Capítulo 04 – Drowning

oncecap4

O clima havia piorado na noite anterior e a manhã chegou nublada com ameaça de chuva. Junsu corria no lugar, se aquecendo antes do jogo, em um canto do campo. Era um jogo decisivo e pela contagem de pontos, se eles ganhassem iriam diretamente para a final, se perdessem dependeriam da derrota de outra faculdade para continuarem na competição. Junho estava ao seu lado, também se aquecendo e alongando.

Ele já o havia avistado. Yoochun havia chegado cedo e o cumprimentara por trás da grade de proteção. Ele o desejara boa sorte e por mais que ele estivesse cansado por ter dormido pouco, aquilo o havia animado. Ele agora o via sentado em sua confortável cadeira, separado de seus colegas, saboreando um delicioso pacote de amendoim doce. Ele estava atraente aquela manhã e Junsu se preocupava em como se concentraria com aquele homem na plateia.

Junho olhava para ele com o canto dos olhos. Ele não estava preocupado com o jogo, mas com seu irmão. Ao mesmo tempo em que se convencia que estava fazendo tempestade em copo d’água, ele acreditava cada vez mais fortemente o quão interessado Junsu estava. Ele sabia que chegaria o dia em que seu irmão cairia por outro cara, apenas desejava um menos cretino do que o que ele escolhera.

Micky o observava atentamente como da primeira vez. Apenas o achava ainda mais bonito. Ainda aquela manhã ele se livrara da moça da noite anterior com um fora categórico. Ele sabia que poderia ter perdido a oportunidade de namorar uma moça bonita e interessante, mas não perderia a de se aproximar de Junsu e de torcer por ele em todos os jogos ou de vê-lo sorrir em um gol de seu time.

O jogo começou. O outro time era relativamente forte, de porte um tanto mais atlético do que o de Junsu, no entanto eles eram mais habilidosos. Yoochun tentava se conter, mas sorria sempre que o rapaz fazia um passe visivelmente difícil, ou bloqueava algum jogador apropriadamente. Ele não era o tipo que se manifestava em jogos, no entanto haviam certos momentos do jogo que tornava impossível não gritar ou xingar.

Yoochun se irritou especialmente quando um jogador do time adversário fez questão de dar uma forte joelhada na coxa de Junsu. O distraído juiz sequer paralisou o jogo, enquanto, agoniado, Yoochun observava o rapaz mancar enquanto corria. Aquilo era absurdo, e se ele estivesse realmente machucado? Ele ficou excepcionalmente satisfeito ao ver o primeiro tempo acabar e Junsu se afastar para o vestiário. Micky se posicionou próximo à grade de segurança, esperando a volta do rapaz.

Quando o time voltou para se alongar mais uma vez, seu olhar encontrou o de Junsu, que sorriu o tranquilizando. Aquela talvez fosse sua maneira de dizer que estava tudo bem, que ele não deveria se preocupar. Yoochun retribuiu o sorriso, acreditando no olhar do rapaz e finalmente voltou ao seu lugar, então percebendo que Hyorin, a moça com quem dormira estava sentada ao lado, com dois copos gelados de cerveja na mão.

Yoochun suspirou pesadamente e se sentou ao lado desta, uma vez que não fugiria como um idiota. Ela entregou um dos copos em sua mão e ele prontamente a agradeceu. Yoochun conhecia moças como ela, que não desistiam com tanta facilidade, que não aceitavam não como resposta. Não necessariamente estavam apaixonadas, apenas eram orgulhosas demais para serem tão facilmente despachadas. Yoochun voltou a olhar Junsu quando ela se manifestou:

– Sabe, nossa última noite foi mágica, você não acha?

Yoochun deu de ombros, bebericando de seu copo.

– Você é sempre assim no dia seguinte? – Indagou ela.

– Sempre. – Disse Yoochun. – O jogo vai começar.

Com essa conclusão ela ficou em silêncio e Yoochun se permitiu voltar a observar seu querido Junsu. O rapaz corria com graciosidade e ele o achava adorável mesmo quando estava irritado com alguns passes errados de seus colegas. Micky somente se manifestou quando o time de sua faculdade finalmente fez o gol que decidiu o difícil jogo. Ele se levantou logo que o rapaz se aproximou para comemorar.

Enquanto o time corria para se abraçar e cumprimentar, Junsu correu em sua direção. Yoochun não se conteve e derrubou seu copo ao correr para a grade, onde se encontrou com o rapaz que ria divertidamente. Junsu escalou a grade, e Yoochun fez o mesmo para ficar da mesma altura do rapaz, eles só pararam quando seus dedos se encontraram por entre os furos do arame e se entrelaçaram. Junsu parou de rir e Yoochun parou de comemorar, logo que suas peles se encontraram.

O rosto de Junsu estava tão perto, que se não fosse a grade de proteção ele teria o tocado. Seus cabelos bagunçados pela corrida e o suor escorria em suas têmporas e na ponta de seus fios. E aqueles olhos grandes que o analisavam, que pediam por carinho, por um beijo que o levasse para longe daquele campo de futebol. Junsu espalmou a mão e a de Yoochun o acompanhou, a pressionando contra a dele, sendo atrapalhado somente pela grade. Era um momento íntimo e não durou mais que alguns segundos, mas foi memorável.

Eles somente despertaram com as vozes de Yoohwan e Junho chamando para que Junsu voltasse ao jogo. Yoochun riu e desceu da grade ao mesmo tempo em que o rapaz que ainda sorria para ele. Micky voltou ao seu lugar e se sentou ao lado da moça que o observava curiosa. Era de longe a comemoração mais estranha e suspeita que ela já vira. Ela ainda o julgava quando o moreno sentou-se ao seu lado.

– Você e o Junsu-oppa são bem próximos não é?

Yoochun deu de ombros mais uma vez.

– Vocês parecem próximos. – Insistiu a moça. – Ele tem namorada?

Yoochun negou, ainda silencioso.

– Estranho, ele é tão bonito e até o irmão dele sai com algumas meninas as vezes, mas ele não!

– E daí?

– Você não acha estranho?

– Eu deveria?

– Deve ser porque você é americano, aqui na Coreia as coisas são diferentes.

Yoochun deu de ombros mais uma vez por mais que tivesse captado perfeitamente as insinuações dela. Ela desconfiava da homossexualidade de Junsu, e agora da sua, devido a sua proximidade. Claro que sua frieza logo a afastaria, mas ele temia dar uma justificativa para seu comportamento e aumentar as suspeitas da moça. Ele a queria longe, e que ela se esquecesse da noite anterior.

Com esse intuito, Yoochun decidiu que não veria o final do jogo. Ele se despediu da garota e saiu dali o mais rápido que conseguiu. Ele seguiu para a área as piscinas, onde sabia que o resto do time se encontraria depois do jogo, como seu irmão o dissera naquela manhã. Não havia ninguém ali àquela hora, por conta dos jogos e da ameaça de chuva. Yoochun sentou-se em uma das mesas com guarda-sol e ali ele esperou.

Quando o jogo finalmente acabou, Junsu estava cansado, um tanto estressado, mas satisfeito. Eles haviam ganhado por apenas um ponto de diferença, o que significava que o jogo final seria terrivelmente mais difícil do que aquele. Enquanto saía do campo abraçado ao seu irmão, ele voltou seu olhar para o local onde Yoochun estava antes acomodado e apenas encontrou duas garotas reclamando da vida. Aquilo o desapontou.

Ele desejava conversar com o rapaz, sobre o jogo, suas reclamações, dúvidas, inseguranças, no entanto Micky não estava lá. Talvez estivesse por aí com alguma moça, ou descansando em seu quarto. Assim que adentrou o vestiário, Junsu se trancou em um dos boxes, a fim de tomar seu banho e ficar sozinho com seus pensamentos. Ele não queria ninguém o acusando de estar silencioso ou pensativo demais.

Ele gostava de pensar em Yoochun, de se lembrar dele, de seus toques, seu sorriso, seu cheiro, e era difícil se prender a realidade quando estava ao lado dele. A difícil realidade de que ele jamais o pertenceria. Junsu era romântico, dedicado, gostava de fantasiar situações que sabia que jamais aconteceriam daquela maneira. Era seu jeito de ver o mundo, algo único e que ele ainda não sabia, mas fascinava Yoochun.

Quando Junsu terminou seu banho, apenas seu irmão o esperava no vestiário. Aquilo o tranquilizou, pois ele não ficava nu na frente de outros jogadores de seu time. Junho vivia repetindo que aquilo era bobagem, que nenhum deles olharia para ele, mas ainda assim o rapaz insistia em se trocar dentro do box e sair devidamente vestido, mesmo com a barra da calça úmida.

Junho estava preocupado com seu irmão e o queria longe de Yoochun, mais do que nunca. No entanto, ele não era sua propriedade e aquela decisão não pertencia a ele. Restava a Junho, como bom irmão, ficar de olho para que seu sensível Junsu não metesse os pés pelas mãos em função de seu sentimentalismo bobo e exagerado. Junsu vestiu as calças e se acomodou ao lado de seu irmão, que deixou-se sorrir para ele.

– Você está sério hoje, parece preocupado. – Constatou Junsu.

– Eu estou preocupado com você, só isso.

– Por causa do Chunnie?

– Eu sou seu irmão gêmeo, preciso mesmo explicar a minha preocupação?

– Não. – Disse Junsu, sorrindo discreto. – Temos que ir para a reunião, não é?

– Temos!

E de um salto, Junho se levantou e segurou a mão de seu irmão para que ele se apressasse. Ele não diria com palavras o que o atormentava, mas Junsu sabia o que deveria fazer para tranquilizar seu irmão protetor. Restava a ele ser cauteloso e talvez até mais racional como seu irmão. No entanto, era difícil manter a racionalidade com aquele olhar profundo sobre si, o tomando como se sua alma já o pertencesse.

Junsu ficou feliz de ter vestido sua camisa antes de chegar à área da piscina, onde o time já conversava distraído e algumas pessoas já haviam se unido a eles. Yoohwan os indicou que o capitão do time convocara uma reunião para a manhã seguinte, uma vez que o último jogo seria naquela tarde. Eles estavam cientes que não haveria tempo para o treino, portanto, tirariam aquele dia somente para descansar.

Yoochun estava lá, ouvindo um monólogo de um dos amigos de seu irmão sobre como suas defesas excepcionais haviam salvo o jogo. O rapaz concordava silencioso, por mais que seu olhar ainda estivesse sobre Junsu, e como ele desejava um tempo a sós com ele, mesmo que só para observa-lo. E ele sabia que era observado por Junsu, sabia que seu olhar escapava e ele era retribuído.

Junsu não saberia dizer porque Hyorin veio correndo em sua direção com um dos rapazes do time em seu encalço. Ele se lembraria de seus gritos histéricos misturados a risada alta da moça que não olhava direito para onde ia. Junho chegou a rir da situação, pouco antes de ver seu chão girar em câmera lenta com o susto. O corpo da moça esbarrou fortemente com o de Junsu que caiu de costas na piscina funda.

Assim como Junho, Yoochun observou aquilo como se acontecesse em câmera lenta. Enquanto o via cair com as feições mais apavoradas que ele já vira, Micky se lembrava do que ele o havia dito: “eu não sei nadar”, “tenho medo”. Por alguns instantes ele esperou pela volta de Junsu, torceu para que ele saísse da piscina sozinho, mas o rapaz submergiu, se debatendo apavorado enquanto seu corpo afundava na água.

Junho gritou por seu nome, mas Yoochun agiu mais rápido. Logo que percebeu a gravidade que a situação poderia tomar, ele correu e se jogou na água, sem se importar com suas roupas ou pertences e nadou em direção ao rapaz que, de olhos fechados, buscava algo para se apoiar e voltar a superfície. Ele já havia expelido todo ar de seus pulmões e agora água entrava por suas narinas, o sufocando lentamente.

Yoochun primeiro o segurou pelo pulso e então o agarrou pela cintura, finalmente nadando em direção a superfície, carregando consigo o rapaz prestes a desmaiar. Logo que seu rosto saiu da água, Junsu puxou o ar com força e começou a tossir continuamente, para só então abrir os olhos e ver quem o guiava para fora da piscina. Nenhum dos dois conseguiria alcançar o fundo da mesma em pé, devido a sua profundidade, por isso Micky apenas focava em tirar seu amedrontado amigo dali.

Junsu agarrou sua camiseta onde suas mãos conseguiam alcançar, enquanto entre tosses, Yoochun o arrastava para a beira da piscina, sussurrando palavras tranquilizadoras em seu ouvido. Logo que se aproximou da beirada, as mãos de Junho o puxaram da água por baixo dos braços. Junsu se acomodou nos braços de seu irmão, enquanto tossia e regurgitava a água que havia aspirado.

Junho o abraçou pelos ombros e sua mão livre dava tapinhas em suas costas para que o rapaz parasse de tossir. Junsu tremia em seus braços, e seu irmão sabia que era devido ao susto. Micky saiu da piscina em um impulso e o rapaz logo que tomou folego agarrou seus pulsos e o puxou contra si, em uma tentativa de abraça-lo em agradecimento. Yoochun já o envolvia pela cintura quando sentiu as mãos do irmão gêmeo do rapaz afasta-lo bruscamente.

Yoochun estava pronto para revidar. Não era de seu direito afasta-lo, afinal, como ele o dissera na noite anterior Junsu não era de sua propriedade. Ele chegou a puxar o ar para gritar com o rapaz, mas sentiu a mão de uma terceira pessoa pesar sobre seu ombro. Quando ergueu os olhos, Micky deparou-se com seu irmão com olhar compreensivo, o puxando delicadamente. Ele poderia ter teimado e se agarrado ao rapaz ali mesmo, no entanto, a situação não era promissora.

– Hey, buddy! – Chamou Yoohwan. – Vamos? Você tem que trocar de roupas!

Yoochun olhou mais uma vez para Junsu e deixou um carinho em suas mãos antes de se levantar. Ele queria ficar com ele, mas não com toda aquela plateia e aquele gêmeo chato em cima deles. Naquele momento, ele daria tudo para poder desaparecer dali com Junsu, aquece-lo e cuidar dele até que seu medo tivesse findado. Micky se levantou e seu irmão o abraçou pelos ombros o guiando para longe da aglomeração.

Eles não se demoraram em direção ao hotel, ambos incomodados com alguns alunos e colegas apontando e rindo para Micky. Eles correram para o quarto que dividiam, e quando Yoohwan fechou a porta, o mais velho já estava tremendo devido ao frio. Micky não perdeu tempo e correu para o banheiro, a fim de tomar um banho quente. Ele queria ser rápido, pois já planejara ir ver como Junsu estava antes de deixa-lo descansar, e se possível levar algo para ele comer.

Yoochun não se demorou no banho e saiu do local trajando roupas confortáveis e quentes. Havia começado uma chuva fina e fraca, e ele torcia para que Junho não tivesse se demorado na piscina e que Junsu já estivesse devidamente confortável e aquecido. Quando saiu do banheiro, com a toalha em seu pescoço e os cabelos emaranhados, Yoochun encontrou seu irmão com ar sério, sentado em sua cama, escrevendo uma mensagem de texto em seu celular.

– O Junho-hyung disse que o Su-hyung está bem e que agora ele está jogando dominó com os amigos dele. – Avisou Yoohwan, finalmente erguendo o olhar. – Eu queria conversar com você, tudo bem?

– Claro! – Disse Yoochun estranhando a situação, mas se acomodando aos pés de seu irmão.

– Eu quero te falar uma coisa, mas não quero que se ofenda. – Disse Yoohwan.

– Pode falar. – Disse Micky, agora mais sério.

– Você gosta do Su-hyung.

– Claro, ele é meu amigo.

– Não desse jeito.

– De que jeito, Yoohwan?

– Você sabe! – Acusou o mais novo.

– Você tá me zoando? Tem alguma câmera escondida por aqui?

– Você gosta dele, eu sei!

– Eu conheço ele há poucos dias, além do mais nem eu, nem ele somos gays!

– Já começou mentindo para mim. – Yoohwan suspirou baixinho com a indignação de seu irmão. – Primeiro, o Su-hyung é gay sim, e essa pose de romântico dele nunca me enganou. Ele não sai com mulher porque não gosta!

– Você está…

– E você sabe que ele é! Qual é, Chunnie-hyung? Ele nem se esforça para olhar para uma menina! Eu sei que você sabe!

– Você não tem nada haver com a vida dele, não se intrometa! – Ralhou Yoochun.

– Mas com a sua eu tenho, você é meu irmão e você gosta dele.

– Quer parar de repetir isso? Se alguém ouve pode acreditar que…

– Que você também é gay? E você não é?

– Claro que não!! – Reclamou Yoochun. – De onde você tirou isso? Só porque eu tenho um novo amigo que coincidentemente é gay? Desde quando você é preconceituoso?

– Eu não sou, mas ainda acho que você…

– Eu vou ter que te bater pra você parar de falar disso? – Ralhou Yoochun. – Você concluiu isso só porque eu quero ser amigo do Su? Como você é ridículo, Yoohwan!

– Vamos falar do James então? – Disse o mais novo cruzando os braços em frente ao peito.

– Céus, agora você vai citar todos os amigos que eu já tive na minha vida? Por que não começa com o Joey que morava na nossa rua quando criança? Ele era gay também?

– Não, eu só quero falar do James. – Disse Yoohwan.

– E o que você quer falar dele?

– Quando vocês se conheceram foi igual com o Su-hyung né? Vocês ficaram amigos bem rápido, eu lembro.

– Eu sei.

– E você ficou muito triste quando nós fomos embora e você teve que deixar ele para trás. Mais triste do que com o fato de deixar sua namorada para trás.

– O que você está insinuando agora?

– Eu nem comecei! – Reclamou Yoohwan. – Eu vi você fazendo coisas com ele, coisas que você nunca mencionou, ou tentou explicar.

– Que tipo de coisas?

– Vocês andavam de mãos dadas quando achavam que não tinha ninguém olhando. – Acusou Yoohwan. – E dormiam na mesma cama quando ele passava a noite lá em casa.

– Nos éramos crianças! – Justificou Yoochun.

– Não, vocês eram adolescentes e sabiam o que faziam!

– Não havia malícia entre nós, Yoohwan, você está procurando coisas inexistentes!

– Quando você começou a namorar a Mary, ele ficou um mês sem ir lá em casa e ele nunca aparecia quando ela estava lá!

– Ele não gostava dela, e nem era obrigado a gostar! – Reclamou Yoochun. – Isso não faz de nós dois homossexuais!

– É a última vez que eu vou pedir pra você parar de mentir para mim! – Ralhou Yoohwan.

– Pare você de me acusar dessas idiotices!

– Quando você decidir assumir que gosta do Su-hyung, eu estarei aqui para te ouvir.

– Go to hell!!!

Yoohwan chegou a rir irônico do nervosismo de seu irmão. Era seu jeito de ser defensivo, sua maneira de não mostrar seu verdadeiro eu. Ele conhecia seu irmão, o suficiente para saber que ele não abriria seu sentimental com tanta facilidade. Ele também sabia que o rapaz estava a beira de um ataque de nervos, uma vez que Yoohwan havia se intrometido em sua vida pessoal, naquela área que somente James conseguia adentrar anos antes.

Yoohwan tinha plena certeza que ele nunca dera um único beijo sequer em seu melhor amigo nos Estados Unidos, mas também sabia que eles se gostavam mais do que como amigos. Assim como também sabia que Yoochun gostava de Junsu, como seu olhar possessivo recaía sobre ele e cada toque significava para ele algo novo e belo. Yoohwan via o dia em que ele começaria a andar de mãos dadas com o rapaz.

Yoochun estava pronto para sair do quarto e deixar seu irmão com suas bobagens para trás, mas ambos ouviram batidas discretas na porta. Yoohwan tomou a frente e escancarou a porta antes mesmo de perguntar quem era, e do outro lado estava Junsu, com ar ansioso e os cabelos ainda úmidos. Yoochun sorriu discreto logo que seu irmão mais novo o chamou para entrar, e o rapaz o reverenciou logo que adentrou o cômodo.

Junho seguiu em seu encalço, ainda com ar de poucos amigos. Yoochun quase riu ao vê-lo ali, obviamente contra a sua vontade. Eles adentraram o quarto e Yoohwan sorriu-lhes e indicou a cama para que eles se acomodassem. Micky detestava quando o via com aquela postura, como se estivesse acima de todos os presentes ali, e ele sabia que a solução era sair do quarto ao lado de Junsu.

– Eu só vim agradecer. – Disse Junsu brincando com os dedos, enquanto se sentava na beirada da cama ao lado de seu irmão.

– Você está bem? – Indagou Yoochun ajoelhando-se de frente para o rapaz. – Eu já ia te ver, você poderia ter ficado descansando.

– Eu não aguentei ficar deitado. – Disse Junsu. – E o Hae e o Hyuk foram comprar sorvete e me deixaram sozinho.

– Comigo. – Corrigiu Junho.

– Eu disse que você podia me esperar no quarto. – Reclamou Junsu.

– E eu disse que você não deveria sair de lá! – Ralhou Junho.

– Eu só queria agradecer. – Justificou Junsu.

Yoochun não conteve um sorriso diante da afirmação do rapaz. Ele desejava abraça-lo, mas as acusações diretas e absurdas de seu irmão ainda giravam em sua mente. Ele não queria motivos para ser chamado de homossexual novamente, mas queria acariciar seu constrangido amigo. Micky deixou suas mãos repousarem sobre as dele e sentiu os olhares caírem sobre si, apenas observando o rosto do rapaz enrubescer.

– Não precisa agradecer, eu prometi que não ia deixar você se afogar, lembra?

– Mas era só quando você me ensinasse a nadar!

– E eu vou te ensinar. – Prometeu Yoochun. – Para a sua segurança.

–  Eu quero uma piscina rasa. Eu me machuquei quando bati no fundo da piscina, meu ombro está roxo!

– Você me deu um susto hoje. – Disse Yoochun.

– Em nós dois. – Completou Junho.

Yoohwan que os observava até então em silêncio, se levantou e parou próximo ao seu irmão mais velho. Ele sabia que Junho estava se preparando para afastar Junsu de seu irmão e daquele quarto, com a finalidade de protegê-lo. Talvez fosse sua função afastar os dois, mas ele se sentiria mal ao ver seu irmão novamente silencioso e brevemente infeliz. Yoohwan repousou sua mão sobre o ombro de Junho e sorriu discreto.

– Hyung, tem um lugar que vende chocolate quente aqui na esquina, vem comigo comprar?

– Por que? – Indagou Junho.

– Eles devem ter coisas a conversar, assim nós damos um tempo para eles. – Insistiu Yoohwan. – Vamos, hyung?

– Segredinhos. – Reclamou Junho para seu irmão que revirou os olhos. – É aqui na esquina?

– Ah, só um pouquinho pra frente. – Insistiu Yoohwan, apontando para a janela. – É perto!

– Eu só vou porque estou te devendo essa. – Disse Junho, voltando a olhar Yoochun. – Não se acostume.

– Eu te devolvo ele inteiro, eu prometo. – Disse Yoochun. – E eu quero chocolate quente.

– Não abusa! – Ralhou Junho, fazendo seu irmão rir.

– Eu compro pra você. – Disse Yoohwan. – Vamos, hyung?

– Eu não demoro.

E com esse aviso Junho se levantou e deixou o quarto, sob o olhar agradecido de seu irmão gêmeo. Yoohwan lançou para seu irmão um olhar de cumplicidade que Micky detestou, no entanto, ele tinha razão, queria privacidade com Junsu. Os dois deixaram o local sob diversos avisos de que voltariam logo e que eles não se acomodassem, pois assim que estivessem de volta, Junho e Junsu voltariam para seu respectivo quarto.

Logo que eles fecharam a porta, Yoochun voltou a olhar Junsu que estava novamente corado. Ele sabia que era a ideia de estar a sós com outro homem em um quarto que o constrangia e o deixava ainda mais adorável aos seus olhos. Micky retirou suas mãos das dele e envolveu sua cintura em um abraço delicado e rápido. Junsu prontamente repousou as mãos em seus ombros e sorriu-lhe com o canto dos lábios.

– Enfim sós. – Disse Yoochun, repousando seu rosto contra o tórax do rapaz, ouvindo sua deliciosa risada.

– Não diga coisas bobas. – Disse Junsu. – Eu pareceria bobo se dissesse que você é o meu herói?

– Para parecer mais bobo só com um nariz de palhaço. – Constatou Yoochun. – Eu não sou herói, só fiz o que achei que seria certo. Você me deu um susto e tanto.

– Eu também tive muito medo, Chunnie. – Disse Junsu desfazendo o abraço e se movendo pela cama até se sentar recostado a cabeceira. – Me conta, por que o seu irmão quis deixar a gente a sós?

– Eu não conseguiria te explicar sem que você me interpretasse mal. – Disse Yoochun se movendo e finalmente se acomodando ao lado do rapaz, o envolvendo pelos ombros. – Acho que tem relação com o que nós conversávamos antes, entende?

– E sobre o que vocês conversavam?

– Outro dia eu te conto, tudo bem? – Disse Yoochun, deixando a ponta dos dedos acariciarem os cabelos do rapaz.

– Fique com o seu segredinho então. – Reclamou Junsu, escorregando o corpo e se apoiando sobre os ombros do rapaz. – Era por isso que você estava bravo?

– Eu não estava bravo. – Mentiu Micky.

– Estava sim, eu vi! – Acusou Junsu, se escondendo contra ele. – Onde fica esse café que eles foram?

– Umas três quadras daqui?

– Ele mentiu para o Junho?

– Foi por uma boa causa. – Sorriu-lhe Yoochun. – E eu tenho que te dizer, o ciúme do seu irmão é algo absurdo. Como vai ser quando você tiver um namorado?

– Acho que eu só vou saber quando eu tiver um. – Concluiu Junsu, sentindo o abraço do rapaz se fechar em torno de seu corpo, o deixando ainda mais confortável. – Me conta por que você estava bravo com o seu irmão?

– Porque ele falou algumas asneiras. – Explicou Yoochun. – Nada demais.

– Agora você não está mais bravo com ele?

– Acho que ele compensou tirando o seu irmão daqui, sabe? – Sorriu-lhe Micky.

– Acho que eu sei. – Riu-se Junsu. – O Hae disse que ia me apresentar um amigo dele para eu sair.

– Que amigo?

– Ah, um tal de Siwon. – Afirmou Junsu. – Ele acha que eu preciso sair com alguém, pra me animar mais e não grudar muito no seu pé.

– E pra que isso? Se você não grudar no meu pé, eu vou grudar em quem? E o que tem demais nesse cara aí?

– O Hyuk não gosta muito dele, mas disse que ele é bem bonitão. – Disse Junsu, sorrindo discreto. – Mas eu ainda não sei se topo um encontro as escuras com esse cara quando nós voltarmos para Seul.

– Você não precisa disso, pode arrumar um namorado sem precisar apelar pra esse tipo de coisa. – Disse Yoochun apertando-o em seu abraço. – Você é tão bonito, quem não iria querer namorar você?

– E se ele for mesmo bonitão?

– Tem muito homem bonitão por aí.

– Ele é bonitão e gay, Chunnie!

– Aish, quanta exigência! – Reclamou Yoochun. – E pra que você quer um macho agora?

– Você também se diverte por aí, eu não posso?

– É diferente. – Reclamou Yoochun.

– Por que é diferente?

– Porque você não é assim. Você não pode achar um namorado assim, tem que ser alguém que seja carinhoso e que cuide de você. Por que você quer um namorado agora?

– Meu melhor amigo está namorando e ele está tão feliz. – Afirmou Junsu. – Deve ser bom ter alguém como ele tem o Donghae.

– Você não prefere se apaixonar primeiro?

– Por que? – Disse Junsu desfazendo o abraço e se deitando na cama ao lado do rapaz. – Para ele ser hétero e eu me decepcionar?

– Como você sabe se ele vai ser hétero? – Indagou Yoochun se deitando ao lado dele.

– Eles sempre são. – Disse Junsu escondendo o rosto contra o ombro do rapaz.

– Você está sendo pessimista, baby.

– Você é hétero.

– Meu irmão discordaria de você. – Confessou Yoochun, o agarrando pela cintura e deixando seu rosto se esconder contra o pescoço do rapaz.

– Por que ele discordaria?

– Eu não sei explicar. – Afirmou Micky. – Nós estávamos conversando sobre isso antes, e ele está com algumas caraminholas na cabeça.

– E foi essa desconfiança dele que te irritou?

– Mais ou menos. – Confessou Micky. – Vamos mudar de assunto?

Junsu sorriu, deixando seus dedos se embrenharem nos cabelos do rapaz. Ele sentia seu hálito contra seu pescoço, era quase como sentir seu sabor nos lábios. Junsu sentia desejo de beija-lo, e algo nele sabia que era recíproco. Yoochun parecia a beira de uma confissão, parecia deseja-lo tanto quanto Junsu o desejava. Micky deixou um beijo depositado na pele macia do pescoço do rapaz e então se afastou, apenas para poder olhar para ele novamente.

Yoochun sentia o rapaz relaxado em seus braços, mesmo depois de ter levado um grande susto naquela manhã. Ele sabia que o rapaz deveria adormecer se ele continuasse ali, com aquelas carícias em seus cabelos e alguns beijos esporádicos em seu rosto. Micky sabia que era aquilo que ele desejava, que era o que pedia quando desejava um namorado. Ele se perguntava o que seriam deles quando voltassem para Seul, dali dois dias.

Yoochun soltou o abraço quando ouviu a porta sendo destravada. Ele desviou o olhar e viu seu irmão entrar no quarto com dois copos de chocolate quente, seguido de Junho que reclamava da distância e da chuva que caía do lado de fora. Micky apertou o abraço e sussurrou no ouvido do rapaz que seu irmão havia chegado, para só então solta-lo e se sentar na cama preguiçosamente.

Junsu deitou sua cabeça nas coxas do rapaz que se sentava ao seu lado. Ele não queria sair dali, mas sabia que quanto mais próximo permanecia dele, mais chance dele brigar com Yoohwan e maior o ciúme de Junho. Junsu se levantou preguiçosamente e deixou um selar no rosto do rapaz que sorriu discreto para ele. Micky observou Junsu agradecer Yoohwan, pegar um copo de chocolate quente e sair do quarto, deixando seu confuso irmão para trás.

Junho se despediu deles e saiu no encalço de seu irmão. Ele devia-lhe explicações, e deveria assumir que não tinha o menor interesse em homem algum que não fosse Yoochun. Yoohwan fechou a porta do quarto e olhou cúmplice para seu irmão. Ele não iria se meter em sua vida, ou adentraria novamente em sua zona de conforto, mas o ajudaria a ser feliz se assim estivesse ao seu alcance.

– Se acertou com o seu novo boyfriend? – Indagou Yoohwan, com um sorriso discreto no rosto.

– Go to hell!

Yoochun pegou o copo que o rapaz o oferecia e se aproximou da única janela do quarto. O cheiro de Junsu ainda estava em seu corpo, assim como sua voz aveludada acariciando seus ouvidos. Yoohwan sabia que o irritaria se continuasse com aquele assunto, por isso tratou de deixa-lo sozinho. O mais novo começou a reunir seus pertences para encontrar seus amigos na área dos fundos do hotel.

– Hey, jerk! – Xingou Yoochun sem olhar para ele. – Thanks.

Yoohwan sorriu às suas costas e saiu do quarto. Ele sabia que aquele era o jeito estranho de seu irmão admitir que gostava daquele rapaz mais do que deveria. Micky se via obrigado a admitir o quanto se apegara aquele rapaz, e a possibilidade de tudo mudar quando chegassem a Seul o incomodava. Ainda assim, ele estava inebriado com tudo o que o envolvia, até mesmo com suas fragilidades.

Junsu era perfeito aos seus olhos. Com seus quês, suas opiniões e seus talentos, todo o conjunto formava o homem que Yoochun desejava ter ao seu lado. E sua beleza era inigualável, e ganhava de qualquer moça com que ele já tivesse dormido. Era isso, ele não poderia admitir aquele encontro as escuras que seus amigos planejavam, não deixaria outro homem tomar um posto que deveria ser seu. Junsu deveria ser seu, unicamente seu.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s