Capítulo 51: Time goes by

 

Kyuhyun apertou o cachecol contra seu corpo quando adentrou o campus, trazendo consigo um copo de isopor contendo um café expresso que o aqueceria naquele dia estranhamente frio. Ventava muito na cidade, as folhas secas estavam espalhadas por todos os lados, assim como as pétalas mais frágeis, deixando um cenário colorido e ao mesmo tempo, melancólico. Ele atravessou o campo aberto, fitando os poucos alunos que ocupavam o lugar naquele momento, sentados em bancos estrategicamente posicionados embaixo das árvores, enquanto liam ou ouviam música, esperando suas aulas começarem.

Oxford tinha um campus magnífico e fazia pouco mais de dois anos que Kyuhyun lecionava ali, para o curso de economia e matemática, além de estar cursando seu próprio mestrado na instituição. As olheiras em sua pele clara indicavam que há muito ele não tinha uma noite apropriada de sono, no entanto, aquela era sua rotina. Um professor universitário, aluno de mestrado, coordenador de grupos de estudo e projetos de pesquisa, coisas demais para uma única pessoa.

Ele adentrou o prédio rústico e de arquitetura antiga, e subiu suas antiquadas escadas em direção à sua própria sala de aula. Seus passos ecoavam solitários pelo prédio, o que não era assim tão incomum de acontecer. Ele destravou a porta que rangeu quando se abriu para uma sala de aula vazia, com suas janelas cobertas por pesadas cortinas de linho em azul escuro, as quais ele abriria uma a uma, até que o local estivesse devidamente iluminado, apesar de se tratar de um fim de tarde.

Kyuhyun deixou seus pertences sobre a mesa e tomou a cadeira para si, onde se acomodou, para corrigir trabalhos de seus alunos. Os artigos encadernados estavam amontoados à sua frente, esperando que seus olhos analíticos os criticassem para que eles pudessem evoluir. Trabalhar em Oxford era pesado, mas gratificante, apesar de muito solitário. Kyu não tinha amigos na Inglaterra, não se expunha aos seus colegas de trabalho ou alunos e seu contato social se resumia àquele que abriu as portas de sua carreira, Choi Siwon.

O diretor do setor de exatas de Oxford, Siwon morava em um luxuoso apartamento no centro de Londres. Ele crescera de forma exponencial em sua carreira desde que voltou à Londres e desde então era considerado um dos grandes teóricos das ciências exatas e ecomômicas. Siwon não só publicara livros como ganhara prêmios e todos sabiam que ele estava muito próximo a ganhar um Nobel. Siwon era o melhor exemplo de pessoa bem-sucedida, e muitos o invejavam.

Kyuhyun deixou de inveja-lo depois de um ano ao seu lado, novamente como seu namorado. Ele gostava muito de Siwon, no entanto, aquele deslumbre que ele tinha quando mais jovem havia desaparecido na vida adulta e eles decidiram terminar. Siwon era cauteloso, não queria machucar mais uma vez aquele rapaz por quem tinha tanto carinho, no entanto aquele romantismo incurável de Kyuhyun o acabara afastando.

Kyu sabia que não amava Siwon quando aceitou seu beijo, quando deitou-se em sua cama pela primeira vez em anos e entregou seu corpo à mercê do rapaz. No entanto, ele precisava de um remédio para aquela carência, precisava preencher o vazio, precisava de apoio e Siwon estava ali, de braços abertos o esperando. Kyuhyun adentrou aquele relacionamento sentindo-se carente e saiu dele disposto a escolher a solidão como um modo de vida. E foi na solidão que suas próprias grandes produções saíram.

Kyuhyun publicou livros e artigos, alguns deles também premiados, o que abriu as portas de Oxford para si. Claro, Siwon ainda era seu mentor e na Inglaterra, ele também era seu melhor amigo. No entanto, o conceito de melhor amigo de Siwon era muito diferente do que ele tinha na Coreia, ele poderia desabafar com o rapaz, mas jamais se apoiar nele, muito menos esconder suas falhas por trás deste. Kyuhyun aprendeu a lidar sozinho com seus erros e esta foi a fase mais difícil de sua vida.

No entanto, ele aprendeu, mesmo que a duras penas. Claro que a solidão o deixou mais frio, e apesar de seu inegável romantismo, ele nunca mais se apaixonou. Era como ver o mundo sobre outra perspectiva, muito mais como expectador do que como ator da vida. Ele se habituou a solidão, e abraçou a rotina corrida como seu maior consolo. Trabalhar não o permitia pensar em outras perspectivas, por isso ele trabalhava o máximo que podia, até seu corpo gritar por descanso e ele se permitir adormecer.

O terceiro trabalho corrigido uniu-se a uma pequena pilha na ponta da mesa. Ele retirou os óculos e se espreguiçou demoradamente. Os trinta anos se aproximavam, mas ele sentia o peso de cinquenta primaveras em seus ombros e o cansaço mais uma vez tomava conta de seu psicológico. Kyuhyun se levantou e pegou o copo de café e se levantou de sua mesa. Já anoitecia e o câmpus começava a ficar iluminado pelos postes de luz artificial e as janelas das salas de aula.

Kyuhyun se aproximou da grande janela, deixando a brisa fria tocar seu rosto, enquanto distraído ele olhava para o campus da bela faculdade. Ao longe, seus olhos capturaram dois jovens, rapazes que estavam sentados um ao lado do outro ao ar livre. Os livros espalhados pelo chão indicavam que eles estudavam, mas os dedos entrelaçados de suas mãos que brincavam carinhosamente um com outro, indicavam que estavam apaixonados. E como Kyuhyun os invejava.

Foi inevitável pensar em sua própria graduação, quando anos antes ele se debulhava em livros ao lado de quem mais o fizera feliz. Era uma época tão mais feliz, uma época em que a solidão não era nem de longe uma opção para sua vida. A inveja em partes feria seu orgulho, pois em todos os aspectos de sua vida ele se sobressaia àqueles dois jovens. Eles almejavam o que ele tinha, sucesso, dinheiro, independência, enquanto ele silenciosamente invejava o que eles tinham.

Kyuhyun então voltou aos seus afazeres, antes que sentisse algo além de inveja, antes que o arrependimento voltasse, e a saudade se fizesse presente. Ele tinha trabalhos a entregar, não podia se deixar levar. Ele fizera sua escolha, e colhia os frutos da mesma, fossem eles bons ou ruins. Foi pouco antes dos alunos chegarem, quando Kyuhyun já terminava a última correção, ele ouviu batidas discretas em sua porta. Ele ergueu o olhar, e Siwon sorriu discreto para ele antes de adentrar a sala com um pequeno pacote em mãos.

– Hey, Kyunie.

– Olá, Wonie. – Disse Kyuhyun mais uma vez deixando os óculos de lado sobre a mesa.

– Eu te trouxe os presentinhos que o Donghae e o Hyukjae mandaram. – Afirmou Siwon se aproximando da mesa e o entregando o pacote. – Eles quiseram economizar no correio e mandaram pra minha casa.

– O que é? – Indagou Kyuhyun sorridente ao pegar o pacote para si e abri-lo. – Um suéter, porque o Hae-hyung ainda acha que eu passo frio.

Siwon riu e se acomodou ao lado do rapaz que retirou do pacote um pequeno porta-retratos com uma foto do casal. Assim como Siwon, eles possuíam uma feição mais madura, e Kyu via em Hyukjae os primeiros sinais de rugas ao lado dos olhos, mais evidentes com seu grande sorriso. Eles estavam em frente a outro estabelecimento recém-aberto, e se abraçavam sorrindo para a câmera.

– É o novo Candy Bar?

– O terceiro que eles abriram. – Afirmou Siwon. – Eles estão indo bem, Kyu, muito bem.

– Eu sinto falta deles. – Afirmou Kyuhyun se levantando e substituindo seu casaco pelo suéter de Donghae, como se de alguma forma aquilo suprisse a saudade que sentia de seu amigo.

– Eu também, na verdade. – Afirmou Siwon, vendo os primeiros alunos chegarem à sala. – Passe na minha sala depois da aula, teremos uma palestra para dar no próximo mês e eu quero você lá.

– Tudo bem, Wonie.

Kyuhyun sorriu para ele e depois para seus alunos, antes de voltar para suas correções enquanto aula não começava. Ele estava cansado, mas precisava ocupar a mente, caso contrário se deixaria levar como fizera no começo. Haviam alguns segredos de seu início em Londres que ele não dizia a ninguém e até mesmo Siwon desconhecia. Sobre como ele desejara ter feito outra escolha, como desejara ter tomado frente de sua própria vida e ficado com aquele a quem amava.

Depois de anos, ele não mais ousava pensar no nome daquele rapaz a quem deixara em Seul. Era dolorido demais pensar nele, e mesmo assim, sua memória insistia em guardar cada traço daquela feição bela e seus ouvidos ainda reconheceriam a voz aveludada e a risada gostosa dele. Era impossível esquecer Changmin, impossível se livrar daquele sentimento, de sua presença, da saudade, da amargura e do arrependimento que acompanhavam a imagem do rapaz.

Ele descobriu doloridamente que pensar em Changmin tornava sua vida um martírio, viver longe dele era torturante e doía mais do que qualquer coisa. Era como se ele tivesse uma doença crônica, algo do qual ele não poderia se livrar sozinho, mesmo que voltasse para Seul, mesmo que olhasse para ele, aquilo não teria fim. Foi com essa descoberta que ele mais chorou, até não haverem mais lágrimas para serem choradas, até que os soluços desaparecessem, e mesmo assim, aquilo não passou.

Em seguida, a morte pareceu algo amigável. No entanto, se havia algo que ele honrava em memoria a Changmin, era a sua decisão de não ser mais um ser egocêntrico, ele lutaria contra essa sua natureza. E quando a morte pareceu uma opção, ele pensou em seus pais, em sua noona, em Siwon, Donghae, Hyukjae, pessoas que se importavam e que sofreriam com esta decisão. Assim em meio a dor, ele venceu o egocentrismo e finalmente abraçou a solidão como uma nova amiga.

Kyuhyun sabia que se alguém se aproximasse demais, perceberia que ele tinha apenas uma sobrevida solitária, portanto ele se escondeu, e criou uma linda máscara de homem bem sucedido. Não era de todo mentira que ele era um homem bem sucedido, no entanto, era a maior mentira do mundo que aquilo era a felicidade. Afinal, ele era muito mais feliz, quando tinha seu mundo ao lado de seu amado.

Kyuhyun deixou a sala já a noite. Ele apagou as luzes, fechou as janelas, guardou seus livros e saiu dali. No final do corredor estava Siwon, perdido na leitura de um livro qualquer, outro homem solitário perdido na grande metrópole britânica. Kyuhyun adentrou sua sala e naquela noite ao menos ele teria companhia para jantar. Aquela era sua rotina, e aquele era o homem que ele se tornara, muito diferente do que ele almejava ser anos antes.

Ele voltou para seu apartamento, algo espaçoso e que tinha um ar todo próprio do rapaz. A decoração era agradável e ele desejava passar mais tempo lá, no entanto, sabia dos efeitos que passar muito tempo em casa traziam para seu psicológico. Kyuhyun retirou os sapatos e pisou de meias no tapete felpudo de sua sala. Ele tinha uma bela vista para a ponte de Londres, algo pouco apreciado por sua falta de tempo.

Ele fitou a cidade da grande janela de sua sala, e voltou a pensar no casal sentado no campus. Como deveria ser bom sentir sangue quente em suas veias novamente, e a palpitação em seu peito, o frio no estômago. Kyuhyun convivera com várias pessoas nos últimos quatro anos, para no final admitir, somente Changmin o fizera se sentir daquela maneira e ele se arrastaria aos seus pés, se tivesse uma segunda chance, por mais remota que fosse. Ele trocaria todas as suas conquistas, para se sentir vivo novamente.

 

Sete da manhã e o despertador tinha um barulho alto que incomodava Changmin, que rolou de um lado a outro na cama cogitando voltar a dormir. Ele desligou o aparelho e tratou de seguir para o banho, pois não poderia se atrasar. Com seu terno impecável, Changmin apenas beliscou seu desjejum e correu para o estacionamento, afinal não queria pegar trânsito, deixando instruções com a ahjuma que contratara para cuidar de seu apartamento.

Desde que mudara de ramo, Changmin se obrigava a ser a pessoa mais pontual, pois sabia que atrasos sempre significavam prejuízos, principalmente se tratando de clientes japoneses. Ele adentrou no carro que adquirira recentemente, e deu partida em direção ao estabelecimento de pequeno porte, mas que ocupava uma organização bem dirigida. Changmin era empresário, e sua empresa nunca fora tão bem como naquele momento.

Quatro anos antes, quando seu namorado partiu, Changmin decidiu mudar de vida e entrou em um processo de seleção para se tornar corretor financeiro, atraído pelas altas comissões oferecidas. Yoochun entrou na mesma vaga, com aquela constante vontade de equiparar seus ganhos aos de Junsu, o que trouxera alguns conflitos para o casal. Tudo melhorou quando Changmin e Yoochun foram escolhidos para corretores.

Eles descobriram rapidamente que trabalhar em equipe era mais lucrativo do que concorrer um contra o outro, e foi assim que eles trouxeram para si os melhores clientes. Em geral seu trabalho era convencer grandes empresários que seu capital estaria melhor cuidado nas mãos da financeira. Eles faziam trabalhos de contabilidade, investimentos na bolsa, além do manejamento de capital de giro das empresas. Era um trabalho difícil, mas os dois rapazes não demoraram a pegar o jeito.

Assim, quando já possuíam uma boa quantidade de clientes, eles decidiram arriscar e investiram em sua própria financeira. Em busca de melhores condições de trabalho, com um ambiente mais agradável, alguns de seus colegas decidiram deixar seu antigo posto e os seguiram para seu novo investimento. Assim nascia a companhia CY ltda.

Claro que nem tudo fora fácil para os dois rapazes, e eles tiveram grandes problemas e discordâncias no início, no entanto, as coisas seguiram seu curso natural e a grande e duradoura amizade deles não fora abalada. Fazia um ano que eles expandiram para o Japão, e mudaram de locação, permitindo-se abrir novos departamentos e contratar mais pessoas. Eles estruturaram departamentos de recursos humanos e marketing, e assim, tornaram-se bons empresários.

Changmin era considerado por seus funcionários um bom chefe, um homem bem apessoado e bonito, mas ainda assim muito solitário. Apenas Yoochun sabia de seu grande segredo, de seus motivos para manter-se longe de um relacionamento ao longo dos últimos anos. Sua vida pessoal era uma incógnita para a maioria das pessoas à sua volta A grande exceção eram as amizades que ele insistia em manter intactas, Yoochun, Junsu, Jaejoong e Yunho e é claro, Hyukjae e Donghae, de quem se reaproximara depois da partida de Kyuhyun.

Donghae nunca se desculpou, tampouco mudou seu comportamento, no entanto aquilo não mais atingia Changmin. Eles voltaram a conversar assim que Yoochun ofereceu seus serviços para cuidar do capital de giro do Candy Bar, e seus lucros foram bons o suficiente para que eles abrissem outros três bares espalhados pela cidade, todos voltados para o público homossexual. Changmin sentia-se orgulhoso de fazer parte do crescimento daquele local que significava tanto para ele.

Changmin adentrou sua empresa e sua secretária o seguiu o avisando que após a reunião com os japoneses, ele e Yoochun escolheriam os estagiários que começariam com eles naquele semestre. Se algo Siwon ensinara para Changmin, era que os grandes talentos estavam na academia e era de lá que eles tiravam seus melhores funcionários. Changmin adentrou sua sala e encontrou Yoochun bebericando um café, fitando papéis com ar sério.

– Bom dia.

– Bom dia, Changminie. – Afirmou Yoochun. – O Hyuk foi lá em casa ontem e perguntou por que você não foi na abertura do novo Candy Bar.

– Ah, hyung, eu estava com sono e decidi ir dormir. – Reclamou Changmin, deixando sua pasta sobre sua mesa que ficava do lado oposto da pequena sala que os abrigava. – Quando eles abrirem o próximo eu juro que vou.

– Eles sentiram sua falta. – Afirmou Micky, sorrindo a Changmin. – Eu estive pesquisando, e eu acho que nós dois precisamos de férias.

– Hyung, não dá pra largar isso aqui ao vento. – Afirmou Changmin. – Se você quer férias, podemos intercalar.

– Não, Changmin, eu tive uma ideia melhor. – Afirmou Yoochun se levantando de sua mesa e colocando um folheto sobre a mesa do mais novo. – Ontem o Junsu trouxe isso, é uma rede de palestras sobre economia, é meio caro, mas nós já investimos tanto nisso aqui, não seria de todo ruim investirmos em nós.

– Hyung, isso é na Inglaterra, nós não…

– Pense no assunto. Três dias de palestra, e nós podemos esticar por mais dois apenas para descansar. – Afirmou Yoochun. – Cinco dias não vai levar isso aqui a falência, nós temos bons funcionários que podem cuidar enquanto estamos fora. Anda, Changminie, eu ainda viajei com o Su, mas você não sai de Seul há anos, é uma boa oportunidade.

– Vai sair caro, hyung. – Afirmou Changmin, pensativo. – Eu não sei se isso pode dar certo, hyung, e não sei se quero conhecer Londres.

–  Se você quiser ir, eu começo a correr atrás disso. – Afirmou Yoochun. – Pense no assunto, depois você me dá uma resposta.

– Boa ideia, os japoneses devem estar chegando. – Afirmou Changmin se levantando. – Sala de reunião, hyung.

– Detesto quando a manhã é corrida. Eu nem acordei ainda e já tenho que fazer contas.

Changmin riu-se e eles saíram de sua sala, cada um com seu próprio notebook. Reunir-se com clientes era sempre complicado e cansativo, mas nada que eles não conseguissem resolver. Changmin surpreendia por fazer cálculos de forma rápida e precisa, e Yoochun era sempre muito influente. Eles eram uma boa equipe, apesar de seu negócio ser algo complicado. E aquela reunião não teve nada de diferente, ou surpreendente, apenas seus trabalhos no estado mais puro.

Pouco antes do almoço, Jaejoong chegou à empresa pois precisava da ajuda de Changmin e ele não gostava de lidar com seus funcionários. Jae agora tinha sua própria clínica de estética e relaxamento, e a empresa de Changmin cuidava de seu capital. Ele contratara uma recepcionista, mas ainda não sabia como remanejar seus ganhos para pagar a nova funcionária e assim, ele passou o resto da manhã e seu almoço com Jaejoong, enquanto Yoochun aproveitou seu tempo livre para almoçar com Junsu.

Changmin era bem sucedido, e aprendeu a crescer com a dor que sentiu ao ser abandonado. Ele agora era orgulhoso, e apesar de continuar carismático, era um rapaz discreto. Como empresário, não sobrava muito tempo para namorar, por mais que vez ou outra ele se sentisse demasiadamente carente. Changmin usou sua dor para impulsionar a carreira, ao invés de lamentar seu abandono e os resultados o deixaram mais do que satisfeito. Certamente ele era feliz, apesar de não se sentir completo.

Ele terminou seu almoço com Jaejoong prometendo ao rapaz que ele iria à sua casa aquele final de semana. Esse era um programa comum, ir a casa de Jaejoong, ou sair com ele e seu companheiro para um restaurante ou cinema, eram essas suas opções mais comuns de lazer. Além, é claro, da companhia de Yoochun e Junsu que eram constantes em sua vida. Ele nunca se sentia sozinho, e era agradecido aos seus amigos por isso.

Quando ele voltou de seu almoço, eles iriam para a seleção de estagiários e haviam pelo menos trinta jovens na sala de espera, jovens universitários que almejavam ser como eles. Os jovens estavam em uma sala, sentados em um grande círculo e já haviam passado pela primeira entrevista com os gerentes do RH, um deles já estava sentado ali com uma pilha de currículos à sua frente.

Yoochun adentrou o local logo atrás de Changmin, e o rapaz riu-se ao perceber que ele havia trocado de roupas. Eles seguiram para a grande mesa onde eles avaliariam os candidatos, afinal, ninguém era contratado ou dispensado da empresa sem o aval dos dois rapazes. Eles se acomodaram na grande mesa e ainda esperavam pela psicóloga que aplicaria a dinâmica de grupo, esta não era das mais pontuais. Changmin deixou seus olhos percorrerem os nervosos candidatos, mas seu olhar recaiu sobre uma moça sentada próxima a si.

Seu olhar parou sobre a moça, que não deveria ter mais de vinte anos, e tinha um livro em seu colo. Na capa, uma imagem qualquer e o título grande e prateado “Conceitos avançados de economia”, e na contracapa, letrinhas que ele não conseguia ler, e a foto de alguém que há anos ele não via, em quem sequer fazia questão de pensar. Changmin encurvou o corpo, então perguntou baixinho:

– O que você está lendo?

– Ah, é um livro chato da faculdade. – Respondeu a moça, se arrependendo assim que percebeu quem fizera a pergunta. – Na verdade, é um livro muito importante para as ciências econômicas, esse autor…

– Posso ver? – Indagou Changmin estendendo a mão e logo recebendo o livro da moça e o observando.

– Já leu esse livro? – Indagou ela.

– Na verdade não. – Afirmou Changmin. – Deve ser chato.

Changmin virou o livro e o fitou demoradamente. Um Kyuhyun alguns anos mais velho sorria para ele daquela capa. Ele se lembrou da conversa que o levou ao término de namoro, quando ele sorrira-lhe dizendo que a faculdade ofereceu recursos para eles publicarem livros. Ele não sabia nada de Kyuhyun desde sua última carta, mesmo tendo muito contato com Donghae e Hyukjae, o nome daquele rapaz é um assunto que não adentrava em seus diálogos.

Depois dos primeiros seis meses, Changmin abdicou de seus sentimentos para com Kyuhyun, e os guardou em um lugar de seu coração que somente ele conhecia. No entanto, sua vida sempre o pregava peças, e vez ou outra ele se lembrava daquele que fez seu coração bater mais forte. Bonecas de porcelana em prateleiras, ou ir à praia eram coisas que o faziam balançar, o deixavam melancólico por alguns dias, o que o excesso de trabalho não permitia acontecer por muito tempo.

Yoochun sentou-se ao seu lado e abriu um sorriso compreensivo ao reconhecer o homem na foto. Changmin percorreu os olhos pelo resumo do livro, além do pequeno currículo de Kyuhyun logo abaixo, indicando seus principais artigos e livros. Ele sentiu o braço pesado de Yoochun envolver seus ombros, antes dele erguer o olhar, novamente melancólico. Os anos tinham feito bem à Kyuhyun, ele continuava bonito, e tinha realizado o que desejava.

– Já leu algum livro desse autor, Yoochun-hyung?

– Por que eu leria? Ele é um chato.

Changmin riu discreto e devolveu o livro à moça que pouco entendeu das reações do mais velho.

– Um chato mesmo. E é por isso que eu acho que nós não devemos ir para Londres, tem muita gente chata lá.

– Você não quer ir então? – Indagou Yoochun brevemente desapontado, no entanto, ele se esquecera que aquela era a cidade onde Kyu residia.

– Vamos conversar mais tarde sobre isso, pode ser?

– Claro que pode, até porque, hoje é a noite do kimchi com frango e você vai jantar na minha casa.

– Senti que pra isso eu não tenho a opção de dizer não.

– Eu sei que você não tem compromisso essa noite, então não tem desculpa.

Changmin riu novamente do comentário do rapaz, e a psicóloga finalmente adentrou a sala, aos tropeços por estar correndo de salto. Ela pediu desculpas, enquanto Yoochun ria-se de seu deslize, e Changmin o cutucava por baixo da mesa. Ele adorava seu hyung, mas as vezes ele era tão bobo. Os testes duraram duas horas, e o resto do dia eles analisaram os candidatos, intercalando aquilo com seus outros afazeres, deixando a tarde tão corrida quanto a manhã.

Assim eles fecharam seu dia, e com alguma sorte não ficaram além do horário na empresa. Eles deixaram que a secretária fechasse o local e cada um em seu carro seguiu para o apartamento que Yoochun dividia com Junsu. Ainda era no mesmo local, no entanto eles haviam redecorado recentemente. Changmin adentrou o já conhecido local, lado a lado com seu amigo.

Changmin e Yoochun desde que abriram a empresa e começaram a ter seus lucros estavam no mesmo patamar profissional e financeiro. No entanto, se havia um momento que Changmin invejava seu amigo, era quando o via chegar em casa e Junsu o esperava ali. O rapaz ainda trabalhava muito, no entanto, as vezes se permitia deixar algumas coisas de lado e se dedicar  sua vida familiar, que na maioria das vezes se resumia a Micky. Essa era uma destas noites, pois quando eles chegaram, Junsu estava lá, com roupas confortáveis, remexendo algo delicioso em uma grande panela.

Changmin os observou como gostava de fazer, e se permitiu sentir sua dor de cotovelo. Micky o abraçou por trás e beijou o rosto de seu amado, que sorriu de forma divertida. Os anos haviam passado rapidamente para aqueles dois, mas eles ainda se amavam, como quando se conheceram jovens. Eles uniram seus lábios em um selar discreto, pouco antes de Junsu voltar-se para Changmin e cumprimenta-lo com um abraço. Assim começava sua noite, como varias daquelas noites nos últimos anos. Junsu serviu o jantar, sem pressa, contando-lhes detalhes de como estava seu próprio emprego, e depois ouvindo os detalhes da empresa dos dois rapazes.

– Sabe, Changminie, essa semana eu e o Junsu encontramos um cabelo branco em cada um. – Contou-lhe Micky, fazendo o mais novo rir.

– É a idade chegando, hyung. – Afirmou Changmin. – Já parou pra pensar que antes que você perceba, você estará grisalho, morando em uma linda casa a beira-mar com o Junsu-hyung?

– Claro que já. – Riu-se Micky. – E eu não me arrependeria de nada do que eu fiz ao longo da minha vida. E você, Changminie? A idade vai chegar pra você também meu amigo, e você tem que aproveitar.

– E é por isso que eu acho que vocês dois deveriam ir a esse simpósio em Londres. – Afirmou Junsu, servindo-se de outro copo de suco. – Eu não consegui te convencer a ter um novo relacionamento, Changmin, mas não quero ver você olhar para tras e achar que poderia te feito mais, que deveria ter feito mais. E se você quer conhecer o mundo, o momento é agora.

– Está na hora de nós investirmos em nós mesmos, Changmin, ainda vamos conhecer a Europa e tomar cerveja em um pub. – Afirmou Micky.

– O Junsu-hyung vem com a gente? – Indagou Changmin. – Você poderia ir não é, hyung?

– Bem que eu gostaria, mas não posso, Changminie. – Afirmou Junsu. – Mas eu confio em você, sei que não vai deixar meu Micky correr pelado pela ponte de Londres e nem escalar o Big Ben.

– Ah, mas aí perde toda a graça da história. – Riu-se Yoochun. – Anda, Changminie, vamos!

– Se eu não for, não vou ter paz, não é mesmo? – Afirmou Changmin, pensativo.

– Nunca. – Riu-se Yoochun. – Por que você não iria?

Changmin baixou o rosto e ficou alguns instantes pensativo. Yoochun e Junsu se entreolharam rapidamente, e logo voltaram-se ao rapaz, que finalmente se pronunciou:

– E se ele estiver lá? – Indagou Changmin.

– Se o Kyuhyun estiver lá? – Indagou Junsu. – Bem, isso pode ser meio constrangedor, mas não é nada demais, certo? Já fazem quatro anos, você seguiu a sua vida e ele a dele.

– E eu vou estar com você. – Afirmou Yoochun. – Vamos, Changminie, vamos viajar antes que eu fique velho demais para te acompanhar ou que o Junsu mude de ideia e não me deixe ir.

– Eu seria um bobo se perdesse tão ilustre companhia, não é, hyung?

– Um tremendo bobão.

Changmin riu-se e terminou seu copo de suco em um único gole. O jantar terminou naquele clima, eles rindo entre si, após saborearem tão deliciosa refeição. Changmin ainda ficou até tarde no apartamento de seus hyung-dul e depois seguiu para sua própria residência. Sua vida havia mudado tanto em quatro anos, e ainda assim ele se pegava sentindo-se inseguro, perdido. Ele ainda não conseguia dizer se aquela viagem era uma coisa boa ou não.

Depois de um demorado banho, e vestir roupas confortáveis, Changmin seguiu para sua sacada, já sentindo o cansaço em seus ombros. Há muito tempo ele não parava para pensar em Kyuhyun, no entanto, parecia que as coisas estavam conspirando contra ele. O rapaz se aproximou da beirada da sacada e fitou o céu, tão estrelado quanto a noite que fizera amor com ele no chão de sua cozinha.

Changmin fechou os olhos e a foto de Kyuhyun sorriu para si novamente. Um Kyuhyun com feições mais maduras, um homem mais frio do que aquele que ele conhecera na faculdade. Durante aqueles quatro anos ele evitou pensar no rapaz, e naquela noite ele se permitiu perguntar-se como ele estaria, se conseguira se acertar com Siwon, se era um homem feliz como Changmin era. Se ele ainda se lembrava do namorado que fez tudo por ele, a quem ele deixou para trás.

Changmin então sentiu seu peito doer, e sabia que era saudade. Ele jamais admitiria em público, nem para seus amigos mais íntimos, que sentia falta de Kyuhyun. Aconselhado por Junsu, ele tentou se aproximar de outras pessoas anos antes, no entanto, teve a mesma sensação de quando tentou renegar sua sexualidade. Kyuhyun era insubstituível para ele, no entanto, ele jamais admitiria isso.

E se ele encontrasse Kyuhyun? O ignoraria? Seria ignorado? Junsu falou em constrangimento, mas apenas Changmin sabia que seria muito mais do que isso. Seu lado covarde torcia para que Kyuhyun tivesse se mudado para Liverpool, Manchester ou algum outro lugar da Inglaterra ou da Europa. Que tivesse enriquecido e morasse em uma casa à beira-mar, longe de Londres.

No entanto, seu lado fraco, seu lado sentimental, aquele facilmente manipulável perfeitamente escondido por baixo da máscara do empresário, implorava para encontrar Kyuhyun. Não necessariamente para se aproximar dele, falar com ele, discutir o passado ou o presente, ele apenas queria vê-lo. Ele queria cruzar seus olhares com aqueles mares castanhos que o hipnotizavam. Certamente encontra-lo o tiraria da monotonia, e daria alguma emoção à sua vida.

Enquanto Changmin olhava para o céu estrelado pensando em Kyuhyun, na Inglaterra, ele também olhava para o céu nublado, do alto de uma das janelas do campus onde trabalhava e pensava em seu passado e é claro, em Changmin. No entanto, o único que derramava lágrimas doloridas, arrependidas e infelizes era Kyuhyun. Era quase como se ele sentisse os pensamentos distantes do rapaz tocarem sua pele, fazendo aquilo doer ainda mais.

A brisa da noite secou suas lágrimas, acariciou seu rosto e o consolou, fazendo-o lembrar que em algum lugar da Coreia, Changmin deveria estar sorrindo. Kyuhyun ainda era egoísta, e ele ser o responsável por trazer felicidade à Changmin, por mais que suas vidas estivessem há muito separadas. Finalmente, assim como ele fizera várias vezes em segredo, ele pediu aos céus, a quem o ouvisse, que desse-lhe uma segunda chance, fosse como fosse, ele não a desperdiçaria. E em algum canto da cidade, o Big Ben soou, anunciando o fim da tarde e o começo da noite. Era hora de se fantasiar de professor, as aulas iam começar.

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