Capítulo 53 – The most important decision

 

Changmin fitava o teto branco do quarto do hotel, com seu belo lustre de cristais. O único barulho no quarto, era a TV narrando um emocionante jogo de futebol com times famosos do país. Na cama ao lado, Yoochun fitava a televisão com algum interesse, tentando guardar em sua memória características daquele jogo para contar a seu namorado que era fã do esporte. Yoochun se imaginava dali alguns anos voltando àquele lugar com Junsu e o levando a um estádio para ver o jogo ao vivo.

O simpósio havia acabado e cada um levava um certificado de participação que incrementaria seu já extenso currículo. Não fora a tarefa mais fácil do mundo conviver próximo à Siwon e Kyuhyun nos últimos dias. Desde a tarde no café, Changmin fugia de seu ex-namorado por não ter resposta para seu convite. Ele queria declina-lo e seguir com sua vida, ao mesmo tempo em que a curiosidade insistia para que ele comparecesse ao jantar.

Changmin sempre se esquivava do rapaz, ou o respondia friamente quando era abordado, mas ainda assim o observava de longe, não somente em suas palestras, mas em todos os intervalos. Kyu ainda teria insistido em conversas mais longas com ele, não fosse sua obrigação de atender todos os que desejavam tirar suas dúvidas ou cumprimenta-lo. Assim, ele levou os dois dias para responder ao convite de Kyuhyun.

Kyu fora paciente, mas quando o simpósio foi chegando ao seu fim, ele começou a ficar ansioso. Changmin não o negava e mandava que seguisse sua vida, tampouco respondia ao seu convite. Ao final da última palestra do evento, Kyu correu para a saída onde sabia que Changmin passaria. Assim que o rapaz se aproximou ele o abordou e finalmente cobrou uma resposta, pronto para uma negativa.

No entanto, o rapaz aceitou seu convite e assim, eles combinaram que no dia seguinte Changmin iria conhecer seu apartamento e jantaria com ele. O mais alto saiu do local do evento com um pequeno papel com a letra bonita e encurvada de Kyuhyun, contendo seu endereço e telefone. Kyu queria que Changmin fosse por sua própria vontade, e se quisesse mudar de ideia e cancelar, ele teria sua chance.

Changmin não cancelou, por mais que tivesse pegado seu celular e discado o número diversas vezes durante a noite após o evento. Ele e Micky foram a um pub com música ao vivo e Changmin não conseguiu aproveitar completamente o momento. No dia seguinte, ele decidiu que aproveitaria Londres melhor com seu amigo e deixaria para pensar em Kyuhyun quando a tarde terminasse. E finalmente eles conseguiram se divertir.

Eles visitaram o Big Ben, passearam pela cidade, almoçaram em um restaurante típico e fizeram compras em uma rua comercial, levando consigo várias peças de roupas e presentes para seus amigos. Claro, Yoochun comprou vários mimos para Junsu, entre peças de roupas e utilitários eletrônicos. Eles ainda se deliciaram em uma loja de doces, e compraram tantos que ainda sobraria para a viagem de volta.

Quando voltaram ao quarto de hotel, Changmin tratou de tomar um banho e trocar de roupas. Ele decidiu trajar algo casual, entre elas uma camiseta branca estampada que comprara naquele dia em uma das lojas britânicas. Ele estava devidamente penteado e perfumado e apesar de um tanto atrasado, ele continuava ali, olhando para o teto, deixando sua mente descansar para uma noite que parecia fácil demais. Ele não acreditava na premissa daquele jantar, algo certamente daria errado, algo fugiria de seu controle ou pior, ele ainda se arrependeria de ter ido.

Quando o jogo chegou ao fim, Yoochun se levantou em um salto e se aproximou da cama do mais alto, deitando-se lentamente ao lado do rapaz que escorregou o corpo para dar espaço. Changmin desviou finalmente o olhar para o rapaz ao seu lado que sorria discreto. Ele acariciou o rosto do mais novo com a ponta dos dedos, o fitando fechar os olhos. Changmin estava nervoso, Micky podia ver isso nas íris do rapaz.

– Você vai?

– Vou, hyung.

– Por que?

– Porque eu não quero voltar pra casa e ficar pensando no que poderia ter acontecido. – Explicou Changmin. – Esse jantar tem tudo pra dar errado, hyung.

– Tudo e mais um pouco, Changmin. – Afirmou Micky. – Mas se você quer tentar, é por sua conta.

– Você iria?

– Você está falando com o cara que voltou com o ex depois de anos separado, eu não sou o melhor conselheiro aqui. – Afirmou Yoochun, virando-se na direção contrária e se esticando para pegar algo sobre o criado-mudo. – Se precisar, eu vou ficar aqui te esperando, e você pode me ligar.

– Não precisa, hyung, pode sair se quiser. – Afirmou Changmin, o fitando pegar sua mão e a aproximar de si.

– Não quero sair sozinho. – Afirmou Yoochun envolvendo o pulso do rapaz com a pulseira prateada que Kyuhyun dera-lhe. – Agora sim você está pronto.

– Se eu ligar, é porque deu tudo errado.

– Aí eu vou te buscar. – Afirmou Yoochun. – Agora vá, antes que você perca a coragem.

Changmin sorriu discreto e deixou um selar no rosto do rapaz, estalado e rápido, antes de se levantar e reunir o que levaria para a casa de Kyuhyun. Ele pediu por telefone que o recepcionista pedisse um taxi e minutos depois ele adentrava o veículo, repetindo o endereço escrito no pequeno pedaço de papel. Ele fitou as ruas da cidade distraidamente, enquanto sua mente calculava ao longo de todo caminho, tudo o que poderia dar errado.

Kyuhyun dispensou a empregada naquele dia. Ele queria ficar sozinho e se internou em sua cozinha a fim de preparar um prato inglês, imaginando que agradaria o paladar de Changmin. Ele assou carne de carneiro com cenouras, gratinou batatas com queijo cheddar e para o acompanhamento uma deliciosa salada colorida. Ele preparou um suco de morango com kiwi, tomando cuidado para que não ficasse doce demais e finalmente estava pronta sua mesa, com pratos de porcelana e talheres reluzentes.

Então ele sentou-se para esperar. Sua mente tentava entender que se Changmin não aparecesse, seria totalmente compreensível. Seria afinal sua grande vingança pela noite de aniversário de dois anos o qual Kyuhyun havia esquecido e faltado. No entanto ele sabia que seria inevitável ficar de coração partido se o rapaz não aparecesse, sendo esta sua última chance de tentar reaver algo que havia antes abandonado.

Kyuhyun acomodou-se em sua sacada, que há muito ele não aproveitava. Havia um livro em seu colo, mas ele não conseguiria se concentrar. Apenas queria que o rapaz chegasse logo, ou que aquela noite passasse rapidamente. Ele fitou o sol se pôr e a noite chegou à capital britânica, e ele rezou mais uma vez, para que Changmin viesse ao seu encontro. As horas se arrastaram pesadas até o momento que seu interfone tocou.

Kyuhyun correu para o aparelho, deixando o livro jogado sobre o sofá e sorriu abertamente quando o porteiro anunciou que Changmin esperava na portaria. Kyu deu sua autorização para que o rapaz subisse e tratou de correr para a frente do espelho dar seus últimos retoques. Ele alisou suas roupas e depois de uma última borrifada de sua colônia favorita, a campainha tocou. Era ele.

Kyuhyun caminhou a passos largos por seu apartamento e destravou a porta, tentando não demonstrar pressa. Changmin o esperava do outro lado da porta com suas mãos afundadas no bolso e o olhar perdido em algum lugar no corredor. Assim que viu Kyuhyun o mais alto retirou a mão dos bolsos e o reverenciou polidamente, o que foi correspondido. Ele abriu espaço e Changmin adentrou o apartamento do rapaz não deixando de ficar surpreso com o local.

Em comparação ao que eles compraram juntos, onde Changmin ainda morava, aquele apartamento era muito mais espaçoso e luxuoso. Kyuhyun tinha uma belíssima sala de estar bem arejada apesar de menos colorida do que a decoração que ele costumava usar. Não haviam tantos porta-retratos em sua estante, apenas três: Eram fotos de Kyuhyun ainda jovem com seus pais e sua irmã, uma foto dele e Siwon no qual Kyu segurava um pequeno troféu e por último uma foto dele entre Donghae e Hyukjae mais jovens na foto.

Changmin desviou o olhar para Kyuhyun que com um sorriso discreto nos lábios o seguia em seu encalço. Ele fitou a sala do rapaz demoradamente antes de se voltar para ele. Changmin não sabia o que pensar, não sabia como agir. Abraçara o rapaz no primeiro dia e depois havia fugido dele como se ele fosse uma espécie de monstro. E talvez ele fosse mesmo, com aqueles olhos grandes e o sorriso encantador.

– Esse é o meu apartamento, Changminie. – Disse Kyuhyun. – Você gosta? Quer ir à sacada? Tem uma vista bonita.

– Ah, é bem legal aqui. – Elogiou Changmin caminhando até a porta da sacada e colocando apenas o rosto para fora. – É grande, deve ter sido caro.

– Um pouco. – Disse Kyuhyun dando de ombros. – É perto da faculdade e tem uma vizinhança silenciosa se comparar com outras áreas da cidade.

– Deve ser bom morar aqui. – Afirmou Changmin.

– Você mora onde agora? – Indagou Kyuhyun vendo o outro voltar-se para sua estante e começar a analisar o que estava ali exposto, entre os objetos, a antiga boneca que Changmin antes restaurou e que agora possuía uma discreta rachadura no rosto.

– No mesmo apartamento. – Afirmou Changmin, desviando o olhar do brinquedo para ler as nomeações que Kyuhyun ganhara. – Você tem tudo o que queria não é Kyuhyun?

– Ainda não. – Afirmou Kyu.

– Nada é suficiente pra você, não é mesmo?

– Vem jantar!

Kyuhyun caminhou em direção ao rapaz e o puxou pelo pulso em direção à cozinha sem responder sua indagação que mais se tratava de uma acusação. Changmin negou com a cabeça e o seguiu até o cômodo que também era mais espaçoso e bem equipado do que seu lar em Seul. Ele se sentou à mesa e Kyu colocou a mão nas travessas para testar se ainda estavam quentes, finalmente concluindo que não os reaqueceria.

Ele pegou o prato de Changmin e calmamente o serviu de cada um dos alimentos que havia preparado, finalmente o posicionando em frente ao rapaz. Kyu cogitou apenas fitar Changmin comer, no entanto sabia que o rapaz ficaria constrangido então tratou de se servir, por mais que as borboletas no estômago tivessem tirado seu apetite. Eles comeram em silêncio por alguns instantes até Kyu corta-lo:

– Como está a sua vida, Changminie? Como é a sua empresa? O que exatamente você faz?

– Não é nada demais na verdade. Depois que você foi embora eu mudei de emprego, me tornei corretor e depois eu e o Chunnie-hyung abrimos nossa própria corretora. Eu trabalho mais agora, e ganho mais também.

– E por que não trocou de apartamento?

– Em um lugar maior eu ia me sentir sozinho. – Afirmou Changmin. – O nosso…

Kyuhyun sorriu abertamente, fitando Changmin não concluir a frase. O rapaz pareceu constrangido e pigarreou antes de continuar sua sentença:

– O apartamento onde eu moro já era pra duas pessoas, ele já é bem espaçoso. – Explicou Changmin.

– Em que você investiu então?

– Na empresa. – Afirmou Changmin. – E nessa viagem, que é meio investir na empresa também.

– Só na empresa? Não viajou? Namorou?

– Não. – Disse Changmin dando de ombros e voltando sua atenção para seu prato.

– Por que não?

– Porque eu não quis. Eu trabalho quatorze horas por dia, escolher alguém para namorar e deixar a pessoa de lado por causa do trabalho não é muito saudável. – Alfinetou Changmin.

Kyuhyun baixou o olhar e mais uma vez não o respondeu. Changmin estava com um humor ácido e para Kyu isso era como pisar em um campo minado. Ainda assim, seu amado estava ali à sua frente, ao seu alcance. Changmin comeu por alguns instantes em silêncio e sem fitar o menor. A comida estava deliciosa, e ele desejava elogia-la, no entanto, ainda haviam assuntos que ele queria saber sobre o rapaz:

– Por que você terminou com o Siwon pela segunda vez?

– Porque eu não tenho mais dezesseis anos e ele não tem mais vinte. – Explicou Kyuhyun. – Não era pra dar certo.

– Acabou o encanto? Onde vai parar o final feliz de Nabokov assim?

– Lolita não tem um final feliz, Changminie. – Riu-se Kyuhyun. – Como você acha que seria o meu final feliz com ele afinal?

– Seriam vocês trabalhando como dois condenados, provavelmente morado em uma mansão em algum lugar dessa cidade. Teriam vários daqueles prêmios na estante e ele te chamando de “meu garoto” até você chegar aos quarenta anos.

– Isso é um final feliz? Que péssimo, Changmin.

– Não era o que você queria?

– Você sabe que não.

– Eu esqueci, você quer o mundo, não é mesmo?

– Pare de me alfinetar, Changminie. – Reclamou Kyuhyun.

Changmin revirou os olhos e finalmente terminou seu prato, agora em silêncio, finalmente percebendo que Kyuhyun apenas remexia a comida em seu prato em mais leva-lo aos lábios. Ele estava desapontado, uma vez que imaginara sua noite muito diferente. Seus olhos ardiam com vontade de chorar e ele sabia que seu rosto deveria estar corado. Era terrível não poder rebater as acusações de Changmin, pois em sua grande maioria ele estava certo.

Kyuhyun queria adentrar a alma de Changmin, conhecer mais uma vez aquele que o levou para seu lado mais romântico, no entanto ele por sua vez, parecia disposto a listar todos os seus defeitos à sua frente. Changmin já ia aborda-lo novamente, quando Kyu engoliu o choro e ergueu os olhos lacrimejantes para ele. Ele soltou seu talher no prato que fez um barulho alto e disse:

– Eu tive uma ideia.

– O que é? – Indagou Changmin servindo-se do suco.

– Por que ao invés de me alfinetar, você não desembucha de uma vez. – Afirmou Kyuhyun incisivo. – Anda, Changmin, joga na minha cara todos os meus defeitos.

– Eu nunca conheci ninguém tão egoísta e mimado quanto você, Kyuhyun. Além de ser avarento, orgulhoso, arrogante, um completo babaca. Você acha que o mundo gira em torno de você, das suas vontades, mas não é assim meu caro. Sem contar que você é infantil, perfeccionista, chato, você é deprimente, Kyuhyun.

– Só isso?

– E você quer mais?

– Eu quero esgotar as suas críticas, Changmin e só assim poderemos continuar a nossa noite. Mais alguma coisa?

– Por que você veio? Por que você tinha que sair de lá? Por que demorou tanto pra perceber que o Siwon não é o dono da verdade? Que o que é bom pra ele não necessariamente é bom pra você? Por que… Aish!

– Continue, Changminie! Por que eu fui tão egoísta? Por que fui tão influenciável? Por que não fiz o que deveria fazer? Por que não salvei o nosso relacionamento? Por que não amei você como você deveria ser amado? O que mais?

– São tantas coisas, Kyu. – Afirmou Changmin, suspirando pesadamente. – Que ficaram guardadas sem solução.

– Eu tenho uma boa. – Disse Kyuhyun se ajeitando na cadeira. – Por que mesmo depois de quatro anos longe, eu ainda sinto exatamente o mesmo quando olho pra você?

Changmin deixou o copo vazio sobre a mesa e por alguns instantes seus olhos se arregalaram olhando para Kyuhyun. Ele não podia acreditar na ousadia daquele rapaz, ao se declarar daquela maneira. Seu coração palpitava no peito, era como se ele fosse hiperventilar a qualquer momento. Kyu desviou o olhar e se levantou repentinamente começando a retirar a mesa. Ele precisava absorver o que acabara de fazer.

Kyu recolheu os pratos e virou-se de costas para o mais alto enquanto os deixava sobre a pia. Changmin o fitava por trás e Kyu quase conseguia sentir seu olhar rasgando sua pele. Ele o abominaria, e aquele silêncio era a premissa disso. No entanto ele não trouxe Changmin até sua casa para mentir para ele. Ainda o amava, o amou todos os dias de sua vida e ainda achava que o amaria pelo resto de seus dias.

– Ainda me ama? Como isso é possível, Kyu? – Indagou Changmin.

– Do mesmo jeito que o Junsu-hyung ainda amava o Yoochun-hyung quando voltou do Japão. – Afirmou Kyuhyun. – É possível.

– E por que isso agora? Por que eu sou bem sucedido?

– Não! – Afirmou Kyuhyun sobressaltado voltando-se para o rapaz. – Você pode pensar tudo sobre mim, que eu sou infantil, egoísta, babaca, mas oportunista não! Eu amaria você ainda que você tivesse o mesmo emprego, e que sua vida não tivesse mudado em nada. Não se trata de dinheiro, de status ou Q.I., amor é muito mais do que isso.

Changmin piscou algumas vezes buscando algum sinal de mentira nos olhos de Kyuhyun e encontrando apenas sua velha amiga a insegurança. O rapaz tremia naquele momento, sabia que seria rejeitado, sabia que estava querendo o impossível. Kyu sentiu vontade de chorar novamente com a iminente rejeição e desta vez ele não fez questão de segurar. Ele escondeu o rosto e chorou, ainda sob o olhar analítico do mais alto que não sabia o que fazer. O coração de Changmin vacilou e aquela máscara de orgulho que ele criou começava a se despedaçar.

No entanto, ele ainda era cauteloso. Sabia onde os caprichos de Kyuhyun podiam leva-lo, e temia que acontecesse mais uma vez. Ele se levantou e se aproximou do rapaz segurando suas mãos e as afastando de seu rosto. Era o seu Kyuhyun, aquele homem frágil que ele tanto amava, derramando lágrimas amargas de dor e arrependimento diante de si. Changmin as enxugou com a ponta dos dedos, e o fitou erguer o olhar para ele:

– Não precisa chorar, vai ficar tudo bem.

– Não vai, Changminie. – Afirmou Kyuhyun. – E é por isso que eu não quero mais ficar aqui, eu quero voltar.

– Voltar? Pra Seul?

– Pra Seul e pra você. – Afirmou Kyuhyun baixinho. – Me leva pra Coréia de volta com você.

– Não. – Disse Changmin se afastando do menor.

– Changminie…

– De jeito nenhum. – Afirmou Changmin incisivo. – Você passou todos esses anos aqui, tem uma carreira incrível, prêmios e esse apartamento luxuoso, eu não vou ser o responsável por te tirar daqui. Se você quer voltar, volte sozinho.

– Você não entende, Seul sem você não é nada pra mim. – Afirmou Kyuhyun. – Eu só volto, se você me der uma chance de acertar as coisas entre nós dois, porque eu sei que você sente a minha falta e sei que embaixo de toda essa hostilidade e insegurança está o homem que eu amo.

– Kyunie, não! – Explicou Changmin. – Não é assim que funciona.

– Não gosta mais de mim, não é?

– Não é essa a questão. – Afirmou Changmin. – Você sacrificou tanto pra chegar aqui, pra ter tudo isso, eu não vou permitir que você jogue tudo isso para o alto. Não quando eu me sacrifiquei por você!

– Changmin, por favor, eu não aguento mais isso aqui! – Insistiu Kyuhyun. – Eu odeio essa vida, eu briguei tanto pra conquistar isso e agora não sei o que fazer com isso. Estou cansado, quero a minha vida de volta, quero você de volta!

– Eu sei que você vive em um mundo de conto de fadas, mas deixe-me lembrar uma coisa. – Afirmou Changmin exaltado. – Não existe máquina do tempo, então mesmo que você volte para Seul, nada vai ser como antes. Você não pode voltar atrás, e o que aconteceu entre nós dois ficou no passado.

– Eu não quero voltar ao passado, talvez eu cometesse os mesmos erros se eu voltasse. – Afirmou Kyuhyun. – Eu quero recomeçar, uma vida nova, com você e isso que eu tenho agora, quero que faça parte do meu passado. Eu te imploro, Changminie, todo mundo merece uma segunda chance, é o que dizem não é?

– Por que eu deveria dar a sua segunda chance?

– Não sei, só sei que eu não posso te provar que eu mereço se você não deixar. – Kyuhyun enxugou as lágrimas com as costas da mão e ajoelhou-se de frente para Changmin. – Eu te imploro, me leve com você.

– Kyuhyun, eu… – Changmin parou a frase na metade e começou a caminhar de um lado a outro da cozinha. – Eu não posso decidir assim, eu nem sei o que pensar.

Changmin parou de caminhar e fitou Kyuhyun ainda ajoelhado no chão da cozinha. Ele estava sentado sobre seus calcanhares, com as mãos descansando entre suas coxas. As lágrimas molhavam seu rosto e pingavam em sua calça indiscriminadamente. Changmin sentia seu coração apertar, ao mesmo tempo em que sua mente maquinava tudo o que poderia dar certo e errado se ele aceitasse aquela proposta absurda de Kyuhyun.

Changmin se aproximou do rapaz e ajoelhou-se de frente para ele. Kyu voltou a erguer o olhar e repousou suas mãos sobre as do rapaz, ainda esperando sua resposta. O mais alto suspirou pesadamente e negou com a cabeça, observando o menor se aproximar e apoiar o rosto em seu ombro, também suspirando pesadamente. Changmin o envolveu pelos ombros e o pressionou contra si, dizendo baixinho:

– Eu não posso, Kyunie, não pode ser assim. – Afirmou Changmin. – Não posso decidir algo assim agora.

– Mas você vai embora amanhã à noite. – Disse Kyuhyun. – A menos que…

– Que?

– É pouco tempo, eu sei. – Disse Kyuhyun. – Me encontre ao amanhecer, na ponte, se decidir me levar com você. Senão… seja feliz, Changminie.

Changmin meneou a cabeça afirmativamente e ainda acariciou o rosto do outro rapaz antes de se levantar dali e guiar-se sozinho até a saída. Seria uma noite longa, e ele sabia que não dormiria. Kyuhyun o queria de volta, queria seu relacionamento de volta e estava disposto a trocar uma vida luxuosa em Londres por seu modesto apartamento em Seul. Em partes seu coração estava feliz por ser correspondido, por outro lado ele estava receoso e assustado.

Changmin saiu do prédio e caminhou lentamente pela rua pouco movimentada e silenciosa. O céu estava pouco estrelado e aquele bairro era silencioso. Era como se sua vida tivesse virado de ponta cabeça e ele sabia que não voltaria de Londres ileso. No entanto, aquilo era muito mais do que havia passado por sua mente. Kyuhyun ajoelhado no chão implorando por uma segunda chance era algo que nem mesmo quando estava amargurado ou magoado ele havia imaginado.

Kyuhyun não merecia uma segunda chance, seus erros no passado eram demasiadamente profundos e ele deveria assumir as consequências de suas decisões. Changmin não fora somente abandonado, ele havia sido trocado por Siwon que sempre seria mais bem sucedido do que ele. Naquela época parecia que somente aquilo importava para Kyuhyun e não todo amor que Changmin entregara para ele em uma bandeja.

Ele ainda era egoísta, Changmin tinha certeza que ele não mudara e nunca mudaria. Seul era sua zona de conforto, ele teria mais uma vez o suporte de Donghae, Hyukjae e sua família estariam ao seu lado. Talvez ele voltasse a ser aquele rapaz mimado, talvez se ele voltasse, mais uma vez ignoraria Changmin e ele sabia que não tinha estômago para aturar aquilo pela segunda vez.

Um segundo término arrasaria seu psicológico, pois apesar de ter se passado tanto tempo, aquela noite ficara em sua mente. E as brigas eram sempre terríveis. Tudo com Kyuhyun era exorbitante demais, pois ele o levava aos seus extremos. Mesmo aquela viagem, que deveria ser algo agradável tornara-se um martírio, pois suas emoções se misturavam e ele tinha picos de raiva e alegria, imaginando que se ficasse ali por muito mais tempo, certamente desenvolveria algum transtorno mental.

Aquele homem mexia com Changmin, o desestruturou desde a primeira vez que se encontraram e isso nunca mudou, e ele sabia que esta era outra coisa que nunca mudaria. Ele tivera quatro anos para superar, para mudar, esquecer Kyuhyun, e ainda assim ele o enfraquecia, o machucava. As lágrimas, os sorrisos, tudo aquilo fazia o sangue de Changmin ferver e com que ele se sentisse completo novamente.

Era uma sensação estranha, pois ao mesmo tempo em que ele o ignorava e o queria longe de si, sentia-se vivo ao lado daquele rapaz. Estar com ele nos últimos dias foi como acordar de um coma e ver um mundo totalmente diferente. Estar em Londres quase fora como entrar em uma máquina do tempo e cair em uma realidade diferente, onde a única parte de seu passado era Kyuhyun.

Dar uma segunda chance para Kyuhyun seria com dar uma chance a si mesmo de continuar acordado de seu coma, ou ele poderia continuar em sua zona de conforto em seu típico marasmo. Era estranho Kyuhyun passar uma decisão para si, significava dependência ao mesmo tempo em que o repassava todas as responsabilidades caso as coisas não dessem certo em Seul. E tudo podia dar errado, aliás, Changmin não via como aquilo poderia dar certo. Ele avistou um taxi e deu a mão para que ele parasse e finalmente decidiu voltar para o hotel.

Sentado no banco de trás do veículo e fitando a janela do carro, Changmin lembrou-se do exemplo de Yoochun e Junsu. Eles acabaram dando certo no final das contas mesmo com tantas mágoas e tantos erros cometidos antes. Changmin também amadurecera nos últimos anos, mas isso era o suficiente para recomeçar um relacionamento? Ele queria recomeçar aquele relacionamento?

Por outro lado, Changmin se lembrava de tentar olhar outras pessoas como possíveis pretendentes, o que nunca dava certo. Kyuhyun com todos os seus quês, inseguranças e defeitos era alguém único. Ninguém tinha a capacidade de fazer Changmin se sentir daquela maneira, todos pareciam superficiais e desinteressantes perto de Kyu. Ele ainda o amava no fundo de sua alma e se imaginar acordando ao lado daquele rapaz pelo resto de seus dias parecia tão confortador.

Então ele se permitiu pensar na possibilidade. Viver por longos anos com Kyuhyun, naquele mesmo apartamento que eles construíram juntos. Acordar com ele ao seu lado como antes, dividir o chuveiro e comer waffles no café da manhã. Ter companhias todas as noites, dividir os finais de semana em passeios no parque e viagens para a praia. O coração de Changmin disparou ao cogitar o assunto e ele se culpou por isso.

Assim que chegou ao hotel, Changmin correu para o quarto onde Yoochun o esperava. O mais velho sentia falta de seu namorado Junsu e por isso tratou de empacotar todos os presentes que comprara para ele. Changmin adentrou o quarto um tanto ofegante e surpreendeu Yoochun com sua chegada repentina. Changmin deixou-se cair sobre a cama e Micky se aproximou preocupado:

– O que houve?

– Ele… aish, hyung. – Reclamou Changmin sentando-se na cama e esfregando o rosto com a palma das mãos. – Ele quer voltar pra Seul, comigo.

– Voltar? Como assim? E o emprego dele aqui?

– Ele disse que não aguenta mais, que quer deixar tudo e ir comigo. – Afirmou Changmin.

– E você aceitou isso?

– Ainda não. Amanhã pela manhã eu vou encontrar com ele na ponte de Londres se a resposta for positiva, senão eu pego o avião com você e ele fica.

– Ele não pode te pedir isso assim, Changminie.

– Ele me deu a noite para pensar, mas é tão arriscado, hyung.

– Pense bem, não vá deixar ele te machucar de novo. – Disse Yoochun. – Por outro lado, se você ainda gosta dele, o risco vale a pena.

– É complicado, hyung. – Disse Changmin deitando a cabeça sobre as pernas do mais velho. – Eu tô com medo, que dê tudo errado, que ele não tenha mudado em nada.

– Fique calmo, vai ficar tudo bem. – Disse Yoochun acariciando os cabelos do rapaz. – Por que não toma um banho e tenta relaxar? Vai ajudar arejar a mente.

– Talvez seja uma boa ideia, hyung.

Changmin levantou-se de um salto e seguiu para o banheiro. Aquela seria uma noite longa e ele estava ansioso pela manhã seguinte. Se imaginava seguindo para ponte e tomando para si aqueles lábios que tanto amava. Ou agoniado em seu quarto do hotel, ele deixava o amanhecer passar e seguia com sua vida, sem Kyuhyun. A ultima hipótese parecia mais sensata e muito mais solitária. O que ele faria, afinal?

Enquanto lavava a louça do jantar, Kyu ouviu sua campainha tocar e assustou-se com a visita surpresa. Certamente era alguém já conhecido, uma vez que o porteiro não havia anunciado ninguém ao interfone. Kyu deixou os últimos pratos na pia e foi abrir a porta, se deparando com Siwon do lado de fora. Era tarde e o rapaz não costumava visita-lo àquele horário, no entanto, se ele tivesse aparecido mais cedo poderia ser um problema. Siwon adentrou o já conhecido local e seguiu para a sala, sendo prontamente seguido por Kyuhyun.

– Hyung, o que faz aqui a essa hora?

– Perdoe, Kyunie, eu estava passando aqui perto e resolvi te ver. – Afirmou Siwon sorrindo discreto. – Hoje era o dia que o Changmin viria jantar com você e como eu imaginei que tudo daria errado, vim checar como você estava.

– Não deu muito errado. – Disse Kyuhyun sentando-se em uma poltrona e apontando o grande sofá para o mais velho se acomodar. – Ele saiu não faz muito tempo.

– E como foi?

– Eu disse a ele tudo o que eu queria dizer, então não foi de todo ruim.

– E como ele reagiu?

– Poderia ter sido pior.

– Pior como? Ele poderia ter te batido ou algo assim?

– É… algo assim. – Afirmou Kyuhyun dando de ombros. – Eu pedi pra voltar.

– Voltar? Como assim? Voltar a namorar com ele?

– Isso também.

– Não acredito que você se humilhou desse jeito, Kyuhyun. – Criticou Siwon.

– Era isso ou ficar me lamentando como um solitário idiota cheio de prêmios na estante. – Retrucou Kyuhyun.

– Eu nunca faria isso.

– Sorte a minha que eu não sou você. – Acusou Kyuhyun.

– O que você tem hoje?

– Por que você me critica tanto? Por que critica tanto o Changminie? Eu não posso fazer as coisas do meu jeito sem você dizer que eu estou errado!

– Kyu, não seja injusto!

– Eu não quero que me diga que eu estou certo sempre, mas eu tenho que fazer isso do meu jeito, do jeito que eu acho correto.

– É porque quando o assunto é relacionamento você é bobinho e iludido demais. – Criticou Siwon. – Quebrar seu coração é tão fácil quanto quebrar qualquer uma das suas bonecas e o Changmin fez isso com maestria.

– Quem machucou ele fui eu e não o contrário. – Afirmou Kyuhyun incisivo. – Eu não estou querendo me fazer de vítima e ele de vilão, eu fui embora, eu estraguei o nosso relacionamento e você não pode falar absolutamente nada porque não estava lá! Eu não sou perfeito, Siwon, e não quero mais tentar ser. Eu quero ser eu mesmo, quero fazer o que eu acho que é certo, quero errar e é por isso que eu quero voltar pra Seul!

– Você o que? Kyuhyun, você dá aula em Oxford, sabe quantos matariam para ter o seu posto?

– Pois que se matem, eu não quero mais isso pra mim!

– Seu mal agradecido, eu fiz tudo por você!

– Você fez, Wonie e eu juro que tentei, mas isso não é pra mim. Eu não sou como você, sinto falta de Seul, lá é o meu lugar, com a minha família, meus hyungs e o Changminie.

– Eu não consigo acreditar que você quer abandonar tudo isso pra regredir!

– Regressão é relativo e se for pra ser feliz de novo eu sou capaz de jogar tudo para o alto e voltar a ser bartender!

– Você chegou tão longe… desistir agora, é burrice! – Argumentou Siwon.

– Então eu sou burro, mas garanto que serei mais feliz do que você. – Afirmou Kyuhyun. – Ainda não tenho certeza que vou, o Changminie ainda não me respondeu.

– Eu espero que ele seja mais esperto que você e diga não.

– Você é… vai embora, Siwon. – Disse Kyuhyun sentindo um nó se formar em sua garganta e os olhos voltarem a lacrimejar. – Você criticou tanto ele, e eu acreditei em você, sem perceber como ele era digno de estar ao meu lado. Eu não quero mais ouvir você falando sobre o Changminie porque ele foi capaz de me fazer feliz, coisa que você não foi. Você pode ter um milhão de prêmios na sua parede, ser o homem mais rico e bem sucedido do mundo, ainda assim não vai ser bom para mim.

– Kyuhyunie, eu juro que eu tentei cuidar de você.

– Não tentou não. Você não fez por mim nem metade do que o Changminie fez, e eu não estou falando da minha carreira, estou falando do nosso relacionamento. Talvez se você nunca tivesse ido embora, nos tivéssemos tido uma chance, mas você foi e o Changminie tomou o seu lugar e ocupou ele muito melhor do que você. Agora eu quero ele de volta e se isso custar o meu emprego em Oxford, eu pago por isso.

– Eu só vim te contar que assumi meu namoro com o Jungsu, o estagiário de Engenharia sobre quem te falei. – Afirmou Siwon se levantando. – Eu só espero que quando você perceba que pertence a essa faculdade, não seja tarde demais.

Kyuhyun se levantou e seguiu até a porta a abrindo para o mais velho e murmurando um “Tenha uma boa noite, Siwon” quando ele passou por ali, ouvindo um “Boa noite, Kyunie” em retorno. Kyuhyun não queria aceitar, mas talvez Siwon tivesse razão, talvez seu destino fosse lecionar naquela faculdade para o resto de sua vida. Talvez voltar para Seul fosse um grande erro do qual ele se arrependeria pelo resto de seus dias.

Às três da manhã, Yoochun não aguentou ficar apoiando seu amigo e acabou caindo no sono. Changmin ficou extremamente agradecido pela atenção do rapaz e aquela madrugada teria sido muito mais agoniante se não fosse por sua ilustre companhia. Changmin se aproximou da janela e fitou a rua silenciosa. Em sua mente, enquanto ele ainda tomava sua decisão, imagens de seu passado, embaralhavam-se em sua mente.

Ele lembrou-se do primeiro abraço que dera em Kyuhyun, próximo a bancada do Candy Bar, do primeiro beijo em sua cama, que deixou o menor sem fôlego e totalmente entregue a si. A viagem, quando Changmin pela primeira vez adentrou a realidade de Kyuhyun e percebeu como era o meio em que ele vivia. O jantar que ele preparou na casa da praia, seu café da manhã com frutas e iogurte, e os beijos, o sexo, era tudo tão bom.

A primeira briga fora tão boba que agora Changmin ria-se dela. Kyuhyun e seu perfeccionismo chato não poderia admitir que ele cometesse um erro. Ele se lembrou de quando devolveu a boneca restaurada de Kyuhyun e de como mergulhava nas histórias de seu passado, sem saber que ele ainda voltaria em carne e osso para assombra-lo. E na faculdade, enfrentar todas aquelas provocações que agora pareciam tão bobas e infantis.

Changmin lembrou-se de quando apanhou em silêncio, e de como teve medo de perder o homem que ele amava. O aniversário surpresa que Hyukjae e Donghae fizeram para eles, como fora emocionante reunir todos os seus amigos em um único lugar. Ele se lembrou de quando gravou aquele vídeo, de como o sexo com Kyuhyun nunca deixara a desejar ao longo de todo o namoro.

Ele se lembrou do aniversário de namoro na torre, de seus natais juntos, dos presentes que trocaram, dos beijos apaixonados que deram. A mudança de Donghae, ver as fotos dele mais jovem, admirar sua coragem. Changmin lembrava-se de quando Jaejoong invejava seu relacionamento, sem saber que em um futuro seria exatamente o contrário. A família Cho que tão emocionada o recebeu em casa, e uniu-se ao filho que há muito não viam. O sorriso de Kyuhyun iluminava sua vida, e era a premissa de que tudo ficaria bem.

Então ele se lembrou do final, das verdadeiras brigas, da carência, da falta de atenção. O ciúme de Siwon que o corroía como ácido e amargava sua vida, e as provocações do mais velho que, sem que Changmin percebesse, prejudicaram tanto seu relacionamento. Siwon envenenou tudo aquilo que Changmin tinha por certo, por pura inveja. Ele não conseguia construir nada de bom, e desestruturou Kyu a ponto dele mudar drasticamente. E no auge de seu desespero, o rapaz deixou tudo sair de seu controle.

Ao final, era como ver dois Kyuhyun’s diferentes, um com suas qualidades acentuadas e outro com tantos defeitos que era até difícil listar. Finalmente, em Londres ele encontrava um terceiro Kyu que ficava no meio termo dos dois que ele conhecera. Ele aprendera com seus erros, pois como um prisioneiro, ele tivera um tempo solitário para pensar. Ele ainda era egoísta, mas em uma proporção menor, já que estava disposto a se doar em função do relacionamento e voltara a ser inseguro, pois sem apoio, ele teve que lidar com seus próprios erros.

Entretanto, ele ainda era seu Kyuhyun, aquele com quem ele brigou tanto para manter ao seu lado, o implorava para voltar para seus braços deliberadamente. Não obstante estava disposto a sacrificar sua vida, que ele com muito suor construiu em Londres. Era algo que ia tão além das expectativas de Changmin que algumas coisas eram difíceis de acreditar. No entanto, Kyuhyun nunca mentiu para ele, apenas foi incapaz de cumprir suas promessas. O céu ganhou um tom roseado, depois laranja e o sol ameaçou aparecer, era hora de decidir.

 

Kyuhyun acordou no sofá da sala com o sol batendo em seu rosto. A insônia o impedira de dormir boa parte da noite, e em função disso ele perdeu a hora. Já havia amanhecido e ele não estava na ponte. Kyuhyun levantou-se de um salto, constatando ser 07h30min da manhã e ele correu para trocar de roupas. Ele não teve muito tempo de escolher o que usaria, apenas arrumou o cabelo, fez a barba cortando seu pescoço em dois lugares diferentes e escovou os dentes.

Ele agarrou um biscoito e saiu correndo com um par de tênis na mão. Como o elevador demorou ele tratou de usar a escada de incêndio. Na escadaria ele ainda comeu o biscoito e somente colocou os sapatos quando chegou ao seu carro. Kyu saiu rapidamente dali e sabia que levaria várias multas por velocidade, no entanto, ele tinha que chegar à ponte a tempo. Quando chegou ao trânsito, ele tentou desviar mas acabou pegando uma via rápida congestionada.

Eram quilômetros de congestionamento, o que deixou Kyuhyun agoniado. Ele buzinou, gritou, xingou, esperneou e nada daquele trânsito andar. Ele ficou quarenta minutos preso ali, até que finalmente tudo se encaminhou. Faltava muito para chegar lá, mas com o trânsito lento, ele levou mais meia hora para se aproximar da ponte, esperando que Changmin ainda estivesse ali, por mais improvável que fosse. Ele já conseguia ver a ponte quando o inesperado aconteceu.

Um carro desgovernado invadiu sua pista e assim, houve um grande acidente envolvendo vários veículos, incluindo o de Kyuhyun que se assustou com o solavanco quando a parte traseira de seu carro foi atingida. Quando ele saiu do carro estava tudo um caos. Uma mulher tinha a testa sangrando, enquanto dois motoristas trocavam socos. Um bebê chorava no colo de uma senhora pálida e do carro à sua frente saía uma fumaça com cheiro forte.

Ele não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Kyuhyun socou a lataria de seu carro e gritou com raiva. Então ele voltou a olhar a ponte, tudo estava dando errado, mas ele ainda precisava chegar até lá. Ele trancou seu carro e saiu correndo dali, sob ameaças de ser guinchado por um guarda de trânsito, ao que ele berrou em resposta: “I don’t give a fuck!”. Então ele correu, como há muito não corria em sua vida.

O suor se formou em sua face e escorreu primeiro por suas têmporas. Sua camisa começou a ficar molhada e colou em suas costas, e aqueles sapatos certamente não eram para aquele tipo de atividade. Ele tropeçou três vezes na ponta do tênis e esbarrou em um número incontável de pessoas, enquanto seu peito doía de agonia e pela falta de fôlego e preparo físico. Assim, ofegante e extremamente cansado, Kyuhyun chegou à ponte.

Assim que pisou na calçada do local, ele sentiu uma pontada forte em sua panturrilha, era a pior câimbra que ele tinha em anos. Kyu parou de correr e começou a andar, mancando, sentindo pontadas cada vez que forçava o pé no chão. Ele achava que seu corpo pouco preparado cederia a qualquer momento, enquanto seus olhos percorriam a ponte em busca de Changmin. Ele caminhou desolado pelo local, resistindo a tentação de gritar pelo nome do rapaz, afinal sua imagem já era bizarra o suficiente.

Kyuhyun percorreu metade da ponte até que finalmente o encontrou, Changmin andava para longe de si, com as mãos no bolso e um tanto cabisbaixo. Kyu correu de um jeito engraçado em direção ao rapaz, dando pequenos pulinhos, já que sua perna não o obedecia como deveria. Quando finalmente o alcançou, ele pesou sua mão sobre o ombro do rapaz, quem se voltou para ele não era Changmin, apenas um rapaz alto com o mesmo corte de cabelo.

Kyuhyun não cabia em si de desapontamento. Ele se desculpou com o rapaz e o desespero tomou conta de si, ele estava pronto para desabar em prantos quando o avistou. Era Changmin que acenava para um taxi do outro lado da ponte. Kyu arregalou os olhos e do mesmo modo desajeitado, ele correu na direção de Changmin. O rapaz já abria a porta do veículo, pronto para sair dali e seguir com sua vida, quando Kyuhyun gritou por seu nome:

“Changmin-ah!!”

Changmin não podia crer que Kyuhyun não aparecera, ele o fizera de bobo pela última vez. Ele estava frustrado e apenas desejava sair dali quando ouviu uma voz conhecida o chamando. Era ele, Kyuhyun suado, corado, com os cabelos desgrenhados mancava em sua direção com os braços esticados como se desta forma fosse chegar mais rápido. Changmin cogitou entrar no taxi e fugir dali, no entanto acabou dispensando o motorista e esperou Kyu se aproximar.

O rapaz estava ofegante como ele nunca havia visto em sua vida. Kyu se aproximou dele e baixou o rosto envergonhado de sua situação. Não era assim que ele havia imaginado aquele encontro, e mais uma vez a culpa era sua. Changmin o deixou recuperar o fôlego antes de dizer em tom acusativo:

– Você está atrasado.

– Eu sei, Changminie, me perdoe por isso. – Disse Kyuhyun ainda puxando o ar com força pela boca. – Acontece que… céus, se eu te contar tudo o que aconteceu você vai achar que é mentira.

– Eu achei que você não viesse, que tivesse desistido de voltar para Seul e para mim.

– Não, isso nunca, Changminie. – Afirmou Kyuhyun segurando uma das mãos do rapaz. – Você tem mesmo que voltar hoje?

– Por que?

– Porque eu não posso ir hoje com você. – Disse Kyuhyun. – Eu tenho que empacotar as minhas coisas e pedir demissão da faculdade. Eu não poderia me demitir sem saber a sua opinião antes.

– Eu entendo. – Disse Changmin baixando o rosto e fitando a mão do rapaz com o relógio que ele dera.

– Você tem mesmo que ir hoje? Eu sei que você tem a sua empresa, mas você poderia pedir para o Yoochun-hyung te cobrir, aí você ficava por aqui, até o final de semana.

– Até o final de semana? – Indagou Changmin, apoiando a outra mão em sua cintura, enquanto o rapaz aos poucos se aproximava.

– Só até eu ajeitar a minha situação, depois eu vou com você. – Disse Kyu apoiando a testa contra a do outro rapaz. – Já é final de semestre letivo, eu estou com os trabalhos corrigidos, não tem porque a faculdade me prender mais do que isso.

– Talvez eu precise mesmo de umas férias curtinhas. – Disse Changmin sorrindo discreto. – Talvez a sua companhia seja agradável por uma semana.

– Me dá a honra da sua companhia?

– Se o Yoochun-hyung concordar, eu fico com você.

Kyuhyun abriu um largo sorriso e pela primeira vez em anos, Changmin o retribuiu. Seus corações batiam em uníssono e como anos antes eles se sentiram completos novamente. Era como finalmente encontrar a peça perdida do quebra-cabeça, como recolocar o caco de porcelana perdido no rosto da boneca. Kyu deixou sua mão se apoiar nos ombros do mais alto que encaixou sua mão no pescoço do outro e o acariciou ali.

Assim eles uniram seus lábios, sentindo aquele sabor que seus inconscientes insistiam em guardar na memória mesmo quando eles quiseram esquecer. Os lábios macios de Changmin se encaixaram com perfeição aos de Kyuhyun, os sentindo quentes e tenros como sempre foram. E Kyu sentiu a umidade nos lábios do rapaz o que o tentou a aprofundar o beijo. Eles moveram seus rostos em direções opostas e entreabriram os lábios.

Changmin o agarrou pela cintura e seus corpos se colaram um ao outro, ao mesmo tempo em que suas línguas se encontravam, implorando por aquele gosto doce e único. Elas dançaram uma contra a outra se roçando naquela textura áspera e úmida, ainda assim deliciosa. E como da primeira vez, eles cortaram o beijo quando o fôlego faltou, mas ainda assim trocaram selares estalados de lábios que não desejavam mais se separar. E no cenário lindo daquela manhã na ponte de Londres eles se abraçaram e prometeram silenciosamente que não se separariam mais.

Foram duas semanas a mais na Inglaterra desde o dia que eles se encontraram na ponte e desde então, Kyu e Changmin não se separaram. Yoochun aceitou as condições de Changmin, pois acreditava que o rapaz precisava de férias. Claro que ele ainda ameaçou Kyuhyun, pois caso ele fizesse o mais alto sofrer, o próprio Micky o espancaria, o que felizmente não foi algo necessário. Yoochun até poderia ter ficado mais alguns dias em Londres, mas não se aguentava de saudades de seu Junsu e acabou partindo no dia planejado.

Kyuhyun não teve problemas com a faculdade ou com seu visto, mas se demorou a empacotar suas coisas, uma vez que ele e Changmin sempre acabavam entre beijos e carinhos quando começavam o trabalho. Ele vendeu o apartamento rapidamente e voltou com uma conta bancária gorda para a Coréia. No entanto, aquilo não importava verdadeiramente, e sim ter novamente seu Changminie ao seu lado.

Changmin achou que se arrependeria de sua decisão, mas Kyu nas duas semanas se mostrou diferente. Nas duas semanas que Changmin dividiu o mesmo apartamento que ele, o menor o convenceu de que ele escolhera o que era melhor para os dois, e foi a vez de Kyuhyun encher se namorado de mimos e realizar seus caprichos mais bobos. Ele o amava, e fazia questão de provar isso para o mais alto, todos os dias.

Em Seul todos ficaram em polvorosa com a notícia da volta de Kyuhyun. Donghae não cabia em si de felicidade, assim como Hyukjae. A família de Kyuhyun agradeceu Changmin por telefone, pois pela segunda vez, ele devolvia seu filho para o seio familiar. Apenas Siwon não aceitou bem a partida de Kyuhyun, mas ele nada poderia fazer. Ele ainda acreditava que aquilo era um erro, enquanto Changmin achava que finalmente havia derrotado seu grande rival.

O dia da partida fora tranquilo, uma vez que a maioria das coisas haviam sido empacotadas e despachadas. Eles viajaram apenas com duas malas de mão e foi assim que Kyuhyun se despediu de Londres. No avião, Kyu deitou-se nos braços de Changmin que deixou a ponta de seus dedos passearem pelo couro cabeludo do rapaz. Ele não tinha mais o olhar melancólico ou aquelas olheiras profundas, Kyu estava bem novamente.

– Changminie?

– Hm?

– Você uma vez me disse que a Inglaterra era um lugar apropriado para um príncipe.

– Eu disse sim, Kyunie.

– Eu discordo. – Disse Kyuhyun erguendo o rosto e fitando o mais alto. – Um príncipe deve estar onde está o seu coração.

– E onde está o coração do meu príncipe?

– Ele é seu, e vai ficar com você, até o fim. – Explicou Kyuhyun. – Eu amo você, meu Changminie.

– Eu também amo você, meu príncipe.

Era o começo da nova fase daquele casal. Uma fase mais brilhante, rica e completa do que todas as outras de suas vidas. Eles agora sabiam como conviver, sabiam de seus defeitos, suas qualidades. Não eram mais dois garotos universitários, eram homens, profissionais responsáveis e bem-sucedidos e acima de tudo, eram companheiros que se apoiavam e se amavam.

Claro que eles ainda errariam, ainda haveria discussões, mas não mais haveria influências externas em suas vidas. Eles aprenderiam com seus erros, e cresceriam com eles e a partir dali, suas conquistas seriam feitas em conjunto. Eles eram novamente amantes, amigos, namorados e seu companheirismo se equiparava aos casais felizes que os rodeavam. Este era seu novo universo.

E o Candy Bar? Mesmo que os anos levassem consigo e apagassem a história dele, e que as paredes fossem consumidas pelo tempo. Mesmo quando Donghae e Hyukjae tivessem se retirado do ramo e curtissem sua velhice e os deixassem nas mãos de donos mais jovens e bem dispostos, o Candy Bar continuaria em seus corações. Pois foi por trás das paredes de veludo vermelho que Kyuhyun, Changmin, Yoochun, Junsu, Jaejoong e Yunho encontraram não só a cura para seu tédio, mas também a fórmula para a felicidade.

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