Capítulo 18: The past fades away

Eram duas da manhã de um sábado frio na capital coreana e a neve de dezembro já se aproximava da cidade, dando a todos a expectativa das festas de fim de ano. Por conta do clima, a agitação típica do Candy Bar nos finais de semana diminuía, e o fluxo de pessoas era relativamente menor por mais que o bar continuasse cheio. Os casais de homens e mulheres, em sua maioria, jovens, chegavam ao local mais cedo, com seus belos casacos de frio e calçando luvas e gorros.

Kyuhyun e Sungmin usavam blusas finas com o nome do bar estampado no peito e já não sentiam frio, pois se movimentavam de um lado a outro atendendo ao público. Kyu bem sabia que ele não veria seu namorado aquela noite e que àquela altura ele já estava em casa descansando de seu delicioso passeio. Changmin, Jaejoong e Yunho haviam ido ao museu aquela noite para uma exposição sobre Marylin Monroe e como Kyuhyun gostaria de ter estado lá, entretanto o dever o chamava e às seis da tarde em ponto ele e Donghae se enfiaram no porão para arrumar o estoque do bar.

Às duas da manhã ele já estava cansado, mas ainda havia longas horas de trabalho e ele não pararia antes das três quando chegava seu intervalo. Kyuhyun entregou os drinks em cor rosa claro e com um cheiro doce de cereja às duas moças a sua frente que sorriram agradecidas e finalmente a fila havia desaparecido. Ele olhou para Sungmin e este fitava sonhador um canto do bar, para finalmente acenar para o mesmo lado. Quando Kyu seguiu seu olhar, encontrou o sorridente Henry acenando de volta para ele de um canto ao qual havia se recostado com um drink em mãos.

– Vai lá com ele, Minnie.

– Eu estou trabalhando, Kyu-ah! – Disse Sungmin, sorrindo ao seu namorado que mandou um beijo de longe.

– Aish, eu dou conta, está na hora de dançar eles vão demorar a voltar pra cá! Vai lá com o Henry!

– Vou ficar por perto, se tiver fila eu volto!

E com esse aviso, Sungmin deixou Kyuhyun sozinho no bar e seguiu ao encontro de seu namorado. Eles se abraçaram demoradamente e Sungmin se recostou a uma parede próxima, para que eles pudessem conversar apropriadamente, fazendo Kyuhyun sorrir com o canto dos lábios sempre que eles riam de alguma coisa. Kyu somente acordou de seus devaneios quando alguém parou no balcão e o chamou pelo nome.

Junsu acenava para ele e sorria o chamando para que se aproximasse. Kyu sabia que o rapaz não fora a exposição por causa da presença Yunho, mas lá estava ele no bar a fim de saborear alguns drinks. Kyuhyun se aproximou e ele o pediu uma das bebidas demonstradas no menu e não demorou muito para Kyu entregar a ele a pequena taça com seu pedido.

– Está uma delícia, Kyu-ah! – Afirmou Junsu após provar a bebida – Está parado para um sábado, não está?

– Bastante, o Donghae-hyung está preocupado com a falta de movimento por causa do inverno.

– É assim mesmo, o frio chega e as pessoas ficam em casa. – Afirmou Junsu.

– Foi por causa do frio que você não foi à exposição com o Jae e o Changminie?

– Você fala como se tivessem ido apenas os dois. – Disse Junsu entre risos. – Eu não quis ir porque o Yunho foi, mas a essa altura ele já deve estar em casa, comendo o Micky e pensando no Jaejoong.

– Que horror, hyung! – Exclamou Kyuhyun desconcertado.

– Desculpe, eu estava pensando alto. – Disse Junsu entre risos, sem dar importância ao rapaz que parou ao seu lado com um capuz vermelho cobrindo parte de seu rosto.

“Kyu-ah, vocês ainda servem absinto?”

O sorriso de Junsu se esvaiu assim que a voz endurecida de Micky indagou aquilo à Kyuhyun. O mais novo disse que iria checar a geladeira e deixou os dois para trás, sem perceber que eles agora se entreolhavam sérios. Junsu foi o primeiro a desviar o olhar para seu drink e voltar a beber um longo e demorado gole. Kyuhyun voltou com as mãos vazias e negando com a cabeça, o que fez Yoochun suspirar pesadamente.

– Pode ser vodca então, pura e sem gelo, por favor.

Kyuhyun sorriu simpático e tratou de servir o drink ao rapaz. Yoochun retirou o capuz e ajeitou seus cabelos, e assim que ele se moveu, seu cheiro adentrou as narinas de Junsu que sentiu um frio na barriga quase imediatamente. Junsu suspirou pesadamente e voltou a fitar o rapaz que agora tinha os olhos fixos no balcão, e a mesma feição séria.

– Vai mesmo ficar parado ao meu lado e nem me cumprimentar? – Indagou Yoochun.

– Não achei que você fizesse questão.

– Não faço. – Retrucou Micky.

– O que veio fazer aqui?

– Não é da sua conta.

– Só perguntei por perguntar, eu sei que não é da minha conta. – Atacou Junsu.

– Eu estava sufocado em casa. – Explicou Yoochun. – Vim aqui espairecer.

– Que horas são?

– Duas da manhã, por quê?

– E o Yunho não está em casa?

– Te pago uma dose se você descobrir onde ele está. – Ironizou Yoochun.

– Ele deve ter dormido na casa do Jae, volta e meia ele dorme por lá que eu sei, e você também sabe.

Kyuhyun voltou com a dose e a deixou na frente de Micky que a virou de uma vez e finalmente pediu outra ao mais novo. Kyu prontamente o atendeu enchendo o copo novamente que foi mais uma vez tomado em apenas um gole. Na terceira vez que o mais velho pediu a bebida, Kyuhyun negou com a cabeça e foi apoiado por Junsu que colocou o braço entre Micky e o bartender.

– Quer se matar, bebe veneno sozinho, não comprometa o Kyuhyun nisso.

– Por que você não cuida da sua vida? Ou sei lá, compra um gato e cuida das sete vidas dele?

– Eu não vou sentir pena de você Yoochun, você cavou sua própria cova.

– Eu não preciso da sua pena!! Sabe do que eu preciso?? De paz! De um lugar onde eu possa esquecer os meus problemas sem ser reprovado por alguém que há muito tempo não faz parte da minha vida. Eu quero um lugar que eu possa lidar com o que eu sinto sozinho, sem ter que enfrentar o seu olhar de nojo ou as ironias do meu namorado, mas pelo visto não existe lugar nessa droga de cidade que eu possa ficar em paz!

– Está bem, quer se embebedar? Então vamos lá! Kyu-ah, vê a garrafa e dois copos pra mim, por favor.

Kyuhyun que agora atendia a outro grupo de clientes se assustou com o pedido do rapaz, mas o atendeu. Se Donghae o visse negando bebida novamente a um cliente poderia não gostar de sua atitude e ele não queria desagradar o rapaz. Antes de se afastarem, Junsu pagou pelo consumo dos dois e eles seguiram para uma das mesas mais afastadas do local, esta ficava próxima a uma janela sempre fechada.

Yoochun sentou-se próximo a janela e se permitiu fita-la enquanto o outro rapaz sentou-se de frente para ele e serviu os dois copos até a borda. Junsu escorregou um dos pequenos copos até o outro e pegou um para si, virando o liquido nos lábios, fazendo uma careta quando o sentiu queimar em seu esôfago. Micky copiou a ação do outro, e fechou os olhos quando sentiu o rosto se aquecer e o mundo a sua volta começar a perder o foco.

– Eu odeio vodca. – Disse Micky.

– Eu sei. – Afirmou Junsu voltando a encher os copos. – Você não gosta de absinto também, mas gosta de uísque e vinho.

– Eu não me lembro do que você gosta. – Afirmou Micky com a voz arrastada, pegando novamente o copo que era oferecido a si.

– Não precisa lembrar. – Afirmou Junsu virando sua dose.

– Qual o problema comigo, Junsu-ah? O que eu tenho de tão errado?

– Você tem uma personalidade terrível, Micky e um orgulho que é difícil de engolir. – Afirmou Junsu.

– É eu tenho mesmo. Não tem nada de bom em mim, Junsu-ah? Porque ele prefere passar a semana toda com o bonequinho de porcelana e eu… e eu? Onde eu fico nessa história?

– Eu sabia que era isso o que te incomodava. – Afirmou Junsu com ar triunfante. – Eu sabia que era a atitude dele.

– Não me julgue, apenas me ouça. – Pediu Yoochun, e Junsu apenas assentiu em silêncio. – São três anos de namoro, Junsu-ah, três anos que estão sendo jogados no lixo porque de repente ele se tornou inseguro, de repente eu não interesso mais pra ele. Nós vivemos tantas coisas juntos, nós passamos por…

Em um momento de lucidez, Yoochun se lembrou de quem realmente era o homem com quem ele conversava. Era o mesmo Junsu que anos antes o dera flores no dia dos namorados e o levara para ver os fogos de um festival nacional do alto de um arranha céus . Era o mesmo Junsu apaixonado de quem Yunho lentamente o tirara dos braços, até que ele não mais aguentou e fugiu para outro país com o coração aos pedaços.

Na época, Yunho não era uma má pessoa e estava tão apaixonado por ele quanto Junsu, mas seu namorado sempre fora o mais racional e sua racionalidade venceu o sentimentalismo de Junsu. Eles eram demasiadamente jovens e logo descobririam os problemas da vida adulta a dois, mas na época, Yunho pareceu-lhe a melhor escolha. Ele era mais forte, mais maduro e mais centrado do que o pobre Junsu que agora estava ali sentado a sua frente.

Junsu não entendeu a pausa do rapaz e por alguns instantes acreditou que este se sentia mal, provavelmente por causa da bebida. Ele empalideceu e o contorno de seus lábios ganhou um tom esbranquiçado. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ele não fez esforço algum para impedir que estas rolassem. Seu lábio inferior tremia descontroladamente, a medida que ele se esforçava para não soluçar. Finalmente Junsu concluiu que Yoochun não estava nauseado e sim, chorando.

Yoochun não chorava em público, aquela situação era por demais humilhante e Junsu sabia perfeitamente disso, afinal, após anos, ele ainda conhecia aquele homem como a palma de sua mão. Junsu se pôs em pé, enquanto Yoochun ainda lutava contra a vontade de soltar seu pranto aos gritos, e acabou por se levantar juntamente com o outro, imaginando que este desejava se despedir de si.

Junsu o enlaçou pela cintura e tratou de guia-lo pelo local, sendo que as lágrimas não o permitiam ver para onde iam. Ele foi guiado para a parte dos fundos do bar, e depois uma escadaria, para finalmente se estreitarem por um porão mal iluminado, era a despensa do local. A música ali agora era abafada e o local era mais frio, uma vez que haviam geladeiras espalhadas para manter as bebidas resfriadas.

– Por que aqui? – Balbuciou Yoochun.

– Porque aqui você pode chorar sem medo.

“Eu não quero chorar…” e mais uma vez a voz de Micky soou falha e sua sentença terminou com um soluço alto. Ele encurvou o corpo e baixou o rosto, sendo finalmente abraçado por Junsu que o enlaçou pela cintura e o ajudou a colar o corpo contra si. Seus soluços eram cada vez mais altos, e aos poucos o choro de Yoochun tomou a consistência dolorosa de seus sentimentos.

Micky sentia-se traído e abandonado, e ter as mãos de Junsu em torno de sua cintura era por demais confortador. Ele não estava sendo vingativo, ou tentando roubar o namorado de Jaejoong, ele apenas desejava desabafar e permitir que aquela dor em seu peito, crescesse, se manifestasse, e finalmente desaparecesse. E pelo que pareceu uma eternidade ele chorou, molhando a blusa grossa que Junsu usava.

Quando finalmente seus soluços cessaram, ele ergueu o rosto ainda molhado pelas lágrimas e não encontrou um olhar triunfante ou debochado, apenas Junsu, com seu sorriso discreto e sua aura encantadora. Yoochun enxugou seu rosto com as costas de sua mão e só então cortou o abraço com o outro rapaz que apenas o fitava em silêncio.

– Obrigado, Junsu-ah.

– Não precisa agradecer, suponha que eu fiz isso em nome dos velhos tempos.

– Está bem, vamos deixar assim. Se importa em não contar isso para ninguém?

– De maneira alguma, isso fica entre nós. – Afirmou Junsu, fitando Yoochun se recompor e voltar ao seu costumeiro posicionamento temerário. – Vamos sair daqui, antes que pensem que estamos assaltando o bar.

– Posso te fazer uma pergunta? – Indagou Yoochun, esperando o outro tomar frente para poder segui-lo.

-Claro. – Afirmou Junsu seguindo para a saída do porão.

– Por que você não se despediu de mim antes de ir para o Japão?

Junsu que já estava na metade da escada parou entre dois degraus e virou-se para o rapaz logo abaixo de si. Ele sabia que era o álcool que os levara a ter conversas tão francas como aquela noite, mas não estava de forma alguma arrependido.  Ele suspirou pesadamente e fitou o olhar do rapaz, pesado de mágoas não curadas, além de seu atual sentimento de abandono.

– Porque eu não conseguiria ir, se tivesse que olhar pra você uma última vez. Isso está no passado, Micky, é melhor deixar onde está.

– É melhor assim.

Junsu meneou a cabeça afirmativamente e voltou a dar as costas ao rapaz. Os dois não se demoraram a sair do bar e cada qual pegou um taxi para sua respectiva residência. Pelos meses que se seguiram eles guardaram em segredo tudo o que fizeram aquela noite e os efeitos que aquilo teve nos dois, até que em uma propícia noite, aquilo viria à tona novamente.

Do outro lado da cidade, escondidos pelas paredes de um apartamento de classe média, Yunho e Jaejoong se apertavam no sofá e dormiam tranquilamente. Claro que eles não sabiam que passar mais uma noite juntos faria tanta diferença em seus futuros, mas eles podiam sentir que aquela era uma noite diferente, havia um clima diferente e um tanto assustador para os dois rapazes, por isso a decisão de compartilharem o mesmo local para dormir.

Eles assistiram a um filme qualquer na televisão e não demoraram a pegar no sono, abraçados, e sonharam com um lugar diferente onde, assim como Yoochun desejara, eles não seriam condenados pelo que sentiam. Dormir olhando o rosto de Jaejoong, trazia uma sensação que Yunho jamais sentira em sua vida, e ele acreditava que nem mesmo o mais forte dos alucinógenos o levaria a uma dimensão tão delirante e bonita, quanto passar a noite com Jaejoong, mesmo que seus momentos com ele beirassem o fraternal.

Ele finalmente admitira para si mesmo, em segredo, que o que ele sentia por Jaejoong era algo novo para si, que nem mesmo Micky e toda sua longa história de amor conseguira despertar. Ele desejava vivenciar aquilo, e tocar Jaejoong como homem e não como seu irmão mais novo. No entanto, a realidade estava longe demais do que ele verdadeiramente desejava, e restava a ele, tirar proveito de momentos íntimos como aquele e adormecer ao lado do rapaz sem peso na consciência.

Os dois rapazes alheios em seu próprio mundo de sonhos não perceberam o olhar reprovador de Changmin quando este passou pela sala, a fim de chegar a cozinha e preparar uma xícara de café. Era madrugada e ele queria chegar ao Candy Bar no final do expediente para encontrar seu namorado e leva-lo para casa em segurança, e se possível, dormir com ele como aqueles dois faziam em sua sala de estar.

Ele tomou seu café morno e depois de munir-se de um casaco longo e escuro, e luvas, saiu em direção à garagem para ir buscar seu namorado e surpreende-lo no final da noite. O céu já perdia a coloração escura e ganhava um tom alaranjado enquanto ele dirigia pela fria cidade agora vazia em função do horário e por se tratar de um final de semana. Poucos carros dividiam a via com Changmin que chegou relativamente rápido ao Candy Bar, poucas horas depois de Junsu e Yoochun terem deixado o local.

O segurança já o reconhecia então o deixou entrar prontamente, mesmo o estabelecimento estando fechado, e os clientes agora se preparavam para deixar o local. Changmin atravessou o hall e visualizou seu namorado no caixa ao lado de Sungmin, fechando as últimas contas da noite. Em seguida, de uma das mesas, Hyukjae acenou para ele assim que desviou o olhar de alguns papéis que estavam ali espalhados, os quais ele analisava.

– Changmin-ah, chegou muito tarde, se tivesse chegado antes o Kyu podia ter te feito alguns drinks.

– Eu só vim buscar o meu príncipe. – Afirmou Changmin, se aproximado da mesa.

– Me ajude a levar essas coisas para o escritório, aí você espera o Kyu lá que é mais calmo.

Changmin assentiu e juntou os papéis de controle de caixa sobre a mesa, antes de seguir Hyukjae para os fundos do bar. Por mais que ele tivesse buscado Kyuhyun diversas vezes no bar, ele não havia passado daquela escada circular. Assim que eles adentraram a pequena sala, encontraram Donghae de saída já que ele ajudaria os outros dois rapazes com o fechamento de caixa. Changmin cumprimentou o rapaz apressado e finalmente devolveu a Hyukjae seus papéis.

Hyuk sentou-se na mesa que ele dividia com seu namorado e avisou para Changmin ficar a vontade. O rapaz assentiu fitando toda a decoração a sua volta e por fim se prendendo em algumas fotografias empoeiradas na parede. Changmin se aproximou e deu atenção a cada uma, sem evitar um sorriso bobo nos lábios. Eles tinham expostas ali fotos do bar e de seus funcionários desde que este abrira, anos antes. Na maioria delas, Kyuhyun estava presente com seu belo sorriso.

Havia uma de Kyuhyun, Donghae e Hyukjae em frente ao estabelecimento antes deste virar o bar, havia fotos da estreia e de festas que ali ocorreram ao longo dos anos. O Kyuhyun de dezoito anos não era assim tão diferente daquele que Changmin conhecera, talvez tivesse uma feição mais infantil, o corpo era um pouco mais magro, mais frágil e ele tinha os cabelos escuros cortados em um corte mais apropriado para a moda de quatro anos antes.

O sorriso de Changmin se esvaneceu quando uma das fotos de Kyuhyun chamou sua atenção. Ele estava abraçado a um homem, e tinha a coluna encurvada para trás e um sorriso radiante que poucas vezes ele vira. O homem que o abraçava tinha o corpo voltado para Kyu e seu rosto se recostava a ele, também ostentando um sorriso animado.

Em outra, eles estavam em uma poltrona naquela mesma sala. O homem, aparentemente alguns anos mais velho que Kyuhyun estava pomposamente sentado em uma poltrona e o namorado de Changmin estava sentado sobre sua coxa com os braços cruzados e um sorriso divertido. Ele voltou os olhos e o mesmo homem estava nas antigas fotos do bar, em algumas festas e até mesmo na abertura do local, sempre ao lado ou abraçado a Kyuhyun.

– Hyung… – Chamou Changmin, com ar curioso, recebendo a atenção de Hyukjae. – Esse aqui é o Siwon?

Hyukjae levantou-se prontamente de sua mesa e se aproximou do mais jovem, fitando o que ele apontava. O rapaz e Donghae passavam por aquelas fotografias todos os dias e eram raros os momentos em que eles paravam para aprecia-las. Ele até havia esquecido de que Siwon aparecia na maioria delas e agora que era questionado, uma estranha sensação nostálgica tomou conta de Hyukjae.

– É ele sim, o ex-namorado do Kyu. Aqui eles já moravam juntos, mas o Siwon já estava de partida. – Contou Hyukjae apontando uma das fotos. – O Kyu já te falou dele, não?

– Algumas vezes, hyung.

Até então, para Changmin, Siwon era somente um fantasma, alguém que não passava de uma sombra do passado do Kyu, algo como um ser imaginário e um tanto assustador. No entanto, lá estava ele, sorrindo para a câmera com ar simpático apesar de arrogante. Siwon era um pouco mais alto do que Kyuhyun, tinha um belo sorriso, usava o cabelo penteado disciplinadamente para o lado como ele o descrevera.

Era um homem bonito, Changmin não negaria, por um instante no máximo de sua insegurança, ele chegou a pensar que talvez até mais bonito do que ele. Siwon não tinha porte de professor, na opinião de Changmin, mas sim de modelo de alguma revista qualquer e aquele sorriso simpático não demonstravam a rigidez que Kyuhyun descrevera em suas histórias. Changmin somente acordou de seus devaneios quando sentiu os dedos longos de seu namorado repousarem em seus ombros.

– Changminie. – Chamou Kyuhyun apoiando seu queixo no ombro de seu namorado e fitando as fotos que ele e Hyukjae olhavam.

– Oi meu príncipe. – Disse Changmin, apontando a foto em que ele abraçava Siwon. – Não são você e o Siwon aqui?

– Sim. – Disse Kyuhyun colando o corpo ao do outro e o abraçando pela cintura. – Foi pouco antes de o bar abrir, eu acho essa foto horrorosa.

– Por que? Você está tão fofo, dá vontade de morder.

– Você é tão ceguinho. – Disse Kyuhyun entre risos. – Não está com ciúme? Dessa foto?

– Ciúme não, mas acho que um pouquinho de inveja.

– Por quê?

– Porque eu queria ter te conhecido antes dele.

Kyuhyun sorriu divertido e o apertou contra si, escondendo o rosto em seu ombro. Changmin acariciou suas mãos com a ponta dos dedos e deixou o rapaz se afastar para poder fita-lo. Kyu roubou de seus lábios um demorado selar e em seguida o abraçou pelos ombros voltando a se apoiar no rapaz. Como todo inicio de domingo, Kyuhyun estava cansado e sonolento e desejava apenas ir para casa.

Donghae apareceu momentos depois e disse a eles que já havia liberado Sungmin e assim, Kyu também poderia ir para casa. Ele e Hyukjae deixariam a organização daqueles papéis para o dia seguinte e também iriam descansar, afinal, fora uma noite puxada. Kyuhyun se despediu dos dois rapazes e entrelaçou os dedos aos de Changmin para sair dali. No caminho ele contou da chegada de Yoochun ao bar e sobre como ele e Junsu passaram boa parte da noite conversando.

Changmin ouviu atentamente a história do outro e concluiu que os relacionamentos deles não estavam indo como deveriam e que o fato dos dois conversarem mesmo que na base de insultos não era nada bom. Ele contou a Kyuhyun como Jaejoong e Yunho dormiram no mesmo sofá e acreditou que eles deveriam fazer alguma coisa pelos seus amigos. No entanto, se intrometer no relacionamento deles, pareceria demasiadamente desrespeitoso à sua privacidade, portanto eles decidiram esperar por uma decisão mais drástica de um dos lados, antes de agir.

Changmin não demorou a estacionar seu carro em frente ao prédio de Kyuhyun e adentrar o local ainda de mãos dadas com o rapaz. Eles seguiram diretamente para o apartamento do rapaz, onde Changmin deixara um pijama, escova de dente e alguns outros pertences necessários, assim como Kyu fizera em sua casa. O menor deixou seu corpo recair sobre o sofá enquanto Changmin partia para seu quarto a fim de arrumar sua cama.

O rapaz sonolento apareceu no quarto momentos depois e tratou de se despir, seguindo somente de boxer para o banheiro para tomar um rápido banho. Changmin vestiu seu próprio pijama e aproveitou para escovar os dentes enquanto o outro se banhava e assim, os dois saíram juntos do cômodo. Changmin se deitou e deixou Kyu se acomodar em seus braços já trajando seu pijama, para finalmente poder relaxar.

– O bar estava muito cheio hoje, amor? – Indagou Changmin acariciando os cabelos do outro.

– Para um sábado estava até que vazio, mas mesmo assim foi corrido. – Afirmou Kyuhyun deslizando a ponta dos dedos no tórax do outro. – Como foi a exposição da Monroe?

– As fotos eram lindas, Kyu-ah. Ela conseguia ser tão sexy e inocente ao mesmo tempo, é algo incrível.

– Ela era linda, acho que se eu fosse hétero, iria querer uma mulher como a Marylin Monroe para namorar comigo. – Disse Kyuhyun entre risos. – Eu queria ter ido com vocês.

– Nós teremos outras chances, meu príncipe. – Disse Changmin, percebendo que aos poucos Kyuhyun cedia ao sono. – Kyunie, posso te pedir uma coisa?

– Desde que eu possa dormir depois, o que você quiser.

– Amanhã, depois que você acordar, me conta sobre o seu namoro com o Siwon?

– Fazia tempo que você não falava do Siwon. – Constatou Kyuhyun. – Quando nós acordarmos, eu te conto, agora durma, Changminie.

Changmin sorriu ao rapaz e acariciou seus cabelos até que este caísse em seu sono normalmente profundo. O mais alto o observou adormecido até também ser levado pelo cansaço e adormecer ao lado do outro pelas horas seguintes. Com o frio eles se apertaram um contra o outro embaixo das cobertas e desta forma dormiram aquecidos.

Quando Changmin acordou, a hora do almoço já havia passado e Kyuhyun ainda dormia pesadamente com o peso sobre seu braço. Kyuhyun se remexeu e com isso, Changmin conseguiu se desvencilhar do corpo do outro e se sentar na cama, se espreguiçando demoradamente. Ele depositou um selar na testa do outro e finalmente se levantou deixando seu namorado descansar.

Changmin pegou na gaveta que Kyu separara para si uma toalha e não se demorou a adentrar embaixo do chuveiro quente do rapaz. No pequeno banheiro ele ainda se barbeou, trocou de roupas e finalmente saiu dali ainda encontrando seu namorado adormecido. Quando Changmin chegou à sala de estar, e abriu as cortinas da mesma, viu que durante aquela manhã os primeiros flocos de neve haviam se precipitado e se acumulado na soleira da janela.

O céu estava acinzentado e uma camada de gelo cobria as ruas e telhados, ainda fina, mas certamente algo muito bonito de ser apreciado. Ele não ficou muito tempo na janela e logo se posicionou na cozinha para preparar algo para seu namorado comer quando acordasse. Ele deixou a cafeteira ligada enquanto procurava na geladeira do rapaz, ingredientes para um ensopado de carne.

Ele não demorou a começar a cortar alguns legumes e os pedaços de carne que encontrara na geladeira do outro, os cozinhando de acordo com as instruções que Donghae dera-lhe uma semana antes. Kyuhyun acordou ainda cansado, mas o cheiro da deliciosa comida não o permitiu voltar a adormecer. Ele se levantou, mas logo o frio tomou conta de sua pele e preguiçosamente ele se enrolou no edredom e seguiu ao banheiro para escovar os dentes. Sem fazer questão de pentear os cabelos, Kyuhyun seguiu para a cozinha e encontrou seu namorado terminando de lavar a louça.

– Changminie. – Chamou o menor, fazendo o outro se voltar para ele sorridente.

– Meu príncipe já acordou! – Disse Changmin colocando a última faca no porta-louças e se aproximando do rapaz para roubar um selar de seus lábios. – Dormiu bem?

– Dormi sim, eu sonhei que estava em uma festa e as pessoas estavam vestidas como bichos. Era estranho. – Contou Kyuhyun se ajeitando nos braços do mais alto. – Eu tô com fome, Changmin-ah.

– Que sonho esquisito, príncipe, deve significar que você quer ter um cachorro. – Afirmou Changmin o soltando para poder arrumar a mesa. – Eu fiz uma sopa para nós dois.

– Que namorado prendado esse o meu.

Changmin riu do comentário do outro e não se demorou a servir o mesmo com sua refeição e se sentar de frente para ele, a fim de também se alimentar. Kyuhyun comeu calmamente o ensopado do rapaz e aquilo certamente melhorou o seu humor, afinal o aqueceu e o alimentou. Changmin também comeu em silêncio, vez ou outra desviando o olhar para seu namorado que parecia mais do que satisfeito.

Assim que terminaram, os dois deixaram a louça na pia e seguiram juntos para a sala, ligando a televisão em busca de alguma programação que os interessasse. Eles cogitaram sair, talvez ir ao cinema, no entanto havia neve nas ruas e a direção ficava perigosa em dias como aquele. Changmin voltou do quarto com outro cobertor e Kyuhyun ainda estava preguiçosamente deitado no sofá.

Changmin ajeitou-se na outra poltrona e se enrolou no cobertor deixando apenas seu rosto para fora. Kyuhyun o fitou e riu-se da situação dos dois, em pleno sábado trancados em casa como um casal de velhinhos. Changmin estava fitando a televisão que passava um programa de entretenimento qualquer, quando se lembrou da noite anterior. Ele voltou a fitar Kyuhyun que sorria discreto para si e disse:

– Kyunie, me conta a história do seu namoro com o Siwon?

– Eu te prometi né? Já estava me esquecendo. Eu estou com frio aqui, Changminie, vamos para o quarto?

Changmin assentiu e eles seguiram para o quarto. Lá os dois se ajeitaram novamente na cama com mais cobertores e finalmente sentiram-se aquecidos, percebendo que a neve voltara a cair, agora com mais força. Kyuhyun segurou a mão de Changmin por baixo das cobertas e suspirou pesadamente antes de começar a falar.

– Eu acho que não te contei isso, mas a primeira vez que eu beijei o Siwon, nós estávamos na biblioteca e aquele ano eu era o representante da escola nas olimpíadas de matemática. Ele às vezes ficava comigo para me ajudar a estudar e em uma dessas tardes, eu roubei um beijinho dele.

– Você tinha quantos anos?

– Eu ainda tinha treze. – Disse Kyuhyun para o surpreso Changmin. – Claro que eu achei que seria expulso da escola, o Siwon poderia ter me expulsado se quisesse, afinal o que eu fiz era uma grande falta de respeito e o fato de eu ser um menino só piorava a minha situação.

– O que te deu na cabeça pra beijar um professor, Kyu?

– O mesmo que deu na sua quando tentou me beijar pela primeira vez. – Explicou Kyuhyun. – Você já teve essa sensação de que você precisa experimentar nem que essa seja a primeira e última vez. Eu era apaixonado pelo Siwon e tinha vontade de beijar ele toda vez que ele sorria para mim. Eu queria tanto que um dia resolvi testar e não foi ruim. Claro que de cara ele me empurrou, se assustou com a minha atitude, e quando eu estava pronto para sair correndo ele disse: “Não é assim que se beija um homem.” E por fim, me deu um beijo de verdade.

– Vocês começaram a namorar aí?

– Não. Nós continuamos nos beijando escondido e ele me disse que teria uma surpresa se eu ganhasse as olimpíadas, e como eu ganhei, ele me levou no cinema e lá foi o nosso primeiro encontro. Nós continuamos assim, saindo às escondidas, durante o resto do ano e metade do ano seguinte. Eu me tornei monitor na escola e assim, assim tínhamos mais tempo juntos. No final do dia ele me levava para casa e antes de ir efetivamente para casa, nós íamos para um lugar escondido para podermos ficar juntos. Antes que você pense besteira, nós só transamos anos depois, por mais que eu ficasse excitado só com os beijos, você sabe como é, já teve treze anos também.

– Sei muito bem como é. – Disse Changmin entre risos.

– Naquele ano, ele me disse de novo, que teria uma surpresa se eu ganhasse as olimpíadas, e é claro, eu ganhei.  Nós estávamos juntos há um ano.

Flashback

Uma das surpresas de Siwon era que Kyuhyun escolhesse o restaurante que eles comeriam, e é claro, o rapaz optou pelo mais gorduroso fast food da cidade. Ele e Siwon atravessaram a cidade para evitar constrangimentos e como sempre para disfarçar um livro que não seria aberto foi colocado sobre a mesa. Se alguém aparecesse, eles apenas estavam estudando.

Kyu terminou seu cheeseburger duplo antes de Siwon que insistiu em comer apenas nuggets e um copo de Coca-Cola. O adolescente então atacou as batatinhas, satisfeito não somente com o lanche, mas com a companhia de seu querido Siwon que estava silencioso aquele dia. Era comum o professor ficar silencioso quando tinha problemas na escola e por isso o menor não mais o questionava ou insistia para que ele falasse.

– Está gostando? – Indagou Siwon com um sorriso discreto no rosto.

– Uma delícia. – Disse Kyuhyun antes de morder uma de suas batatas. – Aonde nós vamos depois daqui?

– Aonde você quer ir?

Kyuhyun olhou a sua volta em busca de algum rosto conhecido e ao constatar que não havia ninguém, ele pendeu o corpo para frente e disse baixinho, com uma feição lasciva no rosto.

– Eu queria um lugar mais reservado, se é que você me entende.

A risada harmoniosa de Siwon invadiu os ouvidos de Kyuhyun e ele sorriu para o mais velho. Kyuhyun amava aquele sorriso, e quando era destinado a si, fazia seu coração saltitar em resposta e um frio se instalar em sua barriga. O professor se ajeitou na cadeira e acariciou os cabelos do outro com a ponta dos dedos antes de dizer calmamente:

– Iremos nos esconder se assim o meu pequeno gênio da matemática deseja, mas antes, tem algo sobre o qual eu queria conversar.

– O que é? – Indagou Kyuhyun se ajeitando na cadeira e assumindo uma postura mais séria, já que imaginou que eles falariam novamente sobre a escola.

– Eu sei que nós dois andamos ocupados nos últimos tempos, mas eu andei fazendo as contas e reparei que estamos nos encontrando há exatamente um ano.

Kyuhyun arqueou as sobrancelhas com a observação do mais velho. O tempo com ele havia passado tão depressa que Kyuhyun não se dera conta que estava há um ano se encontrando as escondidas com seu professor. O adolescente sorriu animado, afinal, por muito tempo acreditou ser apenas um passatempo para o mais velho. Kyuhyun achava que não era levado a sério, já que Siwon tinha suas regras e não o deixava argumentar em favor próprio, no entanto, com o tempo ele descobriria que aquela era apenas a personalidade do professor.

– Passou rápido não é? – Disse Kyuhyun, com ar sonhador.

– Voando. – Afirmou Siwon, sorrindo. – Eu acho que já está na hora de você conhecer onde eu moro e poderemos ficar lá juntos quando pudermos.

– Vai me levar na sua casa? Hoje?

– E se você conseguir autorização dos seus pais, pode até dormir lá hoje.

– Como é lá, professor?

– É um apartamento normal, Kyu, de homem solteiro. Não tem nada demais, não tem cachorro, nem gato, mas é um lugar bom para nós ficarmos.

– Vamos logo!

– Termine de comer as suas batatas.

Kyuhyun meneou a cabeça afirmativamente e tratou de comer suas batatas com certa pressa, recebendo um sorriso compreensivo do mais velho. Eles não se demoraram a sair dali e tomar o caminho de volta para o apartamento de Siwon. No caminho, com o celular do rapaz em mãos, Kyu tinha a missão de conseguir autorização de seus pais para passar a noite fora. Ele inventou uma história sobre um colega de classe e deu o telefone de Siwon como referência, além de um endereço imaginário a sua mãe e finalmente conseguiu o aval para dormir fora.

Siwon estacionou em um local coberto, em uma vaga reservada para ele no estacionamento aos fundos do prédio onde ele morava. Os dois tomaram o elevador, mas antes mesmo de adentrarem o local, Siwon explicou que se alguém o perguntasse, ele seria o seu sobrinho que o visitaria vez ou outra e Kyu como normalmente acatou a mentira. O problema de namorar Siwon, fora que isso o ensinara a mentir e ele o fazia bem quando precisava.

Kyuhyun adentrou o apartamento no décimo andar logo atrás de Siwon que tratou de acender as luzes e guiar-lhe sala adentro. Siwon tinha um apartamento grande demais para alguém que morava sozinho, sua sala era espaçosa com um tapete felpudo cobrindo toda sua extensão. Seu sofá de canto era de veludo azul e ele tinha uma TV grande para a época. Suas paredes eram adornadas com quadros abstratos e pouco coloridos.

Havia um segundo ambiente na sala que deveria dar espaço para um salão de jantar, mas Siwon o transformara em escritório. Havia uma grande escrivaninha com luminária, um computador e uma grande e confortável cadeira giratória. E cobrindo as paredes estantes enormes de mogno repletas de livros técnicos de matemática que o rapaz colecionara ao longo de sua vida, além de alguns poucos de literatura romântica que Kyuhyun mais tarde devoraria como passatempo.

Kyuhyun olhou tudo à volta se atentando aos diversos detalhes do local, como as longas cortinas escuras ainda fechadas e o belo lustre de cristal da sala. Ele sorriu para Siwon que o puxou pela mão para que ele pudesse conhecer o resto do apartamento. Ele também tinha uma cozinha grande, com um fogão de seis bocas, uma grande geladeira e um micro-ondas de última geração que Siwon explicou ter sido um presente.

Eles adentraram um corredor escuro, com porta-retratos menores que mostravam fotos de Siwon nos mais diversos momentos de sua vida, como sua formatura na faculdade ou o aniversário de quinze anos de sua irmã e finalmente eles chegaram ao quarto do rapaz. Era o único quarto do apartamento, e era tão espaçoso quanto os outros cômodos. Tinha uma cama de casal centralizada, um guarda-roupa de cinco portas, cômoda com várias gavetas, um grande espelho de corpo todo e um criado mudo que expunha uma garrafa de água e um livro.

– Você vai dormir aqui comigo, eu não tenho quarto de hóspedes.

– Me deixa ver se eu aprovo a sua cama.

Siwon riu-se do comentário do rapaz e o observou retirar sua mochila dos ombros e se sentar sobre a cama, dando alguns pulinhos para testar o colchão. Siwon sentou-se ao seu lado e apoiou o braço forte em seu ombro, beijando o topo de sua cabeça várias vezes. Kyu ergueu o rosto e eles uniram os lábios em um demorado beijo, antes de o adolescente dar continuidade ao seu assunto.

– Nós vamos transar hoje, não vamos?

– Eu não falei nada sobre transar, Kyu.

– Por que não? Se vamos dormir na mesma cama, qual o problema?

– Qual o problema? Kyuhyun, você lembra a última vez que eu tentei tocar você de forma mais íntima?

Kyuhyun corou violentamente quando Siwon fez tal comentário, e finalmente desviou o olhar para suas próprias coxas. Da última vez que ele insistira para transar com Siwon, ele terminou por chegar ao seu clímax sem sequer tirar uma única peça de roupa. Kyuhyun até conseguia segurar seu orgasmo quando estava sozinho, mas com o mais velho tocando seu corpo, ele não tinha controle algum de suas reações.

– Foi sem querer. – Justificou-se Kyuhyun.

– Eu sei que foi e é por isso que eu sempre te digo que você não está pronto para fazer sexo.

– E quando eu vou estar pronto? Quando você não quiser mais esperar? – Indagou Kyuhyun, emburrado.

Siwon sorriu para ele e soltou o abraço para poder se levantar e ajoelhar de frente para o mais novo. O professor desamarrou e retirou os sapatos dos seus pés e os deixou no chão ao lado de sua cama, para por fim guiar Kyuhyun para que se deitasse. O menor o obedeceu ainda decepcionado por não ser aquela noite que teria a sua primeira vez, mas esperou Siwon deitar-se ao seu lado para ouvir a explicação.

– Você estará pronto quando seu corpo estiver preparado para isso, e eu não quero adiantar as coisas. Você vai ter as suas fases, Kyu e eu quero que viva cada uma delas plenamente. Não adianta eu transar com você hoje se nem maturidade pra ficar nu na minha frente você tem.

– Eu não sou mais criança, eu sei como as coisas funcionam. – Afirmou Kyuhyun.

– Kyuhyun, sexo não é a mesma coisa que masturbação. Não é você e os seus desejos trancados no banheiro. Sexo envolve o outro indivíduo, os interesses de duas pessoas, a química, os cinco sentidos e se você não tiver maturidade pra fazer, vai acabar sentindo nojo, vergonha, repulsa ou sentindo mais dor do que deveria e não é assim que deve ser.

– Eu não tenho nojo de você.

– Você não experimentou nem metade do que podemos fazer com o corpo um do outro Kyuhyun, não tem como adivinhar do que você poderia sentir nojo ou não. O que eu tenho certeza é que você não tem maturidade para fazer sexo, e que precisa aprender a controlar o seu orgasmo.

– Você vai esperar? Você é homem, professor, tem os seus desejos, eu não acredito que…

– O tempo que for necessário. Afinal, eu não poderia trair meu namorado, não é mesmo?

Fim do flashback.

– Foi a primeira vez que ele me chamou de namorado e aquilo para mim foi o pedido de namoro dele. Nós estávamos juntos há mais tempo, mas eu só o considerei realmente meu namorado, depois que ele disse que nós namorávamos. Todo o meu relacionamento com o Siwon foi baseado no que ele regrava, nós começamos quando ele quis, transamos quando ele quis e terminamos quando ele quis, eu não tinha voz ativa.

– Quando vocês moraram juntos? Foi naquele mesmo apartamento?

– Foi. Eu amava aquele lugar, porque tudo lá me lembrava o Siwon e o que nós vivemos juntos. Quando acabou eu não consegui passar três dias naquele lugar e fui ficar um tempo com o Donghae-hyung.

– Ele te deixou o apartamento?

– Ele sabia que eu gostava de lá, mas eu não consegui ficar. Ele me deixou o carro dele também e eu dei para o Donghae-hyung. Na época, o bar tinha acabado de abrir e eles não tinham como buscar o estoque, então eu dei o carro do Siwon pra eles, foi como se o Siwon tivesse entrado como sócio no Candy Bar e em troca, eles me deram um emprego e um lar por um tempo.

– Por que você não ficou morando com eles?

– Ter hóspedes é bom, Changmin, mas a longo prazo eles acabam tirando a sua privacidade e eu sabia disso. Eles já cuidavam de mim, me deram um emprego, eu não podia pedir mais a eles. Eu fiquei lá tempo suficiente para alugar o apartamento do Siwon e com a renda, alugar um pra mim e depois de um tempo eu entrei em um programa governamental e consegui dar entrada nesse aqui.

– Você é incrível sabia? Tem a mesma idade que eu e já tem um apartamento próprio e uma história de amor. Parece que eu comecei a viver agora, Kyu-ah.

– Eu fui precoce, isso sim. Não é normal um pré-adolescente se enfiar em um relacionamento tão longo, aos dezesseis eu já estava em um nível que poderia ser considerado um casamento. Pouco antes de fazer dezessete eu fui morar com ele, como eu já te contei, e nós vivíamos como um casal. Dormíamos juntos, eu ajudava nas contas com trabalhos temporários como cuidar de crianças e cortar a grama dos vizinhos, eu fazia trabalhos domésticos e cuidava de plantas, Changmin isso não é tarefa pra um adolescente de dezessete anos.

– E os seus estudos, como ficavam?

– O Siwon era muito mais chato com os meus estudos do que os meus pais. Minhas notas tinham que estar impecáveis, senão ele não me deixava sequer sair de casa. Ele era esperto Changmin, e nunca trabalhou só como professor de matemática. Ele fazia assessoria para empresas que queriam ter ações na bolsa, investia em ações de baixo risco e isso dava um bom lucro. Ele não era rico, mas nós vivíamos bem.

– Devia ser muito inteligente também.

– Eu arriscaria dizer que o Siwon tinha um QI mais alto do que o normal pelo que ele fazia.

– Essa é toda a sua história com ele?

– Resumidamente falando, é sim. Matei a sua curiosidade, Changminie?

– Eu quero saber como tudo terminou.

– Outro dia eu te conto, essa parte é mais difícil. – Afirmou Kyuhyun se aninhando mais contra o outro. – Sabe, eu sou grato a você.

– Por que?

– Você conseguiu me fazer encarar meu passado com outros olhos. Pra mim isso tudo era um agradável pesadelo, que culmina no homem que eu sou hoje, tão chato e perfeccionista quanto o Siwon. Pra você, é um conto de fadas diferente e talvez você não esteja tão errado assim.

– Você é perfeito pra mim, Kyuhyun e eu invejo o Siwon por ter te conhecido antes e convivido com você por tanto tempo.

– Não inveje ele, você vai ter muito mais de mim do que ele.

– Promete?

– Eu prometo. – Kyuhyun escondeu seu rosto a volta do pescoço do outro, dizendo baixinho. – Eu te amo.

Changmin o respondeu com a mesma sentença, no mesmo tom baixo, como se eles fossem cúmplices do mesmo crime. Eles trocaram demorados beijos apaixonados, nos quais suas línguas dançavam e se massageavam, naquela sensação única que eles amavam experimentar. Naquele final de tarde, antes de Kyuhyun ir para o trabalho, eles aproveitaram seus momentos juntos, deixando seus corações se aquecerem e os protegerem do frio da cidade.

Ele finalmente havia ganhado aquela batalha, o passado de Kyuhyun agora ocupava seu lugar de direito e Changmin podia reinar plenamente no coração do rapaz. Changmin sentia-se ainda mais afeiçoado a Donghae e Hyukjae por terem cuidado de seu amado quando ele mais precisou. E agora Kyu tinha a ele, que cuidaria dele sempre que ele precisasse.

Esse dia marcou o fim do primeiro semestre de namoro de Changmin e Kyuhyun. Eles passariam as festas de final de ano separados, afinal Changmin iria fazer companhia a Jaejoong como de costume e Kyu viajaria a Mokpo com Hyukjae e Donghae e eles passariam as festas com os pais do casal. O ano seguinte começaria brilhante para o casal, eles aprenderiam as manias um do outro e se adaptariam para que sua rotina não mais os engolissem como no ano anterior.

E eles continuariam se amando, como na primeira vez que se viram. Apenas não estariam mais escondidos por trás de uma rede de mentiras que encobriria o lado mais bonito de suas vidas. No novo ano, eles seriam publicamente um casal de namorados, e enfrentariam as consequências de suas revelações com orgulho, de cabeça erguida, pois o que os movia em direção ao sucesso, era nada mais nada menos do que o amor que sentiam um pelo outro.

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