Capítulo 06: Night Fever

 

Finalmente a semana terminava e a noite de sexta-feira chegou convidativa a Seul. Ao contrário do clima durante a semana, aquele dia não estava chuvoso ou úmido, não haviam nuvens no céu e as ruas eram iluminadas por uma bela lua cheia. As boates centrais estavam lotadas de jovens que aproveitavam a noite de clima ameno para sair. E com Changmin e Jaejoong não era de forma alguma diferente.

A noite acontecia como eles haviam planejado. Depois daquela estranha conversa que os dois tiveram sobre rapazes, nada mais sensato do que se deliciar com companhias femininas, afinal a justificativa mais plausível para suas confusões mentais era a falta de beijar lábios femininos e de tocar seus corpos com volúpia. Não importava quem fosse, desde que fosse mulher. Os dois não chegaram assim tão cedo ao local escolhido, e este já estava cheio quando eles o adentraram.

Depois de aproveitarem alguns drinks em um canto escuro do local, de onde seus olhos atentos buscaram as aparências que mais combinavam com seus gostos e não demoraram a encontrar possíveis candidatas. Eles logo se separaram e as meninas não demoraram a descobrir suas intenções. E assim, Changmin deu o primeiro beijo da noite.

A garota era exatamente o que ele procurava para aquela noite, alguém sem conteúdo, sem autoestima e que facilmente acreditaria em suas palavras. Só tinha um problema nela, problema este que só foi percebido pelo rapaz quando seu corpo já prensava o dela contra a parede e se esfregava despudoradamente. O perfume dela era doce e não cítrico.

Perfumes femininos nunca o haviam incomodado, ele apenas não tinha preferência alguma por eles. No entanto, aquela noite, Changmin preferia que aquela garota não tivesse passado perfume, aquele cheiro o desconcentrava e de certa forma tirava sua vontade. Ele se afastou confuso quando concluiu que caso a moça estivesse usando um perfume cítrico, masculino, certamente ele se interessaria muito mais por ela.

E aquele era exatamente o tipo de pensamento que ele queria evitar aquela noite. Aqueles pensamentos duvidosos que invadiam seu consciente sem pedir licença e o deixavam confuso e constrangido. Changmin sorriu para ela e se despediu, a deixando confusa recostada contra a parede. Ele precisava de outra bebida e de outra garota, uma que de preferência não usasse perfume algum.

Ele se sentou em um grande sofá vermelho, afim de saborear algo que ele sequer sabia o nome, mas que continha álcool o suficiente para fazer sua noite vingar. No caminho ele passara por Jaejoong que beijava uma garota no meio da pista de dança e aparentemente se saía melhor do que ele naquela noite. Ele virou o drink quando sentiu o sofá ao seu lado afundar, e ao seu lado uma bela moça sorria para si. Era sua chance.

Momentos depois esta moça estava sobre suas coxas, com as pernas devidamente abertas e suas línguas batalhavam por espaço. E o mais importante, ele quase não conseguia sentir o perfume dela. O problema foi quando ela cortou o beijo e o abraçou pelo pescoço, escondendo seu rosto contra o ombro do rapaz. Changmin estranhou tal atitude, mas a deixou ali, afinal mulheres tinham suas peculiaridades.

Quando a moça se afastou Changmin a notou com lágrimas nos olhos e estranhou ainda mais. Ele se remexeu incomodado, por ter uma mulher desconhecida chorando em seu colo. Aquilo era estranho demais e as coisas não poderiam piorar. Antes que ele pudesse perguntar, ela desatou a falar:

– Me desculpe, Changmin-ah, mas eu não posso fazer isso. Eu sou virgem e estou noiva e eu amo ele. O meu noivo é tudo para mim e eu estou fazendo algo muito errado, estou jogando todo nosso relacionamento no lixo. Tudo porque hoje ele não quis sair comigo e sim com os amigos dele, eu sou uma pessoa horrível, não sou?

Aquilo deveria ser uma brincadeira de péssimo gosto, ou Changmin estava realmente tendo a pior balada de sua vida. Changmin suspirou pesadamente e guiou a menina para longe de seu colo enquanto esta ainda se desculpava. Ele murmurou um “sem problemas” e a deixou sozinha. A noite estava complicada e mais do que nunca ele desejava a companhia de outra pessoa.

Changmin saiu o mais rápido possível dali e se aproximou do bar. Ele pediu uma dose de vodca pura e a tomou de uma única vez. Talvez o álcool o ajudasse a melhorar aquela noite e a arrumar uma companhia agradável. Era possível que ele estivesse sendo exigente demais, coisa que nunca fora. A moça não precisava ser agradável, e sim bonita e impressionável. Depois da segunda dose de vodca que foi engolida de uma vez só, ele tratou de procurar alguém com tais requisitos.

A terceira candidata da noite estava recostada ao bar desfrutando de um drink qualquer. Changmin se aproximou sorrateiramente e lançou a ela seu melhor sorriso. Depois de devidamente apresentados, ela o convenceu a dançar consigo na pista de dança e lá foi ele, agora devidamente concentrado. Quando seus lábios se encontraram, Changmin teve uma boa sensação. Era ela, quem terminaria a noite com ele em um motel a beira de estrada gemendo seu nome aos quatro ventos.

Ele não saberia dizer quanto tempo passou com sua língua brigando por espaço dentro da boca dela, e com suas mãos passeando por aquele corpo feminino que certamente estava dentro de seus padrões. E novamente um perfume o desconcentrou e desta vez foi pior. Ele beijava a garota quando aquele aroma cítrico invadiu suas narinas e sua mente se enevoou. Ele se lembrou de Kyuhyun e enquanto seus lábios afoitos buscavam por contato, e sua mente ainda pensava no outro ,uma ereção se formou entre suas pernas. E aquele cheiro continuava ali, o embriagando e o obrigando a pedir por mais contato.

Quando se deu conta dos caminhos que sua mente percorria ele bruscamente cortou o beijo e se afastou ofegante. Por alguns instantes ele olhou a volta procurando quem ele insistia em acreditar ser o dono daquele odor, mas obviamente o rapaz não estava ali. Kyuhyun estava do outro lado da cidade, trabalhando e não a sua volta importunando seus momentos íntimos com uma garota. Changmin suspirou pesadamente e disse a moça que esperasse pois iria pegar preservativos com um amigo e depois eles iriam a um lugar mais reservado e ela prontamente aceitou.

E com essa desculpa ele partiu em direção ao banheiro. Ele não tinha a menor intenção de encontrar Jaejoong e não tinha certeza se voltaria a companhia daquela garota, mas ele precisava se livrar daquilo. Ele precisava se livrar daquele cheiro, daquele sorriso e daqueles pensamentos para ele insanos. Changmin adentrou um banheiro desativado que estava vazio e andou de um lado a outro, ansioso. Lavou o rosto, socou o espelho, reclamou em voz alta que foi abafado pela música e só então percebeu Jaejoong parado a porta, e suas feições não eram das melhores.

– Noite difícil, ahn? – Disse Jae.

– A pior, meu caro, a pior noite de todas.

– A minha também, nunca foi tão difícil. O que há de errado com a gente? Me fala!

– Eu não sei! Porra, eu fico incomodado com perfumes e depois me vem uma louca que se arrepende de ter me beijado e… que droga é essa?

– E eu?? Primeiro me incomoda o fato dela estar bêbada demais e depois, só me interessei porque… ela tinha o mesmo olhar. – Confessou Jaejoong.

– Eu tô afim de ir embora, eu só queria estar em casa… ou lá, naquele bar. – Afirmou Changmin.

– Não! Para com isso, Changmin, isso não é pra gente. Eu e você vamos lá fora e vamos… – Ralhou o menor.

– Não, não hoje Jae-ah. A noite está horrível, eu estou horrível e não consigo me concentrar. Não sei você, mas eu vou pra casa.

– Mas a gente precisa…

– Acredite, ferir a minha masculinidade desta forma não está sendo nada agradável, mas eu não vou forçar a barra.

Jaejoong engoliu seco e esfregou o rosto com ambas as mãos, visivelmente chateado. A noite não transcorrera nem de longe como eles haviam planejado e Changmin pelo contrário estava ainda mais confuso. Por um lado era bom saber que ele não estava sozinho com aquilo e que seu amigo estava tão desesperado quanto a si por respostas que não parecessem absurdos. Quando Jae pareceu mais calmo, voltou a falar:

– Changmin-ah, ninguém pode saber em que andamos pensando.

– É óbvio que não, até porque é uma fase. Uma fase de curiosidade que vai melhorar quando nós conhecermos eles melhor.

– E se não passar? O que isso significa?

-Vai passar, Jaejoong! Eu não sou viado, nem você, entendeu? É uma fase e pronto!

Changmin suspirou pesadamente assim que terminou a frase e se recostou desanimado a parede. Jaejoong por sua vez chutou a porta que bateu contra parede antes de sair do cômodo. Era deprimente estar em uma boate lotada e não se interessar verdadeiramente por mulher alguma. Elas eram todas iguais, entediantes apesar de belas. Aquelas meninas a quem beijara aquela noite não eram de maneira alguma diferente de todas as outras a quem ele já havia beijado antes.

No entanto, ele não. Kyuhyun era interessantíssimo, até mesmo seus defeitos e mistérios deixavam Changmin instigado. Decepcionado com suas atitudes e decisões, Changmin saiu daquele banheiro e seguiu para o caixa para pagar por seu consumo. No caminho ele prestou atenção as moças que dançavam e nenhuma delas despertou seu interesse verdadeiro. Talvez aqueles corpos pudessem satisfazer sua libido e ele poderia escolher qualquer uma delas, mas faltava algo, sempre faltava algo.

Depois de pagar seu consumo, Changmin encontrou Jaejoong do lado de fora. Seu amigo ainda parecia chateado e fitava o chão, recostado em uma parede. O clima do lado de fora continuava bom e a madrugada ainda estava pela metade, no entanto, lá estavam eles desanimados como se um velório estivesse para acontecer. Changmin se aproximou do rapaz e o abraçou carinhosamente pelos ombros.

– Não fica assim, Jae-ah, vai ficar tudo bem.

– Eu tô cansado de tudo isso, e não quero ir pra casa agora.  – Confessou Jaejoong.

– Por que não?

– Ainda são três da manhã e nós estamos aqui, parecendo dois velhos carecas e enrugados.

– Eu não devia perguntar, mas para onde você quer ir agora?

– Você sabe pra onde, não devíamos, o correto era ficarmos aqui e procurarmos uma menina como o combinado.

– Segunda-feira, no barzinho da faculdade nós procuramos uma menina, até duas se você quiser. – Disse Changmin já mais animado, a noite começava a mudar de rumo.

– Por que está sorrindo? Você não deveria estar tão animado! – Disse Jaejoong também sorrindo.

– Vamos, porque eles fecham daqui duas horas!

Os dois correram rua abaixo até que por pura sorte, encontraram um taxi, que os levou ao seu destino. E lá estavam os dois, novamente de frente para o letreiro iluminado do Candy Bar, na mesma rua mal iluminada e aquela hora da madrugada, completamente deserta. Eles adentraram o bar que como todas as boates e casas noturnas da cidade, estava cheio aquele dia. Changmin até gostaria de se aproximar de Kyuhyun, mas este estava ocupado demais atendendo a grande quantidade de pessoas que se aglomerava em volta do balcão.

E assim, Changmin e Jaejoong seguiram para a pista de dança, onde agora sem a pressão de encontrar uma companhia para passar a noite, eles finalmente conseguiram se divertir. Eles dançaram pelas horas seguintes sem uma pausa sequer, e suas mentes finalmente se libertaram daquelas paranoias que os perseguiram ao longo da noite. Os dois só perceberam que o bar estava fechando quando a pista começou a esvaziar.

Os dois ainda permaneceram ali alguns instantes antes de seguirem para o bar e pedirem a única bebida da noite. Enquanto esperavam na fila consideravelmente menor do que quando chegaram, alguém tocou o ombro de Jaejoong o fazendo se virar sobressaltado. Atrás deles, Yunho sorria simpático para ambos, acompanhado de um rapaz que eles não conheciam. Changmin viu Jaejoong abrir seu melhor sorriso e encher seu pulmão de ar em excitação antes de dizer em voz alta:

– Yunho-hyung!!

– Jae-ah, que surpresa te ver por aqui! – Disse Yunho. – Como vai, Changmin?

– Estou bem, obrigado.

– Antes de mais nada, me permitam apresentar. – Yunho segurou a mão do rapaz ao seu lado e disse calmamente. – Esse é Micky Yoochun, meu namorado.

Se não fosse pelo “É um prazer” proferido por Yoochun, um silêncio constrangedor teria recaído sobre o grupo. Changmin por alguns instantes arregalou os olhos surpreso com a presença do outro rapaz, enquanto Jaejoong ensaiava seu sorriso mais falso. Por mais que sorrisse e apertasse sua mão, o olhar de Jae desceu aos pés do rapaz e voltou ao seu rosto, prestando atenção a cada detalhe deste.

Changmin percebeu a intensidade do olhar de Yoochun sobre seu amigo e podia ler o ciúme do mesmo em sua feição, e nem mesmo ele saberia dizer se aquele ciúme era sem motivos ou não. Quando eles soltaram as mãos, Micky cumprimentou Changmin cordialmente e só então Yunho voltou a falar, tentando ignorar o clima pesado que se formara entre eles.

– Então, o Jae tinha dito que vocês iam pra uma boate hoje, o que fazem aqui?

– Ficou sem graça lá. – Explicou Jaejoong. – Depois de pegar as melhores a coisa fica sem graça.

– Você é hétero mesmo então? – Indagou Yoochun

– Nós somos. – Explicou Changmin.

– E o que fazem aqui? – Disse Micky, os fitando desconfiado.

– Nem nós sabemos. – Disse Jaejoong entre risos. – É um lugar divertido, independente do público a que é destinado, hyung.

– Tem razão, esse lugar é ótimo. – Concordou Yunho, recebendo um olhar desgostoso de seu namorado.

– Claro que é. – Afirmou Micky – Mas é uma pena a opção sexual de vocês dois, são tão bonitinhos.

– Obrigado, hyung. – Disse Jaejoong sem jeito.

Changmin parou de ouvir a conversa neste ponto, pois sua vez na fila chegou. Quando ele se virou para o balcão, não era Kyuhyun quem o atendia, e nem o outro bartender, mas sim quem ele reconheceu como um dos donos do local, afinal estava tão cheio que eles precisavam agilizar o atendimento. No entanto, assim que o viu, Kyuhyun tocou o ombro do rapaz e sorriu discreto para Changmin.

– Deixa que eu atendo ele, é o meu colega, Changmin.

– Ah, esse é o Changminie? Muito prazer, sou Lee Donghae, ouvi falar muito de você.

– Ah… ouviu? O prazer é meu, hyung.

Kyuhyun aproximou-se do ouvido do rapaz e disse-lhe algo que Changmin não pôde entender, mas assim que ele terminou, Donghae se despediu e chamou Jaejoong e suas companhias a fim de atendê-los. Changmin ia começar um diálogo, mas Kyuhyun se afastou e começou a preparar um drink que ele desconhecia. Ele o observou por alguns instantes até o rapaz voltar com um copo em mãos.

– Este se chama Nevada, é bem simples, mas gostoso para um fim de noite. Experimente.

Changmin bebericou do liquido que tinha uma consistência cremosa, e espumada. Era um tanto forte, doce e as frutas de decoração davam um contraste no sabor. Kyuhyun apoiou os cotovelos na bancada e fitou o outro rapaz enquanto este bebia calmamente o que ele havia oferecido. Changmin estava estranho, talvez fosse o cansaço, mas Kyuhyun sentiu falta daquele ar altivo que o rapaz exibia na faculdade. Na verdade, ele parecia até entristecido quando não exibia aquele irritante sorriso.

– Está muito gostoso, Kyu.

– Eu sei, fui eu que fiz. – Disse Kyuhyun esperando arrancar uma risada do outro e recebendo em troca um sorriso discreto. – Está tudo bem, Changminie?

– Está sim, ah Kyu, eu não quero te atrapalhar, pode voltar a trabalhar.

– Não quer a minha companhia? Tudo bem então.

– Não! Não é isso! – Disse Changmin entre risos. – Não quero que você tenha problemas com o seu chefe.

– O bar está fechando, tudo bem eu ficar um pouquinho aqui com você. – Explicou Kyuhyun. – Me fala, o que você tem?

– Do que está falando?

– Você parece triste, aconteceu alguma coisa?

– Triste eu? Não, Kyu, eu passei a noite em uma boate, por que estaria triste?

– Me diz você. – Disse Kyuhyun se aproximando mais do outro para fitar seus olhos atentamente. Changmin bebeu outro gole da bebida e suspirou pesadamente com aquele olhar sobre si. – O que houve?

– A noite não saiu bem como planejada, e eu ando pensando umas coisas, estranhas.

– Que tipo de coisas, Changmin? – Disse Kyuhyun com ar grave, temendo algo sério vir do rapaz.

– Nada. Não é nada, Kyunie, é melhor você…

– Fala, Changmin. – Insistiu Kyuhyun.

– Eu não sei como te falar isso, e nem sei se quero te falar isso. – Disse Changmin com sinceridade. – Eu estou confuso, Kyu-ah.

– Ao menos me dê uma pista do que se trata.

– As coisas não foram bem hoje a noite, porque eu fiquei confuso em relação a algumas coisas que eu tinha certeza sobre mim, você entende?

– Não. – Disse Kyuhyun com sinceridade. – Mas você não acha que pode estar mudando? De repente, amadurecendo? Ou sei lá, as suas necessidades podem estar mudando também como…

– Não, Kyu, isso não pode acontecer. Eu sou o que eu sou e não posso mudar. Não agora, não desse jeito, eu não quero pensar essas coisas nem sentir elas eu só quero… ser eu mesmo.

– E o que te impede de ser você mesmo?

– Eu não me reconheço mais, eu não consigo. As coisas me incomodam, não me agradam como antes, me entediam.

– Por que você não dá um tempo, e depois, tenta descobrir o que te agrada?

– Eu não quero isso, eu quero o de antes.

– Changmin, você não pode lutar contra a sua essência, isso é mentir pra você mesmo. Eu sei que o que você está me dizendo não está relacionado a sua sexualidade, mas comigo foi assim. E o Siwon me disse… o Siwon é…

– Ele é o seu ex-namorado, eu soube.

– Soube? Como?

– O Yunho-hyung me falou dele.

– O que ele te disse sobre o Siwon?

– Que era extremamente indelicado falar dele pra você, só isso. – Disse Changmin com sinceridade. – Agora me diga, o que ele te falou sobre isso?

– Ele me disse, há muito tempo atrás, que você não pode acabar com aquilo que está na sua alma. Você pode esconder, por muito tempo se quiser, mas isso sempre será uma ferida doendo dentro de você. No meu caso, ele disse para eu parar de pensar com preconceito sobre mim mesmo e assumir aquilo que eu nasci para ser. Isso teve implicações terríveis na minha vida, mas eu também, eu vivi coisas lindas, mágicas, depois de assumir quem eu era.

– E como você teve certeza que nasceu para isso?

– Porque por mais que eu tentasse, eu não conseguia ser de outro jeito. Você acha que eu não tentei ser como você? Seria muito mais fácil se eu fosse, e talvez eu tivesse tantos amigos quanto você tem lá na faculdade. Mas aquilo era uma máscara, me deixava fraco, acuado e confuso como você. O Siwon me disse, para eu seguir o caminho certo e não o mais fácil.

– Kyunie, me responde uma coisa?

– Sim.

– Por que você me oferece a sua amizade se não tem intenções de aceitar a minha?

– Por favor, entenda, eu nunca tive um amigo sequer, que não tivesse ligação com o Siwon. Todos eles, todas as pessoas em quem eu confio e que estão no meu círculo de conhecidos, inclusive o seu amigo Yunho-hyung, me foram apresentados direta ou indiretamente pelo Siwon. Todo mundo, menos você.

– Você tem medo do que possa acontecer porque eu sou a grande exceção. Eu sou heterossexual e não tenho a mínima ligação com o seu ex-namorado… por isso eu não sou uma pessoa confiável?

– Não é que eu não queira confiar em você, eu apenas ainda não sei se eu posso. Seja paciente, Changminie, não exija demais de mim.

– Vem aqui, desse lado. – Disse Changmin se afastando e sorrindo discreto para o rapaz.

– Por que?

– Só vem!

Kyuhyun revirou os olhos e reclamou, mas pulou o a bancada que o separava do outro rapaz. Nenhum dos dois percebeu os olhares curiosos de seus amigos sobre eles quando o fizeram e talvez se Changmin tivesse percebido não teria enlaçado a cintura do outro com tanta destreza. Primeiramente suas mãos repousaram na cintura do rapaz e o puxaram contra si calmamente, até que seus corpos estivessem próximos o suficiente.

Por alguns instantes, Kyuhyun teve a impressão de que Changmin iria beija-lo e aquilo o assustou verdadeiramente. No entanto, o outro desviou o rosto e o escondeu na volta de seu pescoço, suspirando pesadamente. Seus braços circularam a cintura do outro e seus corpos se colaram, enquanto o menor também escondia o rosto contra o outro e enlaçava seu pescoço com os braços.

Changmin sentiu aquele perfume, desta vez misturado ao cheiro da pele do outro rapaz e aquilo era ainda mais inebriante. Desta vez, Kyuhyun também sentiu o aroma do outro e por alguns instantes seu corpo se enfraqueceu e foi prontamente segurado pelos braços firmes do outro. Changmin tinha tudo o que Kyu poderia querer, seu jeito masculinizado, seu cheiro, seus toques firmes levavam sua mente a um passado distante quando ele podia se apoiar em confiar em outro homem.

Changmin desejava desaparecer naquele momento, e levar consigo aquele que tinha o corpo colado ao seu. Kyuhyun não estava cético como ele havia imaginado e apenas correspondia ao seu abraço carinhosamente, vez ou outra acariciando sua nuca com a ponta dos dedos longos. Eles permaneceram daquela forma por alguns instantes, deixando que os arrepios percorressem seus corpos e seus corações falhassem algumas batidas involuntariamente. Foi Kyuhyun quem se afastou primeiro, para poder fitar o mais alto que manteve as mãos em sua cintura.

Changmin parecia melhor do que quando se recostara ao bar afinal, Kyuhyun não sabia os efeitos que a sua presença e seus toques tinham no outro rapaz. Era a primeira vez que eles se abraçavam e aquilo parecia tão íntimo, que fez com que o rosto de Kyuhyun corasse em constrangimento. Aquela vulnerabilidade que ele sentia ao toque do outro, o lembravam do tempo em que seu posicionamento sexual era diferente, em que ele era o dominado e não o dominante. Por isso o constrangimento, um abraço nunca o remetera ao sexo, até aquele momento, em que o olhar de Changmin o devorava, guardando para si cada traço daquele rosto.

– Eu não vou exigir nada de você, faremos tudo ao seu tempo.

– Do que está falando? – Disse Kyuhyun, desconcertado.

– Da nossa amizade, Kyunie.

– Ah, está certo. – Disse Kyuhyun, apoiando suas mãos no tórax do outro, sentindo seu batimento cardíaco se acelerar, pelo que ele acreditou ser o mesmo constrangimento que ele sentia.

– Changmin-ah! – Disse Jaejoong, acenando para os dois que viraram o rosto, sobressaltados. – Vamos, o Yunho-hyung vai dar carona!

Changmin desviou o olhar de seu amigo e voltou-se para Kyuhyun que tinha o rosto agora abaixado. Seu olhar estava fixo em suas mãos que permaneciam espalmadas no tórax bem definido do outro rapaz. Changmin permaneceu fitando o outro rapaz sem desejar solta-lo a menos que ele pedisse. Kyuhyun suspirou baixinho e disse sem pensar:

– Você tem que ir agora? – Disse Kyuhyun, baixando mais o rosto ao perceber o quão ridícula sua pergunta soara.

– Tenho, sou apenas um cliente e o bar já está fechado. Eu já estou atrapalhando o seu trabalho, e te deixando ainda mais cansado com as minhas lamúrias mesmo depois de uma noite que eu sei que foi estressante pra você.

– E você pode perder a sua carona, com os seus amigos. É… você tem mesmo que ir. – Afirmou Kyuhyun. – Prometa que não vai ficar com caraminholas na cabeça e que vai descansar quando chegar em casa.

– Eu prometo. – Disse Changmin pressionando sua cintura como se reafirmasse o que acabara de dizer ao rapaz. – Me diga, quanto é o drink?

– Vamos, Changmin! – Gritou Yunho, já mais distante dos dois.

– Vai, Changminie! – Disse Kyuhyun sorrindo quando o empurrou delicadamente. – Esse é por minha conta, vai descansar, eu te ligo amanhã.

– Vou esperar hein? – Disse Changmin lançando seu belo sorriso ao rapaz. –  Boa noite, Kyu.

– Boa noite.

Changmin deu alguns passos de costas e depois acenou para o rapaz, antes de se virar e correr para onde seus amigos o esperavam, próximos a saída do bar. Kyuhyun o fitou alguns instantes e depois voltou-se para a bancada a qual pulou e se aproximou da caixa onde Sungmin e Donghae separavam os papéis comprovantes de pagamento em débito. Assim que ele parou atrás dos dois, eles se voltaram a si e sorriram maliciosos.

– Ah não, nem comecem! – Disse Kyuhyun. – Me deixa contar as moedas para…

– Ele é hétero, Sungmin, hétero que chega a dar nojo! – Imitou Sungmin, rindo alto logo em seguida.

– Mas ele é hétero, eu já vi ele…

– Ele te agarrou pela cintura, Kyuhyun, que homem hétero faria isso? – Afirmou Sungmin. – Ele não só gosta de homem, como ele também gosta de você!

– Não viaja, Sungmin! Imagine, aquele lá gostando de mim… ele gosta é de mulher, de peitos, ele mesmo me disse.

– Kyuhyun, você viu o jeito que ele olha pra você? – Disse Sungmin. – Ele te engole com o olhar, dá pra ver de longe, ele nem disfarça.

– Ele só me abraçou porque estava chateado e o olhar dele estava chateado e não como se ele estivesse me engolindo como você disse. – Explicou Kyuhyun.

– Chateado?? Ele queria te abraçar pra pegar em você, te sentir e não por carência. Você pode ser qualquer coisa, menos inocente, Kyuhyun.

– Aish, Sungmin, eu não vou ficar aqui ouvindo esses absurdos. – Disse Kyuhyun incisivo, pegando os pacotes de moedas que contaria longe de seu amigo que hoje estava particularmente irritante. – Se você não quer acreditar em mim, é problema seu, o Changmin é heterossexual e acabou.

Kyuhyun não esperou pela resposta do rapaz e muito menos por qualquer reivindicação de Donghae que apenas os observava até então e se afastou dos dois rapazes. Ele apoiou no balcão e começou a contar as moedas, tentando ignorar o formigamento que ficara em sua pele diante dos toques do rapaz. Kyuhyun não tinha medo que Changmin gostasse de si, tinha plena certeza de que isso não aconteceria, o que ele tinha receio era exatamente do contrário.

Não demorou muito e Donghae parou ao seu lado, mas ao contrário do que Kyuhyun havia previsto, o mais velho começou a contar as moedas juntamente com ele. Daquela forma eles terminaram o trabalho mais rápido e não demorou muito para Hyukjae depois de dispensar o segurança e o DJ da noite, se juntar a eles para terminar o trabalho. Assim que as moedas e notas estavam novamente separadas por valor e guardadas, Donghae finalmente decidiu falar com Kyuhyun.

– Kyunie, você vai me perdoar a sinceridade.

– Hyung, eu já disse…

– Me deixe terminar. – Disse Donghae. – Ele pode não saber ainda, e você pode negar o quanto quiser, mas aquele rapaz gosta de você e não é só como amigo. Ele pode nunca chegar a confessar isso pra você, vocês podem nunca sequer tocar no assunto e permanecerem o resto da vida como bons amigos, mas ele gosta de você.

– Como você pode ter tanta certeza?

– É só olhar pra ele, e ver a maneira como ele trata você. Me diga, há quanto tempo vocês se falam?

– Uma semana, hyung, ele não pode gostar de mim em tão pouco tempo, isso supondo que essa sua maluquice seja verdade.

– Você se apaixonou pelo Siwon a primeira vista, nada impede do Changmin ter…

– Hyung, ele não está apaixonado por mim, é impossível, está bem?

– Kyuhyun, é óbvio que está! Vocês mal se conhecem e ele já te trata como um príncipe!

– Como um príncipe? Aquele desgraçado me enche a paciência todo santo dia na faculdade e se isso é ser da realeza, eu prefiro continuar pobre!

– E você gosta dele também. – Concluiu Donghae.

– Hyung, me dá um pouco da droga que você tá usando, porque eu também quero.

– Aish, seu fedelho! – Disse Donghae socando o braço do outro que ria. – Depois que esse outro fedelho vier se declarar pra você, não venha dizer que eu não avisei.

– Melhor parar de usar essas coisas, hyung, tá te afetando! – Disse Kyuhyun entre risos.

– Kyuhyun, quem era aquele cara te abraçando? – Indagou Hyukjae que abraçou seu amado pelas costas e selou seu pescoço demoradamente.

– Aahhh não, você também não! – Disse Kyuhyun afetado. – Eu vou tirar essa lente que está incomodando meu olho e vou pra casa, já chega por uma noite.

– Vai pra casa descansar porque amanhã quero você mais cedo aqui. – Disse Donghae. – Quero que me ajude com alguns papéis.

– Eu vou querer hora extra, hein? – Brincou Kyuhyun, entre risos.

– Você quer é um chute na bunda, isso sim! – Disse Hyukjae entre risos. – Vai pra casa, Kyunie, bom descanso.

Kyuhyun riu divertido e ainda se despediu de Sungmin antes de seguir ao banheiro. Ele retirou suas lentes, pegou seus pertences e só então deixou o Candy Bar, o dia já amanhecia. O céu tinha uma cor alaranjada e os primeiros raios de sol iluminaram o caminho de Kyuhyun para casa. Seria um belo sábado que mais uma vez ele não aproveitaria por estar demasiadamente cansado.

Ele andou a passos largos até seu prédio que tinha a portaria deserta em função do horário. Kyuhyun adentrou seu apartamento e trancou a porta atrás de si antes de pender o corpo contra esta, visivelmente cansado. Suas mãos rodearam sua cintura, em uma tentativa frustrada de refazer aquele delicioso abraço que experimentara aquela noite, um gesto tão simples, mas que o deixara tão maravilhado.

O rapaz tomou um banho rápido e depois de deixar sua casa mais escura possível ele se deitou em sua cama e se ajeitou embaixo de cobertas finas que logo estariam no chão. Ele estava cansado e evitava pensar em Changmin, uma vez que precisava descansar. Antes de adormecer, ele procurou seu celular e encontrou uma mensagem de texto de Changmin, que o fizeram sorrir pela última vez antes de se embalar em um sono pesado.

“Kyunie! Espero que tenha chegado em casa a salvo e que já esteja pronto para descansar. O Yunho-hyung e o namorado dele me deram uma bronca porque eu falei do Siwon com você, me desculpe, eu não fiz por mal. Mas o que eu queria mesmo era te desejar boa noite, um de verdade e não com pressa de perder a carona. Quero que você durma bem e tenha lindos sonhos, Kyunie, pode até ser com seu príncipe encantado se você quiser. ;D Beijos, do seu Changminie.”

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