Capítulo 26: Finally

Foram duas longas semanas de recuperação para Changmin e Kyuhyun. Eles ficaram hospedados no pequeno apartamento de Kyu que de repente ficou pequeno demais para suas visitas, e para acomodar Donghae e Hyuk que ficavam mais tempo lá do que em suas próprias casas. Na primeira semana, os dois mais velhos faziam grande parte dos serviços domésticos antes de seguirem para o trabalho, até que finalmente os dois pudessem andar sem maiores dificuldades.

No primeiro final de semana, eles já conseguiam se virar sozinhos e já cuidavam um do outro. O mais difícil fora sair de casa, já que no domingo, Jaejoong e Yunho os levariam para caminhar em um parque, acreditando que ar puro faria bem aos dois rapazes. Seguir para as ruas depois do que aconteceu foi outro desafio.  Levou um tempo para que a insegurança dos dois passasse e eles deixassem de desconfiar de todos que passavam por eles nas ruas.

Claro que o ocorrido os tornara mais prudentes, eles não mais andavam por lugares abandonados, mal iluminados ou suspeitos. Mesmo antes de voltar a trabalhar, Kyu combinou que todas as noites Hyuk o deixaria em casa ou em outros casos, Changmin iria busca-lo e eles voltariam de carro. Kyuhyun se preocupava quando seus amigos se mudassem para a nova casa, que os deixaria mais longe de si, no entanto Donghae disse que mesmo que estivessem morando em outra cidade, eles não iriam abandona-lo.

No começo da segunda semana o chefe da polícia voltou a procura-los, afirmando ter prendido uma gangue suspeita de tê-los atacado. Eles pediram novas informações como a altura aproximada de alguns membros e se eles se lembravam de mais algum detalhe como os olhos e finalmente eles comentaram sobre o sotaque carregado que o homem que lhes falou tinha. O policial suspeitava de um norte-coreano refugiado em seu país e que estava entre os capturados.

Changmin e Kyu ficaram satisfeitos com a possibilidade de terem sido presos os homens que os maltrataram, e desta forma sentiram-se mais seguros. O humor de Changmin, no entanto, somente melhorou quando ele finalmente conseguiu restaurar seu dente e assim, ele podia sorrir com mais confiança. Kyu jurava-lhe que a falta de um de seus molares não era visível, mas o vaidoso rapaz não se deu por satisfeito até colocar uma prótese de porcelana no lugar, Changmin tinha orgulho de seu sorriso e não queria que aquilo mudasse.

Somente no final da segunda semana, Changmin conseguiu voltar ao seu apartamento, sob protestos de seu namorado que desejava mais de sua companhia. Ele adorava ficar com Kyuhyun, mas seu apartamento era pouco espaçoso e eles tinham que fazer malabarismos para conviver juntos ali e com Donghae e Jaejoong passando a maior parte de seu dia com eles, esse espaço ficava ainda mais limitado.

Kyu ficou triste ao ver seu namorado voltar para casa, mas sabia que ele sentia falta de seu espaço e de suas coisas. No final da segunda semana Changmin voltou para seu apartamento, onde precisava se organizar rapidamente para a volta as aulas na semana seguinte. Ao mesmo tempo, Kyu tivera autorização para voltar ao trabalho e isso certamente o renovou. Ele trabalhava desde os dezessete anos e ficar tempo demais sem fazer nada o incomodava.

Claro que ele tivera suas restrições. Ele ainda não podia consumir álcool, não podia ficar muito tempo sem ir ao banheiro e tinha que consumir muito mais água do que estava habituado. Mesmo Sungmin que o visitara diversas vezes ao longo das duas semanas, sempre com Henry em seu encalço, sentia falta do rapaz no bar e os clientes sempre perguntavam os motivos de sua ausência.  Na noite que ele retornou, todos o desejaram boas vindas, o fazendo sentir-se especial.

Changmin ainda não voltara ao Candy Bar, afinal, passara as duas últimas semanas prometendo a Jaejoong que ligaria para conversar com seus pais. Ele não desejava preocupa-los e muito menos contar naquele momento sobre seu relacionamento com Kyuhyun, afinal, seu psicológico ainda estava debilitado demais para assumir algo assim. Quando ele conversou com os dois, afirmou se tratar de um assalto o que também deixou-os preocupados, mas ele não tinha como evitar isso.

Sua mãe por longos minutos insistiu em ir visita-lo, mas Changmin a garantiu que não tinha motivos para sair do país, afinal ele fora bem cuidado por Jaejoong e seu novo amigo Kyuhyun. Sua mãe fez diversas perguntas sobre seu novo amigo, mas terminou satisfeita ao saber que Changmin tinha novas companhias. Ela não gostava de seus colegas de faculdade e os achava uma má influência para seu filho. Changmin amava seus pais e falar com eles tornou mais real o medo de sua reação quando ele finalmente contasse a verdade.

Jaejoong foi quem o convenceu em não sofrer por antecipação, e que era pouco provável que seus pais voltassem do Japão nos próximos meses. Changmin nunca fora tão grato pela amizade daquele rapaz, ele cuidara de si como um irmão faria e ele ainda não fazia ideia de como agradecer. Jae abandonara seus raros momentos com Yunho, assim como os passeios com seu namorado para ficar consigo e ele sabia que aquilo significava muito.

Quando Changmin finalmente voltou para casa, ele o disse para voltar a dar a atenção para seu namorado e passar mais tempo com ele. Jae quase não falava de Junsu e Changmin tinha a impressão de que o rapaz continuava insatisfeito com seu relacionamento. Ele o indagara durante os últimos dias, mas este sempre fugia do assunto e tratava de falar da recuperação de Changmin.

Com o intuito de voltar a dar atenção para seu namorado, Jaejoong se ofereceu para ajuda-lo a  pintar seu quarto, já que este havia enjoado do branco e escolheu uma tonalidade creme para toda sua casa. Ele deixara Changmin sozinho e dirigira até o apartamento de seu namorado que desde muito cedo retirara os móveis de seu quarto e espalhara jornais pelo chão para finalmente manusear o pincel em forma de rolo. Junsu pretendia mudar a cor do apartamento todo, mas começaria por seu quarto e depois que este secasse ele passaria para a sala e assim por diante.

Era um sábado quente, o primeiro desde o ocorrido que ele conseguiria passar todo com Junsu. Nas últimas semanas eles se falaram por telefone e o tempo que passaram juntos era na casa de Kyuhyun os ajudando e fazendo companhia aos mesmos. Mesmo que ele fosse passar o dia todo trabalhando, era bom ter um momento a sós com seu namorado. Ele chegou a casa e Junsu havia deixado a porta e todas as janelas abertas para que o cheiro forte se dissipasse com mais facilidade.

Jaejoong bateu na porta e o chamou pelo nome, ouvindo em resposta um grito do quarto para que ele adentrasse o local. Jae encontrou seu namorado sobre o terceiro andar de uma escada, deixando seu pincel no apoio da mesma antes de descer e cumprimenta-lo. Junsu o enlaçou pela cintura e selou seus lábios demoradamente, afagando seus cabelos antes de se afastar sorrindo discreto.

– O Changmin não veio?

– Ele quis ficar em casa, foi lavar as roupas que ele não deixou o Hae lavar. – Afirmou Jaejoong. – Ele já está bem melhor.

– E você veio todo arrumado me ajudar a pintar, vai sujar a sua roupa toda. – Riu-se Junsu.

– Eu trouxe uma, onde eu posso me trocar?

– No banheiro é melhor. – Afirmou Junsu. – Vá logo, você está atrasado!

Jaejoong riu-se dos comentários do rapaz e o deixou novamente sozinho. Junsu havia acordado melancólico naquele sábado. Uma vez que não havia mais nele a preocupação com seus dois amigos, ele voltou a se preocupar não somente com sua rotina, mas com seu relacionamento não mais tão forte quanto antes e com aquele que ele fingia ignorar, mas de quem sentia tanta saudade que parecia que seu coração iria se dilacerar.

Junsu não queria preocupar Jaejoong, o rapaz era naturalmente inseguro e se soubesse de seus novos sentimentos poderia não se afeiçoar a eles. Jae voltou com uma calça moletom com mancha de agua sanitária e uma camiseta com a estampa desbotada, e tratou de se sentar no chão e com um pincel pequeno, mudar a cor do rodapé já que seu namorado tinha somente uma escada.

A manhã passou rápida e ensolarada, com uma brisa que os ajudava a não ficarem tontos com o cheiro forte da tinta. Eles conversaram sobre os mais diversos assuntos, coisa que há muito não faziam, em função de seus compromissos. Eles falaram sobre tudo, menos sobre seu próprio relacionamento, ou sobre o fato deles se verem e se falarem muito menos do que no início do namoro. Eles ignoraram os problemas e trataram de curtir a presença um do outro.

Eles terminaram a primeira parede exatamente na hora do almoço e depois de lavarem as mãos Junsu tratou de preparar sanduíches para os dois se alimentarem e eles o fizeram em frente a televisão. Eles riram do programa de entretenimento que passava e só voltaram para o trabalho quando a pequena jarra de chá gelado de maçã com canela que Junsu preparou estava completamente vazia.

E eles voltaram ao trabalho, agora renovados. Enquanto Jaejoong cuidava da parte mais baixa, Junsu pintava a parte de cima. Eles continuaram conversando até que no meio da tarde, alguém bateu à porta de Junsu que ainda estava aberta. Eles se entreolharam surpresos e logo o dono do apartamento desceu das escadas, fitando seu namorado ainda surpreso.

– Está esperando alguém, Junsu-ah?

– Na verdade não. – Confessou Junsu. – Eu volto logo.

Jae meneou a cabeça afirmativamente e voltou para seu trabalho agora silencioso, no entanto, a voz que ouviu cumprimentar seu namorado animadamente o fez sentir um arrepio na espinha. Junsu mal podia acreditar no que seus olhos viam, parado à sua porta, com um embrulho nas mãos estava Yoochun. Ele correu em direção ao rapaz e sem pensar o envolveu pelos ombros em um abraço apertado que foi discretamente retribuído.

– Micky! Você voltou!!

– Eu disse que voltava, não disse?

– Não acredito!

Yoochun fitou aquele belo sorriso assim que o rapaz se afastou tocando seu rosto, como se tivesse que comprovar que ele era real. Ele não estava nada diferente da noite em que estivera em seu apartamento, com exceção de seu cabelo pouco mais comprido e a feição serena e não atordoada de um homem que acabara com um longo relacionamento. Micky acariciou seus cabelos e finalmente o indagou:

– Por que a porta está aberta?

– Eu estou pintando o meu quarto, com o Jaejoong.

– Ah, acho que não vim em uma boa hora.

– Não! – Disse Junsu o segurando pelo pulso e o guiando até a sala, onde Jaejoong o esperava. – A hora é perfeita.

– Boa tarde, Yoochun-hyung.

– Boa tarde. – Respondeu Micky friamente. – É sério, Junsu-ah, eu só vim entregar o seu presente e já estou de saída.

– Você não sai daqui sem tomar uma xícara de café e o Jae pode…

– Não, eu vou continuar pintando, é melhor terminarmos antes.

Com essa resposta evasiva, Jaejoong voltou ao quarto. Ele não desejava ficar muito tempo no mesmo cômodo com aquele rapaz e não se importava com o tempo que seu namorado passaria com o outro, afinal este sempre fora muito paciente com sua amizade com Yunho. Micky soltou um muxoxo, afinal a última pessoa que ele esperava ver novamente era o namorado de Junsu.

– É só um café. – Insistiu Junsu. – Vamos?

– Só uma xícara, depois eu vou pra casa. Tenho muitas coisas pra arrumar.

Junsu sorriu animado com a resposta afirmativa do rapaz. Ele o puxou pelo pulso até sua cozinha, onde preparou a cafeteira. Micky sentou-se à mesa e tratou de observar o local onde nunca havia estado. Assim que o bip do aparelho deu o sinal de que o café estava sendo preparado, o rapaz sentou-se de frente para o outro que empurrou o pacote que carregava. Junsu o pegou e com cuidado soltou as fitas adesivas rindo-se quando viu o conteúdo:

– Um golfinho rosa de pelúcia? Sério mesmo, Micky?

– Eu juro que eu procurei em todo canto um cinza, ou sei lá, um com cor de golfinho, mas só tinha esse. E ele faz barulho quando aperta a nadadeira.

Junsu riu mais alto com o comentário do rapaz e tratou de apertar a nadadeira para testa-lo, negando com a cabeça quando este imitou o som que os golfinhos emitem. Ele o deixou sobre a mesa e se levantou, abraçando o rapaz pelos ombros, deixando que seus dedos acariciassem os cabelos finos do mesmo.

– Eu adorei.

– Eu não sou criativo pra presentes você sabe.

– Eu adorei o fato de você ter se lembrado de mim também. – Confessou Junsu dando-lhe as costas e desviando o caminho em direção a cafeteira que já sinalizava que o café estava pronto. Ele o serviu em duas xícaras e voltou a se sentar de frente para o rapaz. – Sabe, Micky, eu não quero parecer chato, mas você disse que voltava depois de um mês e já se passaram três meses. O que aconteceu?

– Não aconteceu nada. Quer dizer, no final do primeiro mês eu encontrei um fornecedor para a empresa que eu trabalho e fiquei lá para as negociações. Eu estive trabalhando nos últimos dois meses. – Explicou Micky, bebericando da xícara a sua frente. – Sentiu a minha falta? O seu namoradinho não deu conta?

– Não começa, Micky. – Disse Junsu com ar chateado. – Você já sabe as respostas, não precisa ser sarcástico.

– Por que ainda está com ele? – Indagou Yoochun agora sério.

– Não tenho porque terminar. – Confessou Junsu. – Você vai mesmo ficar com os seus tios, não quer ficar aqui comigo?

– Vamos lá no seu quarto perguntar o que o seu namorado acha de você me hospedar aqui. – Disse Yoochun amargurado. – Melhor eu ficar com os meus tios, é temporário, logo eu acho um lugar para mim.

– Ele não iria se opor. – Defendeu-se Junsu. – De qualquer maneira, se cansar dos seus tios, já tem um lugar pra ficar.

– Vou dispensar, obrigado. – Disse Micky repousando a mão sobre a do outro. – Você parece cansado.

– Você soube do Changmin e do Kyu?

– Não.

– Eles foram atacados, e espancados. Foi horrível, eles se machucaram muito. – Afirmou Junsu, acariciando a mão do outro com a ponta dos dedos.

– Como? O que houve? Por que? Eles estão bem?

– Estão sim, o Jae, o Hae e o Hyuk cuidaram dos dois nessas duas ultimas semanas. Eles bateram nos dois porque eles estavam andando de mãos dadas, logo eles que são tão discretos.

– Eu vou visitar o Kyu assim que eu arrumar as minhas coisas. – Afirmou Micky, mais para si que para o outro.

– Ele está bem, são dois corajosos. – Disse Junsu, sorrindo discreto. – E se gostam tanto, me lembram eu e você no começo.

– Eles são um pouco menos bobos eu diria. – Riu-se Micky. – E você? Como ficou por aqui?

– Ah, bem. Eu só tenho saindo menos, e  estou vendo menos pessoas, deixando o Jae ficar mais com o Yunho. – Confessou Junsu. – Eu ando meio chato pra muitas coisas na verdade.

Micky riu-se do comentário do rapaz, mas logo seus olhos recaíram sobre este que bebia de sua pequena xícara de café. Ele não conseguiria descrever com palavras o quanto sentira falta daquele rapaz e o quanto desejara estar com ele e também sabia que o rapaz sentira saudades, que estava preocupado com sua falta de notícias e carente de sua atenção em específico.

– Como estão as coisas no trabalho? – Indagou Yoochun.

– Chatas, repetitivas, como todo trabalho. – Afirmou Junsu, tomando seu último gole de café. – Meu café acabou, sabe o que isso quer dizer?

– O que?

– Que eu vou ter que encher a minha xícara de novo e como bom anfitrião vou encher a sua também. – Junsu sorriu-lhe esperto e tratou de pegar a cafeteira e se aproximar da mesa.

– Você vai deixar o seu namorado sozinho trabalhando pra ficar comigo?

– Ele não vai se importar. – Riu-se Junsu. – É a última xícara.

– E eu falei que seria só uma. – Riu-se Micky o deixando servir-lhe outra xícara de café. – Sabe, teve um festival tão bonito em Jeju enquanto eu estive lá. Tinha comida típica e dança e os fogos de artifício no final. Eu queria que você estivesse lá para ver comigo.

– Quem sabe um dia. – Afirmou Junsu com ar sonhador. – Por agora eu estou feliz que você tenha voltado pra mim.

Junsu falou sem pensar e assim que se deu conta da frase que saiu de seus lábios ele arregalou os olhos, fitando o sorriso sugestivo do outro rapaz. Rapidamente ele tratou de corrigir sua sentença, negando com a cabeça, como se tentasse convencer o outro de que havia cometido um erro.

– Pra Seul! Você voltou pra Seul!

– E pra você, Junsu. – Confessou Micky. – Eu tive uma boa oferta de emprego lá em Jeju, de um dos nossos fornecedores. Acha mesmo que eu queria voltar pra essa cidade quando poderia ter ficado por lá? Voltar para o caos e a frequentar os mesmos lugares que o Yunho? Dar de cara com esse pivete com quem você anda trepando e ainda ter que me fazer de polido? Jeju é um lugar incrível e você sabe que eu gosto do mar.

– Você devia ter ficado lá Micky se isso te faria mais feliz. – Defendeu Junsu.

– O que não tem em Jeju e que não me permite ficar lá, é você. Eu não poderia ficar sabendo que você estaria aqui, ao meu alcance, não quando justamente você ressurge e me faz mudar os conceitos da minha vida pela segunda vez. Não quando parece que finalmente as coisas serão ao meu favor.

– Você me confunde quando diz essas coisas e me deixa com medo do que está por vir. – Confessou Junsu.

– Não seja medroso. – Disse Micky tomando seu último gole de café e finalmente se levantando. – Não tem motivos para isso. Me leva até a porta? Antes que o seu namorado reclame.

– Você é mesmo um chato.

Assim que Junsu terminou a frase, ele agarrou sua nova pelúcia e seguiu lado a lado com o outro em direção a porta. Assim que chegou a mesma, Junsu se recostou à parede, obviamente chateado por ter passado tão pouco tempo com aquele rapaz. Micky sorriu da chantagem emocional que o outro fazia, demonstrando tanta tristeza com sua partida. Ele o abraçou pelos ombros e o deixou que escondesse o rosto contra seu ombro.

Junsu inspirou o perfume amadeirado do rapaz e como ele amava aquele cheiro, certamente não se importaria em senti-lo pelo resto do dia. No entanto, ele bem sabia que o rapaz precisava partir, desta vez para não muito longe. Ele afastou o rosto e o deixou que o acariciasse e finalmente voltou a falar.

– Promete que não vai sumir. Que nós vamos sair, só nós dois e vamos ao cinema ou ao teatro e depois vamos comer algo bem gostoso e que você vai vir aqui e tomar um café de verdade comigo, com achocolatado e bolo de cenoura.

– O que você quiser, eu prometo. – Disse Micky acariciando seus cabelos com a ponta dos dedos. – Eu quero você ao meu lado, Junsu e não me importa se isso pode machucar algumas pessoas.

Eles ouviram ao seu lado uma movimentação e a passos largos, Jaejoong seguiu para a cozinha, deixando os dois atordoados. Ele certamente os ouvira, mas como dissera anteriormente, Micky não se importava e certamente não entendia porquê aquele rapaz insistia em ficar com Junsu sendo que todos sabiam que quem  ele queria mesmo era Yunho.  Certamente uma grande hipocrisia da sua parte, na opinião de Yoochun.

Junsu sentiu-se mal pelo rapaz que tanto o ajudara nos últimos meses. Ele o defendera até mesmo de Yunho, a quem ele tanto gostava e mesmo assim ele deixou seu relacionamento de lado para abraçar-se ao seu ex companheiro parado à porta. No entanto, ele não podia evitar, assim como Jae não podia evitar acariciar os cabelos do Yunho e entrelaçar seus dedos aos dele quando eles estavam juntos. Era contraditório o motivo que os unira meses antes ser o mesmo motivo que os levaria ao fracasso.

Micky precisava ir embora, mas apenas ficou satisfeito depois de selar diversas vezes o rosto do outro rapaz. O coração do outro rapaz acelerava e se acalmava a cada beijo estalado em sua bochecha agora corada. Yoochun sempre fora carinhoso com o rapaz, mesmo quando eles ainda eram apenas amigos, e Junsu bem que gostava de ser mimado daquela forma, não podia negar.

Eles se despediram demoradamente, e somente depois de muitas idas e vindas e mais alguns beijos em seu rosto, Micky partiu, sentindo seu coração saltitar alegremente em seu peito. Seus lábios formigavam e ele ainda sentia o sabor da pele do outro e no momento o que ele mais desejava era Jaejoong finalmente fora de seu caminho, para que da próxima vez, pudesse provar o sabor dos irresistíveis lábios de Junsu.

Jaejoong por sua vez estava na cozinha, saboreando em silêncio o café que o outro havia preparado. Sua mente estava a mil e ele estava acreditando fervorosamente que eles teriam se beijado se ele não tivesse aparecido. Ao contrário dele, Junsu parecia mais dado às tentações e não saberia se refrear caso Yoochun realmente desejasse algo consigo. Ele ainda pensava sobre isso quando seu namorado adentrou a cozinha com uma calma que não parecia dele.

A maior diferença entre Jaejoong e Micky, é que o primeiro via no olhar de seu namorado um brilho especial e único que ele tinha somente quando era direcionado a seu ex companheiro. Por muito tempo Jae acreditou fervorosamente que aquilo era ódio ou talvez um desejo reprimido de vingança, mas naquele dia ele concluíra que não se tratava de um sentimento de repulsa e sim de desejo e atração.

Ele certamente confundira aquele amor tão forte com ódio, pois são sentimentos ímpares, mas que andam muito próximos. Ele sabia, pois sentia o mesmo por Yunho, ele o odiava e o amava e isso o fazia frágil e vulnerável. Já seu olhar para Jaejoong era outro, era mais frio do que para o outro, mas ainda existia algo amoroso em suas feições, talvez se aproximasse muito mais do fraternal do que do conjugal.

Junsu tratou de se explicar, pois não queria um mal entendido com aquele rapaz. Ele certamente não sentia por ele o mesmo que sentia por Yoochun, mas não queria que ele saísse machucado ou com seu orgulho ferido. Talvez fosse tarde demais para que seu desejo fosse realizado, mas ele precisava tentar.

– Jae-ah. – Disse Junsu se aproximando do outro recostando à bancada. – Não aconteceu nada, você sabe como é o Micky.

– Eu sei que você não me traiu, não faria isso comigo no quarto ao lado. Você é prudente, mas também é fraco.

– Eu? Fraco?

– Quando o assunto é ele, você é. – Julgou Jaejoong. – Não me leve a mal, eu só repito o que eu vejo, sempre.

– Não me julgue, Jaejoong, você é exatamente igual com o Yunho. – Acusou Junsu. – Você também deixa que ele te faça propostas e promessas que são pouco prováveis de serem cumpridas.

– Junsu-ah, isso não é um término, mas nós precisamos admitir, não vai dar certo. – Confessou Jaejoong.

– Senta aí, Jaejoong.

Os dois sentaram-se na mesa e se fitaram demoradamente. Por alguns instantes eles se lembraram do dia que se conheceram, dos motivos pelo qual eles se uniram, se tornaram cúmplices em um crime imperfeito. Eles se comportavam como namorados, espalhavam aos quatro ventos que eram namorados e gostavam da companhia um do outro, mas ambos sabiam que um namoro real era muito mais complexo. Por um momento, eles acreditaram silenciosamente envergonhados que seu próprio namoro era muito mais de fachada do que Yunho e Micky.

– Não é um término? Por que não? O que te impede de terminar comigo? – Indagou Junsu.

– Eu tenho apreço por você. – Justificou Jae. – Tenho carinho, não quero que sejamos inimigos.

– E por que precisamos ser inimigos depois que terminar? Você nunca me machucou, não me traiu, foi sincero comigo do início ao fim. Eu não tenho motivos para te odiar, você tem?

– De forma alguma. Eu diria que você me tirou de um abismo sem fim e me fez um homem melhor. Eu só tenho a te agradecer, mas me envergonha não conseguir amar um homem como você Junsu-hyung.

– E você acha que eu não me envergonho do mesmo? Tem noção do quão humilhante é descobrir que ainda amo aquele que tanto me machucou? Jae-ah, você não é o único com essa sensação de derrota.

– Eu também acho que somos derrotados, homens controlados pelo seu sentimentalismo, deveríamos ser considerados fracos por isso. – Afirmou Jaejoong.

– Não se preocupe, isso será o nosso segredo. Você é como um irmão pra mim e eu amo a sua companhia e os seus beijos, mas não passa disso.

– Que bom que concordamos nisso.

Eles se entreolharam demoradamente, com ar constrangido. Aquele era o fim de algo que nasceu para fracassar, algo sem sentimento, sem maiores intenções, sem reflexões. Não era algo surpreendente, ou dolorido para eles, era como se estivessem esperando o momento certo de abrirem seus corações e colocarem para fora aquilo que gritava em seu ser.

Eles silenciosos se levantaram e se abraçaram demoradamente, permitindo-se ficar naquela posição pelos instantes seguintes. Eles se afastaram e sorriram com o canto dos lábios um para o outro, até que lentamente seus braços caíram ao lado de seus corpos. Junsu suspirou pesadamente até que finalmente Jaejoong cortou o silêncio que começava a ficar constrangedor.

– Eu acho que vou pra casa, é melhor por hoje.

– Eu vou deixar o resto do quarto para amanhã, preciso de calmaria hoje.

– Por favor, não suma, eu não quero me afastar de você.

– Me prometa uma coisa, que não vai deixar ele te machucar como ele fez com o Micky. – Pediu Junsu.

– Não se preocupe com isso, eu saberei me cuidar.

Junsu selou o topo da cabeça de seu mais novo amigo e o deixou se afastar para trocar de roupa. Jaejoong se despediu do rapaz e com uma mistura de tristeza e alívio ele saiu da casa dele, com destino certo em sua mente. Junsu não avisou Micky de seu término, apenas se acomodou em seu sofá, agarrado em seu mais novo golfinho e se permitiu ficar lá, perdido em lembranças que ele guardaria com carinho daquele rapaz.

Jae dirigiu mais rápido do que o normal, sem se importar com as manchas de tinta secando em sua mão. Ele estacionou seu carro e seguiu em direção ao seu andar, sempre a passos largos e apressados. Ele seguiu pelo longo corredor e após passar a porta de seu apartamento, ele tocou a campainha do apartamento ao lado. Seu coração palpitava e ele estava brevemente ofegante em expectativa.

Yunho abriu a porta lentamente sem saber quem estaria do outro lado, seu sorriso se iluminou ao ver um confuso Jaejoong do lado de fora. Ele sabia que precisava ver Yunho, apenas não sabia o que dizer para ele. O sorriso do mais alto esmoreceu assim que o outro não o cumprimentou como de costume e ele temeu uma notícia ruim como ocorreu semanas antes. Jaejoong deu passos curtos para frente e o enlaçou pelos ombros, se encaixando em um abraço.

– Jaejoongie, aconteceu alguma coisa?

Jaejoong assentiu silenciosamente e se permitiu ficar na mesma posição por alguns instantes, aproveitando mais plenamente as carícias do outro rapaz em seu couro cabeludo. Ele já não mais renegava aqueles arrepios em sua pele, ou seu coração acelerado e nem suas bochechas coradas. Era bom desfrutar daquelas sensações, sem a culpa para dizer a ele que algo estava terrivelmente errado.

Não mais era errado abraçar o rapaz daquela forma, ele já não tinha mais medo de ser flagrado. Suas narinas inalaram o aroma do outro antes de se afastar e segurar as mãos deste o acariciando com a ponta dos dedos. Um sorriso discreto despontou nos lábios do menor, assim que seus olhos focalizaram a feição desconcertada do outro rapaz. Yunho retirou a franja dos olhos do outro e o indagou novamente:

– O que aconteceu?

– O que você já sabia que iria acontecer. – Afirmou Jaejoong. – Eu queria ficar com você hoje, aqui, só eu e você.

– Entra.

Yunho o puxou pela cintura e finalmente fechou a porta atrás de si. Ele o pegou pela mão e o guiou até sua sala, esperando que o rapaz começasse a dizê-lo o que havia ocorrido. Assim que Jaejoong se sentou e se ajeitou devidamente em seus braços ele contou-lhe o ocorrido. Ele não queria trocar um pelo outro, mas prometera contar antes de tudo a Yunho e ele o ouviu atentamente.

Ao final do relato do rapaz, seu coração saltitava de alegria, finalmente aquele relacionamento que ele tanto desaprovava havia chegado ao seu final. Jaejoong poderia nunca pertencer a ele ele, desde que não pertencesse a Junsu, desde que ele não tivesse que engolir seu orgulho cada vez que ele o ouvia chama-lo de seu. O rapaz que tinha o rosto colado em seu peito não parecia triste, tampouco insatisfeito, a tranquilidade de Jaejoong era contagiante.

Yunho ainda trabalharia aquela noite, mas Jaejoong não se importou em assistir a um filme sozinho com o rapaz ao seu lado, terminando as planilhas que usaria na semana seguinte. Jae trajava agora um pijama do rapaz e quando seus olhos já coçavam cansados e sonolentos, ele se levantou do sofá e disse ao outro rapaz que iria dormir. Yunho deixou o computador sobre o sofá e seguiu com o mesmo para o quarto de hóspedes.

Para sua surpresa, o menor não seguiu até o fim do corredor e sim, adentrou seu quarto, calmamente seguindo para sua cama. Jaejoong puxou a coberta e calmamente, como se pedisse permissão silenciosamente para o outro, ele deitou na cama de casal do rapaz. Yunho voltou para a sala, apenas para se certificar de que a porta estava fechada e as luzes desligadas e finalmente juntou-se ao outro em seu quarto.

Jae estava deitado de lado, passando a mão sobre o travesseiro que ele dormiria, na tentativa de deixa-lo mais macio para o rapaz. Este finalmente deitou-se ao lado do outro e virou-se para ele, a fim de buscar seus olhos no escuro de seu quarto. Suas íris se encontraram e ambos sorriram discretos um para o outro. A mão de Jaejoong acariciou os cabelos do outro com a ponta dos dedos antes de fechar os olhos.

Ele deixou Jaejoong dormir, sentindo por baixo das cobertas, as mãos possessivas do rapaz agarrando-lhe a camisa. Ele dormira poucas vezes no mesmo quarto do rapaz, mas sempre tivera a mesma sensação ao vê-lo, se anjos tinham uma forma em sua mente, certamente teriam as feições de Jaejoong adormecido. Ele se demorou, perdendo-se nas feições do rapaz, finalmente se dando conta de que não haviam mais empecilhos que o colocassem longe de si. Jae poderia ser seu, desde que ele tivesse coragem, desde que ele o protegesse e se deixasse levar.

Yunho não poderia negar, era o que ele mais desejava nesse mundo. “Finalmente”. Murmurou ele, antes de abraçar o rapaz pela cintura e adormecer, embalado por seu perfume e por seus cabelos castanhos acariciando sua face.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s