Capítulo 02 – Little secret

A manhã do segundo dia da viagem de Yoochun chegou também ensolarada. Foi uma boa escolha não ir para a festa na noite anterior. Ele tivera uma noite devida de sono e acordou relativamente cedo e com disposição, ao contrário de seu irmão que estava apagado no quarto desde a madrugada anterior. Yoochun nem tinha certeza do quanto ele havia bebido ou que horas havia chegado, mas ele era grandinho, já sabia se cuidar.

Yoochun deixou seu irmão sozinho depois de tomar um demorado banho e trajar-se de roupas confortáveis. Ele atravessou os corredores agora vazios do hotel e seguiu para a cozinha, onde o café da manhã estava servido. Yoochun serviu-se de coisas pouco saudáveis, ovos e bacon destinados a turistas americanos, biscoitos e uma generosa xícara de café puro. Um café americano típico.

Yoochun decidiu aproveitar o sol e se acomodou em uma das mesas na área dos fundos do hotel. Enquanto caminhava pelo local ele procurou com o olhar aquele que conhecera no dia anterior, mas entenderia se Junsu ainda estivesse dormindo, afinal ainda era cedo. Quando não o encontrou ele se sentou em uma das mesas com guarda-sol, um tanto separadas da área de lazer.

Algumas pessoas estavam deitadas em redes ou sentadas na grama do local aproveitando a manhã. Yoochun as observava distraidamente enquanto comia seu café da manhã. Elas pareciam felizes, bem humoradas, rindo de piadas internas, das quais ele não fazia parte. Ele sentia falta de ter amigos, era estranho conhecer pessoas somente por associação de seu irmão. Eles não conviviam com os mesmos tipos de pessoas, desde que eram jovens. A grande exceção naquele momento era Junsu.

– Com esse café da manhã, você vai ter um infarto antes dos trinta!

A voz rouca do rapaz o sobressaltou e ele se virou repentinamente. Lá estava ele, parecia ainda mais belo naquela manhã, assim tão próximo. Ele estava suado e parecia um tanto cansado. Sua regata branca colava ao corpo, assim como a calça moletom, solta em suas pernas. Suor escorria de suas têmporas para seu pescoço, parando sobre a toalha de rosto que o envolvia. Junsu a retirou dali e esfregou seu pescoço e a colocou por baixo da regata, enxugando o suor dali, enquanto o fitava com ar meigo, mas desconcertou-se com sua falta de resposta.

– Lembra-se de mim?

– Claro, Junsu, como me esqueceria? – Disse Yoochun, finalmente saindo de seu transe e se levantando.

– Não chegue muito perto, eu estava correndo. – Disse Junsu dando alguns passos para trás. – Não estou cheirando muito bem.

– Tudo bem. – Riu-se Yoochun, finalmente percebendo o rapaz ao lado dele.

– Esse é Lee Donghae, meu amigo. – Apresentou Junsu. – Não chegue perto, ele está fedendo mais do que eu!

– Vocês estavam correndo?

– Sim, estamos praticando para a corrida de rua no fim do semestre. – Explicou Donghae – Eu vou pro quarto, o Hyuk deve ter acordado.

– Depois nos encontramos aqui para tomar café! – Disse Junsu, pouco antes do rapaz se afastar.

– Senta comigo! – Convidou Yoochun, repentinamente.

– Ah, eu adoraria, mas preciso mesmo de um banho. – Afirmou Junsu. – Ou vou tirar o seu apetite.

– Não está tão ruim. – Elogiou Yoochun.

– Gentileza a sua. – Riu-se Junsu. – Se você puder me esperar, eu só vou tomar um banho.

– Eu espero. – Disse Yoochun, se achando um completo bobo perto do rapaz.

– Se eu não voltar em quinze minutos, você pode ir embora! – Desafiou Junsu. – E eu vou trazer algo mais saudável do que os seus terríveis ovos com bacon.

– Não é tão ruim. – Defendeu Yoochun, o achando particularmente adorável com sua preocupação.

– É péssimo! – Reclamou Junsu. – Não coma isso, eu vou te trazer um desjejum melhor, me espere!

– Quinze minutos!

Yoochun cobrou quando o rapaz já corria para longe. Ele somente percebeu como deveria ter parecido bobo olhando para ele quando o rapaz já havia desaparecido. Era como se ele não tivesse controle de suas reações. Parecia que ele explodia em sensações e vontades quando estava próximo a ele, ou como se Junsu fizesse parte de um universo paralelo, onde Yoochun se sentia completamente a vontade.

O rapaz não se atrasou. Voltou correndo, já trajando roupas menos confortáveis e mais estilosas. Seus cabelos estavam desarrumados e ele usara um capuz para disfarçar, e agora cheirava a sabonete e desodorante masculino. Junsu voltou a sua companhia trazendo consigo dois pratos com diversos tipos de fruta, em seguida correu para dentro do local e voltou com dois grandes copos de iogurte de morango. Junsu deixou entre eles metade de um mamão com duas colheres dentro, e pegou uma para si a fim de começar a comer.

– Pode comer! – Disse Junsu.

– Mas não tem nem um biscoito.

– Você já comeu biscoito! – Reclamou Junsu, pegando uma colherada da fruta e o aproximando do rosto do outro. – Experimenta!

– Fruta logo de manhã? – Reclamou Yoochun, virando o rosto.

– Não tem horário melhor, o café da manhã é a refeição mais importante de todas! – Argumentou Junsu. – Experimente, eu não ia te sacanear com comida.

– Aish… – Riu-se Yoochun, finalmente abocanhando a porção que lhe era oferecida. – É estranho.

– Está docinho! – Sorriu-lhe Junsu, o vendo pegar sua própria colher e acompanha-lo. – Achei que você e o seu irmão só sairiam mais tarde, por causa da festa.

– Eu não fui. – Explicou Yoochun. – Não estava animado.

– Você levou aquela menina pro quarto, não foi não? – Supôs Junsu.

– Não, claro que não! – Negou Yoochun. – Aquilo terminou lá no bar. E por que mesmo você foi embora tão rápido?

– Eu só saí de lá porque encontrei o Hyuk e o Hae, não foi nada demais. – Explicou Junsu. – A Sora também estava me deixando desconfortável, mas isso não tem tanta importância.

– Desconfortável? Como assim?

– Ela estava… ela queria… – Junsu procurou as palavras certas, e como não as encontrou, tratou de tomar de seu iogurte.

– Você está corando. – Afirmou Yoochun. – E por que você não deu o que ela queria?

– Porque eu não quis. – Disse Junsu baixando o copo, vendo Yoochun rir de seus lábios sujos com o liquido rosa.

– Não gostou dela?

Junsu negou com a cabeça, limpando seus lábios com o guardanapo.

– Ela era bonita. – Argumentou Yoochun.

– Não gostei mesmo assim. Ela ficava se jogando em cima de mim, e se encostando, se pendurando, eu não gosto que invadam meu espaço particular.

– E como você espera encontrar uma namorada?

– Não quero namorar ninguém agora! Eu estou vendo pelo Hyuk, nós nos conhecemos há anos, e é a primeira vez que ele namora alguém. Agora está todo bobo, preparando café da manhã, andando de mãos dadas, saindo para ir ao cinema, um bobalhão!

– Ele deve estar apaixonado então. – Constatou Yoochun, mordendo um morango.

– Acho que sim. – Disse Junsu, dando de ombros. – Você já se apaixonou alguma vez?

– Eu já tive uma namorada.

– Não foi isso que eu perguntei. – Riu-se Junsu.

– Não, eu não sei como é se apaixonar.

– Acho que o primeiro sintoma é a cara de bobo, né? – Disse Junsu, corando brevemente.

– Imagino que sim. – Afirmou Yoochun, deixando seu olhar percorrer pelas feições do outro. – E você? Já se apaixonou?

Junsu voltou a negar, desta vez enquanto saboreava um cacho de uvas. Yoochun manteve o silencio, apenas observando as ações do rapaz. Como seus dedos longos retiravam as pequenas frutas e as levavam aos seus lábios grossos, saboreando-as suculentas e adocicadas. Junsu ergueu o olhar com o silêncio do outro, e o ofereceu das frutas que comia, o vendo negar pela segunda vez. Yoochun o olhava diferente. Era estranho se sentir tão bem próximo a uma pessoa que ele acabara de conhecer.

– Posso te perguntar uma coisa? – Indagou Yoochun.

– Claro.

– Você acredita em amor a primeira vista?

– Por que quer saber? – Disse Junsu, arqueando as sobrancelhas.

– Meu irmão veio falar sobre isso ontem. Ele disse que viu acontecer.

– É mesmo? E de quem ele estava falando? De você e da moça lá do bar?

– Acho que não, mas se foi, ele estava redondamente enganado. – Explicou Yoochun. – Você acredita?

– Acho que sim. Acho que quando eu encontrar a minha alma gêmea eu vou saber que é ele.

– Assim de primeira?

– Sim, logo de primeira! – Sorriu-lhe Junsu. – Mas eu não vou contar.

– Por que não?

– Porque também quero que ele perceba que é minha alma gêmea.

– Ele?

– É, ele.

Junsu corou violentamente, quando Yoochun arqueou as sobrancelhas em surpresa. Não que ele não tivesse suas suspeitas, mas não esperava uma confissão assim tão repentina. Seria mesmo um segredo ou somente ele não sabia? A saída pela tangente do bar no dia anterior também fazia sentido, uma vez que ele não deveria ter interesse algum naquela moça, por mais bela que fosse.

– Eu preciso ir! – Anunciou Junsu, repentinamente se levantando. – Pode ficar com os outros morangos.

– Não, não precisa! – Exclamou Yoochun, observando o nervosismo do rapaz.

– Eu prometi para o Hae… e tem treino daqui a pouco… desculpe!

Junsu não esperou seu argumento e correu hotel adentro. Yoochun o viu quando ele esbarrou em um rapaz, quase o derrubando, mas sem se importar em pedir desculpas. Yoochun sentiu que havia estragado tudo. Junsu deveria estar esperando uma reação, negativa ou positiva, mas ele foi incapaz de faze-lo, por ficar criando hipóteses em sua mente. No entanto, Yoochun não pensava naquilo de forma negativa. Junsu era gay, estava tudo bem.

Junsu correu escadaria acima, ainda sentindo seu rosto corado. Ele cogitou chamar por Hyukjae, mas Donghae não havia descido para o desjejum, o que significava que eles deveriam estar em um momento íntimo. Junsu corou ainda mais ao pensar no assunto e tratou de entrar no quarto que dividia com seu irmão.

Junho estava deitado sobre a cama, escrevendo uma mensagem em seu celular quando seu irmão atravessou o quarto, e voltou, e o cruzou mais uma vez, olhando para suas mãos enquanto brincava com seus dedos. Junho deixou seu celular de lado e se levantou, parando de frente para seu irmão que de imediato parou de caminhar, e o fitou com ar preocupado. Algo havia acontecido.

– Eu contei para o Yoochun-sshi que eu sou gay. – Disse Junsu. – Não devia ter feito isso.

– Ele te disse alguma coisa? – Indagou Junho já cogitando enfrentar o rapaz.

– Não, ele não disse nada, não fez nada, só ficou me olhando. – Disse Junsu, voltando a fitar seus próprios dedos. – Ele é um cara legal, mas acho que eu assustei ele.

– Por que você contou pra ele, Su? Ele te perguntou?

– Não. Eu estava a vontade, falando de amor a primeira vista e escapou. – Afirmou Junsu. – Eu meio que falei sem pensar.

– Su, você conheceu ele ontem, como pode se sentir tão a vontade assim? Você nem sabe se ele é confiável! O cara não tem amigos, não fala com quase ninguém, você não pode acreditar que todas as pessoas são boazinhas.

– E se ele contar pra todo mundo?

– Aí você ri e fala que ele mentiu! – Disse Junho. – A menos que você queira que todo mundo saiba.

– Não! Eu não vou poder ficar no time de futebol se eles souberem! Você lembra como foi na escola!

– Quer que eu fale com ele?

– Não, não precisa. – Disse Junsu. – Eu posso dar um jeito.

– Depois do treino. – Chamou Junho. – Vai pegar sua roupa.

Junho o viu arrumar em uma bolsa o que usaria naquele dia. Ele detestava ver seu irmão preocupado daquela maneira. Junsu era sensível e delicado, e ele sentia que era de sua responsabilidade cuidar dele desde que eles eram muito jovens. A fragilidade sentimental de seu irmão era grande em demasia, e ele não deixaria que nenhum recém chegado usasse isso em favor próprio.

Junsu terminou de se arrumar e eles seguiram para o campo. No térreo eles encontraram Donghae e Hyukjae, finalmente tomando seu desjejum. Eles o chamaram para ir ao cinema a tarde e Junsu prontamente aceitou. Talvez ele precisasse de alguma distancia de seus colegas de classe e de time para depois resolver sua pendência com seu novo amigo. O que estaria Yoochun pensando dele afinal? Estaria ele nesse momento rindo de sua situação?

Yoochun por sua vez havia voltado para seu quarto e passado alguns minutos com sua mãe ao telefone, antes de seu irmão acordar assustado dizendo que estava atrasado com o treino. Ele precisava conversar novamente com Junsu, precisava esclarecer tudo. Ele não poderia se afastar assim, não era justo com Yoochun que o queria tão bem. Bem demais. Ele tentou tirar aquilo da mente, quando viu seu irmão sair do banheiro, passando os dedos pelos cabelos sem verdadeiramente penteá-los.

– Você vai treinar? – Indagou Yoochun.

– Eu volto para o almoço, você pode dar uma volta enquanto isso. – Disse ele apressado.

– O Junsu vai?

– Claro, ele tá no time, por que? – Disse Yoohwan desconfiado.

– Eu preciso falar com ele.

– Precisa? É tão urgente assim?

– Não, não é urgente. Só… nós tomamos café juntos e ele saiu correndo.

– Explica isso direito! – Ralhou Yoohwan.

– Aish, só dá o recado! – Reclamou Yoochun, se jogando sobre a cama e ligando a televisão.

– Tá bem, fica com o seu segredinho!

Yoochun revirou os olhos e cruzou os braços em frente ao peito, enquanto seu irmão se despedia e saía correndo para comer qualquer coisa antes do treino. Aquela manhã ainda se arrastaria antes dele se encontrar com Junsu, o que o deixou ainda mais agoniado. Ele decidiu que precisava se distrair, fazer algo, foi quando se lembrou que tinha acesso a piscina do complexo esportivo.

Umas braçadas o ajudariam a se distrair, certamente. Yoochun sem demora reuniu seus pertences e seguiu para o complexo esportivo, satisfeito ao ver a piscina aberta e algumas poucas pessoas ali. Ele não queria ser incomodado. Yoochun era um bom nadador, fizera aulas de natação desde muito pequeno e era rápido na piscina. Seu irmão não tinha tanto talento para a água, mas em alguma coisa ele deveria supera-lo.

O treino de Yoohwan não foi nada produtivo. Mais da metade do time havia virado a noite na festa e estavam de ressaca, e Junsu não conseguia se concentrar. Eles passaram o resto da manhã discutindo táticas no vestiário, pois de nada adiantaria se forçarem no campo. Quando concluíram o que faziam, o capitão os liberou para o almoço e para que descansassem a tarde, antes da festa daquela noite e finalmente do jogo do dia seguinte.

– Hey, Su-hyung, o meu irmão pediu pra você esperar por ele! – Chamou Yoohwan enquanto Junsu guardava seus pertences na bolsa lateral que carregava.

– Ele pediu?

– Sabe do que se trata? – Interrompeu Junho.

– Ele não quis me dizer, mas o que eu posso fazer? Ele nunca me diz nada mesmo!

– Está bem, ele quer que eu espere na saída? – Indagou Junsu.

– Acho que sim. – Yoohwan deu de ombros.

Os gêmeos se entreolharam desconfiados. Eles não tinham certeza das intenções de Yoochun, e não saberiam antes de Junsu ir encontra-lo. Junho o avisou antes de sair que ele deveria encontra-lo e dependendo do conteúdo da conversa, ele agiria, impedindo Yoochun de se aproximar mais de seu irmão ou de prejudica-lo. Ele não deixaria que aquele rapaz o magoasse, nem que para isso tivesse que usar Yoohwan como arma.

Meia hora antes do treino de Junsu terminar, Yoochun deixou a piscina. Ele precisava estar apresentável e para isso era necessária uma boa ducha para tirar o cloro de seus cabelos ondulados e brevemente compridos. Ele ainda permaneceu alguns instantes em frente ao espelho os arrumando, mas saiu do local pouco satisfeito. No entanto, ele precisava ser pontual, ou Junsu poderia sair correndo novamente.

Ele se recostou ao muro e colocou seus fones de ouvido enquanto esperava pelo rapaz sair pelo mesmo portão que esperara seu irmão no dia anterior. Yoohwan foi o primeiro a sair, ao lado de outro colega e o avisou para encontra-lo no hotel depois que falasse com Junsu. Yoochun pediu que o esperasse para o almoço e mais tarde iria com ele para a festa, mas antes, precisava se encontrar com o rapaz.

Yoohwan riu-se mais uma vez de seus segredos com o outro e o deixou sozinho. Junho saiu em seguida e o encarou demoradamente quando passou por ele, e como bom orgulhoso, Yoochun o encarou de volta. Ele não sabia por que estava sendo desafiado, mas não baixaria a guarda diante do gêmeo de seu querido Junsu. O rapaz foi embora e por último seu irmão apareceu.

Junsu brincava com seus dedos, em função de seu nervosismo. Ele sentiu seu estomago revirar assim que viu Yoochun ali parado, mexendo em seu celular enquanto ouvia música. Por que ele tinha que ser tão bonito?  Ele se aproximou do rapaz a passos lentos e este sorriu discreto quando seus olhares se encontraram. Ele estava sorrindo, mas Junsu não tinha certeza se ele estava sendo falso ou tentando acalma-lo.

Junsu expirava insegurança pelos poros de sua pele. Ele estava amedrontado, e isso causava uma sensação estranha em Yoochun. Ele queria abraça-lo, com força, protege-lo daquilo que o assustava. Ele ainda não sabia que ele era o motivo de sua insegurança. Yoochun desligou seu celular e o guardou em sua mochila, jogando os cabelos para trás antes de começar.

– Você saiu correndo hoje.

– Saí sim. – Concordou Junsu. – Você ia rir de mim, aposto que vai rir agora.

– Não, eu não vou rir. – Afirmou Yoochun. – O que eu queria te dizer, é que está tudo bem.

– Eu não sei porque te contei aquilo. – Disse Junsu. – Eu nem confio em você.

– Eu sei. – Disse Yoochun, mais uma vez arrogante. Era sua maneira de demonstrar seu desapontamento. – Mas eu não vou contar pra ninguém, isso não é problema meu.

– Não mesmo! – Afirmou Junsu.

– Eu não quero te prejudicar, eu não ligo se você é gay! – Afirmou Yoochun sem encontrar as palavras certas. – Você não precisa ficar bravo.

– Não estou bravo. – Confessou Junsu, se recostando no muro ao lado de Yoochun, ainda fitando seus próprios dedos. – Esse é o meu segredo, e se eles souberem, vão me tirar do time de futebol!

– Por que? Gays jogam mal? Se for assim você é uma exceção!

– Eles não vão querer dividir o vestiário comigo. – Explicou Junsu, desviando o olhar ao rapaz. – Você ficaria nu na frente de um homem gay?

– Não, acho que não. – Disse Yoochun. – Eu não beijaria outro homem nem que tivesse bebido todo o soju do mundo, muito menos ficaria sem roupa.

– É por isso que ninguém pode saber, por isso que eu não devia ter te contado! Eu sou um bobão mesmo!

– Está tudo bem, eu não vou contar! – Repetiu Yoochun. – Não quero estragar a sua vida, por que eu faria isso?

– Eu nunca contei isso para ninguém, mesmo com todo mundo sendo meio desconfiado. Só o meu irmão sabe, porque ele… aish, eu fico contando as coisas pra você!

– Se eu te contar um segredo meu, você se sentiria melhor?

– Que segredo?

– Ah, um bem cabeludo. – Disse Yoochun, sorrindo e o puxando pela mão para que caminhasse ao seu lado. – Daqueles que se você contar, vão poder rir de mim pelo resto do ano.

– Eu quero dois segredos! – Disse Junsu. – Dois segredos grandes!

– Então eu posso escolher um lugar pra te contar. – Exigiu Yoochun.

– Onde?

– Eu preciso de uma sombra e um copo grande de suco, o que você acha?

– Suco de que?

– Do que você quiser!

– Morango com leite!!

Yoochun havia finalmente arrancado outro sorriso do rapaz tímido. Ele seguiu com ele a uma casa de lanches ali perto que Junsu conhecia e onde havia provado um delicioso suco de morango com leite. Eles mudaram de assunto até se sentarem em um canto afastado e serem devidamente servidos com uma bebida apetitosamente gelada. Yoochun provou do mesmo suco que Junsu e concordou com ele quanto ao seu frescor e sua doçura.

– É gostoso. – Elogiou Yoochun, recebendo um aceno afirmativo do outro rapaz, que bebia o suco sem parar.

– Eu vou querer mais um, depois! – Disse Junsu, empolgado. – E você? Não vai me contar os seus segredos?

– Quer tanto assim saber?

– Você prometeu. – Cobrou Junsu.

– Bem, eu tenho um que eu sei que você vai rir. – Começou Yoochun. – Você conhece os Backstreet Boys?

– Conheço. – Disse Junsu, sorrindo discreto e arregalando os olhos.

– Quando eu era adolescente, eu era um grande fã deles, em segredo. – Explicou Yoochun. – Ninguém sabia, mas até revistas deles eu tinha escondido no quarto. Elas ficavam embaixo da cama e tinha os perfis dos integrantes, fotos, pôsteres, letras de música, tudo!

Junsu riu discreto, cobrindo os lábios com as mãos.

– Eu sei cantar As long as you love me e Shape of my heart até hoje! Se você quiser, eu posso cantar pra você! – Disse Yoochun, vendo o outro rir novamente. – Mas esse não é o grande segredo.

– E tem mais?

– Bem, quando eu tinha dezesseis, eu decidi que queria ter o cabelo igual do Nick Carter, você sabe quem é? É o loiro.

– Era o mais bonito! – Constatou Junsu.

– Sim, eu sei! – Concordou Yoochun, fazendo o outro rir. – Mas ao invés de descolorir meu cabelo com um profissional, eu resolvi fazer em casa, sozinho!

Junsu voltou a rir.

– Claro que deu errado, e parte do meu cabelo quebrou e caiu! – Explicou Yoochun, vendo o outro rir mais. – Então, eu tive que ficar com ele loiro e extremamente curto. Fiquei com cara de delinquente que rouba cigarros nas lojas de conveniência e tive que usar boné na escola durante um mês!

– Ficou muito feio?

– Não, Su, ficou horrível!! – Disse Yoochun fazendo o outro rir mais.

– Esse seu segredo é engraçado! – Constatou Junsu.

– E é por isso que você não pode sair contando por aí, não quero todo mundo rindo de mim! – Afirmou Yoochun. – Antes de eu contar o outro segredo, quer me contar como o seu irmão soube do seu segredinho?

– Foi meio assustador para ele no começo. – Afirmou Junsu. – Ele me viu beijando um amigo dele na cozinha. Primeiro ele ficou muito bravo, disse que ia contar para o appa, que eu ia apanhar até virar homem, essas coisas. Depois ele ficou triste, desapontado, e até chorou. E então ele decidiu que ia cuidar de mim, que ia me ajudar a guardar o meu segredo e não deixaria nada de mal me acontecer. Eu cuido dele também, mas acho que ele é mais eficiente do que eu nisso.

– Ele te apoia agora?

– O tempo todo! – Disse Junsu, sorrindo discreto. – E mente por mim o tempo todo também. Eu devo muito ao meu irmão, nem sei onde eu estaria sem ele hoje em dia.

– Meu outro segredo é sobre o meu irmão também, mas não é tão engraçado. – Disse Yoochun.

– O que houve?

– O Yoohwan sempre foi melhor do que eu, em várias coisas. Eu já aceitei isso, mas quando você é adolescente, isso não é tão fácil. Eu morria de inveja do meu irmão, dos prêmios dele, das namoradas lindas que ele levava pra casa, dos talentos dele. No segundo baile de primavera da nossa escola, ele ganhou o título de rei do baile e a namorada dele a rainha.

– Ele nunca contou isso para nós.

– Aqui não tem baile de primavera, nem livro do ano… ele deve achar que não tem importância para vocês. – Afirmou Yoochun. – A questão é que, naquele ano, eu tinha quase reprovado em algumas matérias, estava de castigo pelas notas baixas, enquanto ele era coroado como o cara mais popular da escola. Aquilo me irritou, Su.

– Eu imagino que sim.

– Então, eu juntei os meus amigos e decidi pregar uma peça no meu irmão. Nós vestimos máscaras de filme de terror, um era o Fred Krueger, eu era o Pânico, essas besteiras. Nós pegamos facas de plástico, e quando ele ficou sozinho com a namorada, nós saímos correndo e gritando. Eles estavam namorando em um lugar afastado, se assustaram e saíram correndo também. Nós só paramos quando os dois caíram na piscina suja da escola. Então eu fui embora, me livrei da máscara e fui para casa.

– E o que houve com o seu irmão?

– Ele caminhou com a roupa molhada até em casa, em um clima de cinco graus centígrados. Ele teve hipotermia, depois um resfriado que culminou em uma pneumonia. Eu quase matei o meu irmão, porque tive inveja dele, por uma idiotice.

– Eu sinto muito, Micky. – Disse Junsu, tocando as mãos do outro com a ponta dos dedos.

– Esse é o meu segredo. Até hoje o Yoohwan não sabe que era eu correndo atrás dele naquela noite e se ele souber, vai ficar muito bravo comigo. Por isso eu quero que você guarde esse segredo, tão bem quanto eu vou guardar o seu.

– Você ainda tem inveja do Yoohwan?

– As vezes. – Afirmou Yoochun. – Mas tem uma coisa que eu sou melhor do que ele!

– O que?

– Eu sou um bom nadador! – Gabou-se Yoochun.

– Eu não sei nadar. – Contou-lhe Junsu. – Tenho medo de me afogar, não gosto de piscinas!

– Eu posso te ensinar um dia desses. – Ofereceu Yoochun. – Pra você perder esse medo.

– Você não iria deixar eu me afogar?

– Claro que não, eu ia te segurar! – Disse Yoochun, vendo o outro corar e voltar a tomar de seu copo já quase vazio. – Quer mais um suco?

– Não, eu estava sendo guloso. – Disse Junsu, rindo-se novamente. – Obrigado por guardar o meu segredo.

– Por que você acha que eu contaria para alguém? Eu nem tenho amigos, nem tenho para quem contar!

– Nem todo mundo é bonzinho. – Explicou Junsu, copiando a frase de seu irmão. – Mas agora nós dois temos segredos em comum, então se você contar o meu eu conto o seu.

– Exatamente. – Sorriu-lhe Yoochun.

– Eu não sei porque você tem inveja do seu irmão, você sai com tantas meninas e é tão inteligente e bonito.

– Eu sou bonito?

– As meninas da minha sala dizem que é. – Disse Junsu, corando discretamente.

– Você me acha bonito, não acha?

– Pare de ser bobo!

– Sairia comigo?

– Está m-me chamando pra s-sair? – Disse Junsu, cobrindo parte do rosto que ainda estava corado.

– No, baby, no. – Disse Yoochun, retirando as mãos do rosto do outro, pois queria fita-lo. – Mas se eu chamasse, você iria?

– Não sei, você é um cara legal. – Disse Junsu, sem jeito. – Por que está perguntando isso?

– É assim que funciona entre dois caras? Um chama o outro pra sair?

– Não sei, ninguém nunca me chamou pra sair. – Disse Junsu.

– Mas você beijou o cara lá na cozinha.

– Mas nós nunca saímos. Eu nunca tive um encontro, Chunnie.

– E como você faz pra ter um namorado?

– Eu também nunca tive um. – Disse Junsu, rindo sem jeito.

– Por que não?

– Porque eu quero um amor a primeira vista, como o seu irmão disse que viu acontecer. – Explicou Junsu. – Eu não quero um homem perfeito, mas quero um que me faça eu me sentir a vontade, e que seja gentil e que faça com que os nossos momentos juntos sejam especiais.

– Todos os momentos tem que ser especiais?

– Quando você está com quem gosta, não precisa de muito para ser especial. Uma tarde de sol, uma lanchonete em uma cidade do interior, um copo de suco de morango é suficiente.

Yoochun não conteve um sorriso, por mais que mais tarde naquele dia tivesse se arrependido de sorrir. Ele colocou seus cabelos para trás da orelha enquanto fitava o rapaz a sua frente, parecendo ponderar sobre o que havia acabado de falar. Foi a vez de Micky tocar as mãos do rapaz sobre a mesa, apenas um roçar, para consola-lo por mais uma vez acreditar que havia falado demais.

Junsu não deveria fazer ideia de como o fazia bem, como era bom ter ele ao seu lado. Não devia estar ciente do quanto Yoochun queria abraça-lo e sentar-se no sol para ouvi-lo falar sobre tudo o que ele desejasse. Como ele olharia por horas a fio aquele sorriso doce e inocente que o rapaz possuía. Ele queria demais, de alguém que sequer era seu amigo.

Yoochun repentinamente se levantou, deixando o rapaz um tanto confuso. Ele o observou e o viu pagar pelo consumo dos dois e pedir outro suco de morango com leite para viagem. Junsu se levantou quando o outro rapaz voltou trazendo consigo o copo ainda gelado, sorrindo com o canto dos lábios.

– Eu preciso te devolver para o seu irmão e os seus amigos agora. – Disse Yoochun. – Eu te trouxe outro suco para você tomar no caminho.

– É para mim? – Surpreendeu-se Junsu, finalmente pegando o copo que lhe era oferecido. – Por que?

– Porque você gosta. – Yoochun deu de ombros e se afastou do rapaz que o fitava profundamente.

“Thank you”

Yoochun riu e voltou-se ao rapaz que tinha um sotaque muito puxado e não sabia falar inglês. Junsu o alcançou, tomando de seu suco enquanto caminhava para fora do local. Micky deixou seu olhar recair sobre o rapaz que caminhava ao seu lado. De fato, ele não estava apaixonado, afinal ele não era como o outro, apenas o achava interessante. Muito mais interessante do que qualquer outra moça que ele pudesse ter conhecido.

Eles caminharam lado a lado enquanto conversavam sobre assuntos aleatórios. Vez ou outra Junsu o empurrava, e Yoochun respondia beliscando-o. Eles brincaram assim o caminho todo e há muito tempo Micky não se sentia tão bem. Talvez fosse o clima delicioso daquela tarde, ou a paisagem bela no caminho até o hotel, ou o mais provável, a companhia agradável do rapaz que não se cansava de agradecê-lo pelo suco.

Quando os dois chegaram ao lobby do hotel, Yoohwan os recebeu reclamando, pois os havia esperado até então e por culpa deles não havia almoçado. Yoochun estava tão bem humorado que não estava disposto a retrucar as críticas rabugentas de seu irmão. Não demorou muito e Junho se aproximou deles, com cara de poucos amigos.

– Su, o Hae e o Hyuk estão te esperando para ir ao cinema! – Avisou Junho, com os braços cruzados em frente ao peito.

– Eu estava me esquecendo! – Disse Junsu. – Obrigado pelo suco, Micky! Thank you!

– Está tudo bem! – Disse Yoochun entre risos. – Nos vemos na festa hoje a noite!

– Ah, eu não vou. – Disse Junsu.

– E por que não? A Sora ainda não desistiu de você! – Disse Yoohwan, na tentativa de convence-lo.

– Ah, é mesmo? – Disse Junsu fazendo uma careta.

– Nós damos um pulo lá mais tarde, está bem? – Disse Junho, puxando seu irmão discretamente pela barra da camiseta.

– Claro. – Afirmou Yoochun, sorrindo discreto para Junsu.

– Até mais tarde!

E com essa sentença, Junho deu-lhe as costas, puxando seu irmão pelo pulso, o vendo acenar com a mão livre. Yoochun sabia que devia explicações ao seu caçula, mas não o daria. Não explicaria seu sumiço durante todo aquele tempo, tampouco os sorrisos e olhares que trocara com Junsu. Ele deixaria Yoohwan tirar suas próprias conclusões, ainda que essas fossem errôneas e fantasiosas, como na noite anterior quando eles falavam de amor a primeira vista.

Yoochun almoçou com Yoohwan e seus amigos assim como havia prometido e observou de longe quando Junsu deixou o hotel para ir ao cinema. Ele o acompanhou com o olhar até perceber a feição reprovadora de Junho que havia se juntado a eles. O gêmeo de Junsu não trocou mais de meia dúzia de palavras com ele, tampouco parecia animado com sua aproximação.

Junho não confiava nele e estranhava suas intenções. O que aquele rapaz, que não se aproximava de ninguém a não ser as pessoas com quem tinha intenção de transar, poderia querer com seu irmão, afinal? Ele permaneceu próximo ao outro, esperando que ele deixasse escapar algo que pudesse querer com Junsu, mas Yoochun mal falava ou interagia com as pessoas que estavam a sua volta. E Junho detestava aquela arrogância.

Apesar de ter se visto obrigado a socializar com os amigos de seu irmão o dia todo, sua mente estava em outro lugar. Yoochun estranhava tais reações em si mesmo, principalmente quando sua mente começava a ponderar sobre a sexualidade do rapaz, ou assuntos que tinha tratado com ele. Não que ele compartilhasse com alguém tais pensamentos e questionamentos, tampouco os deixava perceber suas reações.

Ele repassava seus momentos com Junsu, como um filme do qual ele não enjoava e algumas vezes acreditava que o irmão dele sabia em quem ele pensava. Junho era tão bonito quanto ele, mas Junsu tinha um brilho especial. Algo que ele não conseguiria descrever, ou nominar, apenas conseguia apreciar em silêncio. Micky não via a hora de encontra-lo novamente, de estar a sós com ele, de tocar suas mãos macias e sentir sua pele morna sob seu tato. Era como ter um anjo, ao alcance de suas mãos.

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