Capítulo 35 Let’s talk about it

 

A primeira semana de aula se arrastou, lenta como se puxasse consigo o peso do resto do ano letivo que ainda estava por vir. Assim como Hyukjae e Donghae previram, os efeitos de se encontrarem diariamente com Siwon aos poucos ia passando no casal, apesar deles ainda se manterem frios com boa parte das pessoas à sua volta enquanto tentavam se acostumar a nova situação. Eles precisavam de algo que os animasse, algo que não se resumisse ao professor e a sua volta para Seul.

Na segunda sexta-feira de fevereiro, pouco antes das seis da tarde, Changmin teve a notícia que tanto esperava. Ele fora aprovado no processo seletivo da empresa, e finalmente conseguira seu tão almejado emprego. Kyu andava tão distante que por alguns dias, que ele não relembrou sua vontade de morar com o rapaz, e aquele emprego era do que ele precisava. Era seu impulso para que se lembrasse que seu relacionamento não havia terminado, e que Siwon não tinha a menor chance contra sua vontade de fazer Kyuhyun seu companheiro.

Changmin seguiu para a faculdade sem pressa alguma, afinal aquele era o dia que Siwon dava para que os alunos fizessem seus trabalhos, e depois fossem para a aula dele. Para aquele dia, eles tinham a primeira entrega de trabalho, e cada aluno ou dupla tinha um horário marcado com o professor para orientação, o que não durava mais do que quinze minutos, para que o resto de sua noite ficasse livre. Changmin e Kyuhyun pegaram o último horário, assim combinaram de passar a noite na biblioteca antes de terem com o professor.

Changmin saiu da empresa já devidamente contratado e seu trabalho teria início na segunda-feira.  Ele mal via a hora de encontrar com seu namorado para conta-lo a novidade, deixando para fazê-lo pessoalmente. Claro que o trânsito do horário de pico minou parte de seu bom-humor, mas ele se viu satisfeito quando chegou à faculdade. Logo que estacionou o carro seu namorado o avisou, por meio de uma mensagem em seu celular, que o esperava na biblioteca para que revisassem seu trabalho antes de entregarem para Siwon.

Antes de entrar na biblioteca, Changmin foi parado por uma estudante que estava vendendo Kkultarae caseiro para complementar sua renda. Changmin bem sabia que não poderia levar seu namorado para jantar fora aquela noite, já que provavelmente estariam ocupados com suas leituras para a monografia, assim, ele comprou logo uma caixa daqueles doces para dividir com o rapaz. A caloura o agradeceu várias vezes antes de se afastar, e Changmin tratou de se apressar para não impacientar seu namorado.

Quando chegou ao último andar da biblioteca, carregando consigo apenas seu notebook e a caixa de doces, ele saiu entre as cabines a procura de seu namorado, por mais que imaginasse onde este se encontrava. Ele visualizou Kyuhyun na mesma cabine de estudos que eles costumavam dividir dois anos antes, para que o rapaz ensinasse-lhe cálculo. Changmin se permitiu ficar, apenas observando o rapaz que estava concentrado demais para perceber sua presença do lado de fora.

Kyu segurava com uma das mãos um copo de isopor que aparentava conter café, o qual ele levava aos lábios vez ou outra. Seu olhar estava fixo em seu próprio notebook à sua frente, que mostrava em sua tela o trabalho dos dois rapazes, o qual Kyu revisava em busca de erros. Era um trabalho relativamente simples, se comparado ao que viria para o resto do ano. Eles deveriam formalizar quem eram as pessoas que fariam a monografia e deveriam manter os grupos pelo resto do ano. Assim, a primeira informação daquele trabalho, eram os integrantes da equipe.

Na segunda parte, eles deveriam definir um tema para sua monografia, o que fora a parte de maior dificuldade de Changmin e Kyuhyun. Pois o que eles gostavam, parecia inviável e o que parecia viável, pouco interessava aos dois rapazes. Eles demoraram a chegar a uma conclusão que agradasse a ambos, e no final acabaram fazendo duas versões do trabalho para que Siwon dissesse-lhes qual, em sua opinião, era o mais adequado para aquele ano. Na terceira parte, eles deveriam esboçar os principais autores que falassem do assunto escolhido e por fim, fazer um esboço do sumário da monografia.

Tratar sobre dois assuntos, dera aos rapazes o dobro de trabalho, no entanto, eles conseguiram terminar aquilo com antecedência, apesar de ter-lhes tomado o final de semana todo. Claro que de primeira os dois desejavam entregar um trabalho perfeito, para não darem motivos para Siwon chamar-lhes a atenção. Aquilo se tornara algo pessoal para os dois, não dar motivos para serem incomodados pelo exigente professor.

Finalmente, Changmin bateu na porta e seu namorado ergueu o olhar e sorriu discreto para que ele entrasse. Kyu bebeu o último gole do café antes que esfriasse e fitou seu namorado deixar o computador sobre a mesa e se ajeitar ao seu lado, envolvendo seus ombros com o braço, e fitar a tela para ler pela última vez o que eles haviam escrito. Changmin sorriu com o canto dos lábios e selou o rosto de seu amado antes de dizer baixinho:

– Tenho uma boa notícia, príncipe.

– O que é? – Disse Kyu desviando o olhar do computador.

– Eu consegui o emprego.

– Jura? – Disse Kyuhyun arregalando os olhos e abrindo um largo sorriso antes de agarrar seu namorado pelos ombros. – Eu sabia que você ia conseguir, meu Changminie!

– Eu assinei o contrato hoje. – Disse Changmin se afastando e roubando um selar dos lábios de seu namorado. – O salário não é ruim, eu já poderei me virar sozinho.

– Não devolva a mesada do seu pai ainda, guarde para um fundo de emergências até você se estabilizar na empresa. – Aconselhou Kyuhyun. – Eu queria comemorar, mas estou tão cansado.

– Ah, mas eu como eu sou muito esperto, trouxe Kkultarae pra gente comemorar. Uma caloura estava vendendo.

– Eu quero! – Disse Kyuhyun animado pela primeira vez desde a volta de Siwon. – O seu emprego, quer dizer que…

– Que nós vamos conseguir o que queríamos, um apartamento só para nós dois.

– Vamos terminar isso logo e ir comer, assim poderemos conversar em paz.

Changmin concordou prontamente com seu namorado e tratou de terminar seu trabalho. Depois de algumas leituras e correções, eles imprimiram o necessário e trataram de deixar a biblioteca. Eles ainda tinham tempo, mas não desejavam se atrasar, então seguiram para o local onde estudavam e se ajeitaram no chão do corredor próximo à sua sala de aula. No caminho, andaram de mãos dadas, pouco se importando com os olhares tortos que desviavam para eles.

Changmin queria Kyu em seus braços, mas o rapaz temeroso por chamar muito a atenção sentou-se ao seu lado e segurou sua mão. A caixa de doces estava sobre o colo de Changmin e um a um eles o saborearam, elogiando os dotes culinários da pessoa que fez aquelas delícias. Kyu riu-se quando viu o rosto de seu namorado coberto de açúcar e tratou de ajuda-lo a limpar, por mais que mais que logo sua face fosse começar a ficar tão grudenta quanto seus dedos. Quando saboreava o último doce, Kyu voltou ao assunto começado na biblioteca.

– Eu estive pensando, Changminie, vai ser impossível procurarmos um apartamento para nós dois se não teremos tempo para nada. – Afirmou Kyuhyun. – Por mim, eu me mudaria com você o quanto antes, e eu meio que já passo a maior parte do meu tempo no seu apartamento, mas não conseguiremos achar um lugar para morar se não procurarmos com calma.

– Kyunie, por que você não fica definitivamente lá em casa? O Jae disse que não se importa, ele passa a maior parte do tempo no apartamento do Yunho-hyung mesmo.

– Eu não queria me livrar do meu apartamento ainda, Changminie e você também gosta de ficar lá as vezes. – Afirmou Kyu, deitando sua cabeça no ombro de seu namorado. – Vamos deixar como está, eu na sua casa e as vezes na minha e no meio do ano nós decidimos para onde vamos.

– Está bem. Aliás, Kyunie, ontem os inquilinos lá do seu outro apartamento ligaram, eles conseguiram falar com você?

– Ah, eu já estava me esquecendo. – Kyuhyun suspirou pesadamente. – O contrato está vencendo e eles não vão renovar, porque vão se mudar para outra cidade. E também, o professor Siwon ainda não falou nada, mas querendo ou não foi ele quem pagou por aquele apartamento e talvez queira ele de volta.

– Acha que ele vai te pedir?

– Eu falei com o Hae hoje e ele me garantiu que não, mas se ele quiser, eu não vou negar. – Afirmou Kyuhyun. – Os inquilinos estão indo embora, seria uma boa oportunidade, se ele quiser.

– Espero que não peça. – Disse Changmin, amargurado. – De qualquer maneira, nós acharemos um lugar para nós.

– Podia ser no mesmo bairro do Hae-hyung né? Eu gosto de lá. – Disse Kyuhyun com ar sonhador.

– Poderíamos perguntar para eles se não sabem de um lugar para vender, ou alugar. – Afirmou Changmin.

– Ah, não, Changminie, alugar não vale a pena. – Afirmou Kyuhyun. – Devemos ter o nosso próprio apartamento.

– Se o meu príncipe quer assim. – Disse Changmin acariciando os cabelos do rapaz, e selando sua testa demoradamente. – A princípio vamos ficar felizes porque o emprego é meu.

– Agora o meu Changminie faz parte da classe dos trabalhadores. – Riu-se Kyuhyun.

– Depois dessa vou ter que levar uma marmita para o trabalho amanhã! – Brincou Changmin, apertando a cintura de seu namorado. – Fazia tempo que eu não te via feliz assim.

– Você sabe por quê. – Afirmou Kyuhyun, acariciando os cabelos de seu namorado. – Vamos, nós temos que ir para a sala, não quero me atrasar.

– Eu não posso me enterrar em uma caverna com você e deixar tudo para trás? – Indagou Changmin apertando seu namorado pela cintura.

– Você pode me guardar no seu coração, onde ninguém pode me machucar. – Afirmou Kyuhyun, fitando seu namorado sorrir. – Vamos.

Os dois se levantaram e ainda tiveram tempo de jogar a caixa vazia no lixo e lavar as mãos e o rosto para se livrarem dos vestígios do doce que comeram. Finalmente eles seguiram para a sala de aula e assim que pararam à porta, um de seus colegas a abriu repentinamente, saindo da sala com ar irritadiço, seguido por sua dupla que aparentava estar decepcionada. Changmin espiou para dentro da sala e visualizou Siwon de olhos fechados massageando as têmporas.

O professor então desviou o olhar para a porta e logo que viu seus dois alunos parados ali, os chamou com um sinal, guardando em sua pasta mais uma das fracas e mal feitas propostas de monografia, em sua opinião. Changmin segurou a mão de seu namorado e lado a lado eles seguiram até a mesa do professor, sentando-se nas cadeiras já ali posicionadas. Changmin ficou em um lado da mesa, e Kyu tomou o posto de frente para Siwon, que sorriu discreto para os dois rapazes que tinham feições desgostosas.

– Boa noite casal. – Disse Siwon, sorrindo-lhes. – O que trouxeram para mim?

– N-nós ficamos em dúvida quanto ao tema, por isso fizemos dois. – Disse Kyuhyun, sentindo-se bobo por ter gaguejado no início da frase. Finalmente ele entregou os papéis e voltou a falar. – Queríamos a sua ajuda para escolher.

– Por que não me mandaram um e-mail me perguntando isso ao invés de terem todo este trabalho? Pesquisaram biografia para os dois, não precisava de tanto. – Afirmou Siwon, deixando os dois incomodados.

– Nós não queríamos te incomodar. – Afirmou Changmin.

– Se eu dei o e-mail é porque não me incomodo. – Disse Siwon sem desviar o olhar para os dois rapazes. – Então, qual o problema em escolher uma das duas? As duas propostas são boas, vocês escolheram autores clássicos, não tem nada de errado com nenhuma delas.

– E é por isso que nós queremos que você desempate. – Argumentou Kyuhyun, desviando o olhar, quando os olhos do professor recaíram sobre si.

– Querem que eu escolha o tema, por vocês?

– Nós queremos fazer os dois! – Afirmou Kyuhyun. – Os dois são bons, são viáveis, relativamente fáceis, não há nada de errado nelas, tirando o fato de que não teremos tempo pra isso.

– Por que não fazem separados? Assim, cada um faz uma.

-Não. – Disseram Changmin e Kyuhyun em uníssono.

– Teimosos. – Reclamou Siwon. – Nesse caso, façam sobre a variação da bolsa do pós-guerra, vão encontrar literatura mais aprofundada, mas este da crise econômica imobiliária pode dar um bom artigo, não descartem isso ainda.

– Um artigo? – Indagou Kyuhyun, fitando a proposta que o professor o devolvera, mantendo a outra para si.

– Sim, um artigo científico. – Afirmou Siwon. – A estrutura é bem parecida com a da monografia, mas de forma mais resumida, e é claro, com uma conclusão mais crítica do que o trabalho acadêmico.

– Daqueles publicados em revistas científicas ou em livros? – Indagou Changmin.

– Estes mesmo. – Afirmou Siwon, sorrindo pela primeira vez para Changmin, que não o retribuiu. – Agora, eu preciso perguntar, vocês tem alguma dúvida?

– Por enquanto, eu acho que não. – Disse Kyuhyun. – Então temos o seu aval? Podemos começar a escrever o trabalho?

– Podem. – Afirmou Siwon, satisfeito ao perceber que pelo menos eles estariam adiantados. – Tem uma coisa que eu quero que vocês percebam, eu sei que nós temos as nossas pendências pessoais, mas antes de mais nada, eu sou o professor de vocês. Essa é a primeira monografia que vocês fazem e não sejam prepotentes a ponto de acreditar que podem fazer ela sozinhos. As dúvidas vão aparecer e se vocês ficarem com achismos por medo de me procurar, não vão ter uma boa nota na banca e eu presumo que é isso o que vocês querem.

Kyuhyun e Changmin assentiram silenciosamente.

– Ótimo. Já podemos passar para o próximo assunto. – Kyuhyun e Changmin se entreolharam desconfiados. – Eu comentei no primeiro dia de aula que eu coordeno um grupo de matemática avançada, e estou convidando os alunos da sua sala para participar. Se vocês tiverem interesse, é aos sábados pela manhã.

– O que vocês fazem nesse grupo? – Indagou Kyuhyun.

– Ele tem que ser bem abrangente, Kyunie, vai de reforço de matemática a orientação de artigo, depende do que os alunos estão precisando. – Explicou Siwon. – Eu duvido que você precise de orientação de matemática, mas se quiser escrever este artigo, eu posso te ensinar como.

– Você não vai ter tempo de escrever um artigo, meu príncipe, vai ficar muito corrido. – Argumentou Changmin.

– Eu já vi pessoas fazerem milagres com o tempo livre delas. – Afirmou Siwon, sem fitar Changmin. – Sem essa pressão dos prazos, escrever um artigo acaba sendo relativamente mais fácil. Ele pode começar essa semana e terminar daqui cinco ou dez anos e depois publicar.

– Publicar? – Indagou Kyuhyun e tanto Siwon quanto Changmin perceberam o brilho no olhar do rapaz.

– Claro, escrever um artigo para ficar na gaveta não vale a pena. – Afirmou Siwon. – Se precisar de orientação, estarei a sua disposição. Tem um último assunto que eu queria tratar com você, Kyu, mas este é de âmbito mais particular. Não se preocupe, Changmin, não vou pedir que você se retire.

– Do que se trata? – Indagou Kyuhyun, vendo de soslaio seu namorado revirar os olhos.

– Do apartamento onde nós morávamos. – Kyuhyun se remexeu incomodado na cadeira, enquanto Siwon apoiava os cotovelos sobre sua mesa. – O Hae me disse que os inquilinos não vão renovar o contrato com você.

– Você quer ele de volta? – Indagou Kyuhyun sem disfarçar sua insegurança.

– Não, claro que não. – Disse Siwon, rindo discreto do comentário do rapaz. – Acha mesmo que eu seria capaz de pedir para mim um presente que eu te dei? É seu, Kyuhyun, eu não quero de volta.

– Não? – Indagou Kyuhyun, suspirando pesadamente em alívio quando o mais velho negou com a cabeça.

– Quero que alugue pra mim.

Changmin e Kyuhyun se entreolharam incrédulos. Em suas mentes aquilo não fazia o menor sentido, uma vez que o próprio Siwon pagara pelo apartamento, e não deveria ter que pagar novamente para usufruí-lo.

– Siwon, isso não faz o menor sentido! – Exclamou Kyuhyun. – Você pagou pelo apartamento, se quer ele de volta…

– Eu quero que alugue ele para mim. – Afirmou Siwon novamente, interrompendo o raciocínio do rapaz. – Deixe-me explicar os meus motivos.

– Por favor. – Afirmou Changmin pouco gostando daquela proposta.

– Eu não tenho tempo de procurar um apartamento novo para mim e não pretendo comprar um, já que não sei por quanto tempo vou permanecer aqui, por mais que a minha vontade seja de ficar o resto da minha vida. Eu não tenho tempo de procurar um lugar, tampouco quero passar muito tempo na casa do Hae e do Hyuk.

– Eles ficariam chateados se te ouvissem falando assim. – Criticou Kyuhyun.

– Acha que eu não sei? Não é que eu não goste da casa deles, é até mais cômodo para mim, chegar em casa e sempre ter um prato de comida me esperando, uma cama já arrumada, tudo lá é ótimo. No entanto, você vai ter que concordar comigo que visitas por muito tempo incomodam, e eles são um casal, não quero tirar a privacidade deles.

– É verdade. – Disse Kyuhyun corando ao perceber que saíra da casa dos dois rapazes pelos mesmos motivos.

– E então? Qual o problema? Eu quero um lugar pra morar e você tem um apartamento pra alugar, oferta e demanda. A menos que tenha intenções de voltar a morar lá.

– Nem morto! – Exclamou Kyuhyun ao mesmo tempo em que a voz de seu namorado se fazia presente com um sonoro “De jeito nenhum!”.

– Assim você me ofende, Kyunie. – Disse Siwon sem disfarçar seu desapontamento.

– Desculpe. – Disse Kyuhyun corando violentamente. – Você deve entender que…

Sua frase ficou solta, sem finalização, uma vez que ele não conseguiu encontrar as palavras adequadas que coubessem seus sentimentos que ele carregava consigo por anos e estavam cicatrizados em seu coração. Frustrado ele apenas negou com a cabeça e baixou o olhar, suspirando pesadamente.

– Tudo bem, Kyunie, eu entendo. – Afirmou Siwon começando a guardar suas coisas em uma grande pasta. – Se não quer alugar, tudo bem, eu compreendo, só achei que…

– Tudo bem, eu alugo o apartamento pra você. – Afirmou Kyuhyun. – Ainda vai demorar um pouco até que eles desocupem o apartamento e eu preciso inspecionar para ver se está tudo certo, se você quiser ir e dar uma olhada no lugar, não está exatamente como era antes.

– Ótimo! – Disse Siwon abrindo seu melhor sorriso. – Me procure quando eles deixarem o apartamento. E os móveis, ficaram com você?

– Alguns. – Disse Kyuhyun corando brevemente. – A poltrona, a geladeira e a estante do escritório estão comigo, o resto está no apartamento.

– Não deve ter mudado tanto assim desde que eu fui embora então. – Concluiu Siwon. – Obrigado, meu garoto, você não sabe o favor que estará me fazendo.

– Agora que está todo mundo feliz, podemos ir pra casa, príncipe? – Indagou Changmin, impaciente.

– Acho que sim. – Disse Kyuhyun olhando de um para outro.

– Claro, eu já tomei muito o tempo de vocês. – Disse Siwon com ar bem-humorado. – Não demorem a começar a monografia. Como o planejamento de vocês está bom, estão liberados da próxima sexta-feira para poderem começar a sua pesquisa.

– Está só bom? – Indagou Kyuhyun, sorrindo divertido.

– Está ótimo. – Disse Siwon, recebendo pela primeira vez um olhar satisfeito de Kyuhyun e fitando de canto, Changmin se levantar. – Bom descanso, casal.

Ambos se despediram do professor e saíram porta afora um tanto confusos com o que acontecera na sala de aula. Kyuhyun acreditava que Siwon tinha intenções por trás daquele pedido, mas não conseguia entender o interesse do rapaz em seu antigo apartamento, além das razões práticas pelas quais ele pedira aquilo ao rapaz. Kyuhyun pegou a mão de Changmin e logo percebeu que este tinha a palma suada.

Changmin já não estava tão bem humorado com a facilidade que Siwon e Kyuhyun possuíam de uma aproximação mais íntima. Kyu já não estava irritado com o professor, apesar de ainda demonstrar sua insegurança diante deste. Changmin percebeu que na sutileza de Siwon, ele conseguiu com que Kyuhyun se sentisse mais a vontade diante de si, e ao final até arrancou alguns sorrisos discretos do rapaz. Sorrisos que na opinião de Changmin, pertenciam somente a ele.

Ao perceber que seu namorado estava irritadiço, Kyuhyun segurou a mão do outro com mais firmeza e a levou aos seus lábios, selando sua pele demoradamente, deixando um barulho estalado no ar. Changmin suspirou pesadamente e soltou a mão do outro para poder abraça-lo pela cintura, com firmeza, amassando o tecido de sua camisa entre os dedos como se o impedisse de sair correndo dali. Era mais do que claro, ele estava enciumado. Os dois atravessaram o campus até onde o carro de Changmin estava estacionado, ambos silenciosos.

Ambos entraram no carro e viram ao longe alguns relâmpagos que indicavam uma tempestade se aproximando da cidade, mas nenhum deles se importou com o prenuncio de chuva, uma vez que desejavam chegar em casa e finalmente descansar. Logo que adentrou o carro, Changmin colocou o cinto de segurança e suspirou pesadamente, girando a cabeça e sentindo seu pescoço tenso doer com os movimentos. Finalmente ele cortou o silêncio, dando partida no carro:

– Precisamos conversar.

– Sobre o que, Changminie?

– Sobre ele. – Disse Changmin dando uma entonação mais grave à última palavra.

– Tudo bem, meu Changminie.

Kyuhyun esticou o corpo e beijou o rosto de seu namorado antes de se ajeitar em seu assento e colocar o cinto de segurança. A chuva começou fraca, trazendo consigo uma brisa gelada que deixou os dedos das mãos de Changmin ainda mais gelados quando adentrou a fresta da janela do carro aberta. Kyu fitou seu namorado ao longo do caminho e sua feição estava endurecida, o rapaz parecia estar pronto para entrar em uma discussão, exatamente o que Kyu desejava evitar.

Se Kyu não tivesse agarrado a mão de Changmin logo que eles saíram do carro, talvez o rapaz sequer tivesse feito alguma menção de segurá-la.  Eles seguiram prédio adentro, enquanto Kyu buscava sentimentos oprimidos no olhar de seu namorado que não dirigiu a palavra a si ao longo do trajeto ao seu apartamento. A única coisa que ele conseguiu reconhecer, encoberto pela irritação, foi o ciúme que pulsava em suas veias, se misturando ao seu sangue e alimentando sua alma.

Eles adentraram o apartamento e encontraram Jaejoong de saída, carregando consigo um pijama e material de higiene pessoal. O rapaz percebeu o clima estranho entre o casal e por isso mesmo achou por bem deixa-los a sós. Na manhã seguinte, a primeira visita que eles teriam eram Yunho e Jaejoong que amanheceriam preocupados com ambos. Kyuhyun deixou sua pasta no quarto, juntamente com Changmin que depois de retirar a gravata e abrir os três primeiros botões de sua camisa, voltou para a cozinha, para beliscar algo que não o deixasse sentir fome mais tarde, já que seu apetite para jantar fora minado.

Kyu chegou logo atrás, com sua camisa agora por fora da calça e já sem sapatos o rapaz adentrou o cômodo e se aproximou de seu frio namorado. Nem de longe ele parecia o homem que o enchera de beijos sentado no corredor da faculdade. Kyuhyun se aproximou e repousou a mão sobre o tórax de seu namorado o massageando enquanto o rapaz calmamente mordia aquela maçã crocante e vermelha.

– Quer jantar, Changminie?

– Não, Kyunie, eu não estou com fome.

– Quer ir lá na sala conversar um pouquinho?

– Acho que esta seria uma boa ideia, uma ideia melhor do que tentar escrever um artigo em pleno ano de monografia.

A voz de Changmin saiu ácida e ele deixou a cozinha, esperando ser seguido por Kyuhyun. O menor pegou uma maçã para si e tratou de segui-lo, a passos lentos, tentando manter a serenidade. Ele sabia que Changmin não teria nada contra seu artigo caso ele fosse orientado por qualquer outro professor que não fosse Siwon. O rapaz sempre o apoiara em todos os seus projetos, mas sabia que o ciúme deixaria algumas coisas diferentes. Ele se sentou em uma poltrona separada, enquanto Changmin acomodou-se no sofá já sem sapatos.

– O que está acontecendo, Kyuhyun?

– Como assim, Changminie?

– O que está acontecendo com você? Desde que ele chegou, nós não conversamos direito, não fazemos sexo e você prefere ficar sozinho. Se você quer o seu espaço, tudo bem, mas…

– Mas?

– Olhar pra ele daquela maneira é inadmissível. – Disse Changmin, rancoroso. – Será que você não percebe que ele quer passar mais tempo com você? Que quer a sua companhia e sabe-se lá mais o que?

– E se ele quiser, e daí?

– E daí?? – Indagou Changmin indignado. – Acha mesmo que você pode fazer companhia ao Siwon e tudo vai continuar bem entre nós? Eu não vou fazer o papel de trouxa que te espera em casa para o almoço enquanto você passa a porra do sábado com aquele professorzinho de merda!

– Changmin, eu entendo…

– Entende? – Disse Changmin se levantando do sofá. – Eu nunca nem tive uma namorada pra você dizer que me entende, você não tem motivo algum para ter ciúmes de mim! Eu não tenho um passado como você! Você é a única pessoa que eu amei e eu duvido ser capaz de amar outra! Resta saber se você me ama também, ou se ainda considera o Siwon o seu marido!

– Duvida que eu te amo? – Indagou Kyuhyun se levantando da poltrona e encarando o mais alto. – Acha que eu considero o Siwon o homem da minha vida enquanto é você que dorme na mesma cama comigo? Que tipo de babaca você acha que eu sou? Ao contrário de você, Changmin, as pessoas nunca foram descartáveis para mim e eu não sou homem de brincar com os sentimentos de ninguém!

– Então por que deixa ele se aproximar de você? Quem está tentando manipular? Eu ou ele?

– Nenhum dos dois! Ele faz parte do meu passado, Changmin e você me ensinou que ele tem que permanecer lá para que eu possa continuar vivendo!

– Então por que está tão abalado com a volta dele? Ele voltou e daí?

– Ele era o meu homem, Changmin! Ele era o meu marido, eu vivia por ele, pra ele, era tudo o que eu tinha! Ele deveria ter ficado comigo, tinha tudo pra dar certo, mas ele não quis, ele me abandonou! Você nunca foi abandonado, por que está me julgando?

– Quer voltar ao passado? Volte então! Me abandone e se vingue do que ele fez com você! Eu não consigo lidar com isso, não consigo lidar com ele!

– Pare de dizer essas coisas! – Disse Kyuhyun agarrando o rapaz pelo colarinho. – Olha pra mim, seu cretino! Acha que a minha história com você vai acabar assim? Porque você não sabe lidar com o Siwon? Porque eu não sei lidar com ele? Não vai, Changmin!

– Eu odeio o modo como ele olha pra você, como ele te chama de “Kyunie”, de “garoto”. Você não é mais namorado dele, não pertence mais a ele, você é meu!

– E você é meu. – Disse Kyuhyun acalmando sua voz. – Só meu, Changminie e eu sou só seu. Não importa quantas vezes ele sorria pra mim, quantos apelidos do passado ele use, não importa se ele vai morar novamente onde nós construímos a nossa vida juntos. Eu ainda sou só seu, o seu príncipe.

– Eu odeio ele. – Concluiu Changmin agarrando seu namorado pela cintura e escondendo o rosto em seu ombro, ainda ofegante. – Eu odeio tanto aquele homem, por ter te abandonado, por ter te feito chorar, e por ter te deixado livre para mim, para depois voltar acreditando ter todos os direitos do mundo sobre o meu namorado. Ele pode não admitir para ninguém, mas ele ainda é fascinado por você, ele ama ser seu professor, ama o seu intelecto, a sua dedicação. E ele ainda acha que eu não estou a altura de alguém como você, as vezes, nem eu acho.

– Pare de besteira, Changmin, quem decide quem está a altura pra namorar comigo ou não sou eu, não o Siwon. – Afirmou Kyuhyun o envolvendo pelos ombros e acariciando seus cabelos. – Eu amo você, Changminie, mas acho que você ainda não percebeu o quanto. Não percebeu que eu não trocaria você nem por uma máquina do tempo para poder voltar e ficar com o Siwon. Eu estou assustado, sim, mas não quero ele. No momento, ele é só o meu professor, um bom professor e você é o meu namorado.

– Me desculpe, eu fiquei irritado. – Disse Changmin afastando o rosto do outro para fita-lo e finalmente voltou a falar, sussurrado. – Não gostei da intimidade que ele conseguiu com você hoje, não tem problema se você quer escrever aquele artigo, eu sei que você gosta desse trabalho de pesquisa, só não quero ter que dividir ainda mais o seu tempo com a faculdade.

– Não vamos falar desse artigo ainda, eu nem sei se vou fazer ele.

– Mas você quer fazer, quer ter um artigo publicado e o único que estaria disposto a te ensinar é o Siwon. – Concluiu Changmin. – E eu não quero o Siwon perto de você.

– Ele não vai ficar perto demais, eu prometo. – Afirmou Kyuhyun, roçando a ponta do nariz no rosto do outro, aproveitando-se de seu aroma. – Se sente melhor depois de desabafar?

– Um pouco. – Disse Changmin apertando a cintura de seu namorado. – De repente se eu batesse nele, eu me sentiria ainda melhor.

– Não seja malvado. – Disse Kyuhyun, sorrindo discreto. – Não reclame dos sorrisos que eu dou para o Siwon, Changminie, porque é do seu lado que eu acordo e é ao seu lado que eu vou dormir. É você que eu amo.

– Eu estou cansado, Kyunie, com sono e desejando não largar você nunca mais. – Afirmou Changmin roubando um selar de seus lábios.

– Toma um banho comigo, e depois nós vamos dormir juntinhos, sem ninguém pra incomodar. Esqueça o Siwon, ao menos no final de semana e eu prometo tentar fazer o mesmo.

– Vou tentar.

Kyuhyun agarrou a mão de seu namorado e o guiou em direção ao banheiro. O banho juntos não demorou mais do que o necessário para que os dois pudessem relaxar e curtir a presença um do outro. O pedido de desculpas não veio em palavras, mas sim nos beijos que eles trocaram, intensamente apaixonados. Há algum tempo eles não se permitiam namorar como naquele momento, simplesmente trocar beijos saborosos, embaixo de um chuveiro quente.

Kyu o deixou abraça-lo pelas costas, sentindo a pele macia de Changmin recostar-se a sua para por fim deixar um beijo em seu pescoço, antes deles desligarem o chuveiro e rumarem para o quarto. A noite havia trazido consigo um clima frio, logo eles trataram de vestir pijamas e se esconderem embaixo dos edredons. Kyuhyun se deitou por cima de seu namorado e recostou a cabeça em seu peito, o deixando agarrar-se a si. Eles dormiram daquela maneira, inocentes, apaixonados e entregues um ao outro.

Changmin finalmente captara o que o conselho de Hyukjae significava. Guardar o ciúme para si envenena não somente sua alma, mas também seu relacionamento com Kyu. Também compreendeu que não somente ele estava disposto a lutar por aquele relacionamento, mas também Kyuhyun, que acima de tudo o amava. Ter o peso do rapaz sobre seu corpo deu a Changmin a segurança que ele precisava para dormir bem. Ele mal via a hora de morar com o rapaz e mostrar a todo mundo a quem Kyu pertencia.

Kyuhyun se saíra muito bem em seu discurso, mas aquela foi uma das noites que ele temeu ser abandonado por Changmin e ele bem sabia que seria difícil esquecer este medo. Ele era demasiadamente inseguro e ouvir seu namorado manda-lo ir embora e abandona-lo doera em seu peito, muito mais do que ele havia demonstrado. Ele o amava e sabia que precisava provar isso para o rapaz, antes que seu ciúme o convencesse do contrário.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s