Capítulo 28: Movin’ on

Kyuhyun com uma mochila em seus ombros adentrou o campus da faculdade em uma bela segunda-feira de calor. O local estava cheio, mas perdia para a quantidade de alunos no bar mesmo antes das aulas começarem. Ele atravessou a passarela arborizada que o levaria à cafeteria e finalmente saiu de lá com dois pequenos potes de salada de frutas. Ele não tinha pressa, afinal ainda tinha alguns minutos antes das aulas começarem.

Changmin havia insistido em voltar para seu próprio apartamento na noite anterior e por isso Kyu chegou ao local desacompanhado. Em sua nova sala de aula, um tanto menor devido a desistência de alguns alunos, Changmin já havia se acomodado na primeira carteira contra a parede, com as costas recostadas no concreto e um livro sobre as coxas. Sua mochila estava sobre a mesa atrás de si que ele reservara para seu namorado.

Kyuhyun se aproximou do rapaz e repousou o pequeno pote de frutas sobre a mesa do outro, chamando sua atenção. Changmin sorriu-lhe quando seu namorado selou sua testa carinhosamente em um cumprimento discreto, mas afetuoso. Ele se acomodou no assento reservado para si e o mais alto guardou seu livro para poder comer aquilo que seu amado o trouxera.

Eles estavam prontos para começar um diálogo sobre o livro de Changmin quando seus colegas se posicionaram à sua volta, formando um semicírculo, todos com feições sérias. Jonghyun tomou a frente e após puxar uma cadeira, sentou-se diante dos rapazes. Desde o ataque, Kyu e Changmin tornaram-se desconfiados e estarem rodeados por outros homens os deixou terrivelmente desconfortáveis. Changmin levantou-se imediatamente e Kyu já o puxava pela manga para abrir caminho e ir para longe deles quando Jong se manifestou:

– Relaxem, nós não viemos discutir.

Kyuhyun sentou-se sobre sua mesa e Changmin na cadeira ao seu lado, o envolvendo pela cintura com um dos braços enquanto a outra mão repousava na coxa do rapaz, delicadamente. Ele não queria outras desavenças, mas precisava deixar que seus colegas de classe se manifestassem, pois esse era o princípio da boa convivência que o casal pregava. Jonghyun suspirou pesadamente e finalmente começou a falar:

– O detetive da polícia entrou em contato conosco, com todo mundo aqui da sala, então…

– Nós não queríamos acusar ninguém. – Justificou-se Kyuhyun. – Ele perguntou as últimas desavenças e nós lembramos daquele dia no bar, mas nós sabemos que não foi ninguém daqui.

– Eu sei que vocês não acusaram ninguém. – Afirmou o rapaz, se remexendo em sua cadeira. – Quando meu pai foi atropelado propositalmente eles perguntaram a mesma coisa, pra eliminar suspeitos, é procedimento padrão em crimes desse gênero. Eu não ia dizer, isso, nós estávamos conversando ali fora, sobre o que aconteceu a vocês e sinceramente, eu não sou o cara que mais apoia esse estilo de vida de vocês dois, muito pelo contrário, essa coisa de macho com macho não é comigo.

– Nós já percebemos isso e não vamos tentar convencer ninguém de aceitar isso, ou de tomar esse modo de vida como seu. – Afirmou Changmin com firmeza. – Eu e o Kyu só queremos paz, e um mínimo de respeito, não é pedir muito é?

– Eu acho que não, Changmin. – Afirmou outro rapaz, que estava em pé.

– O que nós queremos que vocês saibam, é que por mais que eu não concorde com esse tipo de relacionamento, não queremos que vocês sejam aniquilados, nem vítimas de retaliação por suas escolhas. – Explicou Jonghyun. – O que fizeram com vocês foi absurdo, e de uma maldade sem tamanho. Vocês são nossos colegas, e seremos solidários à vocês no que vocês precisarem.

– Obrigado. – Disse Kyuhyun, surpreso com a mudança de atitude daqueles rapazes.

– Me perdoem pela minha atitude no começo do ano, quando eu soube o que aconteceu a vocês, eu me senti abominável por ter tratado o relacionamento de vocês daquela forma. Eu percebi que a minha atitude poderia ser comparada com os criminosos que bateram em vocês, e esse não é a minha índole.

– Não se preocupe com isso, Jong. – Afirmou Changmin.

– Obrigado por serem compreensivos, e saibam que da nossa sala, vocês terão o respeito que merecem.

Aquele era um bom prenúncio para o começo do semestre. Certamente, eles não ganhariam novos amigos naquela sala de aula, mas poderiam conviver ali sem a falsidade e os comentários maldosos. Eles não tinham pretensões de ganhar tão logo a aceitação daquelas pessoas, com exceção de seus dois colegas que tinham a mente mais aberta, no entanto, ganhar o respeito deles já era um grande passo.

Eles fizeram uma reverência e finalmente se afastaram, deixando os dois satisfeitos rapazes novamente a sós para conversarem seus próprios assuntos. Eles trataram de comer, enquanto comentavam sobre os benefícios de sua nova situação em sala de aula, quando o professor entrou. Assim, começava a nova maratona de estudos que tomaria suas energias até o final daquele ano.

A primeira aula de cada semestre era sempre mais leve, pois eram apresentados os programas de aprendizado, os trabalhos que eles entregariam e com que peso e as atividades a serem realizadas. Foram cinco longos períodos de explicações e datas a serem anotadas antes que o fim do dia chegasse. A última aula era com o professor de estatística avançada, a matéria que tanto chamava a atenção de Kyuhyun.

O rapaz estava empolgado com os novos assuntos da matéria e assim que o professor deu a aula por encerrada, Kyu desatou a falar com Changmi, que guardava seus pertences, tentando absorver o que o rapaz dizia. No final da aula, o professor que ministrava aquela matéria, e que tanto gostava de conversar com Kyuhyun, pediu para que ele se aproximasse de sua mesa.

Eles esperaram seus colegas de classe saírem, e o professor disse que não haveria problemas se Changmin ficasse, afinal, estava ciente do relacionamento dos dois. O docente pediu para que seu aluno arrastasse uma cadeira e se sentasse próximo a sua mesa, e assim ele o fez. Changmin voltou para sua literatura, a fim de deixar os dois mais a vontade para que pudessem ter sua conversa. O professor retirou uma folha de sua pasta e a entregou a Kyuhyun, dizendo:

– O tribunal de contas da União me mandou uma proposta de estágio hoje pela manhã, para ser repassado para um ou dois alunos de exatas. É para o departamento de controle de gastos governamentais, um departamento um tanto complicado de se trabalhar, mas certamente um desafio. A primeira pessoa que me veio em mente foi você Kyuhyun.

– Um estágio? Depende, professor, eu trabalho a noite e meus horários são difíceis.

– Eu sei que são, mas garanto que os horários de lá são bem flexíveis. – Afirmou o professor, entregando-lhe o papel. – Converse com eles, é uma boa proposta meu rapaz e eu acredito que você tenha competência pra isso, mais do que qualquer um desta sala.

– Eu posso te dar a resposta depois?

– Claro, Kyuhyun, mas não demore, pois, a vaga não vai ficar aberta por muito tempo.

– Muito obrigado, professor.

Kyuhyun reverenciou o professor e segurou a mão de seu namorado antes de seguir para fora da sala. A faculdade estava relativamente silenciosa, uma vez que a maioria dos alunos já havia se dirigido para fora do prédio. A mente de Kyuhyun trabalhava com rapidez, afinal, era seu sonho exercer seu trabalho como economista, no entanto, a possibilidade de sacrificar seu emprego no bar doía em seu peito.

Ele amava Donghae e Hyukjae, eram os melhores patrões que alguém poderia ter e amava aquele lugar, aquele ambiente, as pessoas e tudo o mais que aquele local poderia oferecer. Seus amigos se encontravam lá, ele falara com Changmin pela primeira vez lá e grande parte de sua história após a partida de Siwon, fora escrita entre aquelas paredes. Quando ele entrou na faculdade, se despedir do Candy Bar não estava em pauta.

Changmin ouvira a conversa toda e podia imaginar o que se passava na mente do rapaz que ao seu lado, ainda não se manifestara. Kyuhyun era inteligente e talentoso com os números, não era de se surpreender que a melhor proposta de estágio viesse justamente parar em suas mãos. No entanto, ao contrário da maioria de seus colegas de classe, inclusive o próprio Changmin, Kyuhyun tinha que se sustentar, e certamente um estágio não pagaria o suficiente para suas despesas.

– O que você acha, Changminie? Eu devo aceitar? – Indagou Kyu.

– É uma grande proposta, príncipe, já pensou se você fosse contratado? Acho que com um estágio no tribunal de contas, nenhuma empresa recusaria um emprego pra você.

– Mas e o Candy Bar? Sabe, os hyungs, e o Sungminie? Eu não quero abandonar eles.

– Kyunie, você não trabalhar mais com eles não quer dizer que vai abandonar, eles ainda serão seus amigos. – Changmin envolveu seu namorado pelos ombros. – Já pensou, você no tribunal de contas e eu em casa cuidando das crianças?

– Como assim? – Kyuhyun riu alto do comentário do rapaz. – Você não vai ser dono de casa coisa nenhuma, vai trabalhar como eu!

– Aahhh Kyu, só porque eu já estava fazendo os meus planos de dono de casa. Assistir televisão a tarde toda e depois ir preparar o seu jantar, já pensou que perfeito?

– Aish, como você é bobo, Changmin-ah! – Disse Kyuhyun, finalmente apoiando seu braço na cintura de seu namorado. – Eu vou conversar com o Hae-hyung, porque tenho que dar essa resposta logo. Aliás, você sabe que estamos intimados a ir para a casa dele hoje né?

– Intimados? Por que?

– Eles se mudaram esse final de semana, nós vamos lá ajudar. – Disse Kyuhyun, rindo-se da feição de desânimo de seu namorado. – Eles já montaram tudo, nós só precisamos ajudar a guardar as coisinhas.

– Quando você fala assim até parece que é fácil. – Reclamou Changmin. – Eu só vou porque sei que o Hae vai fazer um jantar bem gostoso.

– Como você é interesseiro, Changmin!

– De forma alguma, eu só estou analisando as melhores possibilidades.

Kyuhyun riu-se de seu namorado, enquanto se dirigia para o carro do mesmo, que os levaria para longe dali. Os dois conversaram ao longo de todo o caminho sobre a mudança de Donghae e a presença da cadelinha Choco em sua casa. Kyu contou-lhe que Hyuk havia trazido ela de sua cidade natal no final de semana e estava muito feliz de finalmente estar com seu animal de estimação.

A nova casa de Donghae não era tão longe da faculdade e estava localizada em uma rua calma e arborizada. O portão da casa não era dos mais altos e esta ficava entre outras duas residências com a mesma aparência. Havia uma garagem com tamanho suficiente para o carro de Hyuk e um gramado, onde certamente Donghae cultivaria um jardim em um futuro próximo.

Quando o casal estacionou em frente à casa, Junsu estava na janela da sala, instalando as cortinas. Assim que os viu sair do carro, o rapaz sorriu para eles e acenou, finalmente avisando a todos na casa que eles haviam finalmente chegado. Donghae saiu do quarto e abriu a porta para o casal, antes mesmo que os dois tocassem a campainha, sorrindo-lhes e os chamando para entrar.

Ele os guiou até o único cômodo que estava devidamente arrumado, a cozinha. Lá o rapaz os serviu de sanduiches de peito de peru e suco de maçã para que eles se alimentassem antes de ajuda-los. E Changmin tinha razão, apesar de prático, o jantar estava apetitoso e eles comeram até sentirem-se satisfeitos. Assim que terminaram suas refeições, os dois se espalharam pela casa. Enquanto Kyu organizava os livros na estante, Changmin estava no sótão, arrumando um dos armários com as coisas menos necessárias.

O começo da noite passou rápido, com os cinco organizando boa parte das coisas de Hyuk e Hae em todos os cômodos da casa. Em certa parte da noite, quando Changmin cochilava no sofá, Kyuhyun sentou-se na cama de casal do singelo quarto e tratou de ajudar Hyuk e Hae a dobrarem suas roupas e as separar em pilhas definidas por Donghae.

– Hyung, eu tenho algo a te contar.

Kyu deu introdução àquilo que atormentara sua mente ao longo da noite, seu estágio. Donghae e Hyuk se entreolharam e se ajeitaram na cama, voltando-se para o rapaz, ambos com os olhares atentos. Kyu deixou o moletom cinza sobre a pilha de roupas de frio e finalmente suspirou com ar pesado antes de dar continuidade:

– Eu recebi uma proposta de estágio, quer dizer, é mais ou menos uma proposta eu ainda não tenho certeza de como funciona. Pelo que eu li no informativo, é pela manhã, assim eu poderia estudar a tarde. No Tribunal de Contas da União, mas…

– Isso implica que algumas coisas mudem no seu trabalho no Candy Bar. – Concluiu Hyuk, se aproximando do rapaz.

– Sim, hyung. Se eu trabalhar pela manhã não vou poder virar a noite no bar, é impossível.

– A primeira coisa que você tem que descobrir, Kyu, é quanto eles estão te oferecendo por esse estágio, porque você ainda tem que sustentar. – Comentou Donghae. – Em segundo lugar, enquanto este não for um emprego fixo, eu não quero que se desligue do bar.

– Hae, nós já discutimos isso, nós sabíamos que isso iria acontecer. – Alertou Hyuk. – Você não pode prender o Kyu, ele está fazendo uma faculdade e quer exercer, é natural.

– Mas ele não terminou ainda. – Argumentou Donghae escorregando pela cama até sentar-se ao lado do mais novo e abraça-lo pelos ombros. – Eu quero ele embaixo da minha asa mais um pouquinho.

– Eu na verdade também não quero ir, hyung. – Confessou Kyuhyun. – Eu queria ficar com vocês e com o Sungminie.

– Kyu, vamos ser sinceros agora. – Hyuk se aproximou mais do rapaz e segurou suas mãos. – Eu sei que você gosta do Candy Bar, de mim, do Hae, de todo mundo lá, mas profissionalmente você não vai crescer mais. Não estou dizendo que não é um emprego digno, muito pelo contrário, você é talentoso com as bebidas, mas passar o resto da vida como bartender não é a melhor opção. Eu e o Hae te ajudamos e queremos ver você crescer e se você tem uma oportunidade de entrar no mercado de trabalho da sua área não deve desperdiçar.

– Eu sei, hyung, mas eu não quero abandonar vocês. – Disse Kyuhyun se encaixando melhor no abraço de Donghae.

– Quem falou em abandonar? – Riu-se Donghae. – Kyu, você pode ter quantos empregos quiser, nós vamos continuar do seu lado. De qualquer maneira, descubra mais informações sobre esse estágio e dependendo do horário você pode terminar o seu trabalho no bar mais cedo e não necessariamente servir os clientes. Eu quero você no Candy Bar mais um pouquinho antes de te devolver para o mundo.

– Eu devo aceitar o estágio, então?

– Sem dúvida nenhuma. – Afirmou Hyuk. – E se você não for contratado ou alguma coisa acontecer, o seu lugar no Candy Bar ainda estará reservado.

Kyuhyun sorriu ao rapaz e apertou Donghae em seu abraço. Todos com quem Kyu conversara o apoiaram na decisão de aceitar o estágio e ele realmente gostava daquela área da economia. No dia seguinte, seu professor saberia de sua decisão e também se agradaria com a mesma. No entanto, aquela noite ele apenas queria aproveitar a companhia dos dois rapazes, sentir-se protegido, bem vindo e amado, como sempre fora.

 

Quando Changmin acordou de seu cochilo, Junsu estava no chão da sala, olhando as revistas de Hyukjae. Ele já decidira que logo iria para casa, já que a noite começava a tardar e ele precisava acordar cedo no dia seguinte. Changmin espreguiçou-se demoradamente, antes de se levantar e sentar-se ao lado do rapaz que desviou o olhar para ele e sorriu com o canto dos lábios. Junsu finalmente criou coragem e indagou algo que acompanhara seu imaginário ao longo da noite:

– Como está o Jae?

– Ele está bem, hyung, está passando bastante tempo com o Yunho-hyung.

– Mais tempo? Daqui a pouco esses dois viram siameses. – Riu-se Junsu. – Eu imaginei que ele grudaria no Yunho depois que nós terminássemos, eles estão juntos?

– Estão, mas ainda não é nada sério. Tudo bem pra você, hyung?

– Era questão de tempo, não era, Changminie? – Constatou Junsu. – E você? Como está com o Kyu?

– Bem, muito bem. Mesmo com as últimas dificuldades eu e o Kyu continuamos muito bem.

– Posso te fazer uma pergunta indiscreta?

– Claro, hyung.

– Você não tem medo do Siwon voltar não?

– Eu não penso realmente nessa possibilidade, hyung, ele não deu sinal de vida até agora. Hyung, o que você acha que o Siwon faria se ele voltasse?

– Eu não sei, sinceramente, não sei se o Siwon mudou de lá para cá, mas o Hyuk deve saber, eles ainda mantêm contato com ele. De qualquer maneira, quando estava aqui, o Siwon era bastante possessivo em relação ao Kyuhyun.

– Eles mantêm contato com o Siwon? – Surpreendeu-se Changmin. – O Kyu sabe disso?

– Acho que não. – Concluiu Junsu. – Eles sempre tiveram medo de machucar o Kyu falando do Siwon, e isso não mudou.

– Eles não deveriam esconder isso do Kyu assim. – Afirmou Changmin, indignado.

– Quem sabe agora que ele tem a você, eles não revelem isso ao Kyu. – Sorriu-lhe Junsu. – Não os julgue mal, Changmin, esses dois são as pessoas que mais fizeram bem ao Kyuhyun nos últimos anos e se eles esconderam, é porque tinham motivos fortes até agora.

– Eu vou manter segredo, mas não é necessário, o meu príncipe não pensa mais no Siwon. – Afirmou Changmin, convicto.

Antes que Junsu pudesse retrucar a campainha tocou, os assustando, já que não estavam esperando visitas àquela hora da noite. Hyuk correu para a porta e do lado de fora, Yoochun o esperava com um ar constrangido no rosto em função do horário. Ele adentrou o local e seu rosto iluminou-se ao ver quem também visitava o casal àquela hora da noite.

O coração de Junsu disparou e ele sentiu um frio na barriga assim que seus olhos recaíram sobre a figura do rapaz que adentrava o local. Ele trazia consigo uma grande mala de rodas que estava aparentemente vazia. Junsu sentiu seu rosto corar assim que seus olhares se encontraram e eles sorriram um para o outro antes de Micky anunciar os motivos de sua visita.

– Desculpe a demora em devolver a mala, eu viajei e só agora sobrou um tempinho para passar aqui.

– Ah, não se preocupe, nós não precisamos dela mesmo. – Riu-se Hyuk. – Entre, fique a vontade. Eu te ofereceria um café, mas estamos sem mantimentos ainda. Tem suco de maçã, você quer?

– Não, obrigado, eu só estou de passagem. – Micky sorriu polido.

– Por que a pressa? – Indagou Junsu, finalmente se levantando.

– Eu não quero atrapalhar, Junsu-ah. – Comentou Yoochun. – Por mais tentadora que seja a sua companhia.

– Acho que sobramos, Changmin-ah! – Riu-se Hyuk. – Vamos, eu vou arrumar o quarto de hóspedes para você e o Kyu.

Yoochun tentou protestar, mas antes que saísse dali, os dois rapazes o deixaram a sós com um constrangido Junsu. Ele ainda ouviu alguns risos dos dois rapazes que seguiram corredor adentro antes de recair um silêncio sobre a sala. Junsu então deu as costas e desapareceu pela porta da cozinha, deixando o rapaz sozinho na sala, totalmente desconcertado. Felizmente, ele voltou minutos depois com um copo de suco nas mãos e o entregou ao outro.

Micky se acomodou no sofá e logo Junsu fez o mesmo, sentando-se ao seu lado. Ele fitou tudo a volta, buscando as melhores palavras para falar com Yoochun, para contar-lhe sua mais recente novidade, mas o medo de sua reação aos poucos tomou conta do seu ser. Pouco antes de perder a coragem, a voz de Junsu se fez presente, surpreendendo Micky que bebericava de seu suco.

– Eu terminei com o Jaejoong. – Disse Junsu, tropeçando entre as palavras.

– Você o que? – Indagou Micky, acreditando que sua audição havia brincado com seu psicológico.

– Eu e o Jaejoong terminamos. – Afirmou Junsu, desta vez mais calmamente. – Eu ia te ligar e te contar, mas não sabia o que dizer.

– Por que vocês terminaram? – Indagou Micky sem esconder o sorriso em seu rosto.

– Porque já estava na hora de terminar, aquilo não ia nos levar a lugar nenhum. – Concluiu Junsu. – Eu não vou explicar com detalhes, você já sabe de toda a história.

– Sei perfeitamente. – Afirmou Micky, voltando a bebericar de seu copo.

– Agora você pode ficar lá em casa quando quiser. – Convidou Junsu. – Porque ninguém vai se opor.

– Eu diria para irmos para lá hoje a noite, mas está muito tarde e você está com olheiras, precisa dormir.

– Hoje? Que apressado. – Riu-se Junsu. – Eu estou cansado, mas é só por causa do trabalho. Eu descansarei melhor no final de semana.

Yoochun terminou seu suco em um longo gole e finalmente se levantou, se espreguiçando demoradamente. Finalmente ele se voltou para o rapaz que o observava com ar sério e um tanto desconfiado. Micky sorriu para ele, discreto, carinhoso e com uma ponta de ar lascivo, que fez Junsu corar discretamente. Finalmente o rapaz estendeu a mão para ajudar ele a se levantar.

– Vem, me leva até o portão, eu preciso ir pra casa.

– Se a casa fosse minha eu insistiria pra você ficar, mas logo eu vou embora também. – Concluiu Junsu segurando a mão do rapaz. No entanto, ao contrário do que ele imaginou, Micky entrelaçou seus dedos aos dele e o guiou porta afora.

– Se fosse a sua casa, eu te colocaria na cama e faria você dormir.

– Me faria dormir? Como?

– Você ainda gosta de carinho na orelha não gosta?

– Gosto.

Junsu riu discreto ao pensar na hipótese de dormir com aquele rapaz acariciando sua orelha como costumava fazer anos antes. Eles atravessaram a calçada ainda de mãos dadas e a passos lentos, sentindo o ar da noite encher seus pulmões e acariciar suas peles. As lâmpadas alaranjadas dos postes deixavam a rua bem iluminada e enfeitada àquela hora da noite. Eles já chegavam ao portão, quando Junsu parou de caminhar com ar decidido.

Junsu suspirou pesadamente e desviou seu caminho até o muro, onde recostou suas costas desviando o olhar para Micky. Ele não queria pedir aquilo em voz alta, não queria pedir verbalmente, desejava que Yoochun entendesse seus sinais corporais mais do que óbvios naquele momento. Ele guiou a mão do rapaz até sua cintura, o sentindo apoiar-se ali e se aproximar de si.

Yoochun podia sentir que Junsu desejava-o desde que adentrara aquela casa, mas não o beijaria na frente de seus amigos. O braço de Micky se apoiou no muro e ele pendeu seu peso para frente, finalmente correspondendo o olhar do rapaz, com a mesma intensidade, buscando qualquer sinal de dúvida em suas feições, se ele vacilasse, Micky não daria continuidade.

Junsu voltou a suspirar e fechou os olhos, inspirando o hálito fresco do rapaz, assim como a colônia que ele usava aquela noite. Suas mãos se espalmaram no peitoral do rapaz, sentindo abaixo de seus dedos o tecido de algodão da camisa social que o rapaz usava para trabalhar. Ele sentiu Micky se aproximar mais e seus corpos se roçaram, com sutileza, apenas uma provocação para suas mentes já desestabilizadas.

Sem prévio aviso, Yoochun avançou, colando seus lábios aos do outro que arregalou os olhos assim que sentiu seu beijo. Seus lábios se moveram brevemente apenas para se encaixarem e aos poucos Junsu revirou os olhos, extasiado. A mão de Micky pressionou sua cintura, em uma forma sutil de demonstrar sua possessividade diante do rapaz. Ele faria Junsu seu homem, único e exclusivamente seu.

As mãos de Junsu escorregaram, sentindo o coração do outro rapaz disparado em seu peito, e ele sabia que ambos sentiam exatamente o mesmo. Yoochun pendeu o rosto brevemente de lado e entreabriu os lábios, pedindo passagem com a língua para que seu beijo se aprofundasse o que foi prontamente concedido pelo outro rapaz que por sua vez o agarrou pelos ombros.

E suas línguas finalmente se encontraram, doces, úmidas e mornas deixando aquele esperado beijo ainda mais delicioso. Os lábios de Junsu eram exatamente como Micky se lembrava, macios, carnudos, perfeitos para serem beijados. Os cabelos do rapaz roçavam em seu rosto e ele sentiu seus lábios vibrarem assim que as cordas vocais do mesmo emitiram um som abafado, gemendo.

Micky pendeu seu corpo para frente e pressionou o rapaz contra o muro, sentindo sua pele macia por baixo dos tecidos que cobriam-lhe o corpo. Junsu agarrou sua nuca e puxou os cabelos curtos do local, quando as mãos de Micky escorregaram por trás de suas coxas até pararem em suas nádegas e as pressionarem como se desejasse arrancar aquele pedaço do corpo do outro para si.

O ar faltou e bruscamente os dois cortaram o beijo, ofegantes e sentindo sua pele arrepiar-se com aquela proximidade. Seus hálitos se chocavam enquanto os dois, com o rosto recostado um ao outro, tentavam recuperar o fôlego. Junsu acariciou os cabelos do outro com a ponta dos dedos, enquanto as mãos do rapaz já voltavam para sua cintura, a qual ele agarrou com firmeza.

– Eu quis tanto isso, Micky. Eu te desejei tanto.

– Eu nunca deveria ter deixado você ir embora, meu Junsu. – Afirmou Yoochun, deixando o outro apoiar o rosto em seu ombro. – Eu devia ter tirado o Yunho e o Jaejoong do meu caminho antes, devia ter sido mais homem.

– Não importa mais, agora você está aqui. Eu não quero mais pensar no Yunho, ou no Jae, eles estarão bem juntos.

– E eu não vou sair do seu lado, eu não cometeria o mesmo erro duas vezes. – Concluiu Yoochun. – Mas agora está tarde e eu preciso ir.

– Eu também trabalho amanhã pela manhã, preciso me despedir do Hyuk. Me desculpe não ligar pra te avisar sobre o meu término de namoro, eu devia ter feito isso antes.

– Tudo bem, eu respeito o seu tempo e o seu espaço. – Afirmou Yoochun, afastando o rosto brevemente para poder fita-lo. – Você vai ficar bem?

– Melhor do que nunca. – Sorriu-lhe Junsu. – Vai me ver no final de semana?

– Sem falta. – Disse Micky sorrindo bem humorado. – Eu não queria ir embora, mas passar a noite aqui na garagem do Hae parece uma coisa muito boba a se fazer.

– Muito bobo, até demais. – Riu-se Junsu. – Eu também queria você comigo, mas temos nossos compromissos.

– Antes de mais nada, eu tenho um segredo pra te contar.

– Que segredo é esse?

– Acho que eu nunca deixei de amar você, Junsu. – Micky sorriu com o canto dos lábios, assim que a felicidade tomou conta das feições do rapaz. Ele selou seus lábios, se afastou e beijou as costas de sua mão, o reverenciando. – Tenha uma boa noite.

Junsu cobriu o rosto, corado e sua face era pura felicidade. Ele reverenciou Micky e o fitou se afastar e riu-se com ar bobo quando este acenou para si pouco antes de adentrar o carro. Junsu somente voltou para dentro da casa quando o rapaz saiu dali, e lá encontrou com Hyuk na cozinha, bebendo o que sobrara do suco. Ele sorriu abobado para seu amigo que riu de sua expressão.

– Eu gosto tanto dele, Hyuk.

– O que houve lá fora?

– Ele me deu um beijo. – Sorriu-lhe Junsu. – Um beijo tão gostoso, tão quente, que eu não sei nem como descrever.

– Vocês não perdem tempo mesmo, não é?

– Você também não perdeu tempo com o Donghae, eu bem me lembro.

– Eu só não quero que ele te machuque de novo.

– Não vai me machucar, ele gosta de mim também. – Disse Junsu, sorrindo sonhador. – Acho que nós somos almas gêmeas, como você e o Hae.

– Tá todo bobão agora né? – Riu-se Hyuk.

– Me deixa, Hyuk-ah! – Disse Junsu entre risos. – Eu preciso ir pra casa, onde estão os outros pra eu me despedir?

– No quarto de hóspedes, o Hae está emprestando um pijama para eles.

Junsu seguiu juntamente com Hyujae para o quarto, onde desejou boa noite a todos os presentes. O quarto de hóspedes ainda estava bagunçado, mas a cama de casal que os rapazes reservaram para o cômodo já estava devidamente montada e arrumada. Kyuhyun e Changmin trajavam calças de moletom e camisetas com a estampa desbotada, um tanto curtas para seu tipo físico.  Junsu os deixou sozinhos e saiu dali, ainda animado com o desfecho de sua noite, era um bom recomeço para sua vida amorosa.

Assim que os dois rapazes estavam acomodados na cama de casal com um fino cobertor sobre si, Donghae sentou-se na beirada da cama, ajeitando suas cobertas. Changmin abraçou a cintura de seu namorado e fechou os olhos, sonolento e cansado do dia trabalhoso que tivera. Antes de dormir, ele ainda ouviu Donghae desejar-lhes boa noite e selar o topo da cabeça dos dois. Hyuk desligou a luz e o casal finalmente os deixou a sós para descansarem.

Kyu ainda passou um tempo olhando para o teto do local, sentindo a respiração de Changmin acariciar seu colo. Sua mente viajou por todas as mudanças que sua vida sofrera, drásticas, repentinas, violentas e finalmente ele estava próximo de uma mudança mais lenta que não o impedia de sentir-se ansioso. Ele estava acomodado em sua vida profissional, mas Donghae tinha razão, ele precisava crescer, superar seus próprios limites, se surpreender com sua capacidade e se para isso ele tivesse que sair de sua zona de conforto ele o faria.

No entanto, algo naquela intensa ansiedade o consolou de forma tão plena que o ajudou a adormecer profundamente. Exercendo sua função de economista o traria conforto financeiro e logo ele poderia comprar um apartamento maior, com um guarda-roupa maior e também um banheiro maior. E quem sabe, em seguida, Changmin iria morar consigo e desta forma, ele daria início ao seu maior sonho, formar uma família com o rapaz.

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