Capítulo 37 – Mental games

 

A noite da primeira sexta-feira de abril chegou com uma ameaça de tempestade. Raios cortavam os céus de Seul e um vento típico de chuva arrancava as folhas das árvores e assoviava sombrio entre os enormes prédios da cidade. Estava claro que logo a chuva se precipitaria pela cidade, assim no fim do expediente, os trabalhadores tomaram o caminho mais rápido para suas respectivas residências.

No simpático bairro residencial, Donghae olhava pela janela de sua sala, pouco animado de sair dali para seguir seu caminho até o Candy Bar. Ele bem sabia que dependendo da intensidade da chuva era pouco provável que o bar lotasse aquele dia e assim, a noite seria entediante para uma sexta-feira. Seu companheiro, Hyukjae também parecia pouco disposto a sair no temporal para trabalhar, no entanto, eles sabiam que tinham obrigações a cumprir.

Seu hóspede, por outro lado, não poderia estar mais tranquilo. Aquele era o dia que ele dera aos seus alunos para que dessem continuidade aos seus trabalhos de pesquisa, enquanto ele, confortavelmente sentado na poltrona da sala, corrigia os capítulos que haviam sido entregues. Mais de mês havia passado e ele pouco tivera notícias sobre a desocupação de seu antigo apartamento, apenas soube por Hyukjae que os inquilinos estavam demorando mais do que deveriam para partirem.

Com um trabalho em seu colo e uma caneta vermelha nas mãos, Siwon sublinhava e rabiscava os trabalhos, indicando quais pontos deveriam ser melhorados. Ele podia sentir o vento soprar da janela por onde Donghae olhava, sentindo um frio na espinha só de imaginar as pessoas que ainda estavam na rua, na expectativa de chegarem em casa antes que a chuva começasse. Siwon sentia-se satisfeito da tempestade se formar justamente em uma sexta-feira, quando ele não possuía nenhuma necessidade de estar presente na faculdade.

Quando terminou o terceiro trabalho da noite, Siwon ergueu o olhar para Donghae que finalmente parou de brigar com a preguiça e começou a arrumar as últimas coisas antes de sair. Hyukjae tomou um último gole de café e sentou-se no sofá ao lado do professor, enquanto seu companheiro caminhava pelo quarto, arrumando-se adequadamente para que fosse trabalhar. Hyuk deixou a xícara sobre a mesa de centro, então interrompeu a leitura de Siwon que acabara de pegar mais um trabalho.

– O que está lendo?

– Os trabalhos da turma de economia. – Afirmou Siwon, erguendo o olhar para seu amigo. – Da turma do Kyu.

– E como estão?

– Fracos. – Criticou Siwon. – É a primeira prévia, então não posso cobrar muito deles.

– Já corrigiu o do Kyu e do Changmin?

– Deixei por último. Quer dar uma olhada?

– Eu não entendo de economia. – Riu-se Hyuk. – Como eles estão nas aulas?

– Nada mal. Quer dizer, o Changmin me detesta e quando não está me ignorando, está me encarando. O Kyu as vezes parece prestes a sair correndo, ou algo do gênero. De resto eles vão bem.

– O Changminie não está lidando muito bem com a sua volta. As vezes o Kyu liga para o Hae na hora do almoço na empresa dele e os dois ficam um tempão conversando. – Contou-lhe Hyuk. – Em compensação eles não nos visitam mais com tanta frequência.

– Por isso eu quero sair logo da sua casa, Hyuk-ah.

– Eu já disse que não precisa. – Ralhou Hyukjae. – Eles logo se acostumam. O Hae disse que o Kyu está tranquilo em relação a você, só não está sabendo lidar com o ciúme do Changmin.

– Ciúme? – Disse Siwon, rindo gostosamente.

– Não tem graça, Siwon! – Ralhou Hyukjae.

– Tem sim. – Disse Siwon ainda sorrindo. – Ele é inseguro demais e de inseguro já basta o Kyu em um relacionamento.

– Não julgue o rapaz! – Ralhou Hyukjae. – Quando você conhecer ele melhor, vai ver que ele é legal.

– É, quem sabe. – Disse Siwon desinteressado. – O Kyu ficou com a boneca que eu dei pra ele.

– Ele me contou que gostou do presente. – Afirmou Hyukjae.

– Está pronto, Hyuk-ah? – Indagou Donghae aparecendo na sala, colocando seu relógio no pulso.

– Estava só te esperando.

Siwon decidiu voltar para a correção de seus trabalhos assim que seus anfitriões se uniram para sair. Depois de mais um trovão, a chuva começou a gotejar nos telhados, com pingos volumosos que deixavam o barulho sobre as telhas ainda mais altos. Antes que eles pudessem se ajeitar, a campainha tocou, surpreendendo os três rapazes. Quando Donghae abriu a porta, encontrou Kyuhyun, pálido e recostado ao batente de sua porta.

Os cabelos do rapaz estavam desgrenhados em função do vento e assim que ele foi atendido à porta a chuva aumentou de intensidade e castigou a cidade de Seul, travando o trânsito e deixando as pessoas que por ali transitavam, molhadas e um tanto mal-humoradas. A gravata de Kyu estava desfeita e a pasta que ele carregava em um ombro estava mal pendurada ali, enquanto o rapaz com uma feição séria fitava Donghae demoradamente.

No entanto, o que Donghae mais reparou no rapaz foi sua mão que segurava sua lombar como se ele tentasse lidar com uma dor em sua coluna. O corpo encurvado indicava o mesmo, enquanto os dedos do rapaz apertavam aquela parte de seu corpo na tentativa de massagear o local e aliviar mesmo que momentâneamente a dor que tanto o incomodava. Ele deu alguns passos trôpegos para a frente e Donghae o segurou pela mão, deixando a preocupação crescer em seu peito. Kyu ignorou Siwon e sentou-se ao lado de Hyukjae, apoiado por um silencioso Donghae. Os três mais velhos mantiveram o silêncio até o mais novo se manifestar:

– Hyung, eu posso ficar aqui até o Changminie chegar? Não me sinto bem.

– Claro que pode, Kyunie. – Afirmou Hyukjae se voltando para o rapaz que deixou Donghae pegar sua pasta e tira-la de seus ombros. – O que está sentindo?

– Meu rim está doendo. – Afirmou Kyuhyun, apertando o local e o esfregando, enquanto fechava os olhos e suspirava pesadamente. – Está doendo há alguns dias.

– E eu posso saber por que o senhor ainda não foi ao médico? – Ralhou Donghae o ajudando a retirar seu terno e abrindo os primeiros botões de sua camisa social.

– Eu marquei para segunda-feira, ele não tem outro horário. É o mesmo médico do hospital que eu fiquei internado, eu confio nele.

– Não quer ir para o hospital? Eu e o Hae podemos levar você até lá. – Ofereceu Hyukjae.

– Não, hyung, eu tomei um remédio que o enfermeiro do meu trabalho deu, mas tenho que esperar fazer efeito. – Disse Kyuhyun deitando seu rosto o ombro de Hyuk. – Eu só quero ficar quietinho aqui até o Changminie chegar, se não for incomodar.

“Que história é essa de hospital?” – Finalmente Siwon se intrometeu na conversa, vendo Kyuhyun pela primeira vez não se importar com sua presença ali. Donghae olhou para ele de relance e seguiu para a cozinha, afirmando que iria preparar um chá para Kyuhyun e pedindo que Hyukjae explicasse o ocorrido a Siwon, que o fitava com ar analítico. Kyu vez ou outra resmungava, ou gemia, mas não parecia alguém disposto a conversar.

Hyukjae contou calmamente a Siwon uma das poucas coisas que escondera de seu amigo, pois temia preocupa-lo demais. Ele descreveu detalhadamente o que acontecera ao casal, fitando Kyuhyun começar a suar frio por conta da dor. Não era a primeira vez naquela semana que seu rim doía, e ele precisava voltar logo ao médico para saber o que acontecia com seu órgão afetado. Ouvir aquela terrível história novamente pouco o ajudou, no entanto, Siwon estava curioso e de alguma forma, Kyu conseguia entender seus motivos.

Assim que Hyuk terminou o relato, Siwon o encheu de perguntas sobre a saúde de Kyu, que foram pacientemente respondidas pelo rapaz. Ao final do relato, ele deixou seus trabalhos de lado e se ajoelhou em frente ao rapaz, ao mesmo tempo que Donghae saía da cozinha com uma bolsa térmica e uma xícara fumegante. Siwon pegou a bolsa térmica e calmamente a posicionou sobre o local onde a mão de Kyu antes repousava, o pressionando delicadamente. Kyuhyun ergueu os olhos, desconcertado e sua primeira reação foi tentar afastar o rapaz de si.

– Eu seguro! – Disse Kyuhyun, segurando o pulso do mais alto.

– Tudo bem, beba o chá que o Hae te fez. – Afirmou Siwon com firmeza, sem dar opções para que o rapaz argumentasse.

– Vocês vão para o bar né? – Indagou Kyuhyun, pegando a xícara na mão e Donghae e assoprando o vapor desta para longe.

– Vamos, mas antes de mais nada, você não quer mesmo ir ao hospital? – Afirmou Hyuk. – Eu e o Hae te levamos lá e eu fico com você até o Changminie chegar.

– Não, hyung, eu não quero voltar para o hospital. – Afirmou Kyuhyun com firmeza.

– E se eu te levasse? Você iria? – Indagou Siwon com a mesma firmeza, desviando o olhar para o rapaz. Kyuhyun apenas meneou a cabeça negativamente em resposta.

– O Changmin está vindo pra cá? – Indagou Donghae.

– Ele estava preso no trânsito. – Afirmou Kyuhyun, se remexendo incômodo quando Hyukjae se moveu para se levantar.

– E quando ele chegar? Vocês vão ao hospital, certo? – Insistiu Siwon.

– Não, eu quero ir para casa, na verdade. Eu já tomei remédio, só quero ficar aqui até ele chegar, por favor.

Donghae suspirou pesadamente com ar preocupado. Ele sabia que Changmin não se importaria se um dos três levasse seu namorado ao médico, mas até então ele estava irredutível. Eles se entreolharam, buscando um no outro uma maneira de convencer o rapaz a ir ao hospital aquela noite, mas logo que não encontraram argumentos, decidiram cuidar do mesmo na casa de Donghae. Siwon foi o primeiro a se manifestar:

– Vocês podem ir, eu fico com ele?

– O que? – Disse Kyuhyun sobressaltado.

– Eles precisam trabalhar, Kyunie. – Explicou Siwon, pacientemente. – Eu fico com você aqui até o Changmin chegar.

– Eles podem ir, mas você não precisa ficar comigo! – Disse Kyuhyun ainda com firmeza.

– Quer que eu saia, nessa chuva e deixe você aqui passando mal? Isso não faz sentido algum, Kyunie. – Disse Siwon, rindo discreto. – Vamos, você fica no quarto do Hae e do Hyuk e eu fico lá com você até o seu namorado chegar.

– Ele não vai gostar. – Disse Kyuhyun mais para si do que para o outro.

– Eu resolvo isso com ele pessoalmente. – Afirmou Siwon calmamente. – Vocês dois podem ir, qualquer problema, eu ligo pra vocês antes de qualquer coisa.

– Kyu, se importa em ficar um pouco aqui sozinho com o Siwon? – Indagou Donghae.

– Um pouco. – Confessou Kyuhyun, desviando o olhar quando o professor repousou sua mão sobre a própria. – Eu não acho que o Changminie vai demorar.

– E se ele ralhar, você se resolve com ele, Siwon! – Alertou Donghae.

– Tem certeza que essa é uma boa ideia? – Indagou Hyukjae.

– Acha que o Kyu está em condições de discutir com o Changmin? – Retrucou Donghae. – Talvez se um de nós ficasse.

– Não precisa. – Disseram Siwon e Kyuhyun em uníssono.

– Vocês dois não se decidem! – Ralhou Donghae. – Vão ficar bem aqui sozinhos?

– Acho que sim. – Disse Siwon soltando a bolsa térmica, enquanto Kyu continuava a beber de seu chá, calmamente. – Andem logo, eu cuido dele.

– Se precisar é só ligar. – Afirmou Hyukjae. – E se o Changmin ralhar muito, ligue também que eu me explico pra ele. Sexta-feira é um dia impossível de fechar o bar.

– Está tudo bem, hyung. – Afirmou Kyuhyun se convencendo do quanto estava incomodando seus amigos.

Preocupados o casal deixou a casa, dando diversos lembretes durante a sua já atrasada saída. Os dois deixaram a casa e enfrentaram a tempestade em direção ao bar, enquanto um constrangido Kyuhyun ainda bebericava seu chá. Siwon fechou a porta e ainda deixou a janela aberta para avistar a chegada de Changmin, quando ele o fizesse. Ele levou os trabalhos para o quarto de Donghae e Hyukjae, onde os organizou para que ele pudesse corrigi-los enquanto observava Kyuhyun.

Logo que ele voltou a sala, encontrou Kyuhyun deitado no sofá, encolhido, enquanto a sua maneira ele tentava lidar com a dor. A xícara de chá estava vazia no chão, enquanto o rapaz abraçava uma almofada com o rosto voltado para o encosto do sofá. Siwon podia ver as gotas de suor se formarem em suas têmporas, e por isso se aproximou a fim de checar se o mesmo estava febril. Kyuhyun reagiu veementemente quando sentiu a mão em sua testa, em função do susto, o que decepcionou Siwon.

Logo o menor se arrependeu de sua reação, mas não se desculpou com o rapaz. Ele apenas segurou seu pulso e o posicionou na própria testa, dizendo em tom baixo para que somente ele o escutasse “Não estou com febre.”. Siwon concordou e tratou de realocar o rapaz no quarto de Donghae e Hyukjae. Ele o ajudou a se levantar, logo após se oferecer para carrega-lo e ter mais uma vez seu pedido negado. Kyu se apoiou no mais alto e levando consigo somente seu telefone celular, seguiu para o quarto de Donghae.

Siwon o ajudou a se deitar e depois de posicionar a bolsa térmica novamente na altura de seu rim, o cobriu com um fino cobertor, tentando deixar Kyuhyun confortável. Assim que o rapaz estava devidamente acomodado, ele puxou um pufe que Donghae comprara recentemente e jogou o corpo sobre este, deixando em seu colo, uma das monografias a serem corrigidas. Certamente o calor acalmou a dor insuportável em seu rim, apesar deste ainda incomodar, dependendo da posição em que ele se deitasse.

Siwon permaneceu em silêncio, sem tirar os olhos de seu trabalho, exatamente como Kyuhyun se recordava dele. Kyu não conversou com o rapaz pela hora que se seguiu e nada parecia fazer aquela chuva torrencial dar uma trégua. Vez ou outra ele olhava o celular em busca de notícias de seu namorado que não dera-lhe mais nenhum sinal desde que ele saíra do metrô em direção à casa de seus amigos. Kyuhyun voltou o olhar novamente para Siwon, que lia atento um texto, com feições de poucos amigos, o que fez o menor indaga-lo:

– É minha monografia?

– Não, Kyunie. – Disse Siwon, rindo discreto. – É de um dos seus colegas.

– Corrigiu a minha?

– Ainda não. – Afirmou Siwon, rabiscando algo no trabalho. – Mas a sua monografia não me preocupa.

– Sabia que o Changminie escreveu a introdução toda? E ficou muito bom.

– Prometo que vou ler com cuidado a sua introdução. – Afirmou Siwon, sorrindo discreto e desviando o olhar ao rapaz. – Me conta, como vocês começaram a namorar?

– O Hyuk-hyung já te contou isso. – Afirmou Kyuhyun.

– Eu queria ouvir de você. – Afirmou Siwon, voltando o olhar para seus papéis.

– Sabe, ele não gostava de homens antes de me conhecer, e nunca tinha se apaixonado antes. Ele não sabia direito o que fazer, estava meio perdido, mas no final ele me confessou que gostava de mim. No começo eu não aceitei, mas ele me convenceu, aos pouquinhos, de que gostava de mim de verdade. Nós começamos a namorar, e aqui nós estamos, juntos.

– Como ele ficou sabendo sobre nós? Você contou?

– O Changminie sempre foi muito curioso e ele quis saber como era a minha vida antes de eu entrar na faculdade, e eu contei, aos pouquinhos.

– Ele sempre foi ciumento?

– Não. – Afirmou Kyuhyun. – Ele não sentia ciúme de você, até você voltar.

– Seu namorado é inseguro.

– E você é implicante. – Ralhou Kyuhyun.

– Você também é. – Disse Siwon erguendo o olhar ao rapaz ali deitado. – Eu sei que vocês dois andam brigando, por minha causa.

– Isso é problema meu. – Disse Kyuhyun, defensivo.

– Acha que se eu conversasse com ele, talvez ele se acalmasse?

– Não sei. O Changminie anda me surpreendendo com o ciúme dele. – Confessou Kyuhyun. – Wonie, eu posso te perguntar uma coisa?

– Claro. – Disse Siwon, satisfeito ao ouvir seu antigo apelido novamente.

– Por que você nunca namorou quando estava na Inglaterra?

– Eu trabalho demais, Kyunie, nem todo mundo tem a paciência que você teve enquanto esteve comigo.

– Mas você nem tentou? Ficou sozinho esse tempo todo?

– Não o tempo todo, eu saí com algumas moças, mas não levei nada adiante. – Afirmou Siwon, desviando o olhar para outro trabalho o qual corrigiria.

– Eu achava que você era gay.

– Eu sou. – Afirmou Siwon. – No entanto, eu tive que sair com mulheres para me dar conta de que somente um homem poderia me satisfazer. Onde eu estava, aparência era tudo, e nada melhor do que a companhia de uma moça bonita para agradar todo mundo não é?

– Não sei, nunca tentei agradar. – Confessou Kyuhyun. – Você transou com elas?

– Algumas. – Disse Siwon, sorrindo com o rumo da conversa. – Onde quer chegar, garoto?

– Por que criticou meu relacionamento com o Sungminie, sendo que você mesmo tinha seus relacionamentos superficiais?

– Porque você é romântico e um relacionamento superficial para alguém como você poderia acabar desastrosamente. – Afirmou Siwon. – Eu só não queria que você se machucasse ainda mais.

– Sabe como parece hipócrita você tentando me proteger de longe?

– O que mais eu poderia fazer além de esperar o melhor?

– Poderia não ter ido, para começo de história.

– E passar o resto da minha vida como um professor de matemática em um colégio infantil?

– Você era bem mais do que isso.

– Não, eu não era. Aliás, eu não era nada, Kyu. Eu sacrifiquei a minha vida com você pelo meu futuro profissional e faria de novo, porque hoje eu sou um homem bem sucedido.

– Você é frio demais. – Disse Kyuhyun, escondendo parte de seu rosto embaixo do cobertor.

– Não, eu não sou. – Afirmou Siwon deixando o trabalho de lado e se levantando do pufe até se sentar na beirada da cama onde Kyu estava. – Escolher a minha carreira não quer dizer que eu não amava você, só quer dizer que eu priorizei um estilo de vida ao invés de outro. Talvez eu não seja a pessoa mais feliz do mundo, mas também não me arrependo dos meus feitos até agora.

– De nenhum deles? Nem de ter ido embora e me abandonado?

– Não estar arrependido também não quer dizer que ir embora tenha sido a decisão mais fácil e agradável que eu já tomei. Você era uma das pessoas mais importantes para mim, era o homem que eu amava e eu não sei se algum dia vou ser capaz de amar alguém como eu te amei, meu garoto.

– Eu chorei muito quando você foi embora. – Confidenciou Kyuhyun. – Até parecer que eu não tinha mais lágrimas, aí eu parei.

– Eu sei. – Disse Siwon acariciando os cabelos do rapaz. – Me perdoe.

– Está bem, eu te perdoo. – Disse Kyuhyun fechando os olhos e suspirando pesadamente. – Eu acho que já te perdoei.

– Era só o que eu queria, Kyunie. –Disse Siwon, sorrindo abertamente, sob os olhos curiosos de Kyuhyun. – Como está o seu rim? Sente-se melhor?

– Ainda dói um pouco. – Afirmou Kyuhyun, antes de tirar mais uma dúvida. – Wonie, você acha que eu serei um bom economista?

– Por que a pergunta? – Indagou Siwon, ainda acariciando os fios castanhos dos cabelos de Kyu.

– Porque eu não teria a mesma coragem que você, de largar a minha vida aqui e ir para um lugar longe, para crescer profissionalmente. E uma vez um professor disse que esse ramo não era coisa de viadinho, e eu e o Changminie deveríamos fazer corte e costura.

– Deixa eu adivinhar, foi o professor Lee? De teoria estatística?

– Ele mesmo. – Afirmou Kyuhyun, se remexendo preguiçoso.

– E por acaso você acha que ele é um bom economista? Acha que ele está no auge da carreira?

– Ele já é professor.

– Ele nunca saiu de Seul, é casado com uma mulher mais velha e mais bem sucedida do que ele, tem dificuldades em preparar uma agenda de aulas, em organizar notas e demonstra favoritismo entre os seus alunos de uma forma absurda. Ele é um péssimo professor, Kyunie, não passa de um homem com boa lábia e deveria ser a última pessoa a julgar vocês dois.

– Mas você julga o Changminie.

– Porque não seria a primeira vez que eu veria um aluno se agregar a outro para conseguir nota. Eu julgo o seu namorado de acordo com a minha experiência, resta a ele, ser homem e me provar o contrário.

– Você também implica com ele porque é o meu namorado.

– É o mesmo princípio, ainda não vi nada nele que me faça acreditar que é um bom namorado. Muito pelo contrário, só vi cenas de ciúme, e a insegurança dele.

– É porque você ainda não conhece ele. – Defendeu Kyuhyun, antes de concluir. – Era isso o que você queria, não era? Conversar comigo?

– Era sim e não está sendo muito ruim, não é?

– Acho que não. – Disse Kyuhyun, sorrindo discreto. – Mas eu estou com sono, trabalhei bastante hoje.

– Tira um cochilo, quando o Changmin chegar eu te acordo. Ainda está com dor, mocinho trabalhador?

– Um pouco. Eu vou ao médico segunda-feira, fazer exames e tratar esse rim.

– Se você não for, eu mesmo vou te cobrar – Afirmou Siwon, acariciando os cabelos do rapaz com a ponta dos dedos. – Se precisar, eu estarei aqui do seu lado.

– Quando ele chegar, me acorde, está bem?

Siwon ainda acariciou os cabelos do rapaz por alguns instantes antes de voltar a se acomodar no confortável pufe e dar atenção aos seus trabalhos. Aos poucos a pilha de monografias a serem corrigidas foram diminuindo, enquanto o professor velava o sono de seu ex-namorado. Kyuhyun adormeceu pesadamente e seu namorado não deu noticias ao longo da hora seguinte que ele demorou para chegar à residência onde Kyu se abrigara.

Há muito Changmin não pegava um trânsito tão intenso na capital coreana. Foram duas longas horas de engarrafamento, que o estressaram e o deixaram ainda mais preocupado com a saúde de seu namorado. Ligar para ele era algo fora de cogitação, já que com a agitação no centro da cidade, a polícia rodoviária se instalara em todos os lugares, a fim de flagrar motoristas estressados tentando tirar vantagem ou burlando as regras.

As vias demoraram a ganhar um fluxo mais rápido e Changmin levou muito mais tempo do que o necessário para chegar ao seu destino, encontrando finalmente a casa silenciosa. A campainha soou, anunciando o esperado visitante e Kyuhyun em seu cochilo não percebeu a chegada de seu namorado. Siwon saiu em silêncio para atendê-lo, com alguma pressa para que a campainha não soasse novamente, acordando de vez Kyu.

Changmin espiou para dentro da casa, até ouvir passos apressados do interior do local, antes das trancas serem destravadas e revelarem Siwon trajando roupas casuais, e os cabelos não tão bem penteados. Changmin esperava até mesmo que a cachorra de estimação de Hyukjae o atendesse, mas não Siwon, o qual ele acreditava ainda estar na faculdade pelo horário. Siwon disse um polido “Boa noite” que foi respondido por um murmúrio, antes de o rapaz adentrar a casa e olhar em volta, em busca de alguém que não fosse aquele que tirara seu sono nos últimos dias.

– Sente-se, Changmin.

– Na verdade, eu só vim buscar o meu príncipe. – Retrucou Changmin, sem desviar o olhar ao mais velho.

– Ele está dormindo. – Afirmou Siwon, acomodando-se na poltrona onde antes ele corrijia alguns trabalhos. – Por que você não se senta e conversa comigo antes de ir encher a paciência do Kyunie?

– Como? – Disse Changmin, indignado, voltando-se para o mais velho.

– Sente-se, Changmin. – Disse Siwon autoritário, fitando o curioso rapaz atravessar a sala e se acomodar no sofá.

– Eu não sei quem você pensa que é, mas…

– Quem eu penso que sou? Não Changmin, nós não vamos falar de mim, vamos falar de você. – Afirmou Siwon ainda autoritário. – E desta vez eu não vou conversar com você como seu professor, e sim como o ex-namorado do Kyuhyun.

– Então eu posso te mandar para o inferno sem remorso?

– Sem remorso algum. – Disse Siwon sorrindo irônicamente. – E eu nem vou tirar ponto da sua monografia.

– O que você quer? – Indagou Changmin apoiando o antebraço sobre suas coxas e encarando o outro que sustentou o olhar.

– Primeiramente eu quero te explicar porque o seu namorado está aqui sozinho comigo, porque eu sei que essa é a primeira coisa que você vai perguntar pra ele. O Kyu passou mal e da última coisa que ele precisa é de algo que o irrite ou traga mais stress.

– Onde ele está?

– Ele está dormindo no quarto do Hae. – Explicou Siwon. – Eu fiquei pra cuidar dele porque o Donghae e o Hyukjae tiveram que trabalhar. Acho que você entende que ele não poderia ficar aqui sozinho passando mal, certo? Então eu fiquei e fiz companhia para ele até que ele adormecesse.

– Vou perguntar mais uma vez, o que você quer? O que quer do meu namorado? Por que está aqui? Por que se importa? Ele não quer mais saber de você, ele não gosta mais de você. O menino que você conheceu não existe mais, ele é outra pessoa agora.

– Acha mesmo que o menino que eu conheci desapareceu? – Disse Siwon, rindo soprado, irônico. – Ele ainda é o menino com quem eu namorei, Changmin, mas você não poderia saber, não conheceu ele anos antes.

– Está totalmente enganado, Siwon. – Afirmou Changmin, se recostando ao sofá e cruzando os braços.

– Eu sei o que você acha, que eu quero roubar o seu namorado de você. – Afirmou Siwon, cruzando as pernas.

– Como você é prepotente!

– Vai negar? Vai negar que tem medo de um dia chegar na sala de aula e encontrar o Kyu me abraçando? Sorrindo pra mim? Acha que se eu quisesse, eu já não teria tentado? Acredita mesmo que eu não sei como me aproximar dele, como chegar ao íntimo dele? Eu não sou prepotente, Changmin, apenas sei que sou mais homem do que você, e conheço aquele rapaz como a palma da minha mão. Eu vi ele crescer, enquanto você, ah Changmin, você é só um moleque, que ainda não aprendeu que o Kyu tem necessidades que você não pode suprir.

– Eu sei o que é isso. Inveja por saber que, independente do que você acredita, a escolha é e sempre foi do Kyuhyun. E adivinha, ele me escolheu e não tem intenções de me deixar. O Kyu não mente, ele pode ser tudo, mas mentiroso ele não é e se houvesse um mínimo interesse em você, eu já saberia.

– Claro que você saberia. Eu sei que o seu medo não é da mente insegura do Kyunie, e sim, do que eu posso fazer por ele. Tem medo que eu consiga fazer renascer nele o que ele sentia por mim no passado.  Sabe, ele tinha uma devoção por mim, pelo nosso relacionamento, você não tem nem um terço do que ele devotou a mim.

– Você é passado e se tem algo que eu sei que eu venci, é o passado do Kyuhyun. Eu venci a sua memória, Siwon, eu fiz o Kyu olhar para frente e ver que ele tem um futuro lindo, fiz ele ver que ele não é mais um menino e eu convenci ele que as coisas poderiam dar certo entre nós. Acima de tudo, eu amo ele, muito mais do que você algum dia já amou.

– Você não faz ideia do quanto eu amei ele, Changmin. – Disse Siwon com um tom de voz mais grave. – Não faz ideia do que é dedicar a sua vida a uma pessoa, você é só um pirralho que acredita que o mundo é seu.

– O Kyuhyun não é sua propriedade! – Disse Changmin, levantando-se do sofá e parando de frente para o professor.

– Muito menos sua, pirralho! – Disse Siwon, também se levantando e sustentando o olhar sobre o outro que endureceu seu maxilar. – Acha que a vida é um conto de fadas, Changmin? Que uma hora você e ele serão felizes para sempre? Isso não existe, Changmin, quando a sua rotina te engolir, quando o Kyu não for mais o seu ponto de apoio, quando você descobrir as suas prioridades, você vai ver, que isso não existe.

– A minha prioridade é ele, porque eu não sou avarento e egoísta como você. Então vai pro inferno, você e a sua carreira bem sucedida, que do meu namorado cuido eu.

– Vá você para o inferno, Changmin, só não arraste o Kyu junto. – Afirmou Siwon, dando um passo a frente, pronto para ataca-lo. – Vá para o inferno e leve com você o seu ciúme que tanto machuca o meu garoto.

– Eu seria incapaz de machucar o meu Kyu, ao contrário de você, que machucou ele da pior maneira possível. – Afirmou Changmin, sem se mover, mas cerrando os punhos, também em posição ofensiva.

– Abra a boca para me acusar de novo e eu te arrebento aqui mesmo! – Ameaçou Siwon, fitando Changmin se aproximar mais de si. – Eu já lido com a culpa sozinho, não preciso de um cretino como você para me lembrar disso.

– Pobrezinho de você, Siwon, meus olhos estão até lacrimejando. – Ironizou Changmin, esboçando um sorriso de lado.

“O que vocês estão fazendo?”

Os dois já erguiam os punhos, pronto para acertarem um na face do outro. Aquilo não acabaria bem, não fosse a interrupção de um surpreso Kyuhyun que aparecera na sala e os flagrara discutindo. Ele parecia inseguro, confuso, enquanto fitava os dois rapazes sem saber o que dizer aos dois. Apenas não desejava que eles se estapeassem por sua causa, o que em sua opinião seria uma atitude boba de dois homens competitivos.

Tanto Changmin quanto Siwon estavam desconcertados. Eles não poderiam dizer a Kyuhyun que não discutiam por sua causa, afinal obviamente ele ouvira suas vozes alteradas. Suas mentes começaram a trabalhar rápido e imediatamente formaram argumentos que acusariam-se mutuamente de ser o culpado pela discussão. Siwon chegou a entreabrir os lábios e se justificar, quando Kyu voltou a se manifestar, se aproximando dos dois:

– Parem de discutir. – Disse Kyuhyun. – Parem de agir como se me conhecessem melhor do que eu mesmo.

– Kyunie… – Começou Changmin.

– O que nós vamos fazer é o seguinte. – Começou Kyuhyun. – O Changminie vai me levar pra casa agora, e vocês dois vão esquecer essa discussão, seja lá o que tenham dito um para o outro. Vocês são professor e aluno e vão se respeitar assim, porque senão…

– Nós precisávamos conversar. – Interrompeu Siwon. – Caso contrário, vocês teriam mais uma discussão porque alguém não sabe controlar o ciúme.

– Cale a boca e deixe ele terminar! – Ralhou Changmin.

– Parem! – Ralhou Kyuhyun. – Eu vou pra casa agora, e se eu souber de outra discussão de vocês, os dois vão se ver comigo!

Eles não queriam Kyuhyun irritado e assim permaneceram em silêncio. O rapaz concluiu avisando que seu namorado deveria leva-lo para casa. Antes de sair, ele ainda agradeceu a companhia de Siwon, fitando Changmin com um olhar desgostoso e é claro, enciumado. Siwon sorriu, acariciou seus cabelos e depois o deixou sair porta afora, acompanhado de um irritado Changmin. Kyu ainda se sentia cansado, um tanto sonolento e o que ele mais desejava era chegar em casa.

Siwon que antes implicava com Changmin, agora achava o rapaz detestável. Claro que ele ainda era seu aluno e seria tratado como tal, no entanto, se tratando de Kyuhyun, em sua opinião, ele não poderia ter escolhido um namorado pior. Changmin parecia esperar muito de Kyu, enquanto não oferecia-lhe nada em troca e ele bem sabia que os argumentos de Donghae em favor do rapaz certamente não o convenceriam. Siwon concluiu, enquanto corrigia a monografia dos dois rapazes, que mais dia menos dia, Changmin quebraria o coração de Kyuhyun, como ele próprio fizera anos atrás.

Changmin estava irritado, mas tentou se mostrar compreensivo com seu namorado. Se havia algo que ele absorveu de sua discussão com Siwon, fora o quanto o seu ciúme afetava seu sensível namorado. Por outro lado, ele também sabia que não conseguiria engolir seu ciúme por muito tempo, aquele era seu pior embate interno. Durante o trajeto até sua casa, Kyu tratou de não comentar sobre a discussão que Changmin tivera com Siwon e deixou sua curiosidade para outro dia, um dia menos atribulado.

Eles chegaram em casa tranquilos, falando sobre a saúde de Kyuhyun que não demorou a se acomodar e dormir, agora trajando roupas confortáveis e sem o incômodo que a dor renal trouxera-lhe. Changmin acariciou seus cabelos com a ponta dos dedos até que o rapaz adormecesse e passou boa parte da noite fitando suas feições enquanto adormecido. Finalmente ele e percebera que tinha um rival, e ele precisava de um plano, que mantivesse Kyuhyun ao seu lado e longe de todo o carisma de Siwon. Kyuhyun era seu príncipe, e ele batalharia para que nada mudasse essa realidade.

 

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