Capítulo 02 – Smile

mathematics

Na terceira semana de aula, Kyuhyun ainda não tinha arrancado outro sorriso discreto de seu querido professor. Ele continuava esforçado, fazia tudo perfeitamente, com uma letra legível e sem nenhum erro. Ele era bom naquilo e sabia que o professor Siwon já percebera seu talento. O que Kyu não entendia, era como ele poderia sequer dirigir-lhe o olhar quando dava suas aulas. Kyu queria sua atenção, mas aparentemente ninguém a tinha apropriadamente.

Seus colegas mais bagunceiros eram constantemente humilhados pelos comentários ácidos do professor, as meninas que se aproximavam eram ignoradas sem nenhuma reserva e Kyu não arrancava-lhe nem ao menos  um olhar. Cansado de ser completamente ignorado, a mente esperta de Kyu começou a procurar soluções ou formas de chamar sua atenção, uma vez que, aparentemente, sua aptidão para a matemática por si só, não era o suficiente.

Kyu cogitou usar um perfume como o dele, mas ele não tinha uma colônia sequer em seu armário e seu pai tinha apenas uma que ele jamais seria permitido usar.  Ele poderia tentar dar ao docente mais um presente, mas já conseguia ouvir seu professor ralhando com ele por conta de sua pretensão. Poderia tentar o tratamento de rebeldia, mas temia chorar diante de um comentário mais ácido e insensível.

Foi quando ele concluiu que era apenas um aluno em meio a vários e que Siwon não teria motivos para trocar olhares com ele, muito menos sorrir-lhe. Ele era comum, não havia nada em que ele se sobressaísse aos olhos do frio professor Siwon. Aquilo o desanimou aquela semana, e seu estado de espírito e metade de uma torta de maçã fizeram muitas espinhas aparecerem em seu rosto.

Siwon reparava nele, sem que ele notasse e o percebeu mais retraído naquela sexta-feira. Ao contrário do menino que antes observava cada uma de suas ações, agora Kyu olhava fixamente para seu caderno, escrevendo sem parar. Siwon imaginava que suas reações eram por conta de seus colegas que agora riam dele por conta de suas espinhas. Ele os vira gritar com o rapaz na hora do intervalo, e por mais irritado que estivesse não sairia correndo como um louco da sala dos professores gritando com eles.

Era o final da aula e Siwon havia passado uma pequena lista de exercícios para que eles treinassem suas habilidades. Já na primeira semana ele percebeu que não adiantava tentar segurar a atenção deles até o último segundo da aula, e portanto ele planejou novamente suas matérias usando os exercícios simples que o livro dispunha. Siwon não gostava daqueles exercícios, por serem demasiadamente simplificados.

Sua opinião sobre os exercícios se reafirmava com o menino sentado a mesa de frente para a sua. Alguns outros alunos também já haviam concluído e agora conversavam com seus colegas ou guardavam seus materiais. Enquanto isso, Kyuhyun rabiscava números em seu livro, que Siwon não conseguia visualizar. O professor se levantou, pois faltavam apenas alguns minutos antes do fim da aula e tratou de verificar a tarefa.

Ele passeou entre as fileiras anotando os nomes de quem havia terminado os exercícios, fazendo questão de deixar Kyu por último. Ele sabia que o menino era paciente e que não guardaria seu livro até que o sinal batesse. Quando se aproximou dele, percebeu que Kyu arriscava equações mais avançadas as quais ele ainda não havia explanado. Siwon sorriu por trás de seu aluno, pois por mais que sua lógica estivesse correta, haviam fórmulas que facilitavam seus cálculos.

Kyuhyun estava debruçado sobre seu livro e se sobressaltou ao sentir a mão quente e firme repousar sutil sobre seu ombro. Siwon se encurvou sobre ele, deixando que seu delicioso cheiro cítrico invadisse as narinas do menino que o fitava com ar fascinado. Os olhos do mais velho percorriam por sua letra pouco legível, uma vez que o rapaz não tinha intenção de mostrar aquelas contas a ninguém.

– Eu não pedi isso ainda. – Afirmou Siwon. – Onde estão os que eu pedi?

– Aqui. – Disse Kyuhyun um tanto receoso, folheando as páginas até chegar a indicada pelo professor.

– Muito bem. – Elogiou Siwon. – E aquilo que você estava fazendo, eu não expliquei ainda.

– Eu sei. – Disse Kyuhyun sem jeito. – Eu fiquei entediado.

– Achou a minha aula entediante? Que pena.

– Não não!! – Falou Kyuhyun em voz alta, com ar sobressaltado. – Só no final, eu fiquei sem o que fazer.

– Tudo bem então. – Disse Siwon com ar brincalhão. – Eu quero te pedir um favor.

– O que? – Disse Kyuhyun, com seu olhar se iluminando diante de uma nova tarefa.

– Você pode ir na sala dos professores e pegar um livro do meu armário para mim? – Siwon colocou a mão no bolso do jaleco branco que agora ele usava, com seu nome bordado no bolso. – Esta é a chave, o armário é número 06.

– E que livro é? – Disse Kyu se pondo imediatamente em pé.

– Vai ter uma pilha na primeira prateleira, é o primeiro livro. O nome é Equações Diferenciadas. – Siwon se levantou e escreveu um pequeno bilhete, e o entregou a Kyuhyun. – Aqui uma autorização, caso alguém implique com você.

– Está bem. – Disse Kyuhyun pegado o papel, visivelmente animado.

– Não demore.

Siwon voltou a se sentar, mas viu de relance quando o menino sorriu ao sair da sala. Kyuhyun correu até a sala dos professores, encontrando lá apenas o professor de educação física guardando alguns materiais. O menino fez questão de avisar o professor o que Siwon o havia pedido, e o professor concordou de imediato, para então deixa-lo sozinho. Kyuhyun abriu o armário 06 e o fitou um tanto ansioso.

Kyu se sentia como se tivesse entrando no quarto dele, pois se sentia mais íntimo por vê-lo com tanta exclusividade. Como ele havia descrito, na primeira prateleira havia uma pilha de livros, na segunda uma pilha de papéis , na terceira dois jalecos brancos, perfeitamente dobrados e empilhados, e na última algumas roupas mais casuais do professor, também perfeitamente arrumadas. Kyuhyun pegou o livro que o professor pediu e checou o título, para por fim se voltar para fechar o armário.

Foi quando ele reparou na porta, com duas fotos penduradas por pedaços pequenos de fita adesiva. A primeira era a foto de um casal de meia idade, um ao lado do outro de mãos dadas em um lugar cheio de bancos de madeira, janelas no estilo gótico e um tablado ao fundo. Deveria ser uma igreja, mas Kyu não tinha certeza. Siwon não estava na foto, portanto aquelas pessoas deveriam ser significativas para ele, talvez seus pais ou avós.

A segunda foto era mais recente e estava mais lustrosa. Era um dia ensolarado e o céu extremamente azul encobria as bordas da foto, terminando no mar límpido com ondas altas e brancas. Finalmente, Siwon sorria para a câmera, com sua mão repousada sobre o ombro de um rapaz com um belo sorriso. Este, por sua vez, tinha sua cintura enlaçada por um terceiro rapaz, todos os três sem camisa.

O rapaz do meio, de cabelos castanhos e molhados tinha seu rosto beijado pelo terceiro, com seus lábios finos, enquanto seu professor apenas o abraçava pelos ombros e sorria divertidamente para a foto. Kyu olhou em volta e se viu ainda sozinho na sala dos professores, por isso decidiu fazer algo que não devia. Sem retirar a foto de seu apoio, Kyu a ergueu, em busca de informações e atrás encontrou uma discreta dedicatória:

“Para o Wonie, as melhores férias do mundo. De Hyukie e Hae-yah”

Kyu soltou a fotografia e trancou o armário antes que fosse flagrado ali. A imagem da foto ficou impregnada em sua mente e ele a visualizava repetidamente em seu imaginário. O corpo de Siwon era escultural. Kyu jamais imaginaria que por baixo daquelas roupas sociais que o cobria por completo, tivesse algo tão bem definido. E os rapazes ao seu lado não ficavam para trás de forma alguma, um grupo de homens bonitos.

Aquilo então incomodou Kyuhyun. Certamente os três tinham namorada, afinal que moça não iria querer um homem como o professor Siwon? Ele era bonito, tinha um trabalho e aparentemente gostava de se divertir na praia. Mesmo que ele fosse gay, como Kyu desejava, ele deveria ter um namorado escondido, ou talvez algum dos dois rapazes ocupasse um posto maior do que amigo. Quando chegou a sala, Kyu corou ao olhar o professor pessoalmente.

O sinal havia batido e o professor tirava o jaleco já desabotoado dos ombros, o que remeteu a foto dele sem camisa. Kyu deixou o livro sobre a mesa e virou-se de costas, incomodado com a imagem em sua mente adolescente. Quando o menino desviou o olhar para ele, Siwon piscou cúmplice para ele e o agradeceu, para por fim deixar a sala. Kyuhyun estava estático e envergonhado, apesar de se sentir feliz por ter visto algo que aluno nenhum viu.

Kyu se despediu discretamente do professor que saiu da sala antes dele. O menino ainda ficou absorvendo aquele final da manhã, enquanto guardava seus materiais, quando sua irmã entrou afobada na sala de aula. Kyu até mesmo se assustou com a reação exagerada da menina, mas logo que soube seus motivos, achou-se bobo e se irritou com ela. Afinal, há dias eles combinavam uma ida ao centro juntos para uma loja específica de cosméticos e lá estava ela tentando desmarcar.

Kyu até entendia que sua amiga era uma pessoa importante e precisava de seu apoio, pois iria se encontrar com um hyung que Kyu apenas conhecia de olhar. Ahra argumentou a importância de sua presença naquele encontro e o mais novo não encontrou argumentos para refuta-la. Entretanto, decidiu que esperaria por ela na frente da escola e logo que aquele encontro terminasse, eles iriam juntos para a loja de cosméticos. Afinal, uma solução para as espinhas dele era quase uma urgência para o menino.

Eles combinaram que se encontrariam novamente dentro de meia hora. Ahra deu-lhe algum dinheiro e o pediu para comprar algo para comer e espera-lo em frente a escola, pois não demoraria. Kyuhyun ainda reclamou, pois desejava comer a deliciosa comida que sua mãe deixara na geladeira, mas ela não estava mais disposta a negociar e por isso correu para encontrar sua amiga.

Kyu não havia gostado da mudança de planos, mas ainda assim acatou o que sua irmã queria, afinal ele não tinha mais como ir atrás dela. Ela jamais o perdoaria se ele atrapalhasse aquele encontro, a ouvira por semanas seguidas falando sobre ele ao telefone. Kyu saiu da sala, e deixou de pensar em sua irmã para voltar a pensar em seu professor Siwon. Ou Wonie. Era como seus amigos o chamavam afinal, e Kyu achou seu apelido fofo, chegando a rir de sua constatação.

Kyuhyun seguiu para um pequeno mercado próximo da escola e comprou um pacote de biscoito doce e uma lata de Coca-Cola para se alimentar. Ele sabia que aquilo não era realmente um alimento, mas mataria sua fome de qualquer maneira. Kyu sentou-se em um banco que servia para os pais que buscavam seus filhos, e ficava em frente a escola. Ele viu sua noona virar em uma rua sem saída e imaginou se ela própria não tinha um namorado.

Kyu também queria um namorado. Ou alguém para beijar, como seu hyung do ano anterior. Se ele fosse menina beijaria quantos meninos conseguissem e iria investir no professor Siwon sem pudor algum. Talvez se ele conhecesse meninos que também fossem gays sua vida não seria tão parada. Na verdade, ele preferia os mais velhos e mais fortes, apesar de Heechul-hyung não ser o melhor exemplo de masculinidade

Kyuhyun abriu seu pacote de biscoitos e começou a comê-los sem pressa, enquanto pensava em todas as possibilidades caso não tivesse nascido menino. Ele não se sentia atraído por nada na aparência feminina, apenas gostava da ideia de ter mais facilidade em arrumar um namorado. Sendo gay e tímido como era, e focado em impressionar seu professor, Kyu via poucas chances de se dar bem como a amiga de sua noona.

Siwon o avistou de longe. O menino retraído estava sentado no banco, com os pés cruzados sobre esse. Saboreava um pacote de biscoitos sem parecer dar atenção sequer a sabor do que o alimentava. Ele olhava avoado para a rua que aos poucos começava a ficar deserta. Somente quando se aproximou, Siwon percebeu a coca-cola próxima a ele, assim como sua mochila jogada sobre o banco. Distraído, o menino sequer percebeu a aproximação do mais velho.

– Esse é o seu almoço?

Kyuhyun ergueu o olhar assustado, e metade do biscoito que estava em sua mão foi ao chão. Siwon tentou conter o riso do susto do rapaz, sem sucesso e Kyu corou e se emburrou em resposta. Ele era mimado, disso o professor tinha certeza. Sem pedir licença, o professor se acomodou ao seu lado, vendo o menino o fitar com o canto dos olhos, como se estivesse dando-lhe um tratamento de frieza.

No entanto, Siwon sorriu. Aquilo que Kyu desejara a semana toda e se esforçara para conseguir, agora vinha sem esforço algum. Céus, como ele desejava que seu professor fosse menos imprevisível e talvez com um sorriso menos atraente. Aquela fileira de dentes perfeitamente brancos, alinhados por lábios finos, porém perfeitos. Era hipnotizante.

Siwon ainda estava trajado com sua camisa social, mas já não usava óculos, o que Kyu achava-lhe um charme particular. Sua pasta preta de couro estava pendurada em seu ombro e ele a repousou no banco, entre seu corpo e o corpo de Kyuhyun que o fitava com o mesmo ar avoado de antes. Talvez não devesse ter abordado o menino tão bruscamente, ou feito uma pergunta tão despropositada, ele tivesse uma resposta.

– É biscoito, você quer?

– Você não deveria comer isso, o que está fazendo aqui, afinal?

– É que a minha noona pediu para eu esperar ela aqui e depois nós vamos para outro lugar.

– E que lugar é esse que é tão importante a ponto de te impedir de almoçar?

– É só uma loja de cosméticos, professor. – Disse Kyuhyun, estranhando a feição surpresa do professor.

– E o que exatamente você vai fazer lá?

– Eu vou comprar uma pomada para essas coisas na minha cara. – Reclamou Kyuhyun visivelmente sem jeito.

– Ah, é isso. – Disse Siwon, rindo novamente discreto. – Não se preocupe, elas vão desaparecer depois de um tempo.

– Essas coisas são horríveis. – Disse Kyuhyun, mordendo outro biscoito, vendo de soslaio outro sorriso do docente. – E você, professor? O que faz aqui?

– Estou esperando a minha carona. – Disse Siwon cruzando as pernas elegantemente. – Meu carro parou de vez e vai passar o final inteiro de semana na oficina.

– O que houve com o seu carro?

– O motor falhou, eu não sei exatamente o que foi, não entendo nada de mecânica, Kyu. – Explicou Siwon.

– E quem vem te buscar? Sua namorada?

Siwon riu da forma nada sutil do menino perguntar se ele tinha um relacionamento. Kyu achou que o professor não perceberia sua indireta, mas pelo seu riso, ele entendeu de imediato. Foi quando o menino ficou nervoso, afinal, se sua resposta fosse sim, de que adiantava arrancar alguns olhares e sorrisos, quando uma mulher tinha seus beijos.

– Não, é só um amigo. – Respondeu Siwon, logo que parou de rir.

– Você aceita um biscoito? – Disse Kyuhyun apontando-lhe o pacote, na tentativa de mudar de assunto.

– Obrigado, Kyu, mas eu prefiro almoçar. – Repetiu Siwon. – Aliás, eu não entendo, você me deu uma maçã tão gostosa e está aí comendo biscoitos. Por que não comprou uma maçã?

– Eu não pensei nisso. – Confessou Kyuhyun. – E você comeu a minha maçã?

– E achou que eu daria fim a ela? – Indagou Siwon, retirando com a ponta do indicador alguns farelos do rosto do menino. – Eu posso não estar disposto a aceitar presentes de alunos, mas não jogaria fora o único que eu aceitei.

– E você gostou, professor?

– O fato de eu ser um professor chato não torna o seu presente menos especial, Kyu. – Explicou Siwon. – Estava deliciosa.

– Eu não posso te dar outra?

– Não. – Repreendeu Siwon. – Não me obrigue a ser rude com você também.

– Não precisa ser rude comigo, eu entendi. – Disse Kyuhyun inseguro. – Você gosta de dar aulas?

– Claro que gosto, senão não estaria aqui. – Disse Siwon. – Posso te fazer uma pergunta indiscreta?

– Só se depois eu puder fazer uma também. – Disse Kyuhyun, sentindo-se particularmente esperto por sua barganha.

– Combinado. – Siwon se ajeitou no banco e se voltou para o menino. – Eu estou curioso em relação a você, Kyu,  afinal, por que você não tem amigos? Quer dizer, eu entendo que não se aproxime de alguns meninos e meninas mais baderneiros, mas você não é próximo a ninguém. Você é esperto e gentil, por que está sempre sozinho?

– Eles não… – Kyuhyun fez uma pausa longa, olhando fixamente para seu professor, enquanto procurava as palavras corretas. – Eles não me aceitam do jeito que eu sou. Existem coisas que para mim são naturais, mas que para ele são aberrações. Nada em mim agrada as pessoas.

– Que tipo de coisas?

– Coisas minhas. – Disse Kyuhyun. – Você tem muitos amigos, professor?

– Alguns. – Disse Siwon. – Meus amigos também não me aceitam completamente, mas eles aturam os meus defeitos. Não é possível que você tenha tantos que se torne impossível se relacionar socialmente, Kyu.

– Alguns dos meus defeitos são grandes demais, o maior deles eu nem considero um defeito. – Disse Kyuhyun, vendo o estranhamento no rosto do docente. – Eu conheci um menino igual a mim, e nós fomos amigos ano passado, mas ele foi embora. Mudou de escola.

– Eu não vou pedir para você descrever o que seria ‘um menino igual a você’, porque já fiz muitas perguntas constrangedoras. – Disse Siwon, sorrindo com as feições tranquilas do menino. – Quer me fazer uma pergunta? Sobre a matéria?

– Não, da matéria eu sei tudo. – Disse Kyuhyun animado, deixando seus biscoitos de lado. – Você disse que a sua namorada não vem te buscar, é porque ela não pode vir, ou porque você não tem uma?

– Ah, esse é o assunto? – Respondeu Siwon com ar simpático. – Eu não tenho namorada.

– Nem uma esposa?

– Está vendo alguma aliança? – Disse Siwon, sorrindo quando o menino negou com a cabeça.

– E namorado?

Siwon chegou a arregalar os olhos com a pergunta ousada do menino que mantinha sua postura ereta, por mais que estivesse assustado com o seu abuso. Claro, ele poderia ter ofendido seu professor, ou ele acreditaria se tratar de uma brincadeira e riria da sua cara. Kyu era jovem e por consequência, curioso. Siwon estava estupefato com a pergunta feita de forma tão direta e soltou um grunhido de indignação.

Ele estava pronto para responder de forma polida, pois não via a necessidade de ser rude com o menino diante de uma curiosidade boba, no entanto uma buzina soou ao seu lado e chamou-lhe a atenção. Sobre uma moto simples, estava Hyukjae, trajando uma jeans justa e uma camiseta estampada. Siwon o reconheceu logo que ele retirou o capacete e abriu aquele sorriso com o qual ele estava tão habituado.

Kyu o reconheceu de imediato, era o rapaz do meio, com seu sorriso bonito e que tinha o rosto beijado por outro rapaz. Aquele deveria ser o Hyukie ou o Hae-ah, e Kyu sabia que eles eram amigos. Seus olhos grandes percorreram o local e se demoraram no menino timidamente sentado ao banco, o achando particularmente adorável, com sua pose tímida e sua feição curiosa.

Kyu olhou para o rapaz, que também sorriu-lhe simpático. Kyu se remexeu tímido, e acenou para ele visivelmente constrangido. Hyuk também acenou e então chamou Siwon com um gesto mais extravagante. Até então, o docente olhava o menino ao seu lado, observando suas ações tímidas e adoráveis, sem que parecesse forçado. Ele somente desviou o olhar quando Hyukjae o apressou:

– Wonie! Vamos, antes que o Hae descubra que eu peguei a moto dele!

– Eu devo te perguntar por que você fez isso? – Disse Siwon revirando os olhos diante de tal confissão, enquanto Kyu mordia outro biscoito, com os olhos grudados no rapaz.

– Eu posso até te contar, mas não na frente do seu amiguinho.

– Hora de ir pra casa! – Disse Siwon, se levantando de imediato, sendo seguido somente pelo olhar assustado de Kyuhyun. – Sua irmã vai demorar? Quer que eu te acompanhe até algum lugar?

Kyuhyun negou com a cabeça freneticamente, enquanto farelos de biscoito se espalhavam pelo colarinho de sua camisa. Ele mordeu o doce, como desculpa para não dar uma resposta verbal para o mais velho, afinal, estava envergonhado demais. Siwon se aproximou de Hyuk e o cumprimentou mais apropriadamente, antes de voltar a olhar Kyu, que os observava mastigando seus biscoitos.

– Não esqueça o dever de casa, amiguinho! – Disse Hyukjae, enquanto retirava o capacete que emprestaria para o outro de seu compartimento próprio. – Ou o professor Siwon vai puxar o seu pé de noite.

– Ele nunca esquece. – Defendeu Siwon, desviando o olhar para o menino, que estava ainda mais corado enquanto os fitava.

– Ele fala? – Sussurrou Hyukjae diante da falta de resposta do mais novo.

– As vezes. – Murmurou Siwon afundando a mão no bolso dianteiro de sua calça e retirando um lenço extremamente branco. Ele o estendeu para Kyuhyun, que o pegou sem entender. – Tem biscoito de novo no seu rosto, Kyu.

Kyu limpou seu rosto imediatamente com o lenço macio de algodão, finalmente desviando o olhar do recém-chegado que o observava. Ele sentiu-se bobo por sujar seu rosto diante dos dois rapazes, além de sua incapacidade de responder-lhes verbalmente. Ele precisava falar algo, ou talvez os dois o achassem ainda mais estranho do que o normal.

– Obrigado, professor. – Disse Kyuhyun com a voz alta e um tanto fina, por ter decidido repentinamente falar.

– Tenha um bom final de semana, Kyu. – Desejou Siwon, olhando para ele compreensivo, assim como seu amigo. – E não esqueça de comer frutas.

– Não vou esquecer, professor. – Disse Kyu, finalmente sorrindo para o mais velho. – Bom final de semana para vocês também.

Siwon sorriu e acenou-lhe enquanto ouvia provocações de Hyuk sobre o fato de querer também melhorar a educação alimentar de seus alunos. O professor colocou o capacete, guardou seus pertences e finalmente subiu ao veículo, colando seu corpo às costas de Hyukjae Kyu o observava com atenção e suspirou baixinho ao ver o tórax do professor colar-se ao corpo do rapaz menor, e sua mão envolver na cintura do mesmo.

Hyukjae também acenou para o menino antes de dar a partida na moto e sair dali ainda sob o olhar do mais novo que respondeu ao aceno um tanto tarde. Ele mal podia acreditar que depois de três longas semanas sem receber sequer um olhar do professor Siwon, em questão de meia hora ele recebeu uma dúzia de sorrisos, e além de tudo conheceu um amigo dele. Ao menos ele dizia ser um amigo.

Kyu descobriu coisas valiosas naquele final de manhã. Siwon não tinha um relacionamento, ele gostava de dar aulas, carregava em seu bolso um lenço para emergências como farelos de biscoito no rosto e finalmente, seu apelido era Wonie. Kyuhyun achava Wonie um apelido lindo, era carinhoso e fofo. Certamente ele o chamaria assim se fosse um amigo como o rapaz da moto, o Hyukie.

Kyuhyun desistiu de comer seus biscoitos e guardou o lenço de Siwon em seu bolso, disposto a lava-lo para devolver para o professor na segunda-feira. Claro que ele desejava que aquilo fosse um presente, que ele ficasse com o lenço fino como lembrança de seu querido professor. No entanto, ele sabia que era apenas um empréstimo para que ele não parecesse bobo andando por aí com o rosto sujo de biscoitos.

Siwon sabia ser prestativo quando queria, prestava atenção em detalhes, era simpático e Kyu imaginava o namorado perfeito que ele deveria ser. Ele tomou o refrigerante que comprou e ficou ali, sentado, absorvendo tudo o que acontecera com ele naquela manhã. Sua mente divagava entre o belo sorriso de Siwon e a foto de seu corpo exposto na praia. Ele era perfeito aos olhos do mais novo, e Kyu apenas se incomodava com o fato de ter apenas 13 anos. Ele daria tudo para ter 20, ser recém-formado e talvez até ter uma moto para dar carona para o Wonie.

Quando Ahra chegou, Kyuhyun seguiu ao lado dela para a estação de metrô, sem mais ânimo para ir a loja alguma. Eles não se falaram no caminho, afinal ele estava mais do que satisfeito com suas divagações do que com qualquer assunto que sua irmã tivesse interesse. Kyu voltou da loja com um creme específico e um tanto agressivo para suas espinhas, enquanto sua irmã comprou uma coleção absurda de batons, sombras e outras parafernalhas que o menino não entendia.

Antes de chegar em casa, Kyu passou com sua irmã em um mercado e ele voltou com algumas maçãs. Ahra não entendeu o momento saudável de seu irmão, mas ela já havia desistido de tentar entender suas estranhezas. Ao chegar em casa, ele deu-lhe uma das frutas e disse que era um presente por tê-lo acompanhado até a loja. Ahra o agradeceu, sem saber que na verdade, Kyu a agradecia por ter propiciado alguns momentos a sós com seu querido professor de matemática.

Os dois ainda assistiram um filme na televisão, antes de Kyuhyun deixar a sala carregando uma maçã para seu quarto. Ele se encerrou no cômodo e se acomodou sentado em sua cama, afastando a delicada boneca, a única testemunha de seus atos naquele quarto. O lenço de Siwon saiu de seu bolso e por alguns instantes ele o apertou macio contra seu rosto, na tentativa de sentir novamente o perfume cítrico do homem que povoava seu imaginário.

Ele então pegou a maçã e sua boca recostou-se à casca lisa e fria da fruta. O menino fechou os olhos, deixando seu tato se apoderar de suas sensações. Kyu passou a ponta da língua pela casca adocicada da fruta, e finalmente a mordeu, pressionando seus lábios contra a mesma. O suco escorreu por seu queixo e adentrou sua boca, assim como a polpa macia da maçã.

E enquanto ele a mastigava ela se dissolvia, em pequenos pedaços tenros e úmidos. A cada pedaço era como se eles descobrisse uma nova sensação, da casca rachando sobre seus lábios, ou do sabor mais adstringente que a fruta ganhava a medida que se aproximava de seu caroço. Kyuhyun saboreou aquela maçã como nenhuma outra fruta, como se por meio dela, pudesse provar um beijo pecaminoso e errado de seu professor.

Enquanto o adolescente beijava em pensamento seu professor, Siwon em um apartamento discreto de um bairro de classe média também saboreava uma maçã doce. Ele estava sentado em uma poltrona antiga, olhando pela janela que tinha uma vista nada agradável. As janelas fechadas de um motel falido. Era o que Hyukjae conseguia pagar, morando sozinho e com o péssimo salário de auxiliar administrativo.

Não que o apartamento de Siwon fosse muito melhor, por mais que ele tivesse mais alternativas de renda. Siwon queria um apartamento novo, pois achava o seu deprimente, assim como Hyukjae. Seu amigo queria ir morar de uma vez com Donghae que relutava a desapegar de sua mãe e seu irmão, e aquilo causara diversas discussões entre o casal. Ganhar a viagem ao Japão serviu como uma injeção de ânimo para os dois.

Eles iriam como turistas, mas conseguiram vistos de trabalho, onde planejavam juntar algum dinheiro e se possível finalmente morar juntos. Era o sonho do casal, um negócio próprio, mas ainda faltava-lhes dinheiro para investir. Aquela viagem deveria ser a trabalho, mas ainda assim, ambos chamavam o ano que passariam longe da Coreia como lua de mel. Era quase como se eles estivessem realmente se casando. Siwon estava orgulhoso deles, mas sabia que sentiria falta de seu casal de amigos.

Siwon ajudara no jantar surpresa que Hyuk havia preparado para dizer ao seu amado que ele havia ganhado um sorteio e os ajudou com tudo para que eles fossem ao Japão. E pela empolgação de Donghae no dia seguinte, Siwon tinha certeza que fora um sucesso. Naquele dia, Hae não estava tão empolgado. Ele estava emburrado por Hyukjae ter afanado sua moto para buscar Siwon ao invés de deixa-lo ir em seu lugar.

Hyuk sabia das manhas de seu namorado e não se importava com as feições endurecidas do mesmo. Chegava acha-lo adorável. Siwon soube que eles se acertaram quando saíram de mãos dadas da cozinha, onde lavavam a louça antes. Hyukjae se acomodou no sofá próximo a Siwon e Donghae sentou-se colado a ele, se ajeitando em seus braços com ar manhoso, típico de quando se irritava com algo.

– Tem certeza que você não vai se importar de morar aqui um ano, Wonie? – Indagou Hyukjae pela milésima vez.

– Eu já disse que não. Aqui é mais silencioso, Hyuk-ah, é melhor para corrigir lições e preparar aulas.

– O Hyukie disse que encontrou você com um aluno, Wonie. – Mudou de assunto, Donghae. – É aquele que tem voz de esquilo ou o que come balas durante a aula?

– Nenhum desses. – Disse Siwon entre risos. – Aquele era o Kyuhyun, ele é muito bom na minha matéria, mas não interage com ninguém na escola toda. Mal fala com a irmã.

– Kyuhyun é aquele que a faxineira disse que era gay?

– Esse mesmo! – Disse Siwon, saboreando outro pedaço de sua maçã.

– Você perguntou pra ele se ele é mesmo gay ou não?

– Claro, porque é normal entrar nesse tipo de conversa com um aluno. – Ironizou Siwon.

– Dá um beijinho nele, se ele gostar é gay, se te processar é hétero. – Disse Hyukjae, fazendo seu namorado rir.

– E o que eu faço quando estiver na cadeia por pedofilia? Dou um beijinho no meu companheiro de cela também?

– Pelo menos sua vida sexual seria mais agitada na cadeia. – Riu-se Hyukjae.

– Lá vem você! – Reclamou Siwon.

– As vezes eu acho que ele é ruim de cama, sabe Hyukie? – Afirmou Donghae.

– Vamos voltar a falar dos meus alunos que estava mais agradável. – Disse Siwon, incomodado.

– Qual o seu aluno favorito? – Indagou Hyukjae

– Eu não tenho um, nenhum…

– Você tem sim! – Acusou Donghae. – Você deve ter um que se destaca, vai! Ou que te fascina, como o professor de Lolita.

– Nem uma ninfetinha adolescente que te chame a atenção? Ou um menininho interessante? Anda, Siwon, detesto quando você se faz de santo!

– Aish! – Reclamou Siwon. – Está bem. Eu não tenho nenhum aluno que me chame a atenção, nenhum que se sobressaia, ou que seja misterioso. São adolescentes comuns, como nós éramos, talvez um pouco mais desleixados do que nós. Com exceção do Kyuhyun.

– O menino de hoje?

– Ele mesmo. Ele é diferente, curioso, esperto, hoje se mostrou um tanto ousado, aventureiro, mas não tem amigos da sua idade.

– Você deveria ter ele como exemplo. – Afirmou Donghae. – Talvez você esteja precisando de uma aventura.

Siwon se perdeu em alguns instantes nas feições de Donghae. Ele nunca fora o mais adepto a aventuras, pois sabia que elas sempre acabavam mal. No entanto, ele estava praticamente sozinho em Seul, e sem os dois amigos à sua frente, sua vida estaria única e exclusivamente sobre seu controle. Ele via dia após dia, adolescentes fazendo coisas sem medir as consequências e até mesmo alguns adultos.

As pessoas a sua volta viviam sob o fio da espada e se alimentavam nas suas aventuras. Tal qual a luz do sol no primeiro dia depois do inverno, a possibilidade de fazer algo proibido tocava em sua pele o instigando a permanecer por mais tempo na tentação. Siwon voltou-se novamente para a janela, enquanto o casal no sofá começava a se beijar se pressa e sem constrangimento. O professor invejava seu companheirismo e sua intimidade.

Talvez Donghae tivesse razão. Ele era jovem, inteligente e tinha muitas pessoas interessadas nele. Ele só precisava escolher o melhor candidato. De repente o mais suscetível, o menos provável. Talvez ele precisasse chocar seu próprio ego e desafiar seus paradigmas, suas definições. Estava decidido, ele teria sua aventura, seguiria o conselho de Donghae por mais que não tenha compartilhado com nenhum de seus amigos, sua decisão.

Assim, tal qual Eva nos primórdios da bíblia, Siwon mordeu a maçã. Ele saboreou o gosto adocicado da tentação, e do veneno. Se alimentando de sua inconsequência, tal qual um adolescente no auge de sua discrepância dos paradigmas sociais. Tal qual um Kyuhyun silencioso em seu quarto, saboreando uma maçã, pensando no beijo proibido de seu querido professor.

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