Capítulo 05 – You float like a feather, in a beautiful world.

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Em dias normais, Yoochun estaria incomodado com a gritaria. A multidão berrando e correndo a sua volta deveria ser extremamente irritante, mas não era. O último jogo havia terminado com uma decisão difícil por pênaltis. O jogo terminou empatado com um ponto cada time, e a assim eles começaram a decisão. Yoohwan acertou um chute, o colega seguinte errou, Junho acertou outro e então foi a vez de Junsu bater. O rapaz errou e aquilo desapontou a todos, uma vez que, devido as boas defesas de seu time, eles teriam a vitória.

As coisas mudaram quando o juiz anulou aquele pênalti, alegando que o goleiro havia avançado antes do sinal. Sob reclamações do time adversário, Junsu cobrou novamente o pênalti e poucos segundos antes de chutar a bola, seu olhar encontrou o de Micky. O rapaz estava ansioso na arquibancada, mas por algum motivo, tranquilizou-o saber que, mesmo que errasse, Yoochun não sairia de seu lado. Junsu voltou seu olhar para o gol e finalmente chutou a bola.

Ele a viu ganhar altura e por alguns instantes acreditou que tivesse errado, no entanto a bola passou por pouco entre a trave e a mão do goleiro, finalmente caindo na rede. Aquilo garantiu sua vitória. A gritaria foi geral e mesmo o reservado Micky comemorou com veemência. Não era somente por ver sua faculdade ganhar o primeiro campeonato que ele estava feliz, e sim, com a participação de Junsu naquela vitória.

Ele estava orgulhoso do rapaz e desejava segui-lo até o vestiário, para então abraça-lo com força sob o pretexto da vitória. No entanto, ele sabia que a atenção do rapaz seria tomada por um longo período de tempo e seria difícil tê-la novamente voltada para si em meio a bagunça. Aquilo não o causava inveja, pois ele sabia ser paciente e logo teria a atenção de seu querido Junsu. Assim, Yoochun teve uma ideia e o parabenizou por sms:

“Hey, baby! Que jogo, hein? Eu não disse que você era o melhor jogador do time? Eu quero te dar os parabéns, mas simplesmente escrever uma saudação parece simplista demais. Também sei que o seu time não vai liberar você o dia todo, por isso quero te chamar para um chocolate quente depois do jantar, o que acha?”

A resposta não demorou mais do que cinco minutos, enquanto Yoochun se dirigia para a saída entre a multidão eufórica. Ele parou próximo a saída e leu o que Junsu escrevera:

“E se eu te disser que fugi e tenho cinco minutos, você me encontraria atrás do vestiário?”

Yoochun desviou seu caminho imediatamente. Ele pulou muretas, correu entre o campo, esbarrou em pessoas, enquanto desajeitado escrevia:

“Não saia daí!”

Junsu riu da resposta do rapaz, afinal, aproveitava que seus colegas usavam as duchas. Ele queria ver Micky antes do anoitecer, queria estar com ele, mesmo que por poucos minutos. O rapaz se assustou ao ver que Yoochun não pegara o caminho tradicional e não atravessara o vestiário para sair pela porta dos fundos, e agora pulava o muro com alguma dificuldade. O rapaz riu e o apoiou pela cintura para ajuda-lo a descer dali.

Junsu havia ensaiado um texto em sua mente, e já decidira que o pediria para não abraça-lo. Ele havia corrido por mais de uma hora sem parar e seu desodorante há muito havia deixado de fazer efeito. Seu corpo estava suado, e sua camiseta encharcada.  No entanto, antes que ele pudesse se manifestar, Micky voltou-se para ele e agarrou sua cintura, fechando as mãos sobre o tecido molhado de sua camisa. Junsu se assustou com o abraço e tratou de afasta-lo:

– Não, eu ainda não tomei banho!

– Eu não me importo. – Disse Yoochun, colando os lábios ao seu rosto e o enchendo de selares, o que fez o rapaz rir. – Acha mesmo que isso me incomoda?

– Deveria, eu estou todo suado. – Disse Junsu, deixando o outro recostar o rosto ao seu. – Eu queria comemorar com você, Chunnie, mas se eu me separar do Junho ele vai ficar chateado.

– Então você topa o chocolate quente? – Disse Yoochun o apertando em seus braços e o guiando contra a parede do vestiário. – Eu sei que o seu irmão não vai querer te deixar sozinho, sei que ele também merece comemorar com você. Fala pra ele que vamos nos encontrar de noite, onde você quiser.

– Eu não quero chocolate quente. – Disse Junsu, com ar brincalhão e um tanto mimado.

– Olha aqui, eu só vou fazer a sua vontade porque você é bonito e ganhou o jogo, esta bem?

– Eu mereço então! – Brincou Junsu. – Eu quero, piscina.

– Piscina? A noite? Mas vai estar fechado!

– Eu sei.

Junsu sorriu sem jeito com sua proposta um tanto ridícula e absurda. Ele repousou as mãos no tórax do rapaz e suspirou ao perceber o coração do outro disparado. Micky deveria estar nervoso enquanto ponderava seu pedido. O que Junsu não sabia era que, não era a possibilidade de dizer não a ele que o deixava nervoso, mas sim tudo o que eles poderiam fazer sozinhos a noite na piscina.

Micky sorriu discreto antes de concordar com o rapaz, com apenas um aceno de cabeça. Junsu mordeu o lábio inferior, sorrindo e então deixou um beijo no rosto do rapaz, fazendo questão de deixa-lo próximo aos seus lábios. Ele fez questão de deixar seu sabor ali, de dar a Yoochun a chance de jogar na sua face como ele havia entendido sua amizade errado. E é claro, na melhor das hipóteses, deixa-lo com vontade de sentir seu beijo de forma apropriada.

Micky chegou a fechar os olhos e seu corpo paralisou com a simples proximidade de um beijo. Ele não era gay, já dormira com mais meninas do que poderia contar em seus dedos, e ainda assim ele queria provar daquele fel. Quando Yoochun abriu os olhos, Junsu viu ali refletido um sentimento novo e antes escondido. Um desejo que agora ardia, e o despia de suas vestes e mentiras.

Era doloroso demais admitir o quanto ele desejava aquele homem, o quão fascinado ele era pelo rapaz, e o quão delicioso parecia ser seu beijo. Afinal, que mal faria um beijo? Pudera ele usar como desculpa a comemoração para tomar aqueles lábios sobre os seus, mas seria uma desculpa demasiadamente ridícula. Quem dera se ele tivesse uma justificativa para seus desejos. Micky aproximou o rosto do outro e roçou seus lábios aos dele, sem fechar os olhos, vendo Junsu fraquejar em seus braços.

– Su!!

Eles se separaram bruscamente logo que Junho apareceu a porta dos fundos. Sua indignação foi evidente com a presença do rapaz ali, escondido com seu irmão atrás do vestiário e o pior, agarrado a ele, como uma de suas vadias. Junho o havia avisado, mais de uma vez, mas aquilo passou demais dos limites. Seus punhos se fecharam automaticamente, enquanto a passos largos ele avançou em direção ao rapaz.

Micky não iria se justificar, pois não encontrava uma justificativa. Tampouco iria apanhar de graça do rapaz, e assim ele soltou Junsu e também fechou os punhos, pronto para ataca-lo. Junsu de imediato se enfiou entre eles, os afastando com empurrões. Ele não deixaria que eles brigassem, não por motivos bobos como aqueles. Seus colegas começavam a sair do banho e se os dois brigassem, os boatos poderiam se tornar irrefreáveis.

– Vai pra dentro, Junsu, eu preciso conversar com esse aí de novo. – Ralhou Junho.

– Não, de jeito nenhum! – Defendeu Junsu. – Entra comigo, vamos conversar.

– Eu te avisei que ele não era pro seu bico, não avisei?

– Para com isso, Jun, vai todo mundo te ouvir! – Pediu Junsu. – Vamos para dentro, você está com raiva.

– Mas é claro que eu tô com raiva, esse aí…

– Eu sei que é difícil para você entender. – Disse Junsu o abraçando pelos ombros e voltando o rosto para Yoochun que estava tão emburrado quanto o outro.

– Não é o fato de você ser gay que me incomoda, Su, mas eu saber que ele está usando você. – Enquanto Junho falava, Junsu fazia sinais para que Yoochun fosse embora dali.

Micky riu-se e tratou de pular o muro o mais silenciosamente possível, enquanto Junsu se mostrava compreensível com seu irmão. Ele não viu o desfecho daquela conversa, mas sabia que Junho ficaria irritado logo que percebesse sua fuga. Logo que saiu dali, Yoochun seguiu para as piscinas, escolhendo o menor muro para pular. Ele já voltava para o hotel quando recebeu outra mensagem de Junsu, marcando a meia noite na piscina.

Como o previsto, Junho ficou emburrado quando percebeu que Yoochun havia desaparecido de sua vista. Ele adentrou o vestiário e tratou de tomar seu banho, avisando os outros jogadores para irem na frente ao invés de esperar por eles. Os rapazes prontamente concordaram, uma vez que algumas moças já esperavam por eles no restaurante do hotel. Assim, quando Junsu terminou de mandar sua mensagem e voltou ao vestiário, Junho estava sozinho tomando banho.

Junsu entrou no chuveiro, no box ao lado de seu irmão. Eles se lavaram sem trocar mais do que alguns olhares, Junho visivelmente chateado. O outro não aguentou ver seu irmão por muito tempo e logo se aproximou do box do mesmo, apoiando seus braços na parede fina que os separava e apoiou o queixo ali, olhando para ele. Junho ensaboava seu cabelo quando percebe o olhar sobre si e o retribuiu.

– O que foi, Su?

– Você está bravo e a gente ganhou o campeonato.

– Ele não gosta de você, está te usando.

– Eu que estou usando ele. – Disse Junsu, rindo ao final. – Aquilo não foi nada.

– Foi um beijo!!

– Ih, nem chegou perto! – Disse Junsu, bem humorado. – Eu não quero que você fique bravo comigo, deixa… acontecer.

– Eu não posso deixar ele te tratar como uma vadia, Su. E eu sei que ele vai fazer isso.

– Se ele fizer menção de me tratar mal, eu deixo você bater nele e não vou me intrometer, mas enquanto isso, eu quero ter liberdade pra tentar.

– Só me promete uma coisa? Você não vai se prender a ele. Você não disse que ia sair com aquele amigo do Hae lá em Seul? Por que você não sai com ele?

– Jun, nós dois não conhecemos esse cara, e se…

– É difícil ser pior que o Yoochun, Su. – Afirmou Junho. – Esse outro, ao menos eu sei que também é gay. E o Hae tem bom gosto, namora o seu amigo, por que não confiar no gosto dele?

Tanto Junsu quanto Junho se surpreenderam ao ver Yoohwan sair correndo do vestiário. Ele certamente ouvira a conversa, e nenhum dos dois saberia direito como agir. Eles combinaram que falariam juntos com Yoohwan e depois Junsu falaria com Yoochun. Não era de sua intenção deixar seu colega de time chateado, uma vez que a implicância de Junho era exclusivamente com Micky. Os dois terminaram seus banhos com alguma pressa e reuniram seus pertences sem organiza-los devidamente.

Entretanto, tanto Yoochun quanto Yoohwan desapareceram aquela tarde, deixando os dois gêmeos preocupados. O irmão mais novo havia se chateado com a conversa que ouvira, não por eles explanarem o que ele já sabia sobre seu irmão, mas por perceber a proximidade dos dois. Junho sabia perfeitamente que seu irmão era gay e até mesmo o aconselhava sobre com que rapazes sair, enquanto Micky era incapaz de manter uma conversa sobre seus sentimentos.

Agora Yoochun estivera próximo de sua primeira experiência verdadeiramente homossexual e Yoohwan não podia aconselha-lo como desejava, ou participar daquilo como apoio. Perceber essa distância como real chateou Yoohwan de forma que ele não conseguiu comemorar a vitória de seu time. Assim, quando Yoochun voltou das piscinas, o encontrou no lobby do hotel, olhando para uma revista sem interesse algum.

Yoochun estranhou o fato de seu irmão estar longe do resto do time, isolado com seus pensamentos. Normalmente ele era o tipo de pessoa que não se importaria em deixar seus problemas para depois de uma boa festa, ainda mais se tratando de uma comemoração importante. Aquilo preocupou Micky que decidiu falar com seu irmão. Se alguém estivesse implicando com ele, Yoochun seria o primeiro a ir reclamar com a pessoa.

– Hey, buddy! – Chamou Yoochun, sentando-se ao lado do mais novo no lobby do hotel. – Por que não foi almoçar com o pessoal do time?

– Eu não estou com fome. – Afirmou Yoohwan. – Eu queria…

– O que está acontecendo, Yoohwan? – Interrompeu Micky

– Posso passar um tempinho com você?

– Comigo? Por que?

– Por que você não confia em mim, hyung? Eu não posso querer passar um tempo com o meu irmão sem ter segundas intenções?

– Céus, eu não disse isso! – Defendeu-se Yoochun. – Está bem, você tem algo em mente?

– Vamos ficar na rede lá atrás?

– E depois vamos almoçar. – Disse Yoochun se levantando, visivelmente bem humorado. – Você tem que comemorar, Yoohwan, não ficar aí lendo revista de tricô!

– Não é de tricô. – Riu-se Yoohwan também se levantando.

– O que você tem? – Indagou Yoochun, o envolvendo pelos ombros para caminhar. – Fale a verdade.

– Você vai se irritar.

– Eu vou?

– Vai.

– E se eu prometer não me irritar, você me conta o que há de errado?

– Você promete?

– Não. – Riu-se Yoochun, vendo seu irmão fechar a cara. – Quer ao menos dizer do que se trata?

– Do Junsu-hyung.

– É aquele assunto de novo? Você vai insistir nisso, Yoohwan?

– Você vai negar?

– Céus, Yoohwan, por que você não acredita no que eu te falo? – Ralhou Yoochun. – Eu não sou o que você está pensando que eu sou.

– Eu só vou te falar isso uma vez, hyung. – Disse Yoohwan, logo que ambos alcançaram os fundos do hotel. – Eu provavelmente sou a única pessoa que vai te apoiar quando você decidir se entregar ao que você é de verdade, então, não me esconda nada.

– Yoohwan, isso não faz sentido.

– Você sabe que faz. – Disse Yoohwan. – Quer saber o que me chateou? Eu olhar para o cara que você gosta e ver que a relação dele com o irmão dele é incrível, enquanto você, não consegue nem me dizer se está com dor, ou se está feliz, sem eu ter que arrancar isso de você aos berros.

– Mas sempre foi assim. – Disse Yoochun, finalmente soltando o abraço e se acomodando em uma das redes dos fundos. – Por que você está reclamando agora?

– Porque eu tenho certeza que você gosta dele. – Disse Yoohwan sentando-se na outra rede. – E agora você vai precisar de mim.

– Eu sei que eu posso contar com você, não se preocupe com isso. – Disse Yoochun retirando seus sapatos e se deitando de forma que ficasse de frente para o rapaz.

– Então me conta, o que está acontecendo? Eu sei que você só conhece ele há poucos dias, mas eu também sei que vocês se deram muito bem.

– Eu vou me encontrar com ele mais tarde, só nós dois. – Confessou Micky.

– Vai ser um encontro?

– Eu não sei!! Talvez seja, não sei explicar! – Ralhou Yoochun.

– Espero que seja. – Disse Yoohwan. – Porque se não for, ele vai se encontrar com uma pessoa em Seul.

– Como você sabe disso? – Indagou Yoochun.

– Eu ouvi, no vestiário. – Confessou Yoohwan. – Aproveite essa noite.

– Aproveitar? Como espera que eu faça isso?

– Você sabe! Se arrume, vá bem bonito, curta com ele, faça o que você quer fazer, o que você tem vontade.

– Você sabe que não é um encontro, não sabe?

– Você vai se arrepender se não tiver um encontro agora e depois o cara lá de Seul tomar o seu lugar. – Disse Yoohwan. – Se você quiser, eu te ajudo a escolher uma roupa legal. Vocês vão jantar?

– Não, ele vai comemorar com o time antes de se encontrar comigo. – Disse Yoochun. – E eu também queria que você fosse lá comemorar ao invés de pensar essas coisas.

– Eu me preocupo com você.

– Se eu prometer te contar tudo o que acontecer hoje você fica mais tranquilo?

– Promete?

– Prometo. – Disse Yoochun, sorrindo.

– Hey, hyung, tem uma mesa de ping pong ali.

– Você não está cansado?

– Estou, mas ainda acho que eu ganho de você.

– Você não ganha nem da nossa avó!

– Você nem sabe como a vovó joga! – Riu-se Yoohwan. – Só uma partida e se eu ganhar, você me paga uma bebida!

– E se eu ganhar vou querer duas bebidas!

Yoohwan riu e tratou de correr para a mesa de ping pong, sendo seguido de perto por seu irmão mais velho. Naquela tarde, eles se divertiram como há muito não faziam. Apenas comeram quando tiveram fome e escolheram qualquer besteirinha que estivesse ao alcance. Jogaram ping pong, depois vôlei e terminaram apostando uma corrida na praça, que Yoohwan ganhou com facilidade.

Yoochun estava se sentindo bem, até a noite começar a cair e ele começar a lidar com sua ansiedade. No tempo ao lado de seu irmão, eles não falaram mais de Junsu, afinal era um assunto por demais delicado. No entanto, a medida que a noite avançava Micky ia pensando cada vez mais impetuosamente no que poderia acontecer aquela noite, no que ele queria que acontecesse aquela noite.

Como o prometido, Yoohwan o ajudou a se arrumar depois do jantar. Eles comeram um lanche com panquecas e melado, além de um delicioso chá gelado, no melhor estilo americano. Em seguida se enfiaram no quarto, para que Micky pudesse tomar um banho e trocar suas roupas. O mais novo escolheu um conjunto simples para seu irmão, que insistiu em manter em segredo o que eles fariam aquela noite.

Era uma calça jeans de cor escura que ficava justa em suas pernas, uma regata cinza e por cima uma jaqueta mais bem adornada que dava ao look um ar mais sofisticado. Yoohwan arrumou seus cabelos, os deixando sobre sua testa e emprestou-lhe um perfume delicioso. Micky carregava consigo apenas seu celular, sua carteira e fones de ouvido para que se distraísse ouvindo música, e assim, onze e meia ele deixou seu irmão ir juntar-se com seus amigos e rumou em direção a piscina.

Ele não teve problemas em entrar no complexo esportivo, onde algumas faculdades ainda comemoravam. Entretanto, a parte dos fundos que daria acesso à piscina, estava fechada, afinal nenhum gerente deixaria universitários bêbados terem acesso à piscina. A noite estava quente, aberta e estrelada. Daquela cidade, parecia que a lua estava até mesmo mais próxima e iluminava mesmo as áreas mais escuras.

Micky pulou o muro sem pressa e ainda ficou alguns segundos parado do outro lado, arrumando novamente seus cabelos. Ele guardou seus fones de ouvido, enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e atravessou a pequena área de gramado até o pátio da piscina. Ainda das sombras, ele conseguiu visualizar o rapaz. Logo que Junsu ergueu o rosto e visualizou Yoochun, ele sorriu.

Micky retribuiu o sorriso, não deixando de reparar que o rapaz também estava bem arrumado. Seus tênis repousavam ao lado de seu corpo e sua calça jeans estava dobrada até os joelhos, uma vez que seus pés flutuavam na água. Ele havia arrumado seu cabelo para cima, com um pouquinho de gel, e uma corrente com um pingente delicado adornava seu pescoço. Junsu acenou, o convidando a se aproximar, e assim ele o fez.

Yoochun se acomodou ao seu lado, cruzando as pernas e se deixando inebriar pelo perfume do rapaz ali sentado. A água refletia em seu rosto que observava seus próprios pés, que brincavam se movendo na superfície. Junsu sorriu com o canto dos lábios e finalmente desviou o olhar pra o rapaz que sentara de forma que pudesse observa-lo com atenção. Junsu puxou o ar com força para seus pulmões e finalmente o desejou:

– Boa noite.

– Boa noite, Su. – Disse Yoochun. – Comemorou o suficiente com o seu irmãozinho?

– Acho que sim, ele foi dormir feliz da vida. – Disse Junsu, voltando-se para ele. – Coloca os pés na água, está quentinha.

– Se você diz. – Disse Yoochun começando imediatamente a retirar os sapatos e as meias. – Su, por que você escolheu a piscina?

– Você não acha bonito? A piscina a noite?

– É quase romântico. – Afirmou Micky, se aproximando mais do outro rapaz. – Está pronto para a sua primeira aula de natação?

– O que? Nós não vamos entrar na água, eu não trouxe roupa de banho!

– E quem disse que eu trouxe?

Yoochun riu animado quando retirou seus pés da água, se pondo em pé. Ele retirou sua jaqueta, exibindo seus braços para o rapaz que o fitava fixamente. Logo sua regata também foi descartada ao piso próximo a piscina. Por último, suas calças foram ao chão, exibindo sua boxer preta e justa que apenas cobria suas nádegas e sua virilha. Junsu cobriu o rosto com as mãos, mas Micky podia ver que ele sorria.

Yoochun mergulhou com graciosidade e não demorou a emergir da água, percebendo que Junsu ficara em pé e também retirava sua camiseta. Logo sua calça também foi descartada, no entanto, Junsu não pulou na água. Ele sentou-se novamente na beirada e escorregou lentamente o corpo, mas voltou logo que acreditou que seus pés não tocariam o fundo da piscina.

Micky nadou até ele e o segurou por ambas as mãos, o encorajando a pular na água. Junsu teve medo de afundar, de não tocar o chão, de ficar sem ar. Yoochun então o agarrou pela cintura, recebendo em retorno um abraço pelos ombros. O peso do rapaz pendeu contra ele e seu corpo escorregou até seus pés tocarem o chão da piscina. Junsu o soltou, ainda um tanto temeroso de escorregar e se afogar. Yoochun deixou escapar um sorriso discreto, a medida que o rapaz se acostumava com a temperatura da água.

– Você sabe boiar?

Junsu negou, silenciosamente.

– É fácil. – Disse Yoochun. – Vira de costas pra mim, eu vou te segurar.

– Eu não sei fazer isso. – Reafirmou Junsu, virando-se de costas para ele.

– É só relaxar, Su. – Disse Yoochun o agarrando pelo tórax, deixando as costas do rapaz apoiarem-se em seu tronco. – Deixa a água te carregar, não se preocupe, eu estou te segurando.

– Eu vou afundar, não vou?

– Claro que não, Su. A água vai te carregar.

Junsu sentiu as mãos do rapaz pressionarem seu tórax, levemente, e então ele olhou para o céu aberto e finalmente retirou seus pés do chão. Suas pernas subiram, e em seguida seu tronco, finalmente apoiando somente sua cabeça no ombro do rapaz. Yoochun ainda o apoiava com as mãos, dando a ele segurança. E o observava sem piscar, sem desejar perder um único momento.

A pele clara do rapaz estava quase totalmente exposta, enquanto seu rosto demonstrava uma serenidade que ele nunca havia visto. Junsu era lindo, e Micky sentiu-se grato por dividir um momento como aquele com o rapaz. Quando seu corpo se cansou, Junsu abriu os olhos e ainda apoiado nele tratou de pisar no chão. Junsu voltou-se para o moreno, e penteou os cabelos do rapaz para trás com os dedos, revelando seu rosto.

– Chunnie, posso te perguntar uma coisa?

– O que você quiser. – Disse Yoochun, o abraçando novamente pela cintura, por baixo d’água.

– Você não faria comigo o que faz com elas né?

– Com quem?

– As meninas com quem você dorme. Você se faz de bonzinho e depois dispensa elas. As meninas com quem você dormiu não significam nada pra você. Você não faria isso comigo né?

– Não. – Disse Yoochun, recostando seu rosto ao dele. – Você não é como as pessoas com quem eu dormi, não que eu esteja cogitando a hipótese de dormir com você, mas você é diferente, Junsu.

– Então o que você quer de mim?

– Isso. – Disse Yoochun. – Você assim, perto, calmo, olhando para mim e para mais ninguém. Sem ninguém para incomodar, julgar, apontar. Eu mal te conheço, mas parece que dividi uma vida com você.

– Quem sabe nós não nos conhecemos em uma vida passada. Podemos ter sido dois poetas proibidos como o Marques de Sade e nos conhecemos em uma prisão, onde passamos a vida juntos.

– Eu acho que nós éramos europeus, eu era francês, dono de um boticário e você um membro da guarda real. Nós nos conhecemos em uma taberna e demos um único beijo, e depois eu passo o resto da minha vida procurando uma fórmula que se equipare ao seu cheiro, e morro procurando pelo impossível.

– Uma vida solitária, não parece bom.

– A obra de Romeu e Julieta também não é feliz, mas é bonita. – Disse Yoochun. – Eu acredito que algumas coisas estão fadadas a acontecer.

– E o encontro de hoje? Estava escrito?

– Estava.

– E o que vem depois?

Yoochun sabia o que ele desejava, pois era um desejo compartilhado. Micky o guiou até a beirada da piscina, onde o rapaz apoiou as costas na borda, preso em uma agradável armadilha que o envolvia em um abraço. O corpo de Junsu colou-se ao seu. Suas coxas roliças se encaixaram, e seus abdomens lisos e bem definidos se encontraram por baixo d’água. Seus tórax escorriam gotículas de água, enquanto suas peles se arrepiavam a medida que eles se aproximavam.

Os dedos de Junsu encontraram o lugar perfeito para acariciar, se embrenhando nos cabelos finos da nuca do rapaz que relaxou ao seu contato. Suas respirações úmidas se encontravam devido a proximidade em que estavam seus rostos. Yoochun estudou aqueles lábios, tão perfeitamente desenhados, protuberantes e rosados. De uma maciez única e que enfeitavam aquele sorriso que não saía da mente de Micky.

Junsu fechou os olhos devido ao nervosismo. Ele sabia que aquele era o momento, ele teria o que queria, ou Yoochun fugiria dele assustado. Aquela expectativa era terrível, maltratava seu coração, seus desejos. Junsu sentiu o cheiro fresco do hálito do rapaz mais forte, mas achou que poderia ser sua imaginação. Talvez até mesmo aquelas mãos firmes em sua cintura, aquela respiração descompassada e as batidas fortes e rápidas do coração do rapaz fossem sua mente pregando-lhe peças.

Então ele sentiu. Um breve roçar em seu lábio inferior, um roçar macio, o fez cócegas e ele instintivamente separou os lábios, esperando por um beijo. Este beijo não tardou a vir. Os lábios de Micky pressionaram os seus, os saboreando despretensiosamente. Os lábios de Junsu sugaram os do outro, abusando daquela textura, suave, mas ao mesmo tempo saborosa. Micky pendeu o rosto de lado e em sincronia, suas línguas se encontraram.

Pela primeira vez, Yoochun sentiu o sabor de Junsu. Ele poderia compara-lo aos morangos que eles comeram no café da manhã dias antes, ou ao mais sofisticado chocolate belga. Talvez uma mistura daqueles dois sabores, potencializados pelo aroma da pele do rapaz. Quando Junsu cortou o beijo, por sentir seu fôlego faltar, Micky roubou-lhe incontáveis selares, desejando na verdade, tomar para ele aquele sabor indistinguível.

Quando recuperou o fôlego, Junsu retomou o beijo, a fim de agradecer por aquela deliciosa sensação. Micky não demorou em correspondê-lo, e tratou de aperta-lo contra seu abraço. Eles passaram a hora seguinte, explorando a boca um do outro, com a língua, os lábios, os dentes. Testaram novas sensações, novos sabores, esboçaram reações, suspiros e até gemidos baixinhos e discretos.

Entretanto, a água ficou fria demais para eles permanecerem ali. Junsu saiu primeiro, seguido por Yoochun e sem enxugar a água, eles vestiram suas roupas e se abraçaram, na tentativa de se aquecerem. Micky jogou sua jaqueta sobre os ombros largos do rapaz, e o envolveu com firmeza, esfregando suas costas para que ele se aquecesse com mais pressa. Eles não haviam trocado palavras na última hora, apenas sensações.

– Você não é gay. – Disse Junsu, caminhando em direção à saída.

– Não, não sou.

– Mas me deu um beijo, por livre e espontânea vontade.

– Acho que sim.

– Explique-se!

– Eu sou obrigado? – Disse Yoochun, entrelaçando os dedos aos do rapaz e passando a caminhar ao seu lado. – A questão, é que eu prefiro sentir a explicar, prefiro passar o resto da noite te beijando do que procurando palavras do que eu penso sobre isso.

– Mas em algum momento você vai ter que explicar, Chunnie. – Afirmou Junsu. – Mesmo que seja depois de nós voltarmos para Seul.

– Eu prometo pensar em algo para te dizer.

– Chunnie, hoje mais cedo, eu estava falando de você para o meu irmão no vestiário. – Começou Junsu. – E eu acho que o seu irmão ouviu.

– Ele me disse que ouviu.

– Ele pareceu chateado, vocês brigaram?

– Não. – Afirmou Yoochun. – Nós conversamos um pouquinho, ele é compreensivo. As vezes eu acho que ele entende as questões complicadas muito melhor do que eu, ele me entende melhor do que eu.

– Você já falou isso para ele? – Indagou Junsu.

– Não. – Confessou Yoochun. – Eu nunca fui muito bom com palavras e sentimentos. A vida é mais fácil sem essas coisas.

– Você é complicado. – Disse Junsu, o abraçando pela cintura e recostando a cabeça no ombro do rapaz.

– Você é lindo. – Disse Micky, o envolvendo pelo ombro e arrancando um sorriso do rapaz. – Me diz uma coisa, como vai ser quando chegarmos a Seul?

– Nós vamos nos ver na faculdade, e aí pensamos. – Disse Junsu. – Essa foi só a primeira aula de natação, eu vou ter outras, não vou?

– Vai ter muitas! – Disse Yoochun, parando na saída e o empurrando ao muro mais próximo. – Eu tenho que te ensinar nado de peito, de costas, borboleta, cachorrinho.

– Isso está ficando interessante. – Disse Junsu, pressionando sua cintura e o deixando selar seus lábios. – Chunnie, é melhor nós irmos para o quarto, já está tarde.

– Eu ganho um beijo de boa noite?

– Até dois.

Apenas com a lua como testemunha, os dois voltaram a se beijar e entrelaçar os dedos de sua mão, em um gesto carinhoso e íntimo. Yoochun nunca se sentiu tão vivo, tão completo, tão especial, nenhuma mulher o fez se sentir daquela forma. Ele abusava daquela boca, sem piedade, roubando dela o néctar que o arrepiava e alimentava seus sentimentos complexos. Ele não queria ver o sol nascer, não desejava que aquela noite terminasse.

Junsu estava entregue em seus braços, aos seus beijos, como muitas pessoas desejavam tê-lo. No entanto, apenas Micky via além daquele belo sorriso, da risada simpática e do olhar inocente. Ele via um abismo de carência, via uma muralha de segredos e inquietações, mas acima de tudo via romance. Tal qual uma Julieta esperando por um Romeu em seu romance shakespeariano, Junsu esperava por um amor.

Os beijos de Yoochun eram bons demais para serem negligenciados e deveriam ser correspondidos a altura. Ele ficou feliz em saber, que ao menos naquela noite, eles não seriam desperdiçados com uma menina vazia e sem alma. Eles eram seus e unicamente seus. Junsu sabia que teria questões complexas para resolver, um encontro as escuras para cancelar, um irmão para tranquilizar, no entanto ele decidiu que aquela noite seria como Micky queria, apenas sentida, não falada, nem pensada.

A magia do primeiro beijo ainda inebriava Yoochun. Seu primeiro beijo gay, com o homem que ele desejava em segredo, e admirava em silêncio. Ele estava empolgado com sua descoberta, mas ao mesmo tempo assustado. Junsu era um ser divino, mas seria ele o que Su precisava para ser feliz? Ele teria todos os requisitos para completar Junsu como ele o completava? Ou no pior dos casos, Junho se provaria certo?

Era esse tipo de complicação que Yoochun detestava em seus sentimentos. Ele queria que tudo fosse simples, como uma paixonite infantil, ou sexo sem compromisso. Mas ele estava resignado ao pior, e sabia que a complexidade de Junsu era o que o atraía. Aquele sentimentalismo que o envolvia, o envenenava e o deixava a mercê de seus desejos, de seus mimos. Ele sabia que o que sentia por Junsu era algo belo, mas ao mesmo tempo perigoso, e o mesmo sentimento que o atraía, o avisava para manter distância.

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