Capítulo 02: O Overlook

The Overlook Hotel

Era uma estrada perigosa. Depois que a grande cidade de Seul ficava para trás, eram duas horas de uma rodovia que parecia sem fim, e finalmente a entrada que daria acesso às montanhas, o perigo começava aí. Era uma estrada cheia de curvas, subidas e descidas, e já havia uma fina camada de neve pela mesma. Por mais que Yunho tivesse se precavido e usado pneus especiais, aquele local em especial exigia muito de sua atenção, como Hyukjae o alertara por telefone no dia anterior.

A estrada foi construída na encosta da montanha, sendo protegida apenas por uma pequena grade de proteção. A medida que eles iam subindo a estrada ia ficando mais escorregadia e sinuosa. Os faróis altos avisavam os motoristas que voltavam do único carro malcuidado que ia naquela direção nesta época do ano. Ao menos àquela altura da viagem os ocupantes do carro estavam devidamente silenciosos, o que permitia que o motorista e pai de família se concentrasse em sua tarefa.

A saída de Seul não fora nada fácil. O menino que agora dormia em sua cadeira apropriada fizera um escândalo desde a manhã, e só piorou quando eles adentraram o carro. Ele não queria ir, desde que a confirmação do emprego de Yunho chegara, Junmin deixou bem claro, que não desejava ir para o hotel. Foi uma semana difícil até o dia da viagem. Eles tinham muito o que resolver, muito o que deixar para trás, e além de tudo, lidar com as crises de raiva do pequeno Junmin.

A ida para o hotel foi o pior dia, mesmo eles estando com seus pertences devidamente organizados, saíram demasiadamente atrasados de casa. O grande problema fora fazer Junmin obedece-los e fazer as tarefas básicas do dia, como escovar os dentes e se acomodar adequadamente em sua cadeirinha de viagem. E foi toda essa birra que mais estressou Yunho naquela manhã, até eles saírem de casa.

A criança chorou por boa parte do trajeto, e Hyemin não sabia mais o que fazer para acalma-lo. Ela tentou de tudo, brinquedos, música, leite e nada do menino se acalmar. Ela chegou a pedir a ajuda de Yunho que não se intrometeria, ou terminaria gritando com os dois e começar aquele período com uma grande briga não era o que ele imaginava. Assim, eles se absteve e deixou o acesso de manha de seu filho passar, e em seguida a raiva de sua esposa pela sua falta de ação durante aquele dia.

Enquanto dirigia, ouvindo uma música qualquer dos Beatles no rádio, ele pensava sobre aquela tediosa manhã. Em partes, Hyemin tinha razão em cobra-lo, afinal ele era o pai e também era sua obrigação educa-lo, mas ele nunca fora uma figura presente na vida do menino. Talvez ele devesse se sentir culpado por ser tão ausente na vida do garoto, no entanto, ele não era capaz de sentir culpa por seu posicionamento. Era estranho, mas por mais afeição que ele tivesse pela criança, não era como se ele quisesse fazer parte de sua infância.

Não é como se ele não se importasse com Junmin, ele apenas não se esforçava para se aproximar dele. O menino era distante e tinha dificuldades em se comunicar com ele, parecendo sempre estar mergulhado em seu mundo fantasioso. Yunho se lembrou das festinhas de aniversário, de como o menino sempre abraçava primeiro a mãe, como os melhores sorrisos eram apenas para ela, e como ele confidenciava a ela coisas que em sua presença jamais seriam ditas.

E ele voltou a se sentir um escravo de sua família, o patrocinador da felicidade de mãe e filho. Por mais que viessem de seu esforço tudo o que pertencia ao menino, inclusive o urso com o qual Junmin dormia abraçado no banco de trás, os carinhos dele ainda eram voltados para a figura feminina. Yunho olhou de soslaio para sua esposa adormecida ao seu lado e tentou se lembrar de algum momento em que ela tenha tentado inclui-lo na vida do filho, sem sucesso. Ele era um pai ausente, e ela não parecia se importar com isso, não enquanto o dinheiro continuava saindo de sua carteira.

Yunho tampouco se achava um marido exemplar, não só pelo seu problema com a bebida, mas pelo fato de não mais se importar com sua esposa. Ele não se importava mais com a felicidade dela, desde o momento em que percebeu que ela não se importava com a dele. Era recíproco e desgastante. Claro que para Hyemin a imagem de sua família era algo muito importante, e Yunho adentrou o seu jogo desde que colocou uma aliança em seu dedo delicado. No entanto, ele se cansou daquele jogo, ao mesmo tempo em que não tinha forças para pedir uma folga.

Yunho suspirou pesadamente, deixando sua vista se perder pela paisagem da estrada que já chegava ao fim. A névoa fina pairava ao longe, onde as montanhas se formavam com seus cumes brancos pela neve. Em alguns pontos a nevoa parecia tomar formas assustadoras, como o desenho bobo de seu filho. Talvez ele devesse tentar escrever algo sobre isso, uma nevoa maligna que tomava formas de monstro e assustava crianças.

Yunho riu de seu pensamento bobo. De fato, ele estava há meses com um bloqueio criativo que não parecia querer desaparecer. Talvez se algo o inspirasse ele voltasse a pensar como o bom escritor que era, mas por enquanto, sua vida continuava frustrante. Ele poderia escrever sobre seu isolamento, algo como uma experiência bizarra na prisão de Alcatraz, com seus carrascos e guardas mal encarados. Estranhamente seu carrasco tinha feições angelicais, um sorriso perfeito e dormia tranquilamente no banco ao seu lado.

As montanhas ficaram para trás, e o sol pálido de inverno se ergueu imponente anunciando o fim da tarde. Eles adentraram por uma pequena estrada de terra com árvores dos dois lados. Uma pequena placa desgastada estava pendurada em um canto da estrada, indicando: “Hotel Overlook: 2km” Ele finalmente havia chegado ao esperado hotel, talvez fosse o momento de acordar sua esposa e filho, mas por alguma razão, Yunho decidiu curtir aquela chegada sozinho.

Não demorou nada e Yunho pôde ver ao longe o grande edifício despontar por trás das árvores. Logo a entrada do local apareceu, um portal de cerca viva se formou e a sua frente, um grande jardim muito bem conservado. Ele não pôde ver muito mais, pois logo que atravessou o portal, se dirigiu ao estacionamento, em uma região separada da bela entrada do Overlook. Naquela tarde, muitas pessoas ajeitavam seus carros e se dirigiam para a saída, a fim de deixar o hotel antes que o inverno finalmente chegasse.

Hyemin acordou sobressaltada, abrindo um divertido sorriso quando percebeu que eles haviam finalmente chegado. Ela acordou o pequeno, e os três fitaram deslumbrados a bela vista do hotel. Aquele era um lugar ermo, e o hotel era o único refúgio naquela região. Montanhas se erguiam imponentes a sua volta, impedindo que turistas chegassem ali, a não ser pela estrada que eles tomaram. O edifício era belíssimo, e mais parecia uma mansão com suas pequenas janelas iluminadas e a porta dupla que dava acesso ao lobby do hotel. Além do jardim de flores, havia um de arbustos que tinham formas de animais posicionados em fileira, um ao lado do outro, e um labirinto verde, no qual alguns hóspedes gostavam de se perder. Em um canto mais isolado, o playground que animou seu filho para a estadia no lugar.

Eles saíram do carro e reuniram seus pertences, para por fim atravessarem em direção a entrada do lugar. Junmin apontava para tudo o que seus olhos viam, nomeando as coisas com um largo sorriso no rosto, enquanto a outra mão se mantinha presa à de sua mãe. O casaco pesado em um tom pastel cobria o corpo delicado da esposa de Yunho que ao lado do filho, adentrou graciosamente no hotel, facilmente se passando por um dos apressados hospedes que faziam o check-in na recepção.

Os três permaneceram parados na recepção, até um funcionário vir anunciar que eles não estavam mais aceitando hóspedes, pois o hotel logo fecharia por causa do inverno. Yunho se apresentou polidamente e avisou que era o novo zelador, sendo bem recebido pelo jovem rapaz. Ele se retirou para chamar o gerente, e poucos minutos depois, Hyukjae saiu de uma sala lateral, com aquele largo sorriso irritante.

– Yunho-ah, fez boa viagem? – Disse Hyukjae, parando de frente para eles. – Esse é JiHoon, ele vai levar as suas malas para os seus aposentos.

– Obrigado! – Disse Yunho, entregando suas malas ao rapaz que os reverenciou e logo saiu hotel adentro. – Fizemos sim, apesar de alguns contratempos.

– Como vai, minha querida Hyemin? – Cumprimentou Hyukjae, apertando a delicada mão da jovem esposa. – Parece que cada vez que eu te vejo está ainda mais linda.

– Ah, sempre um galanteador. – Riu-se Hyemin, causando náuseas em Yunho. – Guarde seus elogios para sua esposa, ou ela ficará enciumada.

– E como vai esse garotão? – Indagou Hyuk, bagunçando os cabelos de Junmin. – Tenho certeza que terá muito espaço para brincar por aqui.

– É, acho que sim. – Disse Junmin timidamente.

– Você é um homem de sorte, Yunho, não desperdice isso. – Afirmou Hyuk.

– Somos dois homens de sorte. – Sorriu Yunho, abraçando a esposa pela cintura e desejando que fotos de Hyukjae beijando Donghae saíssem publicadas na edição matinal do jornal.

– Vamos, eu vou apresentar alguém. – Disse Hyukjae. – Ele vai mostrar o hotel e dizer quais são as suas tarefas.

Hyukjae deu-lhes as costas e eles o seguiram por um grande corredor que dava acesso aos escritórios, a sala com telefone, a pequena enfermaria e finalmente a enorme cozinha do Overlook. Era um lugar grande, com vários armários contendo os mais diversos utensílios domésticos, e estava devidamente organizada. Apenas algumas camareiras circulavam por ali, as que deveriam arrumar os quartos dos últimos hóspedes. Eles atravessaram o local e finalmente encontraram quem Hyukjae desejava apresenta-los. O rapaz cantarolava uma música romântica enquanto cobria morangos com uma generosa camada de creme:

– Junsu-yah! – Chamou Hyukjae, fazendo o rapaz voltar-se para eles e sorrir adoravelmente.

– Ah, Hyuk-ah! – Saudou Junsu. – Ele é o novo zelador?

– Sim, esse é Jung Yunho, o novo zelador e sua esposa Hyemin . Eu tenho algumas coisas para resolver, você se importaria em mostrar o hotel para eles, onde ficam os aposentos em que eles vão ficar e dizer o que ele deve fazer?

– De forma alguma, vamos lá! – Disse Junsu, animado.

– Ótimo, vou deixar vocês em boas mãos.

Hyemin agradeceu Hyukjae que não se demorou a se afastar. Foi só então que Yunho percebeu que seu filho observava com ar fascinado o charmoso cozinheiro. O menino tinha os lábios entreabertos e seus olhos estavam brevemente arregalados, vidrados nas feições delicadas do rapaz. Yunho então voltou a observar o rapaz que agora guardava os morangos em uma grande geladeira que ainda estava cheia, e se perguntou por alguns instantes se Donghae era mesmo o único amante de Hyukjae.

Junsu então voltou-se para a família e respeitosamente se apresentou. Hyemin parecia tão fascinada pelo jovem quanto seu filho. Talvez fosse sua simpatia, ou aquela aura delicada e brevemente afeminada que o envolvia. Ele era agitado, falava gesticulando e tinha uma voz rouca, mas agradável. Seus cabelos, agora tingidos de castanho estavam impecavelmente penteados, assim como a roupa branca, reluzente demais para alguém que trabalha na cozinha.

– Acho melhor nós começarmos pela cozinha, vocês vão ter um longo tour por aqui. – Disse Junsu. – Aqui tem tudo o que vocês precisarão para preparar suas refeições.

– Este lugar é incrível! – Elogiou Hyemin começando a caminhar ao lado de Junsu.

– Eu aconselharia vocês a usarem esta mesa para as refeições, pois o salão de jantar pode ser muito solitário. – Disse Junsu abrindo uma pequena porta de madeira que dava entrada para uma grande despensa. – Aqui vocês vão encontrar mantimentos suficientes para a estadia, tem todo tipo de alimento que vocês precisarem. Também aconselho a comerem as frutas logo, pois elas não vão durar muito tempo. Atrás desta porta…

– Eu posso te perguntar uma coisa, Junsu-oppa? – Indagou Hyemin.

– Claro. – Disse Junsu simpático.

– Tem algum tipo de bebida alcoólica aqui?

– Não. Nem aqui, nem no bar. – Explicou Junsu, olhando de soslaio para Yunho que agora encarava sua esposa. Ela sorriu delicadamente, sem perceber o quão irritado ficara seu marido por sua indiscreta pergunta. – Nós não deixamos mais bebidas aqui desde o incidente com o zelador.

– Que incidente? – Indagou Hyemin.

– Nenhum que seja importante. – Disse Yunho, fitando Junsu sugestivamente. – O que tem atrás daquela porta?

– Atrás desta porta é o frigorífico. – Explicou Junsu mudando de assunto. – Ali vocês vão encontrar carnes, também de todos os tipos. Vamos, ainda temos todo o hotel para conhecer.

E com essa sentença o rapaz se afastou, sendo prontamente seguido pela família. Eles subiram a enorme escadaria e Junsu mostrou a eles os quartos, indicando quais aquecedores deveriam permanecer ligados e quais deveriam ser ligados a noite e desligados pela manhã. Era tarefa de Yunho também concertar o encanamento da área leste do hotel, pois este estava causando infiltrações.

No andar acima ficavam as suítes mais luxuosas. Junsu sentiu um arrepio em sua pele ao passar pelo quarto 1904, observando o pequeno menino apertar o passo quando se aproximou deste. Ele entendia sua reação, pois ele mesmo fugira daquele local por muito tempo. Havia outro local que Junsu detestava e sabia que Junmin também detestaria e o cozinheiro estava tentando deixa-lo por último, na tentativa de não entrar no quarto. Seu esforço deu certo, pois em determinado momento, Hyukjae os alcançou e o avisou que terminaria a tour com finalmente dispensando Junsu.

– Hey, você gosta de sorvete? – Indagou Junsu, desviando o olhar ao menino.

– Adoro! – Respondeu Junmin.

– Eu ainda tenho sorvete de chocolate lá na geladeira, por que você não vem e toma um pouco?

– Ah, nós não queremos incomodar. – Justificou-se Hyemin.

– De forma alguma, acho que o Minnie já está cansado de andar pelo hotel, não é?

– É sim, omma! – Disse Junmin. – E eu quero um pouco de sorvete!

– Tudo bem, mas não incomode o Junsu-oppa, está bem?

– Como você sabe que nós chamamos ele de Minnie? – Indagou Yunho.

– Eu ouvi o Hyuk falando.

O menino rapidamente segurou a mão do cozinheiro que deu as costas para o confuso casal. Eles não comentariam nada, mas ficariam tentando lembrar sem sucesso, quando eles haviam chamado o pequeno de ‘Minnie’ durante seu tour no hotel. Hyukjae se afastou, a fim de concluir e relembrar quais seriam as tarefas de Yunho durante a sua estadia, além é claro, de escrever seu livro.

Junsu desceu as escadas com o pequeno Junmin em seu encalço e discretamente passaram pelo lobby que agora estava ainda mais lotado. Junsu guiou a criança pelos corredores até chegarem à cozinha que agora estava vazia. Lá o mais velho diminuiu o passo, o guiando até a pequena mesa da cozinha, onde a criança iria se acomodar. Então ele se afastou, deixando-se esbarrar nos talheres pendurados que tilintaram pela cozinha.

Junsu voltou com uma tigela com três bolas de sorvete, granulado colorido e uma suculenta cereja em cima. O menino o agradeceu e prontamente começou a comer o doce. Foi quando algo aconteceu, algo que o assustava a principio, mas com o qual ele havia se acostumado com o tempo. Junsu falou com ele, sem proferir verbalmente uma palavra sequer. O cozinheiro permaneceu sentado, com o queixo apoiado em sua mão e um sorriso fino brincando em seus lábios.

“Está gostoso?” – Indagou Junsu, sem falar diretamente com ele.

“Como você faz isso?” – Indagou Junmin da mesma maneira. Apenas com a voz em seu imaginário.

“Fazendo. Eu tenho um irmão gêmeo e desde que nós tínhamos a sua idade, conversamos assim, sem falar nada.” – Explicou Junsu. – “Está gostando do hotel?”

“Acho que sim.” – Respondeu Junmin, dando de ombros. – “Não parece tão perigoso, você disse que era perigoso.”.

“Minnie, você já percebeu que você pode ver e ouvir coisas que seus pais não podem?” – Indagou Junsu. – “Como agora, nós estamos conversando, e mesmo que eles estivessem aqui, não conseguiriam te ouvir.”.

Junmin assentiu silenciosamente.

“Pois bem, aqui no hotel, você vai ver coisas que não tem em todos os lugares”.  – Explicou Junsu. – “Coisas estranhas, sons estranhos e alguns deles podem não ser muito agradáveis.”

O menino voltou a assentir, desistindo do sorvete, para fitar o mais velho.

“Essas coisas podem ser assustadoras as vezes, mas eu quero que você entenda, elas não podem te fazer mal.” – Explicou Junsu. – “É como ver uma revista com imagens de monstros. São figuras assustadoras, mas não podem te machucar, pois estão apenas naqueles papéis”.

“Quer dizer que elas não são reais? As coisas do hotel?”

“Não, quer dizer que eles não vão te machucar, se você não permitir. O que eu quero que você faça, é bem simples, quando você perceber que algo assim está próximo a você, eu quero que feche os olhos assim.” – E Junsu levou ambas as mãos aos olhos, os tapando. – “Conte até três e quando você abrir de novo terá desaparecido”.

“Não parece difícil”.

“E lembre-se, algumas vezes seus olhos podem te enganar. Não esqueça por exemplo, que os arbustos lá fora, são apenas plantas”.

Junmin voltou a assentir, tomando uma colherada de seu sorvete que já começava a derreter.

“E tem mais uma coisa que eu gostaria de pedir a você”.

“O que é?”

“Faça o que fizer, não entre do quarto 1904”.

Logo que Junsu terminou a frase, uma das lâmpadas da cozinha fez um zumbido típico e piscou algumas vezes. Eles olharam para o objeto que voltou a se acender, e Junsu suspirou pesadamente, com ar nervoso.

“O que tem nesse quarto?”

“Nada que possa te interessar, garoto. Não entre lá!” – Avisou Junsu. – “Você é um bom menino, sei que vai ouvir o que eu te digo”.

“Tudo bem, não vou entrar.” – Disse Junmin. – “Mas eu ainda não sei, porque eu consigo conversar assim com você e com minha omma não”.

“Existem muitas coisas inexplicáveis nesse mundo, Minnie, coisas das quais nós não temos conhecimento ou controle. Nós nascemos assim, com uma visão diferente das outras pessoas e devemos usar isso para fazer o bem.”

“É como um superpoder?”

– Sim, algo parecido. – Finalmente disse Junsu em voz alta, rindo da comparação do menino que agora terminava o sorvete. – Você quer mais?

– Quero! – Respondeu Junmin com ar animado, voltando a fazer Junsu rir.

Junsu pegou a tigela e voltou a deixar o menino sozinho. O rapaz seguiu sem pressa para o frigorífico, de onde retirou um grande pote de sorvete, o pegando em pequenas camadas. Foi quando ele sentiu algo pressionando sua cintura e logo depois se afastando atrás de si. O cheiro almiscarado o deixou tranquilo e o fez sorrir com o canto dos lábios, ainda sem desviar o olhar.

– A que devo a honra de sua visita à minha humilde cozinha? – Disse Junsu entre risos.

– Você está com as suas malas prontas? – Indagou o rapaz, finalmente parando atrás dele.

– Está me colocando pra fora?

– Estou te impedindo de fazer mais bobagens. – Ralhou o rapaz o segurando pelo pulso. – Chega disso, Su, vai pra casa!

– É a primeira vez que eu te vejo fora do quarto e você vem pra me mandar embora? – Reclamou Junsu derramando mais confeitos sobre o doce.

– Você sabe do que eu estou falando. – Disse ele parando ao lado do cozinheiro. – Pare de se fazer de bobo e deixe essa teimosia pra lá! Me ouça, Junsu!

– Chunnie, nós não estamos sozinhos aqui não é?

Yoochun não costumava sair do quarto, aliás detestava sair daquele cubículo onde costumava se encontrar com Junsu. Ele tinha seus motivos para não desejar outro lugar que não o quarto, mas as bobagens de seu amante o obrigaram a descer as escadas às carreiras. E lá estava ele, mandando aquele rapaz que queria tão perto, para longe de si. Mais uma vez lutando contra a teimosia do dono daquele adorável sorriso. Junsu não sorria, mas seus olhos percorriam o frigorífico em busca de outra figura como Yoochun. Sua respiração saía quente e fazia uma fumaça no ar, ao contrário do outro rapaz, seu peito sequer inflava.

– Dê o sorvete ao menino e vá pra casa. – Disse Yoochun, mais calmamente, vendo Junsu arregalar os olhos quando seu olhar se deparou com uma sombra atrás de uma das estantes do local.

– Tudo bem, eu vou. – Disse Junsu. – Mas você vem comigo.

– Eu não posso, Su. – Afirmou Yoochun o abraçando pela cintura e o entregando o sorvete, para por fim puxa-lo para fora do frigorífico. – Já pensou como seria terrível, se você ficasse preso nesse lugar gelado?

– O que quer dizer com isso? – Disse Junsu caminhando a passos lentos em direção à saída, vendo Yoochun olhar ansioso o menino que balançava os pezinhos em uma cadeira alta.

– Que você tem que ir embora, hoje. – Disse Yoochun.

– Você vai ao meu quarto se despedir? – Disse Junsu, sorrindo com o canto dos lábios.

– Por que você não me leva a sério?

– Porque você leva tudo o que eu faço a sério demais. – Disse Junsu ouvindo a porta do frigorífico bater com força, como se um vento tivesse soprado muito forte por ali. Ele olhou para o local, sobressaltado, sentindo Yoochun segurar sua mão. Ele estava sendo mandado embora, e sabia disso.

– Eu te ajudo a fazer as malas. – Disse Yoochun. – Vamos, dolphin.

– Eu não vou deixar o Minnie sozinho aqui. Quando os pais dele voltarem, eu vou arrumar minhas malas.

– Então leva esse merdinha para os pais dele e vai fazer as malas! – Ralhou Yoochun. – Você tem meia-hora pra sair daqui, Junsu, meia-hora!

– Chunnie, não precisa falar assim. – Disse Junsu com ar chateado. – Eu vou levar ele para os pais e te encontro no meu quarto.

– Você tem cinco minutos pra fazer isso, os pais dele estão na suíte presidencial. – Avisou Yoochun. – Cinco minutos!

Junsu sorriu discreto para o nervoso rapaz e deu as costas para ele. Quando voltou, Junmin olhava fixamente para a porta da cozinha, tendo a breve impressão de que alguém havia passado muito rápido por ali. Ele recebeu o sorvete, e Junsu o esperou comer sem pressa alguma. Logo que o menino terminou, ele segurou a mão do cozinheiro e eles caminharam pelo hotel que finalmente havia esvaziado.

Junsu ficou feliz ao encontrar os pais do menino no corredor, pois desejava profundamente evitar a suíte presidencial. Ele se despediu do casal, de Hyukjae e recebeu um acalentador abraço do pequeno Junmin. Junsu então sentiu verdadeira preocupação para com o menino, uma vez que Yoochun não o trataria daquela maneira se estivesse tudo calmo como normalmente.

Ele os deixou no corredor, e com dez minutos de atraso finalmente chegou aos seus aposentos. O seu quarto ficava aos fundos do hotel, de frente para onde ficariam os aposentos do zelador e sua família. Quando ele adentrou o local, o cheiro almiscarado impregnava as paredes, quase tão forte quanto quando eles faziam amor na discreta suíte. Junsu adentrou seu quarto e encontrou o rapaz sentado em sua cama, olhando para a mala vazia aberta sobre a mesma.

Ele não parecia feliz, Yoochun nunca parecera feliz aos seus olhos, no entanto naquele dia ele aparentava estar especialmente melancólico, e havia uma pontinha de ira em seu olhar. Talvez depois de tanto tempo teimando com suas ordens, Junsu tivesse finalmente irritado seu amante. O quarto de Junsu era simples, tinha uma pequena janela, uma cama de solteiro e um armário em mogno.

Havia no canto uma pequena escrivaninha com um romance sobre esta e um abajur que iluminava suas noites, uma vez que o cozinheiro não gostava da escuridão total. Junsu se aproximou do rapaz e se sentou ao seu lado, deixando sua mão repousar sobre a deste. Yoochun demorou a desviar o olhar para ele, e soltou um suspiro pesado quando o outro lançou a ele um sorriso. Aquele sorriso que ele tanto amava.

– Você tem que fazer as malas, Su. – Lembrou Yoochun. – Vamos, eu vou te ajudar.

– Não me coloca pra fora desse jeito, Chunnie.

– Para de drama, Junsu. – Ralhou Yoochun se levantando e abrindo as duas portas do armário e fitando demoradamente as roupas que este continha.

– Não precisa falar assim. – Reclamou Junsu, o fitando agora com ar sério. – Eu arrumo a porcaria da mala!

Junsu o fitou emburrado e se levantou bruscamente para juntar-se a ele próximo ao armário. Ele agarrou as roupas que estavam impecavelmente penduradas em cabides e as arrancou de seu lugar, jogando todas as peças sobre a cama. Yoochun observou o rapaz começar a retirar os cabides das peças e joga-los sobre a cama, sem esconder seu desagrado. Ele não queria chateá-lo, apenas queria protege-lo.

Yoochun parou ao lado dele e sem pressa começou a dobrar as roupas               que o rapaz displicentemente jogava na mala de couro aberta. Cada peça parecia conter o cheiro da pele do rapaz, e por alguns momentos ele ficou tentado em pedir para ficar com uma delas. No entanto Junsu estava chateado e ele bem sabia como aquele rapaz era sensível às suas palavras. Yoochun deixou uma camisa colorida dobrada na pilha e se voltou para o outro, o abraçando pela cintura.

– Hey, dolphin. – Disse Yoochun calmamente. – Por que esse bico? Você não quer ir pra casa? Não quer ver o seu irmão? A sua omma?

– Claro que eu quero, mas…

– Então por que está sendo teimoso comigo?

– Porque você está me expulsando.

– Não sou eu. – Disse Yoochun o apertando em seus braços e vendo o rapaz deixar a camisa que segurava sobre a cama. – Você sabe que é perigoso, ainda mais agora que…

– Agora que?

– Nada. – Concluiu o rapaz, o apertando contra si e o sentindo deixar um beijo estalado em seus lábios. – Vá pra casa, vá ter um descanso e cuidar da sua família. Não volte pra cá, dolphin, vá viver a sua vida.

Junsu negou com a cabeça, sentindo seus olhos arderem. Era a primeira vez que ele falava com ele tão seriamente, era a primeira vez que fora tão ríspido e seu coração doía com as reações dele.

– Pare de falar essas coisas, Chunnie.

– Não, não chore! – Disse Yoochun, sentindo o desespero tomar conta de seu coração quando as lágrimas rolaram solitárias, molhando o rosto daquele a quem amava. – Não chore, Su.

– Me deixa ficar. – Pediu Junsu apoiando seu rosto no ombro do outro que afetuosamente o abraçava e beijava.

– Não. – Repetiu Yoochun. – Você tem que ir, e tem que ser agora.

– E se eu me recusar? E se eu ficar e ajudar o Minnie a se livrar disso tudo?

– Aí eu vou ter que matar você.

A voz do rapaz saiu rouca, sussurrada, quase um tom ameaçador. Yoochun sentiu o corpo de Junsu tremer da cabeça aos pés com sua frase. Era a primeira vez em anos que ele sentira medo daquele que o abraçava, e ele confiava nele a ponto de acreditar em suas palavras. Junsu afastou o rosto úmido do ombro do rapaz, com as lágrimas e soluços ainda escapando sem controle algum. A mão fria de Yoochun acariciou seu rosto e retirou os cabelos de seus olhos, o fitando demoradamente.

– Vá embora. – Repetiu Yoochun. – Esqueça esse menino, vá embora.

– E você? Vai ficar aqui?

– Eu tenho que ficar aqui. – Respondeu Yoochun.

– Está bem.

Finalmente Junsu concordou e voltou a arrumar as malas, ainda chorando discretamente. Yoochun o ajudou até que todos os seus pertences estivessem devidamente reunidos. Logo que eles conseguiram fechar a mala, Yoochun se sentou e abraçou o rapaz pela cintura, o deixando entre as suas pernas. Assim, mais uma vez eles se beijaram, sem pressa, de forma que o rapaz finalmente se acalmou. Junsu trocou longos beijos com seu amante, deixando suas línguas brigarem uma contra a outra.

O vento assoviou em volta do hotel, e a janela do quarto de Junsu bateu insistentemente, chamando a atenção dos amantes. A sensação térmica no quarto diminuiu e como na cozinha, a luz piscou algumas vezes, deixando Junsu assustado. Yoochun se levantou e o abraçou apertado pela cintura, sendo prontamente correspondido. Como no frigorífico a respiração de Junsu formava fumaça quando saía por seus lábios e a fim de protege-lo, Yoochun enrolou um cachecol bordô em volta do pescoço do mesmo.

– Está na hora, dolphin. – Disse Yoochun, com um tom de voz sussurrado e cauteloso.

– Antes de ir, eu posso te perguntar uma coisa?

– Claro, Su.

– Você vai matar o Junmin?

– Não.

– Mas alguém vai, não vai?

– Era só uma pergunta, Junsu. – Reclamou Yoochun. – Vamos, você tem uma longa viagem até a sua casa. Não esqueça de usar farol alto e dirigir devagar nas montanhas.

– Eu vou sentir saudades. – Disse Junsu o abraçando demoradamente.

– Eu também vou. – Respondeu Yoochun, selando seus lábios. – Agora vá, nós voltaremos a nos ver quando o inverno passar.

– E a primavera vai trazer o meu Chunnie de novo pra mim.

Yoochun sorriu pela primeira vez na noite, deixando um ultimo selar nos lábios de seu amante. Junsu o abraçou apertado e virou-se para pegar a mala, e quando voltou, Yoochun havia deixado o quarto. Ele riu discreto para si mesmo e finalmente deixou o quarto, caminhando a passos largos em direção à saída. O único que ele encontrou no caminho fora Hyukjae, uma vez que todos os hóspedes e a maioria dos funcionários havia deixado o local.

Na saída ele viu ao longe o pequeno Junmin brincando distraidamente no balanço do playground com sua mãe o empurrando. Certamente eles já haviam se alojado no hotel e Junsu voltou a ficar preocupado. O pequeno ria enquanto o brinquedo levado por seu peso subia e descia no ar. Então ele disse ao menino, da mesma maneira como eles haviam conversado na cozinha:

“Se algo der errado, pense bem forte em mim, e eu volto pra te ajudar. Adeus Minnie.”

“Adeus Junsu-hyung”.

E com essa última frase, Junsu seguiu seu caminho. Ele adentrou seu carro e antes de sair dali olhou uma última vez para o hotel Overlook. E do alto de uma das janelas aquele olhar negro e penetrante voltou-se em sua direção, o observando de longe, deixando sua melancolia escorrer pelo vidro como gotas de chuva. Junsu abriu o vidro de sua janela e jogou de longe, um beijo para o rapaz que ele sabia que o observava. E de longe, ele o viu erguer a mão lentamente em um aceno discreto. Assim, Junsu partiu.

Yunho saiu de seu quarto mastigando uma aspirina. Ele havia se distraído na última hora, arrumando suas roupas e as de seu filho no armário em seu quarto e na cômoda no quarto do pequeno. Seus aposentos eram confortáveis o suficiente para a longa estadia. Eles ficariam em um anexo, que continha janelas pequenas, dois quartos, uma pequena sala com apenas um sofá e um rádio e o pequeno banheiro. Ao lado ficava a sala de comunicação, com um radioamador e um telefone, e nenhum deles funcionaria quando a neve começasse.

Os hóspedes deixaram o hotel e agora que anoitecera, somente ele, sua família e Hyukjae continuavam ali. Yunho atravessou o corredor, cuidando para não se perder no grande lugar até encontrar Junmin e Hyemin se despedindo de Hyuk no lobby do hotel. Yunho fitou os três com ar desgostoso. Por um lado, era bom finalmente se livrar do hipócrita Hyukjae, por outro era desnecessário que sua esposa desse um abraço tão demorado nele em despedida.

Ele não era um homem ciumento, mas sua mente não conseguia se recordar quando recebera um abraço significativo de Hyemin e isso o fazia se sentir um completo babaca. Yunho sorriu e se aproximou dos três, também abraçando Hyukjae em despedida. Ele teve a impressão de sentir o gerente acariciar sua nuca com a ponta dos dedos, mas o ignorou logo que ele o soltou. Yunho lembrou-se de Donghae e sentiu o constrangimento envolver sua face o deixando corado.

Eles acompanharam Hyukjae até a saída, e o observaram atravessar o jardim até o estacionamento. Um silêncio mórbido tomou conta do local, até o motor do carro de Hyuk ser ligado. Eles viram os faróis iluminarem o jardim e finalmente o veículo passou pelo portal de cerca viva e desapareceu pela discreta estrada de terra. Ao longe eles ainda ouviam o ronco do motor e enfim ele desapareceu.

Yunho suspirou pesadamente e um arrepio percorreu seu corpo. Naquele momento, decididamente não havia retorno e ele deveria enfrentar o isolamento com sua esposa e seu filho. Junmin se dependurou no colo de sua esposa, que deixou um beijo em seus lábios antes de adentrar novamente no hotel. Yunho ainda ficou parado olhando para o imenso e belo jardim que logo estaria morto pelas nevascas.

Yunho não conseguia prever como seriam os próximos meses, e como ele lidaria com os fantasmas de sua mente. Talvez fosse a incerteza o que o deixava tão fascinado com aquele lugar, e sabia que aquilo poderia ser algo inspirador. Ou pelo menos ele esperava que a companhia do hotel Overlook trouxesse de volta sua inspiração.

Yunho se voltou para o hotel e a porta aberta parecia ainda mais convidativa para que ele adentrasse o luxuoso edifício. Era quase como ouvir o Overlook dizendo-lhe: “Entre, sinta-se em casa” ou “Você é bem vindo aqui”. Se alguma forma ele entendeu a mensagem, e o Overlook o acolheu, fechando a porta para o mundo exterior. O grande isolamento de Yunho havia começado.

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