Capítulo 04 – The boy who likes dolls

mathematics 02

Não parava de chover. Era dia após dia de chuvas torrenciais e incômodas na capital sul coreana. A cidade já sofria com demorados engarrafamentos, e o Rio Han estava particularmente cheio.  Foram cinco longos dias ininterruptos de chuva. Claro que a mudança climática sempre afetava a vida das pessoas com a saúde mais frágil, e isso trazia a época dos resfriados e dores de garganta, por conta das roupas úmidas.

Assim era com Kyuhyun. Seu resfriado começou como uma indisposição durante a tarde. Ele estava terminando a lição que o professor Siwon havia passado quando seu corpo pareceu pesado e ele sentiu a necessidade de se deitar. Ele ainda terminou sua tarefa e arrumou seu quarto, antes de se deitar na sala e assistir um filme sem graça na televisão, esperando que seu mal-estar melhorasse.

O problema de dormir mal a noite e acordar com um terrível resfriado é que ele não podia faltar aula. Sua mãe sempre ficava mais vigilante quando um dos filhos ficava em casa e Kyu tinha feito um trato muito lucrativo com sua irmã naquela semana. Ela iria faltar aula na quinta e na sexta para brincar de jogo da garrafa e Kyu, para não contar a sua mãe que ela não estava na escola, recebeu uma boa quantia em dinheiro e um laço para sua boneca Margot que agora tinha um adorno azul nos cabelos.

Fora uma boa negociação, não fosse o fato dele ter que ir andando até a escola e sair de lá ainda pior. Ele se arrastou para casa, tomou uma dose grande demais de um xarope e passou o resto da tarde nauseado. Foi quando sua garganta começou a doer e a febre aumentou. Sua irmã fechou-se em seu quarto para cobrar-lhe o trato e Kyu garantiu que estaria na escola no dia seguinte. Além do que, ele tinha uma redação que estava pronta há semanas sobre sua boneca e não poderia perder a oportunidade de se candidatar a monitor da biblioteca.

Aquele era o ano em que ele atingia a idade mínima para ser monitor da escola e a biblioteca era ao lado da nova sala do professor Siwon. Claro que o mais velho ficaria ocupado dando reforço aos alunos mais relapsos, porém, estaria ao seu lado, o dia todo. Kyu tinha ótimas notas e ele bem sabia que esse era um com pré-requisito para se tornar monitor. Além do que, era um trabalho fácil e que exigia pouco de seu tempo ocioso. Kyu gostava da escola, e também, do professor Siwon.

Aquela tarde no cinema havia ficado em sua mente, no entanto, o professor parecia ainda mais frio com ele. Ele havia previsto aquela reação e esperava pelo dia em que sua frieza novamente diminuiria, e ele sentiria aquele braço pesado se encaixando em seu ombro e o apertando com tanta sutileza. Kyu ainda sentia seu perfume, ainda lembrava de suas feições antes de dormir, e sentia seu coração disparar cada vez que ele entrava na sala. Ele estava fascinado por aquele homem, como um todo.

Ainda assim, mesmo com toda sua fascinação, Kyu não estava animado para a aula de sexta-feira. Sua dor de cabeça estava ainda pior, seus olhos ardiam, ele já havia acabado com uma caixa de lenços de papel e sua garganta não o permitia falar apropriadamente. Ele estava péssimo. Ele colocou um cachecol no pescoço, sua mochila nas costas e saiu, torcendo para que sua manhã passasse rapidamente. Ele precisava descansar.

Ao menos naquele dia, a chuva havia dado uma trégua. Ainda assim, a cidade estava úmida e o céu estava fechado, ameaçando outra tempestade. E o vento que cortava a cidade, também deixava no ar a ameaça de chuva, o que deixou Kyuhyun com ainda mais calafrios. Ele seguiu lentamente pelas quadras que o separavam da escola e lamentou ter feito aquele trato com sua irmã naquele dia. Quando ele achou que não poderia estar pior, um de seus colegas apareceu.

Ele se aproximou de bicicleta, aumentando o ritmo das pedaladas assim que o visualizou. Kyu, que estava com os reflexos lentos, demorou para perceber sua aproximação e quando o viu, não teve tempo de se desvencilhar. O menino o agarrou pela mochila, o que o fez desequilibrar e em seguida cair, diretamente em uma poça d’água na calçada. Era a última coisa que ele precisava, suas roupas ficarem molhadas.

Era a primeira vez no ano que ele chegava à escola e suas roupas não estavam impecáveis. Havia uma mistura de água e sujeira da rua em seu casaco e na barra de seu cachecol. Seu colega ainda passou por ele, unido a outros que o apontaram e riram de sua situação. Ele estava com roupas úmidas, com resfriado e ainda eram 7 horas da manhã. Seu dia, não poderia ter começado pior.

Kyuhyun não se concentrou em aula alguma naquela sexta-feira e dormiu a maior parte delas. Claro que seus professores repararam que ele não estava sentindo-se bem, uma vez que ele era o mais atento de seus alunos. No entanto, ele somente foi abordado quando o professor de educação física estava na sala e ele voltou do banheiro, após a aula ter começado. Kyu passara os primeiros quinze minutos da aula, vomitando seu café da manhã do banheiro dos meninos.

O professor havia liberado a sala para que fossem para a quadra de esportes, mas pediu para que Kyuhyun ficasse. Ele parecia um tanto agoniado e logo revelou que deveria manda-lo para a enfermaria, porém a enfermeira havia faltado naquele dia e a pedagoga, que deveria entrar em contato com seus pais, também não estava na escola. Ele sabia que o menino não poderia ficar na escola daquela maneira, porém, manda-lo para fora dali não parecia a melhor opção. Foi quando ele viu alguém que poderia ajuda-lo naquela situação:

– Ah, Siwon-sshi, que bom que você está por aqui hoje! – Animou-se o professor de educação física.

– Eu tive um reforço para dar, e estou indo corrigir alguns trabalhos. – Disse o professor que não usava o costumeiro jaleco branco, e sim roupas mais confortáveis, uma vez que não daria aula. – Precisa de alguma coisa?

– Eu preciso de alguém pra cuidar do Kyuhyun que não está passando bem. – Disse o outro professor.

– O que você tem? – Disse Siwon, visivelmente mais preocupado que o outro professor.

– N-não é nada.

– A professora Hyo disse que ele dormiu quase a aula toda, e ele acabou de vomitar, os colegas disseram que viram ele no banheiro.

– Kyu, vamos na minha sala, eu vou ligar para os seus pais.

– Não, não! – Disse Kyuhyun veementemente. – Eu já estou bem melhor, professor, eu…

– Pode ir dar a sua aula, professor, eu vou cuidar desse aqui. – Disse Siwon, recebendo um agradecimento imediato do outro docente. – Vamos, Kyu, vamos até a minha sala.

– Não, não precisa! – Teimou Kyuhyun, vendo o professor de educação física deixar o local. – Por favor, professor, não precisa ligar para os meus pais.

– Então venha comigo para a enfermaria. – Disse Siwon. – Vamos verificar se você tem febre, e posso saber por que seu uniforme está molhado? Você vomitou nele?

– Não é isso. – Disse Kyuhyun, visivelmente incomodado com a suposição do professor. – Eu caí em uma poça d’água vindo para a escola.

– E ficou com essa roupa molhada até agora? Não é a toa que está passando mal! – Ralhou Siwon, exaltado com a omissão do garoto. Ele o agarrou pelo pulso e seguiu para fora da sala, o obrigando a caminhar. – Que irresponsabilidade, Cho Kyuhyun!

– N- não… – Kyuhyun então teve um acesso de tosse que não o permitiu concluir a frase, mas que deixou Siwon ainda mais preocupado.

Siwon o guiou até a enfermaria, e fechou a porta para que os alunos curiosos não os observassem. Kyu não se moveu, então o mais alto o segurou pela cintura, para que o menino se acomodasse sentado na pequena maca. Siwon então começou a caminhar de um lado a outro, remexendo nos armários de onde retirou um casaco grande de uma caixa, e de outro compartimento, uma caixa de primeiros socorros. Kyu o acompanhou com crescente interesse no olhar, apesar dos calafrios incômodos que percorriam por seu corpo.

Siwon voltou a se aproximar e deixou o que ele precisaria ao lado do corpo do mais novo, mas o que ele fez a seguir o assustou. O mais velho posicionou ambas as mãos sobre as abotoaduras do casaco de Kyuhyun e começou a desfaze-los, um a um. O menino sentiu os dedos do professor encostarem em seu abdômen por cima das roupas, o que o fez arrepiar-se e soltar um ruído estranho em sua garganta.

O som que Kyu soltou, chamou a atenção do mais velho. Teria sido sua imaginação, ou o menino esboçara um gemido? Estaria ele o provocando sem a menor intenção? Siwon soltou o tecido e se afastou para observar o mais novo, seus lábios estavam corados e seu rosto pálido, ele estava febril, e ainda assim o observava com um desejo latente e nada inocente. Siwon chegou a sorrir debochado da provocação desajeitada do mais novo.

Siwon retirou seu casaco dos ombros, e o deixou dobrado sobre a maca. Em seguida foi o cachecol, úmido nas pontas, porém quente por absorver a temperatura do pescoço do mais novo. Kyu o sentiu tocar seu pescoço, para sentir sua temperatura de forma adequada, e constatar o que ele já suspeitava. Ele estava febril. Siwon suspirou preocupado, finalmente voltando a reparar no olhar de Kyuhyun. Depravado.

Enquanto ele se preocupava com a saúde de seu aluno, Kyuhyun conseguia apenas se ater a um aspecto daquele momento: Siwon o estava despindo. Ele já seguia para sua gravata quando parou para observa-lo novamente. Quando achou a situação absurda demais, Kyuhyun afastou brevemente seus joelhos, deixando o meio de suas pernas mais convidativo. Siwon deveria chamar a atenção por sua promiscuidade sobre alguém com autoridade, porem, não saberia como aborda-lo.

Não é ensinado na faculdade de matemática como refrear desejos de alunos. Como não agir como um professor depravado que testa os limites deles. Como impedi-lo de ser tão pecaminosamente atraente. Kyu percebeu então que cometera um erro, que estava se deixando levar, que suas pernas estavam confortavelmente separadas e que as veias de sua virilha pulsavam, indicando o início de uma ereção.

Kyu ainda não se acostumara com ereções em locais e momentos inadequados. Desde que ele completara seus treze anos, suas reações a excitação eram muito mais sensíveis e ele, assim como seus colegas, sofria com a excitação em momentos inoportunos. Em suas aulas de educação sexual, ele aprendera que aquilo era normal, apesar da sua frequência de masturbação estar aparentemente abaixo da média. Talvez fosse a falta da mesma que o deixasse tão sensível aos toques do professor.

Siwon percebeu quando seus joelhos se uniram novamente, dessa vez, se escondendo. Kyu se remexeu constrangido e já fugia de suas mãos, quando Siwon decidiu concluir o que fazia antes. Kyuhyun viu os dedos ágeis do professor, começarem a desfazer os botões da camisa do uniforme, começando pelos de seu pescoço, e aquilo o fez temer. Se Siwon tinha intenções de despi-lo, até que ponto iria?

Siwon somente parou após abrir a terceira casa e revelar o tórax alvo do menino. Kyu o observou afastar as mãos e remexer na pequena caixa de primeiros socorros, para por fim retirar da mesma, um pequeno termômetro. Kyuhyun estava embasbacado, afinal, ele pensara mesmo que o professor possuía segundas e até mesmo terceiras intenções com ele. E agora ele precisava lidar com seu engano e também com o volume evidente entre suas pernas.

Siwon enfiou as mãos dentro de sua camisa e posicionou o termômetro em seu lugar apropriado. Talvez o Kyu continuasse se divertindo, se aquele fosse um termômetro retal. Siwon se obrigou a conter o riso, diante do absurdo que se passou por sua mente. Afinal, um menino doente, precisando de ajuda, estava à sua frente, e ele apenas conseguia se focar ao fato de tê-lo excitado.

– Eu não quero te dar uma bronca. – Disse Siwon, assumindo seu posicionamento de professor ao se sentar ao lado do mais novo, que agarrou o casaco sobre a maca e o posicionou sobre sua virilha.

– Não foi de propósito! – Justificou-se Kyuhyun, vendo o mais velho suspirar pesadamente.

– Eu sei que não. – Disse Siwon. – Sei que é coisa da fase que você está, que te deixa mais sensível. Eu também já tive treze anos, já passei por isso.

– Foi você que começou. – Acusou Kyuhyun. – Você nem pediu permissão pra começo de conversa!

– Então a culpa é minha de você entender as coisas de forma errada? – Disse Siwon, rindo irônico ao final. – Ah, Kyu, você não sabe de nada mesmo.

– Pare de rir de mim. – Reclamou Kyuhyun. – Eu estou com dor de cabeça e você vem assim, fazendo essas coisas, não é justo!

– Você tem razão, não é justo. – Sorriu-lhe Siwon, retirando o termômetro debaixo do braço do aluno e fechando o sorriso ao ver a temperatura ali marcada. – Kyu, podemos falar a sério agora?

– Me desculpe. – Adiantou-se Kyuhyun. – Eu não sou assim, isso não é certo, eu respeito você professor, por favor, não conte para ninguém! As pessoas já me julgam por gostar de meninos, me achariam bobo se soubessem do que aconteceu! Estamos só nós dois aqui, você pode guardar mais um segredinho, não pode Wonie-hyung?

– Posso sim, Kyu, mas não é sobre isso que eu quero falar a sério. – Afirmou Siwon, agora visivelmente mais sério. – Por que você não deita um pouquinho? Vamos tirar a sua camisa e colocar essa blusa que eu trouxe?

– Minha camisa está mesmo molhada. – Disse Kyuhyun, abrindo os botões restantes e finalmente retirando a peça de roupa, deixando seu tronco nu. – Você vai poder ficar aqui comigo? Eu não estou me sentindo bem, Wonie-hyung.

– Vamos falar disso então. – Disse Siwon, o entregando a blusa que ele havia retirado do armário. – Eu preciso ligar para a sua mãe, vou pedir para buscarem suas coisas e pegar o telefone na sua agenda.

– Hyung, eu tive uma ideia melhor. – Disse Kyuhyun, após voltar a colocar o casaco que Siwon o entregara. – Eu fico aqui, deitado, e espero a minha dor de cabeça passar. E você fica aqui comigo, nós conversamos e você pode corrigir os seus alunos.

– Kyu, eu queria muito conversar com você e até ter tempo para te explicar melhor porque seu corpo reagiu como reagiu hoje, porém, você está com febre alta, o que significa que eu não posso te deixar aqui. – Afirmou Siwon. – Nós só temos duas opções, menino, podemos ligar para a sua omma, ou para o hospital.

– Não, não professor!! – Disse Kyuhyun, sobressaltado. – Eu te conto porque você não pode chamar a minha omma, mas você tem que me prometer…

– E por que eu não posso? – Interrompeu Siwon, sentando-se ao lado do menino novamente. – O que você quer me contar?

– Você não vai brigar, não é?

– Depende do que você vai me contar. – Afirmou Siwon. – Eu prometo não ser rude com você. Ah, ahjuma!

Siwon chamou a senhora que passava pela janela da enfermaria, e a mesma sorriu imediatamente, com seus dentes amarelados e nada atraentes. O professor abriu a pequena janela e pediu para que ela buscasse os pertences de Kyuhyun em sua sala de aula. Ele também pediu para que ela procurasse a irmã mais velha dele, pois pediria a ela o telefone de onde sua mãe trabalhava.

Quando Siwon voltou-se para o mais novo, Kyuhyun estava deitado de lado na cama, o observando. Ele estava com calafrios e seu corpo parecia ainda mais pesado. Ele queria pedir um abraço de Siwon, talvez alguns carinhos, mas sabia que era um abuso de sua parte. Siwon, pelo contrário deixou o local e tratou de correr para a sala, a fim de pegar os pertences de Kyu, enquanto a senhora com quem ele falara, seguia para a sala de Ahra.

Quando a Ahjuma disse que Ahra não estava na sala, Siwon começou a desconfiar da recusa de Kyuhyun. Ele voltou para a enfermaria, e encontrou Kyuhyun à porta, esperando por ele. Siwon sorriu e Kyu agarrou sua mochila, voltando para a maca a fim de poder entregar ao professor os trabalhos que precisava deixar ali naquele dia. Além do formulário para se candidatar a monitor, como ele havia planejado.

– Podemos falar a sério agora, Kyu?

– Podemos. – Concordou o mais novo, abraçando sua mochila.

– Sua noona não está na sala dela. – Disse Siwon, vendo o menino baixar o olha. – Você sabe onde ela está?

Kyuhyun assentiu, silenciosamente.

– E é por isso que você não quer que a sua mãe venha?

O menino assentiu mais uma vez.

– Céus, Kyuhyun. – Ralhou Siwon. – Você quer mesmo ficar passando mal na escola para encobrir a sua irmã? Onde ela está afinal?

– Na casa de um hyung, eu não sei onde é! – Entregou Kyuhyun, visivelmente chateado. – Você disse que não ia ser rude comigo.

– Você não percebeu a sua imprudência, meu menino? – Disse Siwon, chamando a atenção do outro. – Sua irmã foi irresponsável e independente do acordo que você fez com ela, não dá a ela o direito de te manter aqui passando mal. Agora, Kyu, você gostando ou não eu vou chamar a sua omma para ela te levar ao médico, está bem?

– Depois você vem ficar um pouquinho aqui comigo? Não quero ficar sozinho.

– Eu fico.

Kyuhyun sorriu discreto e voltou a se deitar na maca para esperar pelo mais velho. Ainda que estivesse passando mal, a possibilidade de passar mais alguns momentos com seu querido professor o animava na medida do possível. Siwon sorriu par ele e não se demorou a partir para sua sala, e então ligar para a mãe de Kyuhyun, a fim de avisa-la da enfermidade de seu filho.

Quando voltou, Siwon encontrou-o deitado, fazendo desenhos na janela esfumaçada devido a umidade do ar. Ele parecia tão frágil com aquele resfriado, parecia necessitado de um abraço, um bom copo de chá e um antitérmico eficiente. O professor se aproximou e deixou a palma da mão escorregar pelas costas do outro, o acariciando sem pressa. Kyu sorriu de canto, sem fazer questão de se mover, aproveitando-se da raríssima carícia que recebia.

– Wonie-hyung?

– Eu disse que você não pode me chamar assim dentro da escola, não disse?

– Só hoje, porque eu estou doente. – Disse Kyuhyun, voltando-se para ele e segurando sua mão. – Ninguém está olhando.

– E você acha que pode fazer tudo quando as pessoas não estão olhando? Acha que pode ter uma vida baseada em segredos?

– Não, mas acho que eu confio em você, Wonie e sei que perto de você, sozinho com você, eu posso ser o que eu quiser. – Disse Kyuhyun, brincando com os dedos do professor, em seu colo. – Você pode entregar o meu formulário para o coordenador e a minha redação para a professora Joori?

– Claro. – Disse Siwon, olhando as duas folhas sobre a mesa, percebendo que Kyu cortou repentinamente o assunto. – Do que é esse formulário?

– Monitor da biblioteca. – Disse Kyuhyun, abrindo um sorriso orgulhoso. – Me indica, professor? Eu serei um bom monitor.

– Vou pensar no seu caso. – Brincou Siwon, deixando um carinho discreto nos cabelos do menino, o vendo se ajeitar para se aconchegar mais próximo a si. – Você tem que me prometer uma coisa, que vai se cuidar, febre é coisa séria, Kyu, não dá pra brincar com isso. E você ainda está vomitando, isso não é nada bom.

– Eu estou vomitando por causa do remédio de ontem. – Contou Kyuhyun, nauseado com a mera lembrança do medicamento. – Eu deveria ter colocado vinte gotas, mas aí quando deu quinze ele espirrou, eu perdi a conta, coloquei mais quatro e tomei. Estou enjoado desde então.

– Kyuhyun! – Ralhou Siwon. – Eu vou ter que te ensinar isso também?? Não pode tomar remédio antes de ir ao médico, muito menos uma dose maior do que a recomendada. E se você tiver se intoxicado? Você contou para a sua omma?

– Não, hyung, ela iria brigar comigo.

– E com toda razão! – Disse Siwon, veementemente, vendo o menino voltar a se entristecer. – Vem aqui, sente-se, Kyuhyun.

Kyu assentiu silenciosamente e aceitou suas mãos para se apoiar e se sentar sobre a cama, vendo o professor fazer o mesmo. Siwon o abraçou pela cintura, e o deixou se aproximar e deitar sua cabeça em seu ombro. As mãos de Kyu mais uma vez se apoiaram nos braços do mais velho que ganhavam rigidez se contraindo, ele era tão lindo que o mais novo se injuriava por estar gripado e não poder sentir seu perfume.

– Me prometa que não vai mais tomar remédios sem saber para que servem. – Disse Siwon. – Nem que vai tomar mais do que deve, vai tomar a dose certa.

– Eu prometo.

– E quando estiver doente, não vai vir para a escola, vai ficar em casa e descansar. Me prometa.

– Prometo, Wonie-hyung. – Disse Kyuhyun baixinho, se permitindo ficar naquele abraço tão gostoso. – Wonie-hyung, você é o meu professor favorito.

Siwon chegou a sorrir do comentário do menino. No entanto, antes que pudesse responder, o telefone da enfermaria tocou. Ele se esticou para atende-lo sem desfazer o abraço e foi avisado que a mãe de Kyuhyun o esperava na recepção. Ele desligou o telefone e então afastou o abraço, deixando um beijo na testa do menino que ainda queimava em febre. Kyu ergueu o olhar e sorriu discreto, apaixonado.

Ele o acompanhou até a recepção, e se apresentou cordialmente para a senhora Cho. Foi o professor quem a avisou que Ahra não estava na escola e que ela deveria ter uma boa conversa com a adolescente quando ela voltasse para casa. Também deveria ir ao médico tratar do mais novo que havia se intoxicado com uma dose de remédio no dia anterior. A senhora Cho ficou visivelmente preocupada, e por isso, Kyu não demorou a ser levado dali. Ele precisava descansar.

Siwon voltou para a sala dos professores após arrumar a enfermaria e pegar os papéis de Kyuhyun. O formulário de Kyu foi deixado juntamente com os dos outros alunos, com um anexo diferenciado de um bilhete de Siwon manuscrito, contendo uma breve indicação do menino para o cargo. Ele então se acomodou em sua cadeira de costume, e assim, seus olhos bateram na caprichada redação.

Era um título curioso: “O conto da boneca”. Siwon aproximou o papel de seus olhos e depois de ajeitar o óculos no rosto, leu o enunciado do exercício: “Faça uma redação, de no máximo duas páginas, sobre a lembrança mais marcante de sua infância. Não esqueça de colocar em prática todos os tempos verbais que você se lembra.” Siwon sorriu com o canto dos lábios, e se esticou na cadeira, dando finalmente atenção ao texto. Em uma letra muito bem desenhada, Kyuhyun começou a contar:

“Isso não é bem um conto, pois o que eu vou contar aconteceu comigo de verdade. Talvez seja uma crônica, um relato, não sei nomear, só vou escrever. Do que brincam os meninos de 8 anos? Acredito que gostar de carrinhos seja o mais comum, eu sempre ganhava carrinhos, tinha uma coleção deles, de diferentes tamanhos, cores e tipos. Tinha o de bombeiro, o de policial e até mesmo a ambulância.

Eu também sou muito bom e matemática, pode perguntar para todos os professores, e exatamente por isso, as pessoas achavam que era uma obrigação delas me darem brinquedos que estimulassem meu pensamento. Eu tinha muitos jogos com números, tinha muitos quebra-cabeças, e é claro, um cubo mágico que eu resolvi recentemente. São muitos brinquedos, que me distraiam facilmente quando eu era criança. No entanto, eu queria só mais uma coisa.

No natal, no meu aniversário e até mesmo na páscoa eu sempre pedia uma boneca. Eu queria brincar de boneca. Não precisava ser a mais luxuosa, ou a mais cara, apenas uma boneca. Uma que eu pudesse inventar uma história, um pretexto para mudar-lhe os cabelos ou as roupas. Ou que pudesse sentar na minha cama e fingir ser um britânico tomando seu chá das cinco, com um torrão de açúcar ou uma gota de limão. Ou ainda melhor, ser o professor da minha boneca e ensinar-lhe como fazer todas as equações matemáticas que eu conhecia.

Como era divertido brincar de boneca, eu queria muito uma para mim.

 Eu até podia brincar com as bonecas da noona quando ela estava especialmente paciente comigo. Ela tinha algumas, mas Ahra sempre foi vaidosa e preferia comprar as coisas para ela mesma. Não a culpo, afinal, minha irmã é muito bonita, no entanto, no lugar dela, eu teria uma coleção infindável de bonecas, de todos os tipos. Eu a invejava nesse ponto, e a achava boba por não aproveitar sua chance.

Eu tinha oito anos, e já era o quarto ano que eu pedia por uma boneca. Eu apontava as mais simples, as mais baratas, para aumentar minhas chances de ganha-la, mas as respostas eram sempre as mesmas. As desculpas, eram as mesmas. ‘Isso é brinquedo de menina, Kyu’. ‘O que você vai fazer com uma boneca? Não prefere um carrinho?’ ‘Certamente esse ou aquele jogo é bem mais divertido do que esse brinquedo bobo’.

Eu estava cansado dessas respostas, queria que eles me ouvissem e me deixassem brincar do que eu tinha vontade. Por que afinal eu não poderia gostar de brincar de bonecas? O que há de tão errado nisso? Eu não entendia a complexidade daqueles repetidos ‘nãos’ e nem do que isso implicaria. No entanto, eu era teimoso, e confesso que ainda sou. Eu ia ter a minha boneca, não importava o que custasse.

Um dia antes do natal, quando eu tinha oito anos, nós fomos passear no shopping para comprar presentes para meus primos. E minha Ahra noona, sem insistência nenhuma, ganhou uma boneca muito bonita, com cabelos longos e um vestido de renda. Aquilo me chateou profundamente e eu chorei, como se algo estivesse doendo em mim.

Minha omma me tirou da loja, me levou para passear, me deu água e até mesmo me pegou no colo, no entanto, eu estava magoado. Eu não sei quanto tempo levei para me acalmar, apenas depois de impacientar minha irmã e tomar meia garrafa de água fresca. Então eu expliquei para ela, com as palavras de um menino de oito anos, o quanto eu queria uma boneca, apenas para brincar, inventar histórias, rir e ter uma companhia.

Ter uma boneca não me faria menina, brincar com ela não me tornaria afeminado, eu ainda era um menino. Minha omma não ficou brava, porém não pareceu satisfeita ao voltar da loja com a minha boneca. Eu, pelo contrário, tinha o meu melhor natal, em todos os meus anos de vida. Finalmente eu tinha ganhado a minha boneca. E eu a nomeei Margot.

Desde então, Margot é minha companheira. Era com ela com quem eu conversava o que ninguém desejava ouvir de mim, era ela quem eu abraçava quando os trovões soavam altos demais na minha janela. Margot participou do meu mundo de fantasias, e já foi minha aluna, minha modelo, minha amiga. Ela já foi francesa, britânica, chinesa e já teve os mais variados tipos de histórias.

Meus brinquedos ficaram para trás, foram destinados a crianças de idades apropriadas, ou eu mesmo estraguei em uma brincadeira imprudente. No entanto, a Margot continua lá, seus cabelos loiros continuam sempre penteados e trançados e seu vestido continua impecável, sem nem ao menos faltar um botão. Margot é a minha infância inteira, são as minhas memórias, minhas brincadeiras, escondidas em um objeto feminino que agora adorna a minha cama.

Siwon exibia um sorriso bobo nos lábios quando terminou de ler a redação. Aquele menino era uma figura, tão cheio de sentimentos e complexidade em uma idade tão tenra. Era uma criatura fascinante, preso na imagem do menino frágil e as vezes até bobo. Ele entregou aquela redação à sua colega de trabalho, foi quando ele percebeu como o fazia bem saber da vida daquele menino. E como era agradável tê-lo por perto.

E mais uma vez, o nome do menino que queria brincar de bonecas, passou por seus lábios, como um sussurro, um sopro de vida e de periculosidade. Cho Kyuhyun. Era apenas um menino, um ser moldável, influenciável, e cheio de vitalidade e alguma malícia. Cho Kyuhyun. Ele seria sua benção, e também sua perdição.

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