Capítulo 13: Felling like a freak on a leash.

 overlook 13(2)

O único som que dava para ouvir era da respiração pesada. Estava especialmente frio na cozinha, uma vez que as caldeiras e os aquecedores não funcionavam mais adequadamente devido a falta de manutenção adequada. Logo aquele hotel estaria totalmente congelado. A janela batia com força, trazendo para dentro o frio congelante do lado de fora. E a neve, não dera trégua desde a noite anterior.

 Yunho aceitava sua morte como certa.

Ele estava deitado no chão, próximo à porta. Hematomas se formaram nos nós de seus dedos e nas costas de sua mão. Suas unhas sangravam sem parar e ainda assim, ele arrastava os dedos pela porta, como se esperasse que ela se abrisse sozinha. Não iria abrir. Continuava trancada e sua fechadura não parecia nem próxima de se mover. Afinal, como se moveria? Sendo que as chaves continuavam em posse da odiosa Hyemin.

Yunho socou a porta novamente e sua mão doeu ainda mais. Suas costas doíam tanto quanto suas mãos. Era uma dor aguda, insuportável, e ao mesmo tempo confortadora. Ele teria que se acostumar com ela, pois em sua mente, a morte doía muito mais. E somente a dor da morte poderia acalmar aquela aflição ainda maior, a de renegar a existência de Jaejoong.

Ele sentia falta de seu Jaejoong, mesmo sabendo que ele era irreal. Ele certamente o vira em algum jornal ou algo assim e sua mente montou aquele personagem para se livrar da solidão. Yunho acreditava ter perdido sua sanidade, por culpa sua, de sua esposa, de seu filho. Talvez Jaejoong fosse a personificação de seu vicio, sua vontade de beber em forma de um homem atraente. Ele o queria ali, o queria próximo a si, planejando uma forma de se vingar da esposa.

Yunho virou o corpo e olhou para o relógio pendurado na parede. Exatamente vinte e quatro horas antes, Jaejoong dera-lhe o prazo. Ou ele voltava, ou cometeria suicídio. A segunda opção soava doce como a voz dele em seus ouvidos. Existiria um Jaejoong o esperando em algum lugar após a morte? Ele viria busca-lo e o guiaria para este lugar, segurando sua mão com aquela pele fria e deliciosa?

Yunho fechou os olhos e o imaginou, lembrou-se dele, da primeira vez que tomaram banho juntos, de como o encontrou no bar. Seu Jaejoong, seu amado Jaejoong. Sua perdição. Ele imaginou quanto tempo levaria deitado ali até que definitivamente estivesse morto, e após sofrer com o fim de sua vida, quantas horas levaria para encontrar Jaejoong. Seria muito tempo longe dele, muito tempo até chegar ao inferno e encontrar um demônio de cabelos loiros e sorriso adorável.

Então a janela parou de bater, e o local pareceu um tanto mais quente. Ao menos ele parou de tremer, e já não mais saía fumaça quando soltava o ar pela boca. Yunho abriu os olhos e os fixou na janela, esperando que o vento começasse a incomodar novamente, mas não foi o que ele teve. A janela permaneceu estática, trancada, enquanto o vento forte assoviava do lado de fora.

Então a caldeira alguns andares acima estalou e assoviou. Hyemin deveria estar incomodada com o frio tanto quanto ele, e deveria ter ajustado a mesma para que voltasse a aquecer o hotel. Yunho sentiu raiva, pois desejava que o frio o castigasse por ser idiota o suficiente e abandonar um ser tão belo quanto seu Jaejoong. Mesmo se tratando de uma triste alucinação. Ele abriu os olhos e deixou-se viajar pela parede branca, como se esperasse que dali saísse a solução de seu problema, ou que Jaejoong a atravessasse e viesse resgata-lo.

Yunho ouviu um clique, discreto, porém claro. Ele sentou-se e então outro clique, um rangido e lá estava, a porta da despensa entreaberta. Ele deveria estar tendo alucinações novamente, uma vez que não daria tempo de Hyemin voltar da área das caldeiras até abrir a porta naquele momento. E seu filho estava amedrontado demais para liberta-lo, Yunho sabia que nenhum deles havia destrancado aquela porta.

Ele arrastou o corpo para espiar do lado de fora e não avistou ninguém. A cozinha estava vazia, e ainda impecável, com todos seus pertences no lugar correto. Yunho tampouco ouvia passos, ou portas rangendo e batendo. Ele agarrou-se à parede mais próxima e roçou o corpo nesta quando se levantou, para então esticar a mão e testar se essa passaria pela porta entreaberta, a procura de provas de que, o que ele via era a realidade.

Ne me quitte pas

Il faut oublier

Tout peut s’oublier

 

Frances. Yunho ouviu, como um sussurro ao vento a música de Jaejoong. Ele não entendia sua letra, mas se recordava de sua voz e de seu corpo balançando ao som de sua própria melodia. Tão belo, tão irreal.  Ele abriu mais a porta e seu olhar perscrutou a cozinha, em busca daquela figura, o dono da voz, o dono de sua insanidade. Ele não estava ali, obviamente não estaria, uma vez que estava enterrado em um cemitério qualquer, com uma lápide indicando 1920 como a data de sua morte.

 

Uma lâmpada estourou, chamando a atenção de Yunho, o sobressaltando. Então a do lado fez o mesmo som e apagou, e outra e mais outra. Uma a uma elas extinguiram, restando apenas um canto iluminado na cozinha, diferente do resto do cômodo em completa penumbra. Ele caminhou trôpego pelo local, até visualizar o canto iluminado. E lá estava ele. Com a mesma boxer e camiseta, os pés descalços e os cabelos loiros jogados.

 

Yunho sentiu vontade de abraça-lo e nunca mais largar, de beijar seus lábios e chorar em seus braços. Jaejoong voltou a cantar, deu as costas para o moreno e logo que saiu da cozinha, a última lâmpada se apagou. Yunho caminhou atrás dele, se deixando levar pela sua voz e seu aroma mentolado. Jae caminhou sem pressa, as vezes sumindo do campo de visão do outro, nas sombras e reaparecendo em seguida.

 

Ele desapareceu no final do corredor e cresceu o desespero de Yunho. Ele precisava de Jaejoong para sobreviver, precisava de sua presença, ou sua morte seria iminente. Yunho sentia algo como um câncer crescendo dentro dele, pior do que a abstinência, pior do que a solidão era aquela raiva estranha, incontrolável. Copos tilintaram ao mesmo tempo, como em um grande brinde e…

 

Retirem as máscaras!

 

Yunho se sobressaltou. O que aquilo significava, afinal? Ele procurou Jaejoong com o olhar, buscou-o com toda sua vitalidade e não o encontrou. A medida que caminhava, ele ouvia mais alto, via escrito nas paredes, e em letreiros luminosos em sua mente:

 

Já é meia-noite! Retirem as máscaras!

 

E a máscara da morte rubra dominava tudo…

 

Yunho enxugou os lábios com as costas da mão, como gostava de fazer depois de virar uma boa dose de soju. De onde viera aquilo? A mascara da morte rubra dominava tudo. Ele se lembrava daquela frase apesar de não se lembrar de onde. Era quase um sensação de deja vu. A mascara da morte rubra… a mascara da morte…

 

“É Poe.”

 

Avisou-lhe Jaejoong. Sua voz o sobressaltou novamente e o fez correr em sua direção. Lá estava ele no salão de festas. O mesmo salão em que o vira pela primeira vez. Jaejoong estava atrás da bancada com uma garrafa de soju e dois copos, como da primeira vez. Ele serviu o liquido, o fitando fixamente enquanto voltava a falar, com sua voz doce reverberando pelo salão.

 

– A mascara da morte rubra é um conto de Edgar Allan Poe. – Repetiu Jaejoong. – E ela domina tudo.

 

– BooJae…

 

– Quer um gole? Você está precisando de um.

 

– Você sabe… se eu…

 

– Beba! – Disse Jaejoong autoritário. – Beber é um dos poucos prazeres da vida, você deveria aproveitar.

 

– Me dê… me dê isso aqui…

 

Yunho caminhou em sua direção e logo que alcançou a bancada, virou o líquido nos lábios. Era delicioso, e ele sentiu-se como há muito não se sentia. Quando baixou o copo, Jaejoong o serviu de mais uma dose e depois a terceira e então a quarta. Yunho sentou-se no grande banco e repousou o rosto sobre a bancada, sentindo vertigem e ao mesmo tempo, tranquilidade.

 

Não era a bebida, era Jaejoong.

 

O vento ainda sussurrava, ne me quitte pas, enquanto Jaejoong murmurava juras de amor. Yunho sentiu seus dedos arderem ao toque frio do rapaz. Jae analisava suas feridas, com uma compaixão fria, com seu amor misturado à morte. Ele era tão real, seu toque era tão dolorido, Yunho não entendia como poderia estar morto, como aquele olhar poderia ser sem vida. E ele o amava tanto e com tanta intensidade.

 

– O que diz, essa música que você canta?

 

– Ne me quitte pas, significa não me deixe. – Disse Jaejoong. – É uma música de amor, amor é eterno sabia, Yunho-hyung?

 

– Morte é eterna. – Disse Yunho.

 

– Eu sei da morte melhor do que você. – Ralhou Jaejoong. – Assim como eu entendo de amor e pertencimento melhor do que você!

 

– Eu sei que sim. – Disse Yunho. – Você está morto, não deveria estar aqui.

 

– E onde eu deveria estar, senão do lado do homem que eu amo?

 

– Eu não sei, mas isso não é natural, Jae.

 

– E o que é natural?? Como a morte pode ser natural?

 

– Eu te amo. – Disse Yunho.

– Você não percebeu? Não sou eu, hyung, é esse lugar. – Disse Jaejoong. – É o hotel, é isso tudo, é a mascara da morte rubra.

– Jae, fale de forma que eu entenda! – Disse Yunho, suspirando pesadamente. – A menos que essa seja outra de suas mentiras.

– Onde você acha que eu deveria estar? No céu? No inferno? Isso existe?

– Como eu vou saber?

– Como eu vou saber? – Disse Jaejoong. – Como eu vou saber se eu nunca saí daqui?

– Como você pode estar aqui? Como pode ter sentimentos tão intensos e ações tão inexplicáveis?

– Você quer respostas? – Yunho ergueu o rosto e assentiu silenciosamente. – Eu te darei todas elas, mas não aqui, no nosso quarto.

– Tudo bem, podemos ir para lá.

– E você não vai mais sair de lá, não enquanto eu não mandar. – Disse Jaejoong. – Não enquanto você não entender o que significa tudo isso, e absorver o meu amor por você.

– O que você quiser, BooJae.

Jaejoong suspirou pesadamente e desviou da bancada, agarrando Yunho pelo pulso para que ele começasse a andar. O moreno cambaleou e se apoiou em seu amante para poder caminhar apropriadamente. Ele ainda sentia seus dedos arderem, mas sua tranquilidade fazia com que aquela sensação ruim diminuísse.

De repente, muita coisa fazia sentido, a medida que o raciocínio de Yunho voltava a funcionar adequadamente. A pele fria, as lágrimas como gelo, a falta de pulso, os arrepios e a insensibilidade à temperatura. Nem mesmo seu cheiro era de pele humana, e seus sentimentos e reações eram muito mais intensos.

 Yunho adentrou o quarto logo após ele e o viu trancar a porta e colocar a chave sobre o criado-mudo. Ao lado, fechado sobre o mesmo móvel, estava o canivete de Jaejoong, com o qual ele o ameaçara tantas vezes. Agora Yunho sabia que ele teria cometido assassinato, se o escritor tivesse dado a ele os motivos necessários.

Jaejoong afastou os papéis ainda depositados ali e sentou-se sobre a cama, batendo com a mão sobre o colchão para que o outro se juntasse a ele. Yunho acomodou-se na beirada da cama, fitando Jae fixamente, esperando algo surpreendente, como se ele pudesse se desintegrar diante de seus olhos. O loiro suspirou pesadamente, e esticou-se até o criado-mudo, retirando da pequena gaveta algumas bandagens.

Jaejoong começou a enfaixar a mão de Yunho, temendo que aquilo infeccionasse. O escritor roubou-lhe um selar, e o outro virou o rosto, com ar irritadiço. Yunho o havia abandonado na noite anterior, não iria reconquista-lo com alguns beijos, por mais deliciosos que fossem. O moreno baixou o rosto decepcionado, afinal, parte dele indicava que aquilo não seria tão fácil quanto ele imaginava.

– Eu deveria ter cerca de 65 anos agora. – Começou Jaejoong. – Talvez eu tivesse filhos, ou uma casa bonita em um lugar afastado. Talvez eu criasse cachorros, e fosse um milionário solitário. Eu poderia ter sido um cozinheiro famoso, ou um dançarino, ou um desenhista, poderia ter me esbaldado nas noites de Seul, bebido os mais deliciosos drinks e me fartado em bons restaurantes.  Eu teria aproveitado a minha vida, até o último segundo.

– E o que houve?

– Eu morri. – Disse Jaejoong com simplicidade. – Como você leu ontem, eu morri em setembro de 1920, no final da alta temporada do hotel.

– E então?

– Estou aqui desde então. Como eu te disse, quando nos conhecemos, eu entrei pela porta da frente e nunca saí.

– Você morreu aqui?

– No quarto ao lado, na verdade. Na cama da suíte 302. A janela estava entreaberta e era uma noite de verão linda, muito estrelada e com a lua cheia.

– E por que você continua aqui?

– A maneira mais simples de te explicar é usando uma lenda urbana. – Afirmou Jaejoong. – Existe uma lenda no Japão que diz que quando uma pessoa morre com um sentimento muito forte em um lugar, o sentimento da pessoa fica ali e toma forma e meio que assombra o lugar. Aquilo fica ali, a união do sentimento com a dor da morte, eles se unem e criam algo novo, algo que nem sempre é bom.

– E essa lenda, é real?

– Eu não sei como é fora daqui, mas nesse hotel, não existem mortes naturais. Todo mundo que morreu aqui, morreu cheio de sentimentos, cheio de sensações, porque esse lugar é cheio de sentimentos.

– Que tipo de sentimentos?

– Que tipo? Muito parecido com os que você tinha quando chegou aqui, a raiva, a frustração, a falsidade.

– Como um lugar relacionado a esses sentimentos pode prender uma criatura como você?

– Eu não sei, não entendo das vontades do hotel. – Afirmou Jaejoong. – Mas muitas pessoas aqui desejaram morrer, pediram por isso como forma de redimir seus erros ou diminuir suas dores. Esse lugar não mata só por prazer, ele também, ajuda, educa, castiga.

– E você? Pediu para morrer?

– Não, mas eu morri amando, Yunho-hyung, amando muito. – Disse Jaejoong. – Você não prefere uma morte assim, hyung? Não prefere morrer amando, do que deitado e humilhado em uma despensa?

– Ninguém escolhe como morre, Jae. – Disse Yunho. – Com exceção dos suicidas, as pessoas morrem ao acaso.

– Você deu como certa a sua morte momentos atrás, nós sabemos que não foi ao acaso. Foi premeditado, hyung.

– O hotel quer que eu morra?

– Não mais do que a sua esposa quer. – Afirmou Jaejoong. – Ela não só quer te ver morto, mas da forma mais sofrida e humilhante possível. Para quando ela sair daqui, poder dizer para o novo marido dela que o ex, patético, alcoólatra, morreu de uma diarreia que pegou no hotel, ou de uma hipotermia por não se cuidar. Você deixou ela ir tão longe, hyung, longe demais.

– Eu sei, Jae, isso tem que terminar.

– Claro que tem, hyung. – Disse Jaejoong, sorrindo a ele. – Mas antes, nós dois temos que tomar um banho.

– Por que?

– Porque tem uma festa mais tarde, mais soju, máscaras, você vai gostar…

– Que festa?

– Festa a fantasia. – Disse Jaejoong, sorrindo animado.

– E depois? Como ela vai ficar? Como o Junmin vai ficar? Não pode ficar assim.

– Não, não pode. – Afirmou Jaejoong. – Você vai saber o que fazer.

– Vamos tomar banho juntos?

– Claro que vamos!

Jaejoong pulou da cama e correu em direção ao banheiro, deixando a porta aberta para ele. Era isso, Yunho havia se apaixonado por um fantasma e agora, não via outra perspectiva de vida senão ao lado dele. Ele haveria de se acostumar, teria de se resignar a essa felicidade que Jae o proporcionava, mesmo nos dias mais escuros. Yunho deixou suas roupas no chão do quarto e ao entrar no banheiro, viu Jaejoong já embaixo do chuveiro, lavando os cabelos.

Yunho parou para observa-lo, apenas observa-lo. Como um ritual sagrado, ele cultuava aquela figura, imaginando por alguns instantes o elo com a morte que ele havia aceitado ao beber uma dose de soju pouco mais de um mês antes. Talvez fosse esse seu destino ao comparecer ali, encontrar com ele, consola-lo por sua morte solitária, enquanto ele o livrava de sua vida patética.

Jaejoong sorriu e estendeu-lhe a mão. Yunho tomou-a e juntou-se a ele, deixando que o loiro tirasse os curativos, lavasse as feridas de sua mão e depois seu rosto, em seguida, seu corpo. Ele entrou novamente naquela espécie te transe que sentia quando estava com o rapaz. Eles se acomodaram no chão frio do banheiro, com a água morna caindo sobre eles, e se abraçaram, deixando seus rostos colados. Jaejoong distribuía carícias, sabendo que o outro o pedia suas desculpas e o agradecia em silencio.

Eles permaneceram daquela maneira por longos minutos, trocando beijos, carícias, enquanto aos poucos Yunho realmente compreendia o que deveria fazer para rebater o ataque de sua esposa e é claro, ficar com Jaejoong definitivamente. Yunho afastou o rosto dele e demorou-se em seu olhar. De alguma maneira, Jae sabia qual seria sua pergunta, esperava, afinal, por ela, com certa ansiedade e uma pontada de excitação.

– Como você morreu, Jae?

Jaejoong suspirou pesadamente. Como ele explicaria o fim inesperado de sua vida em idade tão tenra? Como explicar a morte para quem nunca sentiu-a na pele? Jae não conhecia palavras suficientes para explicar aquele momento, então, ele decidiu mostra-lo. O loiro sorriu cúmplice e cobriu os olhos de seu amante com as mãos, o deixando em completa penumbra. Yunho sentiu uma vertigem, como quem entra no looping da montanha-russa e quando deixou de sentir o toque de Jaejoong, ele abriu os olhos.

Yunho vestia as mesmas roupas de quando encontrou Jaejoong no bar pela primeira vez, no entanto, ele estava sentado em um quarto muito parecido com o que estava alojado, diferenciado somente por dois quadros, um de uma bela paisagem e outro de uma bailarina se alongando.

O moreno se levantou e deparou-se com um desconhecido, em pé, parado próximo ao criado-mudo. Ele era belo e carregava em suas mãos o mesmo cheiro mentolado que estava impregnado no corpo de Jaejoong. O rapaz alto, de pele morena, com os cabelos negros como a noite, brevemente desgrenhados, colocava em seu próprio dedo um anel com pingente de asas de anjo.

 O anel de Jaejoong.

Yunho o viu virar-se, e por alguns instantes temeu ser flagrado ali, mas o rapaz passou por ele, o ignorando. Ele retirou de seu apoio próprio um casaco, que Yunho reconheceu ser um uniforme da marinha. Seu pai pertencera ao exército coreano na juventude e devido a isso, ele reconheceu tal vestimenta. O rapaz caminhou pelo quarto e serviu duas taças de champagne, sem pressa, com destreza e delicadeza.

Foi quando Yunho também percebeu o chuveiro ligado. Ele virou o rosto e da porta entreaberta saía o vapor da água, assim como aquela voz que ele já conhecia. Quando voltou-se para o desconhecido, Yunho o viu colocar algumas gotas de uma substancia amarelada em uma das taças e guardar um pequeno frasco no bolso. Seria isso? Jaejoong havia sido envenenado por aquele indivíduo?

Era como ver um filme de terror no cinema. Como acompanhar o vilão maquinar um assassinato e não poder impedir. E o pior, aquele era o último minuto da vida de sue amado Jaejoong. O chuveiro desligou e Yunho voltou o olhar para a porta, ansioso para que a figura conhecida aparecesse. A voz parou de cantar e o silencio tomou conta do local, enquanto o moreno o esperava sentado na beirada da cama.

E ele apareceu, exatamente como Yunho o conhecia.

Os cabelos loiros desgrenhados e úmidos, o sorriso brincando no canto dos lábios, seu ar brincalhão e ao mesmo tempo sexy, e aqueles olhos grandes e avivados, perscrutando algo de seu interesse. O moreno abriu um largo sorriso e o chamou com um aceno da cabeça, vendo Jaejoong correr e pular em seu colo. Eles se beijaram demoradamente e Yunho sentiu uma pontada de ciúmes no peito.

– Quer começar de novo meu ChangRabbit?

– Eu preciso ir embora, hyung. – Justificou-se Changmin. – Eu tenho um almoço importante e não posso me atrasar.

– Sempre com pressa. – Disse Jaejoong, com seu ar típico manhoso. – Não quer mesmo ficar? Podemos usar o resto daquele óleo que você trouxe.

– Você ainda está com cheiro de eucalipto. – Riu-se Changmin. – Eu não sei quando voltaremos a nos ver, Jaejoongie-hyung, eu vou me casar, lembra?

– Como eu poderia me esquecer? – Disse Jaejoong, não parecendo enciumado ou irritado como deveria. – Depois da lua de mel, você me procura? Até lá, eu espero por você.

– Vamos ver, hyung. – Afirmou Changmin o apertando pela cintura e em seguida o afastando de seu colo. – Tome uma taça de champanhe comigo e depois vá dormir.

– Eu preciso voltar ao meu quarto. – Afirmou Jaejoong recostando-se a beirada da cama. – Não posso dormir aqui.

– Não faz mal, eu explicarei ao gerente e as despesas estão mais do que pagas. – Afirmou Changmin, entregando a ele a taça. – Não se preocupe com nada.

Jaejoong sorriu tranquilo, inebriado e ergueu a taça antes de tomar um demorado gole. Changmin bebeu de sua própria taça e a deixou de lado. Jae terminou a bebida em silencio e seus olhos pareciam mais pesarosos ao terminar. Ele sorriu fraco ao moreno que o abraçou pela cintura e o ajudou a se deitar. Changmin se afastou e beijou seus lábios demoradamente, antes de fitar seus olhos, pela última vez.

– Eu te amo, Jaejoongie, você está com sono agora, então durma.

– Por que eu estou tão cansado?

– Porque já passou da hora do descanso. – Explicou Changmin. – Você vai dormir, para não sentir dor.

– Eu te amo, Changmin e não entendo porque eu sentiria dor agora.

– Porque eu não posso ficar com você. – Afirmou Changmin, concluindo seu raciocínio somente depois que o outro adormeceu. – E se você não pode ser meu, também não será de mais ninguém nessa vida. Eu te amo, Jaejoong.

Changmin ergueu-se nos joelhos e chorou por alguns instantes. Ele enxugou as lágrimas, e arranhou o próprio rosto, com feições de puro sofrimento. Então, olhou para o loiro adormecido, tão angelical quanto na vez que o conhecera. As mãos acariciaram seu rosto, seus lábios se uniram e então os dedos longos e finos do rapaz o envolveram pelo pescoço como uma gargantilha justa.

E ele o apertou, com força, ao que Jaejoong não fez uma menção sequer para se defender. Ele não acordou. Ele nunca mais acordou. Yunho viu a respiração de Jaejoong mudar de pesada, intensa, para falhada e então fraca até seu peito para de se mover. Seus lábios mudaram de cor e ele empalideceu. Changmin deitou-se sobre seu amado e chorou, por uma hora seguinte e Yunho o acompanhou, enojado.

Ele o havia matado em função de seu próprio amor egoísta. E lá estava, seu Jaejoong, com a vida interrompida em nome do homem que amava. Yunho achou que choraria como o moreno, no entanto, em questão de segundos tudo acabou. Fora um assassinato a sangue frio, digno de alguém incapaz de amar, ou incapaz de livrar-se do amor. Changmin se recompôs, levantou e saiu do quarto.

E então Yunho acordou em seu próprio quarto, em sua cama, sobressaltado como quem acabou de sair de um pesadelo. Ele olhou em volta, a procura do assassino, mas somente encontrou Jaejoong, sentado na poltrona próxima a janela, com outro de seus desenhos à mão. Ele desviou o olhar para Yunho, sorrindo com o canto dos lábios, compreensivo. O moreno sentou-se na cama e o fitou demoradamente, buscando as palavras certas e optando pela expressão mais simples.

– Por que?

– Porque ele me amava. – Disse Jaejoong – Você não vai entender como eu entendo, mas ele me matou porque me amava.

– Não faz sentido, quando você ama, você quer a felicidade da pessoa.

– Isso é o discurso dos martirizados idiotas e dos que se fazem de vítima, hyung. – Afirmou Jaejoong. – Quando você ama, você quer a pessoa perto, quer ela feliz sim, mas ao seu lado e não longe de você. O Changminie não podia me manter ao lado, ele só tinha duas opções, viver sob o sofrimento de me ver ao lado de outro homem ou viver com a minha lembrança e a certeza de que me fez feliz até o último segundo.

– Não é justo!

– A morte não é justa, Yunho-hyung. – Afirmou Jaejoong. – Porque os humanos acham que vão viver eternamente, por isso a morte lhes parece injusta.

– O que houve com o Changmin depois? – Indagou Yunho.

– Ele se casou e deixou a marinha pouco antes da guerra. – Afirmou Changmin. – Entao ele herdou uma boa fortuna de seu pai, mas o crash da bolsa americana em 29 afetou por demais seus investimentos. Ele se matou naquele ano, foi o que eu soube.

– Eu não entendo, Jae, não entendo esse amor de que você fala, nem a justificativa desse crime.

– Você vai entender, hyung, no momento certo. – Afirmou Jaejoong. – Levante-se, precisamos nos arrumar.

– Para a festa?

– Sim. – Afirmou Jaejoong, sorrindo. – Entenda, hyung, era meu destino morrer nos braços do meu Changminie, assim como era meu destino me apaixonar por você após a morte.

– E o que a sua intuição diz? Vamos ficar juntos?

– Se você cumprir o seu papel, ficaremos juntos para toda a eternidade. – Explicou Jaejoong. – Sua roupa está no armário e não venha me espiar no banheiro, vou fazer uma surpresa.

Yunho riu discreto da mudança de humor do rapaz. Algo tão macabro podia mudar para uma festa em questão de segundos, como sua insanidade se provava inexistente na presença daquele rapaz com sua fascinante história. Ele ainda estava indignado com sua morte prematura, mas não fazia sentido tentar se vingar de alguém já morto que ainda deveria carregar nas costas a morte do amor de sua vida.

Yunho o viu fechar a porta do banheiro e decidiu olhar no armário buscando seus trajes. Pendurado ali estava um belo smoking, precisamente de seu tamanho. Era todo em tecido preto, que reluzia dependendo da maneira que se movia e a camisa extremamente branca que ficava por baixo estava impecavelmente arrumada. Yunho o vestiu sem pressa, ajeitando com maestria a gravata e finalmente penteando os cabelos. Jaejoong saiu do banheiro, com um sorriso divertido nos lábios e aquilo fez o moreno rir-se.

Ele trajava uma fantasia peluciada de cachorro, com direito a orelhas e focinho. Jaejoong imitou um cão e riu-se em seguida. Ele estava adorável, o que fez Yunho agarrar-se a sua cintura e beija-lo repetidas vezes. Jae retribuiu cada beijo em seus lábios depositado e trocou algumas carícias com seu amante. Para Yunho restava uma única dúvida, afinal, aquela era uma festa a fantasia, do que então, ele estava fantasiado com aquele pomposo smoking?

Jae se afastou e retirou debaixo da cama uma caixa de veludo vermelho. Yunho o observou abrir a mesma e retirar dela uma máscara vermelha com detalhes brilhantes e uma pluma também escarlate do lado vermelho.  Jae se aproximou e posicionou a máscara no rosto alheio, amarrando as fitas de cetim por trás de sua cabeça. Eles selaram lábios demoradamente e Yunho o fitou, vendo as coisas em um tom mais avermelhado.

Jaejoong o segurou pela mão, destrancou a porta e o guiou para fora do quarto. No corredor, muitas pessoas transitavam ignorando sua existência. Yunho arregalou os olhos, os fitando passar, muitas das pessoas que ele vira em fotos nos jornais. Eles saíam dos quartos, usando as mais diversas fantasias e máscaras, sem conversar entre si e seguiam como em uma marcha silenciosa para o grande salão de festas devidamente decorado.

Jaejoong puxou-o pela mão e eles juntaram-se a marcha. O único que os observava era Yoochun, finalmente satisfeito com suas atitudes. Ainda havia tempo, se Yunho agisse rapidamente, tudo terminaria antes de Junsu montar naquele snowmobile em direção ao hotel. O salão estava pronto e Jaejoong e Yunho entraram no local por último. Todos os rostos voltaram-se para eles e finalmente Yunho entendeu.

Ele era a própria máscara da morte rubra. E era sua função, dominar tudo.

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