Capítulo 15 – Last Dance

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A respiração de Junsu saía pesada por sua boca entreaberta, se transformando em vapor branco quando encontrava o ar frio. Ele suprimia os gritos, por mais que desejasse gritar o quanto seus pulmões aguentassem, até alguém, vivo ou morto, ouvi-lo. Seus olhos mantinham-se arregalados, procurando o caminho mais curto até o hotel, ele estava em pânico. A neve machucava seu rosto, entrava em seus olhos, o incomodava, mas nada era pior do que o barulho e seu encalço.

A folhagem farfalhava com os movimentos felinos. Cada vez mais próximo, cada vez mais perigoso. O leão rugiu mais uma vez e começou a se aproximar, ele estava chegando e bastava uma mordida, uma única dentada, e nada sobraria do belo rapaz. Radagast rugia triunfante, enquanto seu ódio aumentava gradativamente. Ele seria seu, sua presa, era pouquíssimo provável que ele conseguisse escapar de sua morte iminente.

Entretanto, em meio à tantos eventos, a probabilidade no hotel Overlook poderia ser facilmente questionada. Junsu percebeu que não daria tempo de chegar à porta, que não daria tempo de abri-la, isso supondo que ela estivesse destrancada. Os segundos cruciais de virar a maçaneta, seriam os últimos segundos de sua vida, ele jamais saberia se ela estava trancada ou não.

Foi quando algo que não estava nos planos de Jaejoong, do leão e muito menos do Overlook aconteceu. Uma janela próxima a Junsu se abriu, escancarou-se e deixou espaço para o rapaz entrar. Era como ver a luz no fim do túnel e pelos céus, ele não iria ser devorado pelo absurdo leão de arbustos vivo. Radagast rugiu com raiva, logo que sua presa se jogou contra a janela e saiu de seu alcance.

Ele chegou a arranhar a janela e o vidro rachou brevemente quando se fechou contra sua garra verde e afiada. Junsu se arrastou para longe do local, pensando para onde correria, caso ele conseguisse quebrar o vidro. Então suas costas tocarem as pernas de uma pessoa. “Junmin!” Falou o rapaz voltando-se imediatamente para aquele que o salvara de ser devorado. Não foi uma criança que ele encontrou, tampouco uma pessoa viva.

Era Yoochun, em pé, com um belíssimo terno preto, uma máscara pendurada em sua mão e um olhar indecifrável. O mesmo olhar que ele encontrara pelo espelho anos antes e o deixara apavorado. Aquela feição assassina que ele conhecera, de uma raiva também imensurável, tal qual a raiva do leão preso do lado de fora. O mesmo olhar de quando Yoochun o devorava entre lençóis, e de quando outros seres do hotel se aproximavam dele. O ameaçador fantasma do 1904;

Entretanto, ainda era seu Yoochun, seu amante, seu amado e o salvara do leão. Junsu sorriu e se apoiou no pulso do rapaz para se levantar. Ele estava no pior lugar do mundo, preso naquele hotel sob a ameaça de um leão e pessoas não vivas, mas ainda assim estava feliz como todos os inícios de temporada quando voltava a pisar ali. A neve caiu de seus ombros e cabelos, e ele retirou o casaco úmido, assim como suas botas.

Finalmente Junsu podia voltar a olhar para ele, e abraça-lo e beija-lo. Era muita maldade dele jogar-se contra seus ombros, pensou Yoochun, assim como acomodar-se em seus braços e lançar a ele seu mais doce sorriso. Como castigar aquele homem por sua teimosia, com tamanha delicadeza diante de seus olhos? Micky o abraçou com firmeza, agarrando-o pela cintura e pelos cabelos.

“Por que você veio?” – Sussurrou Yoochun, com ar sôfrego. – “Eu mandei você não vir!”

Junsu o enchia de beijos, por seu rosto, pescoço, lábios. Ele queria beija-lo a noite toda, e ama-lo na banheira como eles gostavam de fazer. Ele finalmente abriu os olhos e o fitou demoradamente, perdendo-se em suas feições ainda mais pálidas, sob a única luz que iluminava o local, a lua. Ele finalmente percebeu-se no salão de festas, como se milhares de pessoas tivessem acabado de sair do cômodo. Haviam confetes no chão, copos sujos, toalhas de mesa amarrotadas e o toca disco chiava agora que a lista de músicas havia terminado.

– Eu precisava vir, você sabe disso. Em algum lugar no seu coração, você sabe tanto quanto eu, que eu precisava vir.

– Eu te amo, te amo demais. – Disse Yoochun. – Mas não posso fazer mais nada por você.

“O que…” – A pergunta de Junsu ficou solta no ar, pois Micky colou os lábios aos dele por apenas alguns segundos. E em seguida ele o empurrou com força, até que o gostoso abraço apertado do rapaz afrouxasse e ele caísse ao chão. Ele ficou poucos instantes sem entender, pois logo que ergueu o rosto, viu o corpo do rapaz cair e ser arrastado pelo tornozelo para longe.

O corpo de seu amado escorregava pelo carpete, enquanto suas mãos procuravam onde se agarrar. Junsu levantou-se em um salto e percebeu que não havia nada visível o puxando, sendo assim, não havia com o que lutar para soltar o homem que ele amava. Ele jogou-se contra seu Yoochun e conseguiu agarrar seus pulsos, e puxa-lo de volta. O corpo de Junsu também foi arrastado, até ele conseguir prender-se contra a porta de correr do salão de festas.

– Solta, Junsu! – Exclamou Yoochun. – Pode soltar!

– Não!

– Vai ficar tudo bem, mas você precisa soltar! – Mentiu Yoochun.

Junsu respirou fundo e soltou a mão do rapaz, vendo seu corpo ser arrastado rapidamente para o andar de cima, chegando ao seu quarto em poucos segundos e finalmente a porta bateu. Era isso, por isso ele havia sido empurrado, preso em seu quarto, Yoochun seria obrigado a mata-lo. E ele não o queria morto. Por outro lado, alguém muito mais ameaçador queria a sua morte, o Hotel Overlook.

E lá estava ele, recostado à porta do salão, com os joelhos próximos ao rosto e uma penumbra aterrorizante. Sua respiração ainda saía rápida de seus lábios, e seu coração estava disparado. Ele estava sozinho, desarmado, amedrontado, como afinal pretendia salvar aquela criança e aquela mulher? Como lutar diante de tanto ódio? Seu corpo tremia, e sua mente não pareciam querer colaborar com seu raciocínio, ele precisava sair dali, imediatamente.

Junsu se levantou com dificuldade, escorregando as costas pela parede, enquanto seus olhos percorriam todos os cantos do local, esperando algo assustador aparecer ali, algo ameaçador, mas nada. Apenas o silêncio e o farfalhar das folhas de Radagast. Se ele chegasse aos aposentos do zelador, talvez encontrasse Junmin e Hyemin lá. Uma vez que eles estivessem fora dali, faltaria apenas o leão com quem lidar. Mas como vencer um leão, se nem mesmo domadores experientes se arriscavam a chegar perto de um animal tão perigoso?

Foi quando ele começou a se lembrar do que conhecia dos habitantes do Overlook. Se Yoochun se nauseava com o cheiro de agrotóxicos e Jaejoong era sensível a toques em seu pescoço, certamente havia um motivo para Radagast gostar tanto assim da neve. Junsu esticou o corpo e pôde ver sob a penumbra a porta da cozinha aberta. Ele podia chegar até lá, se preparar e então seguir para encontrar Junmin. Haviam facas, tesouras e produtos inflamáveis naquele local. Era este seu plano, entrar lá, resgatar os dois e sair despercebido.

Um plano fraco e que tinha tudo para dar errado.

Ele retirou as meias, imaginando que descalço faria menos barulho, entretanto a barra molhada de suas calças se arrastavam no chão, causando ruídos a cada movimento. Seu passo aumentou corredor adentro, quando ele começou a notar que muitas coisas se moviam no hotel aquela noite. Eram vozes, sussurros, risadas, e em meio a elas os gritos distantes de Yoochun, enquanto tentava abrir a porta de seu quarto. Tão atento que estava aos ruídos vindos dos quartos do andar de cima que sequer percebeu os passos em seu encalço.

Ele adentrou a cozinha e correu para onde as gavetas de facas e utensílios domésticos, esperando encontrar algo que o defendesse. Ele abriu a mesma com um baque, derrubando sonoramente todos os talheres no chão. Junsu levou um tempo para reconhecer as grandes facas em meio às conchas, escumadeiras e pegadores de macarrão, até finalmente escolher uma afiada e de cabo de madeira. Quando se ergueu, ele sentiu aquele costumeiro cheiro mentolado, ao mesmo tempo em que ouvia uma risada doce e irritante.

Junsu virou-se bruscamente, tropeçando em alguns talheres e seu olhar encontrou-se ao dele. Jaejoong estava displicentemente sentado sobre a bancada, com seus pés descalços balançando no ar em um gesto infantil. Ele trajava uma regata branca e justa, uma corrente com o pingente escondido por dentro da roupa, além de calças de moletom confortáveis. Seus cabelos ainda estavam desgrenhados e seu cheiro estava impregnando o lugar, assim como o cheiro de Yunho estava em sua pele.

O loiro sorria, discreto, como alguém prestes a tocar em seu braço e dizer ‘tá com você’, para então sair correndo e rindo. Junsu, entretanto, o conhecia bem demais para confiar naquele sorriso que derretia corações. Ele colocou a faca atrás do corpo e se aproximou a passos lentos, pensando se ataca-lo com aquela arma surtiria algum efeito no rapaz morto. Jaejoong pendeu o rosto de lado de forma adorável e disse:

– Boa noite, Kim Junsu.

– Boa noite.

– A que devo a honra da sua visita justamente em um inverno tão rigoroso?

– Você sabe.

– Deve ter sido uma viagem difícil. – Disse Jaejoong saltando da mesa, em um movimento felino. – Aceita um chocolate quente? Ou talvez, o que você precisa é de um banho quente, nos braços de alguém especial.

– Pare de rodeios, eu não gosto desta expectativa.

– Um homem direto, que interessante. – Afirmou Jaejoong. – Eu tenho algo para você.

Dizendo isso, Jaejoong retirou a corrente que escondia por baixo da regata e pendurada na mesma, estava um pequeno molho de chaves. Ele as reconheceu de imediato, mas se esforçava em acreditar que aquele dissimulado tentaria chantageá-lo. O loiro retirou uma das chaves do apoio e a ergueu, reluzente e prateada, diante dos olhos do rapaz.

– É a chave do 1904. – Afirmou Jaejoong. – Onde o seu namorado está preso. Eu vou te dar ela, e você vai poder entrar lá, consolar ele, cuidar dos ferimentos que ele mesmo está se causando neste momento e é claro, beija-lo, abraça-lo, ama-lo na banheira. Olhe isso, Junsu, eu estou até mesmo arrepiado!

Junsu suspirou pesadamente em retorno. Ele de fato estava se machucando, Jaejoong não estava mentindo, infligindo dor em seu próprio corpo como forma de castigo. Aquilo doía no rapaz, como brasa em sua pele sensível. Junsu desviou o olhar dele, se remexendo incomodado antes de responder a ele:

– Em troca da chave do quarto, você vai ter que fazer uma coisa por mim. – Junsu engoliu seco. – Você não vai sair do quarto, não vai se intrometer nos meus negócios, entendeu? Você vai se trancar lá dentro com ele e passar a chave por baixo da porta. É só deixar a natureza seguir o seu percurso, nada demais, e você vai amanhecer aqui, feliz, vivo, nos braços fortes do seu Yoochun.

– Eu só tenho que te deixar fazer o seu papel. – Repetiu Junsu, se aproximando. – Te deixar matar uma mulher e uma criança inocente? Te deixar machucar um menino que tem apenas culpa de ter nascido com uma mente especial? Te deixar ser o sociopata asqueroso que você sempre foi? Ah, Jaejoong, vai precisar de um pouco mais do que lábia para me impedir.

– Está sentindo este ar frio? Este que está entrando pelas suas narinas e enchendo os seus pulmões? Sinta seu coração bater, seu sangue correr, seu corpo em total funcionamento. Sinta, Junsu, sinta e aproveite, porque não vai durar.

– Volta pra jaula, você e aquele leão ridículo!!

Junsu deu-lhe as costas e a passos largos, começou a sair da cozinha. Ele caminhou a passos largos, sabendo que o rapaz o acompanhava com o olhar e sorria, aquele sorriso ridículo que ele detestava. Quando chegou à porta, ele parou e olhou uma última vez para o rapaz. Jaejoong estava encostado ao fogão, enrolando uma corda em sua mão lentamente enquanto o fitava. Ele então voltou-se para frente, e seu corpo esbarrou com outro, o fazendo se afastar assustado.

Não houve muito tempo para raciocinar, logo ele sentiu um baque contra seu ouvido, algo dolorido e muito forte, e então ele apagou. Seu corpo caiu pesado no chão e a faca tilintou quando escorregou de sua mão. Yunho ergueu um pé e passou por cima do rapaz desmaiado. Seu ouvido sangrava, o que indicava um tímpano perfurado, ou com alguma sorte, hemorragia cerebral. Jaejoong e Yunho o arrastaram pelo chão da cozinha, o deixando na despensa, como haviam planejado. O moreno chegou a erguer o machado, pronto para acertar-lhe a nuca e terminar com aquilo, mas Jae o impediu. Ele era um inconsequente, teimoso, tonto, mas não merecia um fim como aquele. Seu fim, seria outro.

Jaejoong subiu em um banco próprio para pegar coisas no alto das estantes da despensa e no teto, em uma viga de madeira firme, ele amarrou a corda grossa que segurava anteriormente. Na ponta solta, o loiro fez um nó apropriado, deixando o espaço perfeito para o pescoço do rapaz. Ao seu lado, no chão, ele deixou um pequeno papel dobrado e de mãos dadas com Yunho, saiu da despensa e trancou sua porta. Ela só voltaria a ser aberta no final daquela noite, quando o primeiro pássaro da primavera cantaria seu mais belo canto.

Eles deixaram a cozinha, silenciosos, gatunos. Jaejoong seguiu para as escadarias, enquanto Yunho, agora com o machado em uma mão e a faca na outra, se espreitou pelo corredor. Ele caminhou sem pressa e deixou o machado pesar e se arrastar sonoramente pelo chão. A adrenalina corria por seu corpo, o acordava, o excitava. Estava na hora. A porta de seus aposentos estava trancada, mas havia uma luz vindo debaixo da porta.

Hyemin estranhou quando encontrou seu filho escondido atrás do sofá. Uma vez que Yunho estava preso na despensa, com alguma sorte dormindo junto com alguns ratos, eles estavam seguros em seus aposentos. Assim ela se sentiu, por longas 24 horas e seu filho, apesar de costumeiramente desconfiado, também parecera mais tranquilo. Até aquela noite.

Ela acordou com o barulho de muitos copos tilintando, em seguida estouros, como bombinhas de papel em uma comemoração. Por uns instantes ela acreditou em um pesadelo, e logo se deu conta de que seu filho não estava na cama. Em seguida, saiu pelos cômodos pequenos do local, procurando por seu filho que deveria estar adormecido ao seu lado. A chave ainda estava no bolso de seu robe, logo, Minnie não havia deixado o quarto.

A chave da despensa ainda estava escondida atrás do armário, assim, seu marido também ainda estava preso. Apesar de confiar em seu filho, não podia confiar em sua inocência, e esta poderia leva-lo a soltar Yunho. Restava ela saber onde Junmin havia se escondido. Minnie estava agachado atrás do sofá, olhando fixamente para a parede, enquanto sussurrava um diálogo incompreensível. Ela acomodou-se ao lado dele, que levou alguns segundos para perceber sua presença ali.

– Está tudo bem, Minnie?

– Sim. – Disse Junmin, erguendo o olhar. – Eu te amo, omma. Mesmo que a gente não saia daqui nunca mais, eu te amo.

– Por que você acha que nós não vamos sair daqui? O inverno vai terminar e nós vamos embora, todos nós.

– Não, todos não. O appa vai ficar e ele quer que nós fiquemos aqui também.

– Minnie, quando a neve baixar, a omma vai chamar a polícia e tirar o seu pai de onde ele está. Não se preocupe, isso é temporário.

– Omma, eu sinto muito, mas o appa não está mais preso. – Afirmou o pequenino. – Ele saiu da despensa.

– Ele não pode ter saído, a chave está comigo e eu sei que você não…

– Não, omma, eu não, o loiro. – Explicou Junmin. – Ele soltou o appa, depois eles deitaram juntos na mesma cama e tomaram banho juntos e agora…

– E agora o que, Minnie?

“Agora ele está aqui. E agora que ele está aqui, a máscara da morte rubra irá nos dominar, dominar tudo”

“Minnie, ele não…”

Hyemin ia retrucar e pedir explicações sobre a incoerente e complexa frase do menino, entretanto, foi interrompida por batidas ritmadas na porta, como em uma brincadeira. Ela se levantou lentamente, com o olhar arregalado em direção à porta. Junmin apoiou-se em seu robe para fazer o mesmo, permanecendo ali, enquanto, ambos em expectativa esperavam por outra manifestação.

E outra batida, e então um suspiro impaciente.

– Hyeminie, meu amor, abra a porta. – Disse Yunho em um tom de voz doce. – Vamos conversar?

– Céus, ele fugiu! – Sussurrou Hyemin.

– Eu sei que você está brava comigo, mas eu quero que me perdoe. Vamos conversar. – Suplicou Yunho. – Você lembra como nós eramos no começo? Os passeios ao parque, ao cinema, ou como quando ficamos felizes quando descobrimos que você estava grávida? Vamos, você é a minha esposa e eu estou disposto a te desculpar pelo que você fez.

– Vai embora! – Gritou Hyemin, abraçando-se ao seu filho, enquanto olhava para as janelas que a levariam para fora do hotel. – Vá embora, ou algo muito ruim vai acontecer.

– O que vai acontecer, doçura? – Disse Yunho, pacientemente se recostando-se ao batente da porta. – Espera, você acha que alguém vai te ajudar aqui, meu bem?

– Appa! – Junmin ia falar de Junsu, entretanto sua mãe cobriu seus lábios com a mão.

– O cozinheiro veio de tão longe, por um inverno tão rigoroso, e vocês acharam mesmo que era por sua causa. – Riu-se Yunho. – Por sua causa!!

– Já chega! Vá embora, nos deixe em paz!

Dizendo isso, Hyemin soltou o menino, e correu para pegar a grande faca sob seu travesseiro, enquanto o ouvia rir histericamente. Yunho suspirou divertido, girou em seus calcanhares e se preparou, como um rebatedor de basebol. Ela correu para a sala novamente, enquanto Junmin se esforçava para abrir a janela mais próxima. Era pesada para ele, e suas trancas estavam congeladas por fora. Ela se apressou em ajuda-lo, uma vez que era a única brecha pela qual ela conseguiria sair.

– Abram abram, porquinhos! – Brincou Yunho. – Senão eu vou soprar, e soprar, e soprar e toda a sua casa derrubar.

– Vai pro inferno, Yunho!

Hyemin bradou e em seguida o baque do machado contra a porta ecoou pelo quarto. Ele apenas teve tempo de puxar a arma e joga-la novamente contra a porta, rachando a madeira antiga. Ele colocaria aquele hotel abaixo se necessário, mas terminaria o que era sua tarefa. A janela da sala não abria, mesmo com ambos se esforçando sobre a fechadura. Hyemin agarrou o menino pela cintura e trancou-se com ele no banheiro.

Yunho chutou a porta e a mesma abriu com violência. Ele lambeu os lábios e jogou o machado sobre os ombros, enquanto adentrava o local. O moreno caminhava a passos lentos, pendendo o corpo, enquanto tentava visualizar os dois. Sua garganta estava seca, ele queria muito uma bebida. Ele sentou-se na cama e suspirou pesadamente, como ele queria dar fim àqueles dois. Imagens se passavam em sua mente, como um breve filme. Os dois correndo, aos gritos e berros, jamais escutados por alguém vivo. E então sangue, em suas mãos, em seu rosto e escorrendo como um rio pela tapeçaria do Overlook. Teatral, intenso, fantástico.

Yunho se levantou e parou de frente para a porta do banheiro. E o cheiro do medo invadiu suas narinas pela primeira vez.

 

A primeira coisa que Junsu sentiu ao acordar foi uma dor intensa do lado de sua cabeça. Ele sentia o gosto férreo do sangue em sua garganta e aquilo o enojou. Ele percebeu o chão duro e frio embaixo de seu corpo, e se moveu lentamente e com dificuldade. Quando abriu os olhos, desfocados, ele viu o teto branco, as estantes. Aquela posição o incomodou, logo ele se apoiou para se levantar, e amassou entre seus dedos o papel deixado para ele.

Junsu viu-se naquela despensa onde passava tanto tempo, nas altas temporadas. E viu a corda, viu o formato do nó e suspirou pesadamente com aquela sugestão. Ele estava zonzo, e se arrastou até uma das estantes, onde se encostou. Seus olhos se fecharam brevemente, e precisou de um esforço enorme para eles abrirem novamente. Seus dedos tatearam e abriram o envelope sem pressa, a medida que seus sentidos se tornavam mais aguçados.

Não os sentidos normais, é claro. Sua visão ainda estava embaçada, seu ouvido emitia um zunido chato e seu tato estava lento. Mas ele via em sua mente, Junmin e sua mãe presos ao banheiro, coisas se movendo no andar de cima, o leão na porta, e seu Yoochun chorando. Ele queria abraça-lo, mas sabia que estava preso ali. Ele viu em sua imaginação, Jaejoong o deixando ali e partindo, de mãos dadas com Yunho. Era isso, por isso ele estava se esforçando tanto, o loirinho estava apaixonado.

Seus olhos finalmente recaíram sobre o papel, eles demoraram a focar a letra bem desenhada, e seu cérebro demorou a entender que aquela era uma carta, destinada a ele.

 

Junsu;

Se você está lendo esta carta é porque as coisas foram longe demais. Quem lhe fala, é Yoochun, seu amante, seu mártir. Eu pedi para que esta carta lhe fosse entregue, no momento do último suspiro, quando você estivesse vendo o fim iminente da sua vida. Quando todos os seus sonhos estivessem destruídos e não houvesse mais esperança para você, meu amor.

Eu me lembro quando percebi para onde meus instintos me carregavam. Como eu sonhava com um rapaz, morto, sangrando e aquilo me causava deliciosos arrepios. Eu o sentia próximo a mim, sempre próximo, sempre à espreita. Eu precisava pegar você e acabar com você, te deixando tão preso aqui quanto eu mesmo.

E então, em uma bela noite chuvosa, você veio a mim. Como um ratinho em uma ratoeira, você caiu na minha armadilha. De repente, o rapaz que era apenas um corpo sem rosto, era uma pessoa de verdade, viva à minha frente. Era minha função matar você, era o meu destino, até eu olhar para você.

Seus olhos escuros, tão lindamente delineados, inocentes, curiosos. Seus lábios protuberantes e bonitos, seu corpo alto e magro. Você faz alguma ideia, de como você é bonito? De como parece ter saído de um conto de fadas? Eu amoleci a primeira vez que te vi, meu corpo se arrepiou inteirinho e eu tive certeza de que se eu tivesse um coração, ele teria batido muito, muito forte mesmo.

Então eu decidi te proteger, ir contra a minha natureza. E se tornou o meu carma, impedir que você morresse, e é claro, te fazer feliz o quanto eu pudesse. E eu te amei, Junsu, amei como jamais pensei ser capaz de amar alguém. Você é meu tudo, meu céu, meu chão, meu ar. E é por isso, que você não deveria voltar para cá. Uma criatura como você, jamais deveria ficar presa aqui.

Eu imaginei seu futuro, Junsu. Imaginei-lhe casando com um bela moça, com seu gentil irmão como padrinho. E tendo filhos, e os levando para passear pelo Rio Han. Vendo sua filha se casar, seu filho se formar e passar o final de sua vida, envolto por muitos netos. Uma vida completa, plena, linda. A vida que você merecia. E era na esperança de uma vida longa e próspera para você que eu te deixava partir, por mais que meu coração sem vida fosse junto com você.

Você jamais deveria ter voltado. Entretanto, somente quando voltei a olhar em seus olhos, entendi por que você entrou nesta terrível empreitada. Este seu coração mole, fraco, doce, puro, este coração que fez com que eu me apaixonasse por você, este coração teve compaixão pelo menino. Você viu sua infância nele, com seu pai esquizofrênico e sua mãe fria. Tendo que lidar com pensamentos especiais e coisas que ninguém mais via, a não ser você e Junho.

Durante todo o inverno, como um mantra, eu o invoquei, não volte Junsu, não volte. Mas eu sabia que mais cedo ou mais tarde, sua compaixão e sua simpatia o fariam voltar. Este coração puro iria querer para o menino, o mesmo que eu quis para você. Uma vida plena e feliz. Junsu, meu golfinho bobo, você acreditou, mesmo por um minuto que sairia vivo daqui? Que sairia a salvo e ileso?

Algo surgiu neste Hotel quando eu decidi que eu lhe amava. Eu reneguei o meu instinto e ele desperto no formato de algo que eu criei. Foi quando Radagast tomou forma, e acima de todos neste hotel, ele te odeia. Algo feito pelas minhas próprias mãos lhe trucidaria em poucos instantes, e lhe deixaria morrendo, sentindo uma dor que é impossível mensurar com palavras. Ele é minha criação, é parte de mim, e eu sei que assim que você estiver morto ele voltará a adormecer. E terá paz em sua morte leonina.

Eu vou me despedir de você agora, meu Junsu e torcer para que sua morte seja indolor. A minha não foi, foi lenta e tortuosa. Tampouco a de Radagast foi, ele morreu em desespero, morreu desejando viver. Lembre-se disso antes de odiar meu companheiro felino. Vou lhe dizer adeus, meu dolphin, como um esposo faria no leito de morte de seu companheiro de toda uma vida.

Espero que encontre paz, dolphin, e eu espero por você. Do outro lado do véu.

Park Yoochun, jardineiro, apaixonado.

 

Junsu suspirou trêmulo, voltando a olhar para a corda. Era isso, ou ele dava fim à própria vida, ou o casal do lado de fora o faria. E eles seriam violentos, sua morte não seria pacífica. Finalmente Junsu percebeu, que o que doía em seu peito, não era sua morte iminente, mas o amor que sentia por Yoochun. Seu coração disparou e o nome do rapaz brincou em seus lábios, antes dele sorrir.

Junsu fechou os olhos e sentiu seu coração disparado. Era uma sensação boa, como as borboletas em seu estômago. Ele uniu ambas as mãos em seu peito e sua mente viajou, por quilômetros dali, até o quarto onde seu irmão dormia. Um hotel quente e aconchegante, um bom lugar para descansar. No espelho, ele deixou uma mensagem simples, amorosa e significativa.

 

“Eu amo você, Jun. Vou sentir saudades.”

 

Quando sua mente voltou, ele se levantou e seguiu com dificuldade até o banco. Ele segurou a corda e a fitou demoradamente. Era seu destino estar ali e ele deveria abraça-lo como seu. Junsu colocou a corda em seu pescoço e chamou por Junmin em silêncio. O menino atendeu prontamente e o pediu por ajuda. Ele iria ajuda-lo, ao menos ele se esforçaria para ajuda-lo. Entretanto, antes ele precisava dar-lhe instruções.

“Minnie, diga para sua mãe, para vocês procurarem a saída mais próxima. Uma janela, ou até mesmo a porta. O snowbile funciona e está na entrada, vocês chegarão até a cidade com ele. Eu não vou com vocês.”

“Mas hyung…”

“Apenas faça o que eu digo. Nos veremos novamente em outra volta da vida.”

Junsu calou a voz assustada do menino e deixou sua mente procurar por outra pessoa no Hotel, e o encontrou parado em frente a porta de Yoochun. Muito conveniente. Antes que ele pudesse falar, Micky já sabia de seu plano. Um ótimo plano. Ele o esperou atrás da porta, enquanto confiante e inocente, Jaejoong abriu a porta. Ele estava procurando se vangloriar de seus feitos mal sabia que aquilo ainda não havia acabado.

Assim que a porta abriu, Yoochun voou nele, mais especificamente em seu pescoço. Enquanto isso, Junsu invadiu sua mente, e o machucou. Jaejoong caiu sentindo muita dor, em sua cabeça, em suas pernas e a pior de todas em seu pescoço. Ele queria aguentar, até que Yunho desse conta do que precisava ser feito, mas ele era fraco. E ele gritou, o máximo que seus pulmões aguentaram, o máximo que sua garganta suportava. Ele chamou pelo seu nome, e de novo, e de novo.

Quando o grito chegou aos aposentos do zelador, Junsu deu um último suspiro, machucou Jaejoong até lágrimas vermelhas e frias saírem de seus olhos e então apertou a corda em volta de seu pescoço. Por fim, ele saltou do banco que caiu com um baque surdo no chão, ouviu um estalo forte em seu pescoço e tudo ficou desfocado e escuro, muito escuro. Não houve dor, grito, desespero, foi apenas a última ação desesperada e o último suspiro.

Radagast que caminhava de um lado a outro na porta, caiu levemente ao chão e suas folhas antes verdes secaram e ganharam uma coloração marrom. Yoochun soltou o pescoço do rapaz e correu porta afora, sendo acompanhado pelo olhar de todos dividiam aquele hotel com ele. As irmãs, a senhora apaixonada, o antigo zelador. Jaejoong ainda gritava assustado, pois há muito não sentia tanta dor. Ele continuava chamando por Yunho, precisava dele, mais do que nunca.

E assim, no primeiro andar, em meio a despensa, a vida de Junsu findou-se. Ele morrera bravamente, lutando contra a injustiça de deixar uma criança morrer em prol das vontades sádicas daquele hotel amaldiçoado. E morreu amando. Pouco antes de cair na escuridão, ele lembrou-se de seu Yoochun, de seu sorriso de seus beijos, e seu coração disparou uma última vez, para finalmente diminuir seu ritmo e parar. Seu corpo dançou no ar por alguns segundos, sua última dança, e também parou. Estava acabado e ele não estava arrependido, pois Junsu nunca teve medo de seu futuro, e tomou suas decisões passionalmente como sempre foi.

De alguma forma, desde a primeira vez que pisara naquele hotel, ele sabia que algo o conectava a ele. Apenas não sabia que encontraria amor em sua forma mais pura e primitiva, em um lugar que guardava tanta maldade. Junsu abrira a caixa de pandora quando entrou no quarto de Yoochun e ele sabia que sua morte, o destino havia rascunhado nas paredes do Hotel Overlook.

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