Capítulo 06: Breaking the rules

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O sol se pôs cedo naquele dia. Escondeu-se por trás dos picos gelados das montanhas e desapareceu, deixando o começo de noite frio. A neve se acumulou nas portas e janelas do hotel, embaçando os vidros e deixando o chão úmido e escorregadio. Yunho obrigou-se a sair do escritório e varrer a entrada do hotel, permitindo Junmin brincar do lado de fora enquanto ele o fazia. Junmin não brincava mais do lado de fora, pois temia os arbustos em forma de animal.

Ele era uma criança observadora, apesar de silencioso. Junmin sabia muito mais do que seus pais idealizavam, pois absorvia informações mais rápido do que eles imaginavam. Ele fora o único a perceber os animais de arbustos que nunca estavam na mesma posição, ou como eles nunca acumulavam neve em suas folhas. No entanto, apesar de ser demasiadamente sensível, haviam muitas coisas no hotel que Junmin não entendia.

Como o cheiro de perfume masculino envelhecido perto do quarto proibido por Junsu, ou as risadas femininas que ele ouvia quando acordava de madrugada. Ele se obrigava a convencer-se do que o cozinheiro havia dito, pois apesar de assustadoras elas não deveriam machuca-lo. E ele sabia que algo estava próximo ao seu pai, uma presença estranha e brevemente suspeita, como um ser aparentemente inocente, à espreita de um ataque.

Seu pai também havia se tornado alguém mais estranho e recluso ao final da primeira semana no hotel. Ele via sentimentos o envolvendo que, em sua mentalidade de criança, ele não podia entender. Antes na mente de seu pai, palavras como incompetente, inútil e álcool brilhavam como letreiros no ar. Em sua mãe brilhavam palavras mais assustadoras como divórcio e solidão. Mas desde aquela manhã Hyemin não parecia mais raivosa como antes, pelo contrário, parecia tão assustada quanto seu filho de cinco anos.

Seu pai já mudara há um tempo. O hotel parecia estar fazendo-o pensar em coisas que estavam antes escondidas, em coisas que nem Junmin nem Yunho conheciam. Yunho não pensava mais em palavras como inútil ou álcool, mas sim em raiva e um nome que seu filho até então desconhecia: Jaejoong. O nome que piscava em vermelho na mente de seu pai e até mesmo povoava seus sonhos. Junmin não sabia se Jaejoong era real, mas sabia que ele era a nova obsessão de seu pai.

Junmin estava deitado na neve, mas sua movimentação era limitada devido a grande quantidade de roupas que ele usava pra se proteger. Ele movia os braços e as pernas, olhando para o céu nublado de inverno, enquanto pensava naqueles assuntos. Ele sentia falta de seu pai. Yunho não brincava com ele, ou dirigia-lhe a palavra e Junmin tinha medo de falar-lhe algo que o ofendesse e o afastasse ainda mais. Junmin olhou para a soleira da porta e Yunho terminara a sua chata tarefa, e o procurava com o olhar.

Yunho o chamou com um sinal para que ele entrasse, e Junmin não tinha intenções de ficar ali sozinho. Ele correu para a porta e segurou a mão de seu pai, adentrando com ele seguramente no grande hotel. Os dois deixaram os sapatos na porta e caminharam em direção aos aposentos, enquanto Junmin observava o mais velho fixamente, buscando em seu pai algo que ele ainda não tivesse visto. E ainda assim ele não conseguia vê-lo e sua mente infantil jamais conseguiria compreendê-lo.

Hyemin saiu rapidamente da cozinha e agarrou o menino pela mão, o arrastando para seu banho antes do jantar. Junmin acenou para seu pai que o retribuiu discretamente, sendo finalmente afastados, sem a chance de interagir apropriadamente. Por fim, Yunho se dirigiu aos aposentos do cozinheiro. Ele deixou sua esposa entrar com seu filho no banheiro antes de abrir a porta do quarto, apenas por segurança. Daquela vez o cômodo estava mais organizado, por mais que a escrivaninha ainda estivesse bagunçada.

Jaejoong havia levado o tocador de discos para lá e ouvia uma música instrumental que Yunho desconhecia. O rapaz estava deitado na cama, com ambos os pés repousados sobre uma pilha de travesseiros e meias de lã rosa claro os protegendo do frio. Nas mãos de Jaejoong havia uma folha à qual o rapaz lia atentamente, enquanto todas as outras estavam repousadas soltas sobre seu estômago.

– Teimoso.

Acusou Yunho vendo Jaejoong abrir um sorriso maroto, ainda sem desviar o olhar a ele. O escritor retirou os travesseiros da beirada da cama, deixando o outro apoiar os pés em seu colo, enquanto ele terminava de ler o que Yunho escrevera durante a tarde. Era o verdadeiro começo para seu romance que aos poucos se montara em sua mente. Finalmente uma história interessante e que ele conseguia expressar com facilidade.

– Mais um personagem erótico. – Concluiu Jaejoong ao terminar a última folha.

– Por que diz isso? – Indagou Yunho.

“Seu olhar me desnudou pela primeira vez, deixando o constrangimento brincar com meu psicológico. Aquele olhar despudorado com o qual eu não conseguia me acostumar, que baixava minha guarda e me reduzia ao simplório estado de ser humano mortal. Mortalmente inebriado por seu olhar, seu tom de voz, seu cheiro, experimentando gota a gota de seu doloroso veneno. E ela, como uma ninfeta que pede para ser abusada, corre de mim, se esconde por trás do véu e mais uma vez me ilude, simulando sua nudez diante dos meus olhos famintos.”

Jaejoong leu aquilo em voz alta e Yunho estranhou ter algo escrito por si, lido tão deliciosamente pela voz calma do outro rapaz. Ele deixou suas mãos repousarem sobre a lã fofa que cobria-lhe os pés e desviou seu olhar para o teto, quando se permitiu pensar no assunto. Jae o observava sem pressa, perdendo-se nas feições másculas e pensativas do rapaz que se deixava levar pela atmosfera etérea que aquele quarto continha.

– Muitos personagens eróticos para um escritor que não faz sexo há dois anos. – Afirmou Jaejoong, voltando a cortar o silêncio. – Eu só não gostei de uma coisa.

– O que?

– Ela é mulher. – Disse Jaejoong.

– Claro, ela tem que ser mulher, Jae-ah!

– Poderia ser um homem. – Afirmou Jaejoong. – Aliás, deveria ser um homem.

– Por que?

– Porque deixaria tudo muito mais interessante, hyung. – Explicou Jaejoong. – Imagine que apaixonante um homem assim.

– Desculpe, Jae, mas não acho que a editora iria gostar de um enredo sobre dois homens.

– E você é obrigado a agradar a editora?

– Claro que sim, senão eles não me pagam. – Explicou Yunho. – Me deixe terminar esse e eu faço uma versão só pra você, com dois homens.

– Mesmo? – Disse Jaejoong sorrindo a ele. – Eu vou te cobrar, hein?

– Pode cobrar. – Disse Yunho entre risos, acariciando discretamente os pés de Jaejoong. – Hoje eu vou fazer amor com a minha esposa, você me convenceu.

– Eu te convenci? – Riu-se Jaejoong. – Hyung, as vezes você é tão bobo.

– O que? Não era essa a sua intenção?

– Eu não sei se eu realmente tinha uma intenção. – Explicou Jaejoong. – Só quero te ver sorrir de novo.

Antes que a situação ficasse constrangedora, a esposa de Yunho gritou da cozinha para que ele fosse jantar. Jaejoong pareceu obviamente decepcionado com a interrupção, mas não se manifestou verbalmente. Yunho ainda escorregava a ponta dos dedos pelos pés do outro, os fitando fixamente, esperando uma ação negativa diante daquela feição de desagrado. Ele não respondeu sua esposa, mas voltou-se para Jaejoong:

– Jae, eu vou jantar agora e provavelmente nós voltaremos a nos ver só pela manhã, então me responda uma coisa. – Jaejoong assentiu silencioso. – Como é ser gay?

– O que exatamente você quer saber, hyung? – Indagou Jaejoong sentando-se ainda com os pés apoiados sobre o colo do outro.

– O que você sente por outros homens? Como você se sente? Como é?

– Como eu me sinto? – Indagou Jaejoong. – Eu me sinto atraído. Tenho vontade de abraçar e beijar, dependendo do homem até dormir junto. Eu gosto de andar de mãos dadas, de sentir uma mão firme me tocando. Gosto de homens com mãos grandes, com braços grossos, altos como eu e que me dominem. Eu amo ser dominado, hyung. Também gosto de cheiro de homem, sabe?

– Perfume masculino?

– Não, hyung, cheiro de homem, o cheiro da pele do homem. É sempre um cheiro forte, marcante e que fica mais acentuado depois do sexo. Você não poderia saber porque nunca fez sexo com outro homem. Cheiro de homem fica na pele, no cabelo, na roupa e não tem sabonete que tire.

– O que mais, Jae? Do que mais você gosta?

– Eu gosto de olhar o corpo masculino, hyung, você já parou para olhar outro homem? – Indagou Jaejoong se aproximando do outro e sentando-se ao seu lado. – Os ombros largos, o pescoço firme, o tórax liso e forte, a barriga com alguns pelos embaixo do umbigo e depois, o sexo.

– Com quantos homens você já fez amor?

– Contando com você, três.

– Comigo? Nós nunca fizemos amor, Jaejoongie.

– Na minha imaginação nós já fizemos, várias e várias vezes. – Jaejoong terminou sua frase e voltou-se para o moreno, se acomodando sorrateiramente em seu colo. – Posso te contar um segredo?

– Mais um?

– Não, esse é o primeiro segredo que eu estou te contando.

– Acabou de me contar que se tocou pensando em mim, isso não é segredo?

– Eu não disse que me toquei, disse que nós fizemos amor, na minha imaginação. – Afirmou Jaejoong. – E isso não é segredo, é um desejo, carnal, mortal e frívolo.

– E qual é o seu segredo?

– Eu não quero que você faça amor com a sua esposa.

– Isso também é um desejo?

– Não. – Disse Jaejoong. – É quase uma necessidade. Eu queria poder mandar em você, te ameaçar, te obrigar a ficar aqui. Ela não merece você, não merece a sua atenção ou o seu corpo.

– Você parece tão rancoroso falando assim, quase ameaçador.

– Está com medo?

– Eu deveria?

– Não sei. – Jaejoong deu de ombros. – Espero que não dê certo, hoje a noite.

– Não fale assim, Jae-ah. – Pediu Yunho, segurando a mão do outro rapaz. – Essa é a maneira certa de fazer as coisas.

– É certo pra você, seu moralista! – Acusou Jaejoong, obviamente emburrado.

– Está querendo algo a mais comigo. – Acusou Yunho, vendo o outro sair de seu colo e se deitar novamente na cama.

– Não fique se gabando. – Afirmou Jaejoong, dando as costas ao outro e se ajeitando para se deitar novamente na cama. – E eu espero que você broxe e que ela durma antes de você gozar.

– Você sabe que eu não sou gay, não sabe?

– Eu vou dormir agora, hyung. – Disse Jaejoong deitando-se sobre sua barriga e agarrando os travesseiros com os braços, deixando seu rosto afundar-se entre eles.

– Quer que eu te traga algo para comer mais tarde?

– Antes ou depois de foder ela?

Yunho revirou os olhos e deixou alguns tapinhas nas nádegas do rapaz antes de se levantar dali. Jaejoong estava agora virado de lado com os braços cruzados ainda com aquele seu ar emburrado um tanto infantil. Yunho tentou ignorar, mas ele bem sabia que Jaejoong estava enciumado e o estava demonstrando à sua maneira. O moreno parou à porta e fitou o rapaz demoradamente, anotando mentalmente o quanto o achava bonito.

– Eu volto mais tarde.

A afirmação de Yunho teve como resposta apenas um movimento discreto de ombros. Ele então recostou a porta e o abandonou com seu ciúme, uma vez que não havia nada que ele pudesse fazer, ao menos nada que viesse de imediato em sua mente. Yunho então o deixou e seguiu para a cozinha, onde um prato de comida o esperava, com garfo e faca apropriadamente posicionados lado a lado na mesa. Sua esposa não estava mais ali e ele sequer imaginava o que se passava em sua mente.

Yunho sentou-se e comeu sem pressa, vendo a noite avançar aos poucos, escurecendo o solitário hotel. O único barulho que ele ouvia eram de seus talheres batendo contra o prato posicionado à sua frente, enquanto aos poucos ele começava a se sentir ansioso, estranhamente por querer as desculpas de Jaejoong. Yunho ainda lavou a louça e em seguida seguiu para seus aposentos, sem pressa, sem demonstrar sua ansiedade.

Ele obrigou-se a parar em frente a porta de Jaejoong e cogitou adentrar o local e abandonar aquela ideia idiota de tentar deixar de ser abstêmio aquela noite. Ele estava sendo influenciado pelo rapaz, não por ser fraco, mas por não ter certeza de seus objetivos e muito menos de suas vontades. Yunho tocou a porta com a palma da mão e então deu as costas para a mesma, voltando-se para seu devido lugar, como um pedido de desculpas por sua imensa covardia.

Os cômodos estavam escuros e para se guiar ele acendeu a luz de entrada, percebendo que não havia ninguém na sala. Ele os atravessou e espiou para dentro do quarto de seu filho, o vendo já adormecido agarrado ao seu urso de pelúcia. Foi quando ele percebeu a única luz do local, que vinha de seu quarto, do discreto abajur ao lado da cama. Yunho se aproximou do quarto e não demorou a encontrar sua esposa em meio à luz fraca.

Ela estava sentada de costas, trajando um penhoar de seda cobrindo seu corpo magro e esguio. Por baixo ela usava uma camisola rosa claro, da mesma cor do penhoar, e também de seda. Seus cabelos longos estavam soltos e caiam como ondas por suas costas retas que, como sempre, davam a ela um ar pomposo. Yunho contornou a cama, vendo-a erguer o olhar, endurecido, como se o repelisse sem palavras.

– Você quer mesmo fazer isso? – Indagou Hyemin com a voz mais fina do que o habitual, como se tentasse disfarçar sua histeria interna.

– Levanta.

A ordem de Yunho veio com a voz rouca e maliciosa. Sua esposa ainda suspirou pesadamente antes de se levantar e jogar os cabelos para trás em um gesto de impaciência. Yunho se aproximou, a passos lentos, enquanto ela ainda o encarava com ares de estupefação. Ele puxou o nó que prendia seu penhoar até solta-lo e revelar a camisola de alças por baixo do mesmo. A ponta dos dedos de Yunho tocaram o colo de sua esposa e se guiaram para seus ombros, retirando o tecido que os cobria.

Hyemin estava apavorada, por mais que não demonstrasse. Dois anos sem qualquer interesse e repentinamente em uma noite ela se via obrigada a satisfazer os desejos de seu marido. Yunho se aproximou para beijar-lhe os lábios e os recostou ao dela, um beijo tenro, calmo a princípio. No entanto, Hyemin não o retribuiu. Ele forçou sua língua e ela deu a ele o espaço que desejava, porém não retribuiu o beijo.

Yunho a envolveu pela cintura, com firmeza, na tentativa de demonstrar que ele estava no controle daquela situação. Hyemin por sua vez não parecia relutante, tampouco parecia disposta a corresponder àquelas carícias. Yunho a guiou delicadamente para que se deitasse na cama e ela assim o fez, em silêncio e como sempre, fria. Ela o deixou acomodar-se sobre si e seus lábios atacaram o pescoço dela com destreza.

Era a primeira vez em anos que ele provava o sabor da pele de sua esposa e aquilo não parecia de forma alguma diferente do que era antes, tampouco mais excitante do que ele se lembrava. Yunho ainda insistiu, deixando seus dedos aos poucos se aventurarem nas carnes macias da pele de sua esposa, sentindo-se quase tão despudorado quanto seu querido e ciumento Jaejoong. Os lábios de Yunho percorreram sua pele, até seu decote, finalmente tocando seus seios com a mesma firmeza.

Ainda sem nenhuma reação da parte dela, sequer um ofego ou um arrepio. Ele ainda insistiu, erguendo a barra de sua camisola e revelando a calcinha de renda branca por baixo do tecido fino, tudo visualmente muito bonito. Yunho ainda a achava bela como da primeira vez que a vira. Ele se afastou e a fitou demoradamente, seu corpo agora prestes a ser desnudado tinha a pele alva se revelando a ele. Mas faltava algo crucial naquele momento, ela.

Hyemin mantinha aquele olhar endurecido, como uma fera que acabava de ser subjugada, mas não abandonava seu orgulho bestial. Ela não o corresponderia naquela noite, como nunca o correspondera em todos seus anos de casados. Nem mesmo quando o amava e quando tinha seu amor correspondido por aquele que agora a fitava, a analisava, como se finalmente lesse nas entrelinhas o que acontecia ali.

Yunho fez um último teste, uma última tentativa de homem rejeitado e a segurou pelo pulso, posicionando sua mão em seu tórax. Ele buscava um toque, precisava de um, os dois sabiam disso. No entanto, Hyemin não daria a ele aquele gostinho, não aquele fracassado que se deitava na cama aquela fatídica noite. Ela puxou a mão e a afastou, virando o rosto para fitar qualquer lugar, menos seu marido.

– Vadia.

Yunho deixou seu corpo recair ao lado dela, fitando o teto do quarto demoradamente. Ele poderia dar continuidade se quisesse, ele sabia que poderia desnuda-la e domina-la ao seu bel prazer se assim desejasse. No entanto, não era assim que ele desejava que as coisas acontecessem, afinal se quisesse uma boneca inflável, ele teria comprado uma e não se casado com ela.

Hyemin estranhou sua atitude, ele permaneceu olhando para o teto e não fez mais menção de toca-la. Yunho sequer olhava para ela, afinal, sabia que se a fitasse, irritar-se-ia com sua atitude ou com a falta dela. No entanto, curiosa e prepotente, Hyemin cortou o silêncio mais uma vez, indagando a ele uma justificativa para seus atos. Ela queria saber o que se passava em sua mente, por pura curiosidade, sem a intenção de tomar iniciativa de mudança:

– No que está pensando? O que você quer, Yunho?

“Eu quero o Jaejoong”. – Pensou Yunho em segredo. Ele o queria, pois certamente seria abraçado pelo outro rapaz. No entanto, se respondesse a verdade não seria somente acusado de adultério, mas também de insanidade. Então ele disse simplista:

– Eu quero um tempo.

– Um tempo? – Indagou Hyemin, irônica. – E como você pretende fazer isso? Congelando lá fora? Devia ter pedido isso antes de nos trancar aqui, seu babaca!

Yunho se levantou, lentamente como se algo doesse e o segurasse entre os lençóis. Ele contornou a cama, sem pressa e abriu o guarda-roupa, pegando algumas peças dali e as empilhando em seu braço.

– E não se esqueça, Jung Yunho, que você é pai! Não pode pedir um tempo da paternidade, porque…

– Eu não quero um tempo de ser pai, quero um tempo de você. – Explicou Yunho, voltando-se para sua esposa e a fitando com a mesma frieza que ela usava com ele. – E vou começar indo dormir no quarto do cozinheiro, ou em qualquer um dos trezentos quartos que esse lugar tem. Com você eu não durmo mais.

– Ah é? Pois então pode começar a lavar a sua roupa e fazer a sua comida, senhor independente!

– Acho que você ainda não entendeu quem manda aqui, não é? – Indagou Yunho encrespando os lábios. – Eu estou pagando com o meu trabalho por toda a comida que está na despensa, assim como tudo o que você dispõe nesse hotel. Se eu tiver que cozinhar a minha refeição e lavar as minhas roupas, serei obrigado a esconder as chaves da cozinha e da lavanderia e infelizmente, você vai começar a passar fome. Você vai continuar cozinhando, lavando, passando e limpando, em troca de comida, ou eu deixo você morrer de fome.

– Você não pode! Nosso filho… – Disse Hyemin, sem convicção e com aquele mesmo ar de histeria velada.

– O Junmin vai continuar tendo tudo o que ele precisa pra ser essa criança saudável e mimada que você criou. – Interrompeu Yunho. – Ele não vai passar fome, você vai.

– Você não faria isso, você não teria…

– Não?? Quer tirar a prova? Experimenta…

– Cretino!

– Boa noite, vagabunda!

Yunho então deu as costas para ela e ainda ouviu o baque do relógio quebrando contra a porta quando saiu do local. Junmin acordou assustado, mas teve medo de perguntar ao seu pai o que havia acontecido. Ele o viu sair dali, e só então se levantou, arrastando consigo o grande urso de pelúcia. Ele correu desajeitado até o quarto de seus pais, onde sobre a cama, sua mãe chorava. Junmin não entendia o que acontecia, mas desejava com força que Junsu estivesse ali para explicar a ele as coisas, sem saber que só de pensar no cozinheiro, despertava a ira do rapaz do andar de cima.

Junmin entrou no quarto, silencioso. Ele sentou-se na beirada da cama e acariciou os cabelos de sua mãe com seus dedinhos pequenos. Ela o abraçou e o deitou em seus braços, onde ele calmamente se encaixou. Quando o silêncio recaiu novamente sobre o quarto e sua mãe adormeceu, ele ouviu, ecoando pelos corredores risadas altas, quase histéricas de um homem que certamente não era seu pai. Seja qual fosse o motivo das lágrimas de sua mãe, aquele homem estava feliz por isso.

Yunho atravessou o corredor e calmamente adentrou o quarto onde Jaejoong estava acomodado. Ele ainda estava na mesma posição, deitado de lado, com o rosto voltado para a parede e os olhos recaídos sobre o local fixamente. No entanto, seus braços não estavam mais e sim envoltos em sua própria cintura, simulando um abraço. Yunho sentia-se novamente um fracassado, e apenas desejava dormir, esquecendo-se de suas convicções tão fortes naquele dia mais cedo.

– Terminou rápido. – Provocou Jaejoong.

– Obrigado pela consideração. – Disse Yunho, sentando-se na cadeira próxima a escrivaninha e deixando seus pertences em seu colo. – Quero ficar aqui.

– Deita aí no chão.

– Jae-ah… – Reclamou Yunho, finalmente se levantando e deixando suas roupas sobre a cadeira. Ele se sentou na beirada da cama do outro e deixou sua mão repousar na cintura do outro.

– O que houve? Você broxou mesmo? – Indagou Jaejoong voltando-se ao moreno. – Sabe que eu não falei sério, não sabe?

– Sei, claro que eu sei. – Disse Yunho, sentindo a mão de Jae repousar sobre a sua. – Eu apenas não sei o que eu estava esperando, só sei que foi exatamente igual anos atrás e não é isso que eu quero pra mim. Eu não sei o que eu quero, mas sei o que eu não quero.

– E o que você não quer?

– Dormir com ela. – Disse Yunho, sentindo a mão de Jaejoong acariciar a sua. – Agora deixe de ser ciumento e me abra um espaço na cama.

– Vai dormir comigo? – Indagou Jaejoong voltando-se para ele e abrindo um largo sorriso.

– Depois de eu tomar um banho e trocar de roupas, eu vou sim. – Disse Yunho, vendo Jaejoong sentar-se na cama e em seguida erguer-se de pé sobre a mesma.

– Então vamos logo!

– Jaejoong, eu realmente não estou com humor pra isso.

– O que? – Indagou Jaejoong pulando sobre a cama e o puxando pela mão.

– Você não vai entrar naquele banheiro comigo. – Afirmou Yunho. – Eu vou tomar banho sozinho.

– Por que não? – Indagou Jaejoong, parando de pular imediatamente.

– Porque eu não quero você me olhando tomar banho. – Explicou Yunho. – Seja bonzinho e me espere aqui mesmo.

– Você vai se tocar, não vai? – Questionou Jae, voltando a se sentar sobre a cama.

– Não estou com cabeça para isso, Jae-ah.

– Então me deixa entrar. – Insistiu Jaejoong.

– Outro dia eu deixo, não hoje.

– Promete?

– Prometo.

– Outro dia quando?

Yunho sorriu com sua pergunta e deixou uma carícia discreta na nuca do outro rapaz antes de se levantar e deixa-lo ali, sentado sobre seus calcanhares. Jaejoong o acompanhou com o olhar, deixando-se levar pelo movimentos do outro rapaz. Yunho ainda sorriu para ele antes de entrar no banheiro, sem saber o quão provocativo ele era. E assim que o outro adentrou o banheiro, Jaejoong riu de felicidade.

Ele riu do rapaz ter voltado, insatisfeito e disposto a ceder brevemente aos seus encantos. Riu da estupidez de Hyemin que não via o homem maravilhoso que estava rejeitando, dos sentimentos negativos dela que ao seu modo empurravam Yunho em sua direção. E lá estava ele, trancado timidamente no banheiro, retirando do corpo o cansaço e as impurezas, na tentativa de se aproximar da pele casta de Jaejoong.

Yunho deixou suas roupas no chão e adentrou o chuveiro, o regulando para que a água ficasse morna. Ele decidiu que não demoraria ali, pois não queria testar a paciência de Jaejoong, ou dar-lhe motivos para entrar ali. Não que ele tivesse se esquecido de trancar a porta, mas não confiava em suas trancas quando estava ao lado daquele rapaz. Yunho terminou seu banho e vestiu-se de um pijama confortável para finalmente voltar ao quarto.

Quando ele adentrou o cômodo, suas coisas não estavam mais na cadeira e sim em uma das prateleiras do armário. Jaejoong cantarolava baixinho, alisando as cobertas repetitivamente em pé ao lado da cama. Ele havia arrumado novamente, e desta vez a cama estava impecável. Jaejoong agora trajava somente sua costumeira regata branca e sua cueca azul marinho que contrastava com sua pele. Assim que ouviu a porta se fechar o loiro se voltou ao outro e sorriu, juntando ambas as mãos em frente ao peito:

– Que banho rápido, hyung, lavou tudo direitinho?

– Isso é pergunta que se faça?? – Reclamou Yunho. – Você tem mesmo que dormir assim sem roupas?

– Eu não estou sem roupas. – Afirmou Jaejoong baixando o rosto e se olhando. – Pare de reclamar, hyung, você está muito ranzinza.

– Eu tenho os meus motivos. – Disse Yunho se aproximando da cama. – Então quer que eu durma com os pés para a parede?

– Aish, hyung, as vezes eu não sei se você é bobo ou finge que é! – Reclamou Jaejoong retirando os cobertores com veemência e se acomodando contra a parede, para finalmente apontar para o travesseiro. – Agora você deita com a cabeça aqui, do meu lado!

– Jaejoong, essa é uma cama de solteiro, é melhor…

– É melhor você deitar logo antes que eu desista e você tenha que dormir com o fantasma da suíte presidencial, ou com o leão lá fora!

– Lá vem você com essa história de leão! – Reclamou Yunho, deitando-se um tanto incomodado ao lado do rapaz.

Logo que se cobriu, Jaejoong o puxou para que ele colasse seu corpo ao seu e não demorou para o loiro dobrar o joelho e deitar sua perna sobre o corpo do escritor. Yunho ficou nervoso com a posição, uma vez que sentia o volume entre as pernas do outro roçar contra suas coxas. O moreno se remexeu incomodado, demorando-se a encontrar uma posição confortável, enquanto ainda era possessivamente observado por Jaejoong.

– Não estou gostando disso. – Reclamou Yunho.

– Está com medo? Eu não vou fazer nada.

– Não é isso, só estou desconfortável. – Explicou Yunho. – Não estou acostumado com outro homem me abraçando desse jeito.

– E por que não me abraça de volta?

– Jaejoong, acho que você não está me entendendo.

– Não estou mesmo. Onde já se viu um homem da sua idade agindo como um menino de quinze anos só porque eu estou te abraçando. – Reclamou Jaejoong. – Aja como macho, me abraça também!

– Isso não é agir como macho, é agir como viado e não é o meu caso. – Explicou Yunho virando-se de frente para o outro, mas se afastando ao perceber que na nova posição o volume entre as pernas de Jaejoong se aproximara de sua virilha. – Aish!

– Pare de ser bobo, hyung! – Reclamou Jaejoong afundando o rosto contra o peito do outro. – Relaxa…

– Como? Se tem um pau roçando em mim?

– Ah então é isso! – Disse Jaejoong entre risos, voltando a fitar o mais velho. – Hyung, olha pra mim.

Yunho desviou o olhar ao rapaz que o fitava compreensivo, repentinamente parecendo mais experiente, apesar de mais jovem.

– Eu sou homem e você sabe que eu tenho o mesmo que você entre as pernas, então por que essa confusão toda? – Continuou Jaejoong. – Fica tranquilo, estamos apenas nós dois aqui.

– E pra piorar você tá só de cueca. – Voltou a reclamar Yunho. – Não, isso não tá certo, eu sou pai de família…

– Sabe quantos pais de família iam me assistir toda noite? – Indagou Jaejoong voltando a esconder o rosto contra o rapaz. – Vários. E eles não eram assim tão diferentes de você. Todos frustrados, amargurados, com uma mulher megera esperando em casa. Não precisa se sentir mal por estar aqui comigo, seria pior estar sozinho.

– Você não vai me convencer de que eu estou fazendo algo certo.

– Não preciso te convencer de nada, hyung, mas eu queria que você relaxasse comigo. – Afirmou Jaejoong sentando-se na cama. – Vamos trocar de posição.

– Como você quer deitar?

– Quero que você deite aqui e eu vou deitar em cima de você. – Explicou Jaejoong. – Mas saiba que você vai continuar sentindo o meu pau porque eu não posso tirar ele pra dormir.

Yunho riu do comentário alheio e se ajeitou mais ao centro da cama para deixar que o rapaz deitasse sobre ele. O corpo de Jaejoong pesou sobre o seu, e enquanto suas mãos repousavam sobre seu tórax, a cabeça do rapaz encaixou-se em seu ombro. Yunho sentiu a respiração quente do outro contra seu pescoço e seus cabelos fizeram cócegas em seu maxilar, uma sensação deliciosa.

A mão de Jaejoong escorregou para baixo das cobertas e encontrou a de Yunho, repousando sobre esta. O loiro deixou a ponta de seus dedos escorregarem sobre a palma da mão do outro e seus dedos se encaixaram, se entrelaçando aos dele. Yunho correspondeu o carinho e apesar de ainda não ter coragem de olhar para Jaejoong, estava de mãos dadas com ele. Aquele então era o momento de ousar um pouquinho.

Por baixo das cobertas a mão livre de Yunho se moveu e encontrou a pele de Jaejoong, sentindo suas costas bem definidas e delineadas. Sua mão escorregou até a cintura do outro e então seu braço o envolveu, com firmeza, o segurando para que seu corpo não escorregasse para nenhum dos lados. Jae sorriu, de canto, não sendo visto pelo incomodado Yunho que aos poucos começava a encontrar algum conforto naquele abraço nada sutil. Jaejoong não quebrou o silêncio e se deixou estar até que o outro rapaz aparentou estar mais calmo.

O rosto de Yunho relaxou e recostou-se ao topo da cabeça de Jaejoong, sentindo o cheiro de seus cabelos em suas narinas, um aroma sutil e reconfortante, como o cheiro doce de uma xícara fumegante de chá de camomila. Yunho entrou em um estado de torpor que há muito não sentia, uma sensação de relaxamento estranha, como se algo o tivesse inebriado. Nem mesmo álcool o deixava daquela maneira, era algo que ele ainda não havia experimentado.

– Ainda está desconfortável, hyung?

– Não, estou bem. – Respondeu Yunho, percebendo então que as luzes se apagaram sozinhas e por alguns instantes ele permaneceu em completa penumbra. A única coisa que o lembrava de que ainda estava acordado, vivo, era o peso de Jaejoong sobre seu corpo, seu aroma inebriante. – Acho que estou cansado.

– Deve estar. – Explicou Jaejoong. – Quer me contar o que aconteceu entre você e a Hyemin?

– Nada, não aconteceu nada. – Disse Yunho, deixando um carinho discreto na cintura do loiro. – Eu poderia ter feito amor com ela, se eu quisesse, ela não iria tentar me impedir.

– E por que você não quis?

– Porque seria humilhante fazer amor com alguém que me despreza, Jae, que tem nojo de mim. – Explicou Yunho, sentindo o outro se encolher em seus braços. – Eu não tenho nojo dela, Jae, tenho ódio, desprezo, mas ela tem nojo de mim.

– Ela não merece você. – Afirmou Jaejoong. – Não merece o que a vida deu a ela.

– E o que eu mereço, Jaejoong? Depois de me tornar tão covarde?

– Merece um beijo.

Yunho virou mais o rosto e deixou um beijo discreto na testa de Jaejoong, entre seus cabelos finos que por ali estavam espalhados. O sorriso perolado de Jaejoong iluminou-se com a ação do outro ele ergueu o rosto, deixando um beijo estalado na divisa sensível entre os lábios e o rosto de Yunho. Foi a provocação perfeita para que despertasse no moreno o desejo de prova-lo, desejo é claro, que ele esconderia em seu coração a todo custo.

– Oops! – Disse Jaejoong com seu típico ar brincalhão. – Errei.

Jaejoong ergueu mais o rosto e o encaixou próximo ao de Yunho e acomodou seus lábios aos do outro. O escritor suspirou e algo em seu interior gritava relutante, como um monstro que o prendia e o afastava daquele rapaz. Por outro lado Jaejoong era inebriante, um alucinógeno e ainda assim tão humano quanto ele. Os lábios do loiro o pressionaram e finalmente, Yunho o respondeu.

Eram apenas roçares, estalados, úmidos, tão íntimos quanto aquela posição em que eles se encontravam. Era bom finalmente ter intimidade com alguém, alguém que não se enojava com seus beijos e pelo contrário, os desejava. Não era de longe um beijo erótico, necessitado, abusado, mas havia beleza na simplicidade daqueles toques e naquela cumplicidade crescente entre aqueles dois homens.

Agora havia algo recíproco entre eles, que deixava sua relação ainda mais perigosa. Agora Jaejoong não era apenas seu segredo, agora ele escondia um segredo seu e isso, a sua maneira, mudava as coisas. Yunho cortou o beijo, e fitou o olhar penetrante do outro que estranhamente brilhava em meio a escuridão. E ele era lindo, o homem mais lindo que Yunho já conhecera ou iria conhecer.

Jaejoong voltou a se acomodar sobre ele, triunfante, quase eufórico. Ele sabia que a complexidade sentimental de Yunho não o permitiriam aproveitar aquele momento apropriadamente, mas ainda assim, a sensação de pertencimento o tomou e ele satisfez-se. O rapaz voltou a segurar sua mão e agarra-lo pela cintura, na posição mais confortável que os dois conheciam.

Yunho demorou a dormir, fitando o teto do local enquanto sentia a respiração úmida de Jaejoong contra seu pescoço e seus lábios ainda formigarem com aquele delicioso beijo. Ele não podia admitir, mas queria mais e amaria beija-lo novamente. E aquele torpor do qual ele não queria se livrar, como um bom alcoólatra que não quer se livrar jamais de sua embriaguez. Jaejoong era seu novo vício, e o veneno que aqueles lábios derramaram naquela noite faria efeito aos poucos.

E de alguma forma ele sabia que aquele beijo nocivo o mataria. Afinal, não existe nada mais parecido com o amor, do que a morte.

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