Capítulo 04: Asas

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Yunho despertou, mas seus olhos continuavam pesados, quase como uma ressaca. Ele revirou na cama, sonolento, sentindo o lado de sua esposa vazio o que indicava que ela já havia acordado. O cheiro de café invadiu suas narinas, e ele se espreguiçou demoradamente, tentando espantar aquela moleza matinal. Ele não queria sair da cama, pois aquela estava demasiadamente quente confortável naquela manhã fria.

Yunho abriu os olhos tentando se acostumar com a claridade que vinha da janela de seu quarto. Do lado de fora, uma fina camada de neve se acumulava ali, indicando que o temido inverno havia finalmente começado. Ele se demorou fitando a janela, enquanto sua mente aos poucos ia montando imagens de um sonho estranho que ele tivera. De onde sua imaginação teria tirado um rapaz tão excêntrico quanto Jaejoong?

Yunho então tentou se lembrar de onde conhecia aquele rosto que sua mente nomeara como Jaejoong. Ele deveria ser um ator de cinema, pois era muito bonito. Certamente já havia visto o rapaz em algum filme qualquer. Um sorriso bobo brincou em seus lábios ao pensar naquele rapaz, e em como sua vida poderia ser mais emocionante se ele estivesse realmente por perto. Jaejoong certamente seria outro bom personagem para seu livro, outro homem de espirito livre.

Yunho sentou-se e passou as mãos nos cabelos, percebendo que havia dormido somente com sua roupa íntima. O roupão estava pendurado no armário, coisa que ele não se lembrava de ter feito. Yunho repousou suas mãos sobre as cobertas e girou a cabeça a fim de estralar seu pescoço. E então algo reluzente chamou sua atenção, algo que o deixou no mínimo desconcertado por alguns instantes.

No chão, sobre o carpete cinza do hotel estava uma pequena e delicada joia que ele sabia que não pertencia à sua esposa e nem a ninguém que estava ali naquele momento. O anel com enfeite de asa que Jaejoong ostentava em seus delicados dedos, estava ali ao seu lado. No entanto, como ele poderia ter parado ali, se Jaejoong não passava de um sonho bizarro de sua mente cansada e amargurada?

Yunho sentou-se na cama e pegou o anel frio do chão, o fitando com atenção. Decididamente não era de sua esposa, pois aquela joia dourada ficaria enorme em seus dedos finos e delicados. Era uma peça bonita, reluzente, como se tivesse acabado de sair devidamente polido da joalheria. Foi quando um pensamento agoniante e ao mesmo tempo aterrorizador tomou conta do pensamento do rapaz.

“E se não foi um sonho?”

Yunho levantou da cama em um pulo e deixou o anel sobre o criado-mudo. Ele vestiu calças confortáveis e uma blusa de manga comprida, além de meias de lã. Fez sua higiene matinal sem pressa, pois seu filho brincava com seus carrinhos na sala e a última coisa que ele precisava naquele momento, era levantar alguma suspeita. Ele penteou os cabelos e ainda se barbeou, com calma por mais que seu interior ainda estivesse agitado.

Yunho guardou o anel no bolso de sua calça e saiu para checar o quarto à frente. O que ele faria se Jaejoong realmente estivesse naquele quarto? Ou pior, se decidisse sair e encontrasse sua esposa na cozinha? O que o aliviava era ter certeza de que ela ainda desconhecia o rapaz, caso contrário já teria feito um escândalo e Junmin certamente não estaria tranquilamente brincando. Yunho passou por seu filho que ergueu os olhinhos e desejou-lhe um preguiçoso bom dia, que foi friamente respondido. Ele estava apressado.

Yunho se encaminhava para a saída quando a porta de seus aposentos se abriu rapidamente o assustando. Sua esposa riu de sua reação. Ela tinha naquela manhã um coque bem preso no topo da cabeça e usava roupas pesadas para se proteger do frio. Ela disse em voz alta e autoritária para que Junmin fosse comer seu cereal e o menino prontamente obedeceu, correndo em direção à cozinha.

– Vá tomar café, e fiz pão caseiro com frutas cristalinas.

– Ah, eu tenho que checar algo antes.

– O que é?

– As minhas anotações, eu deixei no quarto do cozinheiro. – Mentiu Yunho.

– E o que você foi fazer lá?

– Fui colocar veneno de barata. Acho que elas entram por aquela janela.

– Jura? – Indagou Hyemin, visivelmente preocupada com as baratas. – Bom, vá buscar suas anotações e venha para o café, antes que esfrie.

Yunho meneou a cabeça afirmativamente e desviou dela que tratou de ir ao quarto de seu filho buscar um gorro para protegê-lo do dia frio. Yunho olhou para a porta do quarto do cozinheiro e girou a maçaneta, finalmente percebendo que estava trancada. Ele se lembrava perfeitamente de não tê-la trancado depois de deixar Jaejoong ali, o que significava que ele poderia ter saído e a trancado, ou se trancado lá dentro.

Ele a forçou mais uma vez e ao concluir que estava trancada, decidiu ir ao escritório de Hyukjae para pegar a chave reserva. Vê-la pendurada na parede com todas as outras o tranquilizou, pois Jaejoong não poderia ter se trancado lá dentro sem rouba-las dali. Ele pegou as chaves e a passos largos seguiu para os aposentos onde imaginava ter deixado o rapaz. Na volta, sua esposa o barrou novamente no corredor, o irritando já pela manhã:

– Foi você que fez aquele doce?

Yunho travou por alguns instantes, sem fazer menção de respondê-la. Ela cruzou os braços em frente ao corpo autoritária enquanto o esperava, sem decifrar as feições desconcertadas de seu marido. O doce de Jaejoong ainda estava na geladeira, restava saber se ele ainda estava naquele quarto. A pior parte foi concluir que não fora um sonho, e aquele rapaz realmente estivera consigo na noite anterior.

– Ah, sim. – Mentiu Yunho.

– Por que? Nós já tínhamos feito bolo e agora a geladeira está cheia de doces! – Ralhou Hyemin.

– Porque eu estava com vontade de comer aquele doce. – Mentiu Yunho mais uma vez, sentindo a adrenalina percorrer seu corpo, com medo de ser descoberto.

– Aish, Yunho, as vezes você parece criança, viu? – Reclamou Hyemin. – Se queria comer doce, comesse o bolo!

– Eu não queria bolo! – Afirmou Yunho. – E se está tão incomodada com a minha sobremesa, pode jogar fora!

– Não é isso, não seja dramático! – Afirmou Hyemin impaciente. – É só que…

– É só que o que? Quer comer o doce, come, se não quer, jogue fora, agora pare de me encher com isso! – Irritou-se Yunho. – Caramba, Hyemin, é só uma porcaria de doce!

E dizendo isso, Yunho desviou-se de sua esposa, ele não queria ouvir a resposta quando seu ar de estupefação desaparecesse de seu rosto. Ela revirou os olhos e voltou para a cozinha, a fim de realizar seu desjejum com seu filho, enquanto Yunho tratava de seu assunto fútil. Ela detestava aquele tipo de discussão, e era ainda pior com as respostas vazias e evasivas de seu marido.

Ele respirou pesadamente quando parou em frente à porta do quarto onde Jaejoong teria passado a noite e a abriu sem pressa, sentindo a ansiedade tomar conta de seu peito. Algo em seu interior gritava pedindo que Jae estivesse ali, o esperando deitado sem camisa sobre a cama. Entretanto, Jaejoong não estava ali, e o quarto estava vazio e ainda impecavelmente arrumado. Era como se ele nunca tivesse passado por ali.

Yunho saiu de lá e pouco se importou em deixar a porta aberta, ou o fato de que sua prancheta não estava ali e sua mentira havia caído. Ele correu até o bar, e assim como o quarto, este parecia intacto. A garrafa de soju e os dois copos não estavam ali, tampouco o que ele usava para trabalhar na noite anterior. E até então, nenhum sinal de Jaejoong.

Yunho se perguntou se o rapaz teria ido embora e se foi, como teria se locomovido até a cidade. Ele teria levado o mesmo de carro, no entanto, ele não parecia disposto a aceitar sua carona para fora dali. Yunho estava confuso, olhava à volta como se esperasse que Jaejoong saísse debaixo de uma das mesas e o matasse com uma facada no peito. Ele saiu do bar e finalmente, ao voltar ao escritório de Hyukjae encontrou sua prancheta, com o desenho de Donghae por cima.

Yunho o cobriu e a escondeu na gaveta do escritório. Ele não se lembrava de parte de sua noite, de como deixara a prancheta ali, em que momento havia tirado o roupão, ou deitado ao lado de sua mulher. Tudo estava confuso e ele ainda não tinha certeza se Jaejoong era real ou apenas uma peça muito bem feita de sua imaginação fértil. O anel era real, pois estava bem sólido em seu bolso, assim como o doce na geladeira, e Jaejoong?

Yunho caminhou lentamente até a cozinha, fitando seus pés darem passos lentos sobre o tapete do corredor. Sua mente girava, sensação que há muito ele não sentia. Ele sentou-se à mesa e serviu-se de uma grande xícara de café, ignorando o pão à sua frente. Ele não tinha apetite quando tantas dúvidas pairavam sobre ele, e nem mesmo a feição emburrada de Hyemin o tiraram daquele torpor. Ele terminou seu café e se trancou em seu escritório, pois pela primeira vez em meses, ele precisava escrever.

Yunho repousou o anel dourado sobre a mesinha e o fitou demoradamente. Suspirou profundamente, e a primeira frase que saiu de sua mente diretamente para as teclas barulhentas da máquina de escrever foram: “Ele tinha asas. Não asas de ave, ou de nenhum animal conhecido. Eram asas de anjo, que se movimentavam ao seu bel prazer e se deixavam levar pelo vento que tinha do leste”.

A esposa de Yunho estranhou, pois durante o resto do dia, ela ouviu o barulho da maquina sempre que passava em frente a porta do escritório. Ele não saiu de lá para ir ao banheiro, comer ou tomar água. Hyemin convivera com ele por anos e nunca o viu tão empenhado em um trabalho. Por um lado, ela estava satisfeita em finalmente vê-lo voltar a escrever, mas por outro lado pensar que a briga o havia inspirado a deixou extremamente chateada.

E ela fez questão de demonstrar, passando boa parte do dia com seu tricô e seus bordados, sem se importar em chamar Yunho para as refeições. Ela esperou o momento em que ele sairia do escritório faminto, reclamando por tê-lo deixado de lado. Ela sabia que em algum momento daquela tarde ele sentiria fome e sede e sairia dali. No entanto, ele não saiu. A tarde se arrastou, muda, e o único som naquele lugar, era a maquina de escrever, trabalhando com vigor.

Yunho deixou o escritório somente ao fim da tarde, a fim de usar o banheiro e tomar um bom gole de café. Ele passou por Hyemin que parecia disposta a questiona-lo pela sua ausência, mas algo a fez mudar de ideia, provavelmente seu orgulho. Yunho não voltou a vê-los aquele dia, pois depois de seu café e de usar o banheiro, ele voltou ao escritório, ao seu delicioso conto e ao seu personagem com asas.

Ele estava preso ao final de seu conto. Afinal, seu personagem perderia as asas e cederia às pressões do convívio social, ou seria sempre aquele ser original e criativo? Yunho estava apegado a esse segundo caráter do personagem, mas pelo bem da história ele precisava escolher o melhor. E foi isso que tomou parte de sua noite. Ele viu o anoitecer pela janela pequena do escritório, foi quando decidiu caminhar pelo hotel, a fim de se escolher o rumo de seu enredo.

A porta de seus aposentos estava fechada e uma luz fraca saia pelas frestas da porta, o que indicava que sua esposa estava ali, assim como Junmin. Ele não queria ir vê-los. Passar o dia mergulhado em seu próprio mundo o fizera se esquecer deles, e ele não queria mais lembrar. Yunho não demorou a notar a luz da cozinha acesa, se irritando com o fato de Hyemin tê-la esquecido. Ele suspirou pesadamente e seguiu para seus aposentos, a fim de usar o banheiro.

Hyemin sequer ergueu os olhos de seu tricô quando ele passou em direção ao banheiro. Junmin mais uma vez rabiscava folhas em branco, enquanto murmurava palavras impossíveis de entender. Yunho concluiu que o levaria a um psiquiatra logo que tivesse chance, pois falar sozinho, mesmo que fosse um amigo imaginário não era algo comum para uma criança da idade de seu filho.

Yunho apenas usou o banheiro e fez menção de voltar ao escritório, quando finalmente se lembrou que não havia se alimentado. Ele estava faminto e com alguma sorte ainda teriam sobras da janta para que ele esquentasse. Ele caminhou distraído pelo corredor até adentrar a cozinha. O local estava devidamente iluminado, e quando Yunho percorreu o corredor, ouviu um barulho discreto logo atrás de si.

Era o barulho de liquido enchendo rapidamente um copo. Yunho virou-se sobressaltado e pela segunda vez ele o viu. Jaejoong estava lá, displicentemente sentado próximo à mesa.  Ele estava com os cotovelos apoiados na mesa e em suas mãos havia um grande sanduiche. Yunho estava indignado, pasmo. Ele deveria ter ido embora, aliás, ele acreditava que o rapaz havia ido. E ainda por cima, ele tivera a audácia de bagunçar sua cozinha.

Afinal não fora um sonho, aquele rapaz era real. Ele estava ali, à sua frente, com os pés apoiados em um encosto e a boca dando grandes dentadas em seu sanduiche. E ele não havia partido, o que pela segunda vez no dia irritou Yunho. Ele mal podia imaginar onde ele havia se escondido, ou se Hyemin desconfiava da presença do jovem ali. Por outro lado, ele lutou para ignorar a excitação que percorreu suas veias involuntariamente ao vê-lo.

Haviam potes sobre a mesa, assim como um jarro de leite. Algumas gotas brancas de leite contrastavam com o tampo de mármore, onde Jaejoong os havia derramado. E as migalhas do pão que o rapaz comia estavam espalhadas pela mesa, pelo chão e algumas presas em suas bochechas. Yunho suspirou pesadamente, visivelmente cansado para chamar a atenção de Jaejoong. Até o final de sexta-feira ele teria que mandar aquele rapaz para longe, ou ele seria obrigado a passar o resto do inverno com eles.

Seu suspiro chamou a atenção de Jaejoong que ergueu o tronco e sorriu ao visualiza-lo. Yunho cruzou os braços em frente ao peito, tentando demonstrar uma irritação que não sentia. Ele não podia vacilar, teria que levar o rapaz para longe antes que ele fosse descoberto. Jaejoong soltou seu sanduiche e de um salto saiu do banco onde estava acomodado e correu em direção a Yunho. Naquele dia ele trajava roupas diferentes, o que indicava para o outro que sua bagagem estava escondida em algum lugar no hotel.

Ele estava pronto para brigar com um rapaz, reforçando seu discurso de bom funcionário e marido. No entanto, como na noite anterior ele foi prontamente interrompido pelo loiro. Jaejoong não ficou acuado com suas feições irritadiças e correu em sua direção de braços abertos. Ao alcança-lo, Jaejoong o envolveu pelos ombros e o abraçou com força, como alguém que sente muitas saudades.

Yunho não sabia como reagir. Há muito ele não era abraçado daquela maneira e eles tampouco tinham intimidade para tanto. Não era necessário um abraço como aquele, mas ainda assim ele não pôde evitar corresponder apenas repousando as mãos nas costas do rapaz. Seu cheiro mentolado o inebriou mais uma vez, e os cabelos macios de Jaejoong acariciaram sua face.

– Boa noite Yunho-hyung!

A segunda parte de coisas desnecessárias começou. Jaejoong o apertou com força pelo pescoço o deixando momentaneamente sem fôlego. Quando o rapaz se afastou, deixou um beijo demorado no rosto fino de Yunho, o sujando de migalhas de pão e a maionese que estava depositada em seus lábios. O loiro se afastou e segurou suas duas mãos, as balançando de um lado para outro, brincando com seus dedos.

– O que você ainda faz aqui? – Disse Yunho, ressaltando a desobediência do rapaz. – Eu não disse pra você ir embora?

– Porque eu percebi que você precisa de mim, hyung. – Explicou Jaejoong com uma calma sobrenatural. Ele não se afetava pelo humor de Yunho.

– Você está brincando comigo, é isso?

– Claro que não, eu lá tenho cara de quem brinca com as pessoas? – Disse Jaejoong afetado. – A grande questão Yunho-hyung, é que a sua esposa, apesar de ser bonitinha é uma tremenda incompetente e não cuida de você.

– Jaejoong…

– Vamos, Yunho-hyung, eu te fiz um sanduiche. – Disse Jaejoong o puxando pelo pulso.

– Não! Você precisa ir embora, eu já…

– Não! – Interrompeu Jaejoong o puxando com mais força, fazendo o rapaz perder o equilíbrio. – Você não vai me usar como desculpa, vai sentar e comer o seu sanduiche. Onde já se viu um homem desse tamanho passando o dia todo sem comer, parece um adolescente mimado e revoltado com o mundo.

Yunho o acompanhou com ares de indignação. Jaejoong somente o soltou quando se aproximou da mesa e apontou um prato ao qual ele não tinha se atentado. O sanduiche parecia apetitoso, com tomate, alface, queijo e uma generosa camada de maionese. O estômago de Yunho roncou sonoramente, fazendo Jaejoong rir, enquanto se dava ao trabalho de também servir um copo de leite ao outro.

– Jaejoong, nós precisamos conversar e você precisa me ouvir. – Alertou Yunho.

– Só depois de o senhor comer tudinho e me ajudar na minha nobre e difícil tarefa.

– Te ajudar em que?? – Indagou Yunho ainda estupefato.

– Come que depois eu te conto.

– Jaejoong…

– Para de me chamar e coma logo o seu sanduiche, ou eu vou dar ele ao leão!

– Que leão? – Indagou Yunho, sem conter um riso discreto.

– Aquele que tem lá fora, é claro. – Explicou Jaejoong parecendo sério demais para alguém que falava de um leão imaginário.

– Deixe de bobagem, não tem leão nenhum lá. – Afirmou Yunho se sentando de frente para o rapaz e bebendo um gole do leite que este o havia servido.

– Você vai ver como tem. – Reafirmou Jaejoong. – E ele gosta muito de sanduiche, então você deveria comer o seu logo.

– Jaejoong, vamos falar sério agora e eu quero que você me ouça. – Disse Yunho, finalmente provando do sanduiche que parecia ainda mais delicioso. – Você precisa ir pra casa.

– Por que você continua insistindo nisso sendo que nós dois sabemos que eu não vou a lugar algum? – Disse Jaejoong. – Eu não vou embora, hyung e está decidido. Não enquanto você precisar de mim.

– O que te leva a pensar que eu preciso de você? – Indagou Yunho já na metade do sanduiche que ele comia com voracidade, intercalando as mordidas com um gole de leite.

– O que te leva a pensar que não precisa de mim?

– Eu nem te conheço. – Disse Yunho dando de ombros. – A única coisa que eu sei é que você é maluquinho da cabeça.

– Eu vou te provar que você precisa de mim, e você vai ver que o seu melhor acerto foi não ter me mandado embora.

– Eu posso te colocar pra fora a qualquer momento, você sabe disso, não sabe?

– Eu sei disso. – Disse Jaejoong dando de ombros. – Você já comeu? Não pode comer tão rápido, dá indigestão!

– Eu estava com fome! – Explicou Yunho. – Eu quero mais um sanduiche, vou…

– Eu vou fazer!

E com um sorriso animado Jaejoong se levantou da mesa e correu pela cozinha reunindo os ingredientes. Yunho fitou a animação do rapaz como se visse algo realmente estranho para si. Jaejoong andava de um lado a outro, deixando frases soltas no ar como “não posso esquecer o queijo” e “ele vai gostar se eu colocar maionese aqui também”. Yunho piscou algumas vezes, logo que o prato com o sanduiche foi colocado à sua frente e seu copo de leite reabastecido.

Jaejoong era uma figura única e ele pensava de onde aquele rapaz poderia ter saído. Enquanto Yunho comia, agora sem pressa, Jaejoong tratou de limpar a mesa e arrumar a cozinha, cantarolando uma música romântica. A cozinha ficou limpa em poucos minutos e quando o último prato voltou ao armário, Jaejoong correu na direção de Yunho que continuava sentado, sem proferir outra palavra. Ele começava a entender que Jaejoong apenas iria embora quando ele quisesse.

Ver aquele rapaz se mover era hipnotizante. Ele tinha graciosidade, ao mesmo tempo em que era masculinizado. Vez ou outra ele dirigia a si um daqueles sorrisos charmosos e simpáticos, e Yunho ainda não conseguia definir quando o rapaz estava brincando, quando estava sendo irônico e quando falava a verdade ou mentia. Jaejoong correu em sua direção disse com ar divertido, como se o chamasse para uma brincadeira.

– Vamos, Yunho-hyung, pegue suas botas e um casaco bem pesado.

– Por que?

– Porque nós vamos lá fora! – Disse Jaejoong sem conter os sorrisos.

– Fazer o que?

– Ah, você vai ver! – Disse Jaejoong dando-lhe as costas e correndo para fora da cozinha.

Yunho fitou o rapaz e não demorou a sair atrás dele. Jaejoong se precipitou para o quarto do cozinheiro e Yunho foi ao seu, encontrando Hyemin e Junmin já adormecidos. Ele não fez barulho quando pegou o que o rapaz havia indicado a ele, e saiu quarto afora para reencontra-lo. Foi quando percebeu que algo estava diferente. O quarto do cozinheiro estava uma bagunça.

Haviam roupas espalhadas pela cama, fotografias, jornais e desenhos sobre a pequena escrivaninha, sapatos e meias pelo chão e os lençóis estavam amarrotados. O armário aberto exibia uma gama enorme de roupas, entre elas, o pesado casaco de cor escura e com o capuz peluciado que Jaejoong tirava do mesmo. Ele se vestia quando pediu para que Yunho se apressasse e fizesse o mesmo.

Yunho o questionaria, mas sabia que seria em vão. Jaejoong apenas responderia as perguntas ao seu tempo, e aparentemente aquele era um tipo de surpresa. Yunho sentou-se na cama desorganizada do rapaz e trocou seus sapatos confortáveis pelas pesadas botas de neve. Jaejoong ainda envolveu o próprio pescoço com um cachecol de lã branco e finalmente sentou-se ao seu lado, sorrindo. Ele esperou Yunho vestir o casaco e finalmente voltou a falar:

– Yunho-hyung, o que nós vamos fazer essa noite é algo que todos os zeladores deste hotel já fizeram. – Afirmou Jaejoong.

– E como você sabe que…

– Eu sei, oras. – Interrompeu Jaejoong antes que o outro terminasse de perguntar, levando-o a crer que aquela era outra mentira. – Nós vamos salvar o jardim.

– Ahn? Como? Pra que?

– Venha comigo.

Jaejoong se levantou, não animado como estava antes, mas com calma, como alguém que desperta depois de muito tempo deitado. Yunho acompanhou seus movimentos e aceitou sua mão quando o rapaz a estendeu. A temperatura da pele do outro voltou a surpreende-lo e instiga-lo. A mão do rapaz era macia, como se, apesar de ser homem, ele nunca tivesse feito nenhum trabalho braçal ao longo de sua vida.

Yunho tentava entender como o rapaz poderia ter uma pele quente e fria ao mesmo tempo. Era como se ele estivesse febril e alguém o tivesse jogado em um banho de água fria. Como se seu organismo estivesse em um constante choque térmico, e apesar de sua pele ser quente, o sangue que corria em suas veias, era frio. E aquele cheiro mentolado o acalmava, mesmo que sua consciência insistisse que ele deveria leva-lo embora.

– Você gosta do jardim, Yunho-hyung? – Indagou Jaejoong.

– Gosto. É muito bonito.

– Já parou para observar ele à noite?

– Ainda não.

– Pois bem, ele é ainda mais bonito à noite. Você não acha uma pena ele morrer durante o inverno? Quer dizer, flores tem vida como nós, respiram a sua maneira o mesmo oxigênio que nós e se você quer saber, elas tem sentimentos.

– E como você sabe disso?

– Oras, Yunho-hyung, todos sabem que uma flor cresce muito mais bonita quando você conversa com ela. Falar coisas bonitas, contar histórias reais ou inventadas, até mesmo confidenciar segredos faz com que as pétalas durem bem mais, que o perfume seja mais forte e gostoso e que a flor seja mais saudável. Alguns estudiosos dizem que até mesmo música calma ajuda no desenvolvimento das plantas.

– Então é isso o que você é? Um jardineiro?

– Não, na verdade, eu sou um artista. – Explicou Jaejoong levianamente, soltando a mão de Yunho apenas para abrir a grande porta da frente do hotel, que rangeu quando foi movida. Jaejoong apertou o cachecol contra seu pescoço e estendeu a mão a Yunho que a aceitou mais uma vez. – Vamos, não podemos demorar aqui fora porque vai nevar daqui a pouco.

– Como você sabe?

– Olhe para o céu, Yunho-hyung, sem estrelas, nuvens espeças espalhadas, não dá pra ver sequer um pedacinho acima delas. É claro que essa noite vai nevar mais forte.

– E como exatamente você pretende salvar o jardim? – Disse Yunho olhando aquela imensidão de flores espalhadas por toda a entrada.

– Nós não vamos salvar o jardim inteiro. – Explicou Jaejoong contornando o hotel, se dirigindo para o depósito ao lado do local, do qual Yunho apenas ouviu falar. – Vamos salvar uma flor de cada espécie. A mais bonita de todas as rosas e o mais bonito de todos os cravos, é o que vamos fazer.

Jaejoong caminhou em largas passadas até o depósito, tendo Yunho o acompanhando ao seu lado ainda com seus dedos entrelaçados. O local era um depósito típico, bagunçado, empoeirado e muito frio. Uma lâmpada amarela pendurada por um fio foi acesa por Jaejoong que puxou uma corda, finalmente iluminando o local.

Haviam estantes enormes de madeira, corroídas pelo tempo e pragas como cupins. Nelas estavam dispostas, latas, ferramentas, peças estragadas, pesticidas, tudo coberto por uma grande camada de poeira. No meio do depósito estava estacionado o snowmobile, a única maneira de sair do hotel quando a neve fechasse as estradas. O problema, é que o pequeno veículo ia á 30km por hora em sua capacidade máxima, sendo assim, era mais provável que eles congelassem no meio do caminho do que efetivamente chegar ao seu destino.

Yunho então voltou a olhar Jaejoong que arrastava com dificuldade uma grande embalagem de estopa. Ele viu a dificuldade do rapaz e tratou de ajuda-lo a trazer o que ele queria. Logo Jaejoong começou a caminhar pelo local, e com conhecimento prévio, ele pegou todas as ferramentas que precisariam. Vasos de barro que estavam antes recostados a uma parede, pás, tesouras de jardinagem, tudo foi reunido pelo loiro que estava devidamente concentrado.

Jaejoong sentou-se no chão e pediu para que Yunho o acompanhasse. Ele então rasgou o grande saco de estopa e dele rolou terra, preta, macia, pronta para ser devidamente colocada nos vasos. Jaejoong pegou a terra com as mãos e começou a coloca-la no pequeno vaso de barro de cor bege, disposto entre suas pernas. Yunho o observava fascinado, suas ações eram sempre tão imprevisíveis, e ao mesmo tempo pareciam tão naturais, instintivas.

– Vamos, Yunho-hyung, me ajude. – Chamou Jaejoong, olhando o rapaz. – Pegue um vaso, encha de terra.

– Eu posso usar a pá, pelo menos? Ou as luvas? – Indagou Yunho, entre risos, se sentando diante do rapaz.

– Que graça tem mexer em um jardim e não se sujar de terra? Vamos, estenda a sua mão.

Yunho sorriu, discreto e estendeu a palma para Jaejoong. Ele derrubou terra na palma de sua mão e a espalhou com seus dedos, sujando-a. A terra era fofa, fria e macia, Yunho não resistiu e deixou sua mão se roçar a do outro, sentindo os grãos negros saírem dela, deixando a pele do outro lisa e seca. Eles não se olhavam, apenas observavam suas mãos, brincando com a aquela sujeira limpa.

– Viu? É gostoso. – Concluiu Jaejoong. – Pegue um pouco pra você.

Yunho sorriu, desta vez mais abertamente, mais verdadeiramente. Seus olhos se estreitaram e a fileira de dentes perolados se mostraram em uma demonstração incomum e genuína de afeto, coisa que era rara para aquele rapaz. O rosto de Jaejoong corou com aquele sorriso e ele logo voltou sua atenção para o pequeno vaso à sua frente. E assim, em silêncio, eles deram continuidade à sua tarefa, que para Yunho parecia mais um passatempo.

Aos poucos os vasos se encheram e só então Jaejoong calçou duas grossas luvas amarelas e entregou um par ao outro. Yunho o seguiu com uma pá em mãos e eles atravessaram o jardim, sem pressa alguma. Jaejoong o puxou pela barra da camisa, até que eles se aproximaram das rosas. Elas estavam espalhadas pelo canteiro, e Jaejoong as analisava com uma feição tranquila, da qual Yunho não tirava os olhos. Ele então se encurvou, afastou algumas roseiras e afundou a pequena pá de jardinagem na terra já não tão bem cuidada do jardim.

Ele não se demorou a erguer-se retirando a flor com as raízes do local onde esta havia sido plantada e a colocou em um pacote próprio para seu transporte. Jaejoong o fechou com destreza e Yunho viu seus olhos brilharem ao erguer a bela rosa, que ainda não estava totalmente aberta. Eles se separaram e Yunho imitou suas ações, e assim foram com os cravos, as violetas e todas espécies de flores ali expostas. Quando Jaejoong colocou a última margarida em seu pacote, o primeiro floco de neve caiu, sobre os cabelos negros de Yunho.

Eles pegaram as flores, uma a uma e voltaram para o depósito, enquanto a neve começava a se precipitar pesada, deixando seus flocos se depositarem na calçada, nas flores e plantas. Yunho seguiu Jaejoong que voltou a se sentar no chão e retirou suas luvas. Ele começou a cavar com os dedos a terra de um dos vasos, antes de colocar o cravo vermelho e lindamente aberto ali. Yunho sentou-se à sua frente, e passou a acompanha-lo, imitando o que o rapaz fazia com as flores.

– Sobre o que você escreveu hoje, Yunho-hyung? – Disse Jaejoong, cortando o silêncio confortável que havia entre eles. – O que te fez ficar trancado no escritório o dia todo?

– Sobre o que eu escrevi? Eu escrevi sobre um homem que tinha asas. – Afirmou Yunho, se lembrando que o anel de Jaejoong ainda estava em seu bolso.

– E ele voava? – Indagou Jaejoong sem fita-lo, com os olhos sobre os vasos, ainda que sorrisse. – Ele era o rapaz da foto?

– Não sei, ele era um rapaz sem rosto para mim. – Afirmou Yunho. – Mas não está pronto ainda, eu não tenho certeza de como vou finalizar.

– E qual a sua ideia?

– Eu ainda não sei se ele perde as asas ou não. – Afirmou Yunho, deixando seus dedos sentirem a textura fina das pétalas do crisântemo que ele acabara de colocar no vaso.

– Por que? Por que ele deve perder as asas?

– Para ter uma vida normal. – Afirmou Yunho.

– Normal? Por que abdicar o que tem de especial nele por uma vida normal? Qual a graça da normalidade?

– A vida não tem que ter graça, tem que ter conforto, Jaejoong. – Afirmou Yunho. – E não é bom viver em um mundo de sonhos.

– É claro que a vida tem que ter conforto, mas por que se levantar da cama pela manhã se tudo o que há de mais bonito em você foi abandonado? Como você pode achar que o nascer do sol é bonito se é incapaz de enxergar as cores do amanhecer?

Yunho parou de afofar a terra de seu vaso para fitar o rapaz que argumentava consigo sobre uma história que sequer era de sua autoria, e que ele certamente não leria. O escritor deixou um sorriso discreto brincar em seus lábios enquanto fitava aquele homem à sua frente.

– Você é uma figura, Jaejoong.

– Por que diz isso?

– Você é tão… vê o mundo de um jeito tão… quem é você? De onde você veio? Por que está aqui?

– Eu sou o Jaejoong, eu vim de Seul e estou aqui porque as flores e o Yunho-hyung precisam de mim.

– Você acha que ele não deveria perder as asas no final da história?

– Acho. E também acho que ele deveria voar para todos os lugares do mundo. Ver o topo de um vulcão, ou descer para uma caverna subterrânea onde existem aqueles lagos cristalinos, só para nadar e depois ir pra casa, voando.

Yunho voltou a sorrir, o que não foi visto pelo loiro ainda atento às suas flores. Ele ainda não queria admitir, mas não desejava mandar aquele rapaz para longe. Ele parecia tão frágil sentado à sua frente, com as pernas separadas e um vaso de flores, onde ele derramava um pouco de água, à sua frente. Era como se ele conseguisse ver o inverno e aquela imensidão de neve o engolindo por inteiro.

Yunho não era paternal, nunca fora. Não gostava de cuidar de ninguém que não fosse ele mesmo, não possuía instinto protetor com nada que não fosse seu patrimônio ou obrigação. Jaejoong não era nenhum dos dois e ainda assim, algo dizia que aquele rapaz ainda teria muito a lhe ensinar antes que eles definitivamente se separassem. Sem contar o espírito aventureiro que ele despertara em Yunho.

Era emocionante esconder algo de Hyemin, quase como quando escapava para os bares e mentia dizendo que estava trabalhando até tarde. A adrenalina da mentira corria em suas veias, e aos poucos ele se viciou também em suas desculpas e mentiras. E lá estava ele com seu novo e adorável segredo, deste ele não pretendia se livrar tão cedo. A menos que ele criasse asas, e voasse para longe.

– Pronto! – Disse Jaejoong depois de molhar a última violeta, acordando Yunho de seus pensamentos. – Yunho-hyung, nós precisamos de um banho bem quentinho, você não acha?

– Acho que sim. E uma boa noite de sono, não é?

– Você está com sono, hyung?

– Um pouco para ser sincero.

– Então vamos logo porque você precisa dormir!

Jaejoong se ergueu em um pulo e deixou os vasos de plantas posicionados sobre uma estante, indicando que Yunho deveria rega-los e conversar com eles, ao menos duas vezes pela semana. Eles deram as mãos e seguiram novamente para o hotel, desta vez pisando na neve fofa que ainda caía. Na entrada do hotel, eles bateram as botas e as deixaram ao lado da porta, andando apenas de meias em direção aos seus quartos. Yunho se preparava para se despedir de Jaejoong quando ele o puxou novamente para onde havia se instalado.

– Achei que nós fossemos tomar banho. – Afirmou Yunho parado à porta, fitando o rapaz retirar o casaco sujo de terra e neve e joga-lo sobre a cama.

– Nós vamos, Yunho-hyung! – Afirmou Jaejoong, puxando a barra da camisa fina que usava para cima, pronto para retira-la.

– Você não está achando que eu vou tomar banho com você, certo?

– Por que não? – Indagou Jaejoong visivelmente desapontado, fazendo Yunho arregalar os olhos, mais uma vez indignado.

– Porque nós somos homens! Onde já se viu, dois machos dividindo o mesmo chuveiro? Só na prisão!

– Mas ninguém está olhando. – Argumentou Jaejoong ainda decepcionado, finalmente retirando sua camisa e a jogando em um canto do quarto.

– Jaejoong, eu não vou entrar no chuveiro com você! – Afirmou Yunho veemente.

– Mas eu queria conversar mais um pouquinho com você. – Pediu Jaejoong. – Fica aqui.

– Jaejoong, eu até quero conversar, mas… – Yunho parou de falar quando o rapaz virou-se de costas e abaixou as calças, levando com elas a roupa intima que usava. Ele agiu instintivamente, ficando de costas para o rapaz. – Você não tem vergonha não?

– Não. – Respondeu Jaejoong com sinceridade. – O que tem de errado com o meu corpo?

– Não é… aish! – Reclamou Yunho.

– Vem, fica sentado lá no banheiro enquanto eu tomo banho, assim nós podemos conversar! – Disse Jaejoong se aproximando já nu e segurando a mão do outro com as próprias. – Não precisa ficar envergonhado, eu tenho o mesmo que você entre as pernas.

– Não é esse o problema! – Afirmou Yunho incomodado, virando brevemente o rosto e fitando o rapaz de soslaio, para perceber o quão perto ele estava.

– Você tem medo de ficar excitado comigo? Se for isso, não precisa ter medo.

– O que? Não! De onde você tirou isso? – Disse Yunho finalmente se virando e fitando o rapaz.

Yunho tentou se conter, mas seu olhar percorreu o corpo do jovem rapaz. Ele era magro, esguio e sua pele era extremamente branca, quase como se estivesse coberto com um pó perolado. Tinha uma tatuagem em seu tórax bem definido, o que o deixava ainda mais masculinizado. Jaejoong sorriu, sem malícia, sem julga-lo por tê-lo olhado demoradamente. Ele o puxou pela mão e voltou a insistir.

– Venha, hyung. Eu estou com frio.

O inebriado Yunho o acompanhou, se demorando nas tatuagens no alto de suas costas, que pareciam terem sido feitas há pouco tempo. Ele seguiu o rapaz até o banheiro e fechou a porta, o observando adentrar o box e ligar o chuveiro quente. A água molhou a pele do rapaz, se depositando sobre a mesa em gotículas, enquanto ele se movia tentando alcançar sua pele com a deliciosa água que caía o aquecendo.

– Você é muito despudorado, sabia? – Criticou Yunho.

– O que é pudor pra você, hyung? – Indagou Jaejoong sem voltar-se para ele, enquanto agora umedecia seus cabelos.

– Pudor? É algo que impede que eu me sinta constrangido enquanto convivo com você. É você ter discrição, e não fazer coisas como tirar a roupa ao lado de alguém que você acabou de conhecer.

– Constrangimento. Yunho-hyung o pudor é algo que a sociedade te impõe de acordo com a sua criação e isso inclui o que te envergonha. Você por exemplo, tem vergonha de me ver nu, mas não de ser um marido ausente. Tem vergonha de falar sobre excitação, mas não de agir como um adolescente.

– Isso é pessoal, Jaejoong. – Afirmou Yunho, incomodado com as palavras do outro rapaz.

– Eu sei que é. – Afirmou Jaejoong deixando o sabonete escorregar por seus braços, formando uma espuma fina. – As pessoas são hipócritas, Yunho-hyung e você age como elas. Todo mundo tem segredos, todo mundo é despudorado em algum momento da vida e mesmo assim são hipócritas e julgam as pessoas por ações que acham moralmente inaceitáveis. No entanto, nós estamos no meio do nada, trancados os dois no mesmo quarto, se você não me julgar, eu não julgo você.

– Acha que é isso? Trata-se de um mau julgamento?

– Imagine pessoas que são obrigadas a ficarem nuas uma em frente a outra, como na prisão. Acha que elas julgariam a outra como despudorada em um momento como aquele?

– De forma alguma.

– Agora me diga, por que eu não deveria mostrar meu corpo a você? Meu corpo é o meu templo, Yunho-hyung, e ao mesmo tempo é meu cartão de visitas. Você pode daqui a cinco ou dez anos não se lembrar de nada do que eu te disse hoje, mas vai se lembrar do meu rosto e do meu corpo. E se você tivesse entrado aqui no chuveiro comigo, eu me lembraria do seu também. Por enquanto, eu vou ficar com o seu sorriso.

– Você faz ideia o quão erótico você soa falando assim?

– E você não acha que adultos precisam de um pouco de erotismo para serem satisfeitos? Seja transando com três mulheres ao mesmo tempo ou simplesmente espiando a vizinha passando creme nas pernas, o erotismo é algo necessário. Não é essencial, mas é necessário, como um sopro discreto de vitalidade. Você não acha isso, Yunho-hyung?

– Não sei, eu sou um bom abstêmio.

– Você é abstêmio?

– Eu não quero falar da minha vida sexual.

– Foi por isso que você gostou do desenho daquele rapaz, porque era erótico. – Disse Jaejoong, repentinamente parecendo animado. – Como é me ver nu pra você? Como é falar de erotismo sem que ele faça parte da sua vida?

Yunho surpreendeu-se com a velocidade do rapaz. Jaejoong desligou o chuveiro, e ajoelhou-se de frente para ele com um olhar predatório. Yunho arregalou os olhos com a proximidade do outro, que deixou suas mãos se apoiarem em seus joelhos. O escritor estremeceu com seu toque, levando uma das mãos ao ombro do outro, sentindo-o agora quente, como deveria ser e não aquela estranha temperatura ambígua.

– Como é? É bom né? Sair da abstinência nem que seja por pouco tempo? Pecar um pouquinho longe dos olhos que julgam.

Yunho estava estático. As mãos firmes do rapaz se mantinham em seus joelhos e seu olhar parecia prestes a devora-lo. Era uma atmosfera estranha, à qual ele não estava habituado. E Jaejoong tinha razão. Era um momento erótico, que ele ainda não sabia como assimilar, e sequer sabia se estava gostando. Jaejoong sorriu e se afastou com seu jeito ágil, voltando a ligar o chuveiro enquanto falava para o abismado Yunho.

– Pode continuar me olhando, eu não conto pra ninguém.

– Eu vou para o meu quarto, Jaejoong. – Afirmou Yunho.

– Não precisa ir, hyung. – Disse Jaejoong terminando de retirar o shampoo de seus cabelos e novamente desligando o chuveiro. – Você está mesmo com medo de ficar excitado me olhando, não é?

– Eu não vou… Jaejoong, eu não gosto de homens.

– As suas negações são sempre excitantes.

Jaejoong fitou o outro rapaz negar com a cabeça, enquanto esfregava a toalha em seu corpo, absorvendo deste as gotículas que ainda estavam em sua pele. Yunho se levantou do chão frio e se aproximou de Jaejoong, puxando a toalha de suas mãos. Ele a colocou em sua cabeça, esfregando o tecido em seus cabelos para que a água não escorresse dali. Jaejoong sorriu, enquanto os olhos negros de Yunho se mantinham presos ao seu cabelo.

– Você está cansado. – Concluiu Jaejoong. – Parece frustrado, com o que?

– Nada importante. – Mentiu Yunho. – Podemos falar disso amanhã, quando você estiver vestido.

– Ou quando estivermos nós dois nus!

Jaejoong riu e deixou um beijo estalado no rosto do outro rapaz, antes de correr para fora do banheiro. Yunho sorriu discreto o acompanhando com o olhar. Seus movimentos leves e lentos enquanto ele se vestia eram hipnotizantes. Jaejoong jogou os cabelos, em tom mais escuros devido à umidade, para trás, o afastando de seus olhos e retirou as coisas antes deixadas sobre a cama.

Yunho o observou estender um pesado cobertor sobre a cama e engatinhar sobre a mesma, até se ajeitar em seu devido lugar. Ele sentou-se no colchão e levou o cobertor na altura de sua cintura, o alisando com as palmas da mão e só então desviando o olhar para Yunho. O loiro deu alguns tapas no colchão, chamando o outro para se deitar consigo, o vendo sorrir e negar com a cabeça.

– Por que não? – Indagou Jaejoong, mais uma vez desapontado.

– Porque você precisa dormir, e eu nem tomei banho ainda. – Yunho atravessou o quarto e se sentou na beirada da cama, fitando o rapaz se deitar e cobrir-se até os ombros.

– Você pode dormir comigo se quiser. – Ofereceu Jaejoong.

– Não, eu vou para o meu quarto. – Afirmou Yunho. – Nos encontraremos amanhã.

Jaejoong assentiu silenciosamente, enquanto Yunho se levantava, afundando as mãos nos bolsos dianteiros de sua calça. Então seu dedo tocou o metal frio do anel de Jaejoong que ainda estava ali, e o fez se perguntar mais uma vez se o rapaz estivera em seu quarto na noite anterior. Ele retirou o adorno de seu bolso e o olhar de Jaejoong o acompanhou.

– É seu. – Disse Yunho simplista, erguendo o anel e o mostrando.

– Você achou. – Afirmou Jaejoong sem emoção, como se já soubesse de sua descoberta.

– Boa noite, Jaejoong.

Yunho o desejou em tom baixo, se encurvando sobre a cama e segurando o pulso do rapaz o erguendo até que sua mão estivesse próxima o suficiente. Ele colocou o anel no dedo do loiro que deixou um sorriso iluminar o canto de seus lábios. Yunho se lembrou brevemente de seu casamento com aquele ato, o que logo foi substituído por algo um pouco mais preocupante. Jaejoong estava com a pele fria novamente, e ele era incapaz de sentir sua pulsação sanguínea.

Yunho fitou o rapaz demoradamente, vendo aquele sorriso brincar mais uma vez com seu psicológico, como alguém que machuca somente por prazer. Ele soltou a mão do rapaz que voltou a se acomodar sobre as cobertas, enquanto ele ainda se perdia nas feições de Jaejoong. Yunho demorou, mas se afastou, sendo acompanhado pelo olhar brilhante e vivo do outro rapaz. O loiro aos poucos fechou os olhos, se permitindo adormecer sob o olhar de Yunho.

Aquela era a última coisa que Yunho se lembrava daquela noite. Encontrar com Jaejoong tinha nele quase o mesmo efeito dos Martinis, era quase viciante. Ele guardaria na memória a imagem do rapaz adormecendo, como um anjo envolto no conforto das nuvens espeças. Yunho adormeceu profundamente naquela noite, sem saber que o rapaz despertara nele algo há muito adormecido, como uma fera escondida em sua caverna.

Enquanto ao seu lado, Hyemin dormia tranquilamente, depois de muito tentar desvendar o que passava com seu marido. Ele sempre fora um homem complicado, mas nunca como agora. Mal sabia ela do abismo que se formava entre eles, e das forças que começavam a envolver Yunho e se intrometer em sua vida familiar. Mal sabia ela que o culpado de tudo aquilo dormia no quarto ao lado.

E pela primeira vez em anos, Yunho dormiu bem, se sentindo pela primeira vez livre de certas amarras. Alheio ao que deveria enfrentar no dia seguinte e já decidido o final de seu conto, ele finalmente pôde descansar como há muito não fazia. Sem contar o delicioso cheiro mentolado ainda próximo a si, os lábios quentes que acariciaram seu rosto tão fraternalmente, e as feições de Jaejoong, o embalaram para longe do Overlook, de sua família e obrigações. Para o mundo de sonhos, aonde seu sono pertencia, por onde ele pôde voar até o mais alto dos vulcões, e ao mais profundo dos lagos cristalinos subterrâneos.