro e fitando o nome da rua para caso precisasse voltar ali.

– Um relacionamento de verdade é intenso, Changmin. É quando você se entrega pra outra pessoa e divide a sua vida com ela. É baseado em amor e convivência e não em tesão e aparências. Relacionamentos são complicados, mas se tiverem tudo o que é necessário, é muito bonito. Você deveria tentar um dia desses.

– Quem sabe um dia desses… – Disse Changmin pensativo. – Você me conta sobre os seus relacionamentos?

– Foi um só e se tivermos tempo, e eu estiver afim, eu te conto. – E dizendo isso, Kyuhyun destravou seu cinto de segurança e abriu a porta, virando o rosto para o rapaz com um sorriso discreto. – Boa noite, Changmin e dirija com cuidado.

– Boa noite, Kyu-ah.

Changmin fitou o rapaz sair de seu carro e permaneceu parado ali até o mesmo estar seguro dentro de seu portão, para só então dar a partida e sair dali. Ele estava mais do que satisfeito com aquela noite, afinal tivera momentos agradáveis com o outro rapaz além de finalmente entender aqueles cálculos que o atormentaram ao longo do ano. Ele dirigiu para casa e já era dez da noite quando ele adentrou seu apartamento.

Ao chegar ao local, o único barulho que ele podia ouvir era a voz de Jaejoong que caminhava pela casa ao telefone. Changmin sorriu ao outro que apenas acenou a ele com a mão livre e adentrou a cozinha, rindo discreto com a pessoa do outro lado da linha que ele já imaginava de quem se tratava. Como não poderia conversar com seu amigo ainda, o rapaz tratou de tomar um banho e relaxar.

Depois de deixar suas roupas em um cesto de roupas sujas, Changmin se enrolou em uma toalha e adentrou o banheiro de seu quarto. Depois de ligar o chuveiro, ele se permitiu entrar embaixo da água quente e a deixar desfazer os nós de tensão de seus ombros e seus músculos relaxarem. A água escorreu por seus cabelos e quando ele fechou os olhos o dia atual se passou como um filme diante de seus olhos.

Desde o momento em que ele entrou na sala e Kyuhyun o acompanhou com seu olhar cético e acusador, até o final quando se despediu de si com um belo sorriso nos lábios. Ele respirou profundamente e foi como se ele pudesse sentir novamente a colônia do rapaz invadir suas narinas e inebria-lo com aquele aroma que parecia tão único. Era como se o cheiro de Kyuhyun ficasse no meio do caminho entre o masculino e o feminino, era algo exótico e atraente.

Ele resolveu terminar seu banho quando sua mente se lembrou da pele quente de Kyuhyun. Changmin não queria divagar sobre aquele toque que mal conhecia, mas que dava-lhe uma sensação estranha e diferente. Changmin saiu do banheiro e depois de vestir uma roupa confortável, seguiu para a sala, onde encontrou Jaejoong preguiçosamente jogado sobre o sofá, com o celular agora no colo.

– O Yunho-hyung vem aqui amanhã.

– Era com ele que você estava falando?

– Era sim, ele brigou de novo com o namorado e estava em um bar quando eu liguei pra ele. Acredita que eles brigaram só porque o Yunho queria ir no cinema e o namorado dele não! Aquele cara faz mais tempestade em copo d’agua do que mulher de TPM.

– Qual o nome do namorado dele?

– Ah, não lembro, acho que era Micky alguma coisa. Tadinho do hyung, ele sofre tanto na mão daquele cara. Ele ia pra casa agora, tentar resolver as coisas. Amanhã você vai conhecer ele, acho que vai gostar

– É bom eu gostar, se der certo ele vai ser nosso vizinho né?

– Acho que é. – Disse Jaejoong pensativo, sem conseguir disfarçar o quanto se animara com a ideia. – Mas como foi a sua noite de estudo?

– Foi ótimo, o Kyu é um ótimo professor. E depois nós fomos jantar e nós conversamos bastante. Ele é um cara legal apesar de ser meio desconfiado.

– E com quem ele se parece mais? O cara do Candy Bar ou o da faculdade?

– Ele é uma mistura estranha dos dois. Mas tudo se encaixa tão perfeitamente bem na personalidade dele, que ele acaba sendo uma pessoa única.

– E sobre o que vocês conversaram?

– Ah, sobre um monte de coisas. Ele não estava fugindo de mim hoje, então as coisas fluíram naturalmente. E você? O que conversou com o hyung?

– Ah, sobre um monte de coisas também e estou animado pra que ele venha amanhã, acho que vai ser divertido. – Disse Jaejoong, finalmente se levantando do sofá. – Mas agora eu vou dormir, quero sair cedo amanhã.

– E vai onde?

– Vou pra academia cedo, porque a noite o hyung vai estar aqui.

– Ah, é verdade. Nesse caso, vou dormir também, afinal quero conhecer esse famigerado hyung.

E assim, eles se despediram e cada um seguiu para seu quarto. Changmin fitou a cidade de sua janela pouco antes de fechar as cortinas e ele achou que aquela era uma bela noite. Apesar do céu nublado, as luzes estavam ainda mais brilhantes a seus olhos e as ruas ainda estavam úmidas pela chuva fina daquela tarde. Ele suspirou profundamente e finalmente se encerrou em sua cama embalado por uma noite tranquila de sono.

No final do dia, Changmin não poderia imaginar, que alguns poucos quilômetros longe dele, Kyuhyun também acomodado em sua cama pensava sobre aquele dia. Ambos terminaram o dia uma curiosidade latente um sobre o outro, e sobre o que eles conversariam toda terça depois dos estudos. Eles ainda não sabiam, mas aquela noite nascera uma grande amizade.

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