Capítulo 06 – Don’t speak

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A biblioteca era um lugar silencioso e confortável. Estantes envolviam todos os cantos do grande cômodo que tinha poucas janelas. A mesa da bibliotecária ficava próxima à porta, com um computador lento, uma mesa pequena de mogno e uma cadeira giratória que rangia a cada movimento. Entretanto, a bibliotecária raramente ficava em seu posto. Ela estava sempre em outro lugar da escola, ou com as crianças menores, ou conversando com o zelador, com quem ela tinha uma relação muito próxima.

Kyuhyun tinha pouco contato com ela, apesar de ser seu dever atualiza-la da situação da biblioteca, ele acostumou-se a repassar tudo para Siwon que coordenava aquele local com muito mais competência. A biblioteca estava mais organizada e silenciosa desde que Kyu começara como monitor, e arrumara grande parte do arquivo com a ajuda de Siwon. Além disso, Kyu tinha mais tempo e tranquilidade para seus próprios deveres.

Siwon agora dava reforço na biblioteca, enquanto isso, Kyuhyun prazerosamente organizava os trabalhos e avaliações de seus colegas, além de tirar xerox e é claro, comprar o café que seu querido professor tomava todos os dias, religiosamente as quatro da tarde. Ele era um ótimo ajudante e Siwon até mesmo se propôs a pagar-lhe um salário, o que o menino veementemente recusou. Ao final do dia, Siwon o levava para casa e no carro, parados em frente à sua residência, eles conversavam sobre todos os assuntos.

Naquela semana, Kyu havia começado uma nova atividade, também demandada por Siwon. Ele ainda não tinha certeza se fora uma boa ideia, mas não custava nada tentar. O professor o inscreveu em uma olimpíada de matemática que Kyuhyun foi classificado com facilidade. Assim, todos os dias, Siwon dava-lhe uma página de exercícios para que ele passasse o final da tarde treinando seu raciocínio. O professor no dia seguinte corrigia ao seu lado e eles treinavam mais do que Kyu precisava.

Era seu momento favorito do dia. Após organizar livros, guardar relatórios e elevar as cadeiras, eles fechavam as cortinas, encostavam a porta, sentavam-se ao fundo da biblioteca e faziam os cálculos, até a hora de Siwon fechar a escola. Kyuhyun nunca se sentira tão bem quanto nos últimos dias ao lado do professor, ele sentia-se competente, inteligente e é claro, tinha certeza de que era o aluno favorito.

E lá estava ele em mais uma sexta-feira, começando o último bimestre antes das férias de inverno. Estava frio e Kyu tinha a impressão de que logo começaria a temporada de neve, o que ele particularmente adorava. Sua lista de exercícios estava terminada sobre a mesa e ele ia fechando sem pressa as cortinas do local, enquanto a bibliotecária passava um batom extremamente vermelho nos lábios, usando um espelho de mão. Ela sorriu quando Siwon passou por ela, apesar dele ignora-la como sempre fazia.

Kyuhyun odiava aqueles sorrisos, ‘sorriso de vadia’ como ele nomeara quando tivera uma longa conversa sobre ela com Siwon que riu-se de seu apelido. Ele atravessou a biblioteca e começou a auxiliar o menino em sua organização para o fechamento da escola. A funcionária se despediu dos dois e fechou a porta ao sair do local. Logo após a coordenadora passar por ali e desejar-lhes um bom final de semana, ele estavam finalmente a sós.

Como de praxe, Siwon acomodou-se em uma cadeira, com Kyuhyun e sua lista nova de exercícios ao seu lado. Ele passou os olhos sobre suas respostas e sorriu discreto, afinal, aparentemente ele havia acertado a maioria. Ele tinha uma lista ainda maior para o final de semana, mas aquilo não incomodava Kyuhyun, de fato, ele queria agrada-lo e de quebra ainda ganhar aquela olimpíada de matemática.

– Não está nada mal, Kyunie. – Disse Siwon, desviando o olhar a ele. – Hoje vou te liberar mais cedo para descansar, você tem estudado muito.

– Eu gosto. – Disse Kyuhyun, sorrindo orgulhoso. – Você não quer ficar e corrigir?

– Hoje não. – Afirmou Siwon, entregando a ele três folhas de exercício. – Eu estou esperando uma ligação do conselho estudantil sobre um programa de bolsas de mestrado e se você quiser, pode ficar e me fazer companhia até o telefone tocar.

– Pode ser! – Disse Kyuhyun, visivelmente animado, retirando de seu bolso um pacote com balas. – Eu ia dividir com você no carro, mas vamos comer aqui mesmo.

– Que doce é esse? – Disse Siwon entre risos, enquanto o menino tirava o plástico que o envolvia e o levava até os lábios do mais velho.

– Bala de cereja. – Afirmou Kyuhyun, sentindo seu coração falhar quando a ponta de seu indicador recostou-se aos lábios macios do rapaz.

– Você comeu direito hoje?

– Comi! – Disse Kyuhyun colocando uma das balas na boca e puxando a cadeira para se aproximar do professor. – Hoje eu comi cenoura no almoço, porque a omma disse que é bom para a memória.

– Que ótimo, cenoura é uma delicia, certo? – Sorriu-lhe Siwon.

– É sim. – Kyuhyun deitou sua cabeça no ombro do rapaz, antes de voltar a falar. – O que você faz normalmente na sexta a noite, professor?

– Eu normalmente vou pra casa, preparo meu jantar, assisto o noticiário ou algum filme interessante e tento descansar. – Afirmou Siwon. – Quando o Hyukjae e o Donghae estavam aqui, nós costumávamos ir ao cinema sexta a noite.

– E onde eles estão?

– No Japão, em uma espécie de lua de mel. – Afirmou Siwon o observando se acomodar confortavelmente como fizera meses antes. – Vão ficar um ano lá, aproximadamente.

– E desde que eles foram pra lá, você não sai?

– Não tenho muito tempo livre, menino. – Disse Siwon desviando o olhar para ele. – E você? O que faz?

– Eu jogo videogame normalmente. – Disse Kyuhyun erguendo o rosto, o que fez Siwon estranhar sua proximidade. Ele já sentia o hálito do menino se espalhando morno por seu maxilar. A pior parte, era não ter a menor vontade de se afastar dele.

– Por que você não arruma um namorado para sair na sexta a noite? – Indagou Kyuhyun, ousadamente deixando seus lábios roçarem no rosto do outro quando falou.

– Eu não preciso de um relacionamento agora. – Explicou Siwon, desviando o rosto para ele, deixando-se sentir aqueles lábios macios passeando por sua pele. – Me daria muita dor de cabeça.

Kyuhyun chegou a rir discreto de sua resposta, pouco a levando a sério, apesar de realmente desconhecer os motivos de Siwon não ter um relacionamento. Ele virou o corpo, e deixou uma das mãos se apoiar na coxa do mais velho para que não perdesse o equilíbrio. Siwon observou aquilo como se passasse em câmera lenta, o menino olhava em seus lábios com uma fixação que ele desconhecia, como se admirasse uma bela obra de arte.

Siwon queria beija-lo, queria sanar aquela vontade e aquele desejo carnal pelos lábios que enfeitiçavam sua mente em noites silenciosas e solitárias. Aquele monstro que ele agora carregava consigo, como um carma do qual ele era incapaz de se livrar. Desejar um menino, depois de tantos anos negligenciando seus ímpetos românticos, voltar-se para alguém na beirada da infância.

E ele reconhecia, via refletido nos olhos grandes de Kyuhyun seu próprio desejo. Percebia a sutileza de suas vontades, de uma curiosidade própria da idade. Siwon sabia que era sua obrigação afasta-lo, que como professor, era seu dever ensinar a moral para aquele menino. Explicar-lhe de forma clara como ele tinha que retrair seus impulsos, seus desejos, afasta-los de forma que isso não afetasse sua vida.

Mas como convencer-lhe se nem mesmo ele se acreditava nisso? Como lidar com as vontades do menino, quando ele próprio estava sendo levado pela tentação. E aqueles lábios, perfeitamente desenhados sob a pele branca que Siwon tanto admirava. Os dedos finos e longos de Kyu tocaram os lábios do professor, experimentando sua textura e é claro, seus limites. Logo uma ousadia que não era própria ergueu-se por suas entranhas, ele se apoiou apropriadamente, escorregou a mão pelo pescoço do mais velho e esperou pelo pior.

Ele colou os lábios aos do professor, matando sua curiosidade e ao mesmo tempo sua vontade. Siwon repousou suas mãos na cintura do menino e voltou-se para ele, o enlaçando com destreza. Seus lábios sequer tiveram tempo de se provar, de aproveitar suas texturas, uma vez que Kyuhyun se afastou e preparou-se para correr dali, para o mais longe possível de Siwon. Ele havia beijado um professor, e aquilo era de longe a coisa mais ousada e errada que ele fizera em toda a sua vida.

Siwon, por outro lado, o achava demasiadamente cruel. Brincar com seu psicológico daquela maneira, fazendo-o ter vontades insanas de tocar aqueles lábios apetitosos. Ele teria que pagar por sua ousadia e por sua crueldade. Kyuhyun levantou-se em um pulo e estava pronto para correr, quando sentiu as mãos firmes do professor o agarrarem pela barra de seu uniforme. Quando voltou-se para ele, Siwon estava em pé, com uma feição que ele sentia-se incapaz de decifrar.

Era uma mistura de raiva, superioridade com uma fixação obsessiva que a principio o assustou e em seguida o fascinou. Desajeitado, o menino voltou-se para ele e sentiu sua mão agarrar-lhe pela nuca, o obrigando a fita-lo. Kyuhyun não fez mais questão alguma de afasta-lo, estava entregue ao seu olhar, ao seu toque, ao seu bel prazer e Siwon saberia como aproveitar-se disso. Seus olhares se encontraram, e o maior justificou seu ato seguinte:

“Não é assim que se beija um homem.”

Kyuhyun salivou, e Siwon viu o liquido se acumular discretamente no canto de seus lábios. Um beijo úmido, era disso que ele precisava. Ele colou os lábios aos do menino, repetindo, sua ação, entretanto, ele esperou-o abrir os lábios para invadi-los, o que não aconteceu. Kyu moveu seus lábios e sugou seu inferior, então o intercalou e sugou seu superior, sendo sutilmente correspondido. Foi quando o docente percebeu, Kyuhyun não conhecia o beijo que ele desejava dar a ele.

Siwon cortou o contato e o segurou pelo queixo, vendo o menino finalmente entreabrir os lábios. Kyu apoiou os braços em sua cintura, o segurando pelo terno e pendeu a cabeça para trás ao fechar os olhos. Seu hálito doce se espalhou, enquanto ele se entregava aos beijos do mais velho. Siwon colou os lábios aos dele e logo invadiu-os com sua língua, explorando cada canto de sua boca, saboreando-o deliciosamente.

Kyu não sabia direito o que fazer. Os beijos que trocara ao longo de sua vida não eram assim tão profundos, íntimos e muito menos tão úmidos. O sabor que ele sentia era exótico, e eriçavam os pelos de sua nuca, em um arrepio que subia pela espinha. Aos poucos, Kyu pegou o jeito, imitando os movimentos de seu professor e acompanhando o roçar de sua língua. E ele não queria parar, nem mesmo quando seu folego começou a faltar em seus pulmões.

Ele se achou fraco, mas logo percebeu que Siwon também estava ofegante. Ele puxava o ar com força, com os lábios entreabertos e os olhos fechados. Kyuhyun queria mais daqueles beijos, daqueles toques, daquele professor que o pertencia em segredo. Ele roubou-lhe mais alguns selares, provocando-o a dar-lhe outro beijo, a invadir sua boca sem pedir permissão e tomar-lhe um ósculo cheio de romantismo e cumplicidade.

Entretanto, Siwon não o beijou. Ele abriu os olhos e fitou o menino que esperava por uma atitude sua, preferencialmente uma atitude racional e não tão impulsiva. Ele estava desestabilizado, diante daqueles olhos, pedindo por mais do que era proibido dar-lhe. Kyuhyun se aproximou mais e o abraçou pelos ombros, acariciando seus cabelos com seus dedos finos e longos.

Siwon pressionou sua cintura, com tanta firmeza que sua musculatura doeu e a pele clara do local ficou rosada e ardida. Era tamanha frustração que Kyu desconhecia tê-la visto anteriormente, em pessoa adulta ou criança. Certamente, em seu mundo muito menos complexo ele não possuía tal sentimento. Siwon se afastou, soltou o abraço, o deixando ainda mais confuso.

 

– O que foi? – Indagou Kyuhyun, segurando-lhe as mãos, enquanto ele evitava seu olhar.

– Kyu, você sabe que isso é errado, não sabe? Nós não podemos fazer isso. – Afirmou Siwon, tentando recobrar a calma enquanto lhe explicava.

– Claro que não, professor, não há nada de errado, não tem ninguém olhando.

– Kyuhyun, você tem que parar de achar que só porque ninguém viu, não é errado. – Explicou Siwon. – Você tem treze anos, é meu aluno, praticamente uma criança. Não é somente antiético, também é crime.

– Não, não precisa pensar assim.

– Kyu, venha, sente-se aqui. – Siwon puxou-o pela mão e o ajudou a se acomodar em uma das cadeiras, para sentar-se de frente para ele. – Entenda, um homem mais velho é proibido de namorar um menor de dezoito anos. É caracterizado como abuso infantil.

– Mas você não abusou de mim, só me deu um beijo.

– Kyuhyun, mesmo o fato de eu te tocar na cintura como um homem já é considerado abuso, o que dirá então um beijo! – Ressaltou Siwon. – Isso pode acabar com a minha carreira e não só isso, eu posso ser preso por te dar um único beijo. Ainda assim, o pior é o que será feito com você.

– Comigo?

– Como você acha que são tratadas crianças que sofrem abusos, Kyunie? Você teria que fazer anos de terapia, seria tratado como especial e muita gente diria que a sua sexualidade é por causa do que eu fiz a você. Tudo o que você fizesse de errado, de estranho, as pessoas acusariam ser por causa do abuso que você sofreu. E você tem tanto potencial, meu menino.

–  Não precisa ser assim. – Disse Kyuhyun. – Os psicólogos e terapeutas jamais seriam capazes de entender o que é seu beijo, professor.

– Explique pra eles então como eu pude ceder? Explique o motivo de eu não conseguir controlar essa vontade que eu tenho de te beijar! Eu sou um homem, Kyuhyun, um adulto formado, tenho plena consciência de que isso é errado e ainda assim eu quero, e quero mais e quero de novo.

– Quer uma explicação simples, professor Siwon? – Disse Kyuhyun se levantando e voltando a se aproximar do outro. – Eu te conquistei, porque eu quis.

– Não é tão simples. – Disse Siwon o vendo pender o corpo sobre o seu. – Nada é tão simples. Pare com isso, criança, você não sabe no que está se metendo.

Kyuhyun sorriu, apenas com um lado dos lábios. E lá estava ela novamente, a mesma lascívia velada nas orbes amendoadas, desta vez exposta em palavras, gestos e toques. O menino deixou-se cair em seu colo, e Siwon mal podia acreditar em tamanha ousadia. As mãos do mais novo repousaram em seu ombro, enquanto ele colava a testa à sua, sendo observado fixamente pelo professor.

Como o personagem patético de Beleza Americana, Siwon estava entregue àquele menino acomodado sobre suas pernas. Aquele menino cheio de segredos e facetas desconhecidas. Cho Kyuhyun, no auge de seus treze anos, conseguiu o que homem algum havia alcançado, desestabilizar seu emocional e tenta-lo a ponto de faze-lo ter desejos impossíveis de se controlar.

Para Kyuhyun tudo era menos complexo. Apenas mais um segredo a ser guardado. Apenas sua fantasia íntima tornando-se uma realidade palpável e alcançável. Entre todos os alunos que ele poderia ter manipulado, que poderia ter beijado, Siwon escolheu que era aos seus toques que ele cederia. Kyuhyun achava-se importante e tinha seu desejo mais profundo realizado, como quando ganhara sua boneca na infância.

– Sabe que eu vou ter um grande problema se você me entregar ao diretor, certo? – Ressaltou Kyuhyun.

– Sabe que você está mexendo com o que não deve, certo? Eu sou seu professor, menino e no último lugar que você deveria estar, era de pernas abertas no meu colo.

– Se a Bela não tivesse domado a fera, ela jamais teria conhecido o príncipe. – Afirmou Kyuhyun. – Como no cinema, se você não contar, eu não conto.

– A sua vida não pode ser baseada em segredos, Kyuhyun, não pode ser assim.

– Mas sempre foi! – Afirmou Kyuhyun. – Ninguém sabia que eu era gay, que eu gostava de bonecas, que eu jogo videogame muito bem, as pessoas não sabem nada de mim. Ninguém sabe da nossa ida ao cinema, ou do fato de você deixar eu deitar no seu ombro. E ninguém vai saber que eu te dei um beijo e que depois, você retribuiu.

– Não. – Disse Siwon o agarrando com mais força pela cintura. – Eu não posso deixar a minha carreira assim na sua mão, eu tenho muita coisa em jogo.

– Você quer alguma garantia de que eu não vou falar para ninguém? Eu não tenho essa garantia, professor.

– E o que você tem para mim?

– Beijos. – Disse Kyuhyun o abraçando pelos ombros. – E se você permitir, além de te ajudar na escola, eu posso te dar carinho, abraços, mimos, você não gosta disso?

– Quanto mais eu tento me livrar, mais você me puxa pra perto de você. – Constatou Siwon. – Eu não posso fazer isso.

– Não deve, mas vai fazer, porque todo mundo precisa de carinho, mesmo que por poucos minutos. Te incomoda o fato de eu ser o único que percebe que você não é feito só de cálculos e severidade? Te incomoda mais o medo de perder a sua carreira ou o fato de eu ter desvendado o professor Siwon que é de carne e osso?

Que Kyuhyun era um menino inteligente, Siwon sabia, mas como seria ele capaz de desvenda-lo com tanta facilidade? Sua sensibilidade era tamanha que chegava quase a ser um sexto sentido, e aquilo o fascinava. Era apenas uma criança curiosa e travessa. Apenas o adolescente malicioso que o desafiava a dar-lhe outro beijo, a tomar seus lábios sobre os seus, provando mais uma vez daquele fel.

Siwon o viu sair de seu colo e começar, sem pressa, sem remorso, sem constrangimento, a arrumar seus pertences, tão naturalmente como se antes ele estivesse sentado ao seu lado, e não sobre suas coxas. Era um cínico, um dissimulado, seu maior pecado, sua perdição. Kyuhyun ergueu a pasta do docente e o entregou, sorrindo discreto enquanto ele o fitava desconcertado.

– Acho que você precisa pensar, professor. – Afirmou Kyuhyun. – Você é ótimo com os números, mas não é muito bom com os sentimentos.

– Acredite, não existe faculdade no mundo que me ensinaria a lidar com alguém como você. – Afirmou Siwon se levantando e pegando sua pasta das mãos dele, para por fim, segui-lo para a saída da biblioteca.

– Não diga isso, professor.

– Isso porque não existe no mundo, homem igual a você. – Afirmou Siwon.

– Eu ainda não sou um homem, estou crescendo.

– E é disso que eu preciso me convencer. – Afirmou Siwon. – O que eu faço com um menino travesso como você?

– Comigo? – Disse Kyuhyun, voltando-se para ele assim que abriu a porta. – Você pode fazer o que quiser.

Siwon o agarrou pela cintura e tomou seus lábios novamente, em um beijo demorado antes de sair da sala. Kyuhyun o correspondeu e em seguida o agarrou pelo pescoço, desta vez ele tomou seus lábios. A língua do menino, invadiu-lhe a boca com tanta destreza que sequer parecia um de seus primeiros beijos. Kyu a explorou, sentindo o perfume cítrico do mais velho inebriar seus sentidos.

Eles trocaram mais alguns beijos escondidos na biblioteca, mas quando passaram pela câmera de segurança da saída, estavam lado a lado, silenciosos, com a mesma pose de professor e aluno. Somente quando entraram no carro, agora silenciosos, eles voltaram a se entreolhar. Kyu conhecia aquele olhar, que perscrutava sua pele e invadia sua alma. Aquele era o maior de todos os seus segredos.

Siwon deu partida no carro, permanecendo silencioso. Ele não gostava de conversar ao volante, e Kyu aparentemente o entendia. Ele o observou ao parar no semáforo, a mochila jogada aos pés e os dedos longos brincando em seu colo. Os olhos perdidos em algum lugar na paisagem e a mente repassando como se fosse um filme o ósculo trocado na biblioteca. Um formigamento delicioso se manteve em seus lábios, tal qual o sabor do professor.

Siwon suspirou e o menino reconhecia seu nervosismo em suas ações. Aos poucos Kyu começava a compreender o tamanho de sua responsabilidade ao beijar o docente. Não era como se ele fosse ficar de castigo se fosse descoberto, ele seria visto como vitima de algo que desejava, de um professor sem escrúpulos. Inverdades capazes de afasta-los, como duas vítimas de sua sociedade moralista.

Siwon estacionou o carro uma quadra antes de sua casa. Ele estava disposto a barrar aquilo ali mesmo, antes que não tivesse mais volta. Apesar de ainda não conseguir se convencer que poderia encontrar uma volta. O menino soltou o cinto e voltou-se para ele, desejando um beijo de despedida, por menos provável que ele fosse. Siwon então olhou para ele, pronto para dizer-lhe que nunca mais daria a ele outro beijo nos lábios. Antes não tivesse olhado.

Kyuhyun estava visivelmente feliz e satisfeito com sua nova situação. Ele sorria, tranquilo, inocente, aparentemente alheio ao grande problema com que estava lidando. O menino segurou-lhe as mãos de forma carinhosa e esperou pela sua despedida. Siwon se perdia entre aquela feição delicada, entre seus sorrisos, ah Kyuhyun, se soubestes. Se visses a si próprio aos olhos do professor, não se aproximaria, não tocaria-lhe os lábios, não o acariciaria.

E Siwon o correspondeu, no auge de sua fraqueza, exalando pelos poros o monstro interior que era fascinado pelo menino. Por que ele? Por que não poderia ser como Donghae e encontrar um homem que o fascinasse, perambulando pelos metrôs de Seul? Logo uma criança. Logo um aluno. Kyuhyun se afastou e acariciou seu rosto, dando novamente asas à sua imaginação.

– Só não me mande para longe de você. – Pediu Kyuhyun voltando a se acomodar em seu banco. – Brigue comigo, me castigue, mas não me afaste de você. É um erro, eu não sou bobo, sei que é.

– Eu não vou te dizer que não vai acontecer de novo, porque eu estou duvidando da minha própria capacidade de resistir a você. – Afirmou Siwon. – Mas não vai acontecer amanhã, nem na próxima semana.

– Quando então?

– Ganhe as olimpíadas e você estará oficialmente convidado a um encontro comigo. Fora da escola, em um lugar longe de onde você mora e de onde eu moro.

– Que lugar?? – Indagou um sorridente e sonhador Kyuhyun.

– Onde você quiser. – Afirmou Siwon sorrindo discreto. – Até lá, chega de beijos, está bem?

– Sem psicólogos, sem sair da escola e sem bronca? Acho que me dei bem. – Disse Kyuhyun, vendo o outro rir. – Vamos deixar em segredo? Como vai ser?

– Até eu pensar no que vou fazer com você, sim, vai continuar como segredo.

– Pense com carinho, Wonie.

Kyuhyun mordeu o lábio inferior, então agarrou sua mochila e saiu do carro. Ele correu para casa, e então encerrou-se em seu quarto, não contendo sua própria agitação. Ele se jogou sobre a cama, abraçando-se à sua boneca. Era muito mais do que ganhar um sorriso, um abraço, um olhar, ele ganhara um beijo. Agora ele era muito mais do que seu aluno favorito, era mais do que amigo, era seu amante.

Aquilo tinha tudo para dar errado, e ele certamente se magoaria com muita facilidade se fosse apenas um passatempo para o professor, um corpo para satisfazer a libido do mais velho. Ele não podia negar, tinha o ego inflado por transpassar tantas barreiras e trocar carícias com o docente. Entretanto, sua própria insegurança no futuro e os pensamentos complexos de Siwon o assustavam. Kyu suspirou pesadamente e se levantou para estudar, ele precisava ganhar a olimpíada, precisava de outro beijo.

Siwon acomodou-se na poltrona próxima à janela. Ela rangia, indicando que Hyukjae precisava de uma nova daquelas. O apartamento estava silencioso, não fosse One Kiss de um cantor que ele desconhecia, tocando em uma rádio qualquer. Ele abriu o caderno com folhas em branco e sua mão corria, afobada escrevendo o hangul de forma desleixada. Ele amassou o papel e o jogou no chão, para então começar novamente.

Ele precisava de conselhos, mas que outra pessoa senão Hyukjae e seu amado Donghae não o julgariam e não o denunciariam para a polícia por abuso de menor. Ele se levantou, caminhou de um lado a outro e depois sentou-se novamente na poltrona. Ele precisava concluir, precisava desabafar. O último paragrafo foi um diálogo complexo, e que saiu aos poucos, explanando seus sentimentos, buscando apoio, segurança e compreensão.

“Eu fiz algo que não devia hoje. Algo que pode tirar minha liberdade, aniquilar meu futuro e jogar barranco abaixo tudo pelo que eu lutei até agora. Eu cometi um crime, algo fora do natural. Minha mente busca maneiras de se punir, ao mesmo tempo em que desiste e se entrega ao errôneo, ao grotesco. Vocês sempre falaram que eu precisava de uma aventura, talvez se antes eu tivesse me entregado a uma, hoje não estaria onde não devo.

Eu beijei um aluno. E não foi sequer um aluno do ultimo ano. Tampouco é uma aluna, e sim um menino. Uma criança no auge de seus treze anos, passando pela transição entre a infância e a adolescência. Eu beijei e eu gostei. Muito mais do que qualquer homem ou mulher que eu já tenha beijado ao longo da minha vida, eu gostei de beijar Kyuhyun. E agora, entreguei um segredo de vida, nas mãos de um menino que eu conheço há quase um semestre.

Não estou pedindo conselhos, tampouco quero que julguem meus pensamentos. Eu precisava desabafar, precisava de um ombro amigo, apesar de estarem longe. Eu preciso de ajuda, preciso controlar novamente meus instintos como fiz a vida toda. E acima de tudo, preciso de um antidoto para o olhar de Kyuhyun.

Meu menino, minha criança. Um dia ele ainda sentirá nojo de mim, do que eu fiz a ele no final desta tarde. E por mais escuro que nosso futuro se pareça, eu preciso dele em meus braços. Ao menos uma última vez, Kyu irá me pertencer, como um homem pertence a outro. Ele é mais do que um aluno, e eu o venero como quando observo a imponência de um trovão atravessando os céus.

Não provei ainda lábios mais doces e tentadores do que aqueles. Se encaixam perfeitamente aos meus, adornam sua pele clara, tão perfeitamente quanto os lábios pintados de sua boneca de porcelana. Tão frágil quanto uma criança, tão lascivo quanto um homem após um orgasmo intenso. Não nego que meu coração tem desejado-o, e ao invés de professor, desejo ser-lhe muito mais.

Meu Cho Kyuhyun. Meu menino.

Kyuhyun tomou de mim minha sanidade, meu auto controle, minha estima própria. Ele roubou minha liberdade, e agora a guarda junto com sua infância deixada para trás, na forma de uma boneca. Enquanto me imponho com voz firme, como um bom professor, me flagro a mercê de seus caprichos. E sim, meus amigos, ele é caprichoso e mimado, e talvez isso faça dele tão especial.

Pudera eu resolve-lo como faço com os números, desvenda-lo tal qual uma equação. Entretanto, aguardo a minha sentença, enquanto saboreio e me lambuzo de tentações. Assim, termino meu relato, sobre o menino que me roubou. Aguardo seu retorno com ansiedade, assim como a bronca que me pertence. Sinto saudades.”

Seu amigo.

Siwon;

Siwon releu suas palavras, dobrou o papel com cuidado e o deixou sobre a mesinha. Aquela carta nunca seria enviada, e seus pensamentos, seriam exterminados e jogados ao vento como aquele papel depois picotado. Era seu fardo a ser carregado, guardar segredo dos sonhos proibidos que tinha com Kyuhyun. E esperar que ele cumprisse sua parte no acordo, para que ele próprio pudesse ceder novamente a suas fraquezas e finalmente beija-lo mais uma vez.

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