Capítulo 48: The proposal

 

 

O ano letivo começou corrido para Kyuhyun, que fora nomeado professor de matemática financeira para um curso técnico de administração que a faculdade começou a fornecer para algumas empresas. O rapaz gostava de desafio e aprendera com Siwon a se organizar e preparar conteúdos e atividades com bastante antecedência e regularidade. Claro, aquilo tomava longas horas de seu dia e parte de suas noites que não eram assim tão livres quanto ele imaginara.

Não fora nenhuma surpresa quando as aulas começaram, que Kyuhyun caísse de cabeça em seu trabalho. Changmin esperava isso, não com animação, mas com um péssimo pressentimento. Assim como Siwon, Kyuhyun tornara-se professor universitário e parecia ter aptidão para tanto, principalmente depois do treino de oratória. Ele era claro, objetivo, esperto, tinha um raciocínio rápido e conseguia chamar a atenção sem muito esforço. Claro que cada sucesso seu o deixava ainda mais feliz.

O grupo de pesquisa de Siwon evoluiu, e só no primeiro bimestre eles publicaram dois artigos, um deles traduzido para outros cinco idiomas diferentes. Como principal colaborador, o nome de Kyuhyun aparecia quase sempre em evidência e sozinho ele produziu e publicou um artigo próprio, que também teve certa repercussão internacional. Ele era bom em defender teses, em embasar suas opiniões e Siwon o apoiava mais do que nunca, o afirmando que ele se daria muito bem em um mestrado.

Os meses se passaram e a cada dia, Kyuhyun chegava mais tarde em casa. Nos primeiros meses, Changmin o esperava, esquentava seu jantar, Kyu contava seu dia e eles iam dormir juntos. Com o tempo, Changmin não aguentava o cansaço de seu próprio emprego e adormecia sozinho, sentindo o cheiro dos cabelos de seu namorado somente em seu travesseiro, enquanto este se mantinha preso à faculdade e à Siwon.

Os finais de semana em que Kyu não trabalhava, ele visitava sua mãe. Algumas vezes, Changmin o acompanhou, sendo sempre muito bem recebido na casa dos Cho. Entretanto, nas outras vezes, ele passava seus finais de semana na casa de Yoochun com a companhia do casal. Jaejoong também recebeu Changmin sozinho algumas vezes nos primeiros meses daquele ano, uma vez que Kyuhyun sempre estava ocupado demais para acompanhar seu namorado em um mero jantar sábado à noite.

Agora com muito mais frequência, a presença de Donghae era importante para Kyuhyun, e vez ou outra o rapaz almoçava com eles. Claro que ele estava fascinado com a evolução de Kyu e orgulhoso daquele rapaz a quem vira crescer. No entanto, algo estava errado e era a primeira vez que ele via Changmin tão introvertido. O mesmo rapaz popular da faculdade, que conversava com todos era uma presença inanimada quando se sentava à mesa.

Donghae sabia que aquela amargura toda no rapaz era em parte influência de Yoochun, no entanto, sabia que ele não se abriria consigo, não depois dele julga-lo tão precipitadamente. Às vezes ele conversava com Hyuk que arrancava meia dúzia de palavras do rapaz, pouco antes de ir embora, quando já não daria mais tempo de aprofundar o assunto. Kyuhyun não fazia ideia de como sua ausência maltratava o psicológico de Changmin.

Enquanto Kyuhyun era sugado de corpo e alma pela universidade, Changmin apenas desabafava com Yoochun que tinha cada vez mais certeza de que o rapaz andava retraído, e apenas ele sabia o quanto aquilo era devastador para seu amigo. Kyu sequer tinha ciúmes de Yoochun nos últimos meses, ele não tinha tempo para pensar sobre o assunto e caso Changmin quisesse seria o momento propício para trair seu namorado.

No entanto, não era o que ele queria, ele queria um relacionamento saudável e estava cansado de brigar por isso sozinho. E ele bem sabia que aquilo não era somente cansaço físico, mas sim, um cansaço psicológico que parecia sugar suas energias, como se ele tivesse pulado em um vácuo e não visse mais um futuro brilhante como meses antes. Assim como Yoochun previra, ele era uma bomba relógio, e faltava apenas um pequeno deslize, uma pequena cena egoísta e tudo iria para os ares.

No entanto, o deslize não foi tão pequeno, e naquela noite quente de primavera, levando uma torta nos braços Kyu não parecia perceber que sua novidade não seria agradável para Changmin, ou ele não desejava aceitar. A notícia viera de Siwon no fim do expediente, e Kyu ficou fascinado com a ideia. Era a oportunidade perfeita, e talvez fosse única. Ele era jovem, por que não arriscaria afinal?

Ele chegou em casa e a encontrou silenciosa. Kyuhyun deixou os sapatos na porta e adentrou a sala, encontrando a mesma impecável, o que indicava que Changmin estivera ali. Kyu passou pela cozinha e encontrou seu jantar coberto como de costume e então, ele deixou a torta sobre a mesa e a passos largos seguiu pela casa à procura de Changmin. Seu namorado estava no quarto, em um pufe que ele havia adquirido há pouco tempo.

Kyu fitou a silhueta de Changmin que cochilava sobre o estofado, com um romance qualquer aberto sobre suas coxas. Ele estava cansado, Kyu podia ver nas feições do rapaz, e nas olheiras discretas em torno de seus olhos, ao que o rapaz atribuía ser o stress comum do trabalho. Kyu ajoelhou ao lado de seu namorado e acariciou seus cabelos, o vendo acordar sobressaltado, fazendo o menor rir discreto de seu susto.

– Que horas são? – Indagou Changmin atordoado.

– Não é muito tarde, eu cheguei cedo hoje. – Disse um sorridente Kyuhyun.

– O jantar está na mesa, eu vou me deitar.

Changmin fez menção de se levantar, no entanto, Kyuhyun jogou seu peso sobre ele e beijou seus lábios demoradamente, esperando o rapaz corresponde-lo antes de sair de cima de seu corpo. Kyuhyun levantou de um salto e estendeu a mão a seu amado para que ele também se levantasse e assim Changmin o fez, estranhando as atitudes de seu namorado e ainda mais aquele sorriso animado dele.

– Andou bebendo, Kyuhyun?

– Só uma taça de champanhe. – Afirmou Kyuhyun. – Vem eu comprei torta, você não quer experimentar?

– Champanhe e torta, qual a ocasião? – Indagou Changmin virando-se de costas para poder arrumar a cama. Ele estava com um mal pressentimento.

– Vem aqui e eu te conto.

– Príncipe, eu estou cansado.

– É só um pedacinho de torta e depois eu te deixo dormir.

Changmin afofou o travesseiro e o posicionou sobre a cama antes de se voltar para seu namorado e Kyu o estendeu a mão. Eles caminharam de mãos dadas como há meses não faziam e ao chegarem à cozinha, Kyu o soltou para poder cortar a torta. Changmin sentou-se e bocejou demoradamente, já imaginando que o artigo de Kyu deveria ter sido traduzido para outra língua ou que ele e Siwon escreveriam um livro ou algo parecido.

– Changminie, lembra que eu e o Siwonie mandamos o nosso projeto para a faculdade que ele trabalhava? – Indagou Kyuhyun.

– Sim, eu lembro.

– Eles nos fizeram uma proposta, para nós dois.

Changmin sentiu seu estômago pesar e certamente aquela torta que seu namorado servia não parecia mais tão apetitosa, assim como seu sorriso não era mais atraente e sim, irritante. O coração de Changmin falhava as batidas, enquanto a insensibilidade de Kyu envenenava sua alma, na verdade, arsênico deveria ter um sabor mais doce do que aquele momento e ele nem havia chegado ao seu final.

– Que tipo de proposta?

– Mais ou menos como a que o Wonie recebeu quando tinha a nossa idade. – Explicou Kyuhyun. – A diferença é que eu continuaria como professor de curso técnico e ele seria o diretor do curso de ciências econômicas. No memorando, eles disseram que com mais recursos, nós teríamos a capacidade de publicar livros e…

– Por quanto tempo? – Interrompeu Changmin sem dar atenção ao prato a sua frente.

– Você não parece ter gostado muito. – Disse Kyuhyun deixando seu prato sobre a mesa. – Eu estou tendo meu trabalho reconhecido, Changminie, por que…

– Por quanto tempo, Kyuhyun?

– Eu não sei. – Disse Kyuhyun soltando a pequena faca e se sentando de frente para seu namorado. – Mas é uma boa notícia, Changminie.

– Boa pra quem? – Disse Changmin cruzando os braços em frente ao peito.

– Changmin, eu tenho…

– Vamos parar de falar de você por um segundo, por favor. – Atacou Changmin. – Você é tão inteligente, Kyuhyun, por que não abre a sua mente e pensa, isso é bom pra quem?

– Pra mim e para o Wonie. – Respondeu Kyuhyun baixinho.

– Por que eu deveria ficar feliz? Se você está verdadeiramente pensando em me abandonar.

– Changminie, não é isso… – Changmin fez menção de sair da mesa, então Kyu o segurou pelo pulso. – Espere, por favor, vamos conversar. Você anda tão calado.

– Eu ando? E vamos falar sobre o que? A sua carreira? O seu emprego? A sua viagem? A sua inteligência, o quanto você é bem sucedido? Porque há muito tempo, é tudo sobre você nessa casa, Cho Kyuhyun! – Afirmou Changmin sentindo seus olhos arderem. – Sabe o que sobra pra mim?

– Pare com isso, Changminie, não é bem assim. – Defendeu Kyuhyun.

– Você passou meses me ignorando, eu passei do segundo plano para o último, porque todo o resto ficou na frente, aí quando você resolve falar comigo é porque está indo embora? – Disse Changmin, um tanto pausado quando as lágrimas escaparam sem seu consentimento. – Quando foi que eu passei de namorado pra “porra nenhuma” na sua vida?

– Changmin, não é bem assim, eu estava trabalhando.

– Ou estava com a sua família, ou com o Donghae, ou no quinto dos infernos, MAS NUNCA COMIGO! – Gritou Changmin.

– Você nunca reclamou!!! Não abriu a boca pra falar nada disso esse ano e agora em maio quer jogar tudo na minha cara??

– Eu estava tentando manter essa droga de relacionamento em pé, coisa que você, Cho Kyuhyun, não moveu uma palha pra fazer ainda!

– Porque não precisa, nós estamos bem!

– Ah, estamos ótimos! – Ironizou Changmin começando a caminhar de um lado a outro na cozinha. – Vamos ficar melhores ainda em um namoro a distância, não vamos? É isso o que se passa nessa sua mente infantil?

– Muitas pessoas ainda namoram a distância e hoje existe a internet, nós…

– Pode parar por aí. – Disse Changmin, indignado. – É sério? Sério mesmo que depois de tornar esse relacionamento um inferno você quer ir embora e quer que eu fique aqui, olhando? E o pior, você vai embora com o Siwon e quer que eu comemore com você? É sério, EM QUE MUNDO VOCÊ VIVE?

– Eu achei que você fosse ficar feliz comigo. – Disse Kyuhyun, assim como o outro, começando a chorar.

– FICAR FELIZ EM SER ABANDONADO? – Berrou Changmin empurrando a cadeira a sua frente para longe, vendo Kyuhyun se afastar, assustado e ele detestava aquele olhar.

– Eu pensei que nós poderíamos continuar namorando. – Disse Kyuhyun aos prantos.

– SEU CRETINO EGOÍSTA!! EU DEVIA TER TE TRAÍDO QUANDO TIVE A CHANCE AO INVÉS DE ESPERAR DE VOCÊ ALGO QUE NUNCA VOU TER!

– CALA A BOCA, CHANGMIN!

Changmin em um momento de lucidez lembrou-se do conselho de Hyukjae na noite da pior briga que eles tiveram: “Nunca deixar chegar longe demais”. Ele não respondeu seu namorado, deu-lhe as costas e chutou a porta quando saiu da cozinha. As lágrimas escorriam silenciosas enquanto ele revirava a sala atrás da chave de seu carro que não aparentava estar em lugar nenhum. Foi quando ele sentiu a mão de seu namorado fechar-se como uma garra em seu braço o obrigando a fita-lo.

– ME ENFRENTA SEU COVARDE! – Gritou Kyuhyun. – Ou você não sabe fazer isso sem me bater?

– O que você quer? – Disse Changmin, agarrando o outro pelo colarinho de seu terno. – Quer que eu humilhe você? Quer que eu liste todos os seus defeitos? Que mostre como você é infantil, egoísta, um completo babaca? O que você quer de mim, Kyuhyun?

– Quero você ao meu lado, como sempre foi. – Disse Kyuhyun entre soluços.

– De que adianta, eu estar ao seu lado, se você não está comigo? Eu estou com tanta raiva de você, que o que eu mais quero agora, é ficar longe de você.

– Changminie, por favor, não precisa disso, nós podemos resolver isso de outra maneira. Não precisamos gritar, nem chorar.

– Como pode me pedir pra não chorar quando eu olho pra você sabendo que logo você estará longe? Como você tem essa capacidade de esquecer de mim, e do que eu sinto, enquanto eu só quero saber se você está bem? Por que você ficou assim?

– PARE DE ME ACUSAR!! – Gritou Kyuhyun se desvencilhando do outro.

– A VERDADE DÓI, NÃO DÓI? – Atacou Changmin.

– Você é tão babaca! – Afirmou Kyuhyun dando as costas pra ele. – Só porque eu vou atrás do que eu quero, SÓ PORQUE EU BRIGO PARA SER ALGUÉM BEM SUCEDIDO? EU SÓ QUERO SER BEM SUCEDIDO!

– E EU SÓ QUERIA SER UM BOM NAMORADO! – Berrou Changmin. – Mas eu não basto pra você, você tem que ter o mundo aos seus pés.

– Eu não quero o mundo, eu só quero uma carreira! – Ralhou Kyuhyun. – É você quem não está satisfeito, Changmin, isso tudo não é suficiente pra você.

– Isso tudo o que? Esse apartamento? Esses móveis? É isso que é importante pra você? Nós não temos nada, Cho Kyuhyun, nada! Isso não é um namoro, é uma sociedade em que eu pago a conta de água e você de luz, não existe mais nada!

– Pare com esse drama! – Acusou Kyuhyun. – Você passou esse tempo todo ao lado do seu amiguinho Yoochun, e agora vem me cobrar?

– O Yoochun conversa comigo, ele olha pra mim, coisa que você não faz há meses!

– EU ESTAVA TRABALHANDO, PORRA!!

– E EU QUERO QUE VOCÊ PEGUE O SEU TRABALHO E ENFIE NO RABO!! – Retrucou Changmin.

– VAI PRO INFERNO!!

Kyuhyun virou-se repentinamente contra Changmin e o empurrou com força contra a pesada estante de madeira. O móvel balançou e Changmin viu ao seu lado a antiga boneca ali exposta cair ao chão, quebrando uma lasca do rosto delicado. Ele ia revidar, e chegou a erguer a mão no alto, pronto para estapear o rosto do rapaz, no entanto a feição assustada de Kyuhyun o fez recuar. Changmin baixou a mão trêmula e negou com a cabeça, finalmente voltando a falar com os dentes cerrados:

– Quer saber? Eu não vou te dar o gosto de se fazer de vítima de novo. Vai pro inferno, Kyuhyun.

Changmin pegou as chaves reservas de seu carro e sua carteira na mesa de centro, antes de se dirigir para a saída, ainda sob gritos e protestos de Kyuhyun, aos quais ele não respondera, pois sabia que bateria nele se o fizesse. E a única coisa que Changmin bateu aquela noite foi a porta de casa, deixando seu namorado aos gritos e soluços dentro daquele apartamento, ele precisava sair dali, precisava de ar fresco.

Changmin pegou seu carro e quando saiu da garagem, viu Kyuhyun sair correndo do prédio, ainda chorando e ele sabia para onde o rapaz iria. Kyu correu, como se sua vida dependesse daquilo e Donghae o viu pela janela assim que o rapaz apareceu em seu portão, ainda soluçando. Claramente se tratava de outra briga, e ele temia que mais uma vez, Changmin tivesse violentado Kyuhyun e em função disso correu ao encontro do rapaz.

Kyu não estava machucado, como ele pôde constatar quando adentraram em casa. Hyuk havia saído e Donghae havia ficado para preparar o jantar. Ele se sentou com Kyuhyun no sofá e deixou o rapaz chorar em seu ombro, sentido as lágrimas mornas molharem sua camisa, enquanto o outro desabafava. Ele demorou, mas seus soluços diminuíram e em seguida cessaram, deixando um Kyuhyun cansado deitado contra o ombro de Hae que apenas acariciava seus cabelos.

Hyukjae chegou e estranhou a cena, mas sabia que se havia algo errado, tinha haver com a novidade que Siwon dera-lhe por telefone. Ele estava se arrumando para voltar à Inglaterra e desta vez, levaria Kyuhyun consigo. Hyuk sentou-se ao lado do mais novo e acariciou os cabelos do rapaz que não o fitou, enquanto em sua mente, reverberavam as palavras de Changmin, como um disco riscado.

– Kyunie. – Chamou Hyukjae. – Andou discutindo com o Changmin?

Kyuhyun assentiu silenciosamente.

– Tem haver com a sua viagem?

– Que viagem? – Indagou Donghae desviando o olhar para seu namorado.

– Ele recebeu uma proposta para ir para a Inglaterra, com o Siwon.

– Quando ele recebeu isso? – Indagou Donghae o apertando contra seu peito.

– O Siwon me ligou agora há pouco. – Explicou Hyukjae.

– Eu achei que ele fosse ficar feliz por mim, que estivesse disposto a um relacionamento a distância. – Finalmente falou Kyuhyun, finalmente voltando a chorar. – Eu magoei ele.

– Tudo bem, não é culpa sua. – Disse Donghae acariciando os cabelos do rapaz.

– Mas Kyunie, lembra quando o Siwon foi embora? – Começou Hyukjae. – Você também ficou triste, foi bobagem sua imaginar que ele também iria gostar.

– Não é hora de criticar ele, Hyuk-ah. – Afirmou Donghae. – Ele está triste, deixe ele desabafar.

– Eu amo o Changminie.

Kyuhyun chorou horas a fio, até que finalmente aquilo passou e ele pôde se ajeitar na cama do quarto de hospedes de Donghae, com o rapaz ao seu lado, acariciando seus cabelos para que ele adormecesse. Claro que Kyu havia ficado tão eufórico com a notícia de Siwon que não percebera as implicações de se mudar, ele estaria longe de tudo que o rodeava naquele momento, além de perder suas chances de se redimir com Changmin.

Donghae encontrou seu olhar e por trás da preocupação, Kyu via certa melancolia. Abandonar Donghae era algo que não estava em seus planos, e ele não percebera que Siwon mais uma vez em sua vida ficaria acima de seus familiares. Hae deitou-se ao seu lado e eles se abraçaram, o mais velho selou seu rosto brevemente antes de dizer em tom sussurrado para que só Kyu ouvisse:

– Eu estou orgulhoso de você, meu menino.

– Hyung, eu não quero ir embora e te deixar aqui.

– E você vai me levar junto? – Riu-se Donghae. – Não, Kyunie, a sua carreira está no começo e esse é o momento de arriscar.

– E o Changminie?

– Ele? Bem, vocês vão ter que conversar melhor sobre isso e tomar decisões bem difíceis agora.

– Eu não quero terminar com ele! – Disse Kyuhyun, exaltado.

– Eu não falei em terminar, Kyunie, mas juntos ou separados, as coisas vão se complicar e o seu namorado já é complicado por natureza. Ele mudou muito desde que essa amizade com o Yoochun começou, ele anda rancoroso.

– Eu odeio essa amizade, ele mudou o meu Changminie!

– É, mas o Changmin se sente bem assim, e essa amizade não é o maior problema de vocês dois agora, certo?

– Amanhã eu vou conversar com o Wonie também, porque ele é esperto e sabe como lidar com isso.

– Não sabe não, ele te deixou arrasado. – Disse Hyukjae parado à porta, fitando os dois que se surpreenderam com sua chegada silenciosa. – A menos que essa seja a sua intenção, arrasar a vida do Changmin.

– Não, claro que não, hyung!

– Então é melhor descobrir uma maneira que se adapte ao que você precisa, ao invés de seguir os passos do Siwon como uma sombra. – Disse Hyukjae. – E até onde eu sei, essa viagem é só mais um dos seus problemas. Eu sei que você não quer terminar com ele, mas assim, não é saudável continuar.

– Ele me disse muitas coisas hoje. – Disse Kyuhyun, fitando os dois rapazes. – Ele está muito magoado, hyung, e não é de hoje.

– Não pense nisso agora, Kyu, vai ficar tudo bem. – Afirmou Donghae, o deixando esconder o rosto na volta de seu pescoço.

– Tente descansar, Kyu, vai ser um longo dia.

Kyuhyun assentiu, mas mesmo com os carinhos de Donghae em seus cabelos ele demorou a adormecer. Hae apenas saiu do quarto quando o corpo do rapaz pesou e sua mão não mais segurava a barra de sua camisa com firmeza, assim, ele deixou Kyu adormecido com sua porta entreaberta para que ele pudesse observa-lo caso o rapaz precisasse. Donghae o fitou demoradamente e finalmente saiu do quarto, encontrando seu companheiro na sala, fitando um filme qualquer na televisão.

Hae deitou-se ao lado do rapaz e se pôs a fitar a televisão, com os olhos atentos e perdidos em telas, pensamentos e saudade por antecipação. Mais tarde Donghae confidenciaria a seu namorado o quão injusto achava o fato de Siwon voltar e levar com ele aquele a quem eles eram tão apegados. No entanto, ambos sabiam que aquela decisão não era algo de que eles podiam participar, e sim, apoiar, fosse qual fosse.

Changmin dirigiu pela cidade, sem um rumo certo. Ele se esforçava para não chorar, não queria sua visão embaçada. As ruas passavam como borrões, em seu carro em alta velocidade, sem saber direito para onde ir. Ele precisava de um lugar para passar a noite e rondar a cidade aquela hora da noite não era uma atividade muito saudável. No entanto, a única coisa que passava por sua mente era que Kyu o estava abandonando e ele estava cansado demais para tentar convence-lo do contrário.

As coisas estavam desmoronando e o que Changmin mais temia estava acontecendo. Seu mundo estava entrando em colapso e não havia mais nada que ele pudesse fazer para que aquilo melhorasse. Já passava das onze da noite, quando ele decidiu tentar telefonar para Jaejoong e perguntar se ele poderia passar a noite em seu apartamento, no entanto, ele acabou se recordando que se tratava do aniversário de namoro dos dois rapazes e não desejava estraga-lo, afinal, eles deveriam estar comemorando.

Changmin estacionou o carro próximo a um parque que aquela hora da noite estava vazio e coberto por uma névoa fina. Ele pensava em seu namorado, seguro no colo de Donghae e ele ali, em completa desolação. Era como perder uma parte vital de si, mas não querer admitir que aquilo faria diferença, ou que era tão importante. Enquanto as lágrimas voltavam a escorrer silenciosas por seu rosto, ele sentiu o celular vibrar e cogitou desliga-lo prontamente, afinal, não era uma boa hora para conversas.

O nome de Micky piscando na tela o fez repensar. Há meses ele incomodava Yoochun com suas lamúrias e sabia que amizade alguma duraria se ele não mudasse seu discurso, ainda sem saber a preocupação que causava com seu silêncio. Ele engoliu seco e dolorido, mas finalmente levou o aparelho ao ouvido, ouvindo a voz tranquila de Yoochun do outro lado da linha chamando seu nome:

– Changmin? Cara, eu liguei na sua casa e ninguém atende, por onde você anda?

– E-eu não sei onde exatamente eu estou, hyung. – Disse Changmin com a voz trêmula, ouvindo o tom de Yoochun ganhar urgência.

– Como não sabe? – Indagou Yoochun. – O que houve?

– Eu preciso de um lugar pra passar a noite, não quero voltar pra casa. – Afirmou Changmin.

– Então vem pra cá! – Afirmou Micky.

– Hyung…

– Nem vem com essa de “não quero incomodar”, eu conheço essa ladainha. Anda, Changmin, quer que eu vá te buscar? Você andou bebendo? Se bebeu, não vá dirigir!

– Não hyung, eu não bebi. – Disse Changmin. – Eu só quero… eu não sei.

“Vem pra cá logo, Changmin!!” – Gritou Junsu do outro lado da linha.

– É, vem pra cá, aí nós podemos conversar melhor, está bem? Aí descobrimos juntos o que você quer.

Quando desligou o celular, Yoochun olhou para seu bem-humorado namorado. Junsu estava na escrivaninha terminando um relatório para o dia seguinte. Com o coração apertado, Micky se aproximou do outro e o abraçou pelos ombros, selando seu rosto demoradamente, o fazendo sorrir. Junsu deixou o computador por alguns segundos para selar seus lábios antes de voltar a atenção ao seu trabalho.

– Tem algo errado, Su.

– No meu relatório?

– Não, com o Changminie. – Afirmou Yoochun. – Eu acho que ele explodiu.

– Por que você acha isso?

– Ele não quer voltar pra casa, ele está muito confuso, não sei se eu não deveria ter ido buscar ele.

– Não se preocupe, logo ele chega e aí vocês conversam. – Junsu desviou o olhar da tela, para seu namorado que se afastava. – Faça ele falar, tudo.

Micky meneou a cabeça afirmativamente e acomodou-se próximo à janela, fitando o movimento enquanto esperava seu amigo. Ao rodar pela cidade, ele havia parado longe de onde o rapaz morava e por mais que não tivesse trânsito aquela hora da noite, ainda assim ele demorou. Yoochun começou a ficar preocupado com a demora do rapaz, e já estava pronto para ligar para ele, quando o viu estacionar em frente ao prédio.

Micky saiu em direção à porta e ficou no corredor esperando Changmin e quando o rapaz apareceu no elevador ele viu que este estava péssimo, como ele nunca havia visto. Changmin andou em direção ao outro que o segurou pelo antebraço como se quisesse impedi-lo de desmaiar ali, e talvez aquela preocupação não fosse nenhum absurdo. Assim que os dois entraram no apartamento, Junsu saiu do computador para fitar Changmin ser guiado.

– Tudo bem, Changminie? – Indagou Junsu assim que se aproximou do rapaz que não os fitava nos olhos

– Não muito, hyung.

– Vamos fazer assim. – Disse Junsu se abaixando ao lado de Changmin e repousando a mão sobre a dele. – Eu vou a cozinha, fazer um chá bem gostoso e você conversa um pouquinho com o Chunnie, o que você acha?

Changmin assentiu silenciosamente e Junsu se afastou, os deixando a sós.

– O que houve, Changminie? – Indagou Yoochun depois de arrastar uma cadeira e se acomodar de frente para o rapaz.

– Eu não sei por onde começar, hyung.

– É o Kyuhyun o problema, não é?

– É sim.

– Bateu nele de novo?

– Não, dessa vez quem me empurrou foi ele.

– Está machucado?

– Não.

– E por que ele te empurrou?

– Porque eu briguei com ele, porque eu disse a verdade.

– E qual é a verdade?

– A verdade é que ele não está nem aí pra essa droga de namoro, que eu carrego isso sozinho e que pra ajudar, ele vai pra Inglaterra com o babaca do Siwon!

– Wow! – Disse Yoochun erguendo o tronco, surpreso. – Ele vai pra onde com o Siwon? Fazer o que?

– Ele recebeu uma proposta, pra trabalhar na universidade com o Siwon. – Disse Changmin que não se lembrava de ter voltado a chorar. – Ele vai me abandonar!

– Ele te deu certeza?

– Ele achou que eu ficaria feliz, hyung! Ele achou que eu apoiaria isso também, e que não teria problema, porque nós poderíamos namorar a distância! Como alguém tem a capacidade de ser tão egoísta? Ele não pensou em mim por um segundo sequer!

– Nem você.

– O que?

– Você não pensou em você, por um segundo sequer. – Afirmou Yoochun. – Só pensou nele.

– Eu amo aquele cretino, amo mais do que eu consigo descrever!! – Disse Changmin finalmente escondendo o rosto para chorar. – Eu amo ele, e o que eu recebo em troca? Meses sem comunicação, e depois, ficar sozinho esperando que, com alguma sorte, ele volte de outro país.

Ao ouvir o rapaz voltar a chorar, Junsu saiu da cozinha com uma xícara de chá de cereja que ele encomendara do Japão. Ele se sentou ao lado de Changmin e o entregou o que fizera, segurando na base da xícara para que as mãos trêmulas do rapaz não derramassem o líquido fumegante. Yoochun se levantou e seguiu para o quarto de hóspedes, deixando Changmin aos cuidados de seu namorado, enquanto arrumava a cama. Ele estava irritado, e seu amigo precisava de uma conversa sensata, que o acalmasse.

Ele voltou a sala e encontrou Changmin com o rosto apoiado no ombro de Junsu que o deixou chorar, ele estava machucado, precisava chorar. Os soluços do rapaz preenchiam o apartamento, enquanto o casal tinha vontade de pegar o rapaz e correr dali para longe, para onde não pudessem julgar Changmin, ou machuca-lo. Yoochun voltou a se sentar de frente para o rapaz, e segurou suas mãos com firmeza, esperando que seu olhar desviasse para si.

– Vamos conversar a sério agora, Changminie. – Changmin assentiu e Junsu cogitou se afastar, mas o olhar de Yoochun o pediu em silêncio para que ficasse. – Vamos supor que ele não estivesse indo embora, que essa proposta não tivesse acontecido, onde vocês estariam agora? Não é no paraíso, é?

Changmin negou com a cabeça.

– Eu não quero que você pense que eu estou te dizendo pra terminar com ele, porque da última coisa que nós dois precisamos é de comentários como “ele terminou porque o Micky mandou”; mas vamos ser sinceros agora, não está dando certo entre vocês. – As lágrimas escorreram pelo rosto de Changmin quando Micky terminou a frase. – Eu sei que você tem lutado pra fazer funcionar, eu sei que esse relacionamento é importante pra você, mas também sei que você está cansado disso tudo. Olhe pra você, Changmin, quando eu te conheci você era cheio de vida, agora tem dificuldade até de falar como se sente, isso não está certo.

– Eu estou triste, hyung.

– Eu sei que está. – Afirmou Yoochun. – O que eu quero é que você pense no que é melhor pra você, esqueça o que é melhor para o Kyu porque ele é quem tem que decidir isso. Eu sei que isso é difícil, mas às vezes nós temos que admitir, que perdemos a batalha. Algumas coisas estão acima dos nossos esforços, e às vezes, faz parte da vida desistir, Changminie. Cabe a você, meu amigo, descobrir se esse é o melhor caminho, ou se insistir mais uma vez vai te levar a algum lugar.

– Changminie, se você optar pelo caminho mais difícil, eu quero que saiba que nós estamos aqui ao seu lado. – Afirmou Junsu. – Eu passei por isso, fui embora e deixei o homem que eu amava para trás e acredite, estar sem amigos quando o relacionamento acaba é devastador. Você pode chorar no nosso ombro, passar alguns dias aqui em casa, tirar férias do mundo.

– Eu sei o que eu devo fazer, mas tenho medo. – Confessou Changmin.

– Tudo bem ter medo, tudo bem chorar, não faz você menos homem. – Afirmou Yoochun. – Só não se deixe guiar pelo medo, ou ele vai manipular você.

– Chega disso, hyung, eu estou cansado.

– Está sim, eu sei que está.

Yoochun se levantou e abraçou Changmin pelos ombros, deixando que o rapaz chorasse ali. Desta vez, eles deixaram que o rapaz se acalmasse sozinho, quando o sono já não o permitia um raciocínio mais rápido. Ele sentia seu peito doer, no entanto, seu corpo clamava por descanso e ele precisava se deitar ou adormeceria apoiado no ombro acalentador de seu amigo.

Junsu não voltaria ao seu trabalho, e tratou de apagar as luzes, deixando seu apartamento em uma penumbra, para que o rapaz tivesse seu sono mais aconchegante. Ver Changmin sofrer partia seu coração, no entanto, aquilo era algo que estava fora de seu alcance. Yoochun o guiou até o quarto de hóspedes, e emprestou roupas confortáveis ao rapaz. Changmin se ajeitou embaixo de um fino cobertor, e Yoochun já ia apagando a luz para deixa-lo descansar quando, sonolento, ele o chamou:

– Chunnie-hyung.

– Diga, Changminie.

– Eu nunca deveria ter entrado no Candy Bar.

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