Capítulo 03: Inspirador

Overlook YunJaecap3

Eram dez da manhã de uma segunda-feira fria. A neve ainda não havia começado, mas o rádio anunciava a primeira neve do ano para o começo daquela semana. E pela primeira vez em meses, Yunho se sentou em frente à sua surrada máquina de escrever. Ele poderia usar a de Hyukjae que ficava no escritório, no entanto, imaginou que revendo sua velha companheira a inspiração viesse mais rápida.

Ele se ajeitou no escritório de Hyukjae, com uma pilha de folhas em branco sobre a escrivaninha, além de canetas e sua máquina perfeitamente posicionada à sua frente. Yunho se lembrava da última vez que escreveu, pouco antes de abandonar seus Martinis. Sua escrita havia decaído, mas algo nele mantinha a chama da inspiração acesa. Quando sua vida começou a desabar, esta foi embora, como se alguém tivesse jogado ácido em sua imaginação.

O que Yunho mais amava na escrita, não eram os dólares a mais em sua conta bancaria que serviriam para arrumar o retrovisor do carro ou comprar um novo brinquedo para Junmin. O que ele amava ao escrever, era fugir de sua realidade e adentrar em seu próprio mundo, além é claro de poder brincar de ser Deus por algumas horas. Ele não era particularmente religioso, no entanto, acreditava na criação divina e no seu dom para a escrita.

Yunho gostava de pensar, se ele pudesse controlar o mundo, como ele seria? Como seriam as pessoas? Do que elas gostariam? Quais seriam seus defeitos? Quais animais fantásticos e fantasiosos ele incluiria na natureza e que função eles teriam? Yunho suspirou pesadamente e fechou os olhos, pendendo a cabeça para trás. Ele não queria fazer nada autobiográfico, portanto, precisava escolher personagens que não tivessem relação alguma com suas qualidades e defeitos.

Yunho suspirou pesadamente fitando a página em branco, como se as letras fossem aparecer ali repentinamente. Ele riu de seu pensamento e começou a revirar as gavetas de Hyukjae, encontrando apenas alguns papéis e uma bolinha de borracha anti-stress. Yunho pegou a bolinha para si e tratou de olhar os papéis, verificando serem notas fiscais da última temporada do hotel. E por último, escondido no fundo da gaveta, um desenho que o instigou.

Ele reconhecia aquele rosto, e o corpo nu de costas, perfeitamente desenhado. Era Lee Donghae. Apesar de ser um corpo masculino, ele tinha suas curvas acentuadas, e olhava para o desenhista com um ar cúmplice. Talvez o próprio Hyukjae tivesse feito o desenho, o que não seria de todo impossível. Yunho cogitou começar a escrever sobre um homem como Donghae, com seus trejeitos gentis e afeminados, e é claro, o grande segredo por trás daquele sorriso simpático e que arrancava suspiros.

Yunho riu mais uma vez de sua fantasia boba. Ele não conseguiria descrever um personagem como aquele, pois não conhecia aquele submundo. Algo nele começava a concluir que, pessoas como Donghae deveriam ser complexas, e dariam ótimos personagens a um bom escritor. O que é claro, não era o seu caso. Ele se levantou e andou até a janela, observando a vista limitada do escritório.

Era frustrante começar um livro, principalmente em dias como aquele. Ele gostava de começar seus livros em dias especiais, inspiradores de alguma forma. Como quando ele comia um doce diferente, conhecia uma pessoa nova, ou via o céu especialmente azul. Aquele era seu terceiro dia no Overlook e nada havia mudado desde sua chegada. Ele ainda preferia ficar sozinho à companhia de sua família e ainda não tivera nada realmente inspirador. Ele precisava de ideias, precisava de ajuda, e talvez, uma dose dupla de soju.

No lobby, as rodas do triciclo de Junmin zuniam contra o assoalho e os tapetes do hotel. Ele dirigia o triciclo em direção à saída, que já estava devidamente aberta para sua passagem. Ele não podia ficar no playground devido à garoa que deixara os brinquedos úmidos naquela manhã, por isso tratou de brincar com seu triciclo, o que também era divertido à sua maneira. Ele fechou a porta do hotel e deixou o triciclo próximo à escada, somente então voltando a monta-lo.

Junmin andava sem pressa, sentindo o vento frio deixar suas bochechas coradas. A franja curta do menino estava bagunçada por conta do vento e seus olhinhos se estreitavam observando o silencioso jardim ainda colorido. Ele andava sem pressa, com os olhinhos esperançosos fitando o playground úmido, com a areia ainda pegajosa. Já era o terceiro dia e nada do que Junsu dissera-lhe havia se concretizado. Desde que ele se fora não tinham mais ventos frios no hotel, ou portas batendo sozinhas.

Ele começou a achar que o cozinheiro estava errado ou que ainda fosse pequeno demais para ver o que ele via no hotel. Enfim, nada assustara Junmin naqueles primeiros dias, e até mesmo seu pai parecia mais tranquilo, com seu trabalho de arrumar encanamentos e ligar aquecedores em horários certos. A princípio ele se forçava a brincar apenas nos aposentos e no playground, no entanto, a medida que os três dias passaram e nada aconteceu, ele se permitiu explorar outras parte do hotel.

E ali estava ele, explorando o jardim, tal qual um aventureiro de seus quadrinhos. Cravos, rosas, bromélias, margaridas e até mesmo violetas o cercavam dando vida à entrada do hotel. Tudo ali era muito bonito e parecia ter sido desenhado para que ficasse em sua disposição perfeita. Tudo era alegre ali, apesar do frio e ele se sentia seguro até então. De qualquer maneira sua omma estava no hotel e se ele precisasse poderia gritar para ela, ou ainda fechar os olhos e contar até três como Junsu-hyung o ensinara.

Ele ficou até a hora do almoço ali, quando sua mãe o chamou para que fosse comer, por mais que ele estivesse sem apetite. Ainda assim, o menino correu para dentro do hotel, e finalmente se esqueceu do triciclo, pois passou a tarde fazendo um delicioso bolo com sua mãe, ainda fascinada pela cozinha do hotel. Yunho, ao contrário de sua rotina normal, agora almoçava com eles, tendo conversas longas e tediosas com sua esposa.

Junmin não entendia porque seu pai não gostava de falar sobre certos assuntos, como quando sua mãe o perguntava qual era sua ideia para seu novo livro. Aliás, para ele, seu pai sempre fora uma incógnita, alguém que ele não conseguia decifrar. Ele era fechado, não se aproximava, não relatava seus problemas ou demonstrava emoções. Era como ter um desenho pintado em forma de homem. Yunho os deixou novamente sozinhos depois do almoço e voltou a se trancar no escritório.

Junmin esquecia-se do mundo quando estava com sua mãe. Ela era carinhosa, atenciosa e paciente, mesmo quando ele tinha dificuldade em fazer suas tarefas. O bolo demorou duas vezes mais para ficar pronto e sua cobertura não ficou das mais bonitas, mas ao final ele se sentiu orgulhoso ao terminar o doce. Depois de saborear dois pedaços ao lado de sua mãe, eles levaram um pedaço para Yunho. Os dois de mãos dadas entraram ansiosos no escritório e encontraram ele sentado no chão.

Yunho tinha uma prancheta em seu colo e com um lápis em mãos ele rabiscava algo. Algumas folhas estavam amassadas ao lado de seu corpo, e ele escondeu rapidamente o que fazia quando os dois entraram. Hyemin riu graciosamente do segredo que seu marido fazia daquele enredo, mas já não se importava. Yunho agradeceu o bolo, e Junmin pareceu realmente feliz quando ele elogiou o doce. Era estranho parecer mais próximo de seu pai, mas era assim que o menino se sentia.

Uma pena que o sentimento não era recíproco.

O final de tarde recaiu com uma ameaça de tempestade se aproximando, o que Yunho afirmou ser a nevasca se adiantando sobre eles. Ele estava frustrado, pois passara uma tarde inteira e nada convincente saiu de sua mente, pelo menos nada bom o bastante para seu padrão de escrita. Eram enredos fracos, sem nenhum diferencial, apenas a saga clichê do herói, ou romances baratos de revistas. Antes do jantar, ele chegou a concluir um conto, fraco, que rapidamente foi parar junto com os outros papéis amassados.

A ideia parecera interessante a princípio, algo sobre dois amantes no estilo mais romântico possível, que decidem fugir e começar uma vida isolados do mundo, como Yunho estava naquele momento. O final é que parecera fraco, uma vez que ele não decidiu matar nenhum dos personagens, o que deixou o enredo com cara de conto de fadas. Era um final feliz, mais parecendo um filme da Disney que ele viu no cinema com Junmin.

A única coisa que aparentemente estava decidida, era que o homem daquele desenho faria parte de sua historia, e em sua mente, ele parecia um personagem fascinante. O que ele ignorava, era o fato daquele ali se tratar especificamente de Donghae, e em sua mente, apesar de ter as mesmas feições, ele criara uma personalidade diferente para ele.  Ele seria o amante de alma livre em seu enredo, o qual ainda precisava ser criado.

Quando Yunho desistiu de seu enredo e voltou para o seu personagem, sua esposa o chamou para o jantar. Ele saiu do escritório, mas antes que chegasse à cozinha, viu pela janela o triciclo de seu filho do lado de fora e aquela indisciplina de certa forma o irritou. Ele seguiu para seus aposentos, encontrando o menino mais uma vez perdido entre seus lápis de cera e desenhos estranhos.

– Junmin.

– Appa? – Disse o menino, sobressaltado.

– Antes de jantar, vá buscar o seu triciclo.

– Mas, appa, se eu for lá fora agora…

– Eu não mandei você deixar lá. Se você não for ele vai congelar lá fora, porque vai nevar. Vá buscar agora.

– Está bem, appa.

Yunho suspirou pesadamente, sentindo sua cabeça ameaçar doer. Se piorasse, seria hora de tomar outra aspirina, mas por enquanto, ele precisava apenas de um banho antes de se alimentar. Yunho se trancou no banheiro, com apenas uma toalha, uma roupa íntima e um roupão com o qual ele sairia dali. Suas roupas foram deixadas no cesto de roupas sujas, e ele de soslaio se fitou no espelho de corpo inteiro preso à parede.

Yunho parou de frente ao mesmo, observando seu corpo, como fizera com o desenho de Donghae por boa parte de seu dia. Um corpo masculino, sem curvas acentuadas, ou uma pele macia e fina. Yunho tocou o espelho com a ponta dos dedos e se perguntou há quanto tempo não tocavam sua pele. Foi quando ele se lembrou de como sua esposa era frígida e aquilo obviamente o frustrou ainda mais.

Não era como se ela não quisesse mais fazer amor com ele, mas ele não tinha mais interesse algum nela. Yunho se casou jovem e nunca tivera muitos contatos sexuais com outras figuras que não sua esposa. No entanto, ela sempre fora fria, desde a primeira noite depois do casamento. Ela não o tocava, não o fitava, era como fazer amor com algo inanimado. Yunho suspirou pesadamente, e se enfiou embaixo do chuveiro morno, tratando de deixar de lado aqueles pensamentos sexuais. Ele era um bom abstêmio, e se fosse religioso, teria se dado bem na carreira espiritual.

Certamente uma dose de soju o tentava mais do que o corpo de sua esposa, e com toda certeza o levaria a uma sensação mais prazerosa do que o orgasmo ao lado dela.

Junmin abriu a porta da frente do hotel e olhou para o lado de fora com ar ansioso. A entrada do hotel estava mal iluminada e ele precisava ir até o meio do jardim pegar seu triciclo. O menino se encolheu devido ao frio e dando passinhos rápidos se esgueirou para fora do edifício, a fim de se livrar de uma vez daquela tarefa assustadora. Seus passos ganharam ritmo e ele começou a correr. Ele corria em direção ao triciclo quando algo chamou sua atenção e o fez se lembrar de Junsu e parar repentinamente.

Os arbustos em formas de animais estavam dispostos lado a lado quando ele chegara ao hotel dias antes. Ele bem se lembrava de ver o coelho em uma ponta e o leão em outra, ambos sentados sobre duas patas, enfileirados e voltados para a saída do hotel. Junmin tinha certeza de que eles estavam enfileirados. O gato estava sobre quatro patas, assim como a ovelha que fingia pastar. Quando ele se voltou para os arbustos aquela noite, a disposição dos mesmos estava diferente.

Eles formavam um semicírculo, todos voltados em direção à porta do hotel. Ele estava assustado, uma vez que os arbustos estavam devidamente plantados e não poderiam ter mudado sozinhos de posição. Então ele se lembrou, de Junsu dizendo-lhe como seus olhos poderiam engana-lo e que aqueles, eram apenas arbustos. Não podiam se mover, em nenhum momento do dia.

Por precaução, ele pegou o triciclo e correu o máximo que pôde em direção à entrada. No entanto, a curiosidade é um impulso traidor. Junmin abriu a porta e olhou para trás, apenas para checar. Ele demorou a focalizar os animais e segurava o trinco da porta com tanta força que os nós de seus dedinhos ficavam esbranquiçados. Foi quando ele percebeu algo ainda mais assustador.

O leão não estava mais sobre duas patas, naquela antiga posição como se estivesse sendo domado em um circo. Quando Junmin olhou novamente, as quatro patas do animal estavam no chão, como se ele tivesse acabado de ser podado. Uma das patas estava mais a frente que outra, como se simulasse um passo. Junmin sentiu seu corpo começar a tremer, e correu hotel adentro, deixando seu triciclo no lobby e fazendo questão de fechar e trancar a porta principal.

Ele correu corredor adentro até esbarrar em seu pai que saía finalmente do banho. Yunho se sobressaltou com a correria e estava pronto para dar-lhe uma bronca quando o sentiu agarrar-se ao seu roupão. Outra atitude estranha do menino que ele não questionaria, apenas pegou-o no colo e o deixou abraçar-se a si. Ele viu o menino colocar o polegar na boca e o guiou em seus braços até a cozinha, de onde vinha o cheiro do delicioso jantar.

Naquela noite Junmin jantou no colo de Yunho, o que causou estranheza no casal. No entanto, nenhum se incomodou com tal fato, apenas acreditaram que ele estava carente da figura do pai que passara os ultimos dias com suas ocupações. Aquela proximidade durou a meia hora do jantar, pois assim que eles terminaram, Hyemin pegou o menino para dar-lhe banho e coloca-lo para dormir.

Yunho os esperou na sala, distraído com seus papéis na prancheta onde ele rabiscava novamente as características daquele personagem excêntrico, e que não saía de sua mente. Ele estranhou quando ouviu Hyemin explicar para Junmin que arbustos não se moviam, mas não se importou novamente com as atitudes estranhas de seu filho. Mesmo que se importasse, ele não poderia fazer muito por ele, afinal, não era permitido.

Hyemin juntou-se a ele na sala e foi dedicar-se ao cachecol de tricô rosa que fazia para si mesma. Eles não trocaram mais de meia dúzia de palavras, ou olhares. Yunho não sentia um clima pesado no local e muito menos ela, no entanto, qualquer um que os visse, diria que eles estavam brigados. Aquela era a situação normal deles, e eles haviam se habituado àquilo. Yunho suspirou pesadamente quando percebeu que não conseguiria montar um cenário para seu personagem.

Ele se levantou da poltrona onde havia se acomodado e a avisou que iria dar uma volta e tomar um ar pelo hotel. Ela apenas assentiu ainda atenta ao seu tricô, e Yunho sabia que ele poderia morrer do lado de fora, e ela não se importaria. Como normalmente, ele se sentiu patético e tratou de sair dali. Yunho retirou a bolinha do bolso de seu roupão e começou a joga-la contra as paredes, atento aos sons que essa fazia, ecoando por todo hotel. Sua mente parecia vazia novamente e aquilo era mais uma vez frustrante.

Pouco antes do fim do corredor, Yunho parou e a bolinha fugiu do controle de suas mãos e rolou afora. Ele viu com nitidez uma sombra se mover e por alguns instantes aquilo o fez congelar. Ele então seguiu pelo corredor, agarrado à prancheta, com seus olhos perscrutando o final do corredor em busca do que poderia ter se movimentado ali. Ao lado da porta, ele viu as cortinas se movendo graciosamente como se dançassem ao vento e aquilo explicaria o que o assustara, caso a janela não estivesse fechada.

Yunho começou a se achar paranoico com tais pensamentos, mas precisava verificar, afinal, ele era o homem da casa. Ele seguiu para o lobby e ao longe ele viu uma porta entreaberta, que ele teve certeza que estava antes fechada. Era a porta dupla de correr que dava acesso ao bar agora vazio, com suas cadeiras sobre as mesas, todas cobertas por lençóis extremamente brancos. Yunho se aproximou do local e ele garrafas tilintando, o que ele concluiu ser sua imaginação.

Então ele o viu.

Era um rapaz jovem, os cabelos tingidos de castanho claro caíam graciosamente sobre seus olhos, tinha lábios fartos e olhos grandes e emocionais. Ele estava atrás da bancada do bar que continuava vazio, e tinha consigo uma pequena garrafa de vidro de cor esverdeada o que Yunho identificou ser soju. O rapaz serviu o líquido transparente em dois copos pequenos, próprios para doses deste e os colocou lado a lado no balcão.

Yunho então esperou para ver quem viria beber com ele e só então correria para o telefone a fim de chamar a polícia. Dois homens haviam invadido o hotel e ele imaginava que iriam assalta-los ou algo do gênero. Ele se aproximou da porta e o loiro ergueu o olhar diretamente para ele e sorriu. Seu sorriso era inocente, adorável, atraente. Yunho deixou-se levar por alguns instantes até a voz doce do mesmo ressoar pelo cômodo em uma provocação:

– Vai ficar só olhando ou vai vir tomar uma dose de soju comigo?

Yunho sentiu seu corpo estremecer e algo parecia ter congelado em seu estômago. Ele olhou em volta em busca de outra pessoa com quem aquele rapaz falava e então ele ouviu sua risada, gostosa, cantada. O rapaz o chamou com a mão e apontou os dois pequenos copos e aquilo fez a garganta de Yunho secar. Céus como ele queria um gole daquilo, no entanto, desde criança todo mundo escuta de seus pais: “Não aceite bebida de estranhos”.

– Quem é você? – Indagou Yunho irrompendo cômodo adentro. – Como entrou aqui?

– Pela porta da frente, como todo mundo. – Disse ele, repassando o pequeno copo para Yunho. – Anda, só um golinho.

– Nem pensar! – Ralhou Yunho, olhando estupefato o rapaz voltar a rir. – Responda, como você chegou aqui?

– A verdade é que eu nunca saí. – Respondeu o rapaz, tomando um breve gole de um dos copos de soju. – E você? O que está fazendo aqui?

– Olha, rapaz, eu não sei quem você é, ou como você entrou aqui, mas você tem que ir embora. O hotel está fechado!

– E o que você está fazendo aqui então? – Indagou ele, cruzando os braços em frente ao corpo.

– Eu sou o zelador. – Respondeu Yunho tentando manter a coerência diante do invasor. – Você chegou aqui de carro? Tem como voltar? Eu posso te deixar na cidade mais próxima e de lá você pega um ônibus!

– Por que a pressa? Você nem me disse o seu nome.

– Eu sou Yunho e pela sua cara, sou no mínimo seu hyung.

– Olá Yunho-hyung. – Disse o rapaz, virando a dose de soju nos lábios. – Você não vai beber? Se você não quiser eu quero.

– Você tem que… qual o seu nome?

– O meu? Por que quer saber?

Yunho soltou o ar pesadamente e revirou os olhos. Ele começava a ficar impaciente com o intruso e já imaginava os gritos de sua esposa quando o visse ali com uma garrafa de soju. Mesmo que ele não tivesse bebido, era como ter a arma do crime nas mãos e alegar não ter feito nada. O rapaz sorriu novamente e com uma destreza quase felina ele pulou a bancada e se posicionou de frente para Yunho.

– Não precisa ficar bravo. – Recomeçou o loiro, ainda sorrindo. – Eu me chamo Jaejoong, às suas ordens.

– Bem, Jaejoong, você precisa ir embora.

– Mas… está escuro lá fora e frio. Vai mesmo me colocar pra fora assim?

– Jaejoong…

– Eu fico quietinho aqui, durmo em um dos quartos e nem faço bagunça, eu prometo! – Disse Jaejoong erguendo uma das mãos como se fizesse um juramento.

– Escuta…

– É só um dia! – Insistiu Jaejoong. – De qualquer maneira se você tentar me colocar pra fora, eu vou gritar, a sua esposa vai ouvir e você vai ter problemas!

– Como sabe que eu estou com a minha esposa?

– Você deve estar, porque está sussurrando comigo e está todo nervoso. Aposto que ela manda em você!

– Escuta aqui, seu…

– Tudo bem! – Interrompeu Jaejoong dando de ombros. – Pelo menos toma um soju comigo.

– Eu não posso!

– É claro que pode, não tô vendo ninguém aqui tentando te impedir. – Disse Jaejoong enchendo seu próprio copo novamente, assim como o do rapaz. – Só uma dose.

– Jaejoong… – Yunho suspirou pesadamente, para finalmente pegar o copo. Ele o fitou demoradamente e em seguida para o encorajador e tentador rapaz à sua frente. Então ele virou o liquido que desceu quente por sua garganta, o fazendo soltar um gemido de satisfação no final. Era do que ele precisava.

– Gostoso né? – Disse Jaejoong entre risos, vendo Yunho olhar para ele desconcertado. – Quer mais?

– Não. – Disse Yunho simplista, deixando o copo sobre a mesa. Ele sabia que se começasse, não pararia.

– O que você está levando aí? – Indagou Jaejoong após virar sua própria dose. Ele apontou para a prancheta que Yunho carregava.

– Nada que seja da sua conta!

– Anda, me deixa ver!

Com um movimento rápido ele puxou a prancheta da mão de Yunho e saiu correndo, ainda com seu largo sorriso nos lábios. Yunho saiu correndo atrás dele, mas o rapaz fugiu de sua vista. Ele demorou a encontra-lo, sentado no chão atrás de uma das mesas enquanto seus olhos percorriam os papéis presos que ele carregava. Yunho sentou-se de frente para ele e não tentou mais tomar o objeto de sua mão, vendo o rapaz começar a ler em voz alta:

– Personagem sem nome. Homem, jovem, bem-humorado, muito bonito (principalmente o sorriso), espírito livre. E você sublinhou o espírito livre, por que?

– Porque é a principal característica dele. Ele é uma pessoa sem pudor, sem preconceito. Tem uma visão livre do mundo.

– Ele é você?

– Não, claro que não. – Disse Yunho, negando com a cabeça. – É um personagem, alguém que eu inventei.

– E qual a história dele? – Indagou Jaejoong folheando as outras páginas presas à prancheta, sorrindo abertamente ao ver escondido na última o desenho.

– Eu não montei a história dele, nem uma história pra ele, só ele.

– E quem é esse aqui do desenho?

– Esse é Lee Donghae, o amante do gerente desse hotel.

– E por que você está carregando um desenho dele nu com você?

– Ele inspirou esse personagem. Na verdade não exatamente ele, mas este desenho dele.

– Interessante. A sua descrição não disse que este personagem seria tão erótico. – Afirmou Jaejoong, atento ao desenho. – Ele deve ser realmente bonito, quer dizer, se o desenho estiver sendo fiel.

– Não sou de achar outros homens bonitos, Jaejoong.

– Ainda assim se inspirou com a imagem de um homem nu. Aposto que achou ele atraente.

– Está me chamando de viado? Mais respeito comigo, eu sou casado!

– O que tem demais em achar um homem atraente? Não faz de você um… como você disse? Viado?

– Você o achou atraente?

– Mas é claro! Olha como ele é bonito, que olhar profundo e essa pinta no pescoço! Ele é atraente! – Afirmou Jaejoong devolvendo a prancheta. – Não fique enciumado, eu não estou interessado no seu homem.

– Ele não é o meu homem! – Ralhou Yunho. – É só um personagem. Já chega, Jaejoong, eu realmente não posso deixar você ficar.

– Mas é perigoso lá fora. – Disse Jaejoong. – Eu posso morrer e a culpa seria toda e inteiramente sua.

– Como você chegou aqui, Jaejoong? O que quer aqui?

Jaejoong deu de ombros e baixou o rosto fitando suas próprias mãos. Eram mão delicadas, com dedos finos e a pele macia. Ele usava um anel com um enfeite de asa de anjo e seus cabelos caíram novamente sobre seus olhos. Yunho não sabia o que fazer, pois não podia deixa-lo ficar, ele era um estranho, que parecia tão frágil.  Ele não iria sair dali, Yunho tinha certeza, e se fosse descoberto, estariam os dois em apuros.

– Se você quiser, pode ir dormir. – Afirmou Yunho. – Mas amanhã eu quero você longe daqui, está bem?

– Não seja bobo, Yunho-hyung, eu não vou a lugar algum. – Afirmou Jaejoong. – Agora por que você está aqui e não dormindo com a sua esposa?

– Isso não é da sua conta na verdade. – Afirmou Yunho recostando as costas à parede mais próxima.

– Vocês brigaram? – Indagou Jaejoong se sentando ao lado do rapaz, que percebeu que este continha um cheiro mentolado, ou algo que o lembrava eucalipto.

– Não. – Afirmou Yunho sem fitar o outro, enquanto rabiscava outro papel da prancheta.

– Você não quer conversar?

– Pense no meu lado só por um instante. Tem um estranho no hotel onde eu trabalho e ele não quer ir embora, você conversaria com esse estranho?

– Se ele não estivesse armado eu conversaria. – Disse Jaejoong. – Por que me privar de conhecer uma pessoa nova? Ele poderia ser o amor da minha vida.

– Jaejoong, você é homem! – Ralhou Yunho.

– E daí?

– Eu tô começando a achar que você é maluco. – Disse Yunho.

– Você que é! – Retrucou Jaejoong, cruzando os braços e virando o rosto na direção oposta.

Yunho revirou os olhos e suspirou pesadamente. Aquele rapaz era abusado e tinha um jeito estranhamente cativante. Ele fitou o rapaz que fazia questão de não desviar o olhar para ele, fitando o lado contrário a Yunho, onde nada repousava a não ser uma das mesas cobertas.

– Jaejoong… – Chamou Yunho.

– O que? – Respondeu Jaejoong imediatamente, mas sem voltar a fita-lo.

– Você já jantou? Se alimentou antes de chegar aqui?

– Isso não é da sua conta, Yunho-hyung. – Afirmou Jaejoong, ainda sem fita-lo. – Mas não seria nada mal se você me oferecesse um docinho.

– Um doce? Já te falaram que você é muito abusado?

– Qual o problema em pedir um docinho? – Argumentou Jaejoong, finalmente desviando o olhar a ele. – Aposto que você tem um bem gostoso aqui na geladeira do hotel.

– Tem o bolo que a minha esposa fez com o meu filho.

– Não quero.

– Por que não? É doce!

– Tsk, eu vou ter que preparar um doce eu mesmo!

Ao terminar a frase, Jaejoong se levantou decidido. Yunho arregalou os olhos e se levantou de um pulo, pronto para impedir o rapaz. Ele estava estupefato com as ações daquele rapaz, e sua mente continuava se perguntando se ele não estaria sonhando. Jaejoong desviou o olhar ao mais velho e o perguntou:

– Você quer vir comigo?

– Você não vai fazer doce nenhum! Você perdeu o juízo? Se a minha esposa acorda…

– Você tem tanto medo dela assim? E daí se ela acordar? Nós dizemos que eu vou passar a noite aqui e pronto! – Afirmou Jaejoong. – E pela sua cara, já que você não aceitou o meu soju, você quer um doce. Um doce de verdade, daqueles que são tão gostosos que parece que você acabou de fazer amor.

Yunho piscou algumas vezes desconcertado. Jaejoong era desconcertante, assim como aquele sorriso delicado e misterioso. O rapaz segurou sua mão e o puxou consigo, caminhando sem pressa para a saída do bar. Yunho estranhou ainda mais, pois mesmo quando ele passou a acompanha-lo, o rapaz não fez menção de soltar sua mão. Jaejoong andou pelo hotel com segurança e o guiou como se o conhecesse melhor do que o novo zelador.

Jaejoong entrou na cozinha e correu entre os armários, pegando as coisas que precisava, parecendo já conhecer o local. Ele se movia com leveza e era silencioso, mesmo mexendo em panelas e talheres. O rapaz voltou da despensa com uma lata de leite condensado, uma barra de chocolate e coco ralado. Yunho ainda estava parado à porta, olhando ansioso para a entrada de seus aposentos, esperando que a qualquer momento sua esposa o flagrasse com um estranho na cozinha.

– Yunho-hyung!

– Ssshhhh! – Ralhou Yunho. – Quer acordar todo mundo?

– Hyung, feche essa porta e venha me ajudar! – Retrucou Jaejoong. – Se não me ajudar, eu vou comer ele todo sozinho.

– Jaejoong, eu não quero doce, eu quero…

– O que você quer, hyung?

Jaejoong se esforçava para abrir a lata de leite condensado enquanto esperava a resposta de Yunho que mais uma vez não soube o que responder. O rapaz fechou a porta da cozinha e rodeou Jaejoong, vendo o outro ignora-lo pela segunda vez na noite. Era estranho ter aquele rapaz ali, ter uma companhia depois de tanto tempo. Jaejoong mexia aquele doce de chocolate com coco com uma colher de pau. Ele bem sabia que o outro estava tentando adivinhar o que ele fazia ali e de certa forma aquilo era divertido.

– Não respondeu a minha pergunta. – Insistiu Jaejoong, ainda se olhar para ele.

– Você não respondeu as minhas. – Acusou Yunho. – Quer uma carona até a cidade amanhã?

– Sabe o que eu acho, que você quer fugir daqui e está me usando como desculpa. – Provocou Jaejoong.

– Você acha coisas demais. – Afirmou Yunho, impaciente. – Mas já que você insiste, pode ir a pé para a cidade, eu não estou nem aí.

– Pare de pensar na minha partida e experimente esse doce. – Disse Jaejoong levando a mesma colher com que mexia o doce aos lábios do rapaz.

– O que é isso?

– Eu que inventei! – Afirmou Jaejoong. – Eu não dei um nome ainda, apenas experimente!

Yunho entreabriu os lábios e viu o rapaz ser cuidadoso ao deixa-lo experimentar o doce ainda quente. Jaejoong sorriu logo que ele meneou a cabeça afirmativamente aprovando sua sobremesa, ele continuou mexendo na panela de forma que o doce esfriasse mais rápido. Seu olhar não recaiu novamente sobre Yunho, mas um sorriso discreto ainda brincava em seus lábios.

Jaejoong colocou uma quantia do doce em dois copos separados e entregou um a Yunho. Ele pegou uma colher, e qual não foi sua surpresa ao ver que Jaejoong caminhava sem pressa em direção à saída da cozinha, saboreando a sobremesa com os dedos. Yunho tratou de sair atrás dele, ainda sem saber as intenções do mesmo. No entanto o cansaço começava a se aproximar de seu corpo e ele temia não aguentar a noite toda seguindo aquele teimoso rapaz por todo o hotel.

– Você está cansado. – Afirmou Jaejoong.

– Você não?

– Acho que sim. – Disse Jaejoong dando de ombros. – Você vai me colocar na cama?

– Como? – Indago Yunho estupefato.

– Não vai me dar um quarto? – Indagou Jaejoong segurando a mão do rapaz mais uma vez. E só então ele pôde reparar na estranha temperatura corporal dele. Era curioso, como se ele estivesse frio por dentro e quente por fora.

– Está se sentindo bem, Jae-ah?

– Por que eu não estaria? – Sorriu Jaejoong. – Então, em qual quarto eu vou ficar?

– É melhor você ficar com o quarto do cozinheiro. É aquecido e fica perto do meu quarto.

– Está bem.

E dizendo isso, Jaejoong mais uma vez voltou-se na direção correta. Ele conhecia o hotel e disso Yunho não tinha nenhuma dúvida. Eles seguiram de mãos dadas até o quarto indicado e o próprio Jaejoong abriu a porta, que Yunho não se lembrava de ter destrancado. Jaejoong se sentou na cama e terminou seu doce, esperando que o rapaz fizesse o mesmo. No entanto, ele tratou de ajeitar travesseiros e um cobertor pesado para que o rapaz ficasse aquecido naquela noite fria.

Somente então, Yunho se recostou à escrivaninha e voltou a comer seu doce sem pressa. Era um doce diferente, tinha o sabor do chocolate ao leite derretido no leite condensado, e ao final o coco ralado crocante. Ele enjoaria se comesse muito daquilo, mas Jae havia o servido na porção perfeita. Era algo tão simples, mas ao mesmo tempo tão especial. Assim como a aventura de esconder aquele rapaz ali, algo perigoso e estúpido ao mesmo tempo.

Jaejoong deixou o copo sobre a escrivaninha e sem pudor algum desabotoou e baixou as calças, revelando uma boxer branca por baixo da mesma. Yunho arqueou as sobrancelhas com o despudor do rapaz, sentindo novamente o constrangimento envolve-lo. Jaejoong se ajeitou embaixo do cobertor dado pelo zelador, e cobriu-se até o pescoço, logo sorrindo para ele. Yunho terminou o doce e pegou o copo do rapaz que ainda o fitava languidamente:

– Quer dormir aqui comigo?

– Não. – Disse Yunho, ríspido.

– Você tem que ir dormir, parece cansado.

– Você tem que ir embora, antes de todo mundo acordar, está bem?

– Yunho-hyung, se a sua esposa não estivesse aqui, você me deixaria ficar?

– Não sei. – Afirmou Yunho. – Eu nem sei se o seu nome é mesmo Jaejoong.

– Por que eu mentiria o meu nome?

– Essa é a única informação que você me deu até agora e eu nem sei se é verdadeira.

– Eu também não sei se você se chama Yunho, se é mesmo o zelador deste hotel, se aquele Donghae é mesmo apenas um conhecido, e mesmo assim, eu confio no que você diz.

– E como você sabe que pode confiar no que eu digo?

– Eu não sei, mas confio. – Afirmou Jaejoong.

– Boa sorte amanhã, na volta pra sua casa.

– Boa noite, Yunho-hyung.

– Boa noite, Jaejoong.

Aquela era a última lembrança de Yunho daquela noite. Ele não saberia explicar no dia seguinte como os copos apareceram lavados, ou por que havia coco no canto de seus lábios. Ele assumiria a reponsabilidade pelo doce na geladeira, e encontraria sua prancheta em sua escrivaninha, e sobre esta, o desenho de Donghae o fitando com aquele ar erótico, e as palavras de Jaejoong voltariam à sua mente. Atraente, bonito, erótico.

No entanto, ele nitidamente se lembraria de Jaejoong. Seu jeito agitado e misterioso, seu sorriso, sua longa conversa sem sentido. E ele se lembraria de se despedir do rapaz, de ver aqueles olhos grandes e expressivos se cerrarem e com apenas uma das mãos repousadas ao lado do seu rosto, ele dar-lhe-ia um discreto e cordial boa noite.  E as feições angelicais do rapaz se tornariam tranquilas, a medida que o sono o embalava.

Uma coisa Yunho precisava admitir, Jaejoong era fascinante. Inspirador.

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