Epílogo

Era verão na Coreia do Sul e em Seul os coreanos aproveitavam a deliciosa brisa que indicava que a onda de calor começava a se dissipar. Os anos haviam passado, tão rápido que os olhos mal podiam perceber as mudanças. Seul cresceu, ganhou grandes complexos empresariais, e o número de habitantes cresceu e se modernizou com rapidez. Era uma cidade bonita, arborizada, tradicional e um lugar agradável para viver.

Donghae ainda morava na mesma casa pequena e discreta que comprara anos antes. Ele ainda dividia sua cama com seu companheiro, Hyukjae, a quem ainda amava mais do que sua própria vida. Eles cresceram juntos e apesar das desavenças comuns entre casais, eles eram felizes. Sua mãe já era uma senhora idosa e já não cozinhava nas festas de final de ano, assim como a cachorrinha Choco começava a dar os primeiros sinais de velhice. A senhora Lee tinha orgulho de seu filho, do que ele construira ao lado de Hyukie e dos caminhos que eles tomaram.

Hyukjae saiu de sua sala e encontrou seu amado sentado em uma poltrona na varanda de sua casa. A cachorrinha já não tão agitada estava deitada aos pés do rapaz, e Hae olhava para os passantes da rua com ar cansado. Os cabelos de Hyuk já estavam grisalhos em suas têmporas e ele tinha rugas nos olhos. Donghae também tinha seus cabelos brancos e um ar sábio, apesar de cansado, e as marcas em sua testa indicavam as preocupações que os anos deixaram sobre ele. Eles sentiam o peso da idade, mas sentiam se mais vivos do que nunca.

Trabalhar duro durante sua juventude deu aos dois rapazes uma vida confortável quando sua idade avançou. Diziam que a vida começava aos quarenta e em partes aquele casal acreditava nessa máxima. Depois de terceirizar a administração do Candy Bar, que agora era uma grande rede de bares destinados ao público gay e que fazia sucesso por toda a Coreia, os dois deixaram de lado a agitada vida da madrugada. Eles se aposentaram por conta própria e depois de deixarem a administração para funcionários escolhidos a dedo, trataram de fazer viagens que a falta de tempo antes não os permitira.

Eles agora se dedicavam às suas famílias e amigos, optando por uma vida tranquila naquele bairro discreto de Seul. Apesar de sua conta bancária estar cada vez mais cheia devido aos lucros do Candy Bar, eles não faziam questão de grandes luxos. Tinham seu carro, sua pequena e mimosa casa, e amigos que dinheiro nenhum podia comprar. Além de sua família, seus amigos eram para eles os maiores tesouros que o tempo dera aos dois, e eles sabiam que mesmo sem filhos, jamais ficariam sozinhos.

Hyukjae sentou-se no braço da poltrona e Donghae segurou suas mãos, fitando ali a aliança de ouro branco que ostentavam há anos. Eles selaram seus lábios discretamente, românticos como sempre foram e se permitiram trocar caricias, reafirmando silenciosamente o quanto ainda se amavam. Eles eram de longe um casal invejável por seu sucesso profissional e pessoal e o conforto que carregavam agora era resultado de seus esforços. Hyukie então pendeu o corpo e sussurrou algo no ouvido de Donghae, que prontamente concordou com seu amado. Eles finalmente se levantaram e decidiram se arrumar, afinal tinham um compromisso naquela noite.

Yunho cochilava sobre o sofá, ainda sem camisa e com sua calça brevemente abaixada. Apesar de ser um final de semana, ele ainda carregava consigo o stress de seu dia a dia, e o que melhor do que as mãos hábeis de seu namorado em suas costas desfazendo os nós de tensão na massagem mais relaxante que ele conhecia? Ele acabou adormecendo enquanto relaxava no sofá e isso deu tempo para Jae tomar um demorado banho e acomodar-se em um puff ao se lado para ler outro romance que havia adquirido recentemente. Ele ainda podia sentir o cheiro mentolado do óleo de massagem que usou em seu namorado, e aquilo também o relaxava.

Yunho abriu os olhos preguiçosamente, e percorreu o olhar pela sala até encontrar seu amado concentrado em sua leitura. O tempo havia sido generoso com Jaejoong que ainda não dava sinais de rugas ou cabelos brancos. Ainda assim, ele tinha feições maduras, apesar de ser delicado e ter os mesmos olhos grandes e lábios fartos. E aquele sorriso que Yunho tanto amava abriu-se assim que Jae percebeu que ele estava acordado. Nada poderia ser mais gratificante do que fitar aquele sorriso depois de uma boa hora de sono, e Yunho não resistiu em retribuir o sorriso.

Jaejoong parecia cansado, afinal administrar uma clínica de estética não era um trabalho fácil, mas ele amava o que fazia e tinha bons funcionários e clientes. Assim, ele sempre chegava em casa antes de Yunho e se perdia em sua cozinha, preparando um delicioso jantar que era sempre apreciado pelo mais velho. Antes de ele chegar, Jaejoong ainda tinha tempo de se exercitar, pois sabia que seu corpo bem trabalhado era algo que agradava seu amado. Yunho mesmo depois de tanto tempo ainda se perdia em suas curvas e nos músculos bem delineados de seu corpo.

Jaejoong abandonou o livro e se aproximou de seu companheiro, deixando um selar em seus lábios. Ele ainda se lembrava de quando era mais jovem e se surpreendia como o abraço daquele homem podia ser tão quente e macio, e como seu cheiro podia ser confortador. Ele se recordava do pavor que sentia ao perceber que não parava de pensar nele e como tudo parecia impossível quando Yoochun o relembrava que ele não era nada senão um apoio para aquele a quem tanto amava. Ele sabia que ao lado de Yunho seria feliz, apenas não conseguia imaginar o quanto.

Claro que eles tiveram suas desavenças e crises, a pior delas quando o avô de Jaejoong os flagrou aos beijos em uma praça. Ele achou que iria morrer, pois era muito apegado a ele, no entanto, Yunho era paciente e como um bom hyung o aconselhou e apoiou. Ele cogitou terminar tudo aquilo, escolher uma moça bonita e se casar com ela para que seu avô se orgulhasse, no entanto aquilo jamais funcionaria e ele jamais seria feliz ao lado de outra pessoa. Era com Yunho que ele estava destinado a passar o resto de seus dias e assim ele o faria.

Seu avô voltou a conversar com ele aos poucos e levou dois anos para que Yunho se aproximasse dele. Ainda hoje era tudo constrangedor entre os dois, no entanto, seu avô parecia finalmente ter aceitado sua condição. Ele não se orgulhava, tampouco se opunha. Assim eles aos poucos se estabilizaram, e viviam confortavelmente naquele apartamento belamente decorado por Jaejoong. Ele amava aquele lugar, e era o que alguém certamente chamaria de lar.

O relógio anunciou a chegada da noite, e eles trataram de trocar suas roupas por outras casuais e confortáveis. Seu carro os levaria para outro canto da cidade, onde eles seriam recebidos em um apartamento tão confortável quanto o deles. Era uma noite importante para eles, e eles sabiam que era algo bom o que estava por vir. As boas notícias os deixaram ansiosos e eles queriam ver com seus próprios olhos se o que souberam por telefone era verdade.

Junsu apertava insistentemente a buzina de seu carro, enquanto aos atropelos, Yoochun corria em direção a ele. Eles haviam acabado de chegar em Seul e já estavam atrasados para seu compromisso, devido ao trânsito. Por conta da pressa, eles não tiveram tempo de comprar um presente adequado e assim, pararam rapidamente em uma loja que sabiam que encontrariam o presente perfeito. Yoochun ficou responsável por escolher o que compraria e acabou exagerando e saindo do local com várias sacolas, além de um grande embrulho rosa separado.

Yoochun tomou o lugar do motorista, empurrando os presentes para seu namorado reclamão. Desde que eles decidiram morar em Jeju, suas idas para Seul eram sempre assim, cheias de reclamações e atrasos. No entanto, valia a pena todo aquele stress para rever seus amigos. A empresa que Yoochun e Changmin montaram juntos havia crescido e eles acabaram por expandir seu mercado para a deliciosa ilha de Jeju, que possuía empresas voltadas para o turismo e pouca concorrência para eles.

Assim, quando a filial de Jeju se consolidou, Yoochun partiu com seu amado Junsu para o paradisíaco lugar. Claro, deixar Changmin para trás fora um ato que exigiu demais dos dois, uma vez que eles haviam se acostumado com a companhia do rapaz. Eles sentiam muita falta dele, e tentavam manter contato por telefone, não somente para tratar de negócios, mas continuar os longos diálogos que tinham quando estavam juntos pessoalmente. Yoochun era quem mais sentia falta de seu amigo mais jovem, no entanto, o tranquilizava saber que ele estava bem e feliz.

Se adaptar a ilha de Jeju foi fácil, pois se tratava de um povo hospitaleiro. Eles construíram uma casa grande e confortável em um local um tanto afastado da cidade. Tinha uma bela vista para a paisagem natural e a praia era tão próxima que a brisa do mar no verão era algo delicioso. Yoochun fez questão de adotar dois cães de rua que animavam o local enquanto corriam pelo grande quintal, além de um gato gordo e preguiçoso que se aninhava aos seus pés nas noites frias.

Junsu assumiu um cargo ainda mais alto na empresa ao assumir a liderança da filial em Jeju e continuava com longas jornadas de trabalho, entretanto mudar de cidade já o deixava menos estressado. Ele ainda trabalhava muito, mas não enfrentava os problemas da cidade grande como trânsito e mau-humor. A vida em Jeju em geral era mais calma, as pessoas eram tranquilas, sorridentes e amáveis. Era a cidade perfeita para os turistas em busca de descanso e para Yoochun e Junsu em busca de sossego.

Seus amigos vez ou outra se hospedavam na grande casa que possuía dois quartos de hóspedes. A casa em Jeju era o novo ponto de encontro para as festas de final de ano e eles amavam receber hóspedes. Era quando eles podiam matar as saudades daqueles que ficaram para trás em Seul, saber de suas vidas, seus anseios e de como a capital continuava em constante evolução, enquanto eles se escondiam oportunamente naquele lugar.

Changmin era certamente o frequentador mais assíduo da casa daquele casal e assim como Kyu ainda se refugiava na casa de Donghae, Changmin fugia para a casa de Yoochun quando as coisas não iam bem. Como todo casal, eles tiveram ainda suas desavenças, mas aprenderam a lidar com elas sem se deixar levar. Yoochun adorava receber Changmin em sua casa, era quando ele podia sentar-se em sua varanda com uma cerveja em mãos e falar sobre o que viesse em sua mente.

Junsu também amava a companhia de Changmin, principalmente ao perceber seu grande acerto ao apoiar aquela amizade. Era algo verdadeiro, puro, que nem a idade ou a experiência apagou daqueles corações que se uniram solitários e amadureceram juntos. E Seul, Yoochun dirigiu com pressa pelas ruas da cidade e estacionou diante de um prédio grande, o novo apartamento de Changmin e Kyuhyun em um bairro nobre.

Eles não se demoraram a tomar o elevador, atrapalhados com os pacotes, sem saber que os outros convidados ainda não haviam chegado. Ao tocar a campainha, o casal foi atendido pela senhora Cho que com sua idade avançada ainda tinha muita energia. Os pais de Kyuhyun, sua irmã estavam acompanhados pelos pais de Changmin, enquanto esperavam o casal chegar. Yoochun e Junsu deixaram os presentes em um canto da sala e provaram do delicioso bolo que a senhora Cho havia preparado. Aos poucos, seus outros amigos apareceram e se acomodaram na grande sala de estar, faltavam apenas os donos do lugar.

Changmin estacionou o carro diante de uma casa grande e com aspecto antigo. O grande portão de ferro se erguia imponente diante do local que estava estranhamente silencioso. Kyu pendeu o corpo para frente espiando portão adentro em busca de feições conhecidas e então voltou-se para Changmin. Eles estavam ansiosos, ao mesmo tempo em que não cabiam em si de tanta felicidade. Eles deixaram o carro e rumaram para o portão, onde depois de algumas palmas foram atendidos pela sorridente e sempre prestativa senhora Jung.

– Elas estão esperando vocês.

A porta discreta do orfanato se abriu e no local as coisas não estavam assim tão silenciosas. As crianças estavam jantando e o barulho de pratos era abafado pelas vozes finas que conversavam, riam e gritavam entre si. Todas as crianças estavam acomodadas no refeitório com exceção de duas meninas, que se acomodaram na sala de espera com vestidos floridos e se distraindo com pequenos brinquedos de borracha em formato de bichos. Kim SunHee e Kim GaHye eram irmãs, a primeira era a mais velha de oito anos e a segunda com apenas quatro.

Elas carregavam consigo uma história familiar trágica, uma vez que seus pais eram usuários de drogas e foram pegos em flagrante tentando vender as duas meninas para um aliciador de menores que as levaria para a China. Seus pais foram presos e as duas ficaram dois anos no orfanato, até conhecerem Kyuhyun e Changmin. A mais nova chegou a várias fases de adoção e por pouco não foi separada de sua irmã, que devido à sua idade, seu gênio forte e ao comportamento anti-social tinha poucas chances de ser adotada.

A ideia de adotar uma criança veio de Kyuhyun, e Changmin a princípio se opôs, devido ao grande problema judicial que enfrentariam. Então Kyu começou sozinho a procurar os procedimentos de adoção a fim de verificar as possibilidades reais de ter um filho e depois de muitos “nãos” uma assistente social decidiu ajuda-lo com os trâmites. Foi quando Kyu e Changmin foram levados ao orfanato onde conheceram as recém-chegadas irmãs Kim. E foi a segunda vez que eles se apaixonaram à primeira vista, desta vez pelas duas menininhas.

Elas se aproximaram deles rapidamente e eles sabiam que elas deveriam ser suas filhas. Então veio o segundo problema, pois nenhum bom advogado na Coreia do Sul queria defender um casal homossexual no tribunal, e os que queriam, apenas estavam atrás de algum dinheiro extra e não pareciam verdadeiramente dispostos a dar continuidade com o caso. Foi quando Junsu indicou-lhes um advogado do Japão que trabalhara com ele por muito tempo e finalmente alguém aceitou a causa.

Claro que a conexão entre Coreia e Japão deixou as coisas mais caras e complicadas, mas finalmente eles tiveram alguma evolução. Claro que durante os dois anos de recursos e revisões de caso eles foram boicotados diversas vezes, inclusive forçando outros pais a brigarem com eles pela guarda da pequena GaHye. Só eles sabiam dos efeitos devastadores que essas ações tinham nas duas meninas que temiam ser separadas depois de tudo, além de temerem não ter mais contato com Changmin e Kyuhyun a quem eram tão apegadas.

A batalha judicial durou dois anos de grandes altos e baixos, o pior deles foi quando elas foram permitidas em seu apartamento para analisarem sua adaptação e após perceberem o quão felizes as meninas estavam, elas foram levadas novamente ao orfanato entre choros e gritos. Kyuhyun chorou uma noite inteira nos braços de seu desolado namorado que vira sua família ruir em poucas horas. Ele sabia que aquela batalha seria estressante, apenas não imaginava ter seu coração tão friamente despedaçado por aquela separação.

Eles pensaram em desistir naquele momento, no entanto, um juiz diferente assumiu o caso deles e este parecia ponderar melhor os prós e contras de permitir definitivamente aquela adoção. E foi assim, que eles deram prosseguimento ao programa, passaram em todas as avaliações e apenas reprovaram no espaço de seu apartamento que era pequeno demais para duas crianças. Depois de comprarem um novo imóvel e mobiliarem um quarto para cada menina, eles finalmente tiveram o aval da justiça para leva-las para casa.

Então as meninas Kim SunHee e Kim GaHye ganharam novos sobrenomes, uma bela casa e pais amorosos. A inocência infantil não as permitira julgar seus pais por sua sexualidade, por mais maldosos que fossem os comentários que ouviram, elas se apegaram a eles e brigaram por sua causa tanto quanto seus pais. Aquele era o dia que elas seriam levadas para casa, e uma festa fora preparada para a recepção das duas novas integrantes da família.

Assim que os dois rapazes chegaram à sala de espera, as duas ergueram os olhos para eles e deixaram seus brinquedos de lado para correrem em sua direção. Era o seu grande dia, o momento em que finalmente elas tinham uma família. Não era uma família tradicional, mas era cheio de amor e respeito e é disso que crianças precisam. Changmin não segurou suas lágrimas quando os bracinhos de GaHye envolveram seu pescoço em um abraço apertado. Ele era pai, assim como seu amado Kyuhyun.

Enquanto carregava SunHee em seu colo, com os dedos da mão livre entrelaçados aos de Changmin que se perdia em uma conversa infantil com sua filha, Kyuhyun pensou no seu eu de anos atrás. Ele se lembrou do momento em que abandonou o sonho de constituir uma família, por uma brilhante carreira profissional. Sua carreira ainda era boa, ele ainda era um bom professor universitário e os lucros da empresa de Changmin davam a ele uma vida confortável. Aquilo era bom, mas não era a verdadeira felicidade.

Para que eles fossem plenamente felizes os dois tiveram que, juntos, voltarem as suas raízes e aos sonhos que haviam deixado para trás. Finalmente eles perceberam que ter uma família era seu sonho e que duas filhas apenas fariam aquilo mais completo, mais perfeito. Nenhum prêmio, nenhum reconhecimento, nenhum elogio por seu sucesso profissional se equiparava à felicidade de entrar no carro com o homem a quem amavam e suas filhas, com quem agora dividiriam suas vidas.

Quando eles chegaram ao novo apartamento, seus amigos já estavam devidamente reunidos. Todos eles já conheciam as duas crianças, e estavam felizes em compartilhar aquela felicidade com o casal. Os pais de Kyuhyun e Changmin mal podiam acreditar que mesmo depois de tudo, eles haviam finalmente se tornado avós. No caso dos Cho, pela segunda vez, uma vez que Ahra tinha seu próprio filho em seu casamento. A festa ganhou ânimo quando as duas meninas adentraram à sala.

Donghae mal cabia em si de felicidade e passou a noite paparicando as duas pequenas como fazia anos antes com Kyuhyun. Changmin riu ao ouvir Yoochun dizer que além de dois pais, as duas agora teriam também três avós, já que Donghae havia tomado aquele posto para si. A maioria das bonecas que enfeitavam os novos quartos das meninas fora ele quem dera, enquanto os utensílios mais práticos vieram de Hyukjae, como lençóis e produtos de higiene e beleza próprios para crianças.

No entanto, naquele dia Yoochun também havia exagerado nos presentes. Ele saiu da loja de brinquedos com jogos para meninas, brinquedos de plástico como panelas e utensílios domésticos e o grande pacote contendo um grande urso rosa de pelúcia que adornaria o quarto da mais nova por possuir mais espaço. E apesar de ter acusado Donghae, foi Micky quem sentou no chão do quarto e brincou de bonecas com as duas por boa parte da noite, sob o olhar carinhoso de seu Junsu.

Jaejoong levou para Changmin e Ahra um kit com óleo de massagem para crianças, indicado para que elas relaxassem a noite antes de dormir. Ele ainda os ensinou algumas técnicas de massagem, e os avisou que se precisassem de qualquer ajuda era só avisa-lo. Yunho distraiu-se em uma conversa com os pais de Changmin, admirando-se com o orgulho que eles sentiam de seu filho por brigar tão bravamente para constituir uma família.

Changmin tinha suas inseguranças no começo, mas ao final, percebeu que dar uma nova chance a Kyuhyun fora a melhor atitude e aquele dia era sua grande comprovação. Kyu aprendeu a duras penas o valor que deveria dar ao seu relacionamento e por mais que eles ainda discutissem, as coisas acabavam se resolvendo com o tempo. Eles não eram perfeitos, mas se esforçavam para que as coisas funcionassem.

A noite passou rapidamente, e as duas crianças adormeceram antes que os adultos fossem embora. A mais nova nos braços de Jaejoong que resolveu contar-lhe uma história de sua infância e a mais velha ao lado de Junsu que na varanda mostrava as estrelas e dizia os nomes de constelações e lendas antigas. Elas nunca haviam sido tão felizes como naquela noite e mal sabiam a felicidade que seus sorrisos inocentes traziam para os adultos ali reunidos.

Depois de deixar a pequena GaHye na cama e recostar a porta de seu quarto, o deixando iluminado por apenas um abajur em formato de bichinho, Changmin checou sua filha mais nova e depois seguiu para a sala, observando que seu namorado estava sozinho na pequena sacada fitando a cidade. O mais alto atravessou a sala que ainda comportava seus convidados e uniu-se ao seu namorado. Kyu desviou o olhar para ele e sorriu, aquele sorriso que Changmin tanto amava, e que o certificava que o menor estava tão feliz quanto ele.

– Está feliz, meu príncipe?

– Muito, Changminie. – Afirmou Kyuhyun. – Afinal, as coisas deram certo para nós, você não acha?

– Acho que sim. – Disse Changmin o abraçando pela cintura – Agora eu sou pai, Kyunie e você também.

– Acha que nós seremos bons pais?

– Somos bons maridos, não somos? Esse deve ser o primeiro passo, e olhe lá dentro. – Changmin apontou pela porta de vidro da sacada e disse sorrindo. – Nós vamos ter ajuda, não estamos sozinhos.

– Eu sei que vamos. – Disse Kyuhyun aproximando seu rosto do outro e roubando um beijo discreto de seus lábios que foi prontamente correspondido. – Eu te amo, Changminie.

– Eu também te amo, meu príncipe.

E de mãos dadas eles voltaram para a sala, onde as pessoas que amavam e em quem confiavam estavam reunidas. Seus amigos e parentes olharam para o casal com ar carinhoso, compreensivo e cheio de orgulho. Os anos apenas uniram mais aquele grupo que deixou as desavenças no seu lugar e apenas olharam para o futuro. Eles se entendiam e se completavam, e aquilo que começou no pequeno Candy Bar no subúrbio seguiria com eles até o fim.

Aquela noite era um recomeço para os dois rapazes, o limiar de uma nova fase que tomaria suas vidas por completo. Eles se amavam ainda mais, e agora tinham com quem dividir aquele amor que não cabia em seus corações e transbordava pela ponta de seus dedos. Kyuhyun e Changmin conquistaram tudo o que um homem deseja na vida, realizaram sonhos e se amaram até o fim de seus dias, provando assim que o amor está acima de gênero, da sexualidade e dos defeitos. O amor de Changmin e Kyuhyun era algo puro, que se instalou sem pedir em seus corações e os guiou para uma vida plena e feliz.

 

Era uma manhã chuvosa em Londres e a cidade tinha seu céu em um tom cinza e uniforme. Siwon acordou com os barulhos altos dos trovões que ecoavam pela capital, e seu ouvido captou o som da chuva que se chocava com a grande porta de vidro de seu quarto, sendo levada pelo vento. Ele abriu os olhos e estranhou o quarto vazio, uma vez que sempre acordava primeiro.

O lado direito de sua cama ainda tinha os lençóis amarrotados e o cheiro daquele que dividia o quarto consigo ainda estava impregnado no local. Siwon sentou-se na cama procurando seu namorado, ainda sem saber onde este se encontrava. Ele se levantou e vestiu uma camisa confortável que combinava com seu pijama cinza e de tecido mole, para por fim escovar os dentes e sair pelo luxuoso apartamento em busca de seu namorado e é claro, um merecido desjejum.

Assim que chegou à sala ele ouviu a porta destrancando e Jungsu adentrou o local, com um saco de papel com uma baguete saindo pela abertura e outros petiscos que Siwon desconhecia. O rapaz loiro, nascido na Coreia e criado na Inglaterra, era mais baixo que Siwon e tinha o sorriso mais lindo que aquele professor já vira. Ele estava com a barra da calça molhada, assim como a ponta de seus cabelos, por isso deixou o embrulho com Siwon e correu para o quarto a fim de se trocar.

Siwon seguiu para a cozinha e começou a retirar as coisas do pacote e servi-las sobre a mesa, sentindo sua boca salivar. Ele ligou a cafeteira e retirou o jornal entregue em seu correio do plástico que o protegia. Jungsoo voltou à cozinha, selou seus lábios e aproximou-se do fogão a fim de preparar ovos com bacon, o típico café da manhã londrino. Siwon ouviu a cafeteira apitar e serviu uma xícara de café para si e uma para seu namorado que o agradeceu com seu delicioso sorriso.

Siwon o retribuiu rapidamente e então se aproximou da mesa, começando a folhear seu jornal. Antes de chegar à sessão de economia, ele percorreu seu olhar rapidamente pelas outras páginas, se prendendo a algumas poucas chamadas. Pouco antes de pegar a sessão que realmente o interessava, uma pequena nota no final de uma página logo ao lado de uma grande propaganda que a ofuscava, chamou sua atenção.

Justiça coreana aprova pela terceira vez a adoção por um casal homossexual.

“Saiu nesta sexta-feira a decisão final do processo iniciado por Cho Kyuhyun e Shim Changmin pela adoção de duas crianças. É a terceira vez que a corte da Coreia do Sul aprova adoção por pares homoafetivos. ONG’s defensoras dos direitos dos homossexuais afirmam que esta é uma grande evolução para o país e que deveria servir de exemplo para as demais nações.”

Não havia mais explicações, ou sequer uma foto dos dois rapazes. Apenas a informação de que Kyuhyun, a quem ele tanto admirava, e o homem que tanto amou quando mais jovem, agora era pai. Ele havia feito sua escolha, o que na época Siwon achou errôneo. Achou que ele voltaria para Londres logo que enjoasse de Changmin ou se frustrasse com a Coreia, mas ele não voltou, ele não pertencia a Inglaterra e Siwon não havia percebido isso até saber como ele estava bem londe dali.

O pessimista Siwon não acreditou que algum dia pudesse voltar a sentir orgulho de Kyuhyun como sentiu em sua formatura, ou quando ele ganhou seus prêmios. No entanto, lá estava ele, mais orgulhoso do que nunca, principalmente por Kyu não ter dado-lhe ouvidos e por tê-lo enfrentado no momento certo. Se não o tivesse feito, certamente ele não seria feliz. Siwon também se surpreendeu ao pensar em Changmin como alguém de sucesso, apesar de ter seguido um caminho diferente. Ninguém mais faria Kyu feliz daquela maneira, ou entraria em uma empreitada como aquela contra o poder judicial coreano.

Siwon deixou um sorriso bobo brincar em seus lábios, e sentiu as mãos firmes de seu namorado envolverem sua cintura e recostrar o rosto em seu ombro. Ele estava feliz pelos dois rapazes e rezou em silêncio para que as coisas dessem certo entre eles e que fossem felizes. Ao final, Kyu havia feito sua escolha e ele havia acertado em cheio, assim como Siwon ao admitir que jamais faria aquele rapaz feliz novamente, pelo menos não tanto quanto Jungsu era feliz ao seu lado. E aquele sorriso iluminado e seu beijo terno eram a grande prova disso.