Capítulo 05: O melhor chocolate quente.

Changmin se sentia cansado naquela quarta-feira a noite e um tanto entediado. Ele não saíra praticamente a semana toda e já sentia falta de companhias femininas que satisfaziam a sua libido. Ele teria saído aquela noite se seu colega Jaejoong não tivesse insistido para que ele conhecesse seu novo amigo. Ele pensava em como seria este rapaz e tentava forçar a memória para lembrar-se de sua fisionomia.

Aos poucos, os pratos da pia antes sujos, iam se acumulando já limpos. Changmin detestava lavar pratos, mas a diarista mudara seu dia para sexta-feira e logo eles ficariam sem louças para usar. Ele fechou a torneira e manuseou um pano próprio para secar a louça começando a divagar sobre como se passara a tarde daquele dia. Rotineiramente ele foi a faculdade e é claro, encontrou seu novo amigo Kyuhyun.

Kyuhyun era o que estava deixando sua rotina menos chata nos dias recentes. Quando sua voz cristalina invadia seus ouvidos, era como se o mundo a sua volta se transformasse lentamente, e se tornasse mais interessante. Kyu era a lembrança diária de que ainda haviam lugares inexplorados no mundo e que haviam pessoas que fugiam de estereótipos e padronizações, tão comuns nos dias atuais.

Mas ele não era o único daquela casa interessado em pessoas novas. Depois de meia-hora, ele ouviu o chuveiro ser desligado e finalmente Jaejoong terminava seu banho. Ele riu ao perceber que o rapaz demorara mais do que o comum, para sair do quarto devidamente arrumado, afinal eles sequer iriam sair aquela noite. Quando o último copo estava disposto em seu devido lugar no armário, Jaejoong adentrou a cozinha com ar sério.

– Changmin, como eu estou? – Indagou Jaejoong.

– Tá um gato. – Disse Changmin, entre risos.

– Eu tô falando sério, Changmin-ah! Tá bom assim?

– Tá ótimo Jae-ah, você nem vai sair mesmo, só vai receber o cara aqui!

– Eu sei, mas… ah, deixa pra lá!

– Por que está tão perfumado?

Antes que Jaejoong pudesse responder, o interfone de seu apartamento tocou e o porteiro anunciou o esperado visitante. O rapaz voltou a passos largos para a cozinha, e por mais que se esforçasse em disfarçar, Changmin sabia que ele estava ansioso. Assim que a campainha tocou, ele seguiu para a sala e esperou seu amigo atender o outro rapaz.

Changmin acompanhou a cena com um interesse latente. Jaejoong cumprimentou o rapaz, com ar animado e foi prontamente respondido pelo rapaz que parecia feliz em voltar a vê-lo. Somente quando os dois chegaram a sala, Yunho foi devidamente apresentado e finalmente ele pôde se atentar aos detalhes do rapaz de quem até então só se lembrava da silhueta.

Yunho era pouco mais alto que Jaejoong e possuía um ar decidido em seu semblante. Seu sorriso era simpático e acolhedor, por mais que de certa forma ele mantivesse um ar altivo e talvez até meio arrogante. Ele usava roupas casuais e era impossível não perceber a aliança de compromisso que reluzia em seu anelar. A mesma mão que exibia a aliança se estendeu cordialmente a Changmin que a apertou:

– É muito bom conhecê-lo, Changmin-sshi. O Jaejoong me falou bastante de você.

– Ele falou é? – Disse Changmin, desviando o olhar para seu colega, com ar desconfiado.

– Não foi nada demais, Changmin-ah! – Justificou-se Jaejoong.

– Não foi mesmo. – Disse Yunho, entre risos. – Então, o seu apartamento vizinho é igual a esse?

E assim, Jaejoong começou um monólogo sobre o apartamento em que eles moravam. Estranhamente, Yunho não parecia incomodado com o falatório do outro rapaz, apenas o fitava com interesse e acompanhava com o olhar o que ele mostrava. Changmin sentou-se no sofá e observou os dois e a forma como reagiam.

Jaejoong falava sem parar sobre o apartamento em que moravam, sobre como era confortável, sobre como o outro iria gostar da vizinhança e enquanto essas informações eram deixadas no ar, ele caminhava pelo local mostrando-o ao outro rapaz. Yunho o seguia em silêncio e por alguns instantes, Changmin teve a impressão de que o hyung prestava mais atenção em seu amigo do que nos detalhes do apartamento.

As vezes Jae olhava para o rapaz e sorria simpático. Mas não aquela falsa simpatia de quando ele queria alguma coisa, era algo que se aproximava mais da pureza. Jaejoong chamou o outro com a mão e eles voltaram a sala, voltando a companhia de Changmin que fitava-os com ar atento. Jaejoong finalmente concluíra seu discurso com um questionamento

– Então, quer ir lá conhecer o vizinho?

– Ah, claro! – Respondeu Yunho, simplista.

– Depois nós podemos voltar pra cá e tomar um café, quer dizer, se você quiser. – Convidou Jaejoong.

– Aish! Eu estava esquecendo, eu trouxe uma coisa pra você.

– Pra mim? – Indagou Jaejoong, visivelmente surpreso.

– Pro seu vizinho é que não é. – Afirmou Yunho entre risos, abrindo a mochila que carregava nas costas e tirando uma pequena caixa da mesma. – Acho que amassou um pouco, mas eu fiquei com medo de esquecer em algum lugar.

– Eu também sou meio desligado e… um cupcake! – Afirmou Jaejoong, sorrindo ao ver o bolinho decorado dentro da caixa.

– De cappuccino. Aquele que você disse que queria experimentar.

– Hyung, não precisava se incomodar.

– Não se preocupe, não foi incômodo. Agora vamos ao seu vizinho antes que ele pense que eu desisti do apartamento.

Jaejoong riu e depois de guardar seu presente na geladeira, ele seguiu lado a lado com o mais velho em direção ao apartamento ao lado, deixando Changmin responsável pelo café. Assim que a porta do local se fechou, Changmin desatou a rir do comportamento de Jaejoong. Na sua opinião ele parecia uma criança com um brinquedo novo, por conta de sua empolgação.

Ele deixou os dois tratarem de negócios e partiu para a cozinha a fim de providenciar o tal café, enquanto concluiu que Kyuhyun tinha razão, Jae havia começado uma bela amizade com aquele outro rapaz. E Changmin se pegou novamente pensando no que o outro rapaz estaria fazendo àquela hora da noite, mas foi interrompido pela cafeteira apitando.

Changmin arrumou a mesa com o café e alguns biscoitos e só então se sentou para esperar pelos outros dois amigos. Ele sacou o celular e o fitou por alguns instantes lembrando-se de como finalmente ele e Kyu haviam trocado telefones naquele final de tarde. Por alguns instantes ele se perguntou se o rapaz se incomodaria caso ele ligasse para conversar, uma vez que a espera começava a se tornar tediosa.

Ele acessou a agenda do celular, e encarou o nome do rapaz na tela por alguns instantes. No entanto, antes que ele pudesse chegar a uma conclusão, as vozes de Jaejoong e do outro rapaz ecoaram na entrada do apartamento. Changmin guardou seu celular e logo ele via a figura de Yunho adentrar sua cozinha e se ajeitar em uma das cadeiras a sua frente.

– O lugar tem uma vista linda, Jae-ah!

– Eu disse que você ia gostar! – Disse Jaejoong.

– Então é certo? Você vem morar aqui? – Indagou Changmin.

– Não sei, a ideia era arrumar um lugar confortável para morar com o Micky, resta saber se ele ainda quer morar comigo.

– Claro que ele quer, hyung. – Consolou Jaejoong. – E de qualquer maneira, você disse que aqui é mais perto do seu trabalho.

– De fato. Vou conversar com o Micky e depois vou pensar no assunto de acordo com a resposta dele.

– Há quanto tempo vocês namoram? – Indagou Changmin.

– Quase três anos. Já deu pra enjoar dele. – Brincou Yunho.

– Viu? Por isso eu não namoro mulher nenhuma. – Disse Jaejoong.

– Por isso e porque você tem o sentimental de uma ameba né Jae? – Brincou Changmin.

– Quem você prefere ser? O sujo ou o mal lavado? – Rebateu Jaejoong.

-Vocês vão achar alguém, não tenham pressa. – Aconselhou Yunho.

– E por falar em achar pessoas, você não falou do Kyuhyun hoje, Changmin-ah. Aconteceu alguma coisa? – Disse Jaejoong.

– Por que teria acontecido? – Perguntou Changmin.

– Você só fala dele desde que nós fomos ao Candy Bar. – Afirmou Jaejoong.

– E você só… nada. – Rebateu Changmin, incomodado.

– Kyuhyun o bartender? – Indagou Yunho.

– Ele mesmo, você conhece? – Indagou Changmin.

– Claro! Eu e o Hyukjae somos amigos há muito tempo, ele quem me apresentou. – Explicou Yunho.

– Quem é Hyukjae? – Indagou Changmin.

– Um dos donos do Candy Bar. O Kyu era bem novinho quando eles se conheceram, ele deveria ter seus dezesseis, dezessete anos.

– E como eles se conheceram? –Perguntou Changmin.

– O Siwon os apresentou.

– Que Siwon?

– Deixa de ser intrometido, Changmin-ah! – Ralhou Jaejoong, interrompendo seu amigo.

– Não se preocupe, não vou falar muito do Siwon porque o Kyu não gosta. O que você precisa saber Changmin é que Siwon é o ex-namorado do Kyu e que é extremamente indelicado falar dele.

– Por que?

– Porque é, não seja curioso, Changmin-ah. Na hora que o Kyu se sentir confortável ele te conta sobre o Siwon.

– Ele me prometeu que um dia me contaria sobre um antigo relacionamento dele, era disso que ele estava falando.

– Suponho que sim.

– Agora pare de interrogar o hyung! – Ralhou Jaejoong.

– Aish, foi você que começou a falar do Kyu!

– Você é sempre curioso assim? – Indagou Yunho.

– Não.

– Só sobre o Kyuhyun? – Perguntou Yunho, buscando segundas intenções no rapaz.

– Eu não sou curioso sobre o Kyuhyun.

Yunho e Jaejoong se entreolharam antes de começarem a rir do comentário. Changmin encarava estupefato a ambos, tentando entender os motivos por trás do riso. Yunho foi o primeiro a parar de rir, mas somente voltou a falar depois que Jae também se acalmou e deles terminarem o conteúdo de suas xícaras.

– Desculpe, Changmin-ah, mas você está curioso sim. E é natural, a vida do Kyuhyun não é um livro aberto, tudo bem você querer saber mais sobre ele.

– Eu não estou interessado no Kyunie se é isso o que você está pensando. – Defendeu-se Changmin.

– Ele não falou nada, Changmin-ah! – Disse Jaejoong, rindo soprado logo em seguida. – É melhor mudarmos de assunto, antes que meu colega aqui se comprometa mais.

– Depois conversamos sobre isso. – Disse Changmin em tom de ameaça.

– E por falar nisso, eu agradeço o café, mas preciso ir. – Anunciou Yunho.

– Ah, não, fica mais um pouco. – Pediu Jaejoong.

– É, hyung, nós quase não recebemos visitas. É bom ter companhia de vez em quando. – Insistiu Changmin.

– Eu adoraria passar mais tempo com vocês, mas tenho que passar na casa do meu namorado ainda. – Explicou Yunho.

– Você tem que voltar com mais tempo, hyung. – Afirmou Jae.

– Eu prometo que volto.

E com essa promessa Jaejoong se viu satisfeito. Depois de conversarem por alguns instantes, os dois acompanharam o rapaz até a porta, mas Changmin deixou Jae acompanhar o outro até o elevador. Os dois permaneceram lá conversando, e Changmin que espiava pela porta os viu se abraçarem brevemente antes do mais alto adentrar o elevador que o levaria a saída do local.

Changmin correu para a cozinha antes que seu colega o flagrasse espiando pela porta, e começou a arrumar a mesa apenas para disfarçar. Jae fechou a porta e seguiu apartamento adentro até encontra-lo na cozinha. Ele parecia um tanto avoado, mas satisfeito com a visita do outro rapaz. Enquanto ajudava Changmin, Jaejoong voltou a falar:

– E aí? Gostou dele?

– Claro, ele é um cara legal. Você é que tava estranho perto dele. – Disse Changmin.

– Estranho como?

– Não sei explicar, só não parecia você. – Disse Changmin entre risos.

– E você?? O que foi aquele interrogatório sobre o Kyuhyun?

– Eu não sabia que ele conhecia o Kyu!

– Nem eu, mas sair perguntando assim, Changmin-ah! Foi meio suspeito!

– Suspeito é o jeito que você sorri para o hyung.

– Que jeito?? Isso é coisa da sua cabeça, não tem nada demais. – Defendeu-se Jaejoong.

– Então, o Yunho-hyung também disse que não tem nada demais na minha curiosidade, agora pare de falar disso.

– Nós estamos tendo um papo muito estranho, Changmin-ah. Falando de outros caras… de comportamentos estranhos.

– Vamos sair, pegar umas meninas por aí que isso já passa.

– Boa ideia. – Afirmou Jaejoong. – Mas já que estamos nesse papo estranho… você sentiu o perfume dele, Changmin-ah?

– Perfume?

– Era bom, muito bom, por sinal. – Concluiu Jaejoong pensativo.

– O perfume do Kyu também é bom.

– Eu abracei ele, deu pra sentir o cheiro dele bem de pertinho.

– Uma vez o Kyu esbarrou em mim, a pele dele é tão quente, Jae-ah.

– A pele do Yunho-hyung também, é quente e macia.

– Acho melhor pararmos por aqui. – Alertou Changmin. – Isso já passou dos limites.

– Melhor eu ir pro meu quarto, estou sonolento. – Disse Jaejoong, sem encara-lo. – Essa conversa é um segredo, Changmin-ah.

– Claro que é, e foram só comentários aleatórios, não significam nada.

– Absolutamente nada. Boa noite, Changmin-ah.

– Boa noite, Jae-ah.

Aquele fora um dos diálogos mais estranhos que tivera com seu amigo em toda a sua vida. Haviam detalhes nas entrelinhas que Changmin não queria tornar palpável. Ele pensava que se a dúvida se formasse com clareza em sua mente, poderia terminar em uma solução desagradável, por isso era melhor que ficasse escondida, e muito bem escondida.

Changmin se levantou da mesa e seguiu para seu quarto, onde trocou de roupa e se ajeitou em sua cama. Ele não tinha sono, mas quando as coisas ficavam confusas em seu interior ele preferia o escuro. Assim que sua cabeça se recostou ao travesseiro um nome citado aquela noite voltou a sua mente. Siwon.

Para Changmin, aquele nome explicava várias coisas até então misteriosas para si. Ele sabia que Siwon era o antigo relacionamento de Kyuhyun, logo também era o responsável por sua atual personalidade. Aquela desconfiança e ceticismo tão característicos no outro rapaz, nasceram naquele relacionamento. Estranhamente ele se sentiu inseguro ao pensar nisso, ao pensar em uma pessoa tão influente na vida do outro rapaz.

Felizmente esta pessoa já não estava presente e não dava sinais de que voltaria para atrapalhar. Changmin suspirou baixinho e novamente a vontade de falar com Kyuhyun. Não que ele tivesse algum assunto de importância ou urgência para tratar com o rapaz, apenas desejava ouvir sua voz. E aquele era outro segredo que ficaria escondido no escuro daquele cômodo, a vontade que Changmin teve de ouvir a voz o outro.

Ele logo decidiu não mais resistir a tal desejo e voltou a pegar seu celular que repousava sobre o criado-mudo ao lado da cama. Ele se sentou sobre o colchão e seu rosto foi iluminado apenas pelo visor do celular. E o nome do outro rapaz voltou a aparecer diante de seus olhos, pouco antes dele levar o aparelho ao ouvido e esperar. Changmin suspirou ansioso com o primeiro toque, ficou nervoso com o segundo e pessimista com o terceiro. Kyuhyun não o atenderia, nem tinha motivos para atendê-lo, eles eram colegas, nada mais. Quando Changmin estava desistindo, a voz que ele tanto almejava ouvir soou do outro lado da linha.

Anyeong?

– Kyu? – Disse Changmin em tom baixinho e um tanto inseguro.

Claro que sou eu, Changmin-ah, quem mais iria atender o meu celular?

– Ah, certo.

Por que me ligou? Já tá com saudades de mim é? – Brincou Kyuhyun.

– Tsk, descobriu meu segredinho. – Disse Changmin também em tom brincalhão. – Eu fiquei entediado em casa.

Achei que vocês iam sair hoje.

– O Yunho-hyung veio aqui nos visitar hoje.

Ah, verdade…

Kyuhyun parecia que ia continuar a frase, mas a conversa fora interrompida por alguém com quem ele conversava do outro lado da linha. Changmin podia ouvir uma voz masculina abafada, falando entre risos com Kyu e o fazendo rir. Por alguns instantes, Changmin se lembrou de Siwon, mas era impossível que o segundo homem do outro lado da linha fosse ele.

Ah, desculpe Changmin-ah! – Voltou a falar Kyuhyun, com ar risonho. – E como foi a sua noite com o Yunho-hyung?

– Foi boa, ele disse que conhece você. Que ele é amigo do Hyukjae-hyung…

Ah, é esse Yunho-hyung. Eu conheci ele há muito tempo, Changmin-ah, mas não somos assim tão próximos.

– Acho que ele vai morar aqui perto, se tudo der certo. – Comentou Changmin. – Mas, o que você está fazendo?

Eu? Eu estou no apartamento dos meus hyungs. Eles me chamaram para ver um filme e o Donghae-hyung faz o melhor chocolate quente do mundo.

– Ah, me deu até vontade de experimentar, Kyunie.

Quem sabe eu convenço ele a te mandar um pouquinho. – Afirmou Kyuhyun.

– Bom, enquanto isso, aproveite por nós dois Kyu-ah. Eu vou desligar, deixar vocês aproveitarem a noite.

Tudo bem, Changmin-ah, foi bom falar com você.

– Tenha uma boa noite e sonhe com os anjos.

Você também, um beijo, Changminie.

– Um beijo pra você também.

Kyuhyun desligou o aparelho primeiro e só então Changmin tirou-o do ouvido. Ele voltou a se deitar com um sorriso discreto e abobalhado nos lábios. Ele sabia que faria bem para si ouvir a voz de Kyu e ele nunca o vira tão bem-humorado. Ele e os hyungs do Candy Bar deveriam ser grandes amigos há muitos anos e por isso, Kyuhyun deveria estar se sentindo tão bem.

Changmin fechou os olhos e a voz do rapaz voltou a ecoar em seus ouvidos. “Foi bom falar com você.” “Um beijo, Changminie.” Ele mandara um beijo para si e Changmin quase podia sentir os lábios do mesmo encostando ternamente em seu rosto. Changmin fechou os olhos e com esta sensação boa e secreta, ele adormeceu. Um sono leve e cheio de sonhos sobre belas paisagens e um homem de perfume cítrico e com um belo sorriso.

Kyuhyun por sua vez também trajava pijamas e estava confortavelmente acomodado em uma poltrona na sala. Hyukjae e Donghae estavam deitados em um sofá cama fitando a televisão na qual um filme passava. Eles haviam combinado que Kyu passaria a noite ali e no dia seguinte, Hyukjae daria uma carona para ele até a faculdade. Quando o filme acabou, Hyukjae dormia com um braço possessivamente envolto na cintura do outro.

Kyuhyun terminou seu chocolate quente depois que desligou o celular e demorou alguns instantes a perceber o olhar de Donghae sobre si. Ele deixou a xícara no chão e se ajeitou sobre a poltrona, escondendo o corpo embaixo de um grosso cobertor fornecido pelo casal. Kyuhyun sorriu ao mais velho, assim que este começou a falar, baixinho para não acordar seu amado:

– Então eu ainda faço o melhor chocolate quente do mundo?

– Você sabe que faz, hyung.

– E quem é o Changminie? – Disse Donghae alterando o tom de voz ao pronunciar o nome do rapaz.

– É aquele colega da faculdade que foi no bar e o nome dele é Changmin. Nós somos meio que amigos.

– Meio que amigos? Isso tá me cheirando outra coisa.

– Impressão sua, hyung. O Changmin gosta mesmo é de mulher, eu não tenho dúvida alguma disso.

– E se ele não se descobriu ainda?

– Hyung, não existe a menor possibilidade de…

– Kyunie, vamos falar sério agora.

– Não tem nada pra falar sério sobre o Changmin.

– Faz tempo que eu não te vejo empolgado ao conversar com alguém, Kyunie e já está na hora de você pensar em namorar de novo, não acha?

– Pra que? Pra ser abandonado de novo?

– Não seja tão pessimista. Abra um pouco a sua mente e pense na possibilidade, de repente esse Changmin pode ser uma nova chance.

– Eu prometo pensar no assunto, hyung, mas eu garanto que não vai ser com o Changmin, não tem a menor chance de ele ser gay ou se interessar por mim.

– Se você diz… – Disse Donghae sorrindo para ele. – Deita aqui do meu lado, Kyunie.

Kyuhyun abriu um largo sorriso e se ajeitou ao lado de seu hyung. Hyukjae se moveu para dar espaço ao rapaz, mas não demorou a voltar a dormir agarrado ao outro. Kyu sabia que os dois estavam cansados do dia cheio que tiveram, e por isso logo Donghae também estaria embalado em um sono tão pesado quanto o do outro. Kyuhyun ajeitou o cobertor sobre os três e se recostou ao seu hyung que sorriu para si.

– Como você cresceu, garoto.

– Você parece velho falando assim, hyung.

– Mas é sério. Lembra de quando você tomou meu chocolate quente pela primeira vez?

O sorriso de Kyuhyun diminuiu de intensidade, e ele sentiu o braço de Donghae envolve-lo fraternalmente. Os dois fecharam os olhos e permaneceram daquela forma por alguns instantes, aproveitando o silêncio. Kyuhyun começou a achar que Donghae dormiria daquela forma, mas logo o olhar analisador de seu hyung estava sobre si novamente.

A mente de Kyuhyun aos poucos começou a juntar os detalhes da noite em que conhecera Donghae e Hyukjae, ainda sem ter a mínima ideia de que alguns anos depois eles se tornariam donos de um bar e consequentemente seus chefes. Kyuhyun desviou o olhar para o teto e aquele dia passou-se em sua mente como um filme. Era como se ele ainda pudesse sentir o perfume de Siwon, as risadas na sala enquanto ele ajudava Donghae com os copos, tudo tão novo e belo para si.

Flashback

Kyuhyun ainda trajava o uniforme escolar quando adentrou o carro de Siwon. Ele abraçou o namorado mais velho, antes dele dar partida no carro e tomar a avenida que seguiria para onde seus amigos moravam. Kyuhyun desejava beija-lo, mas eles tinham uma regra sobre não demonstrarem afeto explícito em público e o menor cumpria-a fielmente.

Siwon não gostava de conversar enquanto dirigia, assim Kyu também permanecia em silêncio, apenas fitando a rua distraidamente. Não demorou mais do que quinze minutos e Siwon estacionou o carro diante de um prédio alto, mas não muito luxuoso. Aquele era um bairro de classe média, não muito conhecido por Kyuhyun. Siwon o avisara no dia anterior que eles visitariam seus amigos que haviam voltado há pouco tempo de uma lua de mel no Japão.

Siwon o explicara na noite anterior que aqueles eram seus amigos de confiança e os conhecia há muito tempo. No entanto, ele voltara a falar sobre um assunto desagradável, sua possível ida a Europa. Kyuhyun detestava falar sobre aquilo e desejava do  fundo de seu coração que as coisas dessem totalmente errado para seu namorado, mas este era mais precavido. Se ele fosse embora, não deixaria Kyuhyun desamparado.

– Trouxe seu pijama? Você vai dormir lá em casa hoje.

– Trouxe sim, Wonie, mas você vai ter que me emprestar uma toalha, porque não coube na mochila.

– Não se preocupe com isso. Agora vamos, porque eles devem estar nos esperando.

Kyuhyun meneou a cabeça afirmativamente e agarrou sua mochila antes de sair do carro. Ele a posicionou nas costas e assim seguiu lado a lado com seu namorado para o elevador que os deixou em um dos últimos andares, onde Hyukjae e Donghae dividiam um apartamento. Kyuhyun de repente sentiu-se inseguro, afinal nunca conhecera ninguém do círculo de relacionamentos de Siwon.

Antes mesmo que ele pudesse pensar sobre como seriam aquelas pessoas, Hyukjae atendeu a porta e sorriu para eles que estavam de mãos dadas o esperando. Siwon soltou o menor e abraçou o amigo que os convidou animadamente para entrar. Kyuhyun continuava sério e obviamente inseguro diante da presença do outro rapaz, no entanto a mão de Siwon em sua cintura o guiando para dentro o obrigaram a sair do lugar.

Assim que chegou a sala, Donghae os recebeu também abraçando Siwon e finalmente desviando o olhar a Kyuhyun que segurava a mão do mais velho com firmeza. Ele tinha a sensação de estar sendo julgado, mas mais tarde perceberia que aquilo era apenas uma ilusão de sua mente adolescente. Assim que o casal parou a sua frente, Kyuhyun pôde finalmente encara-los.

– Esse é o Kyuhyun. – Apresentou Siwon, pendendo a mão sobre seu ombro. – Kyunie, esses são Donghae e Hyukjae, meus amigos.

– É um prazer conhecê-los. – Disse Kyuhyun cordialmente.

– Ele é uma gracinha, Siwonie. – Afirmou Donghae, ignorando o ar incomodado do menor. – Quantos anos você tem mesmo, Kyu?

– Fiz dezesseis no mês passado, hyung. – Afirmou Kyuhyun.

– Ele é muito novinho, Siwon! – Disse Donghae, rindo discreto.

– Há quanto tempo vocês namoram mesmo? – Indagou Hyukjae, engolindo o riso.

– Há dois anos, Hyuk-ah e não façam essa cara, vocês sabiam que ele era mais novo! – Ralhou Siwon.

– Você transou com um moleque de quatorze anos?

– Claro que não! Eu esperei ele completar quinze! – Justificou-se Siwon, fitando o rosto agora extremamente corado do mais novo.

– Chave de cadeia você, hein Kyuhyun? – Disse Hyukjae entre risos.

– Não fale assim, Hyukie, ele está sem jeito. – Disse Donghae, sorrindo discreto.

– É, mudem de assunto, por favor. – Manifestou-se Kyuhyun.

– Vamos nos sentar, sim? Assim quem sabe o Kyu não se sinta mais confortável. – Disse Donghae, apontando-lhe um dos sofás.

– Claro. – Disse Siwon, sentando-se e puxando seu namorado para que se sentasse ao seu lado.

Kyuhyun se acomodou ao lado de seu namorado e voltou a segurar a mão deste que parecia animado com a companhia de seus amigos. Kyuhyun por alguns instantes perdeu-se na conversa dos rapazes e passou a olhar o lugar onde ele se encontrava. Não havia nada especial na decoração daquele apartamento, mas parecia confortável.

Kyu não sabia direito como participar daquela conversa, afinal eram três rapazes mais velhos e com realidades ainda estranhas para si. Para evitar uma gafe, ele preferiu ficar em silêncio e apenas prestar atenção no que eles falavam. Mas não demorou muito e os assuntos dos três começaram a entediar-lhe, principalmente quando Hyukjae e Siwon decidiram discutir a queda da bolsa de valores de Tóquio daquele ano.

Pouco antes de anoitecer, Kyuhyun olhou pela janela e algo lá chamou sua atenção. Havia um gato dormindo na soleira. Ele sorriu discreto e se levantou do sofá, afim de observar o animal mais de perto. Não demorou muito e Donghae parou ao seu lado, abriu a janela e pegou o gato manso e peludo em seus braços.

– É o gato do vizinho, ele se chama Heebum. Quer pegar?

– Quero, hyung. – Disse Kyuhyun pegando o bichinho no colo que quase de imediato começou a ronronar. – Eu queria ter um gato, mas minha mãe não deixa.

– Por que não?

– Ela diz que eles dão muito trabalho, mas eu ia adorar cuidar de um bichinho.

– E ela está certa. É muita responsabilidade cuidar de um bichinho, mas quem sabe quando você sair da casa dos seus pais você não possa ter um.

– Quando eu me casar com o Wonie e for morar com ele, nós vamos ter um gato.

Donghae sorriu com o comentário do rapaz. Era tão romântico e sonhador que o relembrou de sua própria juventude. Claro que com o tempo aquilo se perderia, e Kyuhyun aprenderia a duras penas como a vida é complicada, mas não seria naquela noite que Donghae jogaria a realidade contra ele. No final, Donghae apenas passou a ponta dos dedos pelos cabelos do mais novo e sorriu compreensivo.

Eles soltaram o gatinho que voltou para a soleira onde se ajeitou e voltou a dormir, e antes dos dois voltarem a se sentar, Hyukjae disse animado:

– Hae-ah! Está frio, pega aquele conhaque que você ganhou pra gente se esquentar um pouquinho?

– É uma boa ideia. – Disse Donghae.

– O Kyu não bebe, tá Hae? – Alertou Siwon.

– Só porque você não deixa. – Reclamou Kyuhyun.

– E ele está certo, Kyu-ah, você é muito novo pra beber. – Disse Hyukjae.

– A maioria dos garotos da minha sala já sai pra beber, e meus pais nem saberiam se…

– A maioria dos garotos da sua sala não tem metade das suas médias escolares. Nós já discutimos sobre isso, Kyu-ah.

– Eu sei, Wonie. – Disse Kyuhyun um tanto emburrado. Ele detestava as proibições de Siwon, mas as obedecia.

– Vem comigo, Kyu-ah, me ajuda com os copos.  – Disse Donghae.

Kyuhyun suspirou pesadamente, e seguiu o outro rapaz em direção a cozinha. Assim que adentrou o local, Donghae seguiu para o fogão, o qual usou para esquentar um pouco de leite. Kyuhyun parou ao seu lado, com ar curioso, afinal a atitude do mais velho não fazia o menor sentido, mas antes que ele perguntasse Donghae voltou a falar.

– Por favor, Kyuhyun, pegue três copos naquele armário e uma bandeja naquele.

Kyuhyun o obedeceu e dispôs a bandeja sobre a mesa, assim como os copos e depois se voltou para Donghae, esperando novas instruções.

– O conhaque está naquele armário, sabe qual deles é?

Kyuhyun abriu um armário rústico que destoava do resto da decoração da cozinha. Dentro deste, haviam várias garrafas, que para o mais novo eram iguais. Assim que ele negou com a cabeça, Donghae o avisou que era a de tampa preta com o rótulo dourado. Kyuhyun tirou a garrafa do armário e a abriu. Ele aproximou o rosto do bico e afastou aos sentir o cheiro forte da bebida.

– Sirva nos copos pra mim, por favor? Coloque só a metade, e tente não deixar escorrer pelas bordas.

Kyuhyun o obedeceu em silêncio e assim que terminou, chamou Donghae que sorriu satisfeito. Depois de colocarem guardanapos abaixo do copo, Kyuhyun pegou a bandeja e levou-a a sala com muito cuidado para não derrubar a bebida. Assim que chegou, ele dispôs a mesma sobre a mesinha de centro como Donghae havia indicado e fitou os mais velhos pegarem um copo para si. Assim que ele se sentou ao lado do namorado, Hae voltou da cozinha trazendo consigo uma xícara.

Ele se aproximou do mais novo e entregou-lhe a xícara que fumegava com o líquido quente. Kyuhyun sentiu o cheiro adocicado do chocolate invadir suas narinas e sorriu agradecido ao mais velho. O chocolate quente era cremoso e tinha aquela deliciosa espuma em sua superfície, além de pedaços de marshmellows em seu conteúdo. Ele segurou o copo e soprou o liquido para que esfriasse.

Quando Kyuhyun finalmente o provou, ele soltou um longo suspiro de satisfação. O chocolate não era doce demais, nem amargo demais. Ele sentiu seu corpo se aquecer quando engoliu o mesmo e logo em seguida, mastigou o doce que vinha em seu conteúdo. Os outros três antes distraídos com seus assuntos, desviaram a atenção ao mais novo depois de sua exclamação muda de satisfação.

– Está gostoso? – Indagou Hyukjae.

– Uma delícia, hyung! Bem mais gostoso do que a bebida de vocês.

– Com certeza, meu amor. – Disse Siwon, o abraçando carinhosamente pelos ombros.

– Como você fez isso, hyung? – Indagou Kyuhyun.

– Ah, é o meu segredinho. – Disse Donghae com ar brincalhão.

– É o melhor chocolate quente que eu já tomei. Deve ser o melhor do mundo, hyung.

Siwon riu soprado do comentário de seu namorado e após deixar seu copo sobre a mesa, o abraçou carinhosamente. Hyukjae e Donghae de mãos dadas com os dedos entrelaçados olhavam para os dois afetuosamente. Kyuhyun sorriu para os dois e escondeu seu rosto na volta do pescoço de seu namorado. Ele se sentia seguro e muito feliz.

 

Alguns anos depois, Kyuhyun voltara a sentir-se seguro na presença de seus hyungs, já não tão feliz, mas seguro. Ele desviou o olhar do teto e fitou Donghae ao seu lado e não pôde deixar de sorrir. Kyuhyun esticou o braço por baixo das cobertas, de forma que envolvesse Donghae e apoiasse sua mão em Hyukjae. Ele podia ainda guardar uma grande mágoa de Siwon, mas deveria ser grato a ele por apresenta-lo ao casal.

Donghae e Hyukjae eram no sentido mais amplo da palavra, seus hyungs. Eles eram o melhor exemplo de irmãos mais velhos que ele poderia ter, e Kyuhyun não podia negar como se sentia bem na presença dos dois. Com o tempo a intimidade entre eles aumentara, e agora ele sentia-se livre para falar sobre qualquer coisa com os dois rapazes, inclusive para dividir a mesma cama com eles.

Não havia malícia entre eles, mesmo com os anos se avançando e tudo a volta deles mudando. Ele sempre tivera o apoio e a ajuda dos dois e seria eternamente grato a ambos. E aquela noite não poderia terminar melhor, depois de conversar com Changmin e tomar o melhor chocolate quente do mundo, dormir ao lado de seus queridos amigos, era tudo o que Kyuhyun poderia desejar para uma quarta-feira.

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