Capítulo 08 – Falling in love.

once6

 

Yoochun ajeitou a alça de sua mochila. O par de óculos de armação quadrada adornava de forma charmosa seu rosto másculo. Ele deixou seu irmão para trás, ouvindo “Boa aula, hyung” dele antes de se afastar em direção ao interior do campus. Era uma manhã de sol, com o céu limpo e sem nuvens. Nem parecia uma segunda-feira, ou sequer, o primeiro dia de aula. O campus não estava assim tão cheio, ao menos, não se comparado a frente da faculdade, onde se reuniam os alunos.

Após contornar o prédio administrativo na entrada, Yoochun se viu de frente com o caminho para os prédios dos cursos. Lá estava ele, naquele lugar de conhecimento, pelo qual ele não tinha grandes interesses, não fosse a vontade de arranjar um bom emprego. Ele atravessou um prédio para seguir para o seu, e já na saída deste, viu pessoas conhecidas, com quem ele não fazia questão alguma de conversar.

Algumas meninas cochicharam entre si, e soltaram risadas agudas quando ele passou. Uma delas, chegou a puxar o ar para cumprimenta-lo, porém foi piamente ignorada. Micky era arrogante, e tinha plena noção disso. Ele passou direto por elas, e outras meninas naquela faculdade, sem fazer questão de desviar o olhar.  Ele apenas melhorou suas feições quando viu aquele quem ele realmente desejava encontrar.

Junsu era visivelmente seu oposto. Ele ria divertidamente, rodeado por pessoas e é claro, com seu irmão ao seu lado. Yoochun decidiu se aproximar do grupo, por mais que não tivesse certeza de como aborda-los. Porém, se passasse direto por Junsu, certamente ele se chatearia e Micky teria que se contentar em vê-lo somente no próximo intervalo. Ele cruzou os braços, retomou seu ar sério e se aproximou do grupo.

Entretanto, foi difícil manter o ar sério quando Junsu lançou a ele um sorriso tão adorável. Yoochun esboçou um sorriso de volta, por mais que sua vontade fosse de escancarar seus dentes e depois tomar aqueles lábios em um delicioso beijo. Junsu correu em sua direção e o agarrou pelo pulso, o puxando para seu circulo de amizades. Ele era apaixonado por Junsu, mas ser arrastado daquela maneira para junto de seus amigos não era algo que estava em seus planos.

Micky foi amplamente analisado por três pares de olhos e ignorado por Junho, que se recostou à janela do prédio onde eles se abrigavam do sol matinal. Junsu o deixou ao seu lado e sorriu discretamente ao sentir a mão do outro repousar em sua cintura. Hyukjae o observava com mais atenção naquele dia, e sabia perfeitamente que aquele cara com feições antipáticas era o homem perfeito para seu melhor amigo.

– Esse é o Hyukie e o Donghae, você já conhece, né Chunnie?

– Sim, eu me lembro deles. – Disse Yoochun. – Bom dia, Junho.

– Bom dia, Yoochun. – Disse Junho, sem sequer desviar o olhar para ele.

– E esse é o Siwon, que você não conhece. – Disse Junsu, apontando o rapaz mais alto do grupo.

– Ah, você é o Siwon? – Disse Yoochun, devolvendo o olhar analítico. – O Su me falou de você.

– Ele me falou de você também. – Disse Siwon, o fitando de cima a baixo.

– Falou é? – Disse Yoochun, desviando o olhar para o rapaz que se apoiara em seu corpo. – E falou bem?

– Fiz a maior propaganda! – Riu-se Junsu. – Eles não acreditaram muito, sabe?

– É que você não inspira muita confiança. – Atacou Junho.

– Tsk, dê uma chance a ele, Jun! – Intrometeu-se Hyukjae. – Então você é meio viado e gosta do meu amigo?

– Sshh fale baixo! – Ralhou Junsu.

– E é segredo também? – Disse Donghae. – Interessante…

– Vocês também não são óbvios. – Disse Yoochun. – Eu só sei que vocês são um casal porque o Su me contou.

– Ah, o Su te contou. – Disse Hyukjae, encarando seu tímido amigo.

“Oppa!!”

Todos do grupo se assustaram com o grito agudo da moça que apareceu correndo. Destes, somente Junho reparou em suas pernas a mostra, e na alça de sua blusa pendurada em seu braço, deixando seu decote mais evidente. Ela tomou posição ao lado de Yoochun, que tinha certeza que a conhecia de algum lugar, apesar de não se recordar que lugar era esse e muito menos seu nome.

Atrás dela uma moça de cabelos ruivos tomou a frente e começou a entregar-lhe os folhetos toscamente impressos. Nela, em letras garrafais dentro de um balão, dizia tal qual um grito “Festa de boas vindas aos calouros!!!” E logo abaixo, uma foto de pessoas desconhecidas sorrindo e em seguida, informações como local, horário e preço de entrada. E a última informação, também em letras grandes dizia “Open Bar”

– Oppa, você vai né? Tem aquela vodca de morango que nós provamos da outra vez! – Afirmou a moça de cabelos coloridos, olhando diretamente para Yoochun. – Nós podemos virar uns shots juntos de novo.

– Ah, vocês viraram uns shots juntos? – Disse Hyukjae, trocando alguns olhares com Junho.

– E o que aconteceu depois? – Disse Junho.

– Bem, eu fico bêbada bem mais rápido, então o oppa cuidou de mim. De um jeito bem especial.

– Sem roupas, eu imagino. – Disse Junho, sorrindo triunfante.

– Tsk, oppa, não seja tão óbvio! – Riu-se a moça. – Eu juro que não sou assim com todo mundo, mas o Chunnie-oppa tem uma lábia incrível!

– Ah, jura? Ele te chamou de baby na ocasião, por acaso? – Indagou Donghae, recebendo um olhar fulminante de Yoochun.

– Não, mas eu achei engraçado, porque ele me chamou por um nome diferente. – Disse a mesma moça. – Algo que começava com Jim… Jimmy? Devia ser a princesa que ele deixou na América

– Não lembro. – Disse Yoochun, visivelmente incomodado, fitando Junsu sorrir constrangido ao seu lado.

– Não importa mais, você está na Coreia e nós coreanas somos muito mais bonitas. – Afirmou a outra moça. – Esperamos vocês na festa, hein? Principalmente você, Siwon-oppa, você sempre promete e não cumpre.

– Então é melhor eu parar com as minhas promessas. – Disse Siwon, abrindo seu adorável sorriso e piscando divertido para a moça. Aquilo enojou Yoochun, que revirou os olhos.

Elas se afastaram acenando, entre risadinhas agudas e beijos distantes. Junsu, antes bem humorado, já não gostava da atitude delas. E então ele percebeu, diversos olhares intensos e julgadores sobre seu querido Yoochun. Por sua vez, Micky mantinha seu olhar altivo e arrogante, por mais que sua mão agora se agarrasse com mais firmeza na cintura do outro. Ele estava na defensiva, e não desejava dar satisfações a ninguém que não fosse seu querido Junsu.

– Então, meu amigo, esse é o problema de sair com esse tipo de pessoa. – Disse Donghae. – Não existem segredos.

– Isso não me incomodava. – Confessou Yoochun, ainda defensivo. – Quer dizer, que diferença fazia a minha reputação? A vadia não era eu, e sim ela.

– E reputação de bicha, você não se incomoda? – Disse Siwon.

– Sei lá. – Yoochun deu de ombros como se não se importasse, porém todos ali sabiam que ele se importava e se incomodaria em ser acusado de sua homossexualidade.

– Você quer ir nessa festa? – Disse Junsu, expondo sua verdadeira preocupação. – Eu não vou ficar bravo se você quiser ir.

– Não, eu queria a sua companhia para hoje a tarde, você tem planos? – Disse Yoochun.

– Ele vai jogar com a gente mais tarde. – Interrompeu Junho. – Você vai né?

– Mas isso é bem mais tarde, depois do grupo de estudo do Siwon. – Disse Junsu.

– E você não vai ao cinema com a gente? Você me disse mil vezes que queria ir ver aquele filme, se você mudar de ideia…

– Eu quero! – Interrompeu Junsu, baixando o rosto ao dizer. – Só achei que o Chunnie podia ir junto.

– Se vocês disserem não, eu vou levar ele para o cinema. – Disse Yoochun, convicto.

– Mas é claro que ele pode vir, por que não? – Disse Donghae.

– Porque ele é um chato. – Argumentou Junho.

– Se eles aguentam você, não terão problemas comigo. – Acusou Yoochun.

– Não, Junho, é uma ótima ideia o Yoochun sair com a gente. – Disse Hyukjae. – De que outra maneira podemos saber se ele é um cara legal ou um cretino?

– Ah, é muito fácil, é só ver com que tipo de piranha ele andava. – Disse Junho, indignado. – Dá logo um fora nesse cara, Junsu!!

– Eu não vou ficar me explicando pra você, o que você quer? Escolher com quem o seu irmão vai sair?

– Ele escolheu, na verdade, mas o Su não quis. – Intrometeu-se Hyukjae. – Então está decidido, você vai ao cinema comigo e com o meu Donghae.

– Você quer ir? – Disse Junsu, voltando-se para Micky. – Não vou te obrigar.

– Quero. – Disse Yoochun, encarando o casal a sua frente. – Eu pago a sua pipoca, baby.

– Divirtam-se. – Disse Junho, jogando sua mochila sobre os ombros. – Eu não vou, se eu for, acabo com a raça desse aí.

– Bring it on, loser!

Yoochun o ofendeu, vendo-o dar as costas e se afastar. Junho até tentava se acostumar com a presença daquele incômodo indivíduo a quem seu irmão chamava de namorado, mas a cena ridícula com a moça anteriormente o irritara. Ele seguiu sozinho para sua sala de aula, uma vez que estava enojado das feições daquele rapaz. Ao lado de Micky, Junsu o fitava desgostoso. De todos os homens do mundo, por que ele dera certo com alguém com um temperamento tão explosivo?

– Não briga com ele, Chunnie. – Pediu Junsu, segurando discretamente sua mão. – Me leva até a minha sala?

– Claro.

Micky não esperou ele pedir duas vezes e tratou de puxa-lo pela mão, enquanto o chateado rapaz acenava para seus amigos. Eles ainda ouviram Donghae indagar sobre ele ter se chateado com seus comentários, ao que Hyuk explicou que o entristecia chatear o irmão. E Junho estava visivelmente chateado. Micky não se importava com as opiniões do gêmeo encrenqueiro, mas incomodava ver Junsu com aquelas feições tão lindas, entristecidas.

Junsu sentia um aperto no peito e se fosse somente o ciúme, ele poderia gritar com Yoochun e se livrar daquilo. Entretanto, ele tinha que resolver algo bem mais profundo com seu irmão e era nisso que sua mente trabalhava. Ele cruzou os braços e suas feições se tornaram sérias, apesar de ainda tristes. Junsu já soltava seu segundo suspiro pesado quando sentiu Micky puxa-lo para dentro de um banheiro masculino desativado.

Era um local horrível, mas ambos precisavam de privacidade. Junsu recostou-se à porta, amassando a mochila às suas costas e suspirando em impaciência. Seu dia mal havia começado e ele já estava infeliz e brigado com seu irmão. Seu último desejo era uma sessão de beijos com o outro rapaz, no entanto, aquele lugar parecia realmente propício a esse tipo de ato. Micky o agarrou pela cintura, e Junsu estava pronto para se desvencilhar quando ele disse:

– Me perdoa, baby?

– Chunnie, o que você quer dizer? – Disse Junsu, impaciente.

– Eu não… – Yoochun suspirou pesadamente. – Se eu tivesse a menor ideia de que, em algum momento, eu conheceria alguém como você e que por algum poder divino aceitasse sair comigo, eu jamais arriscaria a minha reputação daquela maneira. Eu não queria que você passasse por isso, ou que tivesse que ouvir aquele tipo de baboseira na frente dos seus amigos e muito menos do seu irmão.

– Eu sempre soube como você era, e meu irmão também sabe. – Explicou Junsu. – Quer dizer, seu irmão se gabava das meninas bonitas com quem você saía, apontava pra elas no campus e as pessoas te admiram por isso, apesar de ninguém saber como você faz. Quer dizer, o que você faz? Por que elas caem na sua?

– Eu sei o que elas querem ouvir. – Disse Yoochun o soltando e se recostando a parede ao seu lado. – Elas gostam de ouvir elogios aos detalhes, como um sapato, uma unha ou um enfeite de cabelo. Se elas falarem mal do ex-namorado ou do atual, você pega o defeito e fala que você é exatamente ao contrário. Se ele não gosta de como ela arruma o cabelo, você diz que nunca viu cabelo mais lindo. Se elas estão tristes, você ouve com paciência tudo o que ela disser e depois diz que ela é independente, que é dona de sua vida e que não deveria se preocupar com tais coisas. Elas vão achar que estão transando com você por conta própria, porque são decididas e livres, porém foi você quem disse para elas fazerem isso.

– Que horror!!

– E é claro, eu escolhia sempre o melhor perfil. As mais bonitas, mais vazias e que achavam que o mundo está aos seus pés. As que não se importam com os pais, que não tem amigas verdadeiras, que acreditam ser independentes, mas são as mais carentes, mais manipuláveis. Essas acreditaram, por uma noite, que em algum momento eu me aproximaria de novo, que em algum momento eu me apaixonaria, mas nós dois sabemos que isso é impossível. E então, quem volta são elas, com esse discurso barato de que não se importa de ouvir o nome de outra pessoa na cama. De quem quer repetir a dose de sexo, quando na verdade quer a minha atenção, o meu carinho. É assim que funciona, sempre.

– Você pensava nisso? Planejou isso?

– Não daria certo sem planejar. – Disse Yoochun, voltando-se para ele. – Eu sempre soube que você não iria gostar disso, que não gostaria de ouvir essas coisas. No entanto, eu não posso passar uma borracha em tudo o que já fiz na vida, assim como você não pode. Eu tenho que assumir o meu passado pra você, por mais que ele seja cheio de erros, buracos, mentiras.

– Você não mentiria para mim não é? Não iria me dizer somente as coisas que eu quero ouvir? Não iria me manipular?

– Não, eu quero ficar com você. – Disse Micky, voltando-se para ele. – Eu não quero te afastar de mim, por isso eu estou aqui, te pedindo perdão por mais cedo, assumindo meus erros, me despindo da minha falsidade e da minha arrogância. Eu sei que sou arrogante, não sei socializar, sou orgulhoso e eu deixo tudo isso de lado por você.

– Posso te pedir uma coisa?

– O que você quiser, Su.

– Depois de irmos ao cinema com o Hyukie e o Hae, vamos jogar futebol com eles e…

-Eu não sei jogar bem.

– Não tem importância. – Disse Junsu, cruzando os braços. – Você vai conversar com o meu irmão e vai pedir desculpas pra ele por hoje de manhã.

– De jeito nenhum. – Reclamou Micky. – Eu quero ficar com você, não com ele.

– Você me pediu pra aceitar o seu passado e eu aceitei, mesmo sabendo que você é um tremendo de um cretino. – Disse Junsu. – Eu devo ser mesmo um idiota por aceitar isso, mas eu não vou ter paz se meu irmão brigar comigo a cada dez minutos por sua causa. Também não quero um namorado que implica com o meu irmão, e nem que humilhe ele publicamente, então hoje você vai conversar com o Junho.

– Por que você quer que eu faça isso, Su? Por que quer que eu me humilhe para o seu irmão? Isso é injusto!

– Eu não te pediria isso se não gostasse tanto de você, Chunnie. – Disse Junsu, apoiando as mãos em seus ombros. – Não te aproximaria dos meus amigos e da minha família se não quisesse que você fosse o meu namorado.

– Eu gosto tanto de você. – Concluiu Micky. – Não gosto dessa situação.

– Faz isso, por mim. – Disse Junsu sorrindo, o vendo se aproximar.

– Você podia ter um sorriso menos bonito né? – Afirmou Micky, recostando o rosto ao dele. – E de pensar que eu só queria um beijo de ‘boa aula’.

– Você vai ganhar o seu beijo de boa aula. – Disse Junsu, aumentando seu sorriso. – Mas só um, porque já está tarde.

– Um só…

Micky colou os lábios aos dele e brincou com sua textura por algum tempo, até Junsu empurra-lo e sair correndo do banheiro. Ele se contentou com aquela sensação pelo resto da manhã, por mais que a premissa de ter uma conversa franca com Junho o tivesse incomodado. Ele nem viu a aula passar, tampouco prestou atenção nas matérias, apenas se dando ao trabalho de falar quando avisava o professor que não faria os trabalhos em grupo, mas sozinho. Ele já havia desistido de procurar colegas aplicados e que não fizessem questão de sua amizade fora da sala de aula.

Ao final da aula, Micky abriu a última página do caderno e escreveu duas ou três frases que deveria falar para Junho, mas se arrependeu e as riscou e assim ele matou o tempo, procurando em seu vocabulário palavras que fossem convencer o irmão gêmeo de que ele não era assim tão cretino. Ao menos não tanto quanto o rapaz imaginava que ele era. Seu passado depunha contra ele, no entanto, ele estava disposto a demonstrar que seu comportamento com Junsu seria, de fato, muito diferente.

Ele era apaixonado por Junsu, e o nauseava a possibilidade de deixa-lo triste ou de afasta-lo de si. Micky não o considerava perfeito, mas era com ele que ele desejava ficar, por muito tempo. Ele abdicaria seu passado sem pestanejar, se assim seu amado desejasse. Ele o queria ao seu lado, com toda sua pureza, e o queria fazer feliz. Mas como explanar um desejo tão puro com palavras?

O professor abriu a porta e assim, ele estava liberado de sua aula. Ele passou pela cafeteria e saiu de lá com um lanche que o saciou antes de ir encontrar seu amado. Ele ainda tomava seu suco de laranja quando os encontrou na saída da faculdade. Junsu comia um hambúrguer extremamente gorduroso, no entanto, era o que seu dinheiro conseguia comprar aquele dia. Ele detestava comer tais alimentos gordurosos.

Junsu o viu se aproximar e sorriu discreto, pois sua boca estava cheia. O outro casal conversava entre si, deixando seu Junsu de lado, e aquilo o incomodou de certa maneira. Micky juntou-se a eles e o casal imediatamente o chamou para que andassem em direção ao cinema. O que Yoochun não sabia, ainda, é que eles não iriam a um shopping, e que aquele não era um cinema qualquer.

Era uma espécie de galpão próximo ao campus da faculdade. Havia somente uma sala de cinema, e a cada dia eles exibiam um título diferente. Não eram filmes de fácil acesso e sim diretores pouco conhecidos do grande público. Ao contrário do que Junsu imaginava, a semana de musicais americanos havia acabado e eles exibiram Saturday Night Fever apenas naquele sábado.

Aquela era a semana do “Expressionismo Alemão” e o filme exibido naquele dia era “O Gabinete do Dr. Caligari”. Claro que não passava nem perto do que Junsu imaginava, no entanto, Hyukjae o convenceu de que ele o trouxera até ali e eles deveriam assistir ao filme. Junsu ainda reclamou e bancou o manhoso, mas seu amigo estava irredutível. E assim, eles se obrigaram a entrar na sala de cinema.

O filme ainda estava começando, e no local, havia apenas um casal no canto, aos beijos, nada interessado no filme. Os dois casais se posicionaram no fundo da sala, Hyukjae e Donghae na penúltima fileira e Yoochun e Junsu na última. A justificativa de Hyukjae para sentar-se separado, era que Donghae não iria resistir ao seu charme e o agarraria no meio do filme. Assim, para poupar-lhe constrangimentos, eles se sentaram a frente.

Junsu não parecia mais tão bem humorado por ser obrigado a assistir um filme alemão e não o musical. Micky havia se calado ao longo de todo o trajeto, tentando ignorar as brincadeiras dos amigos de Junsu, por acha-las demasiadamente sem graça. Agora ele podia ficar somente com seu amado, no entanto, ele não parecia animado com a premissa daquele dia. As luzes baixaram e Micky o abraçou pelos ombros, finalmente se dirigindo ao rapaz:

– O que foi, baby? Está chateado?

– Eu não queria ver esse filme chato e ainda por cima, aquele hambúrguer horrível me deixou com azia. Eu acordei muito cedo e não queria estar aqui.

– Eu sei, eu sei. – Disse Micky, sorrindo a ele. – E eu também não estaria aqui, se não tivesse prometido conversar com o gêmeo mau mais tarde.

– Você vai mesmo conversar com ele? – Disse Junsu, baixando o tronco e desamarrando seus próprios sapatos.

– Vou. – Afirmou Micky estranhando a atitude dele. – O que você está fazendo?

– Já que eu vou ter que ficar aqui, vou descansar um pouquinho. – Afirmou Junsu, levantando os apoios de braço, para que os bancos do resto da fileira ficassem livres.

– Ah, então espere! – Micky animou-se com a ideia e também tratou de retirar seus sapatos. – Eu também quero descansar.

– Você vai jogar com a gente? – Disse Junsu, o vendo separar as pernas e se apoiar na parede ao lado de sua poltrona, para que seus pés se apoiassem nas cadeiras. – Hey, se você vai ficar assim, onde eu vou me deitar?

– No meu colo, Su! – Disse Micky, indignado pelo outro não entender imediatamente suas intenções. – Deite aqui!

Junsu corou violentamente e olhou em volta e busca de algum olhar curioso sobre eles. O filme começou, então ele se arrastou sobre o sofá e se posicionou entre as pernas do rapaz. Yoochun o abraçou pela cintura e o deitou sobre seu tórax, sentindo-o um tanto tenso com aquela posição. Ele chegou a rir da vergonha do outro, pois já haviam trocado beijos, por que afinal, ele não se deitaria em seu colo.

Junsu acomodou-se confortavelmente nos braços do outro e aquele era um dos melhores abraços que ele já recebera. Uma das mãos de Micky o envolveu pela cintura, suas pernas o pressionavam e seu corpo recebia seu peso sem maiores problemas. A mão livre de Yoochun tratou de acariciar seus cabelos e sua orelha, o sentindo relaxar quase imediatamente. Junsu agarrou-se ao outro, antes de perguntar-lhe, em voz alta para que ele o escutasse:

– Você vai jogar com a gente?

– Eu não quero jogar, Su. – Respondeu Yoochun, apoiando o rosto no topo de sua cabeça. – Eu jogo mal, não sirvo pra isso.

– Você vai se divertir, vamos ser só nós, não precisa ficar com vergonha. – Insistiu Junsu. – Por favor, vamos jogar!

– Está bem, eu jogo! – Disse Micky, pouco satisfeito. – Mas se o meu time perder, não venha reclamar.

– Não vou reclamar. – Disse Junsu, bocejando demoradamente. – Posso dormir?

– Dorme, Su.

Junsu riu e ainda ergueu o rosto para fita-lo, antes de se acomodar em seus braços. Era de longe, a melhor cama, com a melhor companhia, para ter algum momento de descanso. O cheiro daquele rapaz, seu abraço, suas carícias, tudo aquilo o ajudava a relaxar e o fazia acreditar que ele era único, especial na vida do mesmo. Assim, ele adormeceu, sentindo o outro abraça-lo com ainda mais firmeza.

Junsu apagou pela hora seguinte, adormecido nos braços daquele por quem tinha tanto apreço. Micky ainda velou seu sono por alguns minutos, e depois deu sua atenção ao filme, para só então adormecer como ele. Não era posição mais confortável, tampouco o local mais apropriado, entretanto eles estavam satisfeitos por dormirem juntos, pela primeira vez. Assim, quando acordou, Yoochun sentia-se melhor do que nunca.

Por alguns instantes Micky acreditou estar em uma espécie de sonho especial. O homem que ele amava estava ali, debruçado sobre ele, confiando seu sono ao seu abraço. Yoochun sentiu-se especial, mas acima de tudo, acreditou por alguns instantes em contos de fadas e que de alguma maneira eles teriam seu final feliz. Micky deixou alguns beijos em seu rosto, o vendo remexer incomodado.

Micky divagava sobre a beleza daquele homem em seus braços quando percebeu que o casal a sua frente o observava. Por alguns instantes, ele sentiu-se constrangido por ter sido flagrado deixando caricias e beijos no rapaz adormecido, mas não demorou a perceber que não era julgado. Donghae sorria ao observa-los, achando adorável a maneira como ele tratava Junsu. Yoochun poderia não ser o rapaz mais cavalheiro que eles conheciam, mas certamente era muito carinhoso.

Junsu acordou quando as luzes do cinema se acenderam, mas ainda assim ele permaneceu naquele abraço, preguiçoso demais para se levantar. Em nada ajudavam, os beijos deliciosos que Micky deixava em seu rosto e no topo da sua cabeça. Yoochun então deixou-se observa-lo. Junsu era lindo, mesmo com seus olhos inchados de sono e as feições mais preguiçosas que ele já vira.

– Eu não quero sair, vamos ficar para a próxima sessão, vamos dormir.

– Não podemos, Su, você prometeu jogar com o Junho, lembra?

– Se ele soubesse o quanto eu gosto desse abraço, não me faria ir jogar futebol com ele.

– Vamos combinar, você vai dormir lá em casa, eu fico abraçado com você e você me olha de novo com essa cara de sono.

– Cara de sono? Por que?

– Você é lindo com sono. – Afirmou Yoochun, acariciando os cabelos do rapaz. – Tão lindo…

– Bobo. – Disse Junsu, rindo-se e se apoiando no banco para se erguer e beijar seus lábios. Ele foi prontamente correspondido e os dois ainda trocaram alguns selares sob os olhares atentos do outro casal.

– Você melhorou da azia? Está se sentindo bem?

– Estou. – Disse Junsu, erguendo-se e se sentando sobre o corpo dele. – E você? Já se lembrou de todas as regras do futebol?

– Eu só vou fingir que jogo, só pra você ficar feliz.

Junsu riu-se do comentário do outro, mas logo percebeu que Hyukjae se levantava, com Donghae apoiado nele. Eles pareciam felizes e já não olhavam com feições desgostosas para seu querido Micky, aparentavam estar mais compreensivos e até mesmo pacientes com o rapaz. Yoochun, consequentemente ao perceber menos hostilidade, deixou de lado por alguns momentos, sua arrogância comum.

Micky o avisou em um sussurro que precisava ir ao banheiro e Junsu se recostou a parede próxima para espera-lo. Ele ajeitava seus cabelos com os dedos, quando seus amigos se aproximaram. Donghae parou de um lado e Hyukjae do outro, ambos o fitando com ares de cumplicidade. Junsu riu sem jeito, sabendo que comentários ácidos viriam em seguida. No entanto, não foi isso que veio de Hyukjae:

– Hey, o seu gatinho, não é de todo mal.

– Eu sei que não…

– Quer dizer, ele te trata de um jeito especial. – Constatou Hyukjae. – Na verdade, te trata como você merece ser tratado. Ele é sempre assim, ou está fazendo pose?

– Ele é assim sempre que está comigo. – Disse Junsu. – E quando não se obriga a ser chato com as pessoas.

– Por que ele faz isso? – Indagou Donghae. – Ele parece incapaz de conversar conosco normalmente.

– Ele só conversa com quem ele quer. – Disse Junsu. – Eu quero que ele converse, com vocês, com o meu irmão, mas vocês tem que ser pacientes.

– Só nós?

– Não posso exigir demais de um cara que, depois de um ano na Coreia, não tem um único amigo.

– Ele já disse que te ama? – Indagou Donghae, fazendo seu namorado rir de seu romantismo exagerado.

– Ainda é muito cedo. – Disse Junsu. – É o meu primeiro namorado, não quero pressionar ele a nada.

– E o seu irmão?

“Não sei”.

Junsu pareceu repentinamente melancólico, mas sorriu ao ver Micky voltar a se aproximar. Donghae saiu de seu lugar para juntar-se ao seu namorado e deixar que o outro recostasse ali. Entretanto, Yoochun preferiu ficar à frente dele, discretamente segurando sua mão. Junsu adorava toques sutis como aquele, que o faziam lembrar o quanto ele era especial, que o afirmavam o quanto seus sentimentos eram recíprocos.

Junsu puxou-o pela mão para eles saírem daquele cinema nada romântico e um tanto rustico e grotesco. Eles somente soltaram as mãos quando entraram na rua ainda congestionada da faculdade. Eles seguiram para o campo de futebol normalmente usado pelos alunos de Educação Fisica, mas que nem sempre era bem aproveitado. Foi quando Yoochun começou a demonstrar sua preocupação e ansiedade.

Ele era um bom corredor, mas um péssimo jogador. Sua coordenação motora era terrível, ele errava passes, não se localizava adequadamente em campo e sempre fora um zero a esquerda no futebol. Entretanto, Junsu parecia cada vez mais animado ao se aproximar do campo. Ele começou a falar mais e explicar as regras do futebol para seu Yoochun, que sabia delas em teoria, mas na prática não saberia aplica-las.

Junsu cogitou correr para a quadra, mas Micky não estava apressado. Eles deixaram suas mochilas com as dos outros rapazes e juntaram-se a eles. Junsu tranquilizou-se ao ver Yoohwan ali, talvez assim Yoochun ficasse menos hostil. O mais novo, animado e um tanto alto pelas cervejas que andou tomando, puxou seu irmão para seu time, dizendo em tom divertido “Meu mano fica comigo!” sem perceber que Junsu juntara-se ao time contrário.

Yoochun chegou a conclusão de que conseguiria disfarçar por quinze minutos antes de fingir uma câimbra e sair dali. Sua participação faria Junsu feliz e por isso, valia o esforço. Junsu o viu se afastar para falar com seu irmão, enquanto seu gêmeo passava os dedos em seus cabelos, tentando arruma-los novamente. Junsu respondeu calmamente todas as perguntas de seu irmão, onde ele estava, com quem, fazendo o que, o que comeram, como ele se sentia, tudo foi amplamente explanado para ele.

Junsu sabia que ele seria confrontado em algum momento por Yoochun e não desejava irrita-lo tão cedo. Antes que eles pudessem continuar sua conversação, Yoohwan pegou a bola e saiu chutando-a, começando assim o jogo. Micky levou alguns minutos para perceber que havia um jogo acontecendo e logo tratou de correr atrás da bola, assim como os outros, mesmo não entendendo nada de passes e posicionamento.

Junsu se esforçou para ajuda-lo quando as pessoas não estavam olhando, entretanto ainda assim, Micky não parecia apto para o esporte. Quando a bola chegava aos seus pés, ele a perdia com facilidade, na maior parte das vezes para Junho, que o marcava com voracidade. Micky sabia que aquilo era a mais pura implicância, entretanto, ele ainda tinha que conversar com o rapaz naquele dia e não deveria irrita-lo.

Entretanto, como ele faria para não se irritar? Como manter a calma quando o rapaz o empurrava de propósito e puxava a barra de sua camisa até estica-la e amarrota-la? Micky não era assim tão paciente e tratou de empurra-lo para longe quando este o tocava. Poucos perceberam a tensão entre os dois, pois o jogo estava especialmente divertido naquela tarde. Junsu os observava de longe, temeroso de se aproximar e piorar a situação, Yoohwan por sua vez, parecia mais disposto a separa-los do que efetivamente jogar.

As coisas pioraram quando Junho começou a revidar os empurrões e de repente eles já nem usavam o futebol como desculpa. Junho soltou-o somente quando a bola se aproximou deles e ele decidiu desviar sua atenção ao jogo. Micky o seguiu, na tentativa de disfarçar sua irritação, porém Junho não estava disposto a facilitar. Junho passou a bola para seu colega com maestria e então ergueu o braço, o impulsionando para trás, na tentativa de afastar Yoochun.

O que ele não previu, é que seu cotovelo acertaria em cheio no olho de Yoochun, que sentiu uma dor aguda no rosto e em seguida o sangue ferver. Junsu e Yoohwan correram na direção dos dois, prevendo algo ainda pior. Assim que recuperou o senso e seu olho voltou a se abrir, Micky o agarrou pelo colarinho, e viu-o perder o equilíbrio, devido a surpresa. Junho caiu de costas e Yoochun estapeou-lhe o rosto com a mão aberta e força suficiente para irritar sua pele.

– Briga que nem macho, viado!! – Berrou Junho.

Micky chegou a erguer o punho fechado, enquanto Junho preparava seu rebote, entretanto, Yoohwan agarrou seu irmão e o empurrou para longe, enquanto Siwon, segurava Junho com firmeza. Alguns dos amigos de Junsu riam, outros estavam assustados com agressividade de Micky que agora sentia seu olho arder e inchar. Ele se desvencilhou de seu irmão e correu em direção a seus pertences. Ele estava irritado e queria distância de todos ali presentes.

Ele detestava Junho e aquela implicância ridícula dele, assim como sabia que havia passado dos limites. Junsu provavelmente estava magoado por vê-lo estapear seu irmão gêmeo. Por que, afinal, eles eram tão parecidos? Por que ao olhar o menosprezo de Junho, Micky conseguia ver com clareza como seria ser menosprezado por Junsu? E ele seria menosprezado e teria que voltar para sua vida em escala de cinza, ao invés do conto colorido que ele viveu aquela semana.

Ele sentiu uma mão firme agarra-lo pelo pulso e puxa-lo em outra direção. Quando seus olhos focalizaram, ele encontrou Yoohwan puxando-o de volta para o campo, o ultimo lugar em que ele gostaria de estar. Entretanto, eles não entraram no gramado, contornaram o local e o mais novo o empurrou por uma porta para uma pequena sala. Era uma espécie de enfermaria, com somente uma maca, e caixas de bandagens e curativos.

Yoohwan abriu um pequeno refrigerador e retirou dali um saco com pedras de gelo. Ele acomodou-se ao lado de seu hyung e delicadamente recostou o gelo em seu olho, pois não o queria com aquela lembrança em forma de hematoma pelas semanas seguintes. Micky afastou o punho do outro e cobriu o rosto, suspirando pesadamente. Yoohwan sorriu compreensivo e acariciou-lhe os cabelos com leveza.

– Ele te provocou, eu vi. – Afirmou Yoohwan. – E o Su-hyung também viu.

– Ele me tirou do sério. – Afirmou Micky. – Eu juro pra você que estava tentando manter a calma, porque o Su pediu pra eu conversar com ele.

– Conversar? Sobre o que?

– Sobre… – Micky suspirou pesadamente. – Bom, eu primeiro ia pedir desculpas, porque hoje uma moça falou das coisas que eu já fiz e isso afetou o Junsu. E eu, ia tentar fazer o impossível e convencer ele de que eu quero o bem do Su.

– Como você ia fazer isso? – Disse Yoohwan, desviando o olhar para a porta, rapidamente ao ver alguém ali parado.

– Bem, acho que eu ia tentar mostrar que eu entendo ele. – Disse Micky. – Quer dizer, não faz diferença agora, mas eu entendo como ele se sente em relação ao Su.

– Entende?

– Claro que entendo. Ele tem um amor incondicional pelo irmão dele e você vai ter que concordar que o Junsu inspira cuidados. Ele tem aquele jeitinho, todo especial, aquela aura inocente que dá pra ver de cara quando ele sorri. E o jeito que ele sorri é tão… lindo. O Junsu tem uma aura pura, parece um príncipe, não tem maldade nele e ele não faz nada com segundas intenções. Ele é sincero, sonhador, romântico, esperto. E eu sei que eu não sou tudo isso, eu sei que eu não mereço alguém como ele.

– Não diga isso, hyung.

– Não minta pra mim. – Rosnou Micky, o sentindo recostar o gelo novamente em seu olho. – Olha pra mim, o que eu tenho em especial? Eu só tenho talentos inúteis, minha vida é uma total perda de tempo, uma busca pela sobrevivência e pelo comodismo. Nada é bonito na minha vida, nada é romântico, eu não sou nada. E o Junsu é o meu oposto, tudo nele é especial. Se você soubesse o quanto eu gosto dele, o quanto eu quero ver ele sorrir, se o irmão dele soubesse.

“Quanto?”

A voz de Junho sobressaltou Yoochun que se levantou de imediato. O rapaz estava recostado à porta, com um inseguro Junsu logo atrás dele. Micky suspirou pesadamente e cruzou os braços com seu típico ar altivo e arrogante. Junho fez o mesmo e se aproximou dele, o encarando profundamente, antes de repetir sua indagação:

– Quanto? Quanto você quer ver o meu irmão feliz?

– O quanto eu puder fazer ele feliz. – Disse Yoochun. – Eu não vou me arrastar pra você aceitar que eu gosto do seu irmão, mas me arrastaria pra ele. Olha, Junho, eu entendo que você ama o Junsu, que você quer o bem dele e sei que o seu amor é o mais puro e incondicional que existe. Eu não quero competir com isso, não vou roubar ele de você e ele não vai mudar por minha causa.

– Você sabe que eu não te suporto, não sabe? Que eu estava pouco aí quando você comia essas vadias, mas a partir do momento que você mexeu com o meu irmão…

– Eu não mexi com ele! – Disse Yoochun. – O Su não é homem pra isso, ele é um homem pra ser cuidado e pra receber atenção. Eu não vou ficar tentando te convencer com o meu discurso, mas eu não estou te pedindo muito. Eu só quero um espaço com ele, e quero ele assim, desse jeitinho.

– Só isso?? E o que você vai fazer nesse ‘espaço’ com ele?

– O que eu tenho feito desde a viagem. – Disse Yoochun. – Eu gosto do seu irmão, eu sou gay como ele, e eu só quero que essa implicância ridícula termine. Não porque eu não dou conta de quebrar a sua cara, mas porque isso machuca o Junsu. Eu não estou aqui, conversando você e esse seu sorriso insuportável porque eu gosto, mas porque isso é incômodo pra ele.

– Você gosta mesmo dele, Su? – Disse Junho, desviando o olhar para o rapaz à porta. – Ele vale todo esse risco? Todo esse incômodo, como ele mesmo diz?

– Eu gosto dele, Jun. – Disse Junsu, se aproximando de seu irmão. – Por favor, façam uma trégua. Isso está me tirando o sono, Jun! Não precisa ser assim!

– Eu espero que ele não te desaponte. – Disse Junho, acariciando os cabelos de seu irmão. – E quanto a você, Yoochun, se eu souber de um escorregão seu, se meu irmão se decepcionar, você vai sair com mais do que um olho roxo.

– Se você tentar jogar ele contra mim mais uma vez, quem sai de olho roxo é você. – Ameaçou Yoochun. – E da próxima vez, eu vou bater que nem macho.

Junsu soltou um muxoxo e se aproximou de Yoochun. Ele pegou das mãos de Yoohwan o pacote com o gelo e o aproximou do olho já arroxeado de seu Micky. Eles selaram os lábios rapidamente, ao que Junho arregalou os olhos e depois suspirou cansado. O gêmeo de Junsu coçou a nuca como fazia quando se irritava na infância, mas ele sabia que aquilo era momentâneo.

Junho estava pronto para sair dali, com a companhia agradável de Yoohwan que já reunia seus pertences, quando ele ouviu seu irmão dizer seu nome baixinho. Ele desviou o olhar para seu irmão que agora se apoiava em Yoochun, mas olhava para suas mãos, brincando com o pacote de gelo. Junho também conhecia aquela expressão, sabia que ele estava nervoso e se preparava para algo mais grave.

– Junho? – Disse Junsu novamente.

– O que foi, Su? – Indagou Junho, ao mesmo tempo em que Yoochun o perguntava algo semelhante.

– Nunca mais diga aquela palavra.

– Qual palavra?

– Aquela que você chamou o Chunnie hoje.

– Eu chamei ele de muitas coisas hoje, Su. – Disse Junho. – Qual delas é? Cretino? Babaca? Estúpido?

– Viado. – Disse Junsu, erguendo o olhar entristecido a ele. – Não chame mais ele assim, nem ele, nem ninguém.

Junho pareceu disposto a pedir desculpas, entretanto, apenas fitou o casal e deu-lhes as costas. Micky não fazia questão de suas desculpas, mas aparentemente Junsu fazia. Aquela palavra em específico o chateou mais do que o machucado no olho do rapaz por quem ele tinha tanto apreço. Aquilo partiu o coração de Yoochun, vê-lo daquela maneira magoado e em partes, era culpa sua.

Ele não queria odiar Junho, não queria detesta-lo, mas ele era detestável. Aquilo afetava Junsu de uma forma dolorida, devido a sua sensibilidade. Micky sabia que ele era sensível, sempre soube. Ele estava rodeado de pessoas tão sensíveis quanto ele, e pequenos detalhes o magoavam com mais facilidade do que grandes ações. Como aquele pequeno detalhe que apenas Yoochun se atentou, e é claro, o próprio Junsu.

Uma grande hipocrisia de Junho chamar-lhe por aquele ultraje, uma vez que aquele irmão que ele tanto defendia, carregava consigo a mesma condição, o mesmo carma. Junsu era tão gay quanto Yoochun e Junho jamais deveria usar aquilo como ofensa. Micky, preocupado com seu amado, tratou de leva-lo até em casa, a fim de ouvir um desabafo dele sobre seu irmão ou o que fosse.

Junsu não desabafou, pois não queria aumentar a inimizade entre dois homens tão importantes de sua vida. Entretanto, a companhia de Yoochun foi muito bem aproveitada com longos abraços e todas as gentilezas imagináveis, incluindo alguns beijos longe de olhos curiosos. O metrô vazio foi palco de algumas carícias discretas quando o entristecido Junsu deitou-se no ombro do outro.

Pouco antes da estação de Junsu chegar, ele ergueu-se do ombro do outro e o fitou. Certamente não foi seu melhor dia do ano, mas ele tinha esperança de que as coisas melhorassem. Ele sorriu discreto para Yoochun que deixou um carinho também discreto em seu ombro, antes de avisar-lhe:

– Se as coisas se complicarem com o seu irmão, pode aparecer na minha casa. – Disse Yoochun. – Eu cuido de você.

– Obrigado. – Disse Junsu, repousando a mão sobre a dele e inspirando profundamente, como fez anteriormente ao falar com Junho. – Micky… eu amo você.

Junsu correu para fora do metrô, antes de ver a expressão surpresa de Yoochun. Ele não olhou para trás e correu estação afora, sem saber o que o rapaz achou, tampouco dando a ele chance de resposta. Ele caminhou a passos rápidos e largos até sua casa, onde buscava o isolamento de seu quarto. Sua mãe estranhou ao vê-lo tão nervoso, mas imaginava que se tratava de algum problema com uma moça da faculdade.

Junsu acomodou-se em sua cama, abraçado ao cachorro de pelúcia que ganhara anos antes de um menino com quem saíra. Assim a noite chegou, e ele sentiu o peso de suas atitudes sobre si, causando-lhe uma chata dor de cabeça. Ele havia se declarado antecipadamente, e ainda estava chateado com seu irmão. Enquanto, momentos antes ele via os dois rapazes brigarem por sua causa, agora imaginava o que faria sem nenhum dos dois.

Junho chegou tarde em casa. Sua mãe deixara seu prato e o de Junsu sobre a mesa, e agora o jantar dos dois irmãos estava frio. Junho deixou a cozinha e seguiu a passos largos para o quarto que dividia com seu irmão, imaginando se o encontraria lá, ou se mesmo tarde da noite ele ainda estaria com Yoochun. Quando entrou no quarto, se deparou com o rapaz adormecido na sua cama, com o cachorro aos seus pés.

Junho se lembrava de quando eram crianças e Junsu o esperava voltar do reforço de gramática daquela maneira, deitado em sua cama. Ele dormia a sua espera, na maioria das vezes, com exceção de noites de tempestade. Junsu tinha medo de trovões e seus pais sempre foram muito rígidos em relação a separação de quartos. Assim, ele tinha Junho como seu porto seguro, quando os estrondos altos do céu, deixavam aflito seu coração de criança.

E lá estava Junsu, imitando uma cena infantil, abraçado ao travesseiro de seu irmão gêmeo. Ele sabia que ele era um homem formado, porém ainda tinha ímpetos instintivos de cuidar dele, possessivamente. E foi no ímpeto de cuidar de seu irmão que Junho escorregou nas palavras. Viado. De todos os impropérios que ele poderia ter usado, por que escolhera justamente o que ofenderia também seu irmão? Fora um erro ridículo, que abria espaços para que Junsu se afastasse, para que não confiasse mais nele.

Junho sentou-se na beirada da cama e acariciou o rosto quente de seu irmão. Junsu não aparentava estar em um sono tranquilo e ele o conhecia bem o suficiente para identificar os traços de preocupação no rosto do outro. Mesmo com as carícias do outro, Junsu somente acordou com o latido de Shaki, que se agitou com o miado de um gato na árvore. Junho sorriu discreto quando seus olhares se encontraram, mas ele sabia que o rapaz estava chateado.

– Eu deitei aqui, porque o Shaki estava aqui. – Justificou-se Junsu.

– E desde quando eu fico bravo com você deitado na minha cama? – Afirmou Junho. – Por que você não jantou? Eu vi o prato da omma lá embaixo e ela fez mandu no vapor, você adora isso.

– Estava sem fome. – Explicou Junsu. – Acho que eu vou pegar um copo de leite e um mandu antes de dormir.

– Podemos conversar um pouquinho antes?

– Sobre o Chunnie? Eu não estou com paciência pra isso.

– É mas a gente tem que conversar. – Disse Junho, se aproximando mais de seu irmão. – Me desculpe, eu ofendi você hoje.

– Ofendeu o Chunnie também. – Disse Junsu. – Mas eu sei que você não vai pedir desculpas pra ele.

– Eu não me importo com ele. – Afirmou Junho. – Teve uma coisa que me surpreendeu hoje.

– O que?

– O modo como ele falou de você para o irmão dele, foi bem, sentimental. – Disse Junho. – Não esperava isso dele.

– Eu não quero mais brigar com você, não quero me chatear, mas quero que você deixe eu fazer as coisas do meu jeito. E se eu errar, tudo bem.

– Su, eu não posso esperar esse cara ir te machucando aos poucos. Você mudou, Su, fez com ele coisas que antes você não fazia. Na viagem, você foi a um bar, a uma balada, coisas que eu te convidei a vida toda e você sempre disse que era desagradável. Por que com ele é agradável?

– A viagem foi uma aventura, Jun, só isso. Eu experimentei coisas novas e algumas eu gostei e outras não. Eu ainda não gosto de bares e o Chunnie sabe disso, por isso mesmo ele não foi a festa hoje.

– E qual a sua garantia que ele não estava morrendo de vontade de ir? E se ele estiver mentindo? Se estiver montando o seu homem ideal apenas para te usar? Ele também mudou, do dia para a noite e isso para mim é falsidade!

– Ele não mudou do dia para a noite, as pessoas não conhecem ele, Jun. – Disse Junsu. – De qualquer maneira, se ele estiver mentindo eu vou descobrir em algum momento, você não acha?

– Com certeza vai.

– Então me deixe apostar, me deixe testar ele, me deixe levar ele aos limites dele e ver se ele aguenta. Deixe-me testar os meus limites, me permita experimentar esse mundo tão novo pra mim. Permita que eu me apaixone por ele, mesmo que isso só sirva para eu me magoar, por favor, Jun.

– Eu não vou suportar te ver magoado.

– Eu quero você do meu lado se isso acontecer, eu preciso de você. – Disse Junsu. – Não implique mais com ele, não brigue mais com ele.

– Mande ele mudar aquela atitude dele e nós podemos pensar sobre isso.

Junsu sorriu com o canto dos lábios e em seguida o abraçou demoradamente. Era sempre bom fazer as pazes com Junho, afinal, eles não passavam muito tempo brigados. Eles ainda dividiram uma caixa de morangos antes de dormirem, sabendo que suas mágoas já haviam se dissipado. Enquanto isso, há algumas quadras dali, Yoochun tirava uma fornada de cupcakes quentinha e prontos para decorar.

Ele usou chantilly rosa, e por cima da espiral ele apoiou uma rosa delicada de açúcar. Era seu presente, um mimo para seu Junsu, apenas na intenção de vê-lo sorrir e é claro, responder a sentença de pouco antes de se separarem. Micky decorou os outros bolinhos, pois sabia que agradaria sua mãe, mas o de Junsu estava devidamente embalado em uma caixinha própria. Ele aprendera a decorar cupcakes com seu avô que dizia que era possível conquistar um homem pelo estomago e uma mulher pelos detalhes.

Ele uniu o melhor dos dois mundos em um singelo presente de bom dia que entregaria para Junsu no dia seguinte. Juntamente com seu bolinho com um delicioso sabor de baunilha com recheio de chocolate, ele entregaria um bilhete, resumindo a resposta para os sentimentos de Junsu. Ele se expressaria de maneira indireta, porém apropriada. Em uma única e singela frase: “Eu também amo você”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s