Capítulo 03 – Secret movie theater

mathematics 3

Kyuhyun ainda estava zonzo, imaginando se ficar bêbado teria nos adultos ou nos adolescentes mais rebeldes, aqueles efeitos que ele sentia. Ele imaginava que sim, pois seu estomago se revirava em uma reação fria ao nervosismo. Ele não entendia ainda como conseguira ir tão longe, sem nem ao menos se esforçar. Aquele braço pesava em seu ombro, se encaixando firme em seu pescoço, onde sua cabeça se recostava.

O cinema estava praticamente vazio, o shopping pequeno no bairro em que Kyu morava não atraía muitos visitantes. Também era um dos poucos que seus pais o permitiam ir aos treze anos. Kyu detestava aqueles limites, pois Seul tinha muitos cinemas maiores e melhores, em lugares de fácil acesso. Ele somente tinha permissão para ir até ali, e é claro, se fosse acompanhado de sua noona, Ahra.

E naquele dia, ela decidira que queria ir ao cinema mais próximo. Depois de gastar sua mesada com uma coleção de batons e sua amiga ter comprado um relógio a prova d’água para o hyung de quem gostava, não sobrou muito dinheiro para elas naquele mês. Assim, assuntos femininos obrigaram Kyu a se contentar com a simplicidade daquela sala de cinema e a baixa qualidade da tela. Mal sabia ele, que as agradeceria muito em breve por tê-lo convencido.

Kyuhyun chegou aquela tarde no shopping com ar emburrado. O primeiro final de semana depois das provas do primeiro bimestre, amanheceu nublado, porém agradável. Ele queria ir ao cinema, mas sabia que sua irmã não o levaria com ela, não quando ela desejava ir com sua amiga e  falar sobre garotos e maquiagem e atores da televisão. Assuntos que Kyuhyun não entendia, dos quais não gostava.

Ele teve que espernear e bancar o manhoso para ir ao cinema com Ahra. Ele tinha as melhores notas, por que afinal tinha que ficar trancado em casa? Era injusto. Sua mãe a obrigou a leva-lo junto e Ahra fez um discurso irritada com sua nova decisão. Ele sabia que ela não deixaria barato ele ter estragado seu passeio, mas ainda não sabia de onde viria sua vingança. Vingança que se tornaria um momento sublime para o menino.

Siwon olhou para ele mais uma vez com o canto dos olhos. Era só um menino, apenas um menino. Um menino magrelo e frágil, com o corpo apoiado no seu, mas receoso de jogar seu peso. Nada demais, nada com que ele não convivesse diariamente na escola. Apenas o aluno mais inteligente e tímido que ele conhecia. Afinal, era uma criança, fazendo uma estripulia no cinema.

Os cabelos negros caiam de lado em seu rosto, quase cobrindo seus olhos. As duas orbes amendoadas que normalmente oscilavam entre percorrer os números do quadro e de seu caderno, mas que falhavam e acabavam se desviando para a figura do professor, o admirando não por sua explicação, mas por sua beleza. Aquela pele clara, imaculada, nunca tocada por ninguém, tinha um cheiro diferente, inocente.

Kyu não usava perfume, não encobria o cheiro de sua pele, cheiro de criança. Siwon não achava que ele deveria disfarçar aquele aroma, pois era imaculado. Mesmo a fragilidade de seu corpo refletia sua idade, seus pontos fracos, sua inocência. A infância ainda andava com ele, lado a lado como um amigo que se recusava a abandona-lo. O que denunciava Kyuhyun, era sua curiosidade, e seus olhos.

Kyuhyun estava bravo, extremamente irritado. Aquela raiva quase irracional que te faz perder o controle de suas reações e tomar decisões errôneas. Raiva de irmão. Ele sabia que Ahra iria puni-lo por ter ido junto, mas aí comprar um ingresso para um filme de terror proibido para sua idade era demais. Demais! Ela sabia que ele adorava ver filmes de terror, mesmo que passasse parte dele com as mãos nos olhos e a noite abraçasse sua boneca antes de dormir. Era o filme de terror do ano, com fantasmas, assassinatos e casas mal-assombradas, e ele não poderia assistir.

– Noona!!! – Reclamou Kyuhyun.

– Ssshhh não faça escândalo, você não pode entrar, então vá tomar um sorvete, ou comprar outro dos seus jogos idiotas!

– Eu quero ir ao cinema, você sabia que…

– Não adianta fazer manha comigo, eu não sou a omma e não estou nem aí, seu intrometido!

– Eu não sou intrometido, você que é chata! – Disse Kyuhyun irritado.

– Eu sou chata?? Fui bem eu que ficou chorando pra omma me deixar sair hoje no almoço! Por que você não arruma um amigo e larga do meu pé? Ou melhor, uma namorada, quem sabe não diminuem essas suas espinhas!

– Eu não entendi, o que uma namorada tem haver com as minhas espinhas?

As duas meninas apenas se entreolharam e riram de sua inocência. Kyu detestava ser passado para trás, e aquela raiva dava vontade de gritar e sair correndo sem direção. Ele optou pela segunda opção, pois risadas o irritavam, mas risadas debochadas o enojavam. Deboche o machucava mais do que qualquer outro tipo de provocação, e sua irmã havia ido longe demais, e não fosse a ideia de sair correndo, ele certamente gritaria seus motivos para não ter uma namorada.

Talvez se ele tivesse percebido como as risadas diminuíram não tivesse virado tão bruscamente. Talvez se tivesse atentando seus ouvidos à voz fina da amiga de Ahra, dizendo de maneira dócil como fazia quando gostava de um menino: “Professor Siwon, pode explicar para o tonto do Kyu por que ele não vai assistir O Amigo Oculto com a gente?”. Ele esbarrou com força ao homem que passava ao seu lado, no intuito de cumprimenta-los, sendo observado por seu casal de amigos.

Era constrangimento demais ser flagrado daquela maneira, sofrendo com o descaso de sua irmã e perdendo tempo de sair de casa e ir até aquele shopping para não assistir filme algum. E lá estava ele, seu príncipe encantado, o segurando aos tropeços para que ele não caísse como uma laranja madura no chão do shopping. Kyuhyun naquele momento, apenas queria desaparecer, ou simplesmente acordar daquele pesadelo.

Siwon viu de longe como Kyu estava chateado, e como falava exaltado com sua irmã, buscando palavras em seu psicológico para argumentar com ela. Ele apenas se aproximou com o intuito de cumprimenta-los, apenas queria dizer “olá”, como um educado professor, queria que sua presença acalmasse os ânimos, acalmasse a irritabilidade de Kyu. No entanto, o menino esbarrou nele e sua reação foi veemente.

O rosto do garoto ganhou uma tonalidade escarlate, a ponto de lacrimejar seus olhos. Kyu baixou o rosto, acuado, como se tivesse acabado de ser pego fazendo algo extremamente errado, um flagra de um adolescente rebelde. Ahra repetiu o pedido de sua amiga, insistiu que Siwon argumentasse em seu favor, o fazendo entender de imediato o motivo da irritação de Kyu, e da discussão daquele grupo.

– O Kyu sabe porque ele não pode ver esse filme, ele é esperto.

– Tudo bem, eu não quero mais ver nenhum filme! – Ralhou Kyuhyun puxando seu braço da mão de Siwon. – Eu vou pra casa e vou contar pra omma que você gosta daquele hyung do segundo ano!

– Aish, eu vou te matar!! – Berrou Ahra.

– Hey, chega! – Disse Siwon novamente assumindo sua postura severa. – Vocês duas, vão assistir ao filme, enquanto eu e o Kyu vamos escolher um que ele possa assistir.

– Ela prometeu pra nossa omma que ia me levar junto, professor, não é justo, não é nada justo! Ela podia mentir a minha idade, mas ao invés disso ela decidiu que eu não ia mais com ela e o pior, eu vou ficar uma hora aqui, sozinho, com fome, tudo pra ela poder ir assistir a esse filme idiota! Não é justo!

Kyuhyun desandou a falar enquanto sua irmã se afastava rindo. Siwon também queria rir, aliás, chegava a ser cômico o menino de quem mal arrancara duas ou três palavras, tentando explicar sua situação desagradável. Talvez ele estivesse esboçando um sorriso, pois o menino parou de falar e cruzou os braços magros em frente ao corpo, visivelmente esperando por sua opinião.

Siwon suspirou baixinho, apontando uma poltrona e pedindo para que Kyu o esperasse ali. Kyuhyun reclamou, veementemente, dizendo que se ele iria embora, deveria deixa-lo ir também, pois ele já estava sem vontade de assistir filme algum. Siwon apenas se afastou, o deixando ali, irritado, mas ansioso. E se o professor voltasse, realmente o ajudaria a escolher um filme? Por que ele faria isso se não era um problema seu?

Siwon levou cerca de dez minutos para voltar, e trouxe consigo duas casquinhas de sorvete. Seu casal de amigos se despediu dele logo após comprarem sorvetes, e Donghae ainda riu-se dele dizer que levaria um aluno ao cinema. Decididamente, Siwon precisava sair mais. Acostumado com as chacotas de seus amigos, ele os deixou para trás, e entrou na fila para comprar seu sorvete.

Hyukjae e Donghae fizeram questão de passar pelo menino, silenciosamente acomodado no banco. Siwon ainda não tinha voltado quando Kyu ergueu os olhos e viu os dois, ele se lembrava deles, pois a foto no armário do professor havia ficado em sua mente. Eles eram tão bonitos pessoalmente, e a mão de Hyukjae circulava perfeitamente a cintura daquele que deveria ser o Hae-ah.

Hyuk o reconheceu do dia em que fora buscar Siwon com sua moto. O dia que Kyu falara apropriadamente com Siwon e suas palavras ecoaram por semanas em sua mente. O dia em que ele ganhara o lenço que dera a ele outra desculpa para se aproximar do docente após a aula e assim, descobrir que ele gostava de tomar coca-cola. Kyu acenou de volta, por pura educação, já que estava acanhado com a presença deles.

Aos poucos, a mente já mais calma de Kyu começou a trabalhar, se seus amigos estavam partindo e deixando Siwon para trás, é porque ele não tinha intenções de deixa-lo ali sozinho. Eles seguiram seus caminhos, as vezes olhando para ele e sorrindo, não um sorriso debochado, mas simpático e tranquilizador. Como o sorriso de Siwon.

Quando Kyu voltou a olhar para frente, Siwon já voltava com dois sorvetes de chocolate nas mãos e segurando desajeitado, o pequeno folheto do cinema. O mais velho sentou-se ao seu lado e ofereceu ao menino um dos sorvetes. Kyuhyun queria aquele sorvete, parecia delicioso e já começava a derreter na mão de seu professor, no entanto, ele negou. Siwon suspirou pesadamente e voltou a argumentar.

– Você tem um minuto para aceitar esse sorvete, ou vai ficar me olhando comer os dois, sozinho.

– Me dá espinhas.

– A adolescência te dá espinhas, agora pegue o sorvete.

– Eu só vou pegar porque se você comer dois sorvetes vai ter uma dor de barriga daquelas. – Disse Kyuhyun, tratando de pegar o doce e passar a língua por onde ele escorria.

– Tem muitos filmes em cartaz no cinema pra você ver. – Disse Siwon, cruzando as pernas e deixando o folheto em seu colo. – E tem vários para a sua idade.

– Só tem desenhos e filmes bobos de cachorro e heróis. – Reclamou Kyuhyun.

– Então qual filme você quer ver? – Disse Siwon, colocando o folheto em seu colo.

– Você não vai me deixar ver o filme que eu quero. – Acusou Kyuhyun.

– E qual é? Aquele de terror?

– Esse também, mas tem mais um. – Disse Kyuhyun, apontando para o folheto. – Eu quero ver O Segredo de Brockeback Mountain.

– Você estava certo, eu não vou te deixar assistir.

– Por que? Só porque fala de dois homens que se amam? Eu conheço sobre esse tipo de assunto melhor do que você! – Acusou Kyuhyun.

– Não, não conhece. – Esnobou Siwon. – Mas não é o assunto que aumenta a censura, Kyu, é porque tem elementos que não são apropriados para um menino de 13 anos.

– Você já assistiu?

– Não, mas já me falaram desse filme e eu sei que ele é pesado para você.

– Você não tem como saber, eu não sou como os outros meninos!

O olhar curioso não desgrudava da tela, não cedia como em suas aulas. Percorria os cenários, absorvendo aquelas informações tão novas para ele. Siwon sabia que estava jogando as favas sua ética profissional, mas mostrar a Kyuhyun uma paixão como as que ele sentia estava sendo demasiadamente gratificante. Era como pegar uma criança e guia-la, assusta-la, excita-la e então, ensina-la.

Mas Kyu não era uma criança, havia malicia nele, apesar de ainda não tê-la despertado por completo. Siwon queria identificar aquela malícia, queria encontra-la naquele olhar ambíguo e penetrante. Ele deveria ser um péssimo professor, talvez um dos piores da Coreia por ter tanto interesse em um aluno, por leva-lo a crer que ele pode transpor regras, por desejar apagar sua inocência.

Afinal, Nabokov não era assim tão maluco. Seu personagem, professor, era um depravado, asqueroso, cínico, porém humano e tão pecador quanto o Siwon que envolvia os ombros de seu aluno. Cho Kyuhyun. Como seu nome poderia brincar nos lábios do professor, e se falado em voz alta, enunciar alguém de personalidade forte, um nome viril para um menino afeminado.

Mesmo seu constrangimento era fascinante. A vergonha era o sinal que Kyu entendia, que maliciava em sua mente um toque tão sutil como um abraço em seus ombros. Siwon voltou a olhar a tela, sabia que o menino não sairia dali. Aquele decididamente não era um filme para a idade dele, Kyu somente deveria assisti-lo dali dois anos, sua mente adolescente jamais entenderia tanto erotismo, tanta complexidade.

Kyuhyun então decidiu ousar, ir além de sua rebeldia e assim, se deitou nos ombros do mais alto. Siwon sentiu seu peso contra si e não fez questão alguma de afasta-lo. Talvez seu gesto estivesse suprindo a carência do menino sem amigos, ou iludindo o aluno que nutria uma paixonite fetichista por ele, ou ainda, elevando as fantasias do menino que mais tarde iria se masturbar chamando por seu nome.

Talvez sua fascinação pelo menino fosse apenas uma reciprocidade de sentimentos, ou apenas pelo fato de ter se assumido gay em idade tão tenra. Talvez sua inteligência acima da média fosse motivo de seu carinho, mas fato era que Kyu era seu aluno favorito e leva-lo para assistir a um filme proibido para sua idade era um ato por demais rebelde para Siwon. E rebeldia nunca fora seu forte.

– Não, Kyuhyun, você é exatamente como os outros meninos da sua idade. – Esnobou novamente Siwon. – Ou você acha que é especial porque gosta de outros meninos?

– Quem disse que eu… eu não… – O rosto de Kyuhyun voltou a corar com violência após a revelação do professor. Eles se conheciam há dois meses e o docente já sabia de sua sexualidade.

– Kyu, me escute. – Disse Siwon, calmamente, enquanto o menino se ocupava de comer seu sorvete para não precisar encarar o mais velho. – Existem detalhes do relacionamento gay que são muito bem explicados nesse filme, mas que eu não acho que você precise se preocupar ainda.

– E você acha que alguém me explicaria esses detalhes? Você acha que algum dia meu pai vai chegar no meu quarto e me explicar de onde os bebês não vem? Ou que eu vou achar um livro na biblioteca de “Coisas que todo menino deve saber sobre outros meninos”?  Quer saber, deixa pra lá, você não vai entender, Wonie-hyung.

– Você está sendo precoce e é claro, com a síndrome adolescente do “ninguém me entende”. – Afirmou Siwon. – Então por que você não deixa esse filme pra lá e eu e você assistimos Monstros S.A? E eu prometo não brigar com você por me chamar de “Wonie”.

– Você não pode brigar comigo, nós não estamos no colégio. – Defendeu Kyuhyun. – Não tem nada demais, te chamar de Wonie, não é como se eu estivesse te chamando de bobão.

– Escolha outro filme, Kyuhyun. – Disse Siwon, com firmeza. – Esse não.

– Eu gosto do tema desse, você sabe disso. – Argumentou Kyuhyun. – Ou eu prefiro ir pra casa e deixar pra ir no cinema outro dia, sem a minha irmã chata e nem o meu professor de matemática.

– Você está terrível hoje, hein? – Reclamou Siwon, ao menino que mordia a casquinha com veemência, como se assim reafirmasse sua teimosia.

– Você está chato comigo hoje e você nunca é assim comigo. – Argumentou Kyu. – Eu sou um bom aluno, e me acho especial por isso, não por causa dos meninos que eu gosto.

– Você está agindo como se tivesse mais direito de assistir a esse filme do que os outros meninos, e você não tem, você é muito jovem. – Constatou Siwon. – Se você escolher outro filme, eu te farei companhia.

– Se eu escolher esse perco a sua companhia? Você deixou de sair com os seus amigos pra ir ao cinema comigo, seria frustrante não ver filme nenhum, não é?

– Onde você quer chegar?

– O fato é que você estragaria o seu dia sem motivos se nós não formos ao cinema, Wonie-hyung. – Argumentou Kyuhyun. – Poderia ser o nosso segredo.

– Um segredo?

– Todo mundo tem segredos, professor, algumas pessoas tem amantes, ou gostam de beber soju escondidos dos filhos, ou preferem meias cor de rosa a qualquer outra meia. O meu segredo é que eu gosto de beijar outros meninos, e o seu?

– O meu?

– O seu segredo é que você vai levar um aluno para ver um filme que ele não deveria assistir. – Explicou Kyuhyun. – Ninguém no cinema vai saber que eu sou seu aluno, ninguém na escola vai saber que nós dois fomos juntos ao cinema, só eu e você.

Siwon suspirou pesadamente, jogando na boca o último pedaço da casquinha do sorvete. Ele então se lembrou vagamente de Donghae falando que ele precisava de uma aventura, de algo que o animasse. No entanto, levar um aluno a fazer algo que não devia apenas para satisfazer seus impulsos era ridículo. Ridiculamente errado, ridiculamente tentador. Kyu esperava por sua resposta, com o corpo encurvado para a frente, o fitando de baixo com aqueles olhos que assombravam as manhãs do professor.

Quando Siwon voltou da bilheteria com aqueles dois ingressos, tinha a impressão de ter comprado entradas para o portão do inferno. O sorriso que Kyu lançou ao mais alto somente piorou seu estado de espirito, inocente, animado, infantil, o que condizia com a sua idade. No entanto, o que ele fez a seguir era quase o oposto, ele levou o indicador aos lábios, que só então Siwon percebeu como eram protuberantes e fez um sinal de silêncio.

Estava feito, agora Siwon era coautor de um crime adolescente. Logo ele que tanto se gabava de sua moral intacta, somente abalada por homens de rosto bonito e nádegas fartas.  O que decididamente não era o caso, era só um garoto, que o fitou com sua malícia adulta por questões de segundos antes de voltar a ser o mesmo menino. De onde viera tanta malícia, Siwon ainda não conseguia dizer. Kyu passou sem problemas pelo guarda do cinema, afinal, ele era mesmo alto para sua idade. Siwon seguiu em seu encalço e Kyu escolheu um lugar ao meio, ele queria discrição.

E eles tiveram, estranhamente, privacidade em um local público. Ninguém reparou neles, em sua posição suspeita, ou nos olhares que trocaram. Kyuhyun deixou sua mão posicionada sobre o tórax do mais velho, sentindo seus músculos bem definidos por baixo da roupa. Mesmo seu braço era rijo, onde o menino apoiava seu rosto, era forte e bem trabalhado. O aluno vez ou outra inspirava profundamente, aproveitando-se daquele perfume que ele tanto gostava.

Era um momento único para Kyu, um momento íntimo, quase tão erótico quanto os beijos que ele trocava com seu hyung nos fundos do colégio. Seu corpo todo estava colado ao dele, sua pele estava unida à dele, apenas separada por tecidos finos e insignificantes. Ele poderia acaricia-lo se quisesse e tivera a permissão de deitar-se em seu colo, tomar o lugar que uma mulher deveria desejar.

Pouco antes do final trágico do filme, Kyu desviou o olhar da tela e o repousou em seu professor. Siwon percebeu sua movimentação, e também olhou para ele. Os olhos amendoados e curiosos estavam velados pela escuridão do cinema e Siwon apenas conseguia ver o brilho deles. Um brilho interessado, malicioso, luxuriante que percorria sua pele e o arrepiava. Não era mais seu aluno, era um demônio em pele de menino.

As luzes se acenderam, e eles se flagraram trocando olhares. Os dedos longos de Kyuhyun tocaram o rosto do professor, começando por sua testa, passando por seus olhos que se fecharam, as maçãs do rosto, ásperas com a barba que ia nascer e então, seus lábios. Um rosto de homem, mas que despertava no menino, desejos que não lhe pertenciam antes. E como um menino, ele não sabia disfarçar.

Foi quando Siwon leu em seus olhos aquilo que ele buscava, foi quando encontrou sua malicia escondida apenas embaixo de seus cobertores em uma noite solitária. O professor sentia a química, sentia em sua pele o desejo que o garoto tinha de beija-lo. Obviamente ele não cederia àquele impulso de adolescente inconsequente, mas ele não negaria o quanto o fascinava ser tão veementemente desejado por alguém tão jovem.

Despertar a malícia nele era, certamente, mais interessante do que ter homens da sua própria idade interessados em seu corpo. Kyu certamente o achava bonito, mas acima de sua estética, ele era fascinado por sua inteligência, seu carisma e sua capacidade de manipulação. Ao contrário dos homens que Siwon conhecia, aquele jovem via além de sua alma e sua curiosidade o prendia àquele momento.

Siwon soltou o abraço e o corpo fraco de Kyuhyun caiu sobre o estofado. Ao mesmo tempo, o ar saiu com força de seus pulmões, como se ele o tivesse prendido esse tempo todo. Uma reação veemente, clara, de que a intensidade com que Siwon percebera o momento, era a mesma que a dele. Kyu o deixou se afastar, sentindo sua cabeça girando e com ar obviamente confuso. Afinal, o que foi aquilo?

– Eu vou te levar pra casa. – Concluiu Siwon. – Esse ainda é o nosso segredo, correto?

– Meu segredo e seu segredo. – Explicou Kyuhyun.

– Isso mesmo. – Disse Siwon, finalmente sorrindo. – Quer dividir mais um segredo comigo? Eu posso confiar em você?

– Pode sim, professor.

– Eu não quero te proibir de me chamar de Wonie. – Começou Siwon, se levantando e sendo seguido pelo menino, imediatamente. – Esse é um apelido muito especial e somente os meus melhores amigos usam.

– Ninguém na escola sabe que o seu apelido é esse?

– Lá, eu sou somente o professor Siwon. – Explicou Siwon. – Não quero que conte a ninguém que esse é o meu apelido, e se ninguém souber, você pode me chamar de Wonie-hyung. Desde que, seja fora da escola.

– Então, fora da escola você não é o professor Siwon, é o Wonie-hyung? Só pra mim? – Disse Kyuhyun, caminhando em seu encalço para fora do cinema.

– Mais ou menos isso. – Afirmou Siwon, parando à porta do local. – Posso confiar em você, garoto?

E lá estava ele de novo, aquele sorriso que começava em apenas um dos cantos dos lábios do menino e se espalhava por seu rosto delicado. Aquele brilho no olhar, e o indicador que subia aos lábios e fazia um sinal cúmplice de silêncio. Logo em seguida um ar brincalhão tomou conta do rosto do menino que o puxou pelo pulso para que saíssem dali de uma vez e ele voltasse a encontrar sua noona.

Siwon ainda piscou algumas vezes e sentiu a cabeça pesar. Talvez fosse assim que a insanidade começasse, com visões irreais e pensamentos estranhos. Ele deveria ser um futuro John Nash, um gênio perturbado, mas ao invés de ouvir vozes, ele observava seus alunos. Um aluno em específico. Cho Kyuhyun, um menino magro, esguio, tímido, inteligente e com seus ares de feminilidade incomum, uma criança com sua inocência na bagagem, mas as margens do deflorar de um homem. Tão ambíguo, tão venenoso.

Era isso, ele estava no auge de sua insanidade, enquanto Kyu, não poderia estar se aproveitando mais de sua situação. Siwon cedia a ele, aos poucos, doses homeopáticas de sua vida pessoal, a qual Kyuhyun queria explorar. E nesse caminho, deixava-lhe caricias discretas que eram perfeitamente usufruídas pelo menino. Ele estava feliz naquele fim de bimestre, e estranhamente, sua paixonite adolescente platônica parecia estar fugindo do final clichê.

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