Capítulo 34 – Bound to be afraid

 

Apesar do trânsito pesado, Changmin conseguiu chegar à faculdade com meia-hora de antecedência. Ele ainda usava as mesmas roupas sociais com as quais trabalhara o dia todo, a camisa branca presa por dentro da calça risca de giz e um cinto preto de fivela dourada. O belo relógio que ganhara de aniversário de namoro reluzia em seu pulso, assim como a aliança em seu dedo. E sobre o ombro direito uma bolsa masculina contendo seu caderno e algumas canetas e lápis.

A cafeteria da faculdade estava cheia e ele teve alguma dificuldade para comprar um lanche para si e um doce para seu namorado que chegaria atrasado para aquela aula devido a uma reunião em seu trabalho. Changmin comeu seu lanche calmamente e antes de ir para sua sala de aula, checou o celular pela milésima vez no dia em busca de uma resposta de seu namorado e apenas encontrou outra chamada não atendida de Donghae e uma mensagem do mesmo.

“Por favor, assim que encontrar o Kyu, peça a ele para me ligar! Não se esqueça, Changminie!”

Era a quarta vez que Donghae o lembrava de pedir para que Kyu o ligasse. Hae telefonara para Changmin diversas vezes aquele dia, sempre perguntando por Kyu, se Changmin conseguira contato, no entanto, por mais que tentasse Kyu não o respondia. Um tanto preocupado, Changmin ligou em seu trabalho e lá foi avisado de que o rapaz já estava em reunião e não poderia atendê-lo. Por mais que tivesse pedido, Donghae insistiu em não dizer seu assunto tão urgente, não antes de falar pessoalmente com Kyuhyun.

Ele respondeu ao mais velho que não se preocupasse e que assim que visse Kyuhyun, ele o avisaria para que o telefonasse, sem mais insistir em saber qual era o segredo que este iria compartilhar com seu namorado. Após responder o recado do mais velho a fim de tranquiliza-lo, Changmin seguiu para sua sala de aula, onde poucos alunos estavam reunidos e esperavam a aula começar. Ele foi bem recebido, e logo juntou-se ao grupo que conversava entre si sobre as novas regras da faculdade.

Pelos boatos que Changmin, sentado sobre uma das mesas, ouviu atentamente, eles transferiram os alunos de cursos práticos para terem aulas somente em seus laboratórios localizados em campus diferentes, a biblioteca teria um novo sistema de multas por atraso e alguns cursos haviam aumentado de carga horária. No entanto, o que mais afetava os alunos de economia foram as resoluções quanto ao trabalho de conclusão de curso.

De acordo com os boatos o novo professor e orientador de monografia não aceitava alunos com mais de três dependências em sua sala de aula e isso fizera com que grande parte dos alunos não pudessem participar das aulas naquele ano. A justificativa da direção do curso era de que não acreditavam que tais alunos estariam aptos a realizar um trabalho de grande porte, sem as informações essenciais bem entendidas em suas mentes. Claro que houveram muitas reclamações, mas ainda assim, poucos alunos estavam devidamente matriculados no último ano do curso de ciências econômicas.

Changmin não achou a resolução de forma alguma injusta, afinal ele se esforçara nos últimos anos e certamente estava mais preparado para aquele trabalho do que alguns de seus colegas. Ele não exprimiu sua opinião, pois a grande maioria discordava da posição dos docentes já que seus amigos haviam ficado para trás. Changmin ainda fitava seus colegas de classe quando um aroma cítrico invadiu suas narinas e por alguns instantes ele acreditou que seu namorado havia finalmente chegado à sala de aula. No entanto, quando Changmin desviou o olhar encontrou apenas o novo professor que desejou um polido “Boa noite” e sorriu discreto aos alunos.

Changmin teve uma sensação estranha quando olhou para o professor relativamente mais jovem do que seus outros professores. Ele era alto e aparentava ser bem apessoado e tranquilo. O professor deixou sua pasta sobre a mesa e só então colocou um par de óculos no rosto e voltou a fitar a turma percebendo o olhar de seu aluno sobre si. Changmin teve uma sensação nostálgica, um déja-vu com aquela figura a sua frente. Ele já havia visto aquele rosto em algum lugar, mas não sabia de onde. Seus olhares se encontraram e o professor o perguntou:

– Qual o seu nome?

– Shim Changmin.

Changmin tentou parecer simpático com o novo docente, mas o sorriso do mesmo ainda assim diminuiu quando ouviu seu nome. O mais velho arqueou as sobrancelhas e piscou algumas vezes, como se tentasse absorver aquele nome para si, ou ao menos a surpresa ao ouvi-lo, então ele continuou:

– Você poderia, por gentileza, pegar um giz na sala ao lado?

– Claro, professor.

Changmin saiu da sala enquanto seus colegas se ajeitavam nas mesas e o professor retirava a chamada de sua pasta e passava entre as carteiras para que os alunos assinassem. O rapaz ainda tentou ligar para seu namorado no caminho, mas mais uma vez ouviu sua mensagem da caixa postal. Ele voltou a sala e encontrou o professor explicando que era ele o novo orientador de monografia e que aquele ano seria dedicado somente à esta matéria. Quando Changmin se aproximou, perguntou-lhe despretensiosamente:

– Você já deu aula aqui antes, professor?

– Não, eu estava fora do país. – Explicou o docente friamente.

– Eu tenho a impressão de que te conheço de algum lugar. – Changmin viu o professor engolir seco e esfregar as pontas dos dedos quando suas mãos suaram frio. O mais velho sorriu simpático antes de respondê-lo com simplicidade.

– Eu não me lembro de você, não da sua fisionomia pelo menos. Caso se lembre de onde me conhece, me avise.

Changmin sorriu-lhe simpático antes de se sentar em sua carteira e assinar a lista de presença, esperando que seu namorado chegasse logo para que uma falta não fosse colocada em seu nome. O professor então passou entre as fileiras de carteiras entregando um informativo com as datas das entregas anuais. O professor deixou o restante das folhas para os alunos faltantes sobre sua mesa e então pegou o giz que Changmin trouxera-lhe. Ele rodou em seus calcanhares e escreveu no quadro, em uma letra encurvada e bem desenhada.

“Choi Siwon.”

Changmin que antes fitava sua agenda, onde grampeara o cronograma do ano desviou o olhar para o quadro e puxou o ar rápido e sonoramente pela boca. Seus olhos se arregalaram por alguns instantes e seus dedos se afrouxaram deixando seu grampeador cair ao chão. O mundo então tornou-se apenas uma mancha diante daquela feição calma à sua frente, não era um engano, ou alguém com o mesmo nome. Assim, em poucos segundos tudo fez sentido naquele dia, o segredo de Donghae, a sensação estranha de déja-vu. Seu estômago se revirou e sua mente girava lentamente, como se estivesse em um sonho, nada agradável.

Era ele.

Como Kyuhyun descrevera dois anos antes sobre seu primeiro dia de aula, o professor contornou a mesa, e apoiou os quadris nesta. Por alguns instantes Changmin acreditou verdadeiramente estar em um sonho e que logo um Kyu de treze anos entraria por aquela porta e se apaixonaria uma segunda vez pelo professor. Siwon puxou fôlego e então começou a falar em tom calmo e lento, dando tempo para que as pessoas absorvessem suas informações.

– Boa noite. Meu nome é Choi Siwon, e eu sou o novo orientador do trabalho de conclusão de curso na turma de economia. Me chamem de professor Siwon, estou desacostumado com honoríficos.Também estou coordenando dois projetos de pesquisa em ciências políticas e econômicas, além do grupo de estudos de aperfeiçoamento em matemática. Eu passei os últimos anos em Londres, lecionando e terminando o meu doutorado. Eu sou formado em matemática e tenho mestrado e doutorado em ciências econômicas aplicadas. Meu e-mail está na folha que eu repassei a vocês e qualquer dúvida que tenham, não hesitem em entrar em contato comigo.

Siwon sorriu e fez uma breve reverência aos seus alunos, fazendo uma breve pausa. Enquanto o homem falava, Changmin tratou de mandar uma mensagem de texto para Donghae, avisando que quem lecionava sua aula naquele momento era Siwon e que se o assunto com Kyu era aquele, já não havia motivos para se apressar. Mais tarde ele levaria o rapaz para a casa de Hae e lá ele exigiria uma explicação sobre aquela desagradável surpresa. Então, Siwon continuou com seu monólogo:

– Sei que a maioria de vocês não faz ideia do que se trate uma monografia, como monta-la, o que pesquisar, sobre o que falar e muito menos sobre a pesquisa empírica que farão no segundo semestre. Esta é a minha função, guiar vocês de forma que facilite sua vida ao máximo possível. Isso não quer dizer que eu vou deixar as coisas soltas, e sem supervisão. Vocês terão prazos e caso não sejam cumpridos, acarretará na nota de vocês. Ou seja, não basta passar na banca de final de ano, vocês terão…

A aula foi interrompida pela porta se abrindo e revelando dois alunos atrasados. Changsun entrou na sala, seguido por aquele a quem Changmin ansiava por ver. Kyuhyun olhava para baixo quando fechou a porta e só então desviou o olhar para o professor murmurando um “com licenç…” que ficou solto no ar, sem finalização. Ao contrário de Changmin, Kyuhyun não precisou ler o nome no quadro para saber quem era aquele homem à frente de sua sala de aula. Seus olhares se encontraram e um sorriso discreto e saudoso se formou no canto dos lábios de Siwon enquanto esperava o rapaz acomodar-se em sua cadeira.

Kyuhyun caminhou a passos lentos, lutando contra a vontade de sair correndo dali, para um local onde aquele olhar não invadisse sua alma e jogasse em sua face todas as dores que sentira de uma única vez. Assim que se aproximou trôpego de sua carteira, Changmin segurou sua mão e o guiou para que sentasse, Kyu estava pálido e assim como ele, Changmin teve impulsos de pegá-lo pelo pulso e arranca-lo dali até que ambos estivessem seguros daquele que os assombrava, tal qual um poltergeist.

Siwon continuou sua aula como se nada tivesse acontecido. Kyuhyun não faria uma cena por mais que seu peito queimasse em raiva, dor e confusão, ele apreciava a discrição de Siwon e a seguiria como ele. Changmin parecia tão confuso quanto ele, como se sua mente se esforçasse para entender sua nova realidade e assim, prever as consequências daquela surpresa desgostosa. Kyu desejou falar com Changmin, mas não daria motivos para Siwon dirigir-se diretamente a si, então permaneceu em silêncio, com os punhos cerrados sobre suas coxas enquanto ouvia a doce voz do rapaz maltratar seus ouvidos.

O professor continuou sua aula como se não estivesse com seu coração se retorcendo de felicidade por rever Kyuhyun e tê-lo achado um homem lindo, além de conhecer seu famigerado namorado que o fitava com uma feição abobalhada desde que vira seu nome no quadro e certamente ligara o nome à pessoa. Em meio à suas explanações, Siwon trouxe alguns exemplos de monografias, retirando de sua pasta alguns trabalhos com capa dura em tons bordô, azuis e verdes e os entregou uma em cada fileira para que os alunos dessem uma breve folheada. Quando chegou à fileira de Kyuhyun, ele tinha a última monografia em suas mãos e disse calmamente:

– Essa é a minha monografia, que eu fiz quando estava terminando a minha graduação em matemática. Eu peço que vocês relevem, pois a capa e as primeiras páginas estão manchadas de vinho. – Seu olhar recaiu sobre Kyuhyun que sentiu seu rosto arder e tomar uma coloração enrubescida e seu estômago se revirar. – Acidentes acontecem.

Siwon deixou o livro sobre a mesa de Kyuhyun que baixou os olhos, sentindo um nó dolorido formar-se em sua garganta, deixando difícil de engolir. Ele jamais se esqueceria da noite, que em uma tentativa desesperada de impedir que seu companheiro partisse, jogara vinho sobre sua mesa, manchando seus documentos. As mãos trêmulas de Kyuhyun abriram o livro e fitaram o título também manchado, enquanto sua mente revivia os gritos e soluços daquela terrível noite. Kyuhyun voltou-se para seu namorado quando foi entregar-lhe a monografia e com seu rosto coberto por um véu de melancolia, ele o confidenciou aos sussurros:

– Eu estraguei essa monografia. Eu joguei vinho no trabalho dele. – Changmin pegou o trabalho, ainda em silêncio. – Por que ele está aqui? Por que voltou?

– Pelo que eu entendi, pelo mesmo motivo que foi embora, uma proposta de trabalho. – Afirmou Changmin, desgostoso. – O Donghae-hyung te ligou a tarde toda, e eu também, o que houve?

– Meu celular caiu na rua, e a bateria dele caiu em uma poça d’água. Não funciona mais. O Hae-hyung… minha cabeça está doendo, Changminie, eu queria ir pra casa. – Afirmou Kyuhyun deixando seu namorado repassar a monografia do professor, sem sequer olha-la, antes de deitar sua cabeça sobre a mesa do outro e receber carinhos em sua nuca.

– Nós vamos na casa do Hae-hyung depois da aula, ele te deve algumas explicações. – Afirmou Changmin, fitando o professor se aproximar calmamente e colocar sua mão sobre o ombro de seu namorado que se levantou sobressaltado.

– Você não assinou a lista de chamada, Kyunie. – Disse Siwon colocando a folha sobre sua carteira, antes de partir para perto de outro aluno que o chamara para um comentário sobre o qual o casal não possuía interesse algum.

– Depois da casa do Hae-hyung nós vamos pra casa né? Sair desse pesadelo? – Disse Kyuhyun pegando a lista e a assinando, enquanto esperava uma resposta de seu agoniado namorado.

– Vamos. – Disse Changmin acariciando os cabelos de seu namorado e finalmente tomando a lista de suas mãos e a devolvendo ao professor que não mais sorriu-lhe, uma vez que suas suspeitas sobre a identidade de Changmin foram confirmadas.

A aula se arrastou, lenta e dolorosamente para o casal que no final das três horas já estavam enjoados das feições de Siwon. Ele sequer fez intervalo e a aula se conduziu sem interrupções para que acabasse mais cedo. Siwon não mudara em nada sua metodologia ao longo dos anos, suas aulas continuavam pesadas, cheias de informação e um quadro com explicações de cabo a rabo. Às 21h30min em ponto o professor encerrou sua aula e refez a chamada, retirando da lista os nomes não mais presentes.

A cabeça de Kyuhyun estava pesada e sua visão um tanto inebriada, não somente em função de sua exaustão emocional, mas também por já sentir as reações de sua nova e pesada rotina. Os alunos se despediram do professor e saíram da sala sem pressa alguma, afinal nenhum deles tinha dúvidas sobre a primeira aula. Kyuhyun e Changmin guardaram seus materiais e o mais alto se levantou pronto para correr dali, enquanto o outro permaneceu sentado, buscando determinação em algum lugar de seu interior.

Kyuhyun desviou o olhar para seu namorado e disse calmamente para que ele o esperasse do lado de fora, pois conversaria com o professor. Changmin procurou motivos para negar aquele pedido, no entanto, apenas pareceria extremamente irracional e ele não daria aquele gosto à Siwon. Kyu sabia que seu namorado ficaria chateado, mas também sabia até onde poderia ir com a paciência do rapaz e ele ainda não havia atravessado aquela linha. Changmin suspirou pesadamente, mas saiu da sala, permanecendo no corredor de onde certamente ouviria a conversa dos dois.

Kyuhyun não tinha nada a esconder de seu namorado, mas temia que Siwon dissesse algo que machucasse o rapaz. O jovem se levantou e a passos lentos, ele dirigiu-se para a mesa do docente que terminava de guardar seus pertences. Assim que parou em frente ao rapaz, seus olhares se encontraram demoradamente e Siwon sorriu, com o canto dos lábios. O mais velho teve impulsos de abraçar o outro, mas temeu uma reação exagerada, assim esperou que este falasse-lhe primeiro. Assim, Kyu o fez:

– Eu quero… aliás, eu mereço uma explicação. – Disse Kyuhyun, com sua feição enfurecida. – O que você está fazendo aqui? O que quer?

– Kyunie. – Disse Siwon serenamente. – Foi uma feliz coincidência, eu garanto. Eu cheguei ontem a noite e o Hae não teve tempo de te avisar. Ele tentou e eu aposto que aquele rapaz pode te confirmar isso.

– O nome dele é Changmin. – Corrigiu Kyuhyun, recebendo um suspiro em retorno.

– Eu não sabia que eu iria te dar aulas, eu voltei para cá por causa dos projetos de pesquisa e garanto que se tivesse lido antes seu nome na chamada, teria alertado Donghae para que te avisasse da minha volta o quanto antes. – Explicou Siwon, dando a volta na mesa e se aproximando do rapaz que se encolheu brevemente. – Eu ainda não consegui definir se você está irritado ou com medo de mim.

– Eu não tenho medo de você! – Defendeu-se Kyuhyun. – Eu tenho… raiva.

– Não, você está com raiva, mas isso passa. O que você sente por mim é algo mais profundo. – Afirmou Siwon, recostando-se à sua mesa. – Não quero te chatear com as minhas intuições, Kyunie, o que mais quer me falar?

– Obrigado por não comentar a história da sua monografia. – Disse Kyuhyun corando e desviando o olhar.

– Achou mesmo que eu poderia te expor assim? Não me reconhece mais? – Indagou Siwon desapontado.

– Pare de me julgar por pelo menos cinco segundos! – Ralhou Kyuhyun.

– Não estou te julgando, meu garoto. – Disse Siwon. – É até vergonhoso usar um apelido deste diante do homem lindo que você se transformou. O Hyukie sempre me disse que você era um homem bonito, mas você é mais do que isso.

– Eu espero que não seja sua pretensão que eu retribua o elogio. – Ironizou Kyuhyun.

– Foram apenas elogios, aceite-os para que eu não pareça bobo. – Brincou Siwon, sorrindo novamente a Kyuhyun. – Eu te disse no e-mail, mas não imaginei que depois de tanto tempo ainda estivesse tão magoado comigo, espero um dia poder conversar com você sem toda essa frieza. Por agora vá pra casa, deixe que seu namorado e seus amigos cuidem de você até que seu coração se acalme. Espero que a próxima aula te deixe menos agoniado e arisco, pois independente de mim este ano é muito importante para você.

Siwon sorriu e deu alguns tapinhas nos ombros de Kyuhyun que levou alguns segundos para absorver as palavras do rapaz antes de sair correndo da sala de aula. O mais velho estava fascinado com o rapaz, que ainda tinha as mesmas feições do garoto por quem se apaixonara, mas com quem o tempo fora generoso e dera a ele uma beleza única aos olhos de Siwon. Os cabelos de Kyuhyun ainda eram macios como ele se lembrava, lisos e caíam em seu rosto fino dando um recorte facial magnífico.

No entanto, o que mais chamou a atenção de Siwon, fora rever os olhos do rapaz. Aquelas orbes amendoadas que da última vez que o fitaram, estava coberta por lágrimas doloridas e saudosas e agora exprimiam toda sua frieza. Aqueles mares castanhos por onde tantas vezes mergulhara sem pensar em como voltar, que agora o repeliam para longe como algo grotesco e desagradável. O olhar de Kyu que o deixou confuso e desestruturado por longos momentos antes dele tomar sua pasta e seguir para a última reunião de professores do dia.

Ao contrário do esperado, Kyuhyun não correu em direção ao seu namorado, mas saiu corredor afora, que estava vazio, afinal as aulas dos outros períodos ainda não haviam terminado. Changmin correu em seu encalço e apenas diminuiu o ritmo quando viu o rapaz adentrar o banheiro masculino. Ele entrou atrás e o encontrou vazio, apenas com um box fechado, logo ele presumiu que o outro havia se trancado ali.

Changmin acreditou que seu namorado chorava até ouvir o rapaz tossir, fazer ânsia e então vomitar. Kyuhyun estava nauseado desde que decidira conversar com Siwon, e sua cabeça doía como se tivesse bebido demais. Kyuhyun demorou-se no banheiro, ao final sentiu um breve alívio quando sua náusea diminuiu de intensidade, seu corpo já não sentia tantos calafrios por mais que sua mão ainda estivesse suada. A última vez que ele vomitara daquela forma, sentindo o corpo tremer enfraquecido, fora no dia seguinte depois de Siwon ir embora.

Kyuhyun limpou os lábios e saiu do banheiro, encontrando seu namorado assustado do lado de fora. Changmin arregalou os olhos com a expressão do rapaz, estava mais pálido do que nunca, os olhos fundos, e percebeu que o mesmo suava frio assim que segurou suas mãos. Ele o guiou até a pia, onde Kyu enxaguou a boca e deixou que seu namorado lavasse seu rosto e esfregasse sua nuca para que sua pressão não caísse. Kyu apoiou-se contra o rapaz, e deixou sua cabeça se recostar ao ombro do mesmo e fechar os olhos.

Changmin não exprimia qualquer reação, mas seu interior flamejava de puro ciúme. Ele ouvira a conversa dos dois, e detestara tantos elogios sendo destinados ao seu namorado. No entanto, o mesmo passara mal e Changmin bem sabia que era em função do nervosismo, assim, pelo bem estar do rapaz ele reprimiu seu ciúme em seu peito o sentindo doer. Eles permaneceram longos minutos daquela maneira, abraçados no banheiro masculino, com suas mentes perdidas em pensamentos diversos, até Changmin sugerir:

– Vamos pra casa, meu príncipe? Ou ainda está enjoado?

– Estou. – Confessou Kyuhyun. – Mas eu quero passar na casa do Hae-hyung antes, quero conversar com ele.

– Não pode deixar isso pra amanhã?

– Nós seremos rápidos. – Prometeu Kyuhyun apertando mais seu namorado em seu abraço, ao perceber a voz deste brevemente irritada.

Changmin meneou a cabeça afirmativamente e selou a testa de seu namorado antes de agarra-lo pela cintura e pegar sua pasta antes largada no chão do banheiro para guia-lo para fora. Kyu agarrou-se à cintura de seu namorado e apoiou a testa em seu ombro enquanto os dois caminhavam,um tanto desajeitados, em direção à saída do bloco. Pela janela da sala dos professores, Siwon perdeu-se no tedioso assunto e se permitiu observar os dois rapazes, se afastarem até o carro de Changmin, sentindo o fel do ciúme em seus lábios pela segunda vez naquele dia.

Changmin segurava a cintura do rapaz com firmeza, o puxando contra si, de forma que seus corpos andavam colados um ao outro. Ele somente o soltou quando chegou ao carro e o guiou para que se sentasse no banco do passageiro. Assim que tomou seu assento, Changmin avisou seu namorado que se mais uma vez se sentisse nauseado era só avisa-lo que rapidamente ele pararia o veículo. Changmin tratou de sair logo da faculdade na tentativa de não pegar trânsito e terminar de uma vez com sua desastrosa noite.

Kyuhyun deitou sua cabeça no encosto do banco e fechou os olhos, sentindo seu estômago revirar mais uma vez ao se lembrar do momento que entrou na sala e viu Siwon, pela primeira vez depois de quatro anos.  Certamente uma das sensações mais inesquecivelmente desagradáveis que tivera nos últimos anos. Antes que ele percebesse, Changmin estacionou o carro na rua calma, e quando abriu os olhos a casa de Donghae, com as janelas iluminadas, acalmaram brevemente seu coração.

Changmin saiu primeiro do carro, e esperou seu namorado fazer o mesmo antes de adentrar o pequeno portão e ser recebido pela cachorrinha com um latido estridente. Changmin a pegou no colo, então Kyu tocou a campainha dos dois rapazes, ouvindo os passos apressados de Hyukjae antes da porta se abrir e sorrir discreto ao casal que os visitava. Kyu não forçou um sorriso em resposta, muito menos Changmin e isso fez Hyuk suspirar pesadamente com o clima pesado entre os dois rapazes.

Ele abriu espaço para os dois e logo um sereno Donghae saiu da cozinha, enxugando suas mãos agora frias em um pano de prato. Ele se aproximou de Kyuhyun e imediatamente seus olhos atentos perceberam que o rapaz estava pálido e parecia indisposto, enquanto Changmin parecia a um passo de gritar ou morder alguém. Ele nunca vira o rapaz irritado, mas entendia seus motivos. Hae aproximou-se primeiro de Kyu e o abraçou pela cintura, deixando o rapaz pender-se contra si.

Hyuk apontou o sofá para Changmin e este acomodou-se ali, fitando seu namorado abraçado ao seu amigo mais velho, sem expressão alguma. Hyukjae sentou-se no braço do sofá e apoiou a mão no ombro do outro o apertando em um sinal discreto de consolo. Kyuhyun não sabia o que perguntar ao mais velho, não sabia por onde começar aquela conversa, por isso ficou satisfeito quando Donghae soltou o abraço, acariciou seus cabelos e cortou o silêncio que se formara entre os dois casais:

– Vocês já jantaram?

– Eu não estou com fome, hyung. – Afirmou Changmin, suspirando pesadamente ao final da frase.

– Estou nauseado. – Contou-lhe Kyuhyun. – Se eu comer, vou voltar a vomitar.

– Vamos conversar, Kyunie. – Disse Donghae, finalmente demonstrando preocupação e o guiando para o sofá, para que se sentasse ao lado de seu silencioso namorado.

– Querem ficar a sós? – Indagou Changmin, finalmente desviando o olhar para seu namorado.

– Eu acho uma boa ideia, por que você não sai comigo? – Afirmou Hyuk. – Vamos dar uma volta com a Choco.

Changmin prontamente aceitou a proposta e selou o topo da cabeça de seu namorado antes de sair porta afora com seu hyung. Donghae acomodou-se ao lado do rapaz e o abraçou pelos ombros, enquanto o menor apoiava o rosto em seu peito e fechava os olhos, mais uma vez temendo as futuras reações de Changmin. Donghae acariciou os cabelos do rapaz e somente esperou, até que o rapaz organizasse as ideias e falasse algo, o que levou alguns minutos para acontecer.

– Quando você soube que ele iria voltar?

– No começo de janeiro. – Afirmou Donghae. – Eu estava procurando um jeito de te contar quando ele apareceu na nossa porta, duas semanas antes do esperado.

– Sua porta? Ele está aqui? – Disse Kyuhyun sobressaltado, levantando o corpo e fitando o mais velho.

– Ele está hospedado aqui, mas não está em casa. Ele tinha uma reunião e depois me disse que ia jantar fora, em um lugar que estava sentindo falta.

– Ele pode chegar a qualquer momento então?

– Ele já me ligou e vai demorar, não se preocupe. – Afirmou Donghae segurando a mão do rapaz.

– Por que você não me contou, hyung? Essa foi de longe a pior surpresa que eu já tive em toda a minha vida. Encontrar uma cobra embaixo na minha cama teria sido menos assustador.

– Me perdoe, Kyunie, eu demorei, pois achei que tinha tempo. Eu tentei te ligar o dia todo, mas você não atendia.

– Meu celular quebrou, deu tudo errado hoje. – Afirmou Kyuhyun agarrando as mãos de Donghae. – Hyung… e agora? O que vai acontecer?

– Do que tem medo, Kyunie?

– De ficar confuso, de achar coisas que não devia. De perder o meu Changminie que eu amo tanto. – Confidenciou Kyuhyun aos sussurros para que somente Donghae o escutasse.

– Ah, eu tenho certeza que você vai ficar confuso e que vai achar coisas que não devia. É o Siwon, presente na sua vida de novo, te dando aulas de novo.

– E o que eu faço com isso?

– Deixe aí, na sua cabecinha, até que uma hora vai perder a força e vai desaparecer. Não minta para o Changmin, mas também não esfregue isso na cara dele como se fosse uma punição, nós dois sabemos que ele não merece.

– Por que na minha faculdade? O que o Siwon quer de mim?

– No momento, ele quer que você seja um bom aluno. – Afirmou Donghae com firmeza. – Não fique tão agoniado, meu amigo, você vai se acostumar com a presença do Siwon e logo isto não terá mais tanta importância, como aconteceu antes com a ausência dele. Você tem uma vida com o Changminie agora, cuide disto e o resto vai se arrumar sozinho.

– Vai mesmo? O Changminie está tão calado, ele não falou ainda o que acha do Siwon ter voltado.

– Ele está preocupado com você, mas vocês terão tempo para discutir esse assunto, não hoje com suas mentes tão alteradas. – Aconselhou Donghae. – Vamos na cozinha, eu vou fazer um chá para vocês dois.

A conversa sobre Siwon se concluiu desta forma, e a princípio Kyuhyun estava satisfeito com os conselhos do rapaz. Certamente ele ainda tinha mais dúvidas, mas estavam tão embaralhadas em sua mente, que ele não conseguiria formar uma indagação por cada uma delas. A presença de Donghae certamente acalmara seu coração, mas a ausência de seu namorado deixou um vazio em sua alma pelos longos minutos que eles permaneceram separados

Enquanto Donghae ia para a cozinha e preparava algo que fosse ajudar os dois rapazes, Hyukjae levava em uma guia sua cachorrinha de pelo longo, sendo acompanhado por um silencioso Changmin. O mais alto deixou apenas alguns suspiros soltos no ar, enquanto Hyukjae se perguntava como Donghae tinha tanta facilidade de consolar pessoas com problemas e finalmente ele decidiu que a sinceridade naquele momento era sua melhor opção.

– Changmin, vamos falar do Siwon.

– Aish, hyung, eu não quero acabar vomitando como o Kyu.

– Não seja fresco, Changmin. – Ralhou Hyukjae, recebendo um muxoxo em resposta. – Qual foi a sua primeira impressão?

– A primeira? Que era novo demais para dar aula em uma faculdade, e parece bonito demais para ser formado em matemática. Tem mais cara de educação física, porque ele é alto e forte. A segunda impressão foi de um babaca sorrindo para o meu namorado e chamando ele de “Kyunie”.

– Não seja amargurado, Changmin. – Afirmou Hyuk. – Ciúme dói, não dói?

– Não é bem ciúme, hyung.

– Não é? Não está com medo de perder o seu namorado?

– Um… pouco. – Disse Changmin sem convicção alguma. – Acha que isso pode acontecer? Que ele pode querer voltar para o Siwon?

– Relaxe, Changmin, acho difícil que ele queira algo do Siwon que não seja distância. O que eu quero te dizer, é que sei como você se sente. Sei bem como é se sentir ameaçado, e eu sei que você não quer nem pensar como a sua vida seria sem ele.

– Como você poderia saber, hyung? – Indagou Changmin duvidoso.

– Quando nós conhecemos o Siwon, eu gostei dele tanto quanto você. Achava ele metido a inteligente, e que era prepotente e egocêntrico. E olha que naquela época ele nem tinha todo aquele corpo que faz as menininhas molharem a calcinha só de olhar, e depois arrancarem os cabelos quando descobrem que ele é gay. Quando eu conheci o Siwon, eu ainda não namorava o Hae, mas gostava dele, mais do que eu queria admitir, e os dois ficaram muito próximos da noite para o dia.

– E você ficou com ciúmes dos dois. – Concluiu Changmin.

– Ciúmes? Eu queria era esfregar a cara dele no asfalto, isso sim! – Afirmou Hyukjae, fazendo Changmin rir discreto pela primeira vez na noite. – Claro, o Siwon não estava nem de longe interessado no Hae e não demorou a perceber o meu ciúme.  Foi o próprio Siwon quem me encorajou a me declarar e aqui estamos nós.

– Aonde você quer chegar?

– Eu tenho plena noção que a sua situação é completamente diferente, mas no final das contas, o Siwon não era o monstro que eu imaginei, tanto que nós somos amigos até hoje. Ele pode não gostar de você, até mesmo gostar do Kyu mais do que deveria, mas eu não acho que ele vá tentar roubar o seu namorado.

– E se o Kyu quiser?

– Eu acho, que mesmo que o Kyu não tivesse te conhecido e não estivesse namorando, ele não voltaria para o Siwon, não assim, logo de primeira. Ele não é bobo, e foi muito magoado, ele quase te rejeitou com medo de passar por uma rejeição de novo, por que acha que ele daria uma segunda chance justamente para aquele que machucou ele? Agora que está com medo de perder ele, pense no que ele passou quando o fim do namoro dele era iminente, pense em como isso deve ter sido agonizante e sugado as energias dele.

– Acha que ele não vai nem cogitar voltar para o Siwon?

– Eu não disse isso, Changmin. Ele pode ficar confuso um tempo, lembrar do passado, sentir a dor da rejeição de novo, sentir carência, medo, até afeição pelo Siwon. Nada disso vai mudar o fato de que você é o namorado dele e está do lado dele,  também não muda o fato de que ele continua te amando.

– Acha que eu não devo sentir ciúme?

– Sentir ciúme vai ser inevitável, mas com o tempo você se acostuma com a presença do Siwon. – Afirmou Hyuk. – O que eu quero é que não deixe isso controlar a sua vida, quero que pare de engolir o seu ciúme e se precisar, discuta com o Kyuhyun sobre isso, desde que no final das contas seja um namorado melhor, seja capaz de cuidar das necessidades dele.

– Eu não vou discutir com ele hoje, vou cuidar dele. – Afirmou Changmin, desta vez mais cinvicto. – Quando ele melhorar, nós vamos conversar.

– É isso aí, agora vamos voltar antes que o Siwon chegue.

– Como assim?

– Ele está hospedado lá em casa. Eu não te contei antes porque você ia querer voltar correndo e você precisava respirar, Changmin. – Afirmou Hyukjae.

– E se ele já voltou?

– Então a essa hora o Donghae está segurando o Kyu pra ele não jogar nada no Siwon. – Disse Hyukjae, rindo discreto antes de pegar Choco em seu colo. – Vamos voltar.

Changmin sorriu discreto, sentindo seu peito menos pesado com o rumo que sua conversa tomara com Hyuk e assim, eles voltaram para a casa. Assim que adentraram a casa, encontraram Kyu sentado à mesa com uma xícara fumegante de chá de boldo em suas mãos. Para Changmin, Donghae escolheu camomila na tentativa de acalmar o rapaz. Eles se sentaram a mesa e os dois, silenciosos saborearam o que o mais velho havia preparado.

Changmin terminou a noite satisfeito por seu namorado ter insistido naquela visita, no entanto ele desejava ir logo para casa e descansar. Eles não se demoraram no chá, pois não queriam esbarrar em Siwon mais uma vez aquela noite e o chá de Hae logo fez efeito, deixando os dois rapazes um tanto sonolentos. Eles agradeceram aos dois mais velhos e foram guiados em direção à saída da casa.

Ambos ainda acenaram aos rapazes antes de saírem dali, sem perceber que logo atrás deles o taxi de Siwon estacionou, deixando o professor ali. O casal seguiu para o apartamento de Kyuhyun, uma vez que este era mais próximo à casa de Donghae, e eles passaram o caminho todo silenciosos, absortos em seus próprios pensamentos e angústias. Assim, mais uma vez na noite um silêncio pesado e sufocante se fez presente entre os dois rapazes, que não sabiam mais como se livrar dele.

Logo que Kyuhyun entrou em seu apartamento, jogou-se em seu sofá, suspirando pesadamente. Changmin assim percebeu que deveria dar algum carinho para seu namorado, para que este se sentisse melhor. Ele sentou-se ao lado de Kyu que o fitou desanimado e deixou-o envolver seus ombros para por fim recostar a cabeça contra seu namorado. O mais alto beijou seu rosto demoradamente, e acariciou seus cabelos com a ponta dos dedos, o sentindo aos poucos relaxar em seus braços. O silêncio continuava entre eles, mas o contato corporal já os consolava. Quando começou a se sentir sonolento, Changmin cortou o silêncio

– Eu vou tomar um banho, meu príncipe e depois vou arrumar a nossa cama. – Avisou Changmin. – Como está se sentindo? Enjoado?

– Cansado, com dor de cabeça, e mais umas coisinhas. – Disse Kyuhyun escondendo o rosto contra o peito de seu namorado. – Vai tomar um banho pra descansar, Changminie, eu vou ficar um pouquinho aqui e depois vou pra cama.

– Vai demorar?

– Não. Eu só preciso de um pouquinho de silêncio. – Pediu Kyuhyun apertando o abraço do rapaz, antes de se afastar e fita-lo.

– A porta do banheiro vai ficar aberta, se precisar é só me chamar.

– Eu te amo, Changmin. Eu te amo muito.

– Eu também te amo, príncipe.

Changmin sorriu discreto e roubou um selar dos lábios de seu namorado antes de soltar seu abraço e deixa-lo. Kyu demorou seu olhar em seu namorado, guardando em sua mente cada um dos trejeitos que o rapaz carregava consigo. Logo ele se uniria ao outro e embaixo dos cobertores devolveria todo o carinho que o mesmo possuía consigo. No entanto, ele necessitava de alguns instantes sozinho, tendo como companhia apenas o barulho gritante de seus pensamentos confusos.

Quando ouviu o chuveiro sendo ligado, Kyuhyun se levantou e de sua estante ele retirou sua antiga boneca e o último e-mail de Siwon, sentando-se no tapete de sua casa e se livrando seus sapatos sociais muito bem lustrados. Ele repousou a boneca em seu colo, e a fitou demoradamente, deixando seu olhar passear pelos traços delicados do brinquedo que ele tanto apreciava. Logo seus olhos recaíram sobre a folha e absorveram as linhas destinadas a si, deixando a frustração aumentar em seu peito.

Ele pensava em Changmin, ao mesmo tempo que tentava descobrir por que não perdoara Siwon mesmo depois de tantos anos. Sua mente tentava responder tantas dúvidas ao mesmo tempo que ele continuava a se sentir tonto, e brevemente nauseado, como se tivesse passado tempo demais dentro de um barco. Siwon fora gentil consigo, tão gentil quanto era quando eles estavam juntos, fora compreensivo e ele ainda assim, só conseguia sentir rancor e uma repulsa pelo mais velho, além do terrível medo.

Aquele medo que deixava os pelos de sua nuca arrepiados, como quando se olha por uma janela escura e se espera que uma figura horrenda apareça por trás do vidro transparente. O medo de perceber que seus sentimentos começaram a rotacionar em marcha ré e ele aos poucos voltava a se sentir como aquele adolescente dedicado e com seus olhos voltados para Siwon. O medo de fazer brotar lágrimas nos olhos de Changmin, aquele a quem tanto amava e ser incapaz de enxuga-las sem machucar seu coração.

Com tais pensamentos confusos, Kyu cedeu ao cansaço e adormeceu no tapete, com o corpo recostado ao sofá. Changmin cansou de esperar em seu quarto, sentado na cama e tratou de checar seu namorado. Ele o encontrou adormecido com sua boneca ao lado e o e-mail sobre a mesinha, e mais uma vez sentiu o ciúme inflamar seu peito. Mais uma vez naquele dia ele o engoliu, como café frio e amargo. Ele guardou os pertences de seu namorado e o chacoalhou até que este despertasse. A primeira coisa que Kyu viu foi o olhar chateado de seu namorado, por mais que este sorrisse enquanto o chamava para deitar-se consigo.

Eles deram as mãos e seguiram para o quarto, para finalmente envolverem-se em seus cobertores. Ambos estavam cansados e sabiam que teriam um dia difícil na manhã seguinte. Eles se entreolharam, selaram seus lábios e dormiram abraçados, as mãos de Changmin apertando a cintura de seu namorado que por sua vez agarrou-se ao tecido de seu pijama o amassando, em uma tentativa infantil de impedir que ele fugisse de si.

Esta era a primeira tentativa de afundar suas inseguranças em acido para que esta se dissolvesse e os deixasse em paz. Foi a primeira tentativa de deixar suas mentes confusas fora daquele quarto, longe de seus corações que batiam em uníssono. A primeira vez que eles tentaram mandar seu ciúme para longe daquele amor que os dois cultivaram como uma planta, o qual eles desejavam ver prosperar e com aquele sentimento purificar suas almas e tornar o mundo a sua volta mais belo. Aquela noite foi a primeira que apenas um abraço e um beijo não acalmaram suas agonias e eles estavam fadados a sentirem medo do que seu futuro os reservava.

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