Capítulo 33 – Last Night

 

A primeira semana de janeiro chegou melancólica para Kyuhyun. Era um começo de noite frio de uma sexta-feira, a primeira do ano que o Candy Bar abriria e consequentemente a última que Kyu tomaria seu posto de bartender. Ele parou em frente ao bar, com o corpo recostado ao carro de seu namorado que o levara até lá. O letreiro vermelho piscava convidativo, enquanto a porta da frente continuava fechada.

Ele ainda se lembrava da primeira vez que aquelas portas se abriram e o frio na barriga que sentiu ao atender pessoas pela primeira vez em sua vida. A insegurança dos donos do local quanto à quantidade de clientes que eles teriam para aquele sábado, por mais que uma grande festa tivesse sido organizada. Ele ainda sentia o cheiro da tinta recém passada, dos móveis novos, dos copos e taças nunca usados.

Ele suspirou pesadamente, fitando a entrada do local o deixando nostálgico e um tanto ansioso. Ele não queria que sua última noite começasse e sabia que se sentiria mal quando esta terminasse. Changmin saiu do carro e fitou seu namorado que passara o dia silencioso e desanimado. Era uma sexta-feira e na segunda ele começaria seu novo emprego, sendo assim eles combinaram que naquela noite ele atenderia pela última vez no Candy Bar.

Changmin trancou o veículo e o contornou até se aproximar de seu namorado. A neve já derretia nas ruas, mas o clima frio ainda permanecia impregnado na cidade, os obrigando a vestir seus casacos e cachecóis. Kyuhyun somente desviou o olhar da porta quando seu namorado parou ao seu lado e o envolveu pelos ombros, o deixando encaixar um abraço carinhoso e acariciar seus cabelos com a ponta dos dedos.

– Vai ficar aqui comigo? – Indagou Kyuhyun com a voz abafada por estar escondendo o rosto contra o peito de seu namorado.

– A noite toda, meu príncipe. – Disse Changmin acariciando os cabelos do rapaz, enquanto os penteava no lugar.

– Você quer algum drink especial?

– Eu quero que você tenha uma boa noite, só isso.

– Vai ficar tudo bem.

A frase de Kyuhyun foi destinada muito mais a si do que ao seu namorado que o apertou em seus braços antes de soltá-lo e agarrar sua mão para adentrar o local. Naquele dia, Donghae e Hyukjae haviam contratado a moça que substituiria Kyuhyun e eles seguiram a opinião do rapaz em sua escolha. Assim que adentrou o local, Kyu encontrou Sungmin retirando as cadeiras de cima das mesas e as arrumando.

Assim que o viu, seu colega sorriu-lhe amigavelmente. Ele deixou a cadeira no chão e correu em sua direção o envolvendo pelos ombros em um abraço demorado. Desde que o conhecera, Sungmin fora parte importante de sua vida. Ele não era um simples amante que ficara em seu passado, era um amigo com quem dividira as divertidas noites naquele bar, assim como o stress de trabalhar com um público tão seleto e exigente.

Eles soltaram o abraço e Sungmin cumprimentou Changmin antes de avisa-lo que Donghae e Hyuk os esperavam no pequeno escritório no andar de cima. Kyuhyun avisou para que Changmin fosse à frente, afinal ele ainda tinha que trocar de roupas. Seu namorado seguiu para as escadarias, enquanto Kyu tomou o caminho que fizera nos últimos anos em direção ao banheiro. Os óculos de grau, foram substituídos por lentes de contato e sua blusa comprida de lã, deu lugar à blusa fina com o emblema do local no peito.

Kyuhyun olhou-se no espelho e suspirou pesadamente. A sensação era como se estivesse abandonando parte de si naquele lugar e rumando em direção ao desconhecido. Ele não gostava de mudanças, e não gostava de quão bruscamente elas aconteciam. Changmin subiu a escada circular e bateu na porta esperando um sinal de que poderia entrar. O casal de proprietários parecia um tanto tenso, mas logo sorriram-lhe quando ele adentrou o local. Aparentemente o assunto problemático fora encerrado com a presença de Changmin.

Kyuhyun não demorou muito a deixar o banheiro e juntar-se ao seu namorado no andar de cima. Changmin havia se acomodado em uma cadeira de frente para Hyukjae enquanto Hae se esticava para guardar uma caixa-arquivo no alto de uma estante. Assim que o viu, Donghae tratou de se aproximar do rapaz e abraça-lo pelos ombros carinhosamente, o sentindo deixar um suspiro em seus ombros quando apoiou o queixo ali. Kyu se afastou, para poder fitar o rosto do rapaz e finalmente falou baixinho:

– O Changminie disse que você passou a tarde meio triste.

– Você também não parece muito feliz, hyung. – Acusou Kyuhyun

– São saudades antecipadas de você. – Riu-se Donghae. – Nós estamos sendo bobos, Kyu-ah, não é como se você estivesse indo embora do país é?

– Não, não é. – Disse Kyuhyun baixando o rosto para fitar seus pés. – Eu só passei pra dar um oi, vou descer e ajudar o Sungminie.

– Nós nos encontramos lá embaixo, vamos manter seu namorado como refém enquanto isso. – Brincou Hyuk na tentativa de arrancar um sorriso do mais novo.

Kyuhyun sorriu fraco, mas sincero ao mais velho e depois de selar o rosto de seu hyung deixou os três ali sozinhos. Changmin fitou a porta se fechando com ar preocupado, afinal nunca vira seu namorado com ar tão melancólico e carente quanto naquele dia. Seu afastamento do Candy Bar decididamente o estava chateando, a ponto de tirar seu humor para todas as outras atividades do dia.

Kyu estava se esforçando para se convencer de que não trabalhar naquele local, não significava desaparecer dali, se afastar de seus grandes amigos ou mudar sua personalidade. No entanto, ele bem sabia que sua vida mudaria dali para frente e ainda não tinha certeza se estava pronto para abandonar aquela fase e pular para a próxima. Aquela expectativa o deixava ansioso e ao mesmo tempo entristecido.

O bar abriu exatamente às 23 horas como de praxe. Hyukjae não tratou de negócios aquela noite e ficou juntamente com Donghae, Sungmin e Kyu atrás do balcão, atendendo e conversando com os dois rapazes. Changmin apesar de ter sido convidado para juntar-se a eles, acomodou-se ao lado do balcão e tratou de observar seu namorado ao longo da noite. Já a meia-noite, Yunho e Jaejoong adentraram o local de mãos dadas, a fim de curtirem a última noite de Kyuhyun com o rapaz.

Eles pediram ao rapaz que fizesse um drink para eles e finalmente uniram-se a Changmin em seu confortável canto para conversar por boa parte da noite. Jaejoong contou-lhe como conseguiu uma sala só para ele na clínica de estética onde poderia atender seus clientes com mais tranquilidade e Yunho perguntou sua opinião sobre eles criarem um gato no apartamento ao lado, com o que Changmin prontamente concordou.

A noite começou a tardar muito rapidamente na opinião de Kyuhyun e ele bem sabia que naquela época o bar não teria tanto movimento devido às férias e ao clima frio. Lá pelas duas da manhã outro casal conhecido adentrou o bar apenas para desejar boa sorte ao rapaz que de lá se despedia. Micky tinha seu braço envolto na cintura de Junsu que contava-lhe algo com ar animado, recebendo de volta um sorriso discreto de seu novo namorado.

Logo que eles se aproximaram da bancada, Yunho tratou de entrelaçar os dedos aos de seu namorado, que fitava o outro casal com ar constrangido. Logo que o viu, Junsu acenou para Jaejoong que sorriu de volta e também acenou. Ele teria parado para conversar com o rapaz, não fosse a presença daquele com quem Junsu não desejava contato, além de saber que isso desagradaria seu namorado.

Micky ignorou a ambos e apenas cumprimentou Changmin com um menear discreto da cabeça. Eles abraçaram Kyuhyun que preparou-lhes um drink sem álcool, uma vez que não sabia qual dos dois estava dirigindo aquela noite, mas que ainda assim foi aprovado pelos rapazes. Era um drink doce, com um leve sabor de cereja que o deixava refrescante. Os dois rapazes não conversaram mais de cinco minutos com Kyu e outros que estavam atrás da bancada e logo que terminaram seus drinks se despediram e saíram dali.

Ainda era estranho para os dois casais permanecerem no mesmo ambiente, mesmo que os quatro estivessem felizes com sua atual situação sentimental. Ainda haviam algumas mágoas e palavras errôneas ditas em momentos de exaltação que não os permitiriam que sorrissem polidamente um ao outro e conversassem como bons colegas. Apenas Jaejoong e Junsu não possuíam mágoas um do outro, uma vez que a sinceridade os impedira de cometer erros mais graves.

Depois que Micky e Junsu saíram dali a noite voou diante dos olhos de Kyuhyun. Cada vez que ele se deparava com os ponteiros do relógio, ele acreditava que estavam passando mais rápido do que deveriam. Com a aproximação do final da noite ele percebeu que aos poucos Donghae ia ficando mais calado e mais próximo de si. Aparentemente o único que verdadeiramente entendia o que se passava com ele era Donghae, apesar de Kyu ser grato por seus amigos serem tão solidários.

Foi a única noite no Candy Bar que Changmin, Jaejoong e Yunho não passaram nem perto da pista de dança. A companhia de amigos deixara a noite ainda mais interessante, e eles não sentiram necessidade de agitar seus corpos de acordo com a música. No entanto, quando o final da noite começou a se aproximar, Jaejoong começou a dar sinais de que se sentia sonolento e Yunho concluiu que era hora deles voltarem para casa. Depois de alguns instantes de despedida, o casal também seguiu seu rumo, deixando Changmin esperando pelo fim da noite.

Pouco antes do bar fechar, Kyuhyun afastou-se e lentamente preparou um drink que não havia sido pedido por nenhum cliente. Ele seguiu na direção de seu namorado com um copo gelado em mãos, com um limão delicadamente o enfeitando. O rapaz parou diante de Changmin que o fitou com interesse enquanto este posicionava o copo à sua frente, com um sorriso discreto nos lábios.

– O Long Island Tea. É uma mistura de vodka, rum e tequila, com suco de limão e coca. É doce, mas nem tanto, acho que você vai gostar. E se você achar que não aguenta, eu posso te dar um leite com achocolatado.

A voz de Kyuhyun saiu provocativa e no final da frase, Changmin riu de seu comentário. Ele se lembrava da primeira vez que pisou naquele local, a primeira vez que olhou aquele que residiria em seu coração e percebeu o quão lindo ele era. Lembrava-se do gosto forte do drink e seria um prazer prova-lo mais uma vez no final daquela noite. Kyu segurou a mão de seu namorado e deixou-o bebericar alguns goles da bebida antes de voltar a falar.

– Foi aqui que você falou comigo pela primeira vez.

– E que nós demos o nosso primeiro abraço. – Concluiu Changmin.

– Obrigado por ficar essa noite comigo e por ser um namorado tão bom para mim.

– Não tem porque agradecer, eu te amo. – Afirmou Changmin.

Changmin terminou seu drink e eles observaram os últimos clientes da noite fecharem suas contas e encerrarem seu momento de diversões no bar. Hyukjae pulou a bancada e depois de dispensar os seguranças da noite, ele fechou o bar e por alguns instantes o silêncio pairou sobre o local. Os passos de Hyuk ecoaram quando ele se aproximou novamente da bancada, e observou Kyuhyun e Donghae se abraçarem.

As lágrimas escorreram teimosas pelos cantos dos olhos dos dois rapazes quando seus braços envolveram o corpo um do outro, e se apertaram carinhosamente. Changmin deixou os dois se consolarem, enquanto Sungmin parava ao lado destes passando a mão por suas costas. Os soluços de Donghae escaparam, discretos e deram um nó no coração de seu namorado. Eles permaneceram longos minutos daquela maneira, até Kyu se afastar e enxugar as lágrimas do rosto do mais velho.

– Desculpe chorar assim, hyung, mas meu coração estava doendo.

– Tudo bem, nem todas as lágrimas são um mal. – Afirmou Donghae, acariciando o rosto avermelhado e inchado do rapaz. – Agora saia daqui e vá ser um grande economista, Kyunie.

– Eu vou voltar sempre aqui, com o Changminie e você vai me preparar um drink bem gostoso. – Sorriu-lhe Kyuhyun, fitando mais lágrimas rolarem dos olhos do mais velho.

– Não esqueça que eu e o Hyuk estaremos sempre aqui pra você, não importa a situação. – Afirmou Donghae acariciando os cabelos do rapaz. – Volte sempre que puder e não me deixe sentir muitas saudades suas.

– Sempre, hyung. – Afirmou Kyuhyun fechando os olhos ao receber um beijo em seu rosto. – Cuide bem de tudo aqui, e do Sungminie e da nova menina. Não esqueça que se precisar é só me ligar.

– Eu não vou esquecer, agora vá pra casa descansar. – Aconselhou Donghae. – A noite acabou, Kyunie, mas não o que eu e o Hyuk sentimos por você.

– Obrigado, Hae-hyung, por tudo.

Quando se afastaram, Hyuk estava ao seu lado e ofereceu um lenço ao seu namorado enquanto Sungmin abraçava Kyuhyun demoradamente. Depois de bons votos de boa sorte, Kyu voltou-se para Hyukjae e o abraçou apertado como fizera anteriormente com o namorado do rapaz. Hyuk acariciou seus cabelos, deu-lhe tapinhas nas costas e o deixou ficar ali até que seu coração se acalmasse. Ele o desejou exatamente o mesmo que Donghae, com um último adendo voltado para Changmin:

– Cuide dele, Changminie, hoje o Kyu precisa de você.

– Pode deixar, hyung.

Kyu pulou o balcão, olhou para o local e para seus amigos uma última vez e depois de agarrar a mão de seu namorado, os dois saíram dali. Kyu ainda afastou algumas lágrimas teimosas em seu rosto antes de realmente deixar o local e os dois se dirigirem para o apartamento do menor. Assim que adentraram em casa, Kyu sentou-se em seu sofá com o mesmo ar chateado que passara durante todo o dia.

Changmin arrumou a cama e colocou seu pijama e deixou o do rapaz dobrado sobre a cama antes de ir busca-lo. Kyu ainda fitava seus dedos com o mesmo ar entristecido que partira o coração de Changmin ao longo do dia. Ele o segurou pela mão e o levou até o quarto onde o rapaz também colocou seus pijamas lentamente. Changmin não se deitou antes do rapaz estar devidamente acomodado e coberto e só então ele deitou-se ao seu lado. Ele acariciou os cabelos do menor até que este adormecesse e só então o seguiu para o mundo dos sonhos ao lado dele.

Nas semanas seguintes, Changmin esperou pacientemente que o bom-humor de seu namorado voltasse, se esforçando para que ele continuasse se alimentando apropriadamente e dormindo o suficiente para sua nova rotina. O emprego de Kyuhyun começou em uma segunda-feira fria e foi nesse dia que ele começou a sentir-se renovado. Sua nova rotina não era assim tão puxada e ele já não mais trocava seu sono da noite pelo do dia.

Claro que não havia um dia sequer que ele não falasse com Donghae e Hyukjae por telefone e vez ou outra os visitava para um jantar ou uma taça de vinho antes de voltar para casa. Aos poucos as pessoas começaram a se reaproximar do mais novo contratado, apesar de os mais preguiçosos não gostarem de seu jeito metódico e perfeccionista. Ele fizera amizade com algumas pessoas que se formaram na mesma faculdade que ele alguns anos antes, e os mesmos eram sempre cheios de conselhos para que sua carreira progredisse mais rapidamente no futuro.

Naquele mês, Kyu passou a maior parte de seu tempo no apartamento de Changmin por este ser perto de onde estava trabalhando. Grande parte de suas roupas estava lá, ocupando espaços cada vez maiores no armário de Changmin, assim como seus pertences. Consequentemente, suas noites eram em sua grande maioria dedicadas ao seu namorado, que agora brigava por uma vaga em seu programa de trainee.

A segunda fase do processo de seleção de Changmin começou juntamente com o trabalho de Kyuhyun e esta fase exigia mais de seus concorrentes. Ao mesmo tempo que eles tinham que demonstrar serem competentes nas mais diversas situações, também tinham que demonstrar o quão confiáveis eles eram para o cargo, ou seja, conquistar a simpatia de seus colegas de trabalho. No entanto, a linha entre a simpatia e o puxa-saquismo era algo nauseante para Changmin.

Alguns de seus colegas de estágio seguiram pelo caminho mais fácil e trataram de bajular aqueles que acreditaram que seriam as pessoas de mais alto escalão na empresa, almejando não somente o cargo, mas um futuro em suas carreiras. Changmin começou a achar a luta injusta quando outro dos competidores começou a trazer donuts todos os dias e os distribuir para todos os que trabalhavam nos cargos mais altos.

Changmin acabou decidindo que na terceira semana de janeiro, quando a segunda fase estivesse quase em seu fim e eles estivessem na data de aniversário da empresa, ele faria algo que agradasse a todos. Certamente seu mimo seria mais discreto, e ele o faria para todos da empresa e não somente para as pessoas de alto escalão. Assim, um dia antes, ao lado de seu namorado ele tratou de se enfiar na cozinha e perder divertidas horas com seu amado.

Ele fez uma torrada francesa para cada trabalhador da empresa, do presidente, à ahjumma que servia-lhes aquele delicioso café. No dia, ele colocou o doce em cada uma das mesas, com um pequeno bilhete de parabéns pelo belo trabalho que eles fizeram ao longo dos últimos anos e que levara a empresa ao patamar onde se encontrava. Claro que a singela surpresa certamente agradou mais do que os donuts diários, principalmente pelo fato de Changmin não ter distinguido os cargos e tratado a todos com igualdade.

O presente rendeu a Changmin um convite para o Happy Hour de aniversário que seria feito em um barzinho ali perto. Changmin chamara a atenção de seus superiores não somente por seu carisma, mas por sua humildade diante de seus colegas de trabalho. Dentre os estagiários, somente ele e mais um foram convidados para o Happy Hour, o que o deixou mais do que satisfeito. Algo dizia-lhe que ele estava saindo na frente.

Quando Changmin avisou Kyu de seu convite, ele ficou mais do que contente que sua receita tivesse agradado. Naquela noite após o expediente o rapaz tratou de seguir para o bar ali perto e se manteve nas bebidas não alcoólicas, uma vez que estava dirigindo. Mal sabia ele que seria no bar que a mais temida das perguntas seria dirigida para si, por uma funcionária nada discreta.

– E essa aliança Changmin? É de namoro?

– É sim, noona.

– E qual é o nome dela? – Indagou outra de suas colegas, brevemente desapontada com sua resposta.

– Não é ela, é ele. O nome dele é Cho Kyuhyun.

– Você é gay?? – Indagou um de seus colegas de jeito espalhafatoso de quem o próprio Changmin desconfiava da sexualidade.

– Sou. – Afirmou Changmin com firmeza. – Eu espero que isto não afete em nada o meu relacionamento com vocês.

– De forma alguma, Changmin-sshi, seremos bons amigos. – Afirmou a primeira pessoa que lhe questionou.

– Você não dá sinal nenhum de que é gay. – Afirmou Kibum, seu colega de voz afetada.

– Eu não tenho vergonha do meu relacionamento, ou de quem eu sou, apenas não acho necessário esfregar isso na cara das pessoas. Namorar outro homem não mudou quem eu sempre fui.

– Você já é assumido? Para sua família e tudo?

– Meus pais não moram aqui, mas eles vão saber no final do ano, na minha formatura. – Explicou Changmin.

Logo, Changmin começou um monologo sobre como funcionava seu relacionamento com Kyuhyun, sobre como se apaixonara pelo rapaz, sobre como ter um relacionamento o deixara mais responsável e centrado e finalmente seus planos de constituir família, deixando clara a importância daquele emprego para que seu sonho chegasse a realidade. Uma história comovente que apenas não sensibilizou seu oponente e Kibum, que ainda insistia que ele deveria ter mais orgulho e demonstrar quem ele realmente era, coisa que Changmin acreditava ser totalmente desnecessária.

Aquela noite e a sinceridade de Changmin abriram-lhe portas para a última fase do estágio, na qual apenas ele e o mesmo colega que o acompanhara no Happy Hour estavam incluídos. Como era de praxe, a terceira e última fase seria de longe a mais difícil de todas e eles seriam submetidos aos mais complicados testes que os diriam qual dos dois estaria mais apto a ocupar o cargo na empresa. Claro que ambos estavam sujeitos a erros e não era esperado que eles tivessem um desempenho impecável, mas eles dariam o seu melhor e até o final de fevereiro Changmin teria um emprego ou no mínimo um bom estágio em seu currículo.

Assim, quando os dois rapazes estavam devidamente encaminhados em seus empregos, a volta às aulas se aproximou e eles trataram de preparar-se para o mais complicado ano acadêmico. O trabalho de conclusão de curso ocuparia seus finais de semana e sugaria suas energias intelectuais até o último para que ficasse no mínimo satisfatória. Seriam leituras e mais leituras, além de uma escrita rebuscada e nada divertida de se fazer. Eles estavam ansiosos, ainda sem saber direito o que os esperaria na primeira semana de fevereiro.

No último dia de férias, Kyuhyun e Changmin jantaram na casa de Donghae, mas partiram logo cedo, uma vez que no dia seguinte a nova e corrida rotina dos rapazes teria início. Assim que a porta se fechou, Donghae e Hyukjae trataram de discutir pela enésima vez como contariam aquilo que perseguira suas consciências durante todo o mês de janeiro. Eles bem sabiam que seu prazo estava acabando e contavam com as duas semanas seguintes para poderem ter uma conversa mais franca com Kyuhyun.

Donghae temia mais do que tudo magoar mais uma vez seu querido amigo e não o desejava vê-lo chorar, por outro lado, achava injusto que ele e seu namorado tivessem que carregar o fardo de dar aquela notícia ao rapaz. Eles cogitaram as mais diversas maneiras de contarem-lhe, por telefone, chamando-lhe à sua casa, ou indo até a casa dele ou ainda repassar a tarefa à Changmin para que ele encontrasse a melhor maneira de contar ao rapaz.

Já era tarde quando o casal sentou-se em frente a televisão e finalmente decidiu que no sábado seguinte eles chamariam Kyuhyun ao Candy Bar e finalmente dariam a ele a notícia que tanto os incomodara nas últimas semanas. Aquela era sua ideia, até o casal ouvir sua campainha tocar e se entreolharem confusos. Era provável que fosse Kyuhyun ou Changmin por terem esquecido algo importante, logo Hyuk tratou de abrir.

Logo que viu quem estava do outro lado da porta o estômago de Donghae afundou alguns palmos e ele arregalou os olhos. Hyuk mal podia acreditar em que seus olhos viam, e por alguns segundos ele acreditou que a luz fraca de sua varanda estavam enganando seu psicológico. O inesperado visitante deu um passo a frente e a luz da sala iluminou seu rosto, com um largo e simpático sorriso. Era o mesmo sorriso, e o mesmo perfume cítrico. Usava uma camisa casual, e apenas mudara o corte de cabelo, o deixando mais moderno.

Não havia como negar, era Siwon à sua porta, duas semanas antes do esperado.

– Hyuk-ah!

Assim que seu amigo o chamou Hyukjae sorriu e o abraçou com força, deixando a saudade tomar conta de si e depois esvanecer com os tapinhas amigáveis que o outro dava em seu ombro. Donghae fez o mesmo e deixou o sofá para abraçar o rapaz mais alto que parecia extremamente feliz em vê-los. Siwon abraçou cada um de seus amigos demoradamente e depois puxou a grande mala de rodinhas com seus pertences para dentro da casa. O professor nunca fora dado à surpresas, mas sua situação o obrigou a aparecer repentinamente diante da porta dos dois.

Eles estavam extremamente felizes com a visita tanto que por alguns instantes esqueceram de que Kyuhyun ainda não sabia de sua volta e de que era função deles ter avisado o rapaz. Hyuk levou a mala do rapaz para o quarto de hóspedes, enquanto Donghae servia-lhe um chá quente para que ele relaxasse depois de uma estressante e demorada viagem. A hospitalidade sempre fora um ponto forte naquele casal e Siwon bem sabia que seria bem recebido. Donghae tinha milhares de perguntas rondando sua mente, mas tratou de partir para a mais básica logo que eles se acomodaram no sofá:

– Você chegou cedo, Siwonie. – Afirmou Donghae. – O que houve?

– Eu fui avisado da data errada do começo das aulas aqui em Seul. Eu precisei vir às pressas e não deu tempo de avisar vocês. Como eu disse, se for incomodar, eu posso ficar em um hotel.

Até parece que você ia chegar em Seul e nós deixaríamos você ir para um hotel. – Ironizou Donghae. – Você pode ficar aqui até arrumar um apartamento, ou se quiser, o seu antigo ainda está no nome do Kyunie…

– Eu não vou tirar o apartamento dele, Hae-ah. – Afirmou Siwon com ar incisivo. – E como ele reagiu? Quando soube que eu ia voltar?

– Ele não soube. – Disse Donghae corando brevemente. – Eu e o Hyuk não encontramos um jeito de contar para ele ainda.

– Eu sugiro que façam isso antes que ele me encontre, porque senão as coisas podem complicar. – Aconselhou Siwon. – E como está o Kyunie?

– Bem, muito bem. Ele e o Changminie acabaram de sair daqui. Por pouco vocês não se esbarraram. – Comentou Donghae sentindo um arrepio na espinha ao pensar na possibilidade. – O que veio fazer em Seul?

– Dar continuidade ao meu projeto de pesquisa e continuar dando aulas, Hae-ah. – Afirmou Siwon. – E é claro, matar a saudade de vocês.

– Nós também sentimos a sua falta, Siwonie. – Afirmou Hyukjae finalmente voltando do quarto e se sentando ao lado de seu namorado. – Como é a Europa?

– É bonita, eu visitei cidades lindas enquanto estive lá. Só é meio gelada, as pessoas não são muito abertas e sociáveis. É muito diferente daqui. – Explicou Siwon. – Eu gostei da Inglaterra, mas gosto mais da minha Seul.

– Sentiu tanta falta assim da Coréia?

– Demais. Eu tinha uma boa vida aqui, mas precisava crescer profissionalmente e vou admitir, eu cheguei longe. – Confidenciou Siwon. – Eu vivo bem, ainda tenho as minhas ações empresariais, invisto e coordeno projetos de pesquisa científica e ainda tenho o meu trabalho como professor, eu me dei bem.

– Mas? – Disse Hyukjae.

– É solitário. – Resumiu Siwon. – E é por isso que eu estou feliz em estar de volta.

– Nós também estamos felizes com a sua volta, Siwonie. – Afirmou Donghae – Mas eu queria te avisar, eu não sei se o Kyu vai te receber tão bem assim.

– Eu já imaginava isso, pelas nossas conversas por e-mail. – Afirmou Siwon demonstrando certo desapontamento. – Eu espero que o aviso de vocês amenize a reação dele.

– E do Changmin. – Disse Hyukjae pensativo.

– Changmin. – Repetiu Siwon com ar pensativo. – Eles ainda namoram?

– Sim, estão querendo morar juntos esse ano. – Afirmou Donghae.

– Justo no último ano da faculdade? Duvido que tenham tempo pra isso. – Afirmou Siwon. – Eu teria deixado para o próximo ano.

– Siwonie, nós deixamos os dois fazerem as coisas do jeitinho deles e tem funcionado até agora. Eles não são bobos, sabem o que pode dar certo e o que não pode. – Afirmou Donghae, sorrindo discreto. – E se algum dia você pretende voltar a conversar com o Kyuhyun, é bom que pare de implicar com o namorado dele.

– Não é implicância Hae-ah, mas esse relacionamento…

– Não é perfeito. – Interrompeu Donghae. – Nenhum relacionamento é e você deveria saber disso. É implicância sim, e eu espero que isso mude assim que você ver os dois juntos. O Changmin é um bom homem.

– Você vai gostar dele, Wonie. – Concluiu Hyukjae. – A menos que isso seja ciúme.

– Não insinue esse tipo de coisa, Hyukie. – Ralhou Donghae.

– Melhor mudarmos de assunto. – Afirmou Siwon. – Na verdade, eu preciso ir descansar, pois amanhã logo cedo vou para a faculdade e a tarde eu precisarei resolver a minha documentação para ficar aqui, além das aulas a noite.

– E quando você pretende passar um tempo com a gente? – Indagou Donghae desapontado.

– Eu vou ter os finais de semana, e nós podemos almoçar juntos. – Disse Siwon sorrindo. – Eu quero saber tudo sobre o que vocês viveram aqui.

– E nós queremos saber da Europa! – Disse Hyukjae animado, finalmente se levantando de um salto. – Vamos, eu te mostro o seu quarto.

Donghae abraçou Siwon uma última vez antes de deixa-lo seguir para seu quarto, ouvindo ao longe seus elogios à sua nova casa. Hyuk deixou que Siwon se acomodasse no quarto e somente o deixou quando o mesmo estava confortavelmente em sua cama com um edredom sobre seu corpo. Quando voltou a sala, Donghae fitava a rua massageando suas têmporas com a ponta dos dedos, há tempos ele não se sentia tão inseguro.

Hyukjae entendeu seus sentimentos. Era de fato, uma alegria ter seu amigo de volta à cidade, poder visita-lo e relembrar os velhos tempos. Seu apreço e carinho por Siwon não diminuíra com os anos, assim como o carinho que o rapaz dispensava com eles. No final das contas, eles temiam por Kyuhyun, por sua insegurança, por seu relacionamento e principalmente por não fazerem ideia de qual seria sua reação com a notícia.

Eles viram Changmin enfrentar os mais diversos desafios para permanecer com Kyu, no entanto, não tinham certeza se este estava disposto a enfrentar a presença de Siwon novamente na vida de seu namorado. Donghae já sentia-se culpado por não ter contado aquilo antes para os dois rapazes e agora já não havia mais tempo, não havia escapatória. Ele deveria procurar Kyuhyun o mais cedo possível e esperar que sua reação não fosse das piores, e que seu relacionamento com Changmin não ficasse abalado. Afinal de contas, Siwon havia voltado, gostando eles ou não.

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