Capítulo 01: New job

newjobjunsu

Hyukjae era um babaca. No entanto, não era um babaca qualquer, era o pior tipo de babaca que existia. Do tipo que faz você querer esgana-lo e arrancar seus olhos com as próprias mãos. O terno engomado, o relógio de marca, o cabelo bem penteado, davam a imagem perfeita aquele homem. Ele via a hipocrisia por trás daquele sorriso perolado que o rapaz exibia, via a falsidade de uma vida dupla de alguém que enganava a sociedade coreana com seu ar simpático. Os olhos grandes de Hyukjae, fitavam o homem a sua frente, analíticos, observadores, como um bom gerente deveria ser.

Yunho sorria seu mais bem ensaiado sorriso. Aquele feito um milhão de vezes em frente ao espelho, para exprimir simpatia sem exagero, com um toque de mistério que ele não abandonava. Hyukjae suspirou pesadamente e olhou mais uma vez para o curricullum a sua frente. Diversas referências, salários altos, aquele era um bom funcionário, não fosse seu deslize que o sugara para baixo em sua carreira, como em um buraco negro.

Yunho detestava aquilo, detestava se submeter ao julgamento do hipócrita Hyukjae, detestava tais convenções sociais que o obrigavam a sorrir e a bajular pessoas que deveriam lamber o chão por onde ele passava.  Hyuk olhou o relógio e mais uma vez o curricullum antes de se manifestar, em tom lento, o que desagradava Yunho ainda mais, se é que era possível ficar mais frustrado em uma situação como aquela.

– Yunho, você sabe que não é o meu favorito para este cargo, certo?

– Sei que a minha candidatura ainda parece estranha, mas eu estou mesmo unindo a necessidade com a vontade. Quer dizer, o isolamento é exatamente o que eu preciso neste momento.

– Sobre o incidente na faculdade…

Yunho talvez tivesse deixado transparecer sua frustração, pois Hyukjae pausou a frase. Yunho diminuiu o sorriso, afinal o outro entrava em um assunto delicado, do qual sinceramente ele não desejava tratar. Hyukjae não encontrava as palavras corretas, por mais que Yunho pudesse vê-lo em seu esforço. Era quase como ter a cabeça de Hyukjae aberta sobre a mesa e ver seu funcionamento rápido.

– Foi um caso isolado. O álcool e o alto nível de stress resultaram em algo que eu jamais imaginei fazer e ambos já estão devidamente tratados. Você não tem o que temer, não é como se eu fosse ter outra oportunidade enquanto estiver em isolamento.

– É sobre o isolamento que nós precisamos conversar. Ele mexe com a mente das pessoas, Yunho. – Hyukjae se levantou e caminhou lentamente até a janela, se demorando na vista da cidade. – São quatro meses, envoltos por nada senão neve. Não há para onde ir, ou meios de se comunicar.

– Eu não vou estar sozinho, terei a companhia da minha linda esposa e do meu filho.

– Sei que não estará solitário e não o contrataria se estivesse. – Afirmou Hyukjae ríspido. – Ainda assim, tenho que ter certeza que está apto a ficar lá pelo tempo necessário.

– Estes quatro meses são o que eu preciso para mim, eu preciso sair desta cidade, esquecer tudo aqui por algum tempo, me dedicar ao meu livro e depois voltar e recomeçar. Você sabe que eu preciso disso, e você precisa de um zelador.

– Acho que se eu ilustrar do que se trata este isolamento, você me compreenda melhor. – Afirmou Hyukjae mais para si do que para o outro, ignorando as palavras de Yunho. – Você bem sabe que o hotel está em pé desde o século passado, certo?

– Sim, desde 1890. – Afirmou Yunho, voltando a sorrir quando o olhar do rapaz voltou-se para si.

– De lá para cá, ele teve diversos donos, diversas situações, diversos problemas até ser comprado e reformado pelo meu pai. – Contou-lhe Hyukjae, com aquele detestável ar pomposo. – Durante a guerra das Coréias, ele foi refúgio da alta sociedade do nosso país, escondendo os bem afortunados dos horrores que aconteciam aqui em Seul.

Yunho assentiu silenciosamente, e sorriu, totalmente desinteressado.

– Há dez anos atrás, no final da guerra, quando Seul foi retomada, a Coréia do Sul sofreu um terrível inverno, dos mais rigorosos, como você deve bem se lembrar. Naqueles dias, nós contratamos um zelador, que como você, levou a família para passar o longo inverno no hotel. Ninguém sabe o que houve naqueles dias frios, ninguém viu ou ouviu nada, até que finalmente a neve baixou e as pessoas tiveram novamente acesso ao hotel. Eles estavam todos mortos.

Yunho puxou o ar pela boca em falso tom de surpresa e arregalou os olhos, pensando em seguida se sua reação parecera forçada. Hyukjae não sorriu, mas Yunho percebeu seu deleite com sua reação de surpresa e certamente ela fizera efeito. Ele mal podia acreditar que Hyukjae estava tentando fazer que ele desistisse da vaga com uma história boba sobre um hotel mal assombrado. Talvez se ele andasse menos grudado em certo rapaz, pouparia Yunho de tamanha babaquice.

– Ele matou as duas filhas de dezesseis e dezoito anos com um machado, então a esposa e finalmente se enforcou. – Contou-lhe Hyukjae com ar sombrio, finalmente se desviando da janela e encurvando o corpo para aproximar o rosto de Yunho. – Entende porquê é a minha função ter certeza que você está apto para este trabalho.

– Hyukjae-ah, certamente o homem era desequilibrado, garanto que não é o meu caso. O isolamento vai me unir a minha família, vai fazer com que eu valorize a minha esposa e ensine a moral ao meu filho sem a influência das rádios ou das pessoas na rua. Eu sei que saberei cuidar do hotel melhor do que qualquer outro candidato que você conheça, sei que voltarei de lá com meu livro pronto.

Hyukjae o analisou pela terceira vez e finalmente cedeu às súplicas de Yunho. Eles foram interrompidos por uma batida leve na porta, e um jovem se esgueirou para dentro da enorme sala com três folhas de papel na mão. Lá estava o grande segredo de Hyukjae, caminhando em direção a eles a passos lentos e finalmente os reverenciando em um pedido formal de desculpas pela interrupção. O secretário, Lee Donghae deixou os papéis sobre a mesa e pediu ao gerente para que os assinasse.

Pelas histórias que Yunho ouvira, fora a própria esposa de Hyukjae que demandara que no lugar de uma secretária, ele contratasse um homem. Não sabia ela que aquele rapaz de sorriso angelical levaria seu marido por um caminho sem volta. Yunho desviou seu olhar discretamente e enquanto assinava aqueles papéis, a mão livre de Hyukjae passeava livremente pelas nádegas do rapaz. Era aquele seu grande segredo, seu amante, um homem com exatamente o mesmo que ele entre as pernas. Yunho sentiu o gosto amargo do asco em sua garganta.

Donghae se afastou, os deixando novamente a sós, enquanto Yunho encarava Hyukjae, como se o dissesse que conhecia sua fraqueza pela carne macia do jovem rapaz. O gerente voltou a se sentar, e entregou-lhe um contrato que Donghae o trouxera e o deu tempo para que o lesse. A vaga era sua, e ele sabia que aquele seria o inverno de sua vida. Seu grande momento para escrever seu best seller, e se reaproximar de sua família, ou pelo menos reavivar essa vida de aparências que ele tanto lutou para construir.

Yunho assinou o contrato, cumprimentou Hyukjae que o avisou que deveria estar no hotel no último dia outubro, quando o inverno iria começar. Ele tinha pouco mais de uma semana, no entanto, acreditava ser tempo suficiente e não reclamou de nenhuma posição direcionada pelo homem. Ele se despediu de Donghae que sorriu para ele, Yunho se incomodava com o fato daquele rapaz ser demasiadamente afeminado, talvez a esposa de Hyukjae devesse tê-lo deixado contratar uma mulher, certamente era menos perigoso do que as nádegas fartas de Donghae.

Yunho entrou em seu carro com a porta arranhada e o espelho quebrado, e tomou rumo para sua casa. Ele cometera os piores erros de sua vida nos últimos anos e certamente os arranhões em seu carro eram os menores efeitos colaterais que ele continha. Ele não podia colocar a culpa toda no álcool, mas se pudesse correlacionar, certamente uma grande porcentagem estava na quantidade de Martinis que ele tomava toda noite.

Os arranhões em seu carro, eram a primeira prova de como aquela deliciosa mistura regrara sua vida nos últimos dois anos. Ele nunca foi um homem de beber muito, nunca fora o tipo de pessoa que afoga suas mágoas em um bar, até seu filho nascer. Ele tinha um bom casamento, afinal, Hyemin era amável apesar de sua irritante mania de limpeza. Ela era dona de casa, enquanto ele mantinha aquele lar em pé, levando dinheiro para casa de seu trabalho como professor de literatura e seu contrato com a editora.

No mínimo um livro por ano, era o que eles cobravam e Yunho manteve aquele prazo intocado até o nascimento de seu primeiro filho. Começou com os choros estridentes madrugada adentro, os jantares preparados as carreiras por sua esposa, o desleixo no casamento em geral, o caos da vida de progenitor. Hyemin se tornara apenas a mãe de Junmin, enquanto ele era o homem que colocava comida na mesa. Não havia mais uma esposa e um marido e sim, um pai ausente e uma mãe.

Ele não tentou discutir sobre aquela mudança, mas a detestara. Ninguém dissera para ele que ser pai era sinônimo de escravização, que ele não somente teria que trocar fraldas, mas ser o responsável única e exclusivamente por fazer dinheiro. Foi nesse meio tempo, quando a criança completou três anos que ele decidiu experimentar aquilo que os homens de classe média fazem para se livrar de suas vidinhas medíocres, ele recorreu ao bar.

Primeiro era uma cerveja e depois ele ia para casa. Depois, duas cervejas. Depois uma dose de soju, que logo se tornaram duas e depois três, e logo ele voltava para o doce lar infernal. Seus horários mudaram, Yunho começou a chegar cada vez mais tarde, e Hyemin começou a cobra-lo por sua demora. Ele justificou com trabalho extra para ganhar mais dinheiro, uma desculpa idiota para quem chegava em casa cheirando a álcool todas as noites.

E finalmente ele conheceu seu maior companheiro de aventuras, o Martini. Ele enfim entendeu o que aqueles pais de família de classe média faziam no bar todas as noites, era lá que suas vidas faziam sentido. Então ele começou a aumentar suas doses, pois a felicidade nunca era o bastante. Suas ressacas se tornaram uma rotina e ele se acostumou a mastigar aspirinas todas as manhãs. Sua concentração piorou, sua escrita decaiu até que o incidente na escola o fez perder o rumo.

Ele detestava aquele aluno, um garoto mimado e abusado chamado Kibum o desafiara. Ele o dissera que ele estava bêbado e talvez ele estivesse mesmo. No entanto, Yunho não admitiria que aquele fedelho o desafiasse, a briga começou, os gritos começaram e uma irritação tão intensa que ele próprio estranhou cresceu em si. Ele não se lembrava direito da cena, mas ele empurrou o garoto para longe, desejando se livrar daquela voz irritante que atazanava seus ouvidos.

Kibum bateu contra a janela que quebrou e cortou seu pulso direito. Ele ficou lá parado, enquanto seus alunos gritavam entre o susto e a raiva. Foi Siwon quem socorreu o menino, e o próprio quem o denunciou ao diretor, e finalmente à polícia. Ele perdeu o emprego, e consequentemente sua única utilidade como pai de família. Os gritos de Hyemin o chamando de alcoólatra o irritaram ainda mais, e naquela noite ele bebeu até desmaiar na calçada. Ele não queria mais ser professor, marido ou pai, apenas queria que sua vida se desvanecesse diante de seus olhos.

Seis meses de serviço comunitário por agressão e um mandato legal para se manter a trezentos metros de distância de Kibum resolveram aquele problema. E a indicação de Heechul, um professor da escola onde ele trabalhava, para aquele emprego para o qual ele assinara contrato resolvia a segunda parte. Sua esposa se afastara de si desde o incidente na escola, e Yunho detestava ter que correr atrás dela como um bom marido faria.

Seu pequeno Junmin era adorável, apesar de ter os traços egocêntricos e perfeccionistas da mãe já aos cinco anos de idade. Yunho pensava em seu futuro morando com sua esposa e filho e tudo parecia um inferno diante de seus olhos, no entanto, esta era a vida que ele escolhera. Yunho estacionou o carro em sua garagem, sentindo o cheiro da comida para o jantar. Ele ficou um tempo no carro, pensando na grande mudança que estava prestes a acontecer em sua vida. Era disso do que ele precisava para deixar sua frustração de lado, mudança.

Sua esposa trajava um vestido rosa de comprimento até os joelhos e com botões que se fechavam até seu pescoço. O cabelo loiro ondulado caía como cascata por seus ombros e um avental impecavelmente branco, enquanto suas mãos delicadas mexiam o molho de tomate em uma grande panela. Yunho fitou aquela cena com certo desgosto, era uma família perfeita, digna de um comercial e para ele, uma poça de areia movediça que o sugava para a perdição e o nada.

Hyemin virou-se delicadamente, um sorriso brincando em seus lábios assim que visualizou a figura de seu marido parado à porta. Aquele sorriso perfeito, que o dizia em tons sussurrados que era melhor que ele viesse da rua com uma boa notícia, ou do contrário, as coisas não ficariam nada bem entre eles. Yunho beijou sua esposa, apenas em estalar de lábios digno de um bom marido. Na mesa de jantar, seu pequeno Junmin com lápis de cera rabiscava um desenho em um papel em branco.

Era um desenho estranho, muito mal feito para uma criança da idade dele, no entanto, seus dotes artísticos nunca foram os melhores. Haviam riscos retos, que formavam algo parecido com uma casa, janelas estavam espalhadas por esta e uma grande porta dupla no meio. A pequena casa estava no meio do papel, e em volta figuras disformes das mais variadas cores e tamanhos, faziam caretas com olhos grandes e dentes pontiagudos. Yunho riu de tal fantasia, e teve preguiça de perguntar de onde o pequeno havia tirado tal cena.

– Temos apenas uma semana para nos arrumarmos.

– Tudo bem, já está tudo encaminhado, meu amor. – Disse a esposa com um largo sorriso. – Eu sabia que você se daria bem nesta entrevista.

– Eu não quero ir!

A voz do menino reverberou pela cozinha, em um grito estridente que sobressaltou seus pais. Reações absurdas do pequeno já eram comuns em seu dia a dia, era como se ele ainda não soubesse expressar sua negatividade. Yunho pensou se um dia aquele menino seria tão negativo quanto ele, e enquanto o via correr desajeitado para seu quarto, com as meias escorregando pelo assoalho, o mais velho desejou pra seu filho um destino melhor, com escolhas melhores. Eles não voltaram a ver a criança, e o deixaram em seu acesso infantil de raiva enquanto combinavam sua partida para o hotel.

Yunho pôs a mesa, pensando que talvez fosse saudável para seu filho ter um irmão, uma vez que essa vida solitária o deixava mimado demais. Hyemin colocou a última e reluzente travessa no centro da pequena mesa redonda e pediu, em tom autoritário, que seu marido fosse chamar o filho para o jantar. Yunho não questionou, como de costume e seguiu a passos largos ao quarto infantil destinado a Junmin.

As janelas do cômodo estavam parcialmente fechadas e apenas uma luz fria de fim de tarde iluminava adentrando pela cortina branca que esvoaçava com a brisa fria. Yunho procurou a criança pelo lugar desorganizado, com desenhos pendurados pela parede, e brinquedos de plástico espalhados pelo chão. A pequena cama estava desfeita, com uma almofada em formato de urso jogada ao chão. E finalmente, ele visualizou seu filho. Junmin estava em um canto do quarto, ao lado de uma grande cômoda. Os bracinhos finos pendiam ao lado de seu corpo, moles como se ele estivesse desacordado, no entanto, estava em pé.

O menino de cabelos escuros estava voltado contra a parede, a testa recostada ao cimento frio e sussurros roucos saíam de sua boca. Ele conversava, tinha frases pausadas, fazia perguntas sem resposta, sem sentido. “Junmin?” Yunho o chamou, uma duas, três vezes e a medida que o tempo passava, ele via o medo tomar conta de seu filho, medo de algo que estava somente na sua imaginação. O mais velho tocou-lhe os ombros e o garoto se voltou ríspido, berrando como se ele o tivesse machucado.

Segundos depois, Hyemin irrompeu quarto adentro, empurrando seu marido para longe e abraçando o menino que agora chorava e tremia. Ela fuzilou um desconcertado Yunho com o olhar e o perguntou com seu costumeiro tom autoritário:

“O que você fez para ele?”.

Ela o culpava, como sempre o culpava por todas as coisas ruins de sua vida. Claro, se o menino chorasse, evidentemente que a culpa também seria sua. Yunho não se defendeu, afinal de que adiantaria retrucar agora que seu carrasco já dera sua sentença de culpa. Sempre seria sua cabeça a rolar no final das contas. O menino levou alguns minutos para se acalmar, e quando parou de chorar, sua mãe pediu explicações, desta vez com uma voz doce e amável. E o menino apenas repetiu:

– Eu não quero ir para o hotel!

Yunho saiu do cômodo, deixando os dois cúmplices ali. Ele adentrou seu próprio quarto, encostou a porta e parou para olhar pela janela, a rua estava deserta, com exceção de um gato de rua que sorrateiro passeava pelos telhados. Yunho odiava sua vida, odiava se sentir impotente diante de suas escolhas. Ele se sentia controlado, como se estivesse preso por amarras invisíveis à pessoas com quem ele pouco se importava. Era frio afirmar que não se importa com seu filho, no entanto, naquele momento, ele era apenas um instrumento do veneno de sua esposa.

Então ele pensou no Overlook e em seu isolamento. Seria ele capaz de passar meses preso a um lugar com somente aqueles dois? Seria ele capaz de se manter longe de seu soju e seus adorados Martinis? O que o esperava por trás das montanhas de neve e do imponente hotel Overlook? Ele temia por sua sanidade, por suas necessidades, por seu futuro, mas precisava arriscar. Era seu papel ser a pessoa que traz dinheiro para casa, e ele precisava retoma-lo com sucesso.

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Junsu trancou a porta do luxuoso quarto de hotel. Nos corredores um burburinho de pós-jantar ainda tomava conta do local, além dos passos pesados de saltos e sapatos bem engraxados na tapeçaria. Ele deixou o chapéu branco sobre uma cômoda e inspirou profundamente, o cheiro de quarto de hotel, um frescor falso que impregnava paredes desgastadas pelo tempo, agora cobertas por um papel de parede florido e quadros de arte moderna.

Junsu não era hóspede, tampouco teria renda para uma temporada em um lugar como o Overlook. Ele era apenas o cozinheiro-chefe, e deixando a falsa modéstia de lado, o melhor confeiteiro que aquele lugar já vira em toda sua história e como seus bolos faziam sucesso no café da manhã e chás da tarde. No entanto, ele tinha um segredo, uma aventura infantil que colocava seu emprego em risco. Em certas horas do dia, quando tinha uma pausa na cozinha, ele gostava de visitar o quarto 1904, e tomar um banho demorado na banheira.

Eram poucas as vezes que os recepcionistas cediam o 1904 aos hóspedes, ele era guardado para situações emergenciais, algo como um quarto reserva. Junsu trabalhava no Overlook desde sua juventude, quando começou a se dedicar por culinária e gastronomia. Em geral, ele passava de restaurante em restaurante sem se fixar em nenhum, e nas grandes temporadas de verão, voltava ao hotel. No auge de seus 25 anos ele já era chefe, e como amava aquele lugar e aquele trabalho.

Junsu conhecia aquele hotel de cima a baixo, e acreditava já ter visitado todos os trezentos quartos que o local dispunha. No entanto, do que ele mais se orgulhava era de conhecer segredos do Overlook, segredos que somente uma pessoa com sua sensibilidade poderia conhecer. Pessoas como ele eram raras, e quando ele as via, as reconhecia de imediato. Junsu tinha uma visão muito diferente de mundo, uma visão rara e privilegiada.

Por isso, os segredos do hotel Overlook não eram um segredo para ele, por isso as áreas sombrias do lugar eram conhecidas, e as vontades que regiam aquele lugar não o afetavam. Claro, por conhecer os segredos daquele lugar, ele era capaz de evitar situações constrangedoras e perigosas, isso incluía o quarto 1904. Aquele quarto que ele evitara por tanto tempo, e que agora o prendia àquele emprego, temporada após temporada.

A primeira vez que Junsu passou em frente ao quarto, algo nele o chamou a atenção. Ele sentiu um aroma férreo, misturado com um tipo de podridão que ele até então desconhecia. Era como se algo muito antigo estivesse impregnado ali, manchando as paredes impecáveis do hotel. Junsu fitou a porta e por alguns instantes ele podia se lembrar bem de ter visto rachaduras e manchas bordô secas em suas frestas. Então ele fez como sempre fazia quando algo o assustava, ele fechou os olhos e respirou três vezes, quando os abriu, estava à sua frente a porta branca novamente.

Junsu entrou no quarto alguns meses depois, quando uma das camareiras pediu-lhe encarecidamente que matasse um rato que estava assustando os hóspedes. Era noite, e ele precisava caçar aquele roedor naquela hora pois na manhã seguinte ele deveria estar devidamente morto em sua ratoeira e os hóspedes novamente em paz, no alto de seus sapatos reluzentes e casacos de pele. Junsu percorreu os corredores atrás do rato, e nessa correria, acabou adentrando o 1904 e aprisionando o animal em uma ratoeira, sem perceber que ele próprio havia sido pego.

Quando ele se levantou triunfante, o cheiro férreo e podre invadiu suas narinas sem dó, e o nausearam, o fazendo perceber de um golpe só onde ele havia se enfiado. Assustado, ele tratou de acender as luzes do local e se dirigir para a saída o mais rápido possível. No entanto, como ele imaginava, a porta atrás de si não se abria e a luz tampouco acendia. Junsu então sentiu um novo aroma, que se sobressaía ao cheiro nauseabundo de podridão, mas ainda era um cheiro ruim, um que arrepiava os fios de cabelo de sua nuca.

Era um perfume almiscarado, e ele sabia que quando olhasse novamente para o quarto, perceberia que também estava sendo observado. Junsu virou lentamente o rosto e pelo espelho de corpo inteiro ele viu, duas orbes negras se destacavam na escuridão, olhando diretamente para ele, o engolindo naquele olhar profundo. Junsu se desesperou, e quando forçou a porta, o trinco saiu em sua mão, o que o fez gritar. Ele estava desesperado, e apenas queria sair dali.

Agora, anos depois daquele incidente, Junsu ria-se de seu próprio desespero, relembrando seus gritos que estranhamente não acordaram os hóspedes e tampouco chamaram a atenção dos outros empregados. Ele retirou sem pressa as roupas impecavelmente brancas e as deixou sobre a cama arrumada, e se observou pelo mesmo espelho em que aquelas assustadoras íris reluziram para ele pela primeira vez. Junsu completamente nu, deixou o quarto e adentrou o banheiro, acendendo as luzes do mesmo.

Quando ele abriu a torneira, antes mesmo de mexer nos óleos para banho, o cheiro arrepiante, almiscarado adentrou suas narinas. Junsu sorriu quando viu o óleo de cor rósea ser derramado na água e aos poucos se misturar à mesma, por outro rapaz, que deveria ter a mesma altura que ele, e aparentava a mesma idade. Um sorriso brincava nos lábios dele, enquanto os cabelos ondulados e negros cobriam parte de sua face máscula.

Junsu aceitou a mão do rapaz, que possuía um calor artificial que ele há muito conhecia e desfrutava, e com a ajuda dele, adentrou à banheira de água morna. Ele recostou-se à banheira, e fitou o outro, que possuía apenas uma toalha envolta em sua cintura, sentar-se no chão ao seu lado. Junsu relaxou, enquanto a mão do outro, que agora mesclava o frio e o quente, pegava a espuma espessa e esfregava por seu pescoço, tórax, abdômen. Mais além, em suas costas, braços, nádegas. Não havia constrangimento naqueles toques.

O sorriso continuava lá, brincalhão naqueles lábios fartos. Junsu se permitia acariciar aquela pele de temperatura ambígua, e fitar aquele rosto que tanto gostava. Ele poderia passar o resto da vida o fitando, se assim o rapaz o permitisse. No entanto, ele não o permitia, e por isso mesmo, ele se obrigava a partir do hotel todo final de temporada, e por esse mesmo motivo, tinha seu pedido para se tornar o zelador de inverno negado, repetidas vezes. O rapaz então se levantou, a toalha foi ao chão e o deixou nu, para que adentrasse com Junsu na banheira e se acomodasse no lado oposto.

– Eu sei o que você fez, Junsu, todos sabem.

– O que eu fiz? – Perguntou Junsu, com seu costumeiro ar brincalhão.

– Su, eu não estou brincando, e nem quero que você brinque com isso.

– O que eu fiz de mal? – Indagou Junsu, se movendo na banheira, lentamente em direção ao outro que não parecia se alterar.

– Você não pode interferir, o menino tem que vir. – Explicou o rapaz.

– Mas ele é só um menino, um menininho adorável de cinco anos. – Argumentou Junsu, se deitando nos braços do outro. – Se você me deixasse ficar, o menino…

– Não, você não vai ficar. – Interrompeu o rapaz. – E você sabe porquê.

– Ele é só um menino, você deveria cuidar dele.

– Eu não vou, nem quero, não são assuntos meus e muito menos seus. – Argumentou ele. – Não se intrometa.

– Mas…

– Acabou o assunto. – Ditou o rapaz, fazendo o outro se apertar contra seus braços. – E esse ano, o que você vai fazer depois de sair daqui?

– Vou pensar em você.

– Junsu! – Ralhou o rapaz, vendo o outro teimar mais um ano consecutivo. – Você tem que ajeitar a sua vida fora daqui, está me ouvindo? Bem longe! Em um lugar quente, com uma mulher bonita.

– Eu não gosto de mulheres, elas são frescas e cheiram coisas doces. – Disse Junsu com uma careta. – Eu só gosto da minha omma.

– Deixe de besteira, Su, você vai achar uma esposa tão linda e carinhosa quanto você. – Aconselhou o rapaz, deixando a água já sem espuma escorrer pelos cabelos lisos do rapaz em seus braços.

– E nossos banhos de banheira? – Indagou Junsu.

– Serão uma lembrança linda. – Explicou ele, deixando um rápido beijo nos lábios do outro, que negou com a cabeça.

– Esqueça. Você só vai se livrar de mim, quando o Overlook pegar fogo. – Disse Junsu veementemente. – Eu te amo.

O rapaz sorriu, compreensivo, carinhoso e sem dizer uma única palavra ele respondeu sua declaração. Junsu ficou ali deitado até a água ficar fria demais, e então o mesmo rapaz o ajudou a se secar, o colocou sobre a cama e mais uma vez, ele o amou. E era por isso que Junsu não queria se casar, não queria deixar o Overlook e não queria aquele menino ali. Seu próprio amante, em quem ele confiava cada canto de seu corpo, poderiam ser uma ameaça para o garoto, e sua família desestruturada.

Junsu tomou outro banho, e beijou os lábios do rapaz que o esperava sentado na mesma cama que se amaram e que agora estava novamente arrumada. E ele o deixou, trancado naquele quarto que o repugnava, mas que mantinha preso um ser tão belo, que o chamava todas as noites de verão. Junsu desceu as escadas com um largo sorriso no rosto, e mais uma vez renovado pelo delicioso banho no quarto 1904.

Faltava apenas uma semana para sua partida, assim como uma semana para a chegada do esperado menino e sua família conturbada e desestruturada. Junsu tinha a sensação que algo daria errado com a chegada daquela família, ao mesmo tempo que temia desobedecer a ordem de seu amante. Eram as ordens dele que o mantinham em segurança, apesar dele teimar com algumas delas, como a de não voltar ao Overlook.

Junsu sentia a ansiedade do hotel sempre que pensava no menino, assim como sentira sua ira quando tentou avisa-lo naquela manhã para que ele não viesse. Como uma faca muito bem afiada caiu da mesa em que ele picava um grande pedaço de carne de carneiro, e passara rente ao seu pulso, fazendo com que uma grande quantidade de sangue saísse pelo profundo corte. Junsu não acreditava em acidentes, coincidências, mas acreditava nas vontades do Overlook, entre elas, que ele se calasse.

Junsu adormeceu pensando nas palavras de seu amante “Não se intrometa”, “Não volte”, enquanto a quilômetros dali, Junmin chorava nos braços de sua mãe, tentando convence-la de que seu amigo o dissera que o hotel era perigoso e que eles não deveriam ir. Enquanto aquela voz de criança apenas irritava Yunho, e sua cabeça parecia pesar a medida que as horas passavam e seu filho não se calava. Era hora de mastigar outra aspirina, e céus como ele queria tomar um Martini, só um Martini.

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Um pensamento sobre “Capítulo 01: New job

  1. O-O okay por essa eu não esperava! Que diferente essa fiction, meio sombria ne? Vou aguardar os próximos capitulos! ;D ah, é só impressão ou “O Iluminado” tá na inspiração? Hauhau \o/

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