Capítulo25: Unhealthy

Eram dez da manhã e Donghae havia dormido muito mal. Ele chegou em casa às 7 e não pretendia acordar antes da uma da tarde, mas pela manhã ele acordou ao lado de seu companheiro e não mais conseguiu dormir. O rapaz se revirava de um lado a outro, mas nenhuma posição parecia confortável naquela cama. Preocupado em acordar Hyuk, ele se levantou e seguiu para sua cozinha, onde prepararia um chá.

Depois de colocar a água para ferver, Donghae teve a sensação de que algo estava errado. Ele checou o fogão em busca de vazamentos, e as tomadas da cozinha e da sala, em busca de algo fora do comum e quando não encontrou, riu-se de sua paranoia. Ainda assim, ele foi ao quarto e checou se Hyuk estava bem, e naquele momento o rapaz havia acordado e tateava a cama em busca de seu corpo.

Donghae se aproximou e se sentou em seu lado da cama, pegando a mão de seu companheiro que finalmente abriu os olhos, sonolento. Hyuk bocejou demoradamente e preguiçosamente se arrastou sobre a cama para poder abraçar a cintura de seu amado, se encaixando ali. Ele fechou os olhos preguiçosamente com a carícia que Donghae fez em seus cabelos e finalmente disse com a voz baixa:

– Que horas são?

– Dez e meia, você pode dormir mais.

– Por que já levantou, Hae?

– Eu perdi o sono. – Explicou Donghae. – Estou fazendo um chá, não me sinto muito bem.

– O que você tem? – Indagou Hyuk erguendo o olhar para poder fitar seu amado.

– Não sei, estou com uma sensação estranha.

– Pode ser gripe, você reclamou de dor de cabeça quando nós chegamos em casa.

– Pode ser. – Disse Donghae, se desvencilhando do abraço de seu amado para poder se levantar. – Dorme mais um pouco, Hyuk-ah, eu vou tomar o meu chá.

Hyukjae acomodou-se novamente na cama enquanto seu companheiro se afastava. Donghae voltou para a cozinha ainda preocupado, mas tratou de preparar seu chá. Ele cogitou ligar para Kyuhyun, mas sabia que o rapaz estaria dormindo naquele horário, pois havia sido uma noite puxada para ambos. Estranhamente, Donghae não se sentia cansado, mas sim melancólico e esperava que aquela bebida quente acalmasse seu coração.

Quando ele chegou à sala, Hyuk havia aparecido no corredor, a passos lentos e preguiçosos. Ele sabia que não conseguiria dormir sem seu Donghae ao seu lado, ainda mais estando preocupado com este. Os dois sentaram-se no sofá e deixaram um programa matutino de culinária passando na TV. Donghae gostava daqueles programas, de anotar receitas e experimenta-las, no entanto, sua mente estava distraída aquele dia.

– O que você está sentindo? Dor de cabeça? – Indagou Hyuk.

– Não, é uma sensação estranha, de estar esquecendo alguma coisa ou de ter algo fora do lugar. É como… você lembra aquela vez que nós tivemos que levar o Siwon para o hospital com apendicite no primeiro ano de faculdade? É mais ou menos a mesma sensação daquele dia.

– Meu amor, o Siwon só tinha um apêndice e ele já tirou, não precisa se preocupar. – Riu-se Hyuk. – Está tudo bem, essa sensação deve ser cansaço por causa dessa noite corrida.

– Eu queria ligar para o Kyu, mas vou acordar ele e o Changmin.

– Ligar pra ele? Por que?

– Queria saber se ele precisa de alguma coisa. – Afirmou Donghae. – Eu sei, é bobagem minha.

– Exatamente, acordar o Kyu por nada? Deixe ele descansar, Hae-ah, a noite você vai ver ele mesmo.

Donghae concordou com seu companheiro e se ajeitou melhor nos braços deste. Aos poucos o chá em sua xícara foi desaparecendo, mas nada de seu sono voltar. Hyuk estava preocupado com seu amado, pois reconhecia que ele tinha um sexto sentido aguçado, e ainda estava preocupado com a saúde do mesmo. Aquela sensação agoniante não passava, e por mais cansado que estivesse, não conseguia dormir.

O telefone tocou e os dois se entreolharam surpresos. Era muito raro eles receberem ligações em casa e apenas mantinham o aparelho fixo para conversar com suas famílias que moravam longe. Hae precipitou-se para atender a chamada e Hyukjae tratou de observa-lo preocupado. Receber uma ligação, mesmo que por engano, não ajudaria em nada nas emoções de seu amado, e ele esperava que fosse mesmo apenas um engano?

– Anyeong? – Disse Donghae com o aparelho em seu ouvido.

Por favor, eu gostaria de falar com o senhor Lee Donghae ou o senhor Lee Hyukjae. – A voz do outro lado da linha era de uma moça calma, que Donghae não reconhecera.

– Eu sou Lee Donghae, quem fala?

Aqui é do hospital da Cruz Vermelha, nós encontramos o seu telefone como referência para emergências do senhor Cho Kyuhyun, o senhor conhece ele?

– Sim, eu conheço o Kyuhyun, o que houve com ele? – Disse Donghae sem disfarçar o desespero em sua voz.  

– Nós tentamos contatar a família dele, o senhor tem algum parentesco?

– Ele perdeu o contato com a família há anos, eu posso me responsabilizar, mas me diga o que houve com o Kyu? Ele está bem? Pelo amor de Deus!

Ele está estável, mas eu preciso que o senhor venha aqui assinar alguns papéis e conversar com o médico. Eu preciso de mais uma informação, o senhor conhece o senhor Shim Changmin?

– Sim, é o namorado do Kyuhyun.

Nas referências de emergência dele, temos o telefone dos pais dele, mas o número está incorreto. Você conhece algum familiar dele?

– A família dele está no Japão, mas eu conheço o colega que mora com ele, o Jaejoong. O Changmin também está internado?

Está sim senhor, você teria o contato desse colega dele?

– Sim, só um instante.

Donghae tremia da cabeça aos pés e pelo pouco que Hyukjae pudera entender algo realmente estava errado. As lágrimas se formavam nos cantos dos olhos de seu companheiro, enquanto este trêmulo procurava o telefone de Jaejoong. Assim que ele passou o número para a funcionária do hospital, eles desligaram o telefone e Donghae jogou-se nos braços de seu amado.

Hyukjae abraçou seu companheiro, e segurou-se para não chorar, não antes de ouvir as informações que ele tinha a dizer. Donghae engoliu os soluços, pois precisava se manter íntegro se quisesse ajudar seu querido amigo. Ele se afastou de Hyuk e suspirou pesadamente, criando coragem para ignorar aquele nó em sua garganta e contar o que ouvira pelo telefone. Suas lágrimas rolaram pelo rosto antes dele voltar a falar.

– Era da cruz vermelha, o nosso Kyu deu entrada lá, hoje pela manhã. Eles pediram para nós irmos até lá, parece que o Changmin está com ele. Eu sabia que algo estava errado, eu sabia Hyukie!

– Eles disseram o que houve com eles? – Indagou Hyukjae.

– Não, a moça disse que nós temos que ir conversar com o médico.

– Então vamos logo, eu dirijo, Hae-ah.

Eles se trocaram rapidamente, vestindo a primeira roupa que apareceu-lhes e em seguida saíram rapidamente do apartamento. Hyuk tentava se atentar às regras de trânsito e não ultrapassar a velocidade permitida, por mais que sua vontade fosse correr o máximo que o motor de seu carro o permitisse. Donghae não soluçava, mas as lágrimas teimosas escapavam de seus olhos e eles as afastava com as costas da mão.

No caminho, eles receberam uma ligação de Yunho que estava com Jaejoong quando ele recebera a notícia. Em seu apartamento, ele tentava acalmar o rapaz antes deles saírem em direção ao hospital. Donghae disse que logo eles chegariam ao hospital e os esperariam lá, torcendo para que tudo estivesse bem com os dois rapazes. Eles levaram quarenta minutos para chegar ao longínquo hospital e estacionaram o carro ao mesmo tempo que Jaejoong e Yunho, que moravam mais perto.

Os quatro, com olhares assustados se encontraram na recepção do hospital e depois de passarem pela fila de espera do pronto socorro, se aproximaram da recepção. Hyuk tomou a frente e assinou os papéis da entrada de Kyuhyun, assim como a autorização da cirurgia que havia sido feita pela emergência da situação. Jaejoong, apoiado por Yunho, assinou os papéis de Changmin e finalmente eles foram levados para uma sala de espera, onde o médico os encontraria.

Havia diversas perguntas e hipóteses girando na mente dos quatro rapazes, e a cada nova possibilidade seu coração se apertava. Eles não entendiam porque os dois não poderiam assinar por si, e talvez a situação fosse mais grave do que eles imaginavam. Os quatro não se falavam, pois não conseguiam verbalizar suas agonias, e assim, eles apenas esperaram pelo médico que apareceu pouco tempo depois.

O médico que apareceu era jovem e atendera os dois rapazes naquela manhã. Ele chamou os quatro que se aproximaram temerosos. Jaejoong tinha sua cintura envolta pelos braços fortes de Yunho, enquanto Donghae e Hyukjae tinham seus dedos entrelaçados. O doutor se apresentou e depois de uma breve reverência, ele começou a falar:

– Vocês são os parentes de Cho Kyuhyun?

– Não, ele não tem contato com a família desde os dezesseis anos. – Explicou Hyuk. – O que houve com o nosso garoto, doutor?

– Ele deu entrada hoje pela manhã, com uma perfuração por lâmina na altura do rim. Foi feita uma cirurgia de emergência, mas nós só conseguimos salvar metade do órgão, então ele terá apenas metade das funções renais do lado direito. Ele tinha algumas escoriações no rosto e assim que acordar, ele será levado para a hemodiálise. Ele foi encontrado pela polícia, e assim que acordar, ele será interrogado sobre o acontecido, mas a hipótese é que ele foi atacado e sangrou por uma hora até ser encontrado.

– Atacado? Por quem? Quem faria isso com o Kyunie? Foi um assalto, por que atacaram ele? – Indagou Donghae.

– O que exatamente aconteceu, nós só saberemos quando ele acordar, mas o policial que o encontrou descartou a possibilidade de assalto, pois ele estava com sua carteira, documentos, relógio e nada parecia ter sido retirado. – Explicou o médico.

– E o Changmin? – Indagou Jaejoong com a voz embargada.

– Você é parente dele? – Indagou o médico.

– Eu sou amigo dele, nós moramos juntos há anos. O que houve com ele, doutor?

– Ele deu entrada ao mesmo tempo que o Kyuhyun e tinha lesões pelo corpo todo, além de costelas e alguns ossos da face quebrados. Aparentemente, ele foi brutalmente espancado, também sem motivos aparentes, pelo laudo inicial da polícia, não houve furtos de nenhum dos dois. Eles foram encontrados juntos, de mãos dadas, desacordados, em um beco atrás de um bar.

– Atrás do bar? Hyukie, eles estavam atrás do bar! – Disse Donghae. – Eles foram atacados atrás do bar e nós não vimos nada! Por que nós não deixamos eles em casa?

– Calma, meu amor, calma. – Disse Hyukjae, abraçando Donghae pelos ombros. – Doutor, eles vão ficar bem?

– Eles ainda precisam de tratamento, mas vão ficar bem sim. Eu vou deixar os dois aqui em observação e depois eles poderão ser cuidados em casa.

– Eu posso ver o Changminie? – Indagou Jaejoong.

– Pode, eu vou chamar a enfermeira que vai levar vocês até o quarto. Quando eles acordarem eu vou examina-los melhor.

Os quatro agradeceram ao médico que se afastou e finalmente Donghae afastou o rosto do ombro de seu namorado. Eles combinaram que cada um visitaria seus respectivos amigos até que eles acordassem, então eles trocariam. Jaejoong tratou de avisar Junsu que ele ficaria no hospital e Yunho estaria com ele até a hora do almoço, quando ele finalmente deveria voltar ao seu trabalho.

A enfermeira se aproximou deles e indicou para onde eles deveriam seguir. Os dois estavam em quartos separados, em um longo corredor com algumas cadeiras espalhadas para que os visitantes se acomodassem. Jae e Yunho adentraram no terceiro quarto do corredor e o que viram fez a mente dos dois girar. Changmin dormia com um lençol cobrindo seu corpo. Seu rosto estava coberto de hematomas, ele tinha pontos em seu supercilio e seu olho estava inchado.

Ele tinha alguns cortes no lábio inferior, e alguns medicamentos eram dosados por sua mão diretamente em sua veia. Quando eles se aproximaram, perceberam que ele tinha o tórax enfaixado em função das costelas quebradas. Ainda assim, ele tinha feições tranquilas enquanto dormia, sedado desde que a ambulância chegou ao local em que ele havia desmaiado.

No quarto ao lado, Donghae e Hyukjae avistaram seu amigo também adormecido. Como o médico indicara, Kyu tinha escoriações no rosto em função da queda, e um corte superficial em seu pescoço. Eles adentraram o quarto e silenciosamente se aproximaram da cama, acariciando os cabelos finos do rapaz. Ele já não usava as roupas da noite anterior e sim a camisola do hospital e tinha pontos na altura do rim.

Os dois rapazes não se demoraram a se acomodar no desconfortável sofá do quarto e esperaram que Kyu despertasse. Donghae deitou-se novamente no ombro de seu namorado e os dois permaneceram em silêncio esperando que Kyu acordasse bem, que os contasse o que havia acontecido e que tudo aquilo terminasse bem. No quarto ao lado, Changmin despertou, meia hora depois da chegada de seus amigos.

A primeira coisa que Changmin viu foi uma forte luz branca que machucaram seus olhos. Ele gemeu baixinho e voltou a fecha-los, chamando a atenção de Jae e Yunho que se aproximaram de sua cama. Ele piscou e abriu os olhos, finalmente percebendo que não mais estava no chão frio e sim em uma cama macia e confortável. Sua boca estava seca e ele olhou a volta, tentando reconhecer aquele lugar, sem sucesso algum. Finalmente, ele viu Jaejoong parado ao lado de sua cama, com lágrimas no rosto e Yunho ao seu lado, com as mãos em seus ombros.

– Jae? – Indagou Changmin.

– Você acordou, Changminie, como se sente? – Indagou Jaejoong compreensivo.

– Eu vou avisar a enfermeira. – Afirmou Yunho, não se demorando a sair dali.

– Estou com sede, onde tem água? Onde eu estou? – Disse Changmin, desnorteado.

– Você está no hospital meu amigo, a polícia te encontrou.

– A polícia? – De repente, Changmin lembrou-se do ocorrido daquela manhã, os socos e pontapés, o choro de seu namorado e então ele arregalou os olhos, segurando firmemente a mão de Jae antes repousada no estrado da cama. – Onde está o Kyuhyun? O que eles fizeram pra ele? Onde ele está? Eu quero ver ele! Ele estava chorando, precisam cuidar dele.

– Sshhh, calma. – Disse Jaejoong, sentindo um nó em sua garganta ao ver seu amigo tão assustado. – O Kyu está bem, ele está dormindo agora, no quarto aqui do lado.

– Eles machucaram o meu Kyu, não machucaram? Eles disseram que iam matar ele, Jae-ah! – Disse Changmin, sentindo as lágrimas escorrerem por suas têmporas, antes que ele se entregasse aos soluços, dizendo. – Eu quero o meu namorado.

– Calma, Changminie, está tudo bem agora. – Disse Jaejoong se encurvando e o abraçando pelos ombros, enquanto ele próprio se permitia chorar. – Já passou.

“Oi Changminie.” A voz de Hyukjae, chamou a atenção dos dois quando entrou no quarto, calmamente, sorrindo entristecido para o rapaz. Jaejoong se afastou do corpo do rapaz e deixou Hyuk se encurvar e selar a testa deste demoradamente, antes de enxugar suas lágrimas com a ponta dos dedos. Changmin agora soluçava baixinho e sua voz saiu embargada quando ele se dirigiu ao rapaz:

– Hyung, onde está o Kyu?

– Ele está no quarto ao lado, com o Donghae, mas ele ainda está dormindo. – Explicou Hyuk. – O Yunho passou no quarto dele e nos avisou que você já tinha acordado. Eu vim te ver rapidinho, e quando eu voltar para perto do Kyu, o Donghae dá uma passadinha aqui.

– Como ele está? O que fizeram com ele?

– Ah, você não sabe? – Disse Hyuk, se sentando na beirada da cama do rapaz e segurando sua mão, compreensivamente. – Eles esfaquearam o Kyunie, na altura do rim.

– Não fizeram nada no pescoço dele? Bateram nele?

– Ele está com alguns arranhões no rosto, provavelmente quando ele caiu e tem um corte superficial no pescoço, por que?

– Porque eles ameaçaram cortar o pescoço dele, eu achei que eles iriam matar o meu Kyu e eu não podia fazer nada.

Assim que o rapaz terminou a frase, Jaejoong se afastou da cama entre soluços e seguiu para fora do quarto. Hyuk baixou o rosto e apertou a mão do rapaz, sentindo suas lágrimas também rolarem por sua face. Changmin acariciou a mão do mais velho o consolando enquanto este discretamente enxugava as lágrimas com as costas da mão. Jaejoong voltou mais calmo, trazendo consigo um pequeno copo plástico com água.

Ele se aproximou da cama do rapaz, que ameaçou se sentar, mas foi impedido por Hyukjae. Ele segurou a cabeça de Changmin pela nuca e a ergueu delicadamente enquanto Jae levava o copo aos seus lábios, permitindo ao rapaz, tomar o líquido. Quando Changmin terminou seu copo d’água, o médico chegou, acompanhado de Yunho.

O médico o examinou, fez perguntas, testou seus reflexos, temperatura e finalmente se afastou quando se deu por satisfeito. Changmin havia acordado relativamente bem, não sentia dores em demasia, estava respirando normalmente, e lúcido como o médico previra. Hyuk estava parado ao seu lado, ainda segurando a mão do rapaz quando o médico voltou a fazer perguntas:

– Você sabe como chegou aqui, Changmin?

– Não.

– Qual a última coisa que se lembra?

– Do Kyu caindo ao meu lado, de olhar para ele e segurar a mão dele, ela estava úmida e escorregadia, e só.

– É o seguinte, nós vamos te manter aqui até amanhã em observação, mas esperamos te mandar para casa até a hora do almoço de amnhã. Lá, é claro, você vai precisar de repouso, por pelo menos três semanas e depois quero que volte aqui para eu te examinar. Nada de sair, nada de festas, muito menos álcool, você vai tomar anti-inflamatórios pelas próximas semanas pra tratar da sua coluna e dos seus hematomas.

– E o meu namorado? Ele sai logo daqui?

– Vamos ver como ele vai acordar, mas eu acredito que ele vai sair ao mesmo tempo que você. Ele fez uma cirurgia simples, vai fazer hemodiálise daqui a pouco, mas de resto são remédios e descanso. Mais alguma dúvida?

– Acho que não, eu quero levar ele pra casa logo. – Reclamou Changmin.

– Se cuide primeiro, depois você poderá cuidar do seu companheiro. Agora eu preciso ir, qualquer coisa chame a enfermeira com aquele telefone e não esqueça, daqui a pouco o investigador da polícia vem falar com você e depois um psicólogo, está bem? É padrão que vítimas de violência tenham uma conversa com o psicólogo antes de sair, para termos certeza de que está tudo bem.

– Está bem, eu vou ficar esperando. – Afirmou Changmin, se ajeitando melhor em sua cama.

O médico já se despedia, quando Donghae afobado apareceu à porta dizendo que Kyuhyun estava despertando. O médico o agradeceu e Changmin tratou de mandar Hyukjae ir ver o seu namorado. Hyuk selou a testa do rapaz demoradamente e pediu para que Jaejoong o avisasse se precisasse de alguma coisa. Ele seguiu ao lado do médico para o quarto ao lado, onde Kyuhyun fitava tudo com ar desconcertado. Donghae parou ao seu lado e passou a mão em seus cabelos, recebendo um olhar demorado do rapaz.

– Hyung?

– Oi meu Kyunie. – Disse Donghae com a voz embargada. – Como está se sentindo?

– Bom dia, Kyuhyun. – Disse o médico. – Você está no hospital.

– N-no hospital? – Disse Kyuhyun, fitando tudo a sua volta, finalmente reconhecendo seus amigos. – Changminie? Onde está o meu Changminie? Machucaram ele, hyung, vocês precisam cuidar dele.

– Ele já está sendo cuidado, no quarto ao lado, vamos falar de você. – Interrompeu o médico. – Como se sente?

– Sinto dor nas costas, eu estou machucado. – Reclamou Kyuhyun.

O médico se aproximou e assim como com Changmin ele analisou o rapaz. Ao contrário de seu namorado, Kyu tinha febre e aquilo não deixou o médico satisfeito. Claro que a temperatura alta do rapaz deixou Donghae ainda mais agitado e obviamente preocupado. Finalmente, assim como o doutor fizera com Changmin ele tratou de conversar com o rapaz.

– Você chegou aqui com uma perfuração na altura do rim e passou por uma cirurgia pequena. Nós fizemos de tudo, mas você perdeu metade das suas funções renais do lado direito e precisará de um transplante se algo acontecer com seu rim esquerdo.  Você se lembra de como chegou aqui? Do que aconteceu?

– Eu me lembro de desmaiar do lado do Changmin, dele segurando a minha mão e depois eu acordei aqui. Como está o meu namorado?

– Ele teve algumas fraturas, mas vai ficar bem. Agora você vai pra hemodiálise, para o seu rim direito começar a funcionar, você pode sentir algumas dores e se estiver muito ruim, avise que nós aumentaremos o analgésico. Descanse, se a sua febre baixar, você sai daqui amanhã, com o seu namorado.

– Eu quero ver o Changminie. – Pediu Kyuhyun, desviando o olhar para Donghae. – Me leva lá, hyung?

– Você vai fazer a hemodiálise agora. – Explicou Donghae, se aproximando da cama do rapaz. – Depois nós conversamos de novo com o médico sobre isso, hm? Você tem que descansar, o hyung vai cuidar de você.

– Eu sei, hyung. – Disse Kyuhyun, sentindo um nó se formar em sua garganta. – Eu nunca senti tanto medo em toda a minha vida.

– Eu sei, eu sei. – Disse Donghae se encurvando sobre o rapaz. – Já passou, agora você está aqui e ninguém vai te machucar. Nem a você, nem ao Changminie.

– Como você chegou aqui, hyung? Como soube?

– Me ligaram do hospital, tinha o meu telefone em caso de emergências. – Afirmou Donghae, se afastando e enxugando suas lágrimas. – Eu fiquei tão preocupado.

– Nós ficamos. – Corrigiu Hyukjae. – Eu estava no quarto do seu namorado e ele está bem, apesar de preocupado com você.

O médico se despediu dos dois, avisando que a enfermeira logo viria com o aparelho de hemodiálise para o rapaz e um antitérmico para que a febre do mesmo se dissipasse. Donghae se encurvou, apoiando o rosto no ombro do mais novo que acariciou os cabelos do mais velho o consolando. Hyuk parou ao lado de sua cama e segurou-lhe a mão, também fazendo-lhe carinho com a ponta dos dedos.

Kyu finalmente estava acordado e agora o coração de Donghae batia menos pesadamente, ele estava com o seu jovem amigo novamente. A mera possibilidade de perder alguém que fazia parte de sua vida há tanto tempo, deixou Donghae desolado. Ele vira aquele rapaz crescer, se tornar um homem, superar fardos que ele acreditou serem insuportáveis e sempre ao seu lado. Hae voltou a selar a testa do rapaz demoradamente, finalmente se afastando:

– Hyung, vai ver o Changminie.- Pediu Kyuhyun. – Vai lá no quarto dele e fala pra ele que eu amo ele e que assim que eu melhorar eu vou lá cuidar dele.

– Eu vou mesmo lá ver como ele está. – Afirmou Donghae. – O Hyuk vai ficar com você, mas eu volto logo.

– Eu vou dormir mais, hyung, ainda estou com sono.

-Durma. – Disse Hyukjae. – Você tem que descansar, eu vou ficar aqui.

Donghae acenou para o rapaz e este aconchegou-se embaixo das cobertas. Ele fez a hemodiálise e logo adormeceu, levando horas para acordar. Changmin ficou mais tranquilo com as novidades sobre seu namorado, e chorou discretamente com o recado deste. Ele amava Kyu em demasia e desejava voltar a companhia deste, no entanto, os conselhos de Donghae funcionaram e ele tratou de se alimentar e descansar.

Antes de ir trabalhar, Yunho ligou para Junsu e o avisou sobre as novidades, para que mais tarde ele pudesse visitar seus amigos. Ele estava tão abalado com o que Changmin e Kyu passaram que naquele momento, suas diferenças com o rapaz se tornaram minimizadas. Jae se despediu de seu hyung e tratou de cuidar para que Changmin se recuperasse logo e assim, pudesse voltar ao encontro de Kyuhyun. Ele nunca havia passado o dia todo em um hospital, comendo a comida estranha da cafeteria e aquilo era por demais, cansativo.

Donghae e Hyuk migravam em escala de um quarto para outro, buscando o que fazer com os dois rapazes. Aquele fora um dia longo e no final da tarde, eles descobriram decepcionados que não poderiam pernoitar junto com os rapazes. Quando a noite chegou, a enfermeira acordou Changmin que cochilava e avisou a ele e seu amigo, que já se preparava para ir embora, que o investigador logo viria e ele seria levado ao quarto de seu namorado para que ambos fossem interrogados.

Quando Junsu chegou, juntamente com Yunho, eles ajudaram Changmin a sair da cama e caminhar até o quarto ao lado, onde seu namorado via televisão sem interesse algum. Donghae estava ao seu lado ainda com o mesmo ar preocupado, mas sorriu ao ver Changmin chegar à porta. Ele colocou a mão no ombro de Kyuhyun e apontou a porta, fitando o rosto de seu amigo se iluminar. Changmin mancou até a cama de seu namorado, ainda apoiado por seus amigos e segurou sua mão.

Ele desejava se encurvar sobre seu namorado e selar seus lábios, mas as dores em seu corpo não o permitiram. Ele logo se sentiu cansado e obrigou-se a se sentar ao lado da cama do mesmo que também se ajeitou para poder conversar com seu amado. Finalmente eles estavam juntos novamente e aquele pesadelo parecia mais próximo de chegar ao seu final. Kyu esticou a mão e segurou a de seu amado, o acariciando com a ponta dos dedos.

– Está doendo? – Indagou Kyuhyun.

– Um pouco. – Afirmou Changmin. – Você foi incrível, Kyunie, tão corajoso.

– Você foi o meu herói, aturou tudo aquilo sem falar nada e eu, eu não pude fazer nada Changminie. Eu achei que ia te perder, que eles tivessem tirado você de mim, eu tive tanto medo.

– Eu também tive medo, meu príncipe, mas agora acabou.

“Boa noite.” Uma voz grave chamou a atenção dos presentes no quarto e um homem de terno e gravata os encarava com olhar analisador. O investigador parou próximo a cama do rapaz e o fitou demoradamente, depois desviou o olhar para o namorado do mesmo. Finalmente ele pediu para que o quarto esvaziasse e ficassem no máximo três pessoas com os dois rapazes. Hyukjae, Donghae e Jaejoong se acomodaram silenciosos em um sofá ali disposto, esperando as primeiras perguntas.

– Eu vou gravar o depoimento de vocês dois, mas quero que se lembrem que vocês podem mudar e acrescentar algo quando quiserem. – Os dois assentiram, em silêncio. – Vocês foram encontrados em um beco, muito machucados e de mãos dadas, mas ainda com todos os seus pertences. O que eu quero que me contem, é o que aconteceu? Do que vocês se lembram?

– Nós estávamos saindo do Candy Bar, porque o turno do Kyuhyun já havia acabado.

– Eu trabalho no Candy Bar, há alguns anos. – Explicou Kyuhyun. – Eu disse ao Changmin para nós sairmos pelos fundos e irmos pelo beco porque encurta o caminho para a minha casa, se eu soubesse…

– Você não tinha como saber, nós dois não tínhamos.

Eles contaram em detalhes o que acontecera naquela manhã, pois apesar do trauma, ainda era algo que estava fresco em suas mentes. Eles não choraram quando contaram o relato todo e de certa forma era um alívio poder falar do assunto tão abertamente. Ao final, Donghae soluçava discretamente apoiado no ombro de seu companheiro. Jaejoong mudara se lugar e se sentara ao lado de Changmin e segurava sua mão com firmeza, como se buscasse arrancar dele seu sofrimento.

O investigador não fez interrupções, perguntas ou adendos, ele apenas os ouviu com atenção e fez as anotações que acreditou serem necessárias. Assim que eles terminaram, um silêncio reinou pelo quarto e eles apenas ouviam os soluços discretos de Donghae, o mais sensível até então. O investigador andou de um lado a outro e finalmente deu seu parecer sobre o assunto:

– Não me restam dúvidas de que foi um crime de ódio, e acredito que vocês tiveram sorte em sobreviver. Aparentemente a intenção do grupo era convencer-lhes que o relacionamento que vocês mantém é errado, mas em poucas vezes as pessoas sobrevivem a esse tipo de ataque. Tem algumas coisas que eu gostaria de perguntar, vocês viram alguma movimentação estranha dentro do bar ou aos arredores?

– Tirando os assaltos recentes, não. – Explicou Kyuhyun.

– Vocês tiveram alguma desavença nos últimos meses? Seja como casal ou indivíduos.

– Bem, eu não acho que isso tenha nenhuma relação com o que aconteceu, mas… – Começou Kyuhyun.

– Mesmo que pareça improvável, eu preciso saber. – Interrompeu o investigador.

– Nossos colegas de sala não gostaram muito do nosso relacionamento.  – Explicou Changmin. – Eu discuti sobre isso com eles algumas vezes.

– Eu quero o nome de todos eles, e não se preocupem, eu farei perguntas de rotina. – Disse o investigador, anotando cada nome que os dois se lembravam. – Vocês tem mais algum inimigo?

– Não. – Disseram os dois em uníssono.

– Acho que é o suficiente. – Afirmou o detetive, desligando o pequeno gravador. – Eu vou deixar o meu cartão, caso se lembrem de alguma coisa ou se avistarem algo que pareça suspeito, me avisem.

– Você não tem mais perguntas? Eu queria ficar mais um pouquinho aqui. – Pediu Changmin.

– Você tem que descansar, Changminie, logo vocês vão poder voltar a ficar juntos. – Afirmou Jaejoong, o abraçando pelos ombros.

O investigador se despediu deles com a promessa de voltar caso tivesse alguma novidade sobre o caso deles. O que ele adiantou é que acreditava que a mesma gangue que os encurralou era responsável por uma onde de crimes contra moradores de rua, e aparentemente casais homossexuais eram seu novo alvo. Depois da saída deste, a enfermeira ajudou Changmin a voltar a seu quarto e seus amigos se despediram.

Changmin demorou a dormir aquela noite, estar sozinho em um hospital não era nada agradável e Kyu tivera pesadelos com seu namorado desmaiado e ensanguentado no chão do beco, no entanto, eles bem sabiam que o trauma seria o mais demorado de sua recuperação. Eles foram para a casa de Kyu no dia seguinte e o Candy Bar fechou por dois dias em protesto ao que os rapazes haviam sofrido.

Quando Changmin deitou-se ao lado de seu amado ele percebeu que a partir do momento que ele assumiu seu caso com Kyuhyun ele entrara em uma guerra, não somente contra as pessoas a sua volta com quem ele tinha que conviver, mas contra toda uma sociedade moralista e arcaica e ele sabia que não estava nem perto do final. No momento, eles estavam seguros na casa do menor, protegidos pelo carinho que seus amigos passavam-lhe.

No entanto, logo eles teriam que sair dali. As feridas em seu corpo secariam, e os hematomas iriam desaparecer de suas peles, mas quem poderia dizê-los o que os aguarda na próxima esquina? Que tipo de reprovação eles ainda sofreriam? Quantas represálias eles teriam que enfrentar para viver o sentimento que eles carregavam em seu peito?

Aquelas dores os tornaram homens e quando voltaram às aulas, seus colegas reconheceriam a maturidade deles e os respeitariam diante de seus problemas. Donghae e Hyuk ainda se orgulhariam dos dois rapazes que sobreviveram como casal diante de tais atrocidades e tanto Jaejoong  quanto Junsu os levariam como exemplo, finalmente entendendo o quão frágil é a vida humana e como eles deveriam ir atrás do que realmente desejam. A história de amor de Changmin e Kyuhyun estava verdadeiramente começando.

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