Capítulo 47: The Storm

 

 

O final de janeiro chegou com clima mais ameno à capital coreana e àquela altura já não havia mais neve pela cidade, que apesar de fria, agora tinha um visual mais colorido do que aquela imensidão branca. Naquele sábado frio, Yunho acordou sozinho em sua cama, com as roupas do bagunceiro Jaejoong ainda espalhadas pelo chão. Não tinha jeito, seu namorado era desorganizado, e aquilo se acentuava nos finais de semana.

Yunho se estirou na cama, tentando afastar a preguiça matinal que tomava conta de si no final de semana. Ele se levantou e ajeitou os cabelos, finalmente prestando atenção na voz melódica de seu namorado cantarolando algo na cozinha. Yunho sorriu e tratou de se levantar, ajeitando os cabelos enquanto se arrastava pelo corredor. Ele e Jae estavam melhores em seu relacionamento desde que o mais novo se assumira para sua família.

No entanto, ao contrário de Changmin, Jaejoong não fora dos mais discretos. Ele se levantou em seu jantar de formatura, e aproveitou que tinha toda sua família reunida para anunciar que ele e Yunho namoravam. Um silêncio aterrorizante tomou conta da mesa, uma vez que com exceção do próprio Yunho, ninguém sabia daquele comunicado. Os pais de Jaejoong terminaram sua refeição e depois chamaram o rapaz de lado para conversar.

A discussão fora demorada, e os ânimos se exaltaram, o que só terminou quando o pai do rapaz decidiu ir embora. Jae não estava arrependido de sua decisão, tampouco esperava uma reação pacífica, e aquilo o fez chorar por horas a fio nos braços de Yunho. A formatura de Jae não fora tão alegre quanto a de Changmin, no entanto, sua mãe, de quem ele puxara toda sensibilidade disse: “Eu sabia que mais dia, menos dia, você diria isso. Não se preocupe, filho, seu pai vai entender em algum momento.”

A declaração de sua mãe o surpreendeu, ao mesmo tempo em que o tranquilizou. Seu pai demorou duas semanas para voltar a falar com ele, e dizer que ainda o amava e que ele ainda era seu filho. Desde então, as coisas voltaram a reinar em paz no relacionamento dos dois rapazes e como na maioria dos finais de semana, Jae parecia bem humorado, pela música que cantarolava enquanto preparava torradas na cozinha.

Yunho parou à porta e sorriu com a figura de costas para si. Jaejoong havia mudado a cor de seu cabelo para um castanho mais escuro, e tinha um corte mais batido na nuca que revelava seu pescoço alvo. Naquele dia ele trajava apenas uma regata branca e uma boxer azul marinho, além de meias, enquanto o aquecedor mantinha-se alto para que ele não sentisse frio. Ele cortava pedaços de mamão que iam ao liquidificador com banana e leite para uma deliciosa vitamina.

Antes que Jae percebesse sua presença, Yunho se achegou às costas do rapaz e o agarrou pela cintura, deixando que seus lábios abusassem da pele alva do pescoço do outro tão belamente exposto por aquele corte de cabelo. Jaejoong se assutou, deixando um pedaço de mamão cair ao chão e em seguida ralhando com seu namorado por tê-lo surpreendido daquela forma. Yunho riu, estapeou uma das nádegas do rapaz e então se afastou para servir-se de uma xícara de café.

– Ah não, hoje você vai tomar vitamina! – Ralhou novamente Jaejoong retirando a xícara das mãos de seu namorado. – Você tem tomado muita cafeína e isso faz mal.

– Como você é chato, Jae-ah! – Afirmou Yunho, retirando as ultimas torradas da torradeira e as colocado sobre a pilha que seu namorado já havia feito. – O que quer fazer hoje?

– Hoje eu e você vamos correr no parque. – Disse Jaejoong.

– Nem pensar, tá frio! – Reclamou Yunho. – Anda, pensa em outra coisa.

– Mas faz tempo que você não se exercita comigo. – Reclamou Jaejoong ligando o liquidificador.

– Porque está frio. – Defendeu Yunho, logo que o liquidificador foi desligado. – Vamos pensar em algo para fazermos em casa.

– Ah não, hyung, por que ficar em casa justo no sábado?

– Porque eu quero você de cuequinha o dia todo. – Afirmou Yunho, puxando o rapaz para seu colo quando este colocou o copo do liquidificador sobre a mesa. – Você tá lindo assim e lá fora você não pode ficar assim.

– Como você é bobo. – Disse Jaejoong, sorrindo enquanto servia-se da vitamina. – Hyung, posso te perguntar uma coisa?

– O que você quiser.

– Você é feliz? Comigo?

– Claro que sou Jae-ah. – Afirmou Yunho o abraçando pela cintura e selando seu ombro demoradamente. – Por que a pergunta?

– Porque eu as vezes, quando fico olhando você dormir, tenho medo que tudo isso um dia desapareça. Eu tenho certeza que quando você começou a namorar o Yoochun-hyung também pensou que duraria para sempre, não pensou?

– Quer saber o que eu pensei quando comecei a namorar ele? – Disse Yunho servindo-se de vitamina. – Eu ganhei. Eu competi pelo Micky e venci e agora o bobão do Junsu está a quilômetros de distancia onde não pode mais me encher o saco.

– Isso não é um bom pensamento, hyung. – Disse Jaejoong, pegando uma torrada do prato e levando aos lábios.

– Não mesmo. É um pensamento egoísta, superficial e fútil. Eu levei anos para perceber que aquilo começou errado.

– Mas vocês tiveram bons momentos, não tiveram?

– Ah, claro que sim, o primeiro ano foi perfeito. Ele era dedicado, era gentil, atencioso e eu sei que essas qualidades pertencem a ele, mas no final do nosso relacionamento elas foram soterradas por mágoas. – Afirmou Yunho.

– Você amou muito ele?

– Eu não sei, Jae-ah. Eu sempre gostei do conforto de ter ele ao meu lado, acho que eu cheguei a amar ele, mas não a me apaixonar por ele. Ele sabia ser um bom namorado, só não queria ser.

– O que você fez? Pra magoar ele tanto?

– Eu me afastei, quando comecei a sentir falta da vida de solteiro, comecei a não levar a sério nosso relacionamento. Ele a princípio tentou se comunicar comigo, me entender, mas ele não tem paciência pra isso e as coisas se tornaram frias entre nós ao mesmo tempo em que as nossas rotinas tomavam conta do relacionamento. Quando eu te conheci, eu não fazia sexo com ele há mais de ano e as coisas já se encaminhavam para o fim.

– Então não houve um erro, foram vários erros.

– Sim, pequenas coisas que iam machucando ele e aos poucos deixando as coisas mais distantes entre nós. Aí você apareceu e isso piorou o nosso relacionamento drasticamente, porque o ciúme dele fazia com que nós tivéssemos brigas diárias. Ele passou a me odiar e essa foi a pior fase.

– Você já gostava de mim, não gostava?

– Eu transava com ele pensando em você. Não é algo de que eu me orgulho, mas é a verdade.

– Eu prefiro que você termine comigo do que transe pensando em outra pessoa.

– Isso não vai acontecer com a gente, eu não vou deixar chegar a isso. – Afirmou Yunho o apertando pela cintura. – Matei a sua curiosidade?

– Acho que sim. – Afirmou Jaejoong. – O que eu ainda não sei é o que vamos fazer hoje.

– Eu quero uma massagem, daquelas bem gostosas que só o meu Boojae sabe fazer.

– Uma massagem é? Com final feliz?

– De preferência.

Jaejoong riu e virou-se em direção ao seu namorado, roubando um selar de seus lábios antes de morder seu queixo o arranhando com os dentes. Era sempre assim, Yunho podia ser reclamão e se irritar com os milhares de defeitos de seu namorado, no entanto eles se entendiam como ninguém. Era como se Jaejoong, mesmo depois de mais de um ano de namoro ainda tivesse aquela capacidade de tornar o dia de Yunho melhor.

Eles se amavam, e aquele passado atribulado, serviria apenas como história quando alguém os perguntasse como eles se conheceram. Aquele sábado eles realmente não saíram de casa e fizeram amor sem pressa, aproveitando aquele dia juntos. Não havia dificuldade ou preocupação que tirasse deles a vontade de permanecer um ao lado do outro, e eles viveriam assim e amadureceriam desta maneira. Naquele sábado, enquanto olhava Jaejoong nu adormecido sobre a cama, Yunho soube que fez a escolha certa, e que aquele era o homem com quem dividiria sua vida pelo resto de seus dias.

Aquela noite em função de uma inesperada chuva, o fornecimento de energia elétrica foi cortado em parte de Seul, e assim, sobre a luz de velas, Yunho e Jaejoong fizeram promessas, que levariam em seus corações por esta aventura que era seu relacionamento. Assim, ambos perceberam que, por mais que tivessem suas diferenças, eles desejavam exatamente a mesma coisa, eles queriam ser amados, e se permitir amar sem preconceitos ou dúvidas.

Longe dali, na ilha de Jeju, Junsu acordava depois do almoço, com o rosto inchado, os cabelos desgrenhados e o corpo completamente desnudo, ainda sentindo o cheiro do suor de seu namorado sobre sua pele. A boca seca, ainda com gosto de álcool, indicava que ele havia bebido na noite anterior, e certamente fora o álcool que o levara a transar como um animal com Yoochun e em seguida desmaiar ao seu lado.

Junsu sentiu os lençóis se moverem quando ao seu lado, Yoochun rolou pela cama e jogou o peso de seu braço em sua cintura, o agarrando com firmeza. Junsu sorriu com o canto dos lábios e entreabriu os olhos, sentindo a luz que entrou pela janela ofuscar seus olhos. Yoochun resmugou algo inteligível e o puxou contra seu corpo, também nu, com os cabelos ainda desfeitos e a voz mais rouca mais sexy que Junsu já ouvira.

Yoochun escondeu o rosto contra o corpo de seu namorado que se moveu para acariciar seus cabelos enquanto o mesmo ainda resmungava algo que ele não conseguia entender. Aos poucos sua mente começava a montar o que ocorrera na noite anterior, um jantar, algumas doses e horas depois os dois se entrelaçavam nus sobre a cama daquele luxuoso hotel a beira mar. Jeju não era o local mais movimentado no inverno, e por isso mesmo o casal escolheu estar ali naqueles raros dias de folga, eles queriam discrição.

Junsu moveu-se buscando seu namorado com o olhar e o encontrou tentando adormecer novamente com o rosto colado a si, além daquele abraço possessivo. Ele afastou os fios bagunçados de seu rosto e beijou sua testa, deixando ali um selar estalado que fez Yoochun sorrir ainda com os olhos fechados. Finalmente ele resmungou algo que Junsu entendeu, ainda preguiçosamente, Micky desejou-lhe:

– Bom dia.

– Acho que já é boa tarde. – Constatou Junsu ao observar por alguns instantes a janela.

– Eu estou com fome. – Afirmou Yoochun. – Posso te morder?

– Não, dói! – Riu-se Junsu.

– Vamos pedir comida no quarto. – Disse Yoochun se esticando e pegando o telefone a fim de contatar o serviço de quarto.

– Pede alguma coisa gostosa!

Assim que terminou a frase, Junsu pulou da cama e se enfiou banheiro adentro a fim de tomar um demorado banho. Yoochun terminou o pedido e finalmente se desvencilhou dos cobertores que se enlaçaram em seu corpo e seguiu para o banheiro juntamente com Junsu. Seu namorado tomava um banho sem pressa alguma, permitindo-se relaxar embaixo do chuveiro morno. Yoochun fitou-se no espelho rapidamente e constatou que precisava se barbear.

Ele espalhou a espuma por seu rosto e pescoço enquanto seu namorado terminava seu banho e enrolava a cintura com uma toalha. Junsu sorriu ao vê-lo ali e depois de enxugar seus cabelos com uma segunda toalha e pendura-la em seus ombros, ele tratou de se aproximar de seu namorado. Yoochun fitou o rapaz que o enlaçou pela cintura e retirou de suas mãos o aparelho de barbear, sorrindo discreto para ele:

– Confia em mim?

– Mais do que tudo no mundo.

Junsu sorriu e finalmente começou a retirar a espuma com a lâmina, levando consigo os fios curtos que nasceram no rosto do rapaz. Yoochun permaneceu em silêncio, o fitando pelo espelho o qual ele desembaçara com a palma da mão. Junsu sempre fora a pessoa mais carinhosa que ele conhecera, e ter aquela atenção toda voltada para si era delicioso. Quando o rapaz terminou a última curva de seu rosto, eles foram surpreendidos por toques discretos na porta do quarto.

Micky ficou lavando o rosto e Junsu atendeu o entregador que trouxe um carrinho de refeições e saiu do quarto o reverenciando. Era uma bela refeição, com arroz, legumes no vapor, carne ao molho muito bem temperada e o típico kimchi, tudo acompanhado por um delicioso suco de maçã. Yoochun ainda tomou um rápido banho antes de juntar-se ao seu esfomeado namorado que já comia o kimchi em um pequeno prato próprio para a iguaria.

Eles se serviram dos alimentos e se sentaram na cama, comendo em silêncio como se acostumaram a fazer. O ar de Jeju era único, a ilha sempre serviria de refúgio para aqueles que se cansassem da agitação da capital, com pessoas hospitaleiras e muito discretas. Quando terminaram, os dois rapazes decidiram que deixariam para sair a noite, quando jantariam em um restaurante especializado em frutos do mar e depois caminhariam por um área de reserva natural com pontes altas que davam uma bela vista do local.

No entanto, eles decidiram que não passariam a tarde no quarto e trataram de vestir roupas confortáveis e de mãos dadas atravessaram o hotel onde eles haviam se hospedado. Aos fundos do hotel vazio em função da baixa temporada de inverno, existia uma área de lazer com uma piscina desativada naquela época do ano. Eles contornaram a piscina e mais aos fundos estava uma área coberta com cadeiras de balanço e redes penduradas e espalhadas por ali.

Eles escolheram uma rede voltada para a praia, e se sentaram juntos na mesma, se atrapalhando quando a mesma balançou de um lado a outro. Não demorou muito e Junsu apoiou sua cabeça no braço de seu namorado e os dois puderam perder a vista pelo mar que ia ao infinito, para onde eles não podiam ver terra firme. Era uma vista deslumbrante, apesar de frio, o sol brilhava pálido, tímido, sendo refletido por aquela imensidão azul.

– Hey, o que acha de voltarmos aqui todo ano? – Indagou Junsu.

– Acho perfeito. – Afirmou Yoochun, vendo ao longe nuvens negras, indicando que em algum lugar chovia.

– Era hoje que o Changmin e o Kyu iam pra praia né?

– Acho que era. – Afirmou Yoochun pensativo. – Espero que isso ajude.

– Eles estão bem agora, não estão? – Disse Junsu acariciando o tórax de seu namorado.

– Quer saber um segredo? – Disse Yoochun desviando o olhar para seu namorado. – Para mim o Changmin é uma bomba relógio, ele é o tipo de pessoa que aguenta tudo calado. Aquela briga deles foi um exemplo do que acontece quando ele chega a um extremo e eu acho, que pode acontecer de novo, e não vai demorar.

– Por que você acha isso? Ele te disse algo?

– Não, o Changmin conversa bastante comigo, mas ele não me conta exatamente o que acontece entre eles. O que eu percebo, é que quanto mais o Kyu finge que está tudo bem, quanto mais apoio o Kyu tem, mais retraído fica o Changmin.

– E quanto mais retraído, mas magoa ele guarda.

– Exatamente. Por isso eu acho que essa fase de paz deles, é fachada.

– Ele gosta tanto do Kyuhyun, dá pra ver nos olhos dele.

– Tanto quanto eu gosto de você. – Afirmou Yoochun.

– A diferença é que nós já superamos os nossos problemas, eles ainda não.

– Eu já não sei se eles são tão esperançosos e pacientes como nós dois.

Junsu demorou seu olhar em Yoochun e cogitou pedir-lhe uma explicação, no entanto o olhar do outro perdido na paisagem o fez desistir. Ele não queria se preocupar com seus amigos, mas via seu namorado se preocupar com seu único amigo, aquilo de certa forma o agoniava. Ele queria Changmin bem, assim veria Yoochun mais tranquilo e com uma amizade mais saudável, um pensamento um tanto egoísta, mas bastante lógico.

Olhar a paisagem e trocar alguns beijos discretos distraiu o casal pelo resto da tarde. A ilha de Jeju tinha uma grande variedade de atrações turísticas, no entanto, Junsu e Yoochun apenas aproveitavam a calmaria que o local trazia. Eles conheciam restaurantes diferentes e gostavam de caminhar pela pequena cidade, sem rumo certo, apenas segurando as mãos com os dedos entrelaçados e conversando sobre os mais variados assuntos.

Naquela noite, na ponte, eles tiraram fotos que adornariam as paredes do apartamento dividiam. A grande reserva florestal era fundo para um selar apaixonado que mais tarde eles brincariam se tratar da foto do dia de seu casamento. E eles sabiam que aquele era o tipo de viagem que reascendia o relacionamento, que não deixava a rotina engoli-los e que os permitia viver seu romance sem que os compromissos profissionais atrapalhassem. Yoochun e Junsu aprenderam a balancear seu relacionamento, e assim eles seriam felizes.

Para Kyuhyun e Changmin, o mês de janeiro fora de longe, o mais tranquilo daquele ano, sem maiores discussões ou preocupações. Kyu finalmente tomara uma decisão que Changmin aprovara e não começaria sua pós-graduação naquele semestre. Desta maneira, ele teria mais tempo livre para o seu namorado, para seus amigos e é claro, sua família.

A ideia de passar um dia na praia, por mais que o clima não estivesse propício a mergulhos, viera de Yoochun. O rapaz voltara a Jeju em função das férias de Junsu, logo depois da formatura de Changmin, e lá eles ficariam até o começo de fevereiro. Antes de sair de Seul, Micky e Changmin jantaram juntos e o rapaz propôs que ele saísse da cidade, por pelo menos um dia, a fim de espairecer. Kyu não teria férias em janeiro, pois começara um curso de oratória, obrigatório pela faculdade onde ele agora trabalhava.

Apesar de Kyuhyun e Siwon estarem se tornando apegados um ao outro, Changmin não fez as devidas observações sobre o assunto, pois já havia conquistado as noites ao lado de seu namorado e não queria perder isso, principalmente depois que o rapaz topou aquela viagem de um único dia para o litoral. Claro, aquilo deu a Kyuhyun uma impressão ainda mais forte de que as coisas estavam novamente bem entre eles, e de que Changmin aos poucos perdia seu ciúme por Siwon.

Kyuhyun há muito não se sentia em paz como naquelas semanas de janeiro, e aquela viagem, certamente fecharia muito bem seu começo de ano. Claro que Yoochun longe tivera sua parcela para a alegria do rapaz, e é claro, ele ainda tinha seu dedicado Changmin ao seu lado. Eles entraram no carro às oito da manhã, quando o sol nascia no céu claro e de poucas nuvens e a estrada estava vazia, uma vez que era inverno e ninguém tinha intenção de ver o mar aquela época do ano.

A estrada vazia era inspiradora e assim, eles não tinham que se preocupar com velocidade e podiam observar as belezas naturais do caminho até o litoral. Chagmin olhou brevemente pelo retrovisor e se permitiu observar Kyu, com seus óculos de sol e os cabelos brevemente desajeitados pela fresta da janela aberta. Ele o achava lindo daquela maneira, as feições tranquilas e os olhos amendoados por trás das lentes espreitando a paisagem natural do lugar e finalmente recaindo sobre o motorista.

Changmin usava uma blusa de fio fina, com gola alta que cobria apenas parte do pescoço longo do rapaz. Os olhos negros que não se demoraram no retrovisor e desviaram a atenção para a estrada e suas curvas traiçoeiras. Kyu sorriu, um sorriso fino somente um breve levantar no canto de seus lábios carnudos, que apenas indicavam o quanto aquele homem o fazia feliz. A manhã passou em um piscar de olhos na estrada, em que eles pouco conversaram, mas curtiram a presença um do outro.

Kyu fitou a janela demoradamente enquanto Changmin entrava em uma estrada menor, que daria acesso à pequena cidade praiana. Janeiro também fora o mês que ele matou toda saudade de seus pais e de sua noona que era quem mais frequentava seu apartamento. Eles se viam praticamente todos os sábados desde a formatura e sua mãe ainda fazia uma comida deliciosa. Sua mãe se apegara não somente à Changmin, mas também a Donghae que a recebera em sua casa em um dos finais de semana, a deixado fascianada ao saber que Kyu passava os finais de ano com a família do casal.

Por outro lado, a proximidade da família Cho fez a partida da família Shim mais dolorosa para Changmin. Ter seus pais próximos a si, por mais que as circunstâncias não fossem as mais agradáveis para eles, deu ao rapaz uma sensação de segurança que há muito ele não sentia e os erros que ele carregava em seus ombros pareciam mais leves enquanto ele tinha seus pais próximos a si. No entanto, a vida adulta os obrigou a voltar para o local onde haviam construído suas vidas e lá ficou Changmin, suas dúvidas e aquela imensa saudade.

Changmin adentrou a cidade praiana que obviamente naquela época do ano estava vazia. Não era uma cidade de pescadores, então poucas pessoas moravam ali, apenas nas redondezas. Ele reduziu a velocidade e diriguiu entre as casas um tanto desgastadas pela maresia, e pouquíssimas com a janela aberta indicando que alguém estava ali. A maioria dos restaurantes estavam fechados, com exceção daqueles que ficavam próximos à estrada e atendiam os viajantes. Kyu e Changmin se demoraram quando passaram pela casa onde sua história tivera os primeiros passos.

Changmin se lembrou nitidamente das lágrimas tímidas que escorreram pelo rosto de seu namorado quando ele se recordou do Kyu de dezesseis anos feliz por ser levado a um lugar tão deslumbrante. Kyu não conteve um sorriso ao se lembrar de Henry e Sungmin pulando na piscina, ou de como eles conversaram até tarde antes de dividirem a mesma cama e adormecerem pesadamente. Changmin parou o carro em frente a casa e finalmente voltou-se para o seu namorado:

– O que acha de caminharmos até a praia?

Kyuhyun sorriu e meneou a cabeça afirmativamente em resposta, finalmente saindo do carro. Do banco traseiro eles retiraram as mochilas onde carregavam o que iriam usufruir aquele dia e depois de passar bloqueador solar no rosto, os dois desceram a rua em direção ao mar. Kyu entrelaçou os dedos aos de seu namorado enquanto eles seguiam pela calçada, até a praia deserta naquela época do ano. Não havia quase ninguém na cidade, então eles se viam tranquilos para caminhar de mãos dadas.

A brisa praiana tocou o rosto dos namorados, que sorriram para si ao finalmente colocar os pés na grande calçada que seguia a orla marítima. Eles não se demoraram a retirar os sapatos fechados e pisar descalços na areia fina e gelada, que grudou em seus pés. Kyu voltou a dar as mãos para Changmin e eles se encaminharam pela grande faixa de areia, agora ocupada apenas por alguns siris e conchas coloridas que eles pegavam quando chamavam-lhes a atenção.

– Você quer ir ver os golfinhos, Changminie? Da outra vez você ficou em casa me preparando um jantar.

– Ah, meu príncipe, essa época do ano eles devem ter migrado pra um lugar mais quente, não?

– Talvez. – Disse Kyuhyun recostando o rosto no ombro de seu namorado enquanto caminhava. – Acho que quando ficarmos velhinhos nós poderíamos vir morar aqui, você não acha?

– Acho que pode ser uma boa ideia. Uma casa a beira-mar parece tão gostoso. – Afirmou Changmin. – E esse lugar é especial pra mim, porque foi aqui que nós começamos o nosso namoro.

– Sabe, eu ainda tenho aquela cartinha que você escreveu para mim. – Disse Kyu, sorrindo sem jeito. – Você foi muito romântico naquela época, me surpreendeu.

– Eu ainda sou romântico. – Afirmou Changmin sorrindo discreto. – Kyunie, como você acha que vai ser esse ano?

– Ah, Changminie, esse ano vai ser perfeito! Eu tenho o meu trabalho na faculdade e quando as aulas começarem vai ficar ainda melhor, porque os alunos vão poder participar. Eu tenho os meus pais comigo, e quero recuperar o tempo perdido com eles, então quero passar um bom tempo aproveitando eles e a minha noona. Ah, e eu quero passar mais tempo com o Donghae-hyung, porque ano passado nós nos vimos pouco, e no segundo semestre eu começo a minha pós.

– E nós? Eu e você, entramos onde nesse planejamento?

– Ah, Changminie, nós moramos juntos, não precisamos de tanto planejamento. – Afirmou Kyuhyun. – Não precisa ter ciúme, eu vou ter tempo pra você.

– Não é ciúme, é que… deixa pra lá.

– Aproveite a praia, Changminie, deixe o futuro para amanhã. – Afirmou Kyuhyun, parando de frente para o seu namorado. – O que acha de pararmos aqui e comermos os nossos lanches?

– Uma boa ideia, eu estou com fome.

Eles finalmente abriram suas mochilas e dela retiraram uma grande toalha a qual deixaram no chão, finalmente sentando-se sobre ela. Eles retiraram os sanduiches e biscoitos que trouxeram, além da garrafa de suco de melão que haviam preparado para aquele dia. Os dois comeram preguiçosamente, aproveitado o sol que aos poucos começava a se esconder, deixando o dia mais nublado, por mais que ainda fosse cedo.

Kyuhyun e Changmin se fartaram com os lanches e depois de guardarem seus pertences, Kyu sentou-se entre as pernas de seu namorado que o abraçou pelos ombros e apoiou o queixo em seu ombro. O dia aos poucos ia ficando mais nublado, enquanto o casal aproveitava para trocar carinhos em plena praia deserta. Kyu virou o rosto de lado, roubando um beijo dos lábios de seu namorado que correspondeu seu beijo antes de perguntar:

– Qual a sua melhor lembrança dessa praia?

– Daqui? – Disse Kyuhyun virando o tronco para poder fitar melhor o outro rapaz. – Acho que eu fico entre o macarrão com salsicha e o dia que nós encontramos a Josephine. E a sua?

– A minha? Acho que a nossa primeira vez é a minha lembrança favorita.

– E qual a sua melhor lembrança de todo o nosso relacionamento? – Indagou Kyuhyun.

– Eu fico entre o nosso primeiro aniversário de namoro e o nosso ano novo esse ano no rio Han.

– O nosso primeiro aniversário é o meu favorito. – Disse Kyuhyun. – A torre, o jantar, o seu presente, foi tudo tão perfeito, Changminie.

Kyuhyun desvencilhou-se do abraço de seu namorado e se deitou sobre a toalha, puxando Changmin para que ele fizesse o mesmo. Ambos deitaram de lado, com o rosto próximo um ao outro. Changmin sorriu quando aquelas orbes amendoadas analisaram seu rosto, se perdendo nos traços delicados do rapaz. Kyu retirou os cabelos que caiam sobre os olhos de seu namorado e então voltou a falar:

– Você se lembra do nosso primeiro beijo? Você insistiu tanto por ele.

– Claro. Era a primeira vez que eu me deitava na cama com outro homem e eu queria muito te dar um beijo. O seu cheiro era algo intenso demais, e cada vez que você esbarrava em mim eu me arrepiava.

– Eu tive medo, de me apaixonar por você. Sempre achei que você ia me trair em algum momento, que sentiria falta de alguma menina e não resistiria. Você me provou o contrário com o tempo, mas o que eu mais me lembro foi de você rejeitando aquela menina mesmo quando foi desafiado.

– Foi difícil, eu me senti um péssimo homem. – Afirmou Changmin. – Depois parei de me importar, você estava ao meu lado, era o suficiente.

– Eu sei. – Afirmou Kyu. – E você era curioso e intrometido também.

– Isso eu sou até hoje. – Riu-se Changmin. – As coisas mudaram tanto entre nós, não acha, meu príncipe?

– Acho que sim. Eu não gosto muito de mudanças, na verdade, mas nós não estamos indo mal. – Constatou Kyuhyun. – O tempo cura tudo e ajeita tudo, é só ser paciente.

Changmin não conseguiu evitar um olhar desapontado pela sentença de seu namorado que pareceu não notar e roubou um selar de seus lábios. Ou talvez Kyu estivesse apenas ignorando seus sentimentos e isso Changmin jamais saberia. Ele desviou o olhar por alguns segundos até sentir a testa de Kyuhyun recostar-se à própria e seus olhares se encontraram, assim como suas respirações que se misturaram. Changmin o enlaçou pela cintura e o perguntou:

– Teve uma vez que você me perguntou se nós ficaríamos juntos para sempre, você se lembra?

– Lembro.

– Você ainda quer isso?

– Eu quero, meu Changminie.

– Eu amo você, Kyuhyun.

Kyuhyun abriu seu melhor sorriso, e aquele gesto aqueceu o coração de Changmin mesmo que momentaneamente. Kyu apoiou-se em seu cotovelo e deixou seu corpo pender sobre o de seu namorado sem cortar o contato com seus olhos. Ele acariciou os cabelos negros de Changmin, e os fios macios se desembaraçaram ao toque de seus dedos finos e depois se ajeitaram deixando os olhos negros e profundos do rapaz desimpedidos para que Kyu mergulhasse em sua alma e a tomasse para si.

Era difícil controlar as reações em momentos como aqueles, impossível impedir que os arrepios subissem por seu corpo deixando seus pelos eriçados e seus sentidos mais aguçados. As maçãs de seu rosto ficaram rubras quando o coração acelerou e seus olhares se perderam em sentimentos que há muito eles não demonstravam ter. Era quase como se estivessem Esquecidos em algum lugar em seus corações, aprisionados por mentes tão atarefadas que, inexperientes, se esqueciam da importância de tais sentimentos.

– Não faz muito tempo, o Siwon me disse que a covardia só era permitida aos mais velhos, pois os jovens tem o tempo em suas mãos, e o mundo aos seus pés. Nós dois somos jovens, Changminie, nós temos tanto para viver, para fazer e ser, estamos apenas começando. Por que pensar no para sempre, se nós temos o hoje? Se temos um ao outro? E o mundo é nosso, Changminie, ele está a nossa mercê e os anos serão o que fizermos deles. Vamos deixar o passado em nossos corações e o nosso para sempre vai continuar uma incógnita, não importa o que nós façamos. Resta a nós vivermos o que nos é dado, e hoje, neste exato momento, eu tenho certeza de que nunca amei ninguém como eu amo você.

Aquele discurso era extremamente diferente do Kyu que ele conhecera, mas aquele homem com quem ele vivia, e que tão rapidamente livrara-se das amarras de seu passado ainda o amava. Ele ainda era o mundo de Changmin, era seu maior motivo para sorrir. Kyu pendeu o corpo para frente concluindo sua declaração com um beijo, no qual suas línguas dançaram uma sobre a outra, saboreando palavras não ditas. Quando seus lábios se afastaram e seus olhares voltaram a se encontrar, eles sentiram tocar suas peles o vento que vinha do mar.

Kyuhyun sentou-se sobre a toalha e Changmin levantou seu tronco, e quando os dois finalmente olharam em direção ao mar, perceberam que seu dia ensolarado havia chegado ao fim. Eles sentaram-se de mãos dadas lado a lado e observaram, o céu, antes azul claro, ganhara uma coloração escura que avançava para onde eles se encontravam, encobrindo o sol e tornando a praia com uma tonalidade acinzentada.

Primeiro veio a escuridão, o vento e então os trovões começaram, como se a natureza ressonasse sua raiva pelos céus, assustando os seres menores. Então vieram os raios, que castigaram as águas, onde os olhos do casal já mão mais alcançavam. Eles caíam sobre as águas, dividindo o céu em um espetáculo de luz fascinante ao mesmo tempo assustador. E antes que percebessem, a chuva os alcançou e eles se viram obrigados a correr e se refugiar em uma barraca na orla da praia.

Somente quando as gotas pesadas diminuíram, eles puderam tomar seu rumo novamente para Seul, deixando para trás as boas lembranças, as declarações de amor e a orla da praia, a única testemunha de suas sentimentais declarações. A tempestade os perseguiu e quando chegaram à cidade, Seul não somente era castigada pela chuva, mas também por uma queda de energia que deixou o local ainda mais sombrio. As luzes bruxuleantes das velas, saíam pelas janelas das casas, nas ruas por onde o casal passou, os fazendo sentir-se ínfimos diante de tal evento. E foi na penumbra que eles adormeceram, sem fitar os olhos um do outro, apenas sentindo em seu tato, a presença de seu amado ao seu lado.

 

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