Capítulo 11 – The joke.

overlook 11

Naquela manhã, Yunho não viu quando Jaejoong sorrateiramente saiu do quarto o deixando adormecido ainda nu. Ele fez questão de cobri-lo e deixar um beijo em sua testa, e é claro, fechar a porta para que nenhum outro habitante do hotel visse aquele corpo escultural que agora o pertencia. Jaejoong olhou de um lado a outro no corredor, vazio aquela hora da manhã e saiu em direção as escadarias, que dariam acesso ao corredor lateral.

Em silencio ele caminhou pelo corredor, atento a passos e movimentações que pudessem flagra-lo caminhando por ali. Jaejoong se recostou à porta da cozinha e lá estava ela. Ele viu Hyemin de costas, com os cabelos caindo por seus ombros e um penhoar que cobria seu corpo até os pés. Ele viu quando ela sentiu um arrepio na espinha, e talvez aquele fosse seu sexto-sentido feminino, avisando do perigo que estava próximo.

Jaejoong a odiava. Era um ódio diferente do que as pessoas normalmente sentem, não era raiva momentânea, não era mágoa, nem rancor, era ódio. Um ódio muito parecido com o que os psicopatas e serial killers sentem, ódio que não necessariamente precisa de um motivo plausível. Era incontrolável e tão impulsivo quanto as ações do loirinho. Ele queria machuca-la, e sentia-se ansioso só de pensar no assunto.

Jae tinha em sua mente diversas maneiras de machuca-la. Poderia afoga-la, usar uma das várias facas grandes da cozinha, poderia tranca-la do lado de fora ou cortar o fornecimento de água. Ou poderia fazer algo mais rápido, cobrir seu rosto com o travesseiro ou empurra-la escada abaixo. Ele tinha que se livrar dela, o quanto antes, mas teria que fazer algo acima de qualquer suspeita.

Se Yunho sequer desconfiasse de suas intenções, certamente se afastaria. Jae tinha que fazer aquilo acontecer, na surdina, sem que Yunho imaginasse de seu envolvimento. Tinha que ser acidental. Jaejoong saiu dali e continuou por seu caminho pelo corredor e sem pressa alguma adentrou o cômodo que Hyemin e Junmin ocupavam. A porta da frente estava aberta, mas Jae percebeu que a do quarto do menino estava trancada. Aquilo não era problema para ele, mas e se Yunho soubesse?

Ela não sabia de sua presença, o que significava que ela estava com medo de Yunho, ou o afastando ainda mais a sua maneira. E se ela estivesse mesmo com medo de seu marido? Se o achasse louco ou algo assim? Jaejoong primeiramente adentrou o quarto de Hyemin e percebeu que a chave não estava na porta, provavelmente descansava no bolso do penhoar rosa que ela usava. Ela também mantinha a porta de seu quarto trancada e aquilo certamente era um bom sinal.

Jaejoong abriu os armários e revirou as coisas antes tão bem arrumadas. Não havia nada além de suas roupas com cheiro de amaciante, toalhas e roupas de cama. Jaejoong entrou no banheiro, mas lá também não havia nada de especial, a não ser seus pertences. Ele voltou ao quarto e ergueu o travesseiro de Hyemin e lá ele encontrou algo mais conveniente do que poderia sequer imaginar. Uma faca reluzente e prateada estava deitada embaixo de seu travesseiro e aquilo era uma dádiva, quase um presente de sua insegurança para Jaejoong.

Ela estava assustada e Jae sabia perfeitamente o que uma mulher com medo era capaz de fazer, certamente muito mais do que um homem com uma arma na mão. Jaejoong riu quando pegou a faca extremamente afiada em sua mão. Era esse o brilhante plano de Hyemin? Ataca-lo com uma faca se ele tentasse machuca-la? Tanto amadorismo e desespero para uma mulher só.

Foi quando Jae decidiu que ele queria brincar. Pregar uma peça que certamente ele acharia muito engraçada. O loiro saiu do cômodo e se espreitou para o quarto do pequeno Junmin que ainda dormia pesadamente, agarrado ao seu urso de pelúcia.  Logo Hyemin viria acorda-lo, então ele não tinha muito tempo. Jaejoong se aproximou do menino e o fitou demoradamente. Ah, como ele poderia acabar com aquilo em um instante, como ele queria acabar com aquilo.

Delicadamente ele retirou o urso dos braços do pequeno que apenas se remexeu na cama, incomodado. A faca ainda reluzia fria entre seus dedos. Jaejoong pegou a pelúcia e o amarrou  na cortina pelo pescoço, deixando o bichinho enforcado no alto da janela. Ele achou cômico a maneira mórbida que o brinquedo balançou depois dele solta-lo. E então era a vez de Junmin.

Jaejoong se aproximou da cama e fitou o garoto demoradamente. Ainda sem tirar os olhos dele, o loiro deixou a lamina da faca escorregar pela palma de sua mão, causando um corte profundo e ardido. A dor o excitou ainda mais. Seu sangue frio começou imediatamente a escorrer e ele o deixou pingar sobre as cobertas de tom azul claro. Ele passou a ponta de seus dedos pelo pescoço do menino, o molhando ali com o liquido vermelho, deixando-o marcado.

Jaejoong ainda deixou as marcas de sua mão nos travesseiros e na pele do garoto, e a faca com seu sangue ficou caída ao lado da cama. E tão pomposo e malicioso quanto entrou, Jae deixou o local, se esforçando para não deixar um rastro de sangue no caminho. Em algum momento ela desconfiaria de Yunho, mas ele não daria a ela a certeza de que seu marido era o causador da brincadeira de péssimo gosto.

No entanto, o que ele não esperava era que o menino despertasse e o visse saindo do quarto. Junmin soltou um grito estridente, e de imediato começou a chorar e chamar por sua mãe. Jaejoong, que já estava no corredor em direção a saída do local, se assustou e com seu susto, todas as portas abertas do cômodo se fecharam e se trancaram. Junmin correu para a porta, batendo na mesma aos berros, enquanto Hyemin saía correndo da cozinha.

Ela se desesperou ainda mais ao perceber que não conseguia abrir a porta. Talvez alguém a tivesse trancado por dentro, o que a assustava ainda mais. Junmin tinha suas manhas, mas ela conhecia seu verdadeiro grito de medo e dor. E ele chorava, enquanto ela impotente, jogava o peso de seu corpo contra a porta que não se movia um centímetro sequer.

Jaejoong se escondeu no banheiro, observando pelo espelho toda a movimentação, e finalmente Hyemin conseguiu destravar a porta de seus aposentos e correr em direção ao seu filho. Jae passou despercebido logo após ela e correu para fora do cômodo, entre risos. Hyemin também gritou quando viu o sangue no pescoço de seu filho, e tratou de cobri-lo com o pano de enxugar louça, afinal ele estava terrivelmente ferido.

Ela não entendia como ele poderia ter ferido o próprio pescoço, ainda mais algo tão profundo para deixa-lo daquela maneira. O menino parecia assustado, mas não gemia de dor, ou se debatia, como seria uma reação normal infantil. Ela levou alguns segundos para perceber que ele não conseguiria emitir som algum se sua garganta estivesse verdadeiramente cortada. Junmin então a perguntou por que ela o cobria com aquele tecido e foi quando ela percebeu que ele não estava ferido no pescoço, ou em qualquer outra parte de seu corpo, o sangue não era dele.

– Junmin, onde dói? Onde você está machucado?

– Não dói nada, omma, eu só estou com medo. Ele estava ali, na porta, estava indo embora!! – Disse Junmin, entre soluços.

– Ele quem?? Seu pai?

– Não, o homem loiro! – Alertou Junmin. – Ele estava ali!

– Que homem loiro?

– Aquele que não gosta de nós dois, só do papai. Ele gosta muito do papai. – Afirmou Junmin. – Por que eu estou sujo assim, omma? O que ele fez comigo? Eu machuquei alguém? Por que ele enforcou o meu urso?

– Minnie, não tem nenhum homem loiro o hotel, então se o seu pai te fez algo, você tem que me dizer.

– O meu appa está dormindo agora. – Disse Junmin, com firmeza. – Foi o loiro!! Não vá atrás dele, omma, se ele souber que eu te contei, ele vai me machucar de verdade!!

– Minnie, quem é esse homem?

– O appa conhece ele, eles dormem juntos, no mesmo quarto. – Confidenciou-lhe Junmin. – Omma, eu quero tirar isso de mim, estou com nojo!

– Você não está mesmo machucado?

– Não dói nada.

Hyemin pegou o pequeno nos braços e o banhou, em busca de machucados, feridas ou qualquer outro sinal em seu corpo. Ele não estava machucado, e certamente aquele sangue era da pessoa que estava tentando assusta-los. E Hyemin não sabia do que ela tinha mais medo, de uma quarta pessoa presente no hotel, ou de Yunho tê-lo feito com suas próprias mãos. Aquele foi mais um dos dias em que ela trancou as portas de seus aposentos e agora a faca ficava sempre ao seu alcance.

Ela estava com medo, como Jaejoong desejava.

Yunho acordou estranhando os gritos que ouvira ecoando pelo hotel, ainda sem ter certeza se o que ouvira eram gritos ou apenas o assovio do vento ressonando pelos corredores vazios. Ele tateou a cama em busca do corpo de Jaejoong a princípio não o encontrando, o que o deixou ainda mais intrigado com os barulhos que ouvira ao acordar. No entanto, quando abriu seus olhos o encontrou parado a porta.

Ele parecia um tanto afobado, mas alegre. Jae correu em direção a ele e pulou na cama entre risos. Claro que ele acordaria bem humorado, afinal, eles fizeram amor na noite anterior. E Yunho havia adorado abusar do corpo delicioso daquele rapaz. Jae se acomodou ao seu lado, sorrindo ao ser prontamente abraçado pela cintura de forma carinhosa. O moreno ainda deixou um selar em seus lábios antes de desejar-lhe:

– Bom dia!

– Bom dia, hyung. – Disse animado.

– Você ouviu um barulho estranho?

– Que barulho, hyung?

– Acho que era um grito.

– Eram os meus gemidos ecoando pelo hotel. – Disse Jaejoong, sorrindo divertido.

– Lá vem você…

– Ontem a noite, foi uma delícia. – Disse Jaejoong montando seu corpo sobre o do rapaz. – Vamos fazer de novo? Desta vez na cozinha, ou no escritório.

– Assim? Sem nem me deixar escovar os dentes?

– Assim mesmo! – Disse Jaejoong segurando as mãos do rapaz que prontamente percebeu que sua mão direita estava fria e a esquerda não.

– Jae? – Disse Yunho puxando a mão direita do rapaz, e a fitando. – O que houve com a sua mão?

– Eu cortei. – Disse Jaejoong dando de ombros. – Deixa isso pra lá, eu quero você de novo e de novo.

– Eu também quero, mas antes, me deixe ler pelo menos o final daquela pasta de matérias. Eu quero saber logo o que você está escondendo.

– Você e a sua curiosidade boba.

– Vamos, Jae, não vai me preparar um café da manhã bem gostoso?

– Você quer um café da manhã?

– Qualquer coisa preparada por você está ótimo. – Disse Yunho, deixando o rapaz deitar-se sobre seu corpo.

– Por que você quer tanto saber o que está naquela pasta? Nada diz respeito diretamente a você.

– Eu espero que a pasta que você esconde, me explique quem é você, ou quem são as duas ninfetas que transaram na minha frente de uma maneira que eu desconhecia ser possível. – Afirmou Yunho.

– E se lá não houver explicação alguma?

– Então eu vou ter que aceitar que eu enlouqueci no hotel, que você não passa de uma criação perfeita da minha mente, e que tudo o que eu vivi com você é imaginário.

Jaejoong não o respondeu, apenas deixou-se cair sobre o corpo do rapaz e selou seus lábios demoradamente. Eles iniciaram um beijo demorado, apaixonado o que convenceu Jae de que sua possessividade não era doentia, e sim justificativa para o amor que ele sentia por aquele homem. Amor tão forte, equivalente ao ódio que ele sentia por Hyemin.

Jaejoong poderia ter se livrado daquela pasta e assim, Yunho jamais saberia o que lhe acontecia, e quem ele era. No entanto, ele o deixou trancar-se em seu escritório e debulhar aquelas matérias tão perfeitamente organizadas que contavam a história do hotel Overlook e de seus personagens, vivos ou mortos. Yunho mergulhou naquelas páginas estranhando sua nova posição de leitor e não escritor, no entanto, ele estava se sentindo particularmente aventureiro naquele dia.

No andar de baixo, trancado em seu cômodo, Junmin fingia brincar com seu trem de madeira. No entanto, sua mente expansiva estava em outro lugar, próximo a Seul, em uma cidade pequena, um restaurante fechado com sua cozinha vazia, por exceção do jovem cozinheiro recém contratado que cortava tomates sem pressa. Enquanto suas mãos trabalhavam habilidosamente, sua mente via como um filme o que acontecera ao garoto naquela manhã.

Junsu conseguia sentir o medo do garoto e sabia que não era sem motivos. O rapaz loiro que rondava a espreita naqueles corredores certamente era ameaçador. O jovem queria voltar, resgatar aquela família de lá, mas sabia que as estradas estavam fechadas e ele não tinha certeza se sobreviveria aquela viagem. Ele sabia que a presença de Junmin havia despertado algo novo no hotel, algo hostil e ameaçador, e Jaejoong era a própria personificação daquela ameaça.

Junsu apenas poderia aconselha-lo a não sair de perto de sua mãe, muito menos de seus aposentos, mas no fundo ele sabia que se quisesse atingi-los, nem mesmo seu amado Yoochun poderia salva-los. Ele sabia que seria seu destino ir reencontrar aquela família, apenas procurava uma maneira de faze-lo sem que arriscasse definitivamente sua vida. Junsu pensava no assunto quando ouviu a porta da cozinha se abrir.

Tão agoniado quanto ele, estava seu irmão gêmeo, do qual ele não conseguia esconder nada. Junho o queria longe do hotel, o queria vivendo uma vida normal, longe daquele homem morto que o prendia aquele lugar mórbido. Junsu correu em sua direção e o abraçou, o tranquilizando mais uma vez, por mais que não tivesse mudado de ideia. Ele precisava voltar para o hotel, contra todos os avisos que foram dados a ele.

Naquela noite os gêmeos jantariam juntos e sem trocar mais do que meia dúzia de palavras, explanariam as mais diversas ideias sobre o hotel. Junho não se conformava que com tantos homens pelo mundo, seu irmão foi se apaixonar justamente por um que não estava mais vivo. Junsu não conseguiria explicar o que Yoochun causava nele, mas não o abandonaria sozinho naquele hotel. Mais do que com aquela criança inocente presa em um reduto maléfico, Junsu se preocupava com seu Yoochun, e pensava nele todas as noites antes de dormir.

Junsu não imaginava como suas ideias de voltar para o hotel antes do fim do inverno, arriscando sua vida incomodavam e irritavam o rapaz do quarto 1904. Micky sentia asco somente com a ameaça de Junsu pegar aquela estrada e estava disposto a impedi-lo como podia. Nem que para isso tivesse que calar aquela voz infantil na mente de seu amado, o incitando a voltar.

Yoochun deixou seu quarto despreocupado. Ele sabia, pelos gritos, que a família estava aterrorizada demais para sair de seus aposentos. Sem fazer barulho, ele desceu as escadas e se instalou na cozinha, onde se prepararia para fazer uma xícara de chá. Ele colocou uma chaleira no fogo e esperou em silêncio que a água começasse a borbulhar. Então, o cheiro mentolado denunciou a segunda presença na cozinha.

Jaejoong sentou-se ao seu lado, olhando para a infusão com o delicioso cheiro de camomila. Yoochun não desviou o olhar para ele enquanto preparava seu chá, o adoçando de acordo com seu gosto. A colher tilintou contra a porcelana enquanto ele mexia o chá, esperando que o rapaz desse um motivo para estar ao seu lado tão petulantemente. Agitado, o rapaz mudou para sua frente, se acomodando do outro lado da bancada, exibindo seu sorriso malicioso:

– Você viu o que eu fiz hoje?

– Uma brincadeirinha muito babaca, eu diria.

– Tsk, onde está o seu senso de humor? – Riu-se Jaejoong. – Posso te perguntar o que você faz tão longe da sua toca?

– Quando você pretende acabar com isso? Com eles?

– No momento certo. – Sorriu-lhe Jaejoong. – Você mesmo disse que não iria me ajudar.

– Acontece que aquele fedelho está chamando o meu Junsu. – Disse Yoochun. – E eu conheço ele bem o suficiente para saber que ele está cogitando voltar. Eu sei que ele pode morrer antes mesmo de colocar os pés de novo neste hotel.

– Eu não posso…

– Você pode sim! É o seu dever, seu cretino!

– Eu não vou perder o que eu conquistei! – Ralhou Jaejoong. – Não vou meter os pés pelas mãos, não agora que o Yunho é meu!

– E o que você vai fazer? Continuar brincando de esconde-esconde?

– Eu sei que você, assim como eu, prefere a companhia de um homem a uma companhia feminina. – Explicou Jaejoong. – Por isso mesmo você não deve entender a complexidade do psicológico feminino. Você já ouviu aquelas histórias de mães que adquirem uma força sobrenatural quando são obrigadas a protegerem seus filhos? Que elas erguem carros e fazem coisas além do que a física permite? Faz ideia do que uma mãe é capaz de fazer quando se sente ameaçada?

– Aonde você quer chegar?

– A Hyemin está com medo, mas ainda não é o suficiente. – Explicou Jaejoong. – Eu preciso que ela tenha certeza que ele vai fazer algum mal a ela, que ela pense que ele enlouqueceu e que está disposto a machucar a ela e o mais importante, ao Junmin.

– Para isso você precisa de tempo, Jaejoong e isso é algo que nós não dispomos. Quanto mais você espera, maior a chance do Junsu correr para cá.

– E se eu matar esse garoto amanhã, você acha mesmo que ele não virá? Será que você não percebe que o menino é só uma desculpa? O que ele quer é ficar ao seu lado, você é o motivo da volta, não ele!

– Eu disse para ele não vir, eu mandei ele ficar longe!!

– Ele te ama, seu idiota! Tanto quanto você ama ele!

– Isso precisa terminar, Jaejoong, eles têm que morrer. – Concluiu Yoochun. – E se é para amedrontar, deixe o menino comigo. Depois de passar pelo meu quarto, ele vai esquecer o nome do meu Junsu.

– Era isso que eu queria ouvir! – Comemorou Jaejoong. – O Yunho está me procurando, fique atento ao meu sinal!

Jaejoong pegou uma maçã da cesta e correu para fora da cozinha. Ele estava animado com o apoio de Yoochun, afinal, sabia como aquele rapaz poderia ser perigoso quando irritado. Micky segurou a xícara com as duas mãos e suspirou pesadamente. Ele estava preocupado, e sentia saudades de seu dolphin. E aquilo apenas piorava enquanto as risadas de Jaejoong e Yunho invadiam os corredores do hotel.

Jaejoong encontrou Yunho prestes a sair do escritório em sua busca. Ele trazia consigo a xícara de café que Jae o deixara, agora vazia. Ele estava com os olhos cansados devido a leitura ininterrupta durante a tarde toda. O loiro tinha razão, a medida que as matérias passavam, mais mórbidos ficavam seus conteúdos. Eram acidentes inexplicáveis, crimes não resolvidos e muitas mortes.

Jaejoong deixou sua maçã sobre a mesa e o abraçou pelos ombros logo que adentrou o escritório. Ele sabia que o escritor queria saber onde ele andou durante a tarde, mas Yunho não o perguntaria. Seria outra de suas dúvidas sem resposta. Jae era mais agradável quando não questionado. Yunho puxou-o pela mão e o guiou até sua mesa onde o rapaz sentou-se, recebendo seu corpo entre suas pernas e o agarrando pela cintura.

– Eu tenho algo para te dizer. – Disse Yunho.

– É alguma pergunta boba?

– Não. É mais uma constatação. Algo que eu notei há algum tempo.

– O que é, hyung?

– Eu amo você.

– Você disse isso ontem a noite.

– A questão é que, com você é diferente. Eu nunca amei ninguém como eu amo você, e eu nem sei quem é você.

– Eu sou o seu Jae.

– E quem é o meu Jae? De onde ele veio e por que está aqui?

– Eu estou aqui, porque amo você. Porque você é o meu namorado.

– Jae…

– Por que você não esquece isso por enquanto? Por que não aproveita o seu momento comigo?

– Aproveitar o momento? Não basta eu ser um adultero, eu tenho que ser o do pior tipo?

– Adultério foi a coisa mais corajosa que você fez nos últimos anos, e você sabe disso. Eu quero ela longe de você, ela não é mulher pra você, nunca foi.

– Você não decide isso, Jae.

– Você disse que me ama, e já chega de fingir ser pai de família. Você é meu agora, hyung.

– Você sempre diz que ela me enfraquece, mas não faz ideia do que você faz comigo.

– Eu não faço nada, o amor faz.

Yunho sorriu discreto e acariciou o rosto do rapaz com a ponta dos dedos. Como um sentimento poderia ser tão ambíguo? As vezes ele sentia que seria incapaz de deixar Jaejoong, que morreria se tentasse se separar dele, em outros momentos sentia asco e o desejo de mantê-lo o mais longe possível. Aquilo parecia ter piorado desde a noite anterior, noite que ele desejava repetir, até drenar todos os fluidos corporais do corpo gelado do rapaz.

Yunho tomou seus lábios sentiu sua saliva agora fria como água adentrar sua boca. Jae sequer parecia estar vivo, mas seria uma hipocrisia acreditar que ele não passava de um fantasma. Não com tanta sentimentalidade, com tanta vivacidade. Yunho acreditava que Jae estava mais vivo do que ele se é que aquilo era possível. Suas mãos possessivas percorreram o corpo do loiro que se eriçou em resposta.

Yunho desviou os lábios para o pescoço do rapaz, sentindo novamente seu sabor e seu cheiro mentolado. Jae amava aquelas carícias do rapaz naquela região sensível de seu corpo, afinal ele o fazia com tanta delicadeza que não o machucava. Yunho se afastou para voltar a beijar os lábios do rapaz, que prontamente o retribuiu.

– Hyung? – Chamou Jaejoong contra o beijo.

– Diga, Jae.

– Você nunca mais vai sair daqui.

– E por que você acha isso?

– Eu sei que não vai. – Disse Jaejoong, vendo o rapaz se afastar. – Você viu a sua esposa hoje?

– Por que quer falar dela?

– Ela não sai mais do quarto, e não deixa o seu filho ir te ver. – Constatou Jaejoong. – Você não acha estranho?

– O que quer? Que meu filho conte para ela que você está comigo?

– Acredite, quando ela souber que eu estou aqui, eu mesmo irei contar. – Disse Jaejoong. – Eu só acho que você, como um bom pai, deveria verificar o que ela anda fazendo.

– Você sabe de algo que eu não sei?

– Claro que não, hyung, imagine só. – Mentiu Jaejoong. – Eu só acho que você deveria verificar, as vezes.

– Está bem, eu vou verificar.

Jaejoong abriu um largo sorriso com o rapaz concordando prontamente. Yunho colou os lábios aos dele imediatamente, logo que o rapaz parou de falar. Talvez Jae tivesse razão e fosse sua função como marido verificar se eles estavam bem. Ele deixaria aquilo para o dia seguinte, pois para aquela noite tinha outros planos. Ele o puxou pela mão e os dois se trancaram o resto da noite na cozinha, entre beijos e ingredientes.

Yunho nunca se sentira tão feliz quanto naquela noite. Jae sorria com ele, brincava com ele e ambos tinham a sensação de serem imortais e que aquele momento jamais terminaria. O loiro sentou-se no colo do outro logo que terminaram a sobremesa e daquela maneira eles passaram o resto da noite, entre beijos e carinhos íntimos e a sensação de pertencimento.

Yunho sabia que pertencia aquele lugar, aquele hotel, assim como Jaejoong. Era ali que ele deveria estar e de onde não desejava sair. Ele detestava pensar no final da temporada, detestava cogitar ir embora dali e o pior, abandonar seu querido desenhista. Jae já fazia parte de sua vida, era o que lhe dava ânimo e o fazia sentir-se homem novamente.

Do lado de fora, aproveitando que todos estavam trancados em seus devidos cômodos, Yoochun enfrentou a neve em direção ao jardim. Ele tratou de pegar sua tesoura de poda para cortar algumas folhas do leão que ele mesmo havia criado. Micky estava mais melancólico com a possibilidade de perder seu Junsu para o clima terrível das montanhas, ou pior, para o Overlook.

Ele sentia falta de um tempo antigo, em que tudo era mais simples entre ele e Junsu. Quando o rapaz sentia apenas medo e ele poderia observar sua graciosidade de longe. Ele se arrependia de ter se aproximado, de ter permitido que ele se apaixonasse. Micky ainda se lembrava de ter deixado uma rosa no travesseiro dele pouco antes do rapaz procura-lo e indaga-lo o motivo de sua presença constante.

Junsu era lindo aos seus olhos, mesmo quando o enfrentava. Yoochun o queria tão bem, queria tanto vê-lo feliz e livre como deveria ser. Agora ele estava envolvido com aquela família e esperava ansiosamente pelo sinal de Jaejoong. Sua banheira estaria constantemente cheia, e para emergências, a tesoura de jardinagem ficaria na sua gaveta de cabeceira.  E se aqueles três tentassem fugir, eles sempre poderiam contar com Radagast.

Com esse pensamento animador, Yoochun retirou uma última folha da orelha do leão e sorriu quando este voltou a se deitar sobre a neve que voltou a se precipitar. Micky fechou a tesoura com a ponta extremamente afiada e a guardou em seu bolso, para por fim voltar em direção ao hotel. A luz pálida da lua iluminava seu rosto sem vida. A possibilidade de usar aquele objeto pontiagudo o instigava, era como se ele sentisse novamente sangue morno em suas mãos. Era excitante, quase como estar vivo novamente.

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