Capítulo 22: Changes

O primeiro trimestre daquele ano passou voando diante dos olhos de Changmin e Kyuhyun. As primeiras provas de conteúdo pesado daquele ano passaram, com seu costumeiro stress e em seguida vinham os seminários, artigos e trabalhos. As provas duraram uma semana, e durante esses dias todos os alunos estavam presentes, mesmo os mais assíduos frequentadores de bares.

 

Desde o caso no primeiro dia de aula, Kyuhyun e Changmin se tornaram pessoas relativamente isoladas em sala de aula e não interagiam mais do que o necessário com seus colegas, a fim de evitar constrangimentos. Felizmente as provocações se cessaram naquele dia no bar, apesar deles terem certeza que eram alvos de fofocas entre os alunos mais próximos. Claro que o fato deles começarem a usar alianças causou um alvoroço na sala de aula, mas nenhum de seus colegas se dirigiu a eles para falar de tal assunto.

 

Era a última aula e o tempo naquele dia estava fechado, apesar de não estar chovendo ainda. Assim que os slides terminaram, o professor acendeu a luz e Changmin ergueu o rosto e se espreguiçou demoradamente. Ele estralou os dedos, uma vez que copiara cada uma daquelas palavras a pedido de seu namorado, uma vez que o professor não estava disposto a fazer a gentileza de repassar-lhes por e-mail.

 

Kyuhyun saíra na metade daquela aula para ir à biblioteca, com uma lista de livros que ambos usariam para seus trabalhos seguintes. Changmin ficou responsável por ficar em sala e anotar a matéria, uma vez que Kyuhyun sabia utilizar melhor o sistema de busca de livros da biblioteca. Ele guardou seu material e já se ajeitava para ir encontrar seu namorado, quando o professor decidiu entregar as provas corrigidas.

 

Changmin ficou mais do que satisfeito com o seu 8,5 e quando o professor terminou de entregar as provas, ele perguntou se poderia levar a de Kyuhyun consigo. O docente entregou a folha com um belíssimo 10,0 escrito em vermelho, dizendo um irônico “um dia você chega lá, Changmin”.  O rapaz revirou os olhos e finalmente jogou a mochila sobre os ombros e saiu da sala sem se despedir de seus colegas.

 

Ele já estava na escada quando um trovão anunciando a chuva o lembrou de que seu guarda-chuva havia ficado embaixo de sua cadeira e ele não estava com humor para se molhar. A passos largos ele voltou para a sala de aula onde alguns colega conversavam com o professor e explodiam em risos. Antes de entrar, Changmin pôde ouvir vozes altas e debochadas, que ele bem sabia que falavam de si:

 

– É sério, professor, eles namoram! De aliança e tudo!

 

– Acho que esses dois estão no curso errado, deveriam estar fazendo corte e costura ou algo do gênero. – Brincou o professor.  – Economia não é pra viado.

 

– Nós bem sabemos. O Kyuhyun sempre foi deslocado, mas o Changmin… aish!

 

Sem mais aguentar tais comentários maldosos, Changmin entrou na sala, surpreendendo a todos. Eles pararam de falar imediatamente, assim que o rapaz irrompeu sala adentro, parecendo nada feliz com o que ouvira. O professor, sorriu desconcertado e se levantou da cadeira enquanto o rapaz seguia para seu lugar e pegava o pequeno objeto no apoio embaixo de sua cadeira.

 

– Changmin-ah. – Chamou um de seus colegas.

 

– Sabe… – Disse Changmin assim que levantou o tronco e fitou os outros rapazes à sua frente. – Eu não posso falar muito, pois nunca fui um dos mais dedicados da sala, não dá pra negar que o Kyu tem talento pra economia, mesmo ele sendo… como você chamou? Viado?

 

– Ah, eu não quis ofender.

 

– Claro que você não quis.

 

A voz de Changmin saiu irônica, antes de ele sair da sala, fazendo questão de bater a porta. Não bastasse seus colegas serem homofóbicos, agora ele tinha alguns professores intolerantes também. Seu ano não poderia ficar pior. Quando ele saiu do prédio, o vento soprava forte do lado de fora e as folhas das árvores que adornavam o local se espalhavam pelo chão.  Assim que ele parou na porta, seu celular vibrou em seu bolso.

 

Por mensagem, Kyuhyun avisou seu namorado que o esperaria na cafeteria, e lá ele tratou de comer uma salada de frutas enquanto esperava pelo rapaz. Ele acreditava que não se passara sequer cinco minutos e Changmin apareceu na porta da cafeteria com ares de poucos amigos. Kyuhyun acenou para ele que se aproximou, se desanimando ao ver a grande quantidade de livros empilhados sobre a mesa, dando-lhe dores de cabeça ao imaginar que teria de lê-los.

 

Kyuhyun pulou de cadeira e deu espaço para o rapaz se sentar ao seu lado, logo após este deixar a mochila em uma das cadeiras livres. Changmin acomodou-se ao seu lado e Kyu entregou a ele um bolinho recheado que começara a ser comercializado recentemente na cafeteria. Ele sorriu para o mais alto e selou seu rosto demoradamente enquanto este abria o pequeno pacote e mordia o doce.

 

– Como foi a aula, Changminie?

 

– Normal. – Respondeu o rapaz, ainda chateado.

 

– O que houve com você? Não venha me falar que nada porque…

 

– Eu estava vindo te encontrar, mas esqueci do meu guarda-chuva. – Disse Changmin, deixando o bolinho sem sabor algum sobre a mesa. – Aí quando eu voltei na sala eles estavam falando da gente. Aish, Kyu-ah, por que não nos deixam em paz?

 

– Changminie, seja paciente. – Disse Kyuhyun o abraçando pelos ombros e deixando o rapaz se apoiar sobre si. – O que eles falaram?

 

– Que economia não é coisa pra viado. Quem falou isso foi o professor Kim, um professor!

 

– Você não percebeu, Changmin-ah? Ele é professor novo, quer fazer amizade com todos os alunos e pra se enturmar acaba tendo que falar mal de nós. – Explicou Kyuhyun, acariciando os cabelos do outro com a ponta dos dedos.

 

– Não dá a ele o direito de te chamar de viado, de dizer que o curso não para nós. Você é o melhor aluno na sala, é mais inteligente que todos eles juntos, como ele pode dizer que isso não é pra você?

 

– Eles não se importam com isso, mas eu não me incomodo. – Afirmou Kyuhyun. – Eu tenho você, Changmin, por que eu iria me incomodar com eles?

 

Changmin abriu um sorriso discreto ao ouvir a frase do rapaz, e sabia que conversar com ele acalmaria seu coração. Ele ergueu o olhar e encontrou seu belo namorado o fitando com serenidade, e aquilo o acalmou ainda mais. Era como se o mundo tivesse desaparecido e ele pudesse apenas fitar os olhos amendoados do outro sobre si. Aquele olhar do rapaz despertou-lhe coragem e certa rebeldia:

 

– Me beija.

 

– Aqui, Changminie? Nós estamos na faculdade.

 

– Eu não me importo, meu príncipe, eu só quero um beijo.

 

Kyuhyun riu soprado e discreto e seu riso arrancou um sorriso de seu namorado. Finalmente os dois fecharam os olhos e seus lábios se encaixaram em um beijo estalado e discreto. Nenhum deles se incomodava com os olhares sobre si, eles apenas desejavam provar novamente os lábios um do outro, mesmo que isso provocasse a repulsa de seus colegas. Eles roubaram selares um do outro e finalmente se afastaram, Kyu um tanto corado.

 

Kyuhyun nunca fora adepto de demonstrações públicas de carinho, Siwon o condicionara assim, mas beijar Changmin na faculdade não fora de todo mal, e o sorriso que o rapaz destinou a si apenas fez seu coração acelerar e seu peito se aquecer em um sentimento puro e delicioso. Ele se afastou de Changmin e o deixou se deitar novamente em seu ombro, suspirando satisfeito.

 

Era disso o que Changmin precisava para que o seu dia voltasse a se iluminar, alguns beijos de seu namorado. Kyu o deixou se apoiar em si e apontou os livros que serviriam para Changmin e seus trabalhos tanto individuais quanto os que eles fariam em grupo. O rapaz se afastou de seu ombro, pegando os livros e abrindo um para ler seu sumário com devida atenção. Kyuhyun pegou os que sobraram e finalmente se levantou:

 

– Vamos, nós temos um compromisso para hoje a noite.

 

– Que compromisso, príncipe?

 

– Nós vamos na casa do Hae-hyung ajudar ele a arrumar as coisas para a mudança. Ele me ligou agora há pouco.

 

– Eu estou falando sério, eu também quero ser contratado por eles! – Riu-se Changmin.

 

– Vamos, eu não quero que você dirija na chuva!

 

Changmin riu-se de seu namorado e depois de pegar alguns livros em seus braços, além do que sobrou do bolinho e se levantou ao lado do rapaz. Eles seguiram lado a lado, enquanto ele comia o que sobrava de seu doce, seguindo para o estacionamento. No carro, os livros foram parar no banco de trás, o embrulho do bolinho na lixeira ao lado do veículo e finalmente eles saíram da faculdade. Ele já tomava caminho para o apartamento de Donghae e Hyukjae quando se lembrou da prova do outro rapaz.

 

– Ah, Kyunie, o professor entregou as provas, a sua está na minha mochila!

 

– Quanto eu tirei?

 

– Adivinha!

 

– Aish, fala logo, Changmin-ah!

 

– Você tirou dez, é claro! – Disse Changmin entre risos. – Pega a prova, está dentro da minha mochila!

 

Kyuhyun esticou o corpo e pegou a mochila de seu namorado a deixando em seu colo. Em meio à desorganização do rapaz ele encontrou sua prova e passou a analisa-la, apesar de não ter maiores observações do professor. Ele voltou a guardar sua prova na mochila do outro e deixaria para pegar depois, afinal eles estavam desorganizados dentro do carro. Kyuhyun guardou a mochila do outro e finalmente voltou a falar:

 

– Não foi tão difícil essa, foi Changminie?

 

– Não foi? Kyuhyun eu tirei o meu oito e meio suando viu?

 

– Você suando é tão lindo.

 

– Já levou pra outro lado, né seu safado?

 

– Eu? Imagine, eu nem penso nessas coisas. – Brincou Kyu.

 

– Quando chegarmos na sua casa, você me fala mais sobre o assunto. – Provocou Changmin.

 

– Eu acho que minha boca vai estar ocupada.

 

– Escuta aqui, quer resolver isso? Nós podemos parar no acostamento!

 

– Que safado! – Riu-se Kyuhyun.

 

– Ah, eu que sou safado agora? – Exclamou Changmin.

 

– Você é! – Disse Kyuhyun entre risos. – Changminie, falando nisso, eu posso te perguntar uma coisa?

 

– Claro, príncipe.

 

– Você tem algum fetiche?

 

– Tenho. – Disse Changmin entre risos. – Você quer que eu descreva agora?

 

– Não, nós já estamos chegando na casa do hyung e lá não dá pra falar sobre isso, mas eu quero saber e se não for nada bizarro, nós podemos pensar em fazer né?

 

– Depende do que você chama de bizarro. Tipo aqueles pornôs japoneses entre mulheres e polvos?

 

– Changmin, isso é mais do que bizarro! O que você anda assistindo?

 

– Ahh Kyu-ah, eu só assisto pornô normal tá?

 

– E eu nem sabia que você gostava de assistir pornô! Tá vendo? Nós precisamos falar mais do assunto ao invés de sair se agarrando por aí.

 

– É que nós temos muitos outros assuntos, e só a faculdade toma metade do nosso tempo juntos, o que sobra eu quero te agarrar.

 

– Sem contar os cineminhas, teatros, o meu trabalho, as visitas aos amigos, que vida agitada nós temos Changminie.

 

– Acho que isso é comum para nós universitários né? – Afirmou Changmin estacionando o carro na única vaga livre em frente ao prédio dos dois rapazes. – Chegamos e antes da chuva!

 

– Em casa, nós conversamos melhor.

 

Changmin sorriu ao rapaz e roubou um selar de seus lábios antes de pegar sua mochila e sair do carro sendo acompanhado por ele quando adentraram o prédio dos dois rapazes. O elevador os deixou no andar de ambos e eles mal tocaram a campainha quando um Donghae animado abriu a porta e deixou espaço para que eles entrassem. Eles ainda levariam um tempo para se mudar, mas haviam começado a empacotar aquilo que menos precisavam.

 

Algumas caixas estavam espalhadas por toda a sala e Hyukjae colocava nela os objetos que eles haviam separado, como objetos de decoração, livros e outras coisas que não eram de uso diário. Kyuhyun deixou sua mochila sobre o sofá assim como a de Changmin e ele já seguia para se sentar no chão com o outro rapaz, quando Donghae disse em tom autoritário para que os dois fossem jantar antes de começarem.

 

Eles comeram o delicioso kimchi com arroz e carne ao molho preparado por Donghae antes de se sentarem no chão da sala para ajeitarem os pertences nas pequenas caixas separadas. Eles passaram as horas seguintes entre conversas com os dois rapazes e a arrumação da sala e no final da noite, algumas caixas estavam lotadas empilhadas contra a parede e enquanto Hyukjae terminava de passar fita adesiva em uma delas, Kyuhyun e Changmin sentaram-se separados, debulhando os álbuns de fotografias dos dois rapazes.

 

Eram anos de namoro contados em várias páginas de fotos dos dois com suas famílias, ou sozinhos. Viagens, encontros, aniversários, formaturas, todos documentados naqueles papéis que os fazia mergulhar em uma história tão longa quanto bela. Eles finalmente pegaram o último álbum e Donghae sentou-se ao lado deles no encosto do sofá, fitando as fotos do livro que tinha “Friends” escrito da capa.

 

A maioria das páginas eram do casal com Siwon nos mais diversos lugares na Coréia e nem mesmo Kyuhyun tinha conhecimento daquelas fotos. Ele sabia que Siwon conhecera o país afora na época de sua faculdade, mas não sabia que havia registros de tais eventos. Eles se permitiram observar as fotos, e se perder nas histórias de Donghae, fazendo pela primeira vez Changmin sentir a verdadeira inveja de Siwon.

 

As duas últimas páginas de fotos eles vinham acompanhados de Kyuhyun que aparentemente entrara em suas vidas naquele momento. O jovem rapaz sorria para as câmeras, em sua grande maioria abraçado à Siwon que sempre tinha um porte sério e um tanto pomposo na opinião de Changmin. Na última, os quatro estavam abraçados diante do Rio Han, tal qual uma família feliz em um passeio de fim de tarde.

 

– Você era tão fofo, Kyunie. – Disse Changmin, se espreguiçando assim que o último álbum foi deixado na última caixa.

 

– Agora eu não sou mais?

 

– Não, agora você é lindo e sexy. – Brincou Changmin o abraçando pelos ombros, e finalmente percebendo a tempestade que caia do lado de fora. – Acho que já está tarde né?

 

– Está sim e vocês vão dormir aqui hoje. – Intimou Donghae. – Dirigir de noite e na chuva é perigoso demais.

 

– Claro, amanhã vocês vão pra casa. – Disse Hyukjae se espreguiçando com ar já sonolento. – Levantem daí que eu vou arrumar o sofá cama pra vocês.

 

– Vem, eu vou fazer chocolate quente. – Disse Donghae.

 

– Agora sim eu vi vantagem! – Brincou Kyuhyun se levantando de um salto e puxando seu namorado consigo.

 

– Interesseiros.

 

Kyuhyun e Changmin riram da conclusão de Donghae e seguiram com o rapaz para a cozinha, onde sentados à mesa o observaram fazer o que mesmo depois de anos, Kyu ainda denominava como o melhor chocolate quente do mundo. Eles foram servidos em grandes xícaras e aproveitaram a companhia do mais velho antes de se ajeitarem em seu sofá e adormecerem ouvindo o som da chuva no telhado do prédio.

 

 

 

Em outro canto da cidade, existia um apartamento em que a paz que Donghae e Hyukjae viviam não reinava há anos. Era como viver dia após dia em um campo de batalha no qual nenhum dos lados venceria. E Micky havia se cansado disso, cansado de esperar, de lutar, de ter esperanças de que em algum momento ele acordaria e aquilo haveria sido um pesadelo terrível .

 

As luzes estavam apagadas, com exceção de um abajur de lâmpada amarela que deixava aquela noite ainda mais sombria. Yoochun tinha entre seus dedos uma taça de vinho, e estava sentado no sofá esperando aquele que ouviria seu veredicto, o mais interessado em suas ações e o que mais sofreria com as mesmas. Ele suspirou pesadamente quando ouviu a chave girando a fechadura e dando acesso ao apartamento e finalmente ele sorveu o último gole do vinho.

 

Yunho acendeu as luzes da sala e sequer percebeu que algumas coisas estavam fora do lugar. Ele seguiu sala adentro, finalmente encontrando Yoochun sentado no sofá com os braços cruzados e logo atrás dele, recostado à parede, três grandes malas de viagem contendo os pertences do rapaz. Ele demorou alguns instantes para entender o que acontecia ali, mas quando sua mente fez os devidos cálculos, um nó se formou em sua garganta.

 

– Acho melhor você se sentar. – Disse Micky, finalmente desviando o olhar ao rapaz que se sentou em um sofá separado. – Eu presumo que você já tenha entendido o que está acontecendo.

 

– Vamos conversar. – Disse Yunho, em tom esperançoso.

 

– Calma, nós vamos sim conversar, nada que vá me fazer mudar de ideia. – Afirmou Yoochun. – Eu preciso te dizer, que apesar de tudo, não foi fácil tomar essa decisão, e que eu queria que tudo tivesse sido diferente entre nós.

 

– Eu também queria, mas acho que nós dois concordamos que é tarde demais. – Concordou Yunho.

 

– Yunho, há quase quatro anos atrás nós começamos a namorar e eu seria capaz de dizer que foi do jeito mais errado que existe. Nós éramos jovens e um tanto egoístas.

 

– O que mudou entre nós, Micky?

 

– O Junsu foi embora. – Confessou Micky. – Eu nunca fui uma pessoa maleável, amável ou gentil até conhecer ele. Então ele foi embora e eu me apoiei em você, eu fiz a minha escolha e não acho que tenha sido uma decisão sábia.

 

– Você era uma pessoa melhor quando estava com ele, mas ainda assim, eu amava você e eu queria que você fosse feliz, comigo.

 

– Nós demos certo, Yunho, exatamente por sermos egoístas, o que deu errado foram pequenos erros que foram se acumulando e nos frustrando. Eu vi que estava no final quando você começou a mentir pra mim.

 

– Eu não…

 

– Você se apaixonou por ele desde a primeira vez que colocou seus olhos nele. Tudo bem Yunho, não precisa mais mentir. – Disse Yoochun, amargurado. – Você está apaixonado pelo Jaejoong e engole a seco o relacionamento dele com o Junsu. Eu sei que você está ainda mais amargurado por não ter sido o primeiro homem dele e por não estar ao lado dele. Eu sei que você me trocou na sua mente.

 

– Eu sinto muito, eu juro que não fiz de propósito. Simplesmente, aconteceu. – Confessou Yunho.

 

– Eu entendo o seu interesse, ele é bonito, jovem e tão amável quanto o meu eu de alguns anos atrás. Ele é exatamente o seu tipo, enquanto eu… não. – Yoochun sorriu entristecido. – Eu sinto como se estivesse jogando os meus últimos anos no lixo e como se tudo tivesse sido uma grande perda de tempo. O meu maior e mais dolorido erro.

 

– O seu problema, sempre foi o Junsu,  piorou desde que ele voltou. – Acusou Yunho. – Você nunca se perdoou por ter deixado ele ir embora, por se sentir fraco perto dele, por se entregar tão fácil.

 

– Você também me enfraquece, Yunho. Eu sei que não sou a pessoa mais fácil de conviver, mas você consegue fazer com que eu me sinta um nada com meia dúzia de palavras. Mas acabou, Yunho, eu não aguento mais viver assim.

 

– Eu nunca quis te machucar, Micky.

 

– Eu sei que não. As coisas poderiam ter sido diferentes, me perdoe.

 

Um trovão ressoou alto quando Yoochun baixou o rosto e fechou os olhos, permitindo que duas lágrimas solitárias escorressem por sua face. Yunho se levantou e se sentou ao lado do rapaz, deixando sua mão que suava frio se apoiar na do outro que finalmente a segurou depois de meses sem sequer tocar o rapaz. Micky suspirou pesadamente, engoliu o choro e finalmente voltou a fitar o outro rapaz.

 

– Você não precisa ir embora, eles logo vão desocupar aquele apartamento próximo ao do Jae e aí eu vou poder me mudar.

 

– Eu vou pra Jeju, ficar um mês de férias lá, sozinho. Eu não quero saber de você, ou do Jaejoong  nem de nada que tenha ficado nessa cidade. Você não precisa desocupar esse apartamento a menos que queira, ele é seu, você pagou por ele. Eu não quero esses móveis e tudo o que me interessava já está embalado. O que eu quero, é paz, acho que não é pedir muito.

 

– Não, não é. – Afirmou Yunho.

 

– Acho melhor eu ir, meu trem sai à meia noite e eu tenho mais uma coisa pra fazer antes de partir. – Yoochun soltou a mão do rapaz e se levantou, dando uma última olhada em sua sala de estar antes de pegar suas malas.

 

– Micky, me perdoe. – Pediu Yunho assim que se levantou enquanto o rapaz já ajeitava uma de suas malas.

 

– Quem sabe, com o tempo, nós nos perdoaremos. – Yoochun deixou as malas no chão por alguns instantes e se aproximou do rapaz, o abraçando pelos ombros e tendo seu contato prontamente correspondido. – Adeus, Yunho.

 

– Adeus.

 

A voz de Yunho saiu fraca e ele apertou o rapaz em seus braços antes de solta-lo e deixa-lo ir. Ele fitou Micky seguir a passos lentos para fora do apartamento e bater a porta o deixando sozinho com seus pensamentos. Yunho sequer trocou de roupas aquele dia, ele apenas se deitou em sua cama, sozinho pela primeira vez em anos e adormeceu embalado pela estranha mistura de dor e alívio que aquele término trouxera.

 

Antes de ir para a estação de trem, Micky dirigiu em meio à chuva em direção a um apartamento não muito longe dali, o qual ele havia descoberto o endereço recentemente. Ele correu para dentro do local, fugindo da chuva sem sucesso e perguntou ao porteiro o número do apartamento daquele a quem fora visitar. Já era tarde e ele estava preocupado em pegar o rapaz já adormecido por isso tratou de ir o mais rápido possível para o apartamento.

 

Yoochun tocou a campainha e agora, além do mix de sensações em seu peito, ele também foi tomado pela ansiedade. Quando os passos ecoaram pelo apartamento ele suspirou em expectativa até o trinco girar e revelar Junsu, trajando somente seu pijama. O rapaz arregalou os olhos com a surpreendente visita e por alguns instantes nenhum dos dois soube o que falar, eles apenas se entreolharam, desconcertados.

 

– Boa noite. – Disse Yoochun, quando finalmente criou coragem. – Desculpe, eu não queria te incomodar.

 

– Tudo bem, entra, está frio aí fora. – Disse Junsu, desconfiado, dando espaço ao outro e fechando a porta atrás deste quando este entrou.

 

– Você estava dormindo?

 

– Não, eu estava lendo na verdade. – Disse Junsu apontando um sofá e se sentando em uma poltrona de frente para o rapaz. – A que se deve a honra de sua visita?

 

– Eu vim me despedir na verdade. – Afirmou Micky se sentando de frente para o rapaz.

 

– Se despedir?

 

– Eu lembro bem de quando descobri que você havia cumprido a sua ameaça e partido para o Japão, sem nem sequer me dizer um até mais, aquilo doeu em mim. – Explicou Yoochun. – Eu não vou embora muito tempo, é só um mês, mas eu queria te ver antes de ir.

 

– O que houve, Micky?

 

– Eu terminei com o Yunho, e quando eu voltar nós não vamos mais morar juntos.

 

– Eu sinto muito. – Disse Junsu saindo de seu assento e se ajeitando ao lado do outro rapaz. – Você está bem?

 

– Vou ficar. – Micky sorriu fraco. – Eu estou me sentindo meio bobo de ter vindo aqui, eu vou ficar pouco tempo fora e é logo ali em Jeju.

 

– Tudo bem, eu estou feliz que você tenha vindo. – Confessou Junsu, se ajeitando ao lado do rapaz. – Me desculpe não ter me despedido de você, eu não tive coragem.

 

– Eu não teria deixado você ir e talvez a sua carreira não estivesse onde está agora. Você fez uma boa escolha, por mais dolorosa que tenha sido.

 

– Você também fez uma boa escolha hoje, Micky. – Disse Junsu, acariciando os cabelos do outro. – Eu vou sentir saudades da sua chatice.

 

– E eu do seu sorriso, mas isso nós resolvemos quando eu voltar. – Yoochun puxou o outro pela cintura até que este deitasse o rosto sobre seu peito e se ajeitasse ali. – Agora eu posso te abraçar, sem peso na consciência, sem remorso.

 

– Eu ainda tenho um namorado, Micky, você é que está solteiro e não faz muito tempo. – Riu-se Junsu.

 

– Eu sei, mas nós também resolveremos isso quando eu voltar. – Afirmou Yoochun com confiança.

 

– Não fale essas coisas. – Repreendeu Junsu.

 

– Desculpe, eu não vim aqui te chatear. – Afirmou Micky, permitindo seus lábios se recostarem ao topo da cabeça do outro e logo em seguida o lado de seu rosto, deixando os fios finos do rapaz acariciarem sua face. – Me diga uma coisa, você sentiu muito a minha falta?

 

– Doía como facas perfurando o meu peito e às vezes me dava náuseas. Eu fiquei um bom tempo em uma sobrevida e depois de um tempo perdi a minha capacidade de chorar. Eu cogitei o álcool para afogar minhas mágoas, mas fiquei com medo de entrar por um caminho sem volta então me entreguei de corpo e alma ao trabalho. Uma história clichê não é? O homem amargurado, homossexual enrustido e frustrado que se mata no trabalho, mas ainda assim tem sua felicidade limitada.

 

– Muito clichê. – Afirmou Yoochun o apertando mais contra si. – Hoje, o Yunho me disse uma coisa que era a mais pura verdade. Eu sempre fui egoísta, meu sonho sempre foi ser autossuficiente, não precisar de ninguém, não dever satisfações a ninguém. Eu nunca quis me importar com alguém que não fosse eu mesmo até você aparecer. Você me mudou, me aperfeiçoou e fez isso tão sutilmente que eu não pude evitar. Aí você foi embora, e o Micky que o Yunho conheceu foi desaparecendo junto com você, gradativamente, até chegar ao que eu sou hoje, alguém por quem você jamais se apaixonaria, alguém que você não mereceria ter ao lado.

 

– Sorte a minha que eu não preciso mais me apaixonar por você, que eu não te mereço e nem te desejo. – Junsu ergueu o rosto para poder fitar o rapaz. – Azar o meu se quando você voltar eu descobrir que isso é mentira.

 

– Não diga isso. – Pediu Yoochun, acariciando o rosto do outro. – Você tem um namoradinho, lembra?

 

– Eu tenho sim, um que gosta de outro cara, mas mesmo assim é uma pessoa incrível. Quanto tempo você acha que eu duro com o Jaejoong agora que o Yunho está solteiro? Uma hora, talvez duas? O tempo de ele atender ao telefone e dizer que está pronto para partir para outro relacionamento?

 

– Não seja pessimista, eu nem acho que o Yunho esteja pronto pra outro relacionamento. Ele me machucou, mas eu sei que ele também precisa se recuperar. Aproveite o seu bonequinho enquanto isso.

 

– E depois? – Junsu engoliu seco e afundou o rosto contra o peito do outro.

 

– O que espera? Ficar comigo?

 

Junsu ergueu o rosto com ar sério e brevemente chateado com a ironia no tom de voz do outro. Para Yoochun, ele não havia mudado, ainda era o mesmo rapaz sensível que ele conhecera e por mais que ele se gabasse de conseguir esconder suas emoções, ele conseguia ver o olhar do outro brilhando em algo que remetia a mágoa e desejo, sentimentos tão opostos, mas entrelaçados e carregados em seu peito.

 

– Por que você veio aqui? Por que veio me perguntar do passado? Por que me contou sobre seu término de namoro? O que você quer de mim?

 

– Você ainda não percebeu que é o meu refúgio? Que é a única coisa nessa droga de cidade que faz com que eu me sinta um homem de verdade e não um cachorro vira-lata? Que você é o único que me ouve e acredita em mim?

 

– Então por que me pergunta coisas como essas? Eu não sei o que esperar de você Micky, você é imprevisível, instável e me machucou tanto.

 

– E você acha que não me machucou indo embora? – Condessou Yoochun. – Acha que algum dia eu tive paz por não ter cuidado de você como deveria? Será que você não percebe que o seu destino era ter sido o meu homem?

 

– Por que? – Disse Junsu com a voz rouca e embargada de choro, sentindo seus olhos arderem e se encherem com lágrimas. – Por que você não me disse isso há anos atrás? Por que me disse que não se importaria? Por que mentiu pra mim naquele dia?

 

– Me perdoa. – Disse Micky o agarrando pela cintura. – Eu sei que eu sou um imprestável e sei que se eu estou sofrendo hoje é por causa de todo mal que eu fiz a alguém tão puro quanto você. Eu sei foi como cortar as asas do meu anjo da guarda e jogar ele longe de mim, me desculpe se eu levei anos pra perceber o meu erro. Eu te amei tanto, Junsu.

 

– Você não é imprestável, é um homem incrível, o mais incrível que eu já conheci. – Afirmou Junsu entre soluços. – Eu já te perdoei Micky, mas saber dessas coisas tanto tempo depois me dói, porque eu passei anos acreditando que você seria o homem mais feliz do mundo longe de mim.

 

– Não chore, por favor. – Pediu Yoochun o apertando contra si. – Não chore, porque eu estou ao seu lado agora e eu não vou sair daqui. Mesmo que eu nunca volte a ter a mesma importância ou a mesma influência, mesmo que eu nunca mais volte a ser o seu namorado eu não vou mais sair do seu lado. Eu vou cuidar daquilo que me completa, Junsu, eu vou reparar os meus erros assim que meu coração se acalmar e parar de doer.

 

– Você promete? Não está mentindo pra mim, está?

 

– Não, eu prometo. – Afirmou Micky novamente o apertando contra si e enxugando suas lágrimas com as costas da mão. – Agora eu preciso ir, senão vou perder o meu trem. Quando eu voltar, você será o primeiro que eu vou procurar. Não tome nenhuma decisão precipitada e se cuide enquanto eu estiver fora.

 

– Venha, eu te levo até o elevador. – Disse Junsu preguiçosamente se levantando e ainda soluçando de leve, sendo seguido pelo rapaz. – Você não vai demorar né? E vai se cuidar lá também.

 

– Eu não vou demorar, um mês é mais do que o necessário.

 

– E depois? Onde você vai morar?

 

– Eu vou pesquisar alguns lugares enquanto estiver lá, talvez na volta eu tenha que ficar com alguns tios, mas é temporário.

 

– Você podia ficar aqui né? Podemos dividir as contas. – Ofereceu Junsu assim que eles saíram porta afora.

 

– Acho melhor não, Junsu-ah. Seria precipitado demais eu me enfiar na sua casa, onde você já tem a sua privacidade. Eu vou me dar bem sozinho.

 

– Se algo der errado, pode vir morar comigo, não terá problema. – Ofereceu mais uma vez o rapaz, assim que eles chamaram o elevador. – É solitário aqui, mesmo quando o Jae vem dormir comigo, é tudo tão apagado e frio.

 

– Você sempre foi tão carente. – Disse Yoochun sorrindo e segurando a mão do outro, para poder acaricia-lo.

 

– Eu não sei como o Jae me aguenta. – Riu-se Junsu. – Ele também é carente, sabe? Gosta de abraços e toques de pele.

 

– Quem sabe eu não encontre uma anaconda lá pra abraçar ele até ele sufocar.

 

– Não tem anaconda no nosso país! – Riu-se Junsu.

 

– Tsk, vou ter que importar, não vai ter jeito. – Riu-se Yoochun, vendo a porta do elevador se abrir. – Foi uma noite mais agradável do que eu havia imaginado, mas eu preciso ir.

 

– Micky…

 

Junsu o abraçou pelos ombros escondendo o rosto na volta do pescoço do outro que o envolveu pela cintura com uma das mãos enquanto a outra impedia que o elevador partisse sem ele. Micky beijou a face do outro demoradamente e o fitou sorrindo uma última vez, guardando consigo aquela bela feição antes de solta-lo e adentrar o veículo. Antes de deixa-lo ir, Junsu tinha uma última indagação:

 

– Você vai sentir a minha falta?

 

– Vou pensar em você todos os dias, e quando estiver chovendo como hoje, terei certeza de que você estará pensando em mim.

 

– Faça uma boa viagem, Micky e volte logo.

 

Finalmente ele soltou a porta e Yoochun acenou para si uma última vez antes de desaparecer de sua vista. Junsu sentia seu corpo arrepiado, aquecido e seu coração explodia em uma alegria eufórica que o fez rir sozinho por alguns instantes. Ele voltou correndo para seu apartamento e se recostou à porta, cobrindo o rosto com ambas as mãos, temendo acordar e aquela noite não ter passado de um sonho. Seu destino havia dado uma reviravolta e ele sentia que seu antigo amor, estava a envolvê-lo novamente o deixando preso em suas teias e o fazendo se sentir completo, livre e feliz.

 

Micky pegou o trem exatamente a meia noite daquela noite chuvosa e seguiu para a belíssima ilha turística onde se refugiaria dos últimos acontecimentos de sua vida. Ele usaria a natureza ao seu favor e o silêncio e a solidão seriam o bálsamo que curaria suas feridas mais recentes, enquanto as mais profundas desapareceriam com o tempo. Ele não esqueceria Yunho, afinal por muito tempo ele fora parte crucial de sua vida, e os erros que cometera neste relacionamento ele jamais cometeria de novo.

 

Finalmente, ser sincero com Junsu, deixar suas ironias de lado e enfraquecer-se com aquele rapaz em seus braços seriam suas forças para se reerguer e voltar a Seul depois de trinta longos dias. Nos dias de chuva com uma xícara de café em mãos e a brisa do mar empurrando as cortinas brancas em seu quarto de hotel, ele se lembraria de Junsu, do seu cheiro, seu sorriso e ele teria certeza que o rapaz também estava pensando em si. No último dia, ele entenderia que o tempo e outros relacionamentos não apagam o verdadeiro amor, ele apenas adormece na esperança de ser revivido.

 

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