Capítulo 07: Você mexe comigo

 

A sala estaria completamente vazia se não fosse por seu único ocupante sentado sobre a primeira carteira. Faltavam apenas cinco minutos para que a aula começasse e Kyuhyun estranhava a falta de seus colegas ali. Ele saboreava calmamente uma salada de frutas que havia comprado para enganar a fome, uma vez que não tivera tempo de almoçar. Ele decidiu então que assim que terminasse de comer, iria até a secretaria perguntar onde estavam todos.

Mas antes mesmo dele terminar a metade, Changmin irrompeu sala adentro um tanto ofegante. Já fazia três semanas desde que eles começaram sua amizade e as coisas estavam mais tranquilas entre eles, Kyuhyun já era mais receptivo aos diálogos do outro e Changmin estava mais do que satisfeito com os rumos que o relacionamento deles tomava, afinal a cada dia eles passavam mais tempo juntos. O que era para ser uma aula, uma vez por semana, acabou se tornando jantares e passeios pelos campus da faculdade quase todo dia. O tempo juntos era limitado por suas rotinas, mas bem aproveitado.

Changmin arregalou os olhos e fitou tudo a volta, estranhando estar tudo vazio àquela hora, já que esperava estar atrasado e perdendo a primeira chamada. Felizmente, sua melhor companhia estava lá, sentado em seu costumeiro lugar, com uma salada de frutas na mão e aquele perfume que Changmin tanto gostava. Kyuhyun sorriu abertamente para ele e aquilo por alguns instantes o fez esquecer seu atraso e como consequência ele sorriu de volta.

– Cadê todo mundo? – Indagou Changmin finalmente se aproximando do rapaz.

– Não sei, Changmin-ah, não chegou ninguém.

“O que vocês fazem aqui?”

Quando os dois ouviram a terceira voz em seu diálogo, desviaram o olhar para a porta e lá se encontrava o diretor de seu curso. Kyuhyun se levantou e juntamente com Changmin, fez uma reverência ao professor à sua porta. Assim, eles foram avisados que aquela aula fora transferida para sábado pela manhã por conta de um simpósio para professores. Eles haviam sido avisados por e-mail, mas como nenhum dos dois checara durante o final de semana eles não sabiam.

Changmin sorriu discreto assim que o diretor se fora e voltou-se para Kyuhyun que se espreguiçava demoradamente com ar sonolento. O rapaz parecia cansado, provavelmente da rotina corrida do bar durante o final de semana. Changmin se aproximou deste e posicionou ambas as mãos em sua cintura, o fitando exibir um sorriso discreto. Kyuhyun pegou uma porção de frutas na colher e a aproximou dos lábios de Changmin que negou com a cabeça antes de dizer divertido:

– Eu quero mamão.

Kyuhyun riu soprado e pegou um pedaço de mamão com a colher para por fim voltar a aproxima-la da boca do outro e desta vez foi aceita. Changmin lambeu os lábios e só então apoiou o queixo no ombro do outro rapaz, o abraçando calmamente. Ele sabia que tinha combinado com Jaejoong de procurar por uma menina naquele dia, assim como nas segundas-feiras anteriores, mas como desperdiçar a companhia de Kyuhyun quando o tempo que tinham juntos era tão limitado?

Changmin não se demorou a se afastar do outro para que este pudesse continuar a comer. Nenhum dos dois entendia os motivos daquele abraço, e nem de todos os outros que eles deram ao longo daquelas semanas, e os que eles entendiam não queriam admitir. Kyu terminou de comer agora recostado a Changmin que o fitava em silêncio, e só então voltou a conversar com o rapaz.

– Pra onde você vai agora?

– Não sei, Kyunie, deveríamos aproveitar que não tem aula. – Disse Changmin.

– Dava pra adiantar aquele trabalho que…

– Eu tava pensando em cinema. – Disse Changmin entre risos. – Amanhã a noite, depois de terminarmos o exercícios de cálculo, ficamos na biblioteca para fazer o trabalho.

– Aish, mas aí amanhã fica muito corrido, fazer tudo isso. – Reclamou Kyu.

– Não fica não, a gente faz tudo rapidinho. Anda, Kyu-ah, vamos no cinema. Eu deixo você escolher o filme, pode ser qualquer um.

– E paga o meu almoço?

– Você não acabou de comer?

– Isso não foi uma refeição de verdade, eu quero comer. – Disse Kyuhyun entre risos.  – E eu quero almoçar em um lugar legal e não comida de shopping.

– Tá cheio de frescura hoje hein?

– Foi você que resolveu sair, Changmin-ah! – Defendeu-se Kyuhyun.

– Bem, já passou a hora do almoço, mas acho que eu sei de um lugar legal pra gente comer, Kyunie.

– Aish, não sei se eu posso confiar no seu gosto. – Disse Kyuhyun entre risos discretos.

– Não seja chato, Kyu, vamos logo! – Disse Changmin

Kyuhyun riu baixinho, agarrou sua pasta e colocou a alça sobre os ombros antes de seguir porta afora. No caminho, eles ainda passaram na sala de Jaejoong e depois de pularem feito dos bobos na pequena janela da porta, foram avistados pelo rapaz que saiu para atendê-los. Changmin o avisou que eles iriam ao cinema e portanto o outro não precisava espera-lo depois da aula.

Jaejoong não o julgou, afinal, Changmin parecia demasiadamente feliz com a companhia do rapaz e há tempos que eles não tinham momentos de satisfação como aqueles. Os dois deixaram Jae voltar para sua aula de anatomia e saíram do prédio de ciências médicas. O silêncio entre eles não era incômodo, mas os permitiam aproveitar mais plenamente a companhia um do outro, mesmo que só caminhando lado a lado.

Assim que adentrou o carro, Kyuhyun deixou sua pasta no banco de trás e ajeitou o cinto de segurança sendo seguido por Changmin que só depois disso deu partida no carro. Naquela hora do dia quase não havia trânsito, e assim logo eles ganharam velocidade em direção ao local escolhido por Changmin. Como de costume, Kyuhyun não iniciou o diálogo dentro do carro, mas sim, Changmin.

– Quer ouvir música, Kyu?

– Não, obrigado. Onde estamos indo?

– Ah, você vai ver daqui a pouco. – Disse Changmin sorrindo discreto.

– Changmin-ah, acho que eu nunca te perguntei, o que o Jae estuda?

– Fisioterapia. – Disse Changmin simplista. – Não sei dizer o que exatamente ele estuda nas aulas porque nós nunca falamos disso.

– Eu entendo, também não falo dos meus estudos com os meus amigos, é muito chato.

– Nossos estudos não são chatos, Kyu-ah, são interessantes.

– Não são chatos para nós que gostamos do assunto. Uma vez, eu comecei a falar de uma matéria da Gazeta da Economia para o Hyukjae-hyung e ele começou a bocejar repetitivamente.

– É, mas nem eu aguento as matérias da Gazeta da Economia. – Disse Changmin entre risos.

– Você tem que se informar mais, Changmin-ah! – Repreendeu Kyuhyun fitando tudo a volta quando o outro estacionou o carro. – Onde estamos?

– Vamos, eu vou te levar pra minha delicatessen favorita. – Revelou Changmin abrindo um largo sorriso.

– Uma delicatessen? E o que tem de especial nessa delicatessen?

– A melhor torta de morango que você vai experimentar em toda sua vida. – Changmin soltou o cinto de segurança e virou-se para o outro, acariciando seus cabelos com a ponta dos dedos. – E é claro, croissants recheados com o que você quiser.

– Parece gostoso. – Disse Kyuhyun lançando ao outro seu melhor sorriso.

– É uma delícia, eu tenho certeza que você vai gostar.

Changmin fez menção de sair do carro após pegar sua mochila e assim Kyuhyun fez o mesmo. Eles estavam em uma rua de classe média-alta com alguns prédios residenciais e poucos estabelecimentos comerciais. Entre eles, a singela porém charmosa delicatessen, que os dois entraram lado a lado. Eles escolheram uma mesa próxima a uma das grandes janelas de estilo romântico e depois de uma rápida olhada no cardápio, cada um escolheu um croissant a seu gosto e dois pedaços de torta de morango, acompanhado de café com leite. Assim que o atendente se afastou, Kyuhyun voltou a falar.

– Como você descobriu esse lugar? – Disse Kyuhyun percorrendo o olhar pelo local e se atentando aos detalhes da decoração.

– É porque eu moro a três quadras daqui e passo na frente desse lugar todo dia na ida para a faculdade.

– É um bairro muito bonito, Changmin-ah!

– Eu estou meio enjoado deste lugar para ser sincero. – Disse Changmin.

– Você está em crise existencial, eu sei, mas isso é uma fase, vai passar.  Logo você estará amando esse bairro e exibindo uma namorada linda por aí.

– Acho que não, sei lá, Kyu-ah. – Disse Changmin pensativo. – Vamos falar de outro assunto?

– De que você quer falar?

– Eu quero saber do Siwon, e você prometeu que ia me contar. – Cobrou Changmin.

– Aish, eu e a minha boca de jacaré. – Reclamou Kyuhyun. – Achei que falaríamos de assuntos agradáveis, Changmin-ah.

– E por que é desagradável falar disso? – Disse Changmin apoiando o cotovelo sobre a mesa e o queixo na mão. – Por que é indelicado falar nele? O que esse cara tem de tão especial?

– Ele? Especial? Nada. – Kyuhyun pegou a mão de Changmin que repousava sobre a mesa e passou a brincar com seus dedos, sem fita-lo nos olhos. – Me diga, quem você acha que foi o Siwon?

– O que eu sei dele, é que ele foi o seu namorado e amigo dos donos do Candy Bar. O que ele me parece é um monstro mitológico que se você falar o nome dele três vezes em frente ao espelho, ele vem e puxa o seu pé a noite.

Kyuhyun riu alto do comentário alheio. Ele cobriu os lábios e ainda ria quando seus pedidos chegaram. Ele afastou as mãos do outro, e as repousou sobre seu colo enquanto o rapaz colocava a comida a sua frente, lançando aos dois um olhar constrangido. Eles primeiramente provaram do salgado que foi prontamente aprovado pelo paladar de ambos. Kyuhyun então tomou um gole de café e continuou:

– Bom, ele não era nenhum monstro mitológico, e as pessoas não falam muito dele porque acham que eu vou ficar triste. Por isso, o assunto Siwon é tão delicado, porque ele era muito importante pra mim e todo mundo sabia disso.

– Me diga, como vocês se conheceram? Acho que é um bom começo de conversa e não deve ter sido tão desagradável assim né?

– Não foi desagradável, de forma alguma. Mas você vai rir de mim se eu contar, eu era tão bobo, Changmin-ah!

– Eu prometo que não vou rir.

– Que as suas orelhas cresçam ainda mais se você der risada.

– Eu não vou rir e pare de falar das minhas orelhas. – Disse Changmin, fazendo uma careta para o outro ao final.

Kyuhyun sorriu para o rapaz e tomou outro gole do café a sua frente. Ele nunca falara abertamente do assunto e seu coração palpitava com a possibilidade daquelas lembranças trancafiadas em seu peito serem expostas verbalmente. Ele baixou o olhar para as próprias pernas e forçou a memória para se lembrar daquele dia, o que conseguiu fazer sem esforço algum. Ele ergueu o olhar e Changmin o fitava ansioso por sua resposta, e assim, Kyuhyun acabou com sua espera.

– Eu tinha treze anos e como todo moleque nesta fase, eu estava em crise de personalidade. Eu não sabia direito quem eu era, quem eu gostaria de ser, o que eu estava disposto a aceitar, o que não estava. O mundo a minha frente era como um borrão disforme e sem vida, sem coloração, sem expectativa.

– Quantos anos o Siwon tinha?

– Eu vou chegar lá, seu apressado, agora pare de me interromper. – Changmin assentiu, sorrindo discreto. – As férias do meio do ano haviam terminado e eu estava disposto a deixar minhas notas caírem apenas por desleixo na escola, eu queria alguma emoção na minha vida. E sem amigos, ou qualquer companhia que não seja a sua irmã mais velha as coisas ficam mais difíceis. Eu queria algo que me desse um motivo para ir a escola todo santo dia, algo que me fizesse sentir vida nas minhas veias de novo. E lá estava ele, no primeiro dia de aula, às oito horas em ponto, ele entrou na sala. O cabelo dele estava penteado para o lado de uma forma severa, e ele usava um terno de cor escura, sem gravata. Ele era lindo, Changmin, era como se eu estivesse vendo meu príncipe encantado entrando na sala em cima de um cavalo branco… e aquele sorriso…

Flashback

Aos treze anos Kyuhyun ocupava o mesmo lugar da sala de aula da faculdade, a primeira carteira no meio. Seu uniforme estava impecável e ao contrário de seus colegas de sala, ele o usava corretamente. A franja cobria parte de seu rosto e ele usava óculos de grau, um tanto grandes para seu rosto. O maior problema em sua aparência era a acne que não desaparecia por mais que ele usasse cremes e deixasse sua irmã fazer-lhe os mais absurdos tratamentos.

Seu caderno estava sobre a mesa, assim como um pequeno estojo com seus lápis e canetas das mais diversas cores. Ele fitava suas pernas fixamente com ar entediado, brincando com seus dedos sobre seu colo. Atrás dele uma algazarra estava formada. Os grupos separados por interesses e aparências haviam se juntado e conversavam em voz alta. As risadas histéricas de algumas meninas e os gritos dos meninos já não o incomodavam, ele havia se acostumado.

O sinal já havia batido, mas ainda não havia sinal do professor. Se ele não estava enganado aquela seria aula de matemática, uma de suas matérias favoritas e uma de suas melhores médias. Não que as outras fossem ruins, mas em matemática, ele era realmente bom. No entanto, quem entrou na sala não foi o costumeiro senhor Kim Dong ho, um professor de idade já avançada e que falava baixo demais.

A diretora entrou primeiro e neste momento todos fizeram silêncio e se posicionaram ao lado de suas carteiras, para só então fazer-lhe uma reverência. Quando Kyuhyun ergueu o tronco ele o viu adentrar a sala como se andasse em câmera lenta. Seus passos se demoraram até chegar à mesa no meio da sala na qual ele depositou sua pasta. A diretora falava algo sobre “espero que o respeitem” que Kyuhyun não conseguiu captar, uma vez que seus olhos estavam vidrados sobre o homem logo atrás dela. A mulher fez uma reverência e saiu da sala, e logo atrás de Kyuhyun um murmúrio generalizado seguido de risadas agudas femininas tomaram a sala, logo que os alunos se sentaram. Todos silenciaram quando ele começou a escrever no quadro e sua letra era curva e muito bem desenhada na opinião de Kyuhyun.

“Choi Siwon”.

Foi o nome que apareceu em giz branco sobre o quadro negro. Kyuhyun o leu mais de uma vez como se não admitisse que sua memória pudesse falhar e se esquecer de tal nomenclatura. Ele o acompanhou com os olhos ao dar a volta na mesa e se recostar a esta. Seu olhar recaiu sobre a sala, a qual ele parecia analisar minuciosamente. Finalmente ele começou a falar:

– Meu nome é Choi Siwon, me chamem de professor Siwon. – Ordenou ele em tom grave e autoritário, que fez Kyuhyun sentir um frio na barriga. – Eu estou aqui substituindo o professor Dong ho, uma vez que ele foi chamado para trabalhar para o governo. Eu vou pedir para que vocês se apresentem, mas garanto que não vou guardar seus nomes tão rapidamente. Antes de começarmos as apresentações eu quero deixar algumas coisas claras aqui. A matemática é uma ciência exata, que exige concentração e dedicação e isso é o mínimo que eu espero de vocês esse semestre em que estaremos juntos. Eu não vou tolerar indisciplina e falta de respeito nessa sala de aula, e posso afirmar que vocês serão severamente punidos se decidirem não seguir as regras. Agora, começando por você – ele apontou o primeiro aluno da fileira da direita. – eu quero que me digam seus nomes, idades e… a matéria favorita de vocês.

Um a um os colegas de sala de Kyuhyun se apresentaram e disseram ao professor suas matérias favoritas. Qual não foi sua surpresa quando algumas meninas afirmaram ser matemática sua disciplina favorita, afinal elas também haviam reparado no professor. Para Kyuhyun aquelas vadias tinham o QI de uma vassoura e não saberiam somar dois mais dois, a menos que esta fosse a quantidade de garotos que elas tivessem beijado em um dia. Quando a sexta garota disse “e eu amo matemática, professor Siwon”, Kyuhyun suspirou pesadamente e revirou os olhos, ato que foi captado pelos olhos atentos de seu professor. E finalmente ele se levantou para se apresentar:

– Meu nome é Cho Kyuhyun, eu tenho treze anos e minha matéria favorita é…

“E ele é gay!”

Antes que Kyuhyun pudesse concluir a frase, um de seus colegas de classe disse em voz alta aquilo que o definia de todas as formas. Era pelo que ele era conhecido na escola, o garoto gay, o garoto que gostava de beijar outros garotos. Por melhor que ele fosse em algumas matérias, por mais esperto que ele fosse, não era disso que seus colegas valentões se lembravam e sim de sua sexualidade, descoberta no semestre anterior quando ele fora pego aos beijos com outro menino. O garoto mudara de escola por pura humilhação enquanto Kyuhyun guardou a vergonha para si e enfrentou aquele preconceito que aos poucos parava de fazer efeito nele. A exceção foi aquele dia, suas bochechas ganharam um tom escarlate e ele cruzou os braços em constrangimento. Algumas pessoas riram, mas o professor não. Siwon desviou o olhar para o fundo da sala e ele pôde fitar o garoto que ria de Kyuhyun.

– Silêncio! – Disse Siwon em tom ríspido. – Outra manifestação de chacota na minha sala de aula e vocês terão deveres de casa pelo resto do ano. Prossiga Cho Kyuhyun.

– Minha matéria favorita é matemática.

Assim que terminou a frase, Kyuhyun sentou-se tendo o olhar do professor o acompanhando durante esse tempo. Depois disso não tiveram mais interrupções nas apresentações, ou sinais de conversas paralelas à aula. Siwon afirmou aquele dia que começaria com o básico e assim, passou uma lista de exercícios com os cálculos mais simples, daqueles que se aprende durante o primário.

Eram somas, subtrações, equações, divisões, frações das mais básicas que qualquer garoto de treze anos sabia fazer. No entanto, ele disse que seria bom começarem o semestre treinando tais contas, para que no futuro não tropeçassem em dificuldades bobas como aquelas. Era uma lista com não mais de trinta exercícios para serem entregues no dia seguinte. Eles passaram metade da aula copiando tais exercícios no caderno que deveria ser passado a limpo e entregue para correção e durante a outra metade, sublinhando assuntos do livro que seriam tratados na aula seguinte.

Naquele dia quando Kyuhyun chegou em casa, se trancou no quarto e se esforçou naqueles exercícios. Ele queria que eles ficassem perfeitos e assim ele os fez, com uma exatidão que somente o melhor aluno da sala e um verdadeiro amante da matemática conseguiria alcançar. Finalmente havia algo novo naquela escola, algo interessante e muito bonito diga-se de passagem. E no dia seguinte, ele estava novamente empolgado para sua aula favorita.

No caminho da escola Kyuhyun pediu a sua noona para que eles passassem por uma banca de frutas onde comprou a mais fresca e reluzente maçã verde que ele conseguiu encontrar. Ele a lavou quando chegou à escola e a escondeu em sua mochila até o momento certo. Em sala, ele ainda teve aulas de português e geografia antes de rever aquele que o fascinara no dia anterior. E assim, pouco antes do almoço, com o mesmo ar imponente, Siwon entrou na sala carregando a mesma pasta.

Ele sentou em sua carteira, fez a chamada, pediu para que abrissem os livros e então explicou o primeiro conceito do semestre. Somente no final da aula, ele sentou-se a sua mesa, recolheu seus papéis e o livro que utilizava e cobrou seus alunos pela atividade que ele havia passado no dia anterior. O sinal tocou, e assim, os alunos um a um se levantaram e colocaram seus trabalhos sobre a mesa do outro e deixaram a sala em direção a saída.

Kyuhyun deixou-se ficar enquanto organizava seus materiais esperando que a sala ficasse mais vazia. No entanto, quando ele se levantou, uma de suas colegas parou ao lado da mesa e ela trazia consigo uma maçã vermelha e apetitosa. Siwon ergueu o olhar para a aluna e primeiramente pegou seu trabalho, o abrindo e percorrendo seus olhos pelo que estava escrito. Então ele pegou a maçã em sua mesa e a devolveu a garota.

– Se quer me agradar, senhorita…

– Rebecca. – Afirmou ela.

– Rebecca. Se quiser me agradar, faça a sua obrigação e não me venha com presentinhos.

A garota o fitou desapontada e só então deixou a sala a passos largos. Aquilo não era bom, ele não havia aceitado a maçã da garota e certamente não aceitaria a de Kyuhyun. Ele se levantou ansioso e fitou o professor que agora organizava os trabalhos dos alunos. O mais novo parou em frente ao outro e este ergueu o olhar para si, o fitando demoradamente. Kyuhyun correspondia o olhar quando deixou o trabalho sobre a mesa, escondendo atrás do corpo a maçã que havia comprado para o mais velho.

– O que tem aí? – Indagou Siwon apontando para o braço escondido atrás de seu corpo.

Kyuhyun lentamente tirou a mão de trás do corpo e mostrou a maçã verde que segurava. Ele engoliu seco, e a colocou sobre a mesa esperado o mesmo discurso que ele dera a garota. Siwon baixou os olhos e aproximou o papel de si, ele ajeitou os óculos no rosto e começou a ler aquilo que o rapaz havia respondido. Ele arqueou as sobrancelhas ao final da página e suspirou baixinho, para por fim pegar a fruta sobre sua mesa.

– Nada mal, Kyuhyun. – Disse Siwon mordendo a fruta, enquanto guardava os trabalhos em sua pasta. – Só errou em uma coisa.

– O que?

– Eu gosto mais de pera. – Siwon abriu um largo sorriso, seu melhor sorriso e piscou cúmplice para Kyuhyun. – Vá para casa, você tem deveres.

– Até sexta feira, professor Siwon.

– Até.

Kyuhyun saiu da sala com um sorriso abobalhado nos lábios. Ele havia aceitado seu presente e rejeitado o da garota, isso queria dizer, em sua mente pré-adolescente que ele já era o favorito do professor Siwon. O Kyuhyun de treze anos jamais poderia prever o que aquele homem se tornaria em sua vida e muito menos os rumos que seu destino tomaria por causa dele.

 

Changmin tinha o olhar vidrado em Kyuhyun. Seu café já estava frio a sua frente e a torta de morango, assim como metade do croissant estavam abandonados sobre a mesa. O menor suspirou pesadamente assim que terminou de contar-lhe sobre seu primeiro contato com Siwon e desviou o olhar para o lado de fora agora em silêncio. Aquelas lembranças ainda eram tão frescas em sua mente, que o surpreenderam assim que Kyu percebeu que ainda havia algo vivo nele.

Changmin bebericou o café a sua frente, mesmo frio e o deixou sobre a mesa ainda fitando o outro rapaz. Era como se ele tivesse visto o Kyuhyun de treze anos a sua frente, fascinado por seu professor. Uma história de amor que estava fadado ao esquecimento, transformara Kyuhyun naquele homem a sua frente. Kyuhyun então sorriu de canto e voltou a fitar Changmin.

– Eu não respondi a sua pergunta. – Disse Kyuhyun, repousando sua mão sobre a do outro e o trazendo de volta a realidade. – Ele tinha 22 anos quando eu o conheci, a nossa idade atualmente. Siwon é nove anos mais velho do que eu e foi meu professor de matemática por três anos.

– Wow! Ele namorou um garoto, isso é tão…

– Eu sei, é um crime.

– Não era isso o que eu ia dizer. Eu ia dizer que é muito Lolita.

– Aish, Changmin. – Disse Kyuhyun começando a rir, e negando com a cabeça. – Só você pra me comparar com um livro depravado mesmo.

– Desculpe, não foi minha intenção. – Disse Changmin sorrindo e acariciando a mão do outro que estava sobre a sua. – Estou ansioso para saber como você conseguiu chegar a namorar o seu professor, mas eu sei que não vai me contar isso hoje.

– Eu te conto outro dia, eu prometo, pra hoje, você me prometeu um cinema. – Disse Kyuhyun finalmente voltando a comer e pedindo outro café fresco para ambos.

– Verdade. – Disse Changmin distraído em acariciar os dedos do outro sobre a mesa. – Já sabe o que vamos assistir?

– Não sei, qualquer coisa. – Disse Kyuhyun devolvendo o carinho do outro.

– Qualquer coisa pra mim está bom. – Afirmou Changmin distraído e finalmente soltando a mão de Kyuhyun para que os dois pudessem voltar a comer.

Eles comeram em silêncio, enquanto Changmin repassava a história de Kyuhyun em sua mente como um filme que ele gostara muito. Assim que o último gole de café foi tomado, Changmin pagou pelos dois assim como havia sido combinado e eles saíram dali. Eles haviam passado quase a tarde toda naquele café e sequer viram o tempo passar. Felizmente havia um bom shopping não muito longe dali.

Changmin deixou o carro no estacionamento coberto ainda em silêncio. Kyuhyun havia se acostumado a não iniciar nenhum assunto dentro do carro e a menos que Changmin falasse algo, ele não cortaria o silêncio. No entanto, quando o rapaz estacionou, ele decidiu finalmente agradecer pela refeição que o outro havia pagado. Kyuhyun soltou seu cinto de segurança e quando o outro foi fazer o mesmo ele segurou sua mão chamando sua atenção. Changmin o surpreendeu quando entrelaçou os dedos aos do rapaz, como faria com uma garota, aproveitando estar escondido pelos vidros fumê de seu carro.

– Obrigado pelo café, Changminie, é realmente a melhor torta de morango que eu já comi. Vamos fazer isso mais vezes, e da próxima vez eu pago.

– Vamos sim. – Disse Changmin, levando uma das mãos ao rosto do rapaz e o acariciando ali. Sua pele ainda possuía as marcas de acne da adolescência, e o mais alto as sentiu em seu tato, tornando a história do rapaz mais realista.

– Tem uma coisa que eu tenho medo, Changmin-ah.

– Do que, Kyunie? – Indagou Changmin, deixando seus dígitos alcançarem o pescoço do rapaz e acariciarem ali.

– De confundir as coisas com você. Nós somos amigos e você gosta de mulher, não tem nada a mais. Eu tenho medo de acabar achando que tem.

– Eu dou algum sinal de que há algo a mais com a gente?

– Claro que não, Changmin-ah, você só é carinhoso e eu não estou acostumado com isso.

– Se você quiser eu paro de fazer carinho…

– Claro que não, eu gosto. Só não deixa ninguém saber senão você pega fama de gay hein? – Disse Kyuhyun sorrindo bem-humorado. – Fica sendo o nosso segredo, tudo bem?

– Tudo bem. Por que quer proteger minha fama de pegador? Você mesmo me critica por isso.

– Você não vai querer ser o gay da faculdade, vai por mim, mesmo que seja só um rumor e não a realidade. A homofobia é algo horrível, Changmin-ah.

– Eu sei, e como eu queria deixar essas pessoas horríveis longe de você. – Disse Changmin acariciando os cabelos do outro com a ponta dos dedos. – Vamos sair daqui, temos um filme para assistir.

– Vamos, Changmin-ah! – Kyuhyun se desvencilhou dos carinhos do outro e saiu do carro, sendo seguido pelo rapaz. – Será que tem algum desenho passando?

– Você quer assistir desenho? – Disse Changmin entre risos, caminhando lentamente ao lado do outro.

– Só se tiver algum legal. – Disse Kyuhyun sorrindo abertamente. – Ou um romance bem bonito.

– Não pode ser um de ação não?

– Só se for de guerra e não tiver coisas nojentas.

– Então é melhor ficarmos com o romance. – Disse Changmin entre risos.

Kyuhyun acelerou o passo ansioso e Changmin não se demorou a segui-lo. Por ser um final de tarde de segunda-feira não havia fila para os ingressos e eles escolheram ao final um drama de guerra. O novo filme de Tarantino, Bastardos Inglórios com a temática da segunda guerra mundial que ambos gostavam, além de ser um diretor clássico.

Como haviam se alimentado bem, eles não compraram pipoca e logo adentraram a sala de cinema. A sala estava vazia com exceção de dois casais que se beijaram ao longo de todo filme e meia dúzia de pessoas que prestaram atenção a narrativa. No meio do filme, Kyuhyun deitou sua cabeça sobre o ombro de Changmin que sorriu discreto com a ação do mesmo. Ele pediu para que o rapaz se afastasse e levantou a divisória das duas cadeiras, para por fim envolver os ombros de Kyuhyun e o deixar se apoiar em si novamente. E aquela era a melhor maneira de se assistir um filme ao lado de Kyuhyun em sua opinião.

O filme era incrível e dava um final alternativo para o ditador Adolf Hitler. Os dois olharam para a tela fixamente ao longo de todo o enredo, prestando atenção aos vários personagens de histórias interligadas. Havia um odioso general nazista que os fazia arrepiar cada vez que falava algo, e a judia escondida entre os alemães, além do pobre soldado apaixonado com quem Kyuhyun se identificou.

Changmin só percebeu o quão possessivamente ele segurava Kyuhyun quando as luzes se acenderam e os créditos começaram a passar na tela. Ele olhou para o lado e viu o rapaz deitado contra si e com sua mão sobre seu tórax. O menor ergueu os olhos e o fitou demoradamente antes de se afastar preguiçosamente.

– Gostou do filme? – Disse Kyuhyun esticando os braços demoradamente.

– Gostei muito e você?

– Também. – Afirmou Kyuhyun sorridente. – Mas o soldado Zoller não devia morrer. Ele devia se casar com a Shoshana.

– Um nazista se casando com uma judia, Kyuhyun?

– Ele amava ela, você não viu?

– E ela amava o marido dela.

– Mas ele fazia tudo por ela.

– E o marido dela também, até colocar fogo no cinema.

– Mas ele era melhor pra ela, Changmin-ah, você viu o quanto ele amava ela. Apresentou ela pra todo mundo da alta sociedade alemã e…

– E você não era bobo aos treze anos, você ainda é bobo Kyu-ah. – Disse Changmin entre risos, acariciando os cabelos do outro. – Acreditar em um amor impossível assim, só sendo um bobo romântico como você.

– Eu gosto de romances e desafios. – Disse Kyuhyun voltando a se deitar sobre os ombros do outro. – E eu não sou bobo e muito menos romântico.

– Claro que é, Kyunie. –Disse Changmin o abraçando calmamente.

Changmin até teimaria com o argumento seguinte do rapaz, mas desistiu em função daquele abraço. Ele não conseguiria descrever verbalmente o quanto gostava de permanecer próximo do outro e tinha inclusive vergonha de admitir tais vontades. Aquela pele quente contra a sua, ainda que coberta por algumas camadas de tecido, os carinhos que ele depositava em seu tórax com a mão espalmada ou com a ponta dos dedos, seu olhar amendoado e penetrante que desbravava sua pele e o desnudava sem que ele pudesse evitar. Kyuhyun era um ser único, e ele não desejava mais nada que não fosse ficar junto com o rapaz, por mais que sua moral gritasse para se afastar.

Foi Kyuhyun quem se afastou com o rosto brevemente corado e ergueu o olhar para o mais alto. Changmin soltou o abraço e o ouviu pedir para que saíssem dali uma vez que ele precisava voltar para casa. Claro que eles tiveram uma argumentação sobre Kyuhyun ir de metrô ou Changmin deixa-lo em casa e desta vez, Changmin ganhou. E assim, os dois seguiram para o estacionamento e saíram do local, andando calmamente.

Changmin não se demorou a pegar uma avenida em direção a casa do outro, a qual já havia memorizado o endereço. Somente no final do dia, Kyuhyun voltou a pegar sua pasta de materiais e notou ter esquecido seu celular na mesma, já que ele estava andando apenas com a carteira no bolso. Assim que fitou o visor, viu cinco ligações perdidas de Donghae que deveria estar agoniado com a falta de notícias suas.

Kyuhyun deveria ligar de volta, mas ao final desviou o olhar a Changmin que estava concentrado no trânsito. Ele não podia negar o quanto achava aquele rapaz atraente, talvez a pessoa mais atraente que ele conhecera em sua vida adulta. E ele era bonito, lindo aliás, exatamente a beleza que atrairia os olhos de Kyuhyun, caso ele tivesse algum chance. Kyu passou a fitar a janela antes que fosse flagrado por Changmin, não queria responder perguntas indevidas e muito menos mentir para o rapaz. Era melhor que nem de longe ele desconfiasse de tais pensamentos.

Não demorou muito e Changmin parou o carro em frente conhecido prédio de três andares. Kyuhyun fitou o carro a sua frente e sorriu discreto ao reconhecer a placa. Changmin agora o fitava em silêncio, não desejando se despedir do menor, mas se vendo obrigado a isso. Aquele havia sido um dia ótimo, e ele não queria de forma alguma que acabasse. No entanto, a noite tomou conta da cidade e ele precisava deixar Kyuhyun descansar ou este enjoaria logo de sua presença.

– O Donghae-hyung está aí. – Disse Kyuhyun sorrindo discreto.

– Aí onde?

– No meu apartamento, ele tem a chave. – Disse Kyuhyun entre risos. – E aquele é o carro dele.

– Não deixe ele esperando então! – Afirmou Changmin sorrindo. – Nós nos vemos amanhã, na faculdade.

– Quando chegar em casa me mande uma mensagem, eu quero saber se chegou bem. – Pediu Kyuhyun, soltando o cinto e o abraçando brevemente antes de se afastar.

– Tudo bem, eu aviso. Boa noite, Kyunie.

– Boa noite.

Kyuhyun saiu do carro e ajeitou sua pasta com alça em seu ombro antes de seguir em direção ao portão. Ele caminhou lentamente e após retirar as chaves do bolso, destravou o portão e estava pronto para entrar quando ouviu seu nome ser chamado. Assim que ele se virou, viu Changmin parado ao lado de seu carro, com uma feição que ele não conseguiu distinguir. O rapaz parecia duvidoso, temeroso e ao mesmo tempo decidido. Ele murmurou um “espere” e após fechar o carro caminhou a passos largos em sua direção, como se caminhar mais lentamente fosse perder um precioso tempo.

Kyuhyun o deixou se aproximar até perceber que ele estava ficando próximo demais. Changmin só parou quando seus rostos estavam próximos e seus olhos se encontraram e analisaram a confusão de sentimentos que os envolvia naquele instante. Changmin tremia dos pés a cabeça e Kyuhyun reconhecia aquela insegurança do mais alto e era solidário a ela. A fim de demonstrar sua compreensão, Kyuhyun segurou uma das mãos do rapaz e sorriu discreto a ele, ainda sem ter certeza de suas intenções.

Changmin o envolveu lentamente pela cintura e se aproximou mais do outro, ainda mantendo o contato visual. Kyuhyun deu alguns passos para trás e se recostou no portão ainda travado pelo fecho e com o cadeado displicentemente pendurado, o qual balançou e tilintou quando suas costas se apoiaram ali. Agora era Kyu quem estava inseguro, principalmente quando os olhos de Changmin desviaram para seus lábios entreabertos. Algo no interior de Changmin gritava para que ele os tocasse com seus lábios, que provasse daquele veneno que o deixaria ainda mais entregue aos encantos daquele rapaz, mas algo o retesava e o empurrava para longe, em direção ao precipício de futilidades que era sua vida.

Changmin pendeu o rosto de lado e o aproximou do outro, no entanto Kyuhyun negou com a cabeça. A pele quente e arrepiada de Kyuhyun, assim como seus olhos fixos nos lábios de Changmin não negavam o quanto ele queria aquilo, no entanto, ele sabia como aquele rapaz estava confuso e talvez aquilo fosse o pior erro da vida dele. Os lábios de Changmin se entreabriram e Kyuhyun voltou a negar com a cabeça antes de dizer baixinho:

– Não é isso o que você quer, nós dois sabemos disso. Eu sei que você tem andado confuso, mas esta não é a solução.

– Então me dê a solução, tire isso de mim e traga o antigo eu de volta. Salve-me como o Siwon te salvou aos treze anos.

– Ele me salvou e depois me matou, não é isso que eu quero pra você.

– Nem eu sei o que eu quero pra mim, como você pode saber?

– Você não vai querer carregar isso com você, não precisa carregar isso com você, Changmin! – O nome do outro saiu em exclamação quando este o apertou com firmeza contra si, colando seus corpos e se roçando contra o do outro.

– Kyuhyun… – Changmin agarrou as grades atrás do outro e o pressionou mais contra a mesma, sentindo o típico volume em suas calças, algo totalmente novo para ele. – Você mexe comigo.

– Pare com isso, Changminie, eu sou homem. Um homem como você, com testosterona correndo pelas veias. Eu tenho no meio das pernas exatamente o mesmo que você e como bom heterossexual que você é, você deveria manter distância e não… tentar…

– Está duvidando da minha masculinidade, Kyuhyun?

– E você? Duvida da minha? Eu não sou uma das suas meninas, por isso eu sei que você não quer fazer isso, Changmin. Agora me solte, por favor.

– Você não entende…

– Eu entendo perfeitamente, quem está confuso aqui é você. Me solte.

– Não, não entende!

Changmin bateu com ambas as mãos nas grades ao lado de Kyuhyun, causando um estrondo que fez o menor se sobressaltar. O porteiro saiu prédio afora, afim de checar o que acontecia, deixando Kyuhyun constrangido com a cena. Changmin deu as costas para ele e voltava a passos largos para o carro, quando Kyu correu atrás dele e o segurou pela manga da blusa. Changmin parou fitando o chão, enquanto Kyuhyun seguia para voltar a ficar de frente para o outro.

– Não fique assim, calma… – O menor o abraçou pela cintura e deitou o rosto em seu ombro. – Vai ficar tudo bem.

– Como você pode saber, Kyu-ah? Como você pode ter tanta certeza das coisas que diz, quando eu mesmo já não me reconheço? Eu estou doente?

– Não Changmin. Eu não sei direito o que se passa nessa sua cabecinha confusa, mas você não pode ser tão impulsivo assim, isso não é bom.

– Não? – Changmin levou sua mão ao pescoço do outro e o guiou para que este olhasse para si, e aproximou os lábios do mesmo. Era disso o que ele precisava, Kyuhyun sem resistência, agarrado a sua cintura, com seus lábios tão convidativos cada vez mais próximos a si.

– Não. – Disse Kyuhyun sentindo pela primeira vez o hálito do outro roçar contra seu rosto. Aquilo precisava parar, antes que chegasse a um ponto sem volta. E com esse pensamento em mente, ele apoiou ambas as mãos no tórax de Changmin e lentamente se afastou. – Não.

Eles haviam chegado tão perto que era como se Changmin pudesse sentir o sabor do outro. Ele lambeu seu lábio inferior em busca do toque que não estava ali e finalmente apoiou ambas as suas mãos nos ombros do outro. Kyuhyun não cederia, e eles concordavam que aquilo era um erro, muito tentador, mas um erro. Changmin meneou a cabeça afirmativamente e baixou o olhar antes de voltar a falar:

– Você mexe comigo.

– Não, você mexe comigo e nós nunca mais voltaremos a falar sobre isso. O correto agora era eu te chamar para entrar e não te deixar dirigir até que…

– Enquanto eu estiver perto de você, não vou estar apto a dirigir se essa é a sua lógica.

– Você vai ficar bem?

– Eu vou pra casa, pensar no que você disse. – Afirmou Changmin dando as costas para o outro e seguindo para a porta do lado do motorista. Ele apoiou o braço na parte superior do carro e apoiou o queixo em seu antebraço, dizendo calmamente. – E você deveria subir, ele deve estar te esperando.

– Me avise quando chegar em casa, e não passe em lugar nenhum vá direto pra lá. Você vai ficar bem?

– Eu vou direto pra casa, não se preocupe. Boa noite, Kyunie. – Disse Changmin abrindo a porta do carro e adentrando o veículo, sem responder a pergunta final de seu amigo.

– Boa noite.

Changmin deu partida no veículo e saiu dali o mais rápido possível, deixando um Kyuhyun confuso na calçada fitando os faróis de seu carro cada vez mais longe. Ele finalmente correu prédio adentro e ignorou as perguntas do porteiro, seguindo para a escadaria que o levaria ao primeiro andar onde seu apartamento se situava. Sua porta já estava aberta e em seu interior, Donghae e Hyukjae o esperavam.

Kyuhyun fechou a porta e se recostou a mesma fechando os olhos. Donghae saiu da janela, de onde ele observou toda cena e se aproximou do mais novo em passos lentos, que ecoaram pela casa. Ele retirou a pasta de seu ombro e a pendurou em um lugar próprio próximo a porta e finalmente o abraçou pelos ombros, selando sua testa. Hyukjae parou logo atrás de Donghae com os braços cruzados em frente ao peito e foi o primeiro a se manifestar.

– Você não precisa esconder nada de nós, Kyuhyun, se gosta do rapaz é só dizer.

– Não é isso, hyung.

– Então nos explique o que é? – Disse Donghae. – Eu vi vocês lá embaixo.

– Ele me confunde, fala coisas desconexas, ele está confuso e está achando coisas que são irreais. Ele me pergunta coisas impróprias, me faz lembrar o que eu já deveria ter esquecido e me olha como se eu fosse o homem mais especial do mundo. Isso é tão errado, tão errado que chega a me dar arrepios.

– Tudo bem, Kyunie, você está confuso. – Disse Hyukjae.

– Não, eu estou certo sobre todas as coisas da minha vida, confuso está ele.

– Tudo bem, tudo bem. – Disse Donghae o apertando contra si. – Agora me diga onde você passou o dia?

– Com… ele. – Disse Kyuhyun. – Ele mexe comigo, hyung, com as coisas que eu sinto.

– E você está confuso. – Concluiu Hyukjae.

– Não. Talvez um pouquinho, mas só um pouquinho.

Donghae soltou o abraço rindo do comentário deste e o puxou pela mão em direção a sua sala, seguido por seu amado que o abraçou pela cintura. Kyuhyun retirou seus sapatos e se ajeitou em seu sofá de frente para Hyukjae e Donghae que finalmente mudaram de assunto e contaram o motivo de terem o procurado durante o dia todo. Como o bar não ganhava férias ou feriado desde que abrira anos antes, eles decidiram fechar no próximo feriado prolongado que seria no final daquele mês.

E assim, os dois decidiram que durante o feriado eles iriam viajar para a praia, uma vez que o tempo já começava a melhorar. Eles já haviam alugado a casa, no mesmo lugar em que anos antes eles haviam viajado juntamente com Kyuhyun e Siwon. O local era belíssimo e Kyuhyun sempre quisera voltar lá apesar de não ter certeza se teria coragem. E assim, Donghae e Hyukjae o convidaram para tal viajem, o fazendo voltar a sorrir e esquecer-se momentaneamente de suas confusões.

– Jura? Eu posso mesmo ir junto?

– Claro, aquele lugar é gigante. Nós chamamos o Sungmin e ele disse que vai levar o Henry então… – Disse Hyukjae.

– Quem é Henry?

– É aquele cara com quem ele está saindo, as coisas estão ficando sérias entre eles. Mas o que eu queria dizer, é que se você quiser levar alguém… – Disse Donghae, sugestivo.

– Eu não vou levar o Changmin.

– E quem falou em Changmin? – Disse Donghae entre risos. – Mas assim, ele parece um cara legal, tem um sorriso simpático e é alto do jeito que você gosta, então se você quiser levar ele, sabe que a cama do seu quarto vai ser de casal não sabe?

– Cama de casal que eu vou aproveitar sozinho, porque o Changmin não vai comigo. – Disse Kyuhyun incisivo.

– Pense bem, Kyunie, se decidir levar ele, serão os dois bem-vindos. – Disse Donghae. – Agora vá comer a sopa que eu fiz, está uma delícia.

Kyuhyun sorriu com o canto dos lábios e depois correu em direção a cozinha afim de experimentar tal sopa. Aquele resto de noite fora agradável, eles conversaram sobre os mais diversos assuntos, até Hyukjae e Donghae irem embora, já tarde da noite. E eles deixaram Kyuhyun em seu apartamento silencioso, tendo como companhia apenas suas dúvidas e complexos, em sua grande maioria relacionados aquele que se intrometeu em sua vida sem pedir licença e bagunçou com seu psicológico, Shim Changmin.

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