Capítulo 05: Good morning, hyung

good morning hyung

Pé ante pé, Jaejoong entrou no quarto. Suas meias não faziam barulho no piso ou tapete ao lado da cama, ainda assim ele fez questão de permanecer silencioso. Ele deixou as duas xícaras sobre o criado-mudo que continha apenas um relógio que tiquetaqueava, o único ruído presente no quarto. O cheiro de café impregnou o local, o deixando ainda mais aconchegante naquela manhã fria de neve.

Ele fechou a porta logo em seguida e girou a chave lentamente até ouvir o click da fechadura se trancando. Depois forçou o trinco, o arrancando da porta e o escondendo embaixo da cama. Havia uma luz fraca entrando pela janela e as cortinas se moveram quando ele passou por elas contornando a cama de casal. Nela, apenas Yunho dormia pesadamente, com sua respiração tranquila e os cabelos desgrenhados, ainda alheio à movimentação no quarto. Jaejoong sorriu brincalhão, ajoelhando-se na beirada da cama a fim de observa-lo.

Ele fitou Yunho demoradamente, sentindo a vivacidade do outro adormecido tão profundamente. Jaejoong inspirou profundamente e se sentou ao lado do rapaz, no lado onde sua esposa antes estava adormecida. Os lençóis ainda estavam mornos, pois ela havia acabado de se levantar e agora preparava na cozinha, mingau para seu filho que também dormia no quarto ao lado. Ela não notaria a porta fechada, e não voltaria tão cedo, Jaejoong sabia.

Ele pegou do chão a prancheta que Yunho sempre carregava e retirou o lápis do apoio próprio, demorando seu olhar nas feições tranquilas de Yunho. Ele virou as páginas e em uma folha em branco, sua mão fez um risco longo atravessando o papel e depois outro mais curto, e outros mais curtos. Vez ou outra seu olhar recaía sobre o rapaz e seu dedo esfregava a folha, formando um sombreado discreto em locais específicos. E aos poucos a paisagem começou a se formar sobre o branco do papel.

Primeiro a cama, o criado-mudo, as xícaras de café, a porta sem trinco e então a cama, os lençóis amarrotados, o cobertor fofo, e finalmente Yunho. Sua silhueta começou a se formar, com a cintura bem contornada pela regata branca com a qual ele dormia que deixava seus ombros à mostra. Quando o desenho começou a tomar forma, Jaejoong ficou insatisfeito e tratou de muda-lo.

Ele deixou a prancheta de lado e engatinhou sobre a cama, cuidando para que o outro rapaz não acordasse. E com delicadeza ele puxou o cobertor do rapaz, espiando por baixo do mesmo. Ele abriu um largo sorriso travesso ao perceber o mesmo usando somente sua boxer branca e a regata amarrotada, deixando seu abdômen à mostra. Jaejoong afastou as cobertas, as deixando sobre seus pés e finalmente revelando seu corpo. Ele sentou-se novamente, apagou parte do desenho e o mudou, desta vez mostrando o corpo de Yunho.

Ele se atentou à pele morena do outro, as coxas finas, seu abdômen com pelos finos formando um caminho negro que desaparecia por dentro de sua boxer. Jaejoong já sabia que Yunho tinha uma péssima autoestima, e tinha certeza que ele não tinha noção do quão belo era. Os braços fortes estavam jogados acima de sua cabeça, e seu rosto estava relaxado, com os lábios entreabertos por onde ele puxava e exalava o ar frio da manhã.

Jaejoong estava tão feliz com o resultado de seu desenho que teria pulado na cama de excitação. No entanto, ele ainda precisava acordar Yunho, apesar de seu coração desejar vê-lo dormir pelo resto do dia. Talvez, de alguma forma, ele não devesse ter julgado tão precipitadamente o silencioso rapaz do quarto 1904. Jaejoong deixou a prancheta  novamente no chão e se arrastou sobre a cama, deitando-se sobre seu estômago.

A ponta de dois seus dedos caminharam sobre a pele quente das coxas de Yunho, escorregando por sua virilha. As unhas percorreram seu abdômen e quando sua mão chegou ao tórax firme do outro, ele finalmente começou a despertar. Jaejoong o abraçou com firmeza e deixou seu rosto encaixar-se na volta do pescoço do outro, depositando ali um beijo estalado e frio, para por fim sussurrar com a voz rouca e grave:

– Bom dia, Yunho-hyung.

Yunho o empurrou para longe, rolando para fora da cama. Seu corpo foi ao chão em um baque, enquanto desconcertado, ele procurava distanciar-se do rapaz. A risada de Jaejoong se fez presente, brincalhona, rouca, infantil, zombando mais uma vez da surpresa e do medo irracional do moreno. E rapidamente o escritor se irritou, como há muito não se irritava, nem com sua esposa, nem com seu filho.

– O que você pensa que está fazendo aqui?? – Indagou Yunho rouco, erguendo-se em um pulo.

– Eu vim de acordar, hyung, bom dia! – Disse Jaejoong se pondo em pé na cama.

– Qual o seu problema, Jaejoong? Já pensou a merda que ia ser se a minha esposa te pega aqui, porra! Eu mandei você ficar naquele quarto, o que tem de errado em me obedecer??

– Te obedecer? – Disse Jaejoong entre risos. – Você não manda em mim, hyung, além do mais, eu chequei, sua esposa está neste exato momento dando mingau para o adorável Junmin.

– É a segunda vez que você entra no meu quarto sem permissão, é a segunda vez que arrisca a minha pele, e se você acha que vai sair daqui ileso está muito enganado! – Ameaçou Yunho, agilmente pulando na cama, vendo Jaejoong dar dois passos para trás.

– O que você vai fazer? – Disse Jaejoong entre risos. – Não tem coragem nem de enfrentar a sua esposa, vai me enfrentar?

– Seu cretino! – Disse Yunho avançando contra o rapaz que correu pelo quarto, rindo alto, abusado.

– Yunho pabo! – Gritou Jaejoong, o sentindo agarra-lo pela roupa e joga-lo sobre a cama. Ele parou de rir, mas um sorriso malicioso ainda brincava em seus lábios.

– O que você quer, hein? – Indagou Yunho ajoelhando-se na cama e o agarrando pelo colarinho. – Quer foder meu casamento? Quer que a minha vida fique mais fodida do que já está? Quer me ver pelas costas, sem nada que valha a pena para me sustentar? Eu tenho um filho pra criar, Jaejoong, eu preciso dessa merda desse emprego pra isso.

– Ah, Yunho-hyung, por que esse esforço todo para manter as aparências quando ninguém está olhando? Nós dois sabemos que você não cria o seu filho. E a sua esposa… não sei nem por onde começar. – Jaejoong ainda sorria, irônico, lascivo.

– O que você quer? – Indagou Yunho apertando com mais força o colarinho do outro, afundando os punhos contra o pescoço do outro.

– Eu quero tudo. – Respondeu Jaejoong levando ambas as mãos ao pescoço do outro e o circulando perigosamente com seus dedos longos e macios. – E eu vou começar curando essa sua covardia de marido passivo. Nós dois só vamos sair desse quarto quando eu mandar.

– Vai pro inferno!

Yunho o empurrou com firmeza sobre a cama, vendo o corpo do outro saltar sobre o colchão quando ele o soltou. Ele sairia dali, iria para longe de sua esposa, de seu filho e principalmente de Jaejoong, estava decidido. Não fosse o fato da maçaneta da porta do quarto estar desaparecida. Yunho gritou e voltou-se contra Jaejoong que havia se ajoelhado no colchão, o esperando voltar.

– Onde está a maçaneta, Jaejoong? – Indagou Yunho.

– Não sei, ela estava aí agorinha né? Onde ela pode ter ido? – Indagou Jaejoong sorrindo lascivo enquanto se deitava na cama pegando outra folha em branco da prancheta e a apoiando em seus joelhos.

– Não brinca comigo, seu babaca! – Xingou Yunho. – Abre essa merda dessa porta!

– Como se ela não tem maçaneta?

– Abre a porta!! – Gritou Yunho, recebendo um suspiro pesado e preguiçoso em resposta. – Jaejoong eu…

– Você deve estar com vontade de ir ao banheiro. – Constatou Jaejoong ainda sem fitar o rapaz e desta sem aquele sorriso brincalhão no rosto. – Por que você não vai, aproveita e toma um banho morno e relaxa?

– Por que você não morre?

– É melhor você começar a me ouvir, ou do contrário eu vou começar a falar bem alto e quero ver você explicar para a Hyemin os motivos de você estar trancado aqui sozinho. – Afirmou Jaejoong. – Vamos, hyung, já para o banho.

– Quando eu sair desse banheiro, quero essa porta aberta e você longe daqui.

Jaejoong voltou a suspirar pesadamente em resposta e o deixou adentrar o banheiro fazendo questão de bater a porta. Ele a fitou demoradamente e finalmente retirou a maçaneta de baixo da cama, a deixando sobre o criado-mudo, juntamente com as xícaras de café agora frias. Jaejoong não se moveu enquanto o outro se demorava no banheiro, se distraindo com um desenho novo e imaginário.

Yunho demorou no banho e saiu de lá com os dentes devidamente escovados e os cabelos úmidos. Ele ainda estava irritado com a audácia de Jaejoong e temia as consequências da ousadia irracional daquele rapaz. E acorda-lo daquela maneira tão íntima, desde quando ele dera-lhe tanta liberdade? Nem sua esposa o acordava com beijos e abraços, nem mesmo no seu aniversário, ou no dia dos pais.

Enquanto se enxugava, Yunho começou a pensar que talvez tivesse sido demasiadamente rude com o outro rapaz que certamente estava brincando com seu psicológico. Ele puxara-lhe as roupas, gritara com ele, e ainda assim ele continuava com aquela teimosia irritante. Por que ele tinha que ser desta maneira? Por que tinha que ser tão… atraente? Yunho abriu a porta do banheiro trajando uma toalha enrolada em sua cintura, consideravelmente mais calmo, o que não significava que ele estava satisfeito com a porta que continuava fechada.

Ele caminhou em direção ao armário, o abrindo e fitando o mesmo impecavelmente arrumado. Ele retirou dali uma roupa íntima e roupas casuais e confortáveis que o protegeriam do frio e só então voltou ao banheiro para se arrumar. Claro, ele detestou o olhar lascivo de Jaejoong em seu corpo, pois não tinha a menor intenção de ser desejado por outro homem. Ele se trancou no banheiro e minutos depois saiu de lá, completamente vestido.

– Eu disse que queria essa porta aberta, não disse?

– Também me disse que me queria fora daqui. A questão, Yunho-hyung, é que eu não vou sair.

– Problema seu!

Yunho reclamou, dando a volta na cama e vendo Jaejoong agora com ambas as mãos escondidas pelo cobertor. O moreno se aproximou do criado-mudo e estendeu a mão para pegar a maçaneta, mas foi prontamente impedido por Jaejoong. A mão do loiro ergueu-se no ar e ele fincou um canivete sobre a madeira onde a mão de Yunho havia se aproximado, deixando um baque surdo no ar.

Yunho puxou o ar com força e afastou os dedos dali, vendo o outro fita-lo perigosamente. Jaejoong afastou as cobertas e se sentou sobre a cama mais apropriadamente, puxando o canivete da mesa de novo. Yunho chegou a sentir a lâmina fria rente à sua pele, e teria feito um estrago se ele não tivesse tirado a tempo. Ele havia irritado Jaejoong, ainda sem saber se ele era perigoso ou não.

– Você também não vai sair. – Concluiu Jaejoong usando o mesmo canivete para apontar o lápis com o qual antes ele desenhava. – Senta.

– O que você quer? – Indagou Yunho se acomodando na beirada da cama.

– Primeiro que você pare de se fazer de vítima, mas nós vamos chegar lá. – Afirmou Jaejoong, se arrastando sobre a cama e se sentando ao lado do moreno. – Eu trouxe café, mas esfriou.

– Obrigado. – Afirmou Yunho, sem fitar o rapaz.

– Você está bravo ainda, precisa parar com isso. – Disse Jaejoong, segurando a mão do outro após soltar seus pertences na cama. – Eu não iria te colocar em uma enrascada sem motivo nenhum e entendo porque você está com raiva.

– Claro, você entra no meu quarto, me acorda com um beijo, quase me mata e acha que está tudo bem? Pois não está!

– Você não gostou do beijinho? – Indagou Jaejoong visivelmente chateado.

– Você é homem! – Ressaltou Yunho visivelmente impaciente.

– Só por isso o meu beijo é ruim? – Indagou Jaejoong cruzando os braços em frente a peito. – Eu vou te dar outro e provar que eu sou muito bom nisso!

– Nem pensar! – Reclamou Yunho, finalmente desviando o olhar ao loiro que tinha o corpo voltado para ele. – Por que está me deixando trancado aqui?

– Porque queria que você vencesse esse medo irracional da sua esposa. – Explicou Jaejoong. – Queria te ver enfrentar ela como você me enfrentou agora, e não se esconder no escritório o dia todo.

– Por que você faz tanta questão?

– Porque você é um escritor e está preso a esse casamento, as aparências, à sua esposa! Como pode um escritor imaginar personagens tão bonitos e viver enclausurado? Eu não estou falando deste hotel, estou falando da sua família. Você deveria ser livre, hyung!

–  Livre? Livre pra que?

– Pra ser você mesmo. – Afirmou Jaejoong se pondo de joelhos sobre a cama e se sentando sobre seus calcanhares. – Você devia ter a chance, hyung, a chance de se libertar, de comer o que gosta, fazer o que gosta, sem dar satisfações a ninguém. Eu não gosto da sua vida e não gosto da maneira como você aproveita ela.

– E por que eu não posso ser assim? Como eu sou agora?

– Acomodado? Covarde? Passivo? – Indagou Jaejoong, segurando o canivete mais uma vez e pulando sobre o colo de Yunho que apoiou as mãos atrás das costas, a jogando para trás. – Vamos supor uma coisa, que você vai morrer daqui cinco minutos. Eu vou matar você, vou cortar a sua garganta e te deixar sangrar em cima desta cama pela próxima meia-hora e devagar, você vai morrer.

– E então? – Indagou Yunho, deixando seu olhar fascinado percorrer o rosto tranquilo de Jaejoong.

– Então, se você fosse morrer agora, qual a melhor coisa que você já fez? Qual a sua maior realização? – Indagou Jaejoong sem obter respostas para suas primeiras perguntas. – Qual a pessoa mais fascinante que você já conheceu?

– Você. – Respondeu Yunho sem titubear. – Você é a pessoa mais fascinante que eu já conheci.

– Qual foi a última vez que você comeu algo que gosta? Qual a última vez que fez amor? Valeu a pena? Levando em conta que você não vai poder voltar a comer, ou fazer amor de novo?

Yunho entendeu o ponto de vista do rapaz, ele o dizia à sua maneira sobre como sua vida estava sendo desperdiçada naquele casamento. Sobre como ele culpava as pessoas à sua volta sem se importar em fazer nada para que sua vida mudasse. Ele não se impunha, não arriscava, não tinha voz ativa. Jaejoong sorriu e saiu de seu colo, se acomodando ao seu lado, segurando sua mão com delicadeza e então voltou a falar:

– Eu queria que você tivesse conhecido o Changmin. – Disse Jaejoong, brincando com o afiado canivete. – Ele era um homem de verdade, hyung, um homem que sabia controlar a sua mulher. Ele teria muito a te ensinar se você quer bem saber.

– Quem é Changmin?

– Ele era mais novo que eu, e tinha uma noiva. – Disse Jaejoong, ignorando a pergunta do outro. – Ela fazia tudo o que ele mandava, hyung, tudo! Uma vez, ele mandou ela fazer amor comigo na frente dele e ela teve que fazer. Depois ele deixou ela dormindo e nós…

– Vocês o que?

– Nós também fizemos amor. – Disse Jaejoong. – Ele era perfeito.

– É o seu amante?

– Não. Nós não nos falamos mais. – Afirmou Jaejoong, suspirando pesadamente.

– Me fala mais de você, eu não sei nada de você. – Pediu Yunho, mais uma vez.

– Eu fiz um desenho seu, enquanto você dormia. – Disse Jaejoong. – Você quer ver?

– Quero! – Disse Yunho com ar obviamente curioso, enquanto o rapaz pegava a prancheta e o entregava. Na primeira folha estavam alguns rabiscos como uma flor e duas mãos belamente desenhadas uma sobre a outra. E na segunda, o desenho completo. Yunho corou com sua própria imagem adormecida, trajando somente roupas íntimas. – Ficou… bonito.

– É porque você é bonito. – Disse Jaejoong. – E é por isso que eu detesto o fato de você não fazer amor com ninguém. Há quanto tempo ninguém toca o seu corpo, hyung?

– Que pergunta indiscreta, Jaejoong.

– Se você me contar, eu te conto como eu conheci o Changmin!

– Mesmo?

– Eu juro! – Disse Jaejoong, erguendo a mão ao lado do rosto, fitando o primeiro sorriso discreto de Yunho naquela manhã.

– Dois anos e meio, pelas minhas contas.

– Você não faz amor há dois anos e meio? Como pode? Por que um homem bonito como você faria isso? Aish, hyung!

– Foi uma escolha minha, Jaejoong, é pessoal. – Explicou Yunho.

– Espera um pouco, então eu sou a primeira pessoa que beija o seu pescoço em todo esse tempo? Eu quebrei o seu regime nem que seja só um pouquinho?

– Acha isso bom?

– Acho ótimo! – Disse Jaejoong pulando na cama entre risos, em seguida, deixando a ponta de seus dedos percorrerem a pele do pescoço de Yunho, enquanto seu olhar se fixava ali. – Por que você não quer mais fazer amor com ninguém?

– Porque eu sou casado e não quero fazer amor com a minha esposa. – Afirmou Yunho. – A verdade, é que eu não tenho mais tesão pra transar, viver, escrever e nem pra fazer porra nenhuma.

– Ah, hyung, se você soubesse como você é bonito, se visse você mesmo com os meus olhos, não se privaria de fazer amor. – Afirmou Jaejoong. – E eu ainda quero olhar o seu corpo, sem roupas, como você viu o meu, porque aí assim eu vou me lembrar dele, de você.

– Me conta, como você conheceu o Changmin. – Pediu Yunho, incomodado com as palavras sinceras em demasia.

– Ah é, o Changmin! – Disse Jaejoong se deixando cair sobre a cama e finalmente puxando Yunho por sua camisa para que se deitasse também. – Quando eu era mais jovem, há alguns anos atrás, eu morava em Seul. Todo dia, eu ia até a estação central de metrô, sentava no chão e desenhava as pessoas que passavam por ali. Eu desenhei todo tipo de pessoas, jovens, velhos, bonitos, feios, homens, mulheres, todos tinham seu brilho, algo que parecia especial neles. Eu vendia meus desenhos por 10 won cada um, só pra conseguir o dinheiro da passagem do metrô e para umas balinhas em uma banca lá perto. Ele passava por lá todos os dias impecavelmente no mesmo horário. Ele sempre carregava uma mochila e a bicicleta dele, tinha os cabelos compridos, quase até o pescoço e parecia sempre com pressa. Eu apelidei ele de coelho da Alice, e só contei para ele meses depois. Ele nunca parou pra me olhar, ou para falar comigo enquanto eu estava no metrô. Depois que eu terminava os meus desenhos, eu ia pra casa, trocava de roupas e ia para o meu emprego noturno.

– E qual é o seu emprego noturno?

– Eu dançava, tirava as roupas, e os homens me pagavam para me ver nu. – Explicou Jaejoong. – Imagine só, hyung, um lugar escondido em um beco sem iluminação e por trás de uma porta desgastada, um mundo secreto feito só para nós, homens. Assim como você ia para o bar depois do seu trabalho, tentar se livrar da sua rotina chata, da sua esposa insuportável, os homens iam para aquele lugar, me ver dançando. Eles não podiam me tocar, e pra falar comigo só pagando uma quantia muito alta para o gerente.

– Você era um garoto de programa?

– Não, claro que não! Eu não dormia com nenhum deles, eu dançava pra eles. Eu era como, um sonho erótico que eles não podiam realizar, eu era uma fantasia. E era melhor assim, sem sentimentos, sem ressentimentos, sem toques, sem lembranças, só a imagem de um homem dançando de roupas íntimas, um sonho. E então, uma noite de verão, muito quente, ele apareceu onde eu trabalhava. Um rapaz acuado, recém-saído da adolescência, e ainda assim importante, imponente. Ele pagou pra me ver a sós e me contou que aquele era o aniversário de dezenove anos e o pai dele havia dado dinheiro para que ele passasse a noite com uma mulher e ele deu todo o dinheiro do pai para me ver dançar. Os anos passaram, ele teve algumas namoradas, mas nunca me abandonou. Ele sempre ia me ver, e depois de um tempo, começamos a dormir juntos.  Ele foi o único cliente com quem eu dormi, e nós viramos amantes. Ele era muito ciumento, muito mesmo, não gostava quando eu sorria para os outros homens, ou quando eles olhavam muito para mim. Se ele te visse olhando assim para mim, ia querer te bater.

Yunho riu discreto do comentário do rapaz.

– Mas ele me amava, hyung. Eu era o homem perfeito para ele, não me julgava, me amava incondicionalmente. Foi quando o pai dele faleceu e ele foi obrigado a noivar com a namorada. Ele se tornou mais sádico do que antes, eu ainda era o seu anjinho, mas ele controlava tudo o que estava à nossa volta. E a noiva, era quase uma escrava das suas vontades mais insanas. Você teria gostado do Changmin, poderia ter aprendido muito com ele, mas não acho que ele teria gostado de você.

– Por que não?

– O jeito que você me olha, assim, aficionado, ele não gostava disso. – Explicou Jaejoong. – Eu gosto.

– Eu não te olho assim. – Disse Yunho virando-se na cama e fitando o teto demoradamente, sentindo o rosto de Jaejoong apoiar-se em seu ombro. – Você é gay mesmo então?

– Eu sou gay para homens bonitos. – Explicou Jaejoong. – Como o Changmin, ou Lee Donghae. Se não forem bonitos como eles, eu prefiro uma mulher, que seja bem liberal, solta como a água de um rio, que me deixe usar o corpo dela sem medo, como a noiva do Changmin.

– Lee Donghae?

– Eu desenhei ele. – Disse Jaejoong. – Aquele desenho que você viu foi em uma noite que ele e o Hyukjae vieram aqui. Durante a noite, enquanto a esposa do Hyukjae dormia, ele correu para o quarto do Donghae e eles fizeram amor a noite todinha. O desenho era para ser uma lembrança, mas o cozinheiro de voz rouca não me deixou dar, ele disse que aquele era um segredo terrível e ninguém poderia saber.

– Você escondeu o desenho?

– Eu coloquei na gaveta, mas ele nunca encontrou. – Afirmou Jaejoong. – Até você encontrar ele.

– Por que me perguntou quem era então?

– Porque era um segredo e se você não soubesse quem ele era, eu não poderia te contar. Eu prometi que não contaria a ninguém!

– Jae-ah, eu preciso mesmo sair daqui agora. – Afirmou Yunho o fitando segurar sua mão e repousa-la em sua cintura. Yunho tocou o corpo do rapaz pela primeira vez, e tratou de experimentar pressiona-lo ali, com firmeza. – Eu preciso ir escrever.

– Promete uma coisa?

– O que é?

– Quando você sair daqui, não vai mais deixar ela te controlar. – Disse Jaejoong. – Vai enfrentar ela.

– Prometo. – Afirmou Yunho. – Você vai para onde agora?

– Vou ficar por aí. – Disse Jaejoong. – Eu preciso fazer uma coisa hoje.

– Vai sair do hotel?

– Não, hyung, está frio demais lá fora. – Explicou Jaejoong. – Eu vou fazer o que preciso fazer e depois te encontro no escritório.

– Tente não ser visto, Jaejoong.

– Eu não vou ser visto. – Reafirmou o rapaz, rolando sobre o corpo do mais alto até se deitar sobre ele e apoiar os braços ao lado de seu rosto. – Vá tomar um bom desjejum, e depois escreva seu romance, do jeito que você achar melhor. Eu te encontro no escritório mais tarde.

– Tudo bem.

Jaejoong saiu de seu colo e se levantou de um pulo, guardando seu canivete no bolso e finalmente devolvendo a maçaneta da porta de Yunho. O rapaz se levantou preguiçosamente, sentindo-se alguns quilos mais leve depois desta conversa com Jaejoong. Era como se o rapaz tivesse roubado a chave de sua cela e o libertado, devolvendo a ele o controle de sua vida. Agora ele estava no controle. Jaejoong abriu a porta e deixou que o rapaz saísse, caminhando por alguns passos atrás dele.

Yunho não viu para onde ele fora, mas no corredor ele já não estava mais atrás de si. Yunho seguiu para a cozinha onde preparou seu próprio café da manhã, com panquecas e chá de frutas vermelhas que ele dividiu com seu filho. Junmin não se lembrava da última vez que seu pai havia cozinhado e mais tarde contou à sua mãe o delicioso prato que havia provado. Hyemin detestou a ideia de ter a cozinha bagunçada e estava pronta para discutir com seu marido, não fosse o fato dele tê-la deixado perfeitamente arrumada antes de se enfiar no escritório.

E mais uma vez, Yunho precisava escrever.

Jaejoong atravessou a largas passadas o hall de entrada do hotel e correu escadaria acima. Suas pernas longas pulavam alguns degraus em direção ao corredor longo e de tapeçaria bordô que se formava logo em seguida. Ele podia ouvir logo à frente as rodas do triciclo de Junmin que percorria mais uma vez aquela região do hotel. Ele não podia ser flagrado ali, não ainda.

Jaejoong se escondeu em um dos quartos quando o menino passou, sabendo que este parou em frente a porta do 1904 por alguns instantes antes de dar continuidade à sua brincadeira, se esgueirando para a ala oeste do hotel. Somente quando as rodas plásticas pareciam longe o suficiente, Jaejoong saiu do quarto, ainda calçando meias, caminhou a passos largos em direção ao seu destino.

Ele sentiu as meias escorregarem no chão quando parou em frente ao 1904, olhando à sua volta em busca de outras figuras como ele. A porta ainda continha sangue seco, e buracos na mesma indicando o que havia acontecido ali muitos anos antes, naquele mesmo corredor. Jaejoong encurvou o corpo e tentou espiar para dentro do quarto por uma das rachaduras na porta, vendo a maçaneta da mesma girar assim que ele se aproximou.

Jaejoong se endireitou enquanto a porta se abria lentamente, apenas uma fresta para que o outro rapaz pudesse fita-lo, com aquele costumeiro ar sério. Os olhos negros de Yoochun brilharam lascivamente quando fitaram o rosto angelical de Jaejoong à sua porta. O rapaz o fitou com nojo, deixando seus olhos recaírem sobre ele de cima a baixo e Jaejoong bem sabia quais eram seus motivos. Ainda assim ele estava ali, corajosamente à sua porta:

– Posso entrar? – Indagou Jaejoong.

– Não. – Afirmou Yoochun fazendo menção de fechar a porta.

– Espera! – Disse Jaejoong espalmando a mão contra a madeira e só então percebendo a estupidez que fizera. Junmin ouvira sua voz. – Droga, me deixa entrar!

– Vai pro inferno, Jaejoong.

– Aish, eu sei que quase matei o seu namoradinho, me desculpa, agora abre essa porta! – Disse Jaejoong empurrando o outro para dentro do quarto, se enfiando no mesmo. Quando ele conseguiu fechar a porta, ele sentiu as mãos firmes de Yoochun agarrarem os cabelos de sua nuca e o obrigarem a voltar-se para ele. – Por favor, me solta, eu só vim conversar.

– Conversar sobre o que? Hein, seu cretino! – Rosnou Micky o empurrando contra a porta.

– Aish, parece que acordou todo mundo mal-humorado hoje. – Reclamou Jaejoong, esfregando o couro cabeludo de sua nuca. – Desculpe, eu não ia machucar o seu namorado.

– Você ia trancar ele no frigorífico, como acha que ele ficaria bem lá dentro?

– Ele ia levar o menino embora e você sabe disso! – Acusou Jaejoong. – Seu namorado ia estragar tudo e ele acabaria morto de qualquer maneira.

– Não te dá o direito de se aproximar dele. Eu mandei você ficar longe, eu…

– Eu sei o que você mandou. – Disse Jaejoong sentando-se na cama do quarto. – Eu não vou mais chegar perto dele, de verdade, ele está seguro aqui. A grande questão é que eu sei como você se sente.

– Você… ah, vai pro diabo que te carregue! – Xingou Yoochun.

– É verdade. – Afirmou Jaejoong. – Eu não quero machucar o Yunho, e queria te perguntar como você fez?

– Não machucando. – Explicou Yoochun. – Eu simplesmente cuido dele enquanto posso, mas com você não dará certo.

– Por que não?

– Porque o Yunho tem uma raiva, latente, escondida, uma violência que ainda não se revelou. – Explicou Yoochun. – O Junsu nunca teve isso, nunca almejou nada acima de suas possibilidades, e nunca foi frustrado.

– Ele é fascinante não é? É tão bom ver o verdadeiro eu do Yunho, ver ele se revelando como um virgem que se desnuda pela primeira vez. – Disse Jaejoong fitando o espelho de corpo inteiro, sua imagem refletida preguiçosamente jogada sobre a cama.

– E o menino? E a esposa? Quando pretende se aproximar deles?

– Não pretendo. E é por isso que eu preciso da sua ajuda.

– Não. – Disse Yoochun cruzando os braços.

– Anda… é só colocar o menino na banheira, vai ser rápido, não vai doer nele.

– Não.

– Aish, como você espera que eu faça isso sozinho? – Indagou Jaejoong impaciente se levantando da cama.

– Do mesmo jeito que você fez com aquela senhora. – Explicou Yoochun se aproximando lascivamente do outro. – Um comprimido de cada vez, como os doces que você comia na estação central.

– Não seja bobo, ele é uma criança, eu não posso convencer ele…

– Mas pode convencer o pai dele. – Afirmou Yoochun.

– Não quero fazer isso. Quero… eu quero ele pra mim.

– O garoto?

– Não! O pai! – Ralhou Jaejoong. – Me ajude com o menino, para que eu possa…

– Eu não vou te ajudar. – Concluiu Yoochun. – Mas elas podem. Elas adoram crianças.

Jaejoong olhou para aquele rapaz demoradamente. Ele estava agora recostado à janela, olhando fixamente para o estacionamento, para onde acenara pela última vez para seu amado. Ele dera-lhe uma boa ideia, cruel, fria, mas perfeita. Jaejoong se levantou e parou ao lado dele, que o fitou demorada e friamente. Yoochun não o perdoaria por ter tentado machucar Junsu, mas Jaejoong o entendia. Também não se perdoaria se estivesse na mesma situação que ele.

– As vezes eu tenho pena de você. – Disse Jaejoong. – Um amor impossível, distante.

Yoochun desviou o olhar para ele, sem demonstrar sentimento algum diante de suas palavras, tampouco se dando ao trabalho de responder a ele. Jaejoong não significava nada para ele, a menos que tentasse machucar seu Junsu, era quando ele se tornava uma ameaça.

– Mas na maior parte do tempo eu sinto inveja. – Concluiu Jaejoong. – Porque ele te ama tanto…

– Sai daqui. Vai brincar de casinha com o seu homem e me deixa sozinho. – Disse Yoochun. – Os meus sentimentos pelo Junsu não são da sua conta.

– Eu volto, Yoochun. – Afirmou Jaejoong. – Eu volto.

Yoochun não voltou a respondê-lo, apenas manteve seu olhar perdido janela afora, um silêncio pesado, ao qual ele se apegava durante todo inverno. O silêncio que o confortava e afagava seus sentimentos de saudade e incerteza. Jaejoong saiu do quarto e fechou a porta, lentamente para não fazer barulho. Ele correu escadaria abaixo até finalmente adentrar o escritório onde Yunho trabalhava.

A porta estava aberta, e Yunho não vira movimentação no corredor que não fosse Junmin com seu triciclo. Jaejoong adentrou o local e viu Yunho sorrir discreto, antes mesmo dele se anunciar. O loiro fechou a porta e se esgueirou escritório adentro, sentando-se sobre a grande mesa na qual Yunho trabalhava. O barulho da máquina de escrever ainda ecoava e haviam duas folhas já escritas ao lado da mesma. Jaejoong fez menção de pega-las, mas Yunho deu-lhe um tapa sobre a mão.

– Ainda não. – Disse Yunho.

– Quanto mistério. – Riu-se Jaejoong voltando a pegar a prancheta do rapaz, onde ele havia deixado seus desenhos. – Vou ficar aqui hoje.

– Pode ficar, Jae-ah.

Jaejoong sorriu e acomodou-se no chão, encostado ao grande armário de Hyukjae e voltou para seus desenhos. Assim a manhã se passou, rápida, tranquila e bastante silenciosa. Eles só perceberam que havia chegado ao fim quando Hyemin bateu na porta, chamando Yunho para almoçar. Yunho se espreguiçou avisando que iria logo, e deixou as folhas prontas sobre a mesa. Ele se levantou e ajoelhou-se de frente para Jaejoong que agora coloria flor que desenhara mais cedo com um lápis vermelho que encontrara no grande armário.

– Quer que eu traga algo pra você comer?

– Não. – Disse Jaejoong erguendo o olhar e deixando seus pertences de lado. – Depois eu preparo algo para mim.

– Tem certeza? – Indagou Yunho, vendo o outro rapaz se aproximar e repousar as mãos em sua cintura.

– Estou sem fome agora. – Afirmou Jaejoong, deixando sua mãos envolverem o outro em um discreto abraço. – Você precisa ir, comer bastante e depois voltar para o seu trabalho.

– Eu preciso ir ligar alguns aquecedores agora e depois vou almoçar. – Explicou Yunho. – Eu não demoro.

Jaejoong sorriu e esticou o corpo para deixar um beijo na face de Yunho que ainda achava as demonstrações de carinho daquele rapaz demasiadamente exageradas. Ainda assim ele deixou um carinho nos cabelos finos do outro para então se levantar e sair dali, deixando Jaejoong novamente sozinho. Yunho ainda iria para algumas áreas do hotel antes de se unir à sua família, portanto se atrasou para o almoço.

Quando Yunho adentrou a cozinha, sabia que deveria seguir o conselho de seu amigo e como uma fera que espera dar o bote, ele esperou o momento certo. Hyemin comia sem pressa, com um guardanapo de pano sobre as pernas e vez ou outra dando instruções de boas maneiras a Junmin sentado ao seu lado. Yunho juntou-se a eles e começou a comer a comida brevemente insossa, em completo silêncio. O que foi quebrado por Junmin com sua dúvida infantil:

– Omma, ainda tem o doce que o appa fez para a sobremesa?

– Você não vai comer aquilo de novo, é doce demais! – Afirmou Hyemin.

– Qual o problema do menino comer o doce? – Indagou Yunho.

– O que você colocou naquilo? Tem mais açúcar do que…

– E você não comia doces quando era criança por acaso? – Indagou Yunho, finalmente desviando o olhar para Junmin. – Se você comer toda a verdura e a carne que está no seu prato, pode comer doce sim.

– Oba!!

– Não pode não! – Afirmou Hyemin. – Depois que ele fica com dor de barriga quem tem que cuidar dele sou eu!

– Mas quem compra os remédios sou eu. – Afirmou Yunho. – Então desce desse salto porque quem banca essa merda sou eu, e se eu disse que ele pode comer doce, ele pode.

– Não fala palavrão na frente do menino! – Reclamou Hyemin.

– Ele vai aprender esse tipo de coisa uma hora ou outra, mesmo com você colocando ele em uma redoma de vidro! – Afirmou Yunho.

– Junmin, vai para o seu quarto, eu quero conversar com o seu pai.

– Não! Deixe o menino almoçar, nós conversaremos depois.

– Junmin, vai agora…

– Não! – Disse Yunho em tom mais alto e autoritário. – Ele vai terminar de comer, e você também. Agora cala essa boca e come.

Hyemin o olhou estupefata, indignada, desejando gritar com aquele homem à sua frente. Yunho não pareceu alterado com sua indignação e começou a comer, sem pressa, vez ou outra fitando seu acuado filho comendo o que ele havia mandado. Hyemin terminou primeiro seu prato e em seguida Junmin, deixando Yunho sozinho à mesa. Ele terminou de comer sem pressa e depois de lavar seu próprio prato, pegou para si um copo de suco e para o menino uma pequena quantia do que sobrara do doce que Jaejoong havia feito.

Junmin então deixou a cozinha, enquanto Hyemin reorganizava as panelas, Yunho enxugava a louça que eles haviam usado naquele dia. Ela desviou o olhar para ele, acusadora, prepotente, o que causou nojo em Yunho. Ela colocou a última frigideira em seu apoio e se aproximou de seu marido, com ambas as mãos apoiadas em sua cintura fina. Yunho não fez questão de olhar para ela, nem mesmo quando ela começou a falar:

– Qual é a sua, hein? O que deu na sua cabeça para achar que você pode me desmoralizar na frente do meu próprio filho?

– É gostoso provar um pouquinho do seu próprio veneno, não é?

– Nem começa! Escuta aqui, quando eu digo não ao Junmin, quer dizer…

– Quer dizer que você está sendo aquela autoritária idiota que você normalmente é. – Interrompeu Yunho. – Não precisa me ensinar como você faz as coisas funcionarem por aqui.

– Exatamente, eu faço as coisas funcionarem e por isso está tudo bem. Agora se você parar de agir como um babaca nós poderemos continuar como sempre.

– Não, não poderemos. – Afirmou Yunho. – Porque eu estou cansado desse seu jeito prepotente e arrogante. Eu estou cansado de dizer sim para tudo o que você diz, mesmo quando parece um tremendo absurdo, mas acima de tudo, eu estou cansado de você, Hyemin. E é por isso que as coisas vão mudar entre nós. Vou deixar claro quando algo me desagradar, vou discordar de você e se pra isso eu tiver que brigar com você, eu vou fazer.

– Cansado de mim? – Disse Hyemin, rindo ironicamente. – Quem aguentava as suas bebedeiras toda noite? Quem ficou do seu lado quando você perdeu o emprego? Ah, Yunho, sem mim você não é nada!

– E você sem mim não tem onde morar. – Acusou Yunho. – Eu não pedi pra você ficar, você ficou porque quis, não devo a minha gratidão a você e nunca vou dever.

– Como você é cretino! Eu sabia que devia ter ido embora assim que a faculdade não te quis mais, você não presta, Yunho!

– E você é uma vagabunda desclassificada, mas não quero perder meu tempo te elogiando, eu tenho mais o que fazer. – Disse Yunho, deixando o pano de secar louças sobre a pia. – Chega de bancar o marido babaca, as coisas vão mudar por aqui, Hyemin e vão mudar pra pior. Agora melhora essa cara e vai arrumar o que fazer, porque eu não te banco pra você ficar sem fazer nada.

Hyemin inspirava e expirava pesadamente. Ela não sabia o que fazer, mas um lado dela estava assustado com aquela explosão de Yunho. Ele estava triunfante enquanto dava as costas para ela e voltava para a companhia de seu querido Jaejoong. E foi pensando nele que ele deu um último aviso à sua esposa. Ele parou à porta e girou em seus calcanhares, a fitando agarrar as barras da saia de seu vestido e apertar seu tecido, em um acesso mudo de raiva. Yunho a fitou de cima a baixo e disse:

– E eu espero quando eu voltar ao nosso quarto, você esteja me esperando nua na cama, porque hoje nós vamos fazer amor.

Hyemin arregalou os olhos e seu corpo esbarrou na pia com o pedido de seu marido. Ela estava em choque, e Yunho não esperaria por algum argumento que pudesse contrapor sua ordem. Ele sorriu divertido quando deu as costas a ela, há muito tempo ele não se sentia daquela maneira. Dono de seu próprio mundo. Ele caminhou a passos largos e quando entrou no escritório, Jaejoong havia tirado o tocador de discos do armário e o colocara sobre a mesa.

Yunho o viu colocar um disco qualquer e sua agulha sobre o mesmo, gerando o som que ele reconheceu de primeira: Ray Charles. Certamente jazz era o que ele adoraria ouvir aquela tarde, e Jaejoong viu a satisfação em suas feições. Jaejoong ouvira o rapaz no almoço, e amou o medo que se instalou em sua esposa, pois o medo é o começo da insanidade. Ele voltou-se para Yunho e correu em sua direção, o puxando pelos pulsos até que seus corpos se chocassem.

Yunho riu discreto e deixou o outro encaixar o rosto em seu pescoço, o envolvendo com os braços. E daquela vez aquele abraço não o irritou, nem a respiração fria do rapaz em seu pescoço, nem seus cabelos acariciando seu maxilar, ou o cheiro estranhamente mentolado e confortante de sua pele. Como pela manhã, Yunho apoiou ambas as mãos na cintura de Jaejoong, sem envolvê-lo, mas o pressionando ali, com firmeza.

Aquele era o abraço mais gostoso que Yunho recebera em anos. Aqueles braços firmes o envolvendo pelo pescoço, assim como o corpo magro e esguio roçando-se discretamente no seu, era delicioso. Ele sentia falta de tais contatos e sabia que aquele dia ainda prometia ser perfeito. E a noite, ele mataria suas vontades. Necessidades que ele conseguiu ignorar por muito tempo, e que Jaejoong havia despertado, com todo seu erotismo e sua lascívia venenosa. Yunho era grato à Jaejoong por abrir-lhe os olhos, por fazer renascer sua juventude mesmo que de forma conturbada.

Yunho apenas não entendia por que sua boca ainda salivava quando olhava a dele, ou porque sentia a ponta seus dedos formigarem quando o tocava. Jaejoong se afastou e recostou-se à mesa, deixando Yunho observa-lo enquanto sua mente traçava caminhos sombrios e assustadores. Ele sabia que desejava quebrar seu longo regime aquela noite, só não tinha certeza se o queria com sua esposa, ou com Jaejoong.

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