Capítulo 19: Intolerância

O frio demorou a se dissipar da capital coreana aquele ano e em fevereiro ainda era possível ter resquícios de neve pela cidade. Changmin teve que dirigir com cuidado naquele dia, e assim chegou em segurança à faculdade para o primeiro dia de aula do terceiro ano do curso de economia. Em seu pulso, reluzia o bracelete que Kyuhyun dera-lhe de natal, em cor prata e de design simples, mas bonito.

Aquele fora um dos natais mais frios que Changmin passara. Longe de sua família e de seu namorado, restou para ele ficar em casa e cear com Jaejoong. Naquelas férias, Changmin aproveitara seu tempo livre para aprender a cozinhar com seu hyung, Donghae. Aos poucos seus dotes culinários estavam melhorando e ele pudera pela primeira vez preparar uma ceia de natal sem comida congelada ou comprada de restaurantes.

Jaejoong aprovou seu pernil ao molho de laranja, assim como o arroz com condimentos que ele havia preparado. Jaejoong ficara responsável pela sobremesa e o mousse de morango do rapaz ficou delicioso, e até mesmo Junsu que os visitou no dia seguinte aprovou o doce. No entanto, Changmin desejava ter passado as festas com seu namorado e que ele tivesse provado da comida que ele preparara com tanto carinho.

Entretanto, ele entendia que Kyu não era assim tão dado às mudanças drásticas e não o obrigaria a deixar suas tradições. Desde que o rapaz saíra de casa, ele passava o natal em Mokpo com os pais de Donghae e Hyukjae. As duas famílias dos rapazes se juntavam na pequena casa da senhora Lee, que assim como seu filho, tinha incríveis dotes culinários e sempre surpreendia a todos os convidados.

Kyuhyun amava aqueles momentos, afinal Hyukjae e Donghae conseguiam fazer com que ele se sentisse parte daquela grande família, mas naquele ano, algo estava faltando em seu natal e ele bem sabia que era a presença de seu querido Changmin. Ele passara apenas cinco dias em Mokpo, mas a saudade que sentiu do rapaz dilacerou seu coração e fez com que os dias se arrastassem.

A volta para a capital era sempre um momento triste para Donghae e Hyukjae que não desejavam sair dos braços de seus pais. E é claro, Hyuk sempre reclamava por não poder levar consigo sua cachorrinha, Choco, por não ter espaço em seu apartamento para ela. Aquele ano, Kyuhyun sentiu-se aliviado com a volta para Seul, pois assim, ele voltaria para os braços de Changmin.

Junsu passou suas festas de final de ano com sua família pela primeira vez em anos, e por isso não pudera fazer companhia ao seu namorado. Ele fora surpreendido quando em sua caixa de correio, um cartão de feliz natal apareceu, tendo como remetente, Yoochun. Certamente, Yunho não sabia do mimo, mas Micky também não sabia que seu namorado comprara a Jaejoong uma bela corrente com um pingente em forma de asa que adornara belamente o pescoço do rapaz.

Yunho escolhera aquela corrente em um belo dia de inverno, em que a neve estava alta. A joalheria era próxima a sua casa e mais de uma vez ele passara por ela sem dar atenção. Uma semana antes do natal ele parou em sua vitrine e viu o belo pingente que brilhava tanto quanto o olhar de Jae em sua opinião. Não havia dúvidas, aquele era o presente perfeito. Aquela corrente deu a Yunho o melhor sorriso de Jaejoong e ele não poderia ter ficado mais feliz.

Changmin não poderia negar, ele e Kyuhyun aproveitaram as férias de janeiro de forma muito apropriada. Eles experimentaram novos restaurantes, foram ao cinema, teatro, museus e outros eventos culturais. Eles mudaram seus cortes de cabelo e agora os fios finos de Kyuhyun ostentavam uma cor castanha e Changmin o achara ainda mais bonito daquela maneira. Finalmente, aquele mês chegou ao fim e o ano letivo chegou.

O rapaz estacionou próximo ao seu bloco e saiu logo ao lado de Jaejoong que trazia consigo sua pequena mochila com poucos pertences, além da reluzente corrente. Os dois amigos se despediram e Changmin seguiu para o bloco de exatas, passando por poucos conhecidos no caminho. Ele seguiu diretamente para a sala de aula indicada no quadro de avisos e não demorou a chegar ao local e o encontrar novamente cheio.

Havia um burburinho no local e poucos rostos eram novos para si. Haviam alguns alunos transferidos de outras faculdades e alguns repetentes que fariam algumas matérias com a turma de Changmin. Ele deixou sua mochila sobre sua carteira e logo seu grupo de amigos sorriram-lhe e acenaram para que ele se aproximasse. Changmin sorriu de volta e se aproximou destes, se apoiando em uma das carteiras do círculo.

– E aí, Changmin-ah, como passou as férias? – Indagou Jonghyun.

– Muito bem. – Afirmou Changmin. – E você?

– Ahh, sabe como é né? Férias é sinal de festa e viagem, então é tudo muito bom. Você viajou?

– Aah não, eu aproveitei o feriado de setembro para ir para a praia, então nesse final de ano fiquei por aqui. É melhor viajar quando está calor, pelo menos eu acho.

– E aí, vocês pegaram alguma dependência? – Indagou um segundo colega de Changmin, este se chamava Changsun.

– Eu peguei final em tudo, e reprovei em duas. – Afirmou o rapaz parado ao seu lado.

– Eu passei direto. – Disse Changmin, sorrindo orgulhoso.

– Mas você também se prostituiu pra passar de ano, né Changmin? – Afirmou Jonghyun.

– Como assim? – Indagou Changmin fechando a cara.

– Ficou pagando de namoradinho do nerd da sala pra conseguir nota o final do ano todo, assim até eu passo de ano. – Disse Jong.

– Changmin, você nunca mais vai conseguir pegar mulher nenhuma depois de grudar daquele jeito no Kyuhyun ano passado. – Avisou um de seus colegas, o qual ele sequer lembrava o nome. – E eu quero ver o que você vai fazer pra se livrar dele esse ano.

– Nossa, como vocês são lerdos. – Disse Changmin rindo desgostoso dos comentários que ouvira. – Eu vou ter que falar com todas as letras, porque vocês ainda não leram as entrelinhas. Eu e o Kyuhyun namoramos, e ao contrário do que vocês pensam, eu não usei ele para ganhar nota. Eu passei de ano porque aprendi a estudar de verdade e não porque abusei da inteligência do Kyuhyun.

– Namoram? Changmin, é sério, essa sua brincadeira já perdeu a graça há muito tempo.

– Eu não estou brincando. – Disse Changmin, indignado. – Por que vocês não acreditam que ele é o meu namorado?

– Porque você é o cara que mais transou com mulher nessa sala. – Exclamou Jonghyun – Você não pode ser… sabe… gay.

– Eu posso sim, tanto que eu sou. Quer dizer, eu devo ser bissexual ou algo do gênero, mas isso não vem ao caso. O que acontece é que eu namoro o Kyuhyun, há sete meses, acreditem vocês ou não.

A sala de Changmin ficou silenciosa com sua declaração e alguns alunos o haviam rodeado e o fitavam com admiração, como se o rapaz carregasse consigo algo raro e poucas vezes visto. O rapaz olhou a volta e cruzou os braços defensivo, pronto para os julgamentos, as perguntas, as acusações. O colega a sua frente finalmente o indagou em tom abismado:

– Foi por isso que você disse que ele não ia dar em cima de mim, porque você era o namorado dele. – Concluiu Changsun.

– E naquele dia você não quis a menina, porque você já tinha alguém. E ficou ofendido quando nós falamos do Kyu… – Completou outro de seus colegas.

– Eu avisei que vocês não tinham lido as entrelinhas. – Afirmou Changmin.

– Tudo bem você ser gay Changmin, desde que você fique na sua. – Afirmou Jong. – Ninguém aqui é obrigado a ver dois marmanjos abraçadinhos.

– Não quer ver, feche os olhos. – Retrucou Changmin. – Eu não vou ignorar o meu namorado porque você tem medo de gostar da coisa.

– Deixa o cara fazer o que ele quiser, vocês não tem nada haver com isso. – Defendeu um dos colegas atrás de Changmin.

– Eu não vou pedir para nenhum de vocês aceitarem o meu relacionamento, eu não preciso de aceitação, mas respeitem a mim e ao meu namorado.

Antes que qualquer um de seus colegas pudesse retrucar, Kyuhyun se enfiou entre eles para alcançar seu namorado. Ninguém havia reparado na presença do rapaz até ele se juntar ao grande grupo no fundo da sala ao ouvir a voz alterada de seu amado. Kyu segurou a mão de Changmin delicadamente e o guiou para fora do círculo, o puxando consigo para fora da sala, sob olhares curiosos.

Changmin seguiu a passos largos atrás de seu namorado e eles somente pararam quando chegaram ao fim do corredor de salas de aula, em um lugar um tanto escondido. Kyuhyun voltou-se para o mais alto e por fim se recostou a uma parede com ar desanimado, afinal ele mal chegara na sala e já encontrara seu namorado discutindo com o mundo sobre seu relacionamento.

– O que houve, Changminie?

– Aish! – Reclamou Changmin. – Eles falaram tanta coisa, Kyu-ah, que eu me irritei.

– Changminie, você não pode se deixar levar. – Explicou Kyuhyun. – Você sabe como as pessoas são intolerantes, não se irrite com tão pouco.

– Você sabe que eu não comecei a namorar com você pra ganhar nota né? Que eu gosto de você de verdade não é?

– Claro que eu sei e não me importa o que eles dizem. Você passou de ano por mérito próprio e porque é muito inteligente. – Disse Kyuhyun sorrindo discreto e o abraçando pela cintura. – Eu sei que você me ama, e sei que as pessoas tem uma visão limitada das coisas.

– Vamos pra sala? O professor já deve ter chegado. – Disse Changmin o enlaçando pelos ombros e o puxando para que caminhasse consigo e finalmente encerrando o assunto. – Você demorou para chegar, meu amor.

– Ah, uma das ruas da casa do Donghae-hyung estava interditada por causa da neve. Ele me deu carona, mas eu teria chegado antes de metrô.

– Você almoçou antes de vir para a aula?

– Claro que sim, o Donghae-hyung fez lasanha de frango com requeijão.

Eles entraram na sala e o atrasado professor ainda não havia aparecido. Eles soltaram os braços assim que atravessaram a porta e Kyuhyun ocupou a cadeira na frente de seu namorado que sentou-se em seu respectivo lugar. Kyuhyun virou-se para continuar a conversar com ele, mas logo alguns colegas pararam ao seu lado e eles desviaram o olhar.

– Changmin-ah, não fica chateado com o que o Jong te falou não.  –Disse Jungsu. – Tudo bem se você quer namorar o Kyuhyun.

-É verdade, eu tenho um primo que é gay e mora com o namorado dele há anos e é um cara legal. – Afirmou o sorridente Changsun. – Enfim, vocês vão no trote?

– Não sei, nós vamos, Kyunie? – Disse Changmin já mais aliviado com a aceitação de seus amigos.

– Acho que não, esse negócio de torturar calouro não é comigo. Se você quiser ir, Changmin, eu não vou me opor.

– Ah, mas eu também não vou lá torturar os calouros, mas leve em conta que a cerveja hoje é por conta deles. – Disse Changsun. – Pensem bem, qualquer coisa avisem que a nossa sala tem mesa reservada lá no bar.

Kyuhyun e Changmin assentiram e seus colegas voltaram para o seu costumeiro lugar ao fundo da sala. Changmin estava satisfeito, afinal ao menos alguns de seus colegas de sala não o tratariam diferenciadamente por conta de sua escolha. Kyuhyun tinha um largo sorriso nos lábios quando seus olhares voltaram a se encontrar, o que fez o coração de Changmin se aquecer ainda mais.

– Viu? Eu disse que você não precisava sacrificar os seus amigos por minha causa. – Kyuhyun repousou a mão sobre a de seu namorado o acariciando ali. – Você quer ir no trote?

– Só se você for comigo.

– Será que é só para o pessoal de economia? Nós poderíamos levar o Jae né?

– O Junsu vem buscar o Jae hoje, acho que eles já tem compromisso. – Afirmou Changmin. – Eu sei que você não gosta muito de bares, mas nós podíamos ir né? Só hoje?

– Tudo bem, meu amor, nós vamos.

– Se ficar chato, nós saímos cedo de lá e pegamos um cineminha depois. – Afirmou Changmin.

Kyuhyun assentiu e já iria comentar sobre um dos filmes que haviam estreado quando o professor entrou na sala a passos largos. Ele os explicou sobre uma mudança repentina na grade e por isso seu atraso. Kyuhyun virou-se de frente e o docente começou a explicar seu histórico como professor e em seguida o programa de matérias que eles abordariam ao longo do ano.

No quadro, Kyuhyun viu que seus colegas escreveram o nome do bar e o horário que o trote ocorreria. Aparentemente eles matariam metade da aula e como a turma toda estaria lá, professor algum estaria na sala. Eles assistiram às aulas e anotaram os conteúdos do ano, em suas respectivas agendas, a de Changmin, mais uma vez fora um presente de seu namorado. Apenas um professor passou pela sala antes que os alunos se levantassem e seguissem para a sala ao lado a fim de surpreender os calouros.

Changmin e Kyuhyun juntaram-se a Changsun os guiaria até a mesa do bar e depois iria para a rua onde os calouros sofreriam com as brincadeiras. Pelos corredores, a confusão era generalizada. Os calouros andavam em filas, enquanto os mais velhos gritavam e os guiavam para fora do prédio. Changmin enlaçou Kyuhyun pela cintura e eles tomaram frente em direção ao bar ao lado de Changsun.

Assim que eles chegaram ao local, foram indicados para os fundos do local, onde grandes mesas estavam separadas para os alunos e eles e algumas poucas pessoas se ajeitaram na ponta de uma delas. Claro que a notícia da confirmação do namoro dos dois havia se espalhado entre as turmas, mas eles já não mais se importavam com os comentários maldosos ou irônicos.

– O que você gosta de beber aqui? – Indagou Kyuhyun, fitando com ar desgostoso o limitado cardápio do local.

– Vodca com gelo e limão. – Disse Changmin, observando o mesmo cardápio. – Hoje vou ficar no refrigerante porque depois vou te levar pra casa.

– Vou te acompanhar então. – Afirmou Kyuhyun. – Eu prefiro beber os drinks que eu faço.

– Como você é metido. – Brincou Changmin, fazendo Kyuhyun rir-se. – Você não me disse o que você e o Donghae-hyung aprontaram hoje de manhã, tirando a lasanha de frango. Aliás, falando nessa lasanha, onde está meu pedaço de direito?

– Está na minha barriga, Changmin. – Disse Kyuhyun entre risos. – Eu comi por mim e por você hoje.

– Seu guloso! – Disse Changmin entre risos. – E o que mais vocês fizeram?

– O Donghae-hyung e o Hyuk-hyung estão procurando uma casa.

– Pra que?

– Pra morar, oras. Eles me disseram que estão cansados de morar em apartamento e o Hyuk-hyung gosta muito da Choco, ele quer ficar com ela. Então eles querem achar uma casa não muito grande, com quintal para a cachorrinha e que seja perto do bar. Eu fui com o Donghae-hyung dar uma volta para ver o que encontramos.

– Alguma chamou a atenção dele?

– Algumas, mas todas elas têm um problema chato. Uma delas não tem portão, e como o nosso bairro é meio perigoso e eles querem ter um cachorro fica impossível. E tem outra que a sala é minúscula e você já viu o tamanho do sofá do hyung né?

– Vi sim, mas não procurem com pressa, vocês vão encontrar algo legal para eles. – Afirmou Changmin, apoiando o braço no encosto da cadeira de seu namorado. – Eu sei de uma casa para alugar aqui perto da faculdade, mas fica meio longe do bar né?

– Fica sim, e eles querem comprar. Eles vão vender o apartamento e usar o dinheiro como entrada em um financiamento. Por isso a casa tem que ser meio que completa, porque se eles ainda tiverem que instalar portões e essas coisas, fica caro demais.

– Fica mesmo, e não é legal eles terem que gastar com isso também. Pesa muito o orçamento.

– Changminie, pede um aperitivo pra gente? – Pediu Kyuhyun, voltando a olhar o cardápio.

Eles dividiram então uma porção de batatas fritas e uma pequena garrafa de coca-cola, até seus colegas chegarem. Eles entraram no local aos gritos e se espalharam pela mesa, comentando sobre o trote. Os alunos da sala de Changmin sentaram-se próximo ao casal enquanto os da turma mais velha seguiram para o outro lado da mesa. Algumas garotas de outras turmas foram chamadas para fazerem companhia aos rapazes.

Kyuhyun e Changmin engataram uma conversa com as pessoas à sua volta e aquilo durou grande parte da noite. As garrafas de cerveja e refrigerante se acumularam na mesa e a medida que o álcool no sangue dos colegas de classe dos rapazes aumentava, seu tom de voz subia assim como a animação das pessoas. Kyu não conversava muito, mas estava feliz em estar ali com seu namorado.

Changmin propôs que eles jogassem sinuca e Kyuhyun prontamente aceitou a ideia, apesar de não ser lá muito bom. O casal seguiu com dois colegas e suas companheiras para a mesa de bilhar em um canto do local. Changsun foi quem distribuiu os tacos, sem deixar de lado as piadinhas sobre o assunto que fez todos rirem, menos o casal. Eles se distraíram com o jogo ao longo da noite, e Changmin e Kyuhyun estavam perdendo pela falta de habilidade do menor.

– Você tem que mirar melhor, Kyu-ah. – Disse Changmin entre risos para o emburrado rapaz.

“Changmin-ah, você lembra de mim?”

Kyuhyun ouviu a voz feminina próxima a eles, indagar aquilo ao seu namorado e finalmente desviou o olhar para a mesma. Era uma moça bonita, deveria ter seus vinte anos pela aparência e um corpo escultural. Os seios fartos preenchiam um decote exagerado e seus lábios estavam pintados de um vermelho sangue. Ela sorria, lasciva e por trás, Kyu percebeu que seus colegas o observavam.

– Não. – Disse Changmin, com sinceridade. Sua feição não era estranha, mas ele não fazia ideia de qual era o nome.

– Sou eu seu bobo, Hyori. – Disse ela, sorrindo mais abertamente. – Nos conhecemos ano passado, aqui no bar, lembra?

– Desculpe, eu não me lembro de você. – Insistiu Changmin.

– Ah, que pena. Aquela noite foi inesquecível para mim, sabe? Só eu, você e aquele motel aconchegante. Foi incrível, Changmin-ah.

– Eu imagino que tenha sido. – Afirmou Changmin desconcertado.

– Nós poderíamos repetir né?

– Desculpe, eu estou namorando.

– Ah, mas eu sei que ela não veio. – Afirmou Hyori. – E o que os olhos não veem, o coração não sente, não é?

– Então é uma pena que eu esteja aqui, não é? – Afirmou Kyuhyun, com a voz alterada.

– Desculpe, mas quem é você?

– Eu me chamo Kyuhyun, mas pra você eu sou o namorado do Changmin. Eu sinto muito te desapontar, mas não é hoje que você vai sair daqui com ele, e no que depender de mim, ele nunca mais vai encostar em você.

– Como é que é? O Changmin virou gay? Eu sinto te desapontar, mas isso é impossível, Kyuhyun-ah. Ele dormiu comigo, transou comigo e foi muito bom, se ele fosse gay ele não ia conseguir nem ter uma ereção. Ele gosta de peitos e não de…

– Ele gosta de mim. – Disse Kyuhyun incisivo. – Agora faça um favor a você mesma, pare de se humilhar e vá procurar alguém que se interesse pelo seu silicone e não se importe com o fato de você ter o cérebro de uma ameba, porque do Changmin você não vai ter absolutamente nada.

– Isso é sério, Changmin? Você vai negar a minha proposta pra ficar com outro macho? – Disse a garota, indignada.

– Você está me constrangendo, moça, vá embora. – Afirmou Changmin, dando as costas para ela e voltando-se para a mesa de bilhar.

“Changmin-ah, eu não acredito que você vai negar fogo. Poxa, a moça tá querendo.”

Nem Changmin, nem Kyuhyun haviam reparado quando Jong se aproximou deles e enlaçou a garota pela cintura. Ele os fitava irônico, com um sorriso maldoso adornando o canto de seus lábios. Changmin o fitou desconcertado, sem saber direito como reagir a tal acusação. Já seu namorado, estava indignado com a situação toda e seus dedos apertavam-se cerrando os punhos ao lado do corpo.

– Jonghyun-ah! – Chamou Kyuhyun com um sorriso irônico nos lábios. – Você acha mesmo que um par de peitos vai me substituir? Você vai precisar de um pouco mais pra roubar o meu namorado.

– Quer mesmo me convencer que o Changmin mudou de time como você Kyu-ah? Que foi só você dar em cima dele que ele cedeu?

– Foi ele quem deu em cima de mim, e eu não preciso te convencer de nada, a opinião de um desclassificado como você não vale de nada para mim. Agora, aqui vai um conselho do cara mais esperto da sala, cuida da sua vidinha medíocre e deixa a mim e o meu namorado em paz.

– Me fala espertinho, qual a sua garantia que o Changmin não vai ter uma recaída? Porque tentação eu sei que não falta, e pra competir com você não precisa muito.

– A minha garantia é que ele transa comigo toda noite. – Disse Kyuhyun, sorrindo mais abertamente ao ver o rapaz desconcertado. – Agora, já que gente vulgar se atrai, porque você não pega essa piranha e faz o mesmo com ela? O Changmin já tem dono, gostando você ou não.

– Fica na tua Jong, é melhor pra você.

Com essa sentença, Changmin agarrou a mão de Kyuhyun e o puxou em direção a mesa. Ele deixou com Changsun que havia se afastado quando a discussão começou, dinheiro para pagar pelo consumo que eles tiveram aquela noite e eles saíram dali a passos largos. Kyuhyun estava irritado, afinal ele nunca estivera assim frente a frente com o passado de Changmin.

Changmin por outro lado tinha uma sensação incômoda em seu interior, por ter sido provocado daquela forma. Era humilhante demais para ele como homem não poder reafirmar sua masculinidade com alguém do sexo feminino. Ser taxado como o afeminado de sua classe não estava sendo nada agradável e aquela multidão impedindo seu trânsito não ajudava em nada.

Com dificuldade eles chegaram ao estacionamento e não falaram até estarem dentro do carro. Kyuhyun jogou sua mochila no banco de trás e cruzou os braços, com ares de irritação. Changmin fez o mesmo, mas ao contrário do que Kyu imaginou, ele não deu partida no carro e sim, recostou a testa contra o volante suspirando pesadamente. Kyuhyun foi quem cortou o silêncio, fitando seu namorado:

– Eu espero que você não esteja assim por causa daquela vadia, porque se for…

– Eu não quero brigar com você. – Disse Changmin em tom baixo. – Eu não me interessei por ela, se essa é a sua dúvida. Sim, eu já saí com ela, já transei com ela, mas isso está no passado e eu não vivo das minhas memórias, Kyuhyun.

– Olha pra mim. – Disse Kyuhyun em tom chateado. – Eu ainda sou o seu príncipe né?

Changmin se desencostou do volante e desviou o olhar para o rapaz. Ele sabia que Kyu não queria brigar e que não era sua culpa se ele se sentia o pior homem do mundo. Changmin escorregou no banco e apoiou o rosto no ombro do rapaz, finalmente fechando os olhos. Ele bem sabia que se existia alguém que deveria consola-lo e que deveria ser consolado, esse alguém era Kyuhyun, e Changmin bem sabia o quão inseguro estava seu namorado naquele instante.

– É claro que você é o meu príncipe. – Afirmou Changmin. – Eu nunca fui tão humilhado em toda a minha vida como eu fui essa noite, Kyu-ah. Ninguém nunca duvidou da minha masculinidade e hoje, eu sequer tinha argumentos ao meu favor. Eu não sou afeminado e você também não é, mas só porque nós namoramos as pessoas acham que eu virei menininha e isso não é verdade.

– Então é isso. – Disse Kyuhyun, já mais aliviado em saber que o assunto da noite não seria aquela moça. – Changmin-ah, você não pode ficar tentando agradar todo mundo, isso não faz bem. Agora, o que eu quero que você entenda é que, independente do que as pessoas pensam ou falam, namorar comigo não faz de você menos homem, assim como eu também não me sinto menos homem com você. A sua opção sexual não afeta a sua masculinidade por mais que todo mundo ache o contrário.

– Eu nunca vou conseguir convencer ninguém da minha masculinidade, vou?

– E por que você iria querer isso?

– Porque é humilhante, Kyu. Poxa, eu sou homem, tão homem quanto eles, quanto você.

– Eu sei que você é meu amor, mas essa sua necessidade de aceitação é quase infantil. – Afirmou Kyuhyun o apertando contra si pelos ombros. – As pessoas que te conhecem e que te respeitam não vão duvidar da sua masculinidade, e são elas que importam. Ano passado você insistia para nós nos assumirmos porque não se preocupava com a sua imagem, por que isso mudou?

– Porque só agora eu entendi as consequências de mudar tão drasticamente a minha imagem e eu não gostei do que eles estão falando. De qualquer maneira, deixar que eles pensem que eu me aproximei de você por interesse é mil vezes pior, porque você é mais importante.

– Eu disse que ia ser difícil, e mesmo que você não esteja pronto, agora não tem volta. Você vai ter que enfrentar, se ainda quiser que eu seja o seu príncipe.

– Claro que eu quero. – Disse Changmin o enlaçando pela cintura e o puxando contra si. – Eu nunca fui tão feliz quanto eu sou com você, não quero que isso mude por causa desses problemas.

– Eu sei que dói, ser o afeminado da sala, o cara estranho, diferente. – Afirmou Kyuhyun, acariciando o couro cabeludo com a ponta dos dedos. – Com o tempo você vai perceber que existem prioridades na sua vida e essa taxação não vai mais fazer efeito em você. Nós dois agora somos a novidade do momento, daqui a pouco, falar de nós dois vai perder a graça.

– Eu espero que isso aconteça logo, nosso ano já não começou muito bem.

– Não se preocupe, vai passar. – Disse Kyuhyun, puxando o queixo do outro para poder selar seus lábios. – E se eu vir alguma vadia olhando para você daquele jeito, arranco o silicone dela com a unha.

– Você ficou tão lindo com ciúme. – Disse Changmin, sorrindo.

– Como você é bobo. – Disse Kyuhyun entre risos, fitando seu namorado afastar o rosto de seu ombro. – Eu estou com fome, Changmin-ah, vamos jantar?

– Onde você quer jantar? – Disse Changmin colocando o cinto de segurança e dando partida no veículo.

– Vamos na delicatessen, comer croissant.

– Depois você vai dormir lá em casa né?

Kyuhyun topou de imediato a proposta do outro rapaz. Eles passaram na delicatessen que tanto gostavam, mas como esta estava fechando eles acabaram levando seus lanches para o apartamento de Changmin. Os dois comeram em frente a televisão, assistindo um dorama de época a qual ambos haviam se afeiçoado, por ter um ator muito parecido com Jaejoong. Kyuhyun já tomava seu suco de caixa quando Changmin também terminou de comer.

Kyu mais uma vez se pegou observando os trejeitos de seu namorado e como ele amava aquele homem. Claro que ele sabia que os fatores externos não estavam ao seu favor, mas ele precisava enfrentar isso apropriadamente. Ele deixou a caixinha vazia no chão ao lado de onde estava sentado e se moveu sobre o tapete até estar de frente para seu namorado, em seu colo. Changmin se surpreendeu com a atitude do outro, mas gostou dos carinhos que recebeu assim que este se sentou em seu colo.

A ponta dos dedos longos de Kyuhyun escorregaram por sua testa, as maçãs de seu rosto, parando em seu queixo e por fim em seus lábios. Changmin suspirou calmamente, o permitindo escorregar as mãos por seu pescoço e as apoiar ali para que seu rosto ficasse voltado para ele. Kyu finalmente o beijou, superficialmente, apenas provando a textura dos lábios do rapaz, sem propriamente sentir seu gosto.

Mais uma vez, depois de um dia terrível eles construíram uma redoma de sentimentos e se entregaram aos beijos e sabores. Changmin bem sabia que dias bons e ruins ainda viriam, tempestades que pareceriam eternas e que seu orgulho ainda seria ferido e dilacerado sem que ele nada pudesse fazer. Ele sabia que a insegurança de Kyu sempre estaria por ali, os assombrando e os lembrando que o que ele vivia não era um conto de fadas. No entanto, ele estava disposto a enfrentar tudo aquilo, se no final do dia ele pudesse voltar para aqueles beijos.

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