Capítulo 30 – A última semana de novembro

 

Os três meses que se passaram depois do aniversário de namoro voaram diante dos olhos dos dois rapazes. Com a entrada de quatro novos estagiários, a concorrência de Kyuhyun se tornou acirrada, e ele se viu obrigado a se esforçar o dobro, inclusive faltando aulas para cumprir horas extras e completar as tarefas que lhe eram dadas. No último mês, os diretores anunciaram que no final de novembro, um deles seria escolhido para ocupar um cargo de auxiliar no tribunal de contas e assim, dar início à sua carreira.

Por outro lado, Changmin também conseguiu um estágio, mas ao contrário do tribunal, eles não pareciam interessados em contratar os estudantes e sim ter mão de obra qualificada e barata. Ele não durou mais de um mês em cada estágio, e estes serviram apenas para aumentar sua agenda de contatos profissionais. Changmin passou o resto do mês fazendo freelances para as mais diversas empresas até finalmente ser cordialmente convidado para um programa de trainee de uma grande multinacional que possuía um departamento apenas voltado para o controle de suas ações.

Com suas novas tarefas o tempo do casal se tornou ainda mais limitado e com a chegada do fim do último semestre seus finais de semana passaram a ser dedicados única e exclusivamente aos seus estudos. Mesmo com o tempo corrido, Kyuhyun ainda ia ao Candy Bar todas as noites depois da aula, por mais que sentisse que estava cada vez mais próximo o momento de se despedir definitivamente do local. Donghae aparentemente tinha a mesma sensação, pois passou as últimas semanas de novembro com ar melancólico e vez ou outra Kyu o flagrava o olhando, com um sorriso bobo no canto dos lábios.

Seu afastamento do Candy Bar se tornou óbvio quando na última semana de novembro, em uma tarde fria, na qual os últimos seminários foram apresentados e os artigos e trabalhos finalmente entregues, o diretor da graduação que Kyu e Changmin cursavam entrou na sala para informar-lhes as novas decisões vindas diretamente da reitoria. A partir do ano seguinte não haveria mais cursos de graduação durante a tarde, aquele horário seria reservado para os cursos técnicos e de qualificação profissional. No próximo ano, eles se uniriam aos alunos de mestrado e doutorado no período noturno.

Claro que com o horário comercial livre, ficava muito mais fácil para que os dois rapazes trabalhassem nos respectivos empregos que ambos almejavam. Por outro lado, aquilo significava que o tempo que Kyu dedicava ao Candy Bar durante a semana, agora seria voltado para suas aulas. Mais do que nunca, ele precisava do emprego no tribunal de contas, para continuar a se sustentar, afinal, Donghae e Hyukjae logo teriam que desviar seu salário a um novo bartender com horário disponível.

Kyuhyun ainda tinha intenções de trabalhar com os dois rapazes até o último momento, quando suas aulas começassem, no entanto, na mesma semana de novembro, seu contrato de estágio venceria, assim como de todos os outros jovens que trabalhavam lá. Era uma sexta-feira e Kyuhyun esperava conseguir sair mais cedo e almoçar com seu namorado antes de seguir para seu último dia de aula, uma vez que ele não teria provas finais a serem realizadas. Milagrosamente, Kyu mantivera suas médias, mesmo com o tempo reduzido de estudo.

Naquela atípica sexta-feira de inverno, Kyuhyun foi chamado ao gabinete do diretor da ala de controle de gastos governamentais. Era um senhor de meia idade, com alguns poucos cabelos grisalhos que ele não se envergonhava em assumir. Kyu descobriu naquele meio tempo que o filho do homem que ocupava o cargo mais alto na seção que ele pretendia trabalhar, frequentava o Candy Bar pelas costas de seu pai, um homem rígido e conservador e que ainda assim, não se importou quando soube de sua opção sexual. Claro, as coisas são muito diferentes quando se trata de sua própria família.

Kyuhyun adentrou o gabinete com grandes estantes em mogno cobertas de livros, uma escrivaninha do mesmo tipo abarrotada de papéis e um notebook, além de fotos de família e alguns enfeites. Um tapete vermelho cobria o chão e sentado em uma grande cadeira de couro giratória, o homem o esperava com uma feição tranquila. Kyu ajeitou sua gravata e após reverencia-lo, sentou-se de frente para o presidente, que quase imediatamente começou a falar, com seu tom tipicamente suave.

– Aceita um café, Kyuhyun?

– Não, obrigado. – Disse Kyu, polidamente.

– Kyuhyun, me diga, quais são os seus planos daqui para frente? – Indagou o homem se servindo de uma xícara de café.

– Bem, se eu não for escolhido para ficar aqui eu vou ter que arrumar outro trabalho o mais rápido possível, pois não poderei mais trabalhar no bar por causa do meu horário.

– E você mora sozinho, correto?

– Correto.

– Você gostou daqui?

– Sim, era exatamente o que eu esperava quando comecei a trabalhar. Como todo trabalho tem seus problemas e dificuldades, mas não é nada complicado de ser superado. – Afirmou Kyuhyun com um sorriso discreto nos lábios. – E quem não gostaria de entrar no último ano da faculdade trabalhando no tribunal de contas, não é mesmo?

– De fato. – O homem sorriu-lhe e retirou de sua gaveta uma folha de papel e o entregou a Kyuhyun. – Então eu acho que você é um rapaz de sorte, Cho Kyuhyun. Essa é a nossa proposta, sua carga horária, salário, deduções, e benefícios estão descritos aí. E se você aceitar, pode começar assim que suas aulas terminarem.

– Eu… consegui? O cargo, eu consegui?

– Meus parabéns rapaz, pode ir agora, leia a proposta com cuidado e nós conversaremos de novo na segunda-feira.

Kyuhyun apertou a mão de seu futuro chefe e o reverenciou várias vezes antes de sair da sala com um largo sorriso nos lábios. Alguns de seus colegas de trabalho o parabenizaram antes do rapaz pegar sua pasta e tratar de sair dali. Com seus pertences sobre seus ombros ele ajeitou o cachecol em seu pescoço e seguiu a passos largos em direção ao apartamento de Changmin que teria um único dia de folga antes de começar seu programa de treinamento.

No apartamento de Changmin o clima também era bom. Yunho e Jaejoong namoravam na sala, enquanto o rapaz retirava do forno um delicioso rocambole de carne que ele preparara para o almoço com seu namorado e seus dois amigos. Na mesa, uma bela salada de pepino, tomate e alface e arroz com legumes estavam dispostos em travessas de vidro. Assim que retirou o prato principal do forno e o colocou sobre um apoio próprio, Yunho  e Jae adentraram a cozinha, de mãos dadas.

– Parece delicioso, Changminie. – Elogiou Yunho.

– Sim, agora só falta o meu príncipe. – Concluiu Changmin, retirando sua luva térmica e a deixando sobre o balcão. – Céus que preguiça de ir pra aula, parece que no final do ano isso fica ainda pior.

– Acho que o novo turno não vai ajudar em nada, principalmente se você trabalhar o dia todo. – Afirmou Jaejoong com ar desanimado.

– É o que eu pretendo. – Concluiu Changmin. – Nós vamos ter que decidir o que fazer com o apartamento caso eu me mude com o Kyunie.

– Não se preocupe, quando você tiver um novo apartamento, nós poderemos discutir. – Afirmou Jaejoong. – Se você não vier me visitar, eu vou ficar bravo.

– Claro que eu venho te visitar, Jae-ah. – Riu-se Changmin. – E vocês? Quando vão morar juntos?

– Ainda é muito cedo, Changmin-ah! Nós namoramos há poucos meses, precisamos nos conhecer melhor. – Afirmou Yunho.

– Você com certeza sabe melhor sobre esse assunto do que nós, hyung. – Afirmou Changmin.

– Eu sei, e não se preocupe, não vou te deixar pessimista sobre sua decisão de morar com o seu namorado. – Riu-se Yunho. – Se você acha que é o momento, vá em frente.

– Só depois que eu estiver devidamente empregado, e ele também.

Antes que eles pudessem terminar aquele assunto, a campainha do apartamento soou, anunciando Kyuhyun. Jaejoong e Yunho, já famintos se acomodaram na mesa e esperaram o rapaz atender seu namorado à porta. Assim que Changmin deu-lhe passagem para entrar, Kyu jogou-se contra seus ombros, escondendo o rosto contra seu pescoço, ainda com um largo sorriso nos lábios. Changmin pouco entendeu da atitude de seu amado, mas retribuiu seu abraço e selou seus lábios demoradamente, enquanto fechava a porta com um pontapé. Kyu segurou seu namorado pela nuca e selou seus lábios diversas vezes em comemoração, para finalmente se afastar e contar-lhe os motivos de sua animação:

– Eu consegui, Changminie! O cargo no Tribunal é meu!!

– Eu sabia!! – Disse Changmin animado, segurando seu namorado pela cintura e o suspendendo no ar. – Eu sabia que você ia conseguir, meu príncipe, é tão inteligente.

– Eu nem acredito! – Riu-se Kyuhyun. – Eu quero que você leia a proposta comigo, eu ainda não aceitei o emprego. Na segunda-feira tenho que ir lá dar uma resposta.

– Vamos almoçar primeiro, depois nós dois lemos a sua proposta e ficamos pra segunda aula hoje.  A primeira é uma revisão para a prova final, mesmo.

Changmin soltou seu namorado que de imediato concordou com sua proposta, ele deixou sua pasta de documentos sobre o sofá da sala e seguiu para a cozinha, encontrando Yunho e Jaejoong já se servindo da comida. Changmin ralhou com os dois por não terem esperado-os, ao que eles justificaram estar tentados demais com o cheiro da comida para resistir de provar um pouco.

Kyuhyun aprovou o rocambole que Changmin preparou e comeu logo três generosos pedaços do mesmo. Eles conversaram animadamente sobre o novo emprego de Kyuhyun, no entanto, o tempo não fora nada generoso com os dois casais e logo Yunho teria que voltar ao seu trabalho e Jaejoong faria um teste para trabalhar como massagista em uma clínica de estética. Assim, o casal ficou sozinho, com uma pilha de louças para lavar e a proposta de Kyuhyun para ler antes da aula.

Sem perder mais tempo, os dois trataram de ajeitar a cozinha e finalmente sentaram-se no sofá para ler o que dizia o papel que o diretor entregara a Kyuhyun. A carga horária, como Kyuhyun imaginara, era de segunda a sexta, tomando-lhe a manhã e a tarde toda. Durante as férias, ele teria suas noites livres, no entanto, quando suas aulas voltassem, as coisas voltariam a se tornar corridas. A descrição do cargo também não era nenhuma surpresa, apenas a prática de tudo que ele aprendera com os últimos anos de faculdade.

O que os surpreendeu no final das contas fora o salário. Era mais do que Kyuhyun ganhava com o estágio e o Candy Bar juntos, ele não tinha do que reclamar. O que o deixou preocupado, era como ele contaria as novidades a Donghae. Certamente tudo se encaixava, seu novo emprego com o novo horário da faculdade, no entanto, ele teria que se despedir de seu cargo no Candy Bar, definitivamente.

Antes de ir para a aula, Kyuhyun trocou sua roupa social por uma mais confortável, uma vez que usar gravata o dia todo era algo que realmente o incomodava. Naquele momento, muitas de suas peças de roupa estavam misturadas às de Changmin em seu armário e vice-versa, assim ele não tinha maiores problemas em se trocar na casa do rapaz. Logo que ele terminou de vestir sua roupa, como se lesse seus pensamentos, seu celular tocou, anunciando uma chamada de Donghae.

– Kyu-ah! – Disse Donghae do outro lado da linha. – Espero não estar atrapalhando a sua aula!

– Eu ainda não fui pra aula, estou na casa do Changminie. – Explicou Kyuhyun.

– Que feio, matando aula! – Riu-se Donghae.

– Ah, não é isso, nós vamos para a próxima aula! – Defendeu-se Kyu.

– Eu te liguei pra saber o que vocês vão fazer hoje a noite?

– Ah, hyung, eu ia para o Candy Bar depois da aula hoje.

– Kyunie, tira uma noite de folga, eu vou fazer aquela lasanha que você adora, por que não veem os dois aqui comer um pedaço depois da aula?

– Lasanha? Aquela de frango? – Indagou Kyuhyun, fitando um sorriso transparecer no rosto de seu namorado.

– Esta mesma. – Afirmou Donghae, animado. – Nós temos que abrir o bar mais tarde, mas eu queria que vocês dormissem aqui hoje.

– Dormir aí? Por que, hyung?

– E desde quando vocês precisam de motivos para dormir aqui? – Riu-se Donghae.

– O que acha Changminie? – Indagou Kyuhyun para o rapaz que ergueu seu polegar em aprovação. – Está bem, hyung, nós vamos.

– Eu vou esperar vocês então, agora vou desligar, porque preciso ir passear com a Choco, até a noite, Kyunie!

– Até, hyung.

Assim que Kyuhyun desligou seu telefone, os dois trataram de pegar seus pijamas e escovas de dentes para mais tarde seguirem para a casa de Donghae e Hyukjae. Com suas mochilas cheias no porta-malas e pastas com seus cadernos e canetas, os dois seguiram para aula. O mesmo professor que indicara Kyuhyun para o estágio o parabenizou ao final de sua aula pela conquista do rapaz.

Por outro lado, com Kyu empregado, Changmin sentia uma pressão maior de conseguir a vaga que o programa de trainee o oferecia, afinal, era disso que dependia para que os dois pudessem morar juntos. Eles já estavam terminando o mês de novembro e nenhum dos dois reclamaria de começar um novo ano morando juntos em um bom apartamento.

Por outro lado, Changmin ainda tinha algo que o incomodara nos últimos meses O fato dele saber que Hyukjae e Donghae mantinham contato com Siwon e Kyuhyun ainda não. Ele tinha todas as certezas do mundo de que o rapaz não ficaria chateado com tal revelação, uma vez que eles já namoravam há um bom tempo, logo ele não conseguia entender por que manter segredo sobre aquilo. Mais do que uma insegurança, ele estava curioso para ouvir as razões dos dois rapazes e aproveitaria aquela noite para conversar com pelo menos um deles.

Assim que suas aulas terminaram, os dois rapazes seguiram para a casa onde o casal vivia. Estava brevemente diferente de quando os dois os ajudaram com a mudança, Donghae cultivava algumas flores no pequeno espaço de grama e do lado de fora havia uma pequena cama de pano onde Choco se acomodava em dias mais quentes. Havia uma samambaia pendurada próximo à janela e o portão agora era de outra cor.

Eles adentraram o local e foram recebidos pelos latidos estridentes da pequena cachorrinha, que logo se calou assim que os reconheceu. Os dois deixaram seus pertences no quarto, e depois voltaram para a companhia dos dois mais velhos. Kyuhyun ajeitou-se com Donghae que terminava a última camada da lasanha antes de levá-la ao forno, enquanto Changmin sentou-se com Hyuk para assistir o final de um jogo de futebol, de times pelos quais nenhum dos dois estava interessado.

Kyuhyun sentou-se sobre a bancada da cozinha e pegou uma das maçãs vermelhas e suculentas da fruteira e a mordeu, a fim de enganar a fome até que a lasanha estivesse devidamente assada. Donghae ajustou o forno elétrico e finalmente voltou-se para a mesa, guardando o que sobrou dos ingredientes, e deixando a louça suja na pia para ser lavada mais tarde, depois do jantar.

– E como foi seu dia, Kyunie? – Indagou Donghae, finalmente cortando o silêncio.

– Foi bom. – Disse Kyuhyun, passando a maçã já mordida de uma mão para outra. – Hyung, você se lembra da vaga de emprego lá no tribunal? Saiu o resultado hoje.

– E? Você foi contratado?

– Eles me fizeram uma proposta, e o Changminie concorda que é uma boa proposta. É um horário que bate com o da faculdade e é um bom salário.

– Você já aceitou?

– Não, eu tinha até segunda-feira para pensar. – Explicou Kyuhyun, descendo da bancada e finalmente dizendo-lhe sussurrado. – Hyung, eu estou com um pouquinho de medo.

– Medo? De que?

– Está tudo acontecendo tão rápido, em um dia eu sou o mesmo bartender que eu sempre fui e no outro, já sou um economista. – Disse Kyuhyun, deixando a maçã pela metade sobre a bancada e finalmente cruzando os braços. – Eu tenho medo que as coisas comecem a dar errado.

– E que tipo de coisa pode começar a dar errado?

– As vezes eu penso que o Changminie pode conhecer uma menina por aí e gostar dela, e aí eu não vou estar mais trabalhando no Candy Bar, ninguém lá vai se importar com o que eu sinto. – Explicou Kyuhyun. – Eu não vou mais estar sempre perto de você se algo assim acontecer, eu vou ter que passar o dia todo lá e…

– Kyu, onde você tinha escondido essa insegurança toda? – Riu-se Donghae, se aproximando do rapaz e apoiando ambas as mãos em seus ombros. – Acredite, eu também não estou feliz com o seu afastamento do Candy Bar, mas você sempre sonhou com isso e não existem motivos para você não aceitar esse trabalho. Nós vamos sim nos ver menos, ter menos tempo um para o outro, mas eu ainda sou o mesmo Donghae e você pode correr pra cá sempre que quiser. Quanto ao Changmin, ele te ama e você precisa confiar nele.

– Eu sei que ele me ama, hyung.

– Então por que você acha que ele te trocaria por uma mulher? Porque você é homem? Porque é o primeiro namorado dele? Depois de um ano você ainda duvida da sexualidade dele?

– Hyung, fale baixo, eu não quero magoar o Changminie! – Alertou Kyuhyun.

– Então confie nele. Eu sei que você não gosta de mudanças e que mudar de emprego vai te deixar inseguro, mas eu não acho que o Changmin vai mudar com você depois disso. Kyu, não existem motivos para você não aceitar este trabalho, você ainda quer morar com ele, não quer?

– Claro que eu quero, hyung. – Afirmou Kyuhyun, se apoiando contra o ombro do mais velho. – Eu só quero ser feliz, e não quero que nada estrague isso.

– Não tenha medo, se algo der errado eu e o Hyuk continuaremos aqui. – Afirmou Donghae o abraçando pelos ombros. – Eu vou sentir sua falta todas as noites, e eu quero que vá nos visitar de vez em quando lá no bar.

– Eu ainda vou ficar mais um pouquinho, até o final do ano, mas depois eu vou ter que ficar com o meu trabalho de economista. – Disse Kyuhyun.

– Amanhã a noite nós faremos as contas do seu contrato. – Afirmou Donghae. – E depois, teremos que procurar um novo bartender.

– Eu quero ajudar com isso, hyung. – Disse Kyuhyun sorrindo-lhe abertamente.

– Precisaremos de alguém logo, o salário não é ruim, só quero ver alguém que agrade o nosso público.

– Poderia ser uma menina.

– Menina?

– Sim, tem muitas meninas que vão ao Candy Bar e você poderia agradar os dois lados. De homem já temos o Sungminie.

– Vou conversar com o Hyuk sobre isso, pode ser uma boa ideia ter uma menina na equipe.

Enquanto Kyuhyun fazia uma lista sobre os benefícios de ter uma menina trabalhando no Candy Bar, o jogo que Changmin e Hyukjae assistiam, finalmente chegava ao seu final. Naquele momento, o cheiro delicioso da refeição que Donghae preparava já se espalhava pela casa, deixando os dois rapazes esfomeados. Changmin se espreguiçou demoradamente e logo tratou de iniciar uma conversa com Hyuk antes que este se juntasse aos outros dois na cozinha.

– Hyung, posso te perguntar uma coisa?

– Até duas, Changmin. – Disse Hyukjae, sorrindo-lhe.

– Por que você e o Donghae-hyung não contam para o Kyu que ainda conversam com o Siwon? – Indagou Changmin, vendo o sorriso do mais velho esmorecer em seu rosto.

– Depois de tanto tempo, por que ele precisa saber disso?

– Por que manter segredo agora que nós dois namoramos?

– Porque da última coisa que o Kyu precisa é reviver o seu passado. – Explicou Hyukjae. – Changmin, não pense que nós fazemos isso pra magoar o Kyunie, nós queremos proteger ele, como sempre foi.

– Hyung, por que vocês não contam pra ele?

– Contar pra ele? O que você acha que nós temos que contar pra ele? Que o Siwon conheceu a Europa inteira e é um bom professor universitário? Que ele não namorou ninguém? Que ele pergunta sobre Kyu em todo santo e-mail que nós trocamos?

– Ele pergunta?

– Claro que ele pergunta, Changmin, acha que o Siwon esqueceu o Kyu? Que ele simplesmente apagou o que eles viveram da memória? Acha que ele não sente saudades?

– Foi ele quem decidiu ir embora, hyung!

– De fato, ele escolheu a carreira ao invés do relacionamento. Isso não muda o fato de que o Siwon amou o Kyu, e que sente falta dele.

– Hyung, ele sabe que eu e o Kyu estamos namorando?

– Claro que sabe, eu não poderia esconder isso dele.

– Mas se o Siwon estivesse namorando lá na Inglaterra, o Kyu não saberia. Isso é injusto, hyung.

-Aish, Changmin, as vezes você consegue ser chato, sabia?

– Eu só acho que ele deveria saber. – Concluiu Changmin, suspirando pesadamente logo em seguida.

– Está bem, eu conto pra ele, mas antes nós vamos ter que combinar uma coisa.

– O que?

– Você não vai ficar com ciúmes quando o Kyu começar a perguntar sobre o Siwon, porque acredite, ele vai perguntar.

– Hyung, o Siwon nem está aqui, por que eu ficaria com ciúmes?

– Eu vi o seu olhar quando você soube que o Siwon ainda pensa no Kyuhyun e sente falta dele. – Concluiu Hyukjae. – Não se engane, o ciúme e a curiosidade são sentimentos traiçoeiros, Changminie, tome cuidado com isso.

– Eu vou tomar cuidado, hyung e você tem que me prometer que vai conversar com o Hae e vocês vão contar isso para o meu príncipe.

– Eu prometo. – Hyuk sorriu discreto ao rapaz e deixou dois tapinhas amigáveis em seu ombro. – Agora vamos para a cozinha para vermos se a lasanha está pronta.

Logo que os dois rapazes se levantaram, Kyu apareceu sorridente na porta avisando-lhes que o jantar estava pronto. A lasanha não durou muito sobre a mesa, e estava deliciosa, deixando os quatro mais do que satisfeitos com sua refeição. Depois de se alimentarem, Hyuk também foi avisado da saída de Kyuhyun e eles passaram uma longa hora discutindo o novo contrato do futuro bartender que ocuparia o lugar que o rapaz deixaria.

Por mais que fosse de sua vontade permanecer ali conversando, Hyukjae e Donghae tinham que abrir o bar, enquanto Changmin e Kyu contariam apenas com a companhia de Choco para o resto da noite. Eles ainda assistiram a um noticiário e um programa de comédia, enquanto o pesado jantar fazia sua digestão e finalmente os dois seguiram para o quarto de hóspedes. E assim, o longo dia dos dois rapazes chegava ao fim, com os dois dormindo abraçado no simples mas aconchegante quarto de hóspedes de Hyuk e Hae.

 

No centro da cidade, onde a vida noturna de sexta feira começava, Junsu estava devidamente acomodado em seu apartamento, trajando roupas simples e com um pacote de biscoitos no colo, os quais ele saboreava sem pressa alguma. As paredes do local agora continham outras cores, o que dera-lhe muito trabalho, mas ao final ele ficou satisfeito com o resultado. Ele estava cansado, exausto na verdade. As três reuniões de negócios esgotaram suas energias, de forma que ele não tivera ânimo algum para preparar seu jantar.

Quando sua campainha tocou, ele fitou com ar desanimado a porta. Da última coisa que ele precisava naquela sexta-feira a noite era um síndico reclamando de suas atitudes, ou de um vizinho pedindo uma xícara de farinha emprestada. Ainda assim, ele levantou daquele sofá onde pretendia passar o resto da noite e tratou de atender a porta e para sua surpresa, do outro lado não se encontrava um vizinho chato, mas sim, Yoochun.

Junsu arregalou os olhos assim que o rapaz sorriu para si, uma vez que não o esperava e naquela hora ele trajava o mais esfarrapado de seus pijamas, estava com os cabelos desgrenhados e olheiras profundas em seus olhos. Micky riu da feição assustada do rapaz e finalmente o abraçou pela cintura, até que este se encaixasse em seus braços brevemente, para que por fim os dois pudessem adentrar o apartamento.

– Você não disse que vinha. – Afirmou Junsu, constrangido com a bagunça em sua sala.

– Eu estava aqui perto, trabalhando até tarde. – Afirmou Micky. – E você está com uma carinha de cansado.

– Isso é porque eu estou cansado. – Riu-se Junsu, puxando o rapaz pela mão. – Eu não fiz janta, só tem biscoito.

– Eu já comi, obrigado. – Afirmou Micky seguindo o rapaz. – O que estava fazendo antes de eu chegar aqui?

– Assistindo televisão. – Afirmou Junsu retirando o cobertor do sofá, deixando espaço para que o outro rapaz se acomodasse e só então se sentando ao seu lado. – Na verdade, eu estava pensando em como pareço uma velha solteirona em casa em plena sexta-feira a noite, mas meu dia foi tão cansativo.

– O meu também, nem tive tempo de responder o seu e-mail, senti saudades. – Afirmou Micky o abraçando pelos ombros.

– Fica pra dormir? – Indagou Junsu.

– Eu preciso de um apartamento logo, Junsu-ah, estou cansado de gente me importunando sobre a minha sexualidade. – Reclamou Micky.

– Eu já te disse milhares de vezes para você passar alguns dias aqui comigo, mas você é tão teimoso que continua lá. – Reclamou Junsu.

– Eu já te expliquei, não seja teimoso. – Disse Yoochun, acariciando o rosto do rapaz.

– Não é como se você fosse morar comigo, seriam só alguns dias. Fica um pouquinho comigo, Micky, eu me sinto tão sozinho aqui.

– Eu tenho tanto medo de estragar as coisas com você de novo. – Confessou Micky. – Quero que tudo aconteça ao seu tempo.

– O que tem demais você ficar aqui até achar o seu apartamento? Nós passamos pouco tempo juntos, eu queria ficar mais com você.

– Como você é reclamão! – Riu-se Yoochun, puxando o rapaz contra si e selando seus lábios demoradamente. – E teimoso também. Seriam só alguns dias, até eu descobrir se aquele apartamento não tem vazamentos e nem pendências…

– Vai ficar? – Interrompeu Junsu. – Amanhã você pode ir buscar as suas coisas e usar a vaga de estacionamento ao lado do meu carro. Nós vamos dividir o meu quarto e eu vou abrir um espaço no guarda-roupa pra você, e também no armário do banheiro!

– Não se anime, será por pouco tempo.

– Não importa, eu quero você comigo. – Disse Junsu deixando seu corpo cair contra o do outro rapaz e se apoiar em seu peito. – Eu amo você.

Micky se surpreendeu com o comentário do rapaz e Junsu pôde ouvir o coração do rapaz disparar quase imediatamente assim que sua frase teve fim. Era a primeira vez que ele declarava aquilo em voz alta, e Yoochun tivera a melhor reação possível. O sorriso iluminou os lábios do rapaz que abraçou o outro pelos ombros o apertando contra si. Era uma nova mania de Micky, apertar a pele de Junsu até que esta ficasse irritada ou marcada.

Junsu  não se importava, e sabia que Micky não era a melhor pessoa a se expressar por meio de palavras. Aqueles abraços apertados, e aquelas mãos que se fechavam contra seu corpo apenas indicavam o quão inseguro ele ainda era, e como tinha medo de perder aquele rapaz. Sua resposta veio em um sussurro, contra o topo de sua cabeça, onde Micky havia afundado seu rosto, sentindo o aroma dos cabelos finos de seu companheiro.

– Micky, eu posso te fazer uma pergunta? – Disse Junsu, desta vez sério, com sua voz um tom mais grave.

Junsu desviou o olhar para o rapaz que afastou o rosto para poder fita-lo e finalmente Yoochun assentiu.

– Por que, na noite que o Yunho gemeu o nome do Jae você não terminou com ele? Por que esperou tanto tempo?

– Eu acho que eu tenho duas respostas para a sua pergunta, e as duas estão interligadas. Entre todos os motivos que eu tive para não terminar com o Yunho, um deles era o fato de eu não ter nada nem ninguém que me empurrasse em direção a essa atitude. Em palavras mais práticas, eu não tinha você por perto, e mal me lembrava do seu sorriso lindo.

– Eu fui o motivo do término entre vocês dois?

– Eu não diria que você foi o pivô da nossa separação, porque este foi o Jaejoong, mas olhar pra você, falar com você me mostrou que eu ainda tinha forças pra acabar com aquilo.

– E qual o segundo motivo?

– Você já parou para pensar, daqui uns 60 ou 70 anos, como você vai estar? Quando você estiver bem velhinho, com os cabelos brancos e não puder mais controlar a sua vida apropriadamente? Quando toda experiência, dinheiro e posses que você adquiriu nos últimos anos não significarem tanto porque a sua saúde já não é mais a mesma e tudo que te rodeia é extremamente limitado e perigoso?

– Sim, uma hora isso vai acontecer com todos nós, alguns mais cedo, outros mais tarde, mas velhice chega para todo mundo.

– Eu ficava imaginando, o que seria de mim depois de tantos anos. E eu temia fechar os olhos e ver atrás de mim uma vida vazia e solitária e no final de todas as coisas, não ter ninguém ao meu lado que diga que sentirá a minha falta, ou que segure a minha mão. Eu tenho medo de viver sozinho e morrer sozinho. Minha família não é das mais estruturadas ou carinhosas e eu sou o homossexual, o cara estranho e desajustado. Então eu pensei que ao lado do Yunho, por mais infeliz que eu estivesse, ainda havia alguém comigo.

– Você tem medo de ficar sozinho, Micky?

– Tenho. – Confessou Yoochun. – Agora eu também tenho medo de te machucar, de acordar um dia e você ter ido de novo para outro país sem dar tchau. Eu não quero a solidão, tampouco quero você longe de mim. E é por isso que eu não quero ir muito rápido e nem estragar as coisas. Você é tudo pra mim, Junsu.

– Eu não vou a lugar algum. O mundo pode girar a nossa volta, evoluir, crescer, prosperar, decair e eu quero ser sempre o mesmo Junsu, aquele de quem você tanto gosta. E mesmo que os anos passem, e o seu rosto fique marcado com a idade, os seus cabelos se tornem grisalhos, eu quero reconhecer o meu Micky.

– Acha que um dia isso vai mesmo acontecer? Nós dois, juntos, com os cabelos brancos e satisfeitos por termos dividido uma vida?

– Eu não gosto de achar nada, Micky, mas eu vou fazer o possível pra que isso aconteça, porque fui eu quem teve que passar anos no Japão para perceber que a minha felicidade havia ficado aqui, com você.

– Você tem medo de errar, Junsu?

– Não, eu tenho medo de não aprender com os meus erros.

Junsu apoiou-se no sofá e se levantou, para por fim puxar o outro rapaz pela mão. Micky o seguiu corredor adentro, até pararem em seu quarto onde o anfitrião fechou a porta. Assim, como na noite no bar, eles se abraçaram demoradamente, sentindo seus corações baterem em compasso, mas desta vez, sem lágrimas nos olhos ou medo de serem flagrados em um ato proibido. Micky tinha um abraço macio, aconchegante e quente, e a sensação remetia a Junsu sentir a brisa do mar em uma tarde fresca de verão.

Assim, mais uma vez seus lábios se uniram em um beijo úmido quente e obviamente apaixonado. Aquele beijo que selava a noite de ambos e que não precisava acontecer o tempo todo, apenas nos momentos certos, nos momentos em que eles desejam declarar o que sentem sem precisarem utilizar-se de palavras. Seus lábios unidos, roçando-se um contra o outro, já diziam tudo por eles.

Yoochun vestiu um pijama emprestado por Junsu que havia se encerrado embaixo de um grosso edredom e o esperava para que o rapaz dormisse consigo. Se havia algo que poderia animar uma noite complicada de Junsu, era dormir na companhia de Micky, independente se eles fizessem amor ou não. Naquela noite, seu desejo era apenas ficar abraçado ao rapaz e deixar a noite levar consigo o cansaço de seu dia agitado.

Quando Micky deitou-se ao lado do rapaz, sentiu o contraste entre seu corpo com a temperatura baixa e o calor que estava embaixo das cobertas. Assim que este se deitou, colocou sua mão sobre o tórax de Junsu e o puxou para que seus corpos se aproximassem e se encaixassem em um abraço aconchegante. Micky passou seu braço sobre o travesseiro de Junsu que se apoiou ali e deixou que a ponta dos dedos brincasse com o sua orelha, o acalmando.

– Micky… você disse que quer fazer as coisas direito desta vez. – Disse Junsu sonolento.

– Sim, eu quero. – Afirmou Yoochun, fitando o rapaz que aos poucos se deixava levar pelo sono em seus braços.

– O que está esperando para me pedir em namoro? Ou não é isso o que você quer?

– Eu não sabia que você fazia questão de um pedido oficial. – Afirmou Micky, deixando seu rosto se aproximar do ouvido do rapaz.

– Acho que é o primeiro passo para que as coisas aconteçam como nós queremos que elas aconteçam, Micky.

– Está bem. Então, Xiah Junsu, você aceita ser meu namorado? Até que a morte nos separe?

– Claro que eu aceito, e agora eu posso dizer por aí que tenho um namorado, que eu amo muito. E que seja, até que a morte nos separe.

– Pode sim, aproveite e espalhe que você pertence a mim. – Disse Micky, recostando o rosto ao do outro que segurou sua mão e entrelaçou os dedos aos dele. – Agora durma, eu vou estar aqui para que o monstro do armário não te pegue.

– Então eu vou poder dormir tranquilo.

Yoochun riu discreto, sentindo aquela deliciosa sensação de borboletas por seu estômago antes de fechar seus olhos assim como o outro rapaz. Eles finalmente oficializaram seu relacionamento, algo que Micky acreditava ser um tanto tardio, mas ainda assim totalmente eficiente. Junsu já não mais se sentia inseguro ou solitário e seu dia estressante parecia insignificante perto de ter Yoochun como seu namorado oficialmente.

Micky que há muito não acreditava em romance, jamais diria que algum dia estaria adormecido ao lado daquele rapaz com um sorriso bobo nos lábios. Ele havia esquecido o quanto o calor daquele corpo acalmava sua alma e os sabores dos beijos do rapaz eram algo inebriante, quase tão entorpecente quanto uma garrafa de vodca pura. Ele estava de fato, viciado naquele rapaz e não tinha a menor intenção de deixa-lo.

Junsu vez ou outra se perguntava como agiria se mais uma vez, alguém de fora tentasse se colocar entre eles, entre sua única fonte de felicidade plena que era aquele homem deitado e tão possessivamente abraçado a si. Claro que estes pensamentos ficavam embaçados diante do sorriso amoroso que Micky lançava para si sempre que eles se viam. No entanto, Junsu sabia, que caso aquilo ocorresse, ele não poderia fugir como fizera no passado e lutaria por seu amado. Ele não o abandonaria uma segunda vez.

Com este pensamento confortador, aquele casal adormeceu, entregues a um sentimento único e que eles descobriram por meio de erros, quedas e muito sofrimento, somente conseguiriam encontrar juntos. Assim, suas almas foram embaladas em um sono profundo e confortador, com a certeza de que aquele sábado frio começaria muito melhor, agora que eles tinham um ao outro.

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