Capítulo 05 – Josephine

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Kyuhyun estava particularmente orgulhoso naquela manhã. Ele estava sentado em sua carteira, com sua pequena e delicada boneca de cabelos loiros dentro da mochila. Margot estava devidamente guardada ali para que fosse protegida de olhares acusadores e que não estragassem sua boneca. Da ultima coisa que Kyuhyun precisava era de um botão a menos no vestido dela, ou uma renda solta na barra da saia.

A apresentação de sua redação fora um sucesso. Ele mostrou para a classe, após muita insistência de sua professora, o objeto do qual ele tratava no texto. Kyu havia levado a boneca apenas pra mostrar para a docente, que o pediu encarecidamente, após comover-se com sua história. Kyuhyun a mostrou no início da aula, quando a encontrou sozinha na biblioteca, e ouviu satisfeito, elogios à beleza de seu brinquedo.

Ela exaltou novamente a sentimentalidade de sua redação e o avisou que ele deveria desenvolver mais esse lado criativo ao invés de permanecer tão preso as exatas. Kyuhyun prometeu se esforçar, por mais que não tivesse interesse algum na criatividade, e continuaria apegado aos seus cálculos. Ele leu sua redação diante da classe toda, assim como outros dois colegas e todos foram aplaudidos, porém sem muito entusiasmo.

Ao final, Kyuhyun estava orgulhoso e havia ganhado a maior nota da sala, como de costume. Ele se levantou juntamente com sua turma e saiu da sala em direção a aula de educação física, distraído ao imaginar a reação e o sorriso de Siwon quando ele lhe contasse sobre sua nota, sem perceber que seus colegas ficaram para trás. Ele correu em direção a quadra, desejando que o tempo passasse mais rápido para encontrar o professor. Antes não tivesse desejado.

Cerca de cinquenta minutos depois, Siwon viu o menino atravessando a escola a passos largos. Ele não deixou de esboçar um sorriso ao ver os pingos caindo das pontas de seus cabelos e escorrendo por seu pescoço. Ele havia saído da ducha recentemente, e Siwon deixou-se imaginar como o menino estava momentos antes, aproveitando a água morna, completamente nu. Ele riu-se discreto de seu pensamento, indagando se ele viria até sua sala, se mostraria sua boneca.

Um brinquedo. Siwon mal podia acreditar que aquele menino carregava um brinquedo. Não combinava com ele, não com aquela pele branca e maculada, coberta pelo uniforme escolar, e seu cheiro natural que combina tão perfeitamente com seus trejeitos. Era isso, ele tinha uma aula para dar e não poderia esperar por sua visita, muito menos fantasiar com seu cheiro, ou até mesmo o sabor da pele por onde aquela pequena gotícula escorreu.

Ainda à porta da sala, Kyuhyun sentiu seu chão faltar. De repente nem Siwon, nem o delicioso bolo que sua mãe havia preparado, nem sua nota máxima eram relevantes. Não diante do que se encontrava sobre sua mesa. Kyu se aproximou a passos lentos, rodeando a mesa como se tentasse comprovar que aquilo era real. E talvez tentar entender por que alguém cometeria tal maldade? Quem iria se vingar dele daquela maneira? Alguma vez ele já machucara alguém tão profundamente?

Sua Margot, sua companheira de brincadeiras, seu maior tesouro da infância, estava destruída sobre sua carteira. Nada dela havia sobrado. O vestido rosa, o mesmo que viera com ela anos antes havia virado um monte de retalhos sobre sua mesa e no chão em volta. Os cabelos, antes caprichosamente trançados estavam cortados e sua cabeça havia sido rabiscada com caneta esferográfica e marca-texto verde. Seu corpo estava quebrado em partes e algumas delas haviam desaparecido.

Estava destruído, tudo o que ele zelara por tantos anos, estava acabado. Kyu sentiu seu rosto esquentar e ele ganhou um tom enrubescido. Sua garganta deu um nó e doeu, enquanto seus olhos arderam sem que ele conseguisse evitar. Seus lábios tremeram e ele soluçou alto, desabando o peso de seu corpo na cadeira. Lá estavam, todas as suas brincadeiras, despedaçadas com tanta desconsideração, tanta raiva.

Kyuhyun abraçou seu brinquedo destroçado e chorou sobre esse, enquanto sentia os cabelos soltos entre seus dedos e o aroma do plástico que acostumara a sentir nas noites de trovoada. Suas lágrimas escorreram e ele soltou o choro em sua garganta, sem se preocupar se seria visto ou não. Ele precisava desabafar, e ao contrário do habitual, ele não conseguiria segurar até chegar em casa, se trancar em seu quarto e abraçar Margot.

Seus soluços eram tão altos que sequer perceberam quando Siwon apareceu à porta. Eles ecoavam pela sala silenciosa, doloridos, carregados. Do lado de fora, pedaços da delicada Margot eram displicentemente deixados pela escola como uma forma de chacota ou castigo por sua sexualidade. A última coisa que Siwon esperava encontrar em sua sala de aula era seu querido aluno aos prantos. Ele acreditava que o menor estaria comendo do bolo que, no dia anterior, dissera que sua mãe faria. E no fundo, ele esperava flagra-lo trançando os cabelos de sua boneca.

Aqueles soluços machucaram seu coração. Por que afinal, Kyu poderia estar tão chateado? Ele não tinha notas baixas, tampouco parecia chateado quando atravessou a escola após a aula, com seus cabelos úmidos. Nem mesmo quando estava adoecido e prestes a levar uma bronca, o menino sequer lacrimejava. Ele era frio e Siwon gostava disso nele. Aquelas lágrimas, demonstravam que ele poderia ser falso em sua frieza, ou que algo muito sério havia acontecido.

Siwon deixou sua pasta sobre a mesa e encurvou o corpo sobre o menino, buscando silenciosamente sua atenção. Ele estava mergulhado em seu choro que se sobressaltou quando sentiu a mão do professor em seu ombro. Kyu abraçou mais sua boneca e ergueu o rosto, ainda sem conseguir conter os soluços, tampouco as lágrimas. Siwon agachou ao seu lado, procurando algum machucado em seu rosto, mas apenas encontrou a magoa em seus olhos.

Seu rosto estava úmido e enrubescido, seus lábios grossos tremiam entreabertos enquanto ele tentava respirar sem soluçar. E seus olhos, as orbes amendoadas que Siwon tanto admirava, derramavam lágrimas pesarosas uma após a outra, sem medo, sem consolo. Kyuhyun ameaçou baixar o rosto, no entanto, Siwon chamou-lhe pelo nome, recebendo sua atenção um tanto relutante. Ele estava defensivo, e também irritado, ao que o professor decidiu ignorar e pergunta-lo:

– O que aconteceu?

A voz de Siwon, costumeiramente fria, agora estava reconfortante. Kyu não queria que ele sentisse pena, tampouco que o achasse bobo, porém ele já havia sido flagrado, o que mais restava? Ele chorou mais antes de conseguir responder, os soluços não deixavam sua voz soar adequadamente, então Siwon voltou a se manifestar. Sua mão acariciou o rosto do menino, enxugando algumas das muitas lágrimas.

– Tentes se acalmar, Kyu.

Kyu puxou o ar com força, tentando controlar seus soluços, sem muito sucesso. Então o menino se afastou, e ali estava a boneca. Ou o que deveria ter sido uma boneca. Siwon entendeu quase de imediato o que acontecera, no entanto, queria detalhes vindos de Kyu e o mais importante, queria que ele se acalmasse. Kyuhyun disse com voz esganiçada pelos soluços, antes de baixar novamente o rosto.

– Eles quebraram… A Margot!

Siwon suspirou pesadamente, sentindo raiva e compaixão ao mesmo tempo. Ele sabia que seus alunos pegavam no pé de Kyuhyun, mas aquilo passou dos limites. O professor se levantou, refletindo sobre o que fazer primeiro e da maneira mais eficiente. Foi quando seu lado sentimental pendeu e ele olhou para Kyuhyun, seu menino Kyuhyun. Ele precisava de abraço, de carinho, mais do que nunca, mais do que todas as vezes que Siwon desejou secretamente acaricia-lo.

– Vamos até a minha sala, conversar.

Siwon mantinha-se frio, e viu o menino obedece-lo, sem a costumeira vitalidade. Kyuhyun agarrou os pedaços que conseguiu de sua boneca e seguiu aos calcanhares de Siwon para fora da sala. O mais velho caminhou rapidamente, sem perceber que Kyu chorava escondido às suas costas. Ele sabia que estava sendo apontado, mas não se importava. Ele apenas queria ir embora dali, e chorar por sua perda.

Siwon fechou a porta após o menino entrar e se acomodar na cadeira. Os pedaços do brinquedo foram depositados sobre sua mesa e finalmente o professor pôde olhar com mais cuidado. Ele serviu um copo d’água para o menino e o deixou livre para toma-lo como quisesse. Kyu tomou-o de uma vez e Siwon serviu-o de mais, ao que o menino degustou com mais calma, sentindo seu choro se acalmar.

Siwon sentou-se em sua cadeira e analisou o brinquedo. Um ato de pura maldade, e o que mais o incomodava, os adolescentes não percebiam isso. Para eles era apenas uma brincadeira, rir do menino que não compartilhava dos mesmos gostos que eles. Tirar dele uma boneca velha e quem sabe assim, reafirmar sua própria masculinidade sob o garoto afeminado. Kyu era o alvo, a vítima da vez, até perder a graça e eles se voltarem para a menina com espinhas ou a que usava aparelho ortodôntico.

Siwon ofereceu seu lenço para o menino que aceitou de imediato e enxugou as lágrimas com este. O docente o avisou para ir em frente e Kyu assoou o nariz, para por fim, decidir levar o lenço para lavar como fizera na última vez. Siwon suspirou pesadamente, enquanto sua mente cogitava pegar aquele menino e leva-lo para longe daquela escola, insanamente como antes quando observou a gota escorrer por seu pescoço.

– Quer me contar o que aconteceu? – Disse Siwon, interrompendo o silencio.

– Não sei, professor. – Disse Kyuhyun, com a voz embargada. – Ela estava na minha mochila quando eu saí e quando eu voltei… estava assim.

– Você não viu quem foi?

– Você sabe quem foi, Wonie-hyung, todos eles fizeram isso, eu tenho certeza! – Desabafou Kyuhyun. – Eles não gostam de mim, ninguém na minha sala gosta, e eles fizeram de maldade! Eles sabiam que eu gostava dela!

– Kyunie… – Disse Siwon, usando pela primeira vez um apelido carinhoso. – Eu não posso chegar na sala e acusar todo mundo, você sabe disso, meu menino. E Kyu você sabe que nem todo mundo lá é capaz de uma maldade dessas, não é? Então não seja injusto.

– Eles foram injustos comigo!! – Gritou Kyuhyun, voltando a chorar. – O que eu fiz pra eles, professor? Eu machuquei alguém? Eu já tomei algo que eles queriam muito? Eu ofendi alguém? Eu nem chego perto deles, eu só venho pra esse lugar estudar, por que eu tenho que passar por isso?

– Eu não sei, Kyu. – Disse Siwon, simplista.

– É porque eu sou gay, não é? – Siwon suspirou pesadamente, ao ver o menino voltar a chorar mais intensamente. – O que tem de errado nisso? O que tem de errado em ser gay?

– Kyu… – Siwon se levantou e contornou a mesa, se apoiando na mesma ao ficar de frente para o aluno. – Não há nada errado em ser gay, em se assumir gay, desde que você saiba com o que está lidando. E você ainda é muito jovem para entender a magnitude disso.

– O que você quer dizer?

– Eu quero dizer, Kyu, que ser gay é considerado errado, em muitos lugares. Não é só na escola que você vai encontrar isso, e se você quer continuar assim, cheio de orgulho da sua sexualidade vai ter que aprender a lidar com isso. Aqui, as pessoas não querem te machucar por acharem que você vai se tornar mais homem quando isso passar e sim porque é engraçado.

– Engraçado?? Isso é engraçado? – Disse Kyuhyun, levantando-se bruscamente.

– Não, não tem a menor graça para mim. – Disse Siwon. – Assim como eu também acho que a sua sexualidade não é brincadeira, e nem uma fase como eu já ouvi pessoas falando por aí. Mas para os seus colegas é engraçado, assim como também e divertido atirar a bola no rosto de uma pessoa só porque ela não tem habilidade esportiva, como é divertido trancar uma menina no banheiro só porque ela tem os dentes tortos. Isso Kyu, faz parte da adolescência.

– Eu odeio isso, eu odeio todos eles e essa escola ridícula! – Disse Kyuhyun. – Eu devia ter ido embora, como o Heechul-hyung foi! Ele não aguentou isso aqui e foi embora e eu queria ter ido com ele!

– Fugir não parece do seu feitio. – Concluiu Siwon, acariciando o rosto do menino. – Kyu, o sinal já vai bater, e você vai ter que voltar para a aula.

– Não quero voltar, Wonie-hyung, quero ter aula só com você. Você não vê problemas em mim.

– Você tem que voltar. Quanto mais eles perceberem que te atingiram, mais bem sucedida é a brincadeira. – Afirmou Siwon. – Eu vou tentar descobrir quem foi e se eu tiver provas vou punir os responsáveis pessoalmente, Kyunie, se isso não acontecer eu fico de mãos atadas.

– Não é justo.

– Não, não é. – Concordou Siwon.

– O que eu faço, professor? Eu nem posso concertar a Margot, nem posso gritar com eles.

– Continue sendo dedicado aos seus estudos, porque um dia você vai sair daqui e perceber que a única coisa que importa é o que você aprendeu. Todas essas amizades, essas brincadeiras ridículas, ficam para trás em uma lembrança de como o caráter deles era fraco e influenciável. Mas você… – Siwon repousou suas mãos sobre as do outro, e Kyuhyun estremeceu ao toque. – Você é especial. Não porque você gosta de beijar outros meninos, mas porque você não se deixa levar, você não finge ser quem não é, além de ser muito esperto. E agora pode parecer pouco, mas no futuro você vai ver que é isso o que importa.

Kyuhyun suspirou pesadamente e concordou em silencio. Siwon viu o menino desolado se levantar, enxugar o rosto e sair da sua sala, enquanto o sinal batia, avisando o começo de sua aula. O professor jogou o resto da boneca no cesto de lixo, sentindo seu coração apertar ao ver aquele objeto ali. Quando ele chegou à sala de Kyuhyun, aquilo estava um caos. O coordenador tentava falar com os alunos que faziam uma algazarra ao fundo da sala.

Pelo que Siwon entendeu, o coordenador tentava buscar uma resposta para os pertences, não só o brinquedo de Kyuhyun, mas pertences de outros alunos daquela turma, encontrados espalhados pela escola. Eles haviam deixado aquilo um caos e a sala refletia isso. O professor disse sussurrado ao coordenador que as partes da boneca eram de Kyuhyun e que aquele era um assunto demasiadamente delicado para falar em sala de aula. Portanto, como nenhum deles sabia quem era o verdadeiro culpado, eles decidiram que a sala toda seria punida.

Siwon controlou a sala com batidas do apagador no quadro e uma bronca demorada sobre a bagunça e o desrespeito ao coordenador. Kyu, um tanto assustado com o professor tão irritado, encolheu-se em sua carteira e esperou pelo fim da bronca. Fora uma das aulas de matemática mais puxadas e assustadoras que Kyuhyun já presenciara e muitos alunos perderam nota naquele dia. Assim, quando a aula acabou, Kyu sentia uma mistura de melancolia e medo, pois Siwon parecera por demais ameaçador. O menino fora o único que deu a ele um tímido tchau quando saiu da sala, enquanto os outros apenas fugiram de sua aula dupla com muitos deveres difíceis para fazer em casa.

Siwon sabia que isso castigaria seus alunos, e distrairia Kyuhyun para que ele não pensasse na boneca. Ainda assim, depois de uma reunião sobre a baderna daquele dia e ouvir a professora Joori lamentando sobre a boneca de Kyuhyun, Siwon entrou no carro sentindo-se fracassado. Ele era incapaz de punir seus alunos, e fazer Kyu sentir-se melhor. Ele deu partida no veículo, apertando o volante com firmeza, enquanto ouvia a voz chorosa do menino repetindo na sua mente “É injusto!”.

De fato, era injusto. Ele perder seu brinquedo favorito e ser julgado por sua sexualidade e não sua inteligência, era muito injusto. Logo um menino tão delicado, tão especial. Logo o seu menino de olhos amendoados e pele clara. Siwon ainda pensava nele quando entrou na rua movimentada, seguindo para o apartamento de Hyukjae e Donghae, onde estava alojado. Era uma rua comercial, com lojas que não se encaixavam no grande centro.

Em um dia comum, Siwon jamais prestaria atenção àquela pequena vitrine mal iluminada e aquele apetrecho, jamais tiraria sua concentração do trânsito. Entretanto, ele não poderia simplesmente ignorar aquele objeto, nem o desejo que se formara em seu coração. Siwon procurou o lugar mais próximo para estacionar e não demorou-se a encontrar, uma vez que a rua estava relativamente vazia, afinal, ainda estavam no meio da semana.

Siwon saiu do carro, só então percebendo como o céu ameaçava outra tempestade. Ele correu para a loja e um sino tocou quando ele abriu a porta de madeira e vidro. A loja era iluminada por uma única lâmpada amarela e fraca e tinha um cheiro estranho de madeira antiga e naftalina. Estantes altas cobriam as duas paredes laterais, do chão ao teto e de frente para ele, havia uma grande mesa e por trás desta, uma senhora e uma máquina de costura.

Siwon se aproximou da ahjuma e a observou, ela costurava com destreza um vestido rosa de cetim. Ela unia uma manga bufante e delicada ao corpo do vestido, sem dar atenção a ele. Sobre as grandes estantes estavam expostas diversas bonecas com seu rosto reluzente de porcelana e vestidos impecáveis. Haviam também vestidos, chapéus, sapatos e laços de cetim expostos ali.

O professor pigarreou e ainda assim não chamou a atenção da senhora, o que o frustrou por alguns instantes. O sino da porta tocou novamente e um rapaz delicado entrou no local e sorriu para Siwon. Ele estranhou, mas logo o mesmo chamou pela senhora na máquina de costura, sua avó, fazendo Siwon concluir que ela não tinha uma boa audição. Então os dois o encararam, e Siwon não sabia por onde começar.

– Posso ajuda-lo? – Disse o rapaz, sorrindo em seguida.

– Essas bonecas, estão a venda? – Indagou Siwon, logo percebendo o quão boba sua pergunta parecera.

– Estão. – Respondeu a senhora, se levantando com alguma dificuldade. – Normalmente nós vendemos por encomenda, raramente alguém entra na nossa loja, do que você precisa, rapaz? Um presente?

– Sim, um presente! – Afirmou Siwon, movimentando as mãos. – Mas não é para uma criança, e também não é um objeto de decoração.

– Então não é para uma criança, e eu presumo que nem para uma mulher adulta. Você parece aflito, moço. – Disse a senhora, caminhando com lentidão até o balcão das bonecas. – Não tenha medo, me diga o que você tem em mente.

– É uma boneca para um menino, isso deve lhe soar estranho e nem eu tenho certeza de que dar isso a ele é a melhor ideia. – Afirmou Siwon.

– Para um menino? Qual a idade dele?

– Treze, ahjuma, no máximo catorze.

–  Seu pedido certamente é estranho. – Disse ela voltando-se para a estante atrás dela com o olhar pensativo. Seu coque grisalho soltou com o movimento e ela o prendeu novamente em um grampo, sendo observada por Siwon.

– Eu gostei da boneca da vitrine, mas não sei se ele iria gostar. – Disse Siwon, pensativo. – Ele é muito inteligente e teve um dia difícil hoje, no entanto, é difícil dizer de qual destas ele viria a gostar mais.

– Você disse que havia gostado da boneca da vitrine, o que te incomodou nela? – Indagou desta vez o rapaz, apoiando o queixo nas mãos e sorrindo amigavelmente.

– O vestido em tom amarelo e os cabelos negros. – Afirmou Siwon. – Seria melhor uma com os cabelos dourados e um vestido de outra cor.

– Eu sei do que você precisa, filho.

A senhora virou-se e abaixou o corpo, retirando debaixo do balcão uma caixa fechada com um laço de cetim azul. Dentro desta, havia um belíssimo objeto, delicado, nem adulto demais, nem infantil demais. Siwon chegou a suspirar, o que fez a senhora abrir um gentil sorriso. Era disso que ele precisava para animar o menino, uma boneca nova para uma nova fase de sua vida.

A boneca tinha cabelos loiros e encaracolados que caiam sobre seus pequenos ombros. As mãozinhas estavam posicionadas como em um gesto gentil e delicado. Seus olhos de vidro eram expressivos e combinavam sua cor azul, com a boca rosada. E o vestido cheio de babados, rendas, pérolas em miniatura, um verdadeiro trabalho de mestre. Era linda, mesmo para Siwon que não tinha grandes conhecimentos sobre bonecas.

– Eu tenho um chapéu para combinar, ele vai gostar?

– Vai, claro que vai! – Disse Siwon, animado.

– Azul é uma cor de menino, é o que ouvimos desde criança. – Afirmou a senhora, voltando-se para uma das gavetas e retirando dali um pequeno chapéu com um adorno azul como o vestido.

– Era isso o que eu queria, isso mesmo! – Disse Siwon, sorrindo simpático. – Eu vou levar ela.

Siwon saiu de lá mais do que satisfeito, apesar de um tanto inseguro. O professor entrou no carro e deu partida, observando a chuva começar. Ele ainda não sabia se era a melhor solução, se era o mais adequado a se fazer e nem como o entregaria aquele objeto sem chamar atenção. Ele tinha um novo problema, no entanto, tentava entender porque comprar aquela boneca o fazia sentir-se tão bem, tão livre, tão carinhoso.

Não levou mais de dez minutos para ele estacionar na sua vaga reservada, ao lado da moto de Donghae que havia ficado aos cuidados do Siwon. Ele pegou o presente e subiu pela escada de emergência, na tentativa de evitar olhares curiosos. Assim que fechou a porta atrás de si, ele deixou o presente sobre o sofá e tratou de esquecer-se dele por algumas horas, e não pensar em todas as consequências de entregar aquilo ao menino.

Entretanto, mesmo depois de lavar louças, corrigir trabalhos e tomar um demorado banho, sua mente ainda trabalhava sobre como entregar o presente de forma discreta, como impedir que o menino espalhasse para seus familiares que ele ganhara algo de um professor e é claro, que desculpa dar por entrar na escola com um pacote tão grande. Aquilo poderia se tornar um problema, mas se desse certo, seria por demais gratificante.

Uma ligação da escola deu a ele a chance que ele precisava. Ele deveria avisar Kyuhyun que ele era o novo monitor da biblioteca, e consequentemente, seu novo ajudante. Era sua chance. O plano era extremamente falho, esconder a boneca em sua sala até o final da aula, quando atrairia Kyu no intuito de avisa-lo de sua nova função, e então, fechar a porta, e entregar-lhe o presente, contando claro, com sua discrição.

Com esse pensamento animador ele foi trabalhar no dia seguinte. Ele chegou realmente cedo e conseguiu esconder a caixa embaixo de sua mesa, antes de sair de sua sala e começar seu trabalho. Era ridículo, mas ele estava ansioso. Sentia em seu interior que estava fazendo algo indevido, algo proibido, no entanto, ver Kyuhyun adentrar o portão da escola o fez mudar imediatamente de ideia.

Ele ainda estava triste, era visível isso no rapaz. Ele estava de braços cruzados e com ar altivo, encarando quem passava por ele, mas Siwon via a melancolia em seu olhar. Ele estava revivendo sua habitual frieza, elevando-a, para que as pessoas sentissem que não podiam atingi-lo, por mais machucado que estivesse. Siwon o acompanhou com o olhar e então adentrou a sala da irmã do rapaz, pronto para uma nova jornada de trabalho. E pacientemente ele esperou, sinal após sinal, aula após aula, o momento certo de conversar com o menino.

Siwon tinha sua última aula livre e aproveitou para corrigir provas antes de sair e almoçar. E as horas se arrastaram, lentas e maldosas até que o sinal do fim da aula chegou. O convite ao menino havia sido feito na hora do intervalo e agora Siwon esperava sua presença. E acanhado o menor apareceu à sua porta, ainda com os braços cruzados e a mochila nas costas. Siwon sorriu e o chamou com um sinal.

Kyu acomodou-se na mesma cadeira do dia anterior e Siwon fechou a porta e as persianas enquanto o menino analisava com o olhar a prova que ele corrigia anteriormente. Siwon sentou-se à sua frente, sob o olhar curioso e melancólico de seu aluno. Novamente a insanidade, e o desejo impuro de tira-lo dali e esconde-lo em algum canto do mundo onde pudesse abraça-lo com força, e deixar-se levar para onde seu desejo o guiasse.

– Bem, Kyu, eu te chamei aqui porque fui informado de que você é o novo monitor da biblioteca e também, meu ajudante.

– O diretor me avisou ontem por telefone. – Disse Kyuhyun, sem parecer verdadeiramente animado. – Você quer que eu fique hoje, professor?

– Não, Kyu, comece amanhã. – Afirmou Siwon. – Eu tenho algo pra você.

– O que? – Disse Kyuhyun, e lá estava o brilho em seu olhar, curioso, excitado, vivo.

– Antes você vai ter que me prometer algo, não vai contar a ninguém quem te deu este presente, está bem?

– Tudo bem!

Kyuhyun endireitou-se na cadeira com as mãos em seu colo enquanto o fitava. Siwon retirou a caixa de baixo de sua mesa e a colocou de frente para o menino. Ele desfez o laço de cetim e abriu seu presente, arregalando os olhos com o que viu. Era o que Siwon queria, o que desejou do fundo do seu coração ao comprar aquele objeto, ver aquele sorriso se iluminar, brincar em seus lábios, demonstrar sua juventude.

Kyuhyun a retirou de seu encaixe e seu olhar percorreu pelos detalhes, fascinado, com os lábios entreabertos, enquanto seus dedos finos tocavam a porcelana fria. Era muito mais do que ele poderia imaginar, desejar, ia além do que sua singela Margot era. Siwon soltou o ar com força, como se o estivesse segurando e aquilo chamou sua atenção. O professor, um tanto constrangido com sua reação, decidiu perguntar-lhe:

– Você ainda brincava com a outra boneca? Porque essa não é bem de brincar.

– Não, professor, eu não brincava mais. Essa vai ficar em cima da minha cama, adornando o meu quarto.

– Tem algo que eu quero que você entenda. – Kyuhyun fixou o olhar para no mais velho que se levantou e contornou a mesa para se aproximar dele.  – Eu sei que a Margot significava as suas mais belas lembranças da sua infância. Que você lutou para conquistar ela, e eu não quero que isso se perca. Eu te dei essa boneca, para que as lembranças da sua infância não fiquem manchadas pelo dia de ontem. Eu quero que elas permaneçam puras como você as descreveu.

– Obrigado, professor.

Kyuhyun deixou a boneca novamente na caixa e a fechou antes de se voltar para ele. Siwon não esperava vê-lo erguer os braços, como uma criança que pede colo, e envolver seu pescoço o abraçando, como uma dama o convidando para uma dança. As mãos de Siwon o envolveram pela cintura fina e frágil, e seu corpo magro se encaixou ao dele. Era um abraço delicioso e obviamente intimo demais para um professor e um aluno.

Quando se afastou, seus olhares voltaram a se encontrar. E Siwon viu novamente, aquela malícia latente, velada, mesclada com o que restava de sua inocência, representada pela boneca de porcelana. Eles estavam próximos e o mais velho podia até mesmo sentir o gosto de seu hálito, e aquela vontade, aquele instinto, aquele demônio cravado em seu peito que o faziam deseja-lo.

Kyuhyun se afastou, cortou os olhares e suspirou baixinho, um tanto desajeitado. Siwon sorriu o tranquilizando e acariciou-lhe os cabelos antes de dar-lhe as costas. Kyu agarrou a caixa com seu mais querido presente e disse em tom responsável, prometendo-lhe em voz alta:

– Eu prometo que irei cuidar dela e das minhas lembranças.

– Eu sei que vai. – Disse Siwon, abrindo um sorriso desta vez discreto para Kyuhyun. – Agora vá pra casa e não esqueça, temos prova segunda-feira.

– Está bem.

Kyuhyun sabia que seu tempo com o professor havia esgotado, por mais que desejasse passar o dia todo com ele, apenas olhando para ele. Todavia, para Siwon, aquele encontro não poderia ter sido melhor e ele não poderia estar mais satisfeito com o resultado de seu presente. E aquele abraço, aquele abraço quente, inocente, apertado. Ah, o que seria de sua vida, se permitisse-lhe abraça-lo ao seu bel prazer. Talvez jamais o soltasse novamente, até que ele se enjoasse e brigasse com ele.

Antes de sair o menino desejou ao mais velho um bom dia e Siwon voltou a se acomodar em sua costumeira cadeira. Ele estava pronto para voltar aos seus afazeres quando a curiosidade despontou em sua mente. Ele voltou-se novamente para Kyu e chamou-lhe pelo nome, quando este já deixava a sua sala, para por fim indaga-lo:

– Me diga, Kyu, qual vai ser o nome dela?

– Josephine.

Siwon riu discreto assim que o menino deixou sua sala e fechou a porta. Josephine. Um nome tão feminino com certo ar europeu de época. Kyuhyun era mesmo criativo, não fosse sua paixão pelos números ele poderia ter um lado artístico. Ah como ele daria tudo para ver com seus próprios olhos aquele menino cuidando de seu novo presente, deixando-o impecavelmente sobre sua cama de solteiro.

Siwon cobriu os olhos e suspirou pesadamente. Como em um filme, o momento anterior se passava em sua mente. Kyu estava mexendo com sua mente e bagunçando seu sentimental, o que ele conseguiu ignorar por tantos anos. E no dia seguinte, ele estaria a tarde toda ali, na biblioteca ao lado de sua sala, sozinho, sob sua supervisão. Ele de repente se flagrou ansioso com a possibilidade, Kyu estaria ao alcance de seus olhos, de seus dedos.

Em casa, o menino deixou seu novo e belo presente sobre a cama, suspirando com ar feliz. Ele ainda não entendia os motivos do professor Siwon, talvez fosse empatia, um premio por suas boas notas ou ainda uma demonstração de pena por causa do dia anterior. Mas de alguma maneira, ele sabia que era especial no coração de Siwon, ele era o aluno favorito de seu professor favorito.

Seu mais novo objetivo era ganhar outro abraço dele, como o que ele roubara naquele final de manhã. Um abraço longo, acolhedor, que ele conseguisse sentir a segurança de seus braços e ao mesmo tempo abusasse daquele delicioso perfume cítrico. Era bom ter alguém que cuidava de suas lembranças, alguém que se importava em fazê-lo sorrir e para completar, ainda fazia seu coração disparar com um único abraço.

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