Capítulo 09 – I’m yours

cupcake

“Quer parar de atacar os meus cupcakes?”

Yoohwan havia sido pego no flagra assaltando seu terceiro bolinho após o almoço. Seu irmão mais velho havia realmente acertado daquela vez, estavam deliciosos. Ele estava recostado à bancada, enquanto seu indignado irmão o fitava com ar acusador. Ele precisava guardar um dos bolinhos para depois, mas não sobrariam muitos para o gêmeo mal mais tarde se Yoohwan continuasse comendo daquele jeito.

Yoohwan riu e deu outra grande mordida no bolinho. Era interessante ver seu irmão se esforçando para agradar aquele rapaz, fazendo bolinhos e bilhetes, coisas que ele ainda não tinha visto. Yoochun encheu seu copo de suco e voltou para o quintal, mergulhando-se novamente em sua leitura, com seu cão deitado ao seu lado. Era seu jeito de lidar com a espera, com a ansiedade.

Sua manhã havia sido corrida, em função das aulas. Ele apenas entregara seu cupcake juntamente com o bilhete e fora em direção a sua sala de aula. Não pôde presenciar sua reação e seu nervosismo certamente não o permitiria. Yoochun só teve noticias de Junsu quando saiu de sua sala e o viu conversando com seu irmão. Ele queria se aproximar, no entanto tinha deveres a cumprir antes de se deliciar com a presença de seu amado.

Micky não reclamaria de Junsu cuidar de seus dentes, afinal, ele adorava seu sorriso. Entretanto aquela consulta ao dentista estragou parte de seus planos. Ele tentou não demonstrar, mas chateou-se com o fato de ter que esperar um dia inteiro para ter um diálogo apropriado. Junsu não pôde esperar por ele, então prometeu a Yoohwan que iriam à sua casa após a consulta, pois ele sabia que tinham muito sobre o que conversar. Além disso, seu irmão desejava provar do cupcake que ele fizera, uma vez que Junsu não deu a ele uma única mordida sequer.

Yoochun não saberia daquelas coisas, não fosse seu irmão contando-lhe. O mais novo havia encontrado os dois na saída da faculdade e eles até esperaram por Micky, no entanto, este se obrigou a passar na biblioteca para pegar alguns livros, ou seus trabalhos se atrasariam. Assim, quando ele chegou ao portão principal, somente seu irmão o esperava. Aquilo de imediato o desapontou, mas logo o mais novo avisou dos compromissos dos dois rapazes e o atualizou sobre tudo o que eles conversaram.

Assim, ele sabia que no meio da tarde os irmãos apareceriam ali e eles assistiriam a um filme juntos. Claro, a presença de Junho não animava Micky em nada, mas ele entendia a necessidade deles estarem juntos. Afinal, fora assim desde que nasceram, como poderia ele querer mudar isso a essa altura da vida? Entendia também o ciúme desenfreado do outro e os motivos de querer vigia-lo.

Ainda assim, seus sentimentos, seu amor, não seriam discutidos na frente de seu irmão gêmeo, pois não diziam respeito a ele. Micky estava decidido a puxar Junsu para seu quarto após o filme, e com sorte e uma boa dose de coragem, o pediria em namoro. Ele já havia decidido assumir um compromisso com Junsu, se assim o rapaz desejasse. Logo, algumas dúvidas de Junho seriam sanadas e a segurança de Junsu seria reafirmada.

Micky ainda pensava nisso quando seu cão se levantou e saiu correndo e latindo casa adentro. Ele se levantou e sentiu uma vertigem ao fazê-lo, o que logo passou. Era comum ele ter essas vertigens, se acostumara com elas desde criança. Yoochun entrou em casa atrás de seu cachorro que latia na janela, enquanto os dois gêmeos procuravam pela campainha do local. Quando olhou para o lado, ele viu Yoohwan já à porta, correndo para atendê-los.

Lá estava Junsu, seu amado Junsu, apontando o canteiro de flores de sua mãe com ar de admiração e um largo sorriso nos lábios. Eles entraram reverenciando Yoohwan que retribuiu o cumprimento e abriu espaço para eles. O segundo a recebe-los foi Harang, que estava especialmente escandaloso aquela tarde. Ele abanava a grande cauda peluda enquanto latia para eles andando de um lado para outro.

“Ele está querendo carinho!” Tranquilizou Yoohwan.

Os três brincaram com o cachorro que rapidamente silenciou, apesar de ainda estar agitado. Então eles entraram na casa, e Micky tratou de ir encontrar com eles. Junho observava o local com atenção, atentando-se aos porta-retratos, enquanto Junsu fitava Yoochun. Ele se aproximou do rapaz que abriu os braços e se jogou em seu colo, o abraçando com força. Seria essa sua maneira de dizer que também sentira saudades? Ou que havia apreciado o cupcake? Yoochun não saberia dizer.

Junsu escondeu o rosto contra seu pescoço, se encaixando adequadamente naquele abraço, deixando um beijo discreto na pele sensível do local. Micky apoiou o rosto no topo da cabeça do outro, sentindo seus cabelos finos e macios fazerem cócegas em seu rosto. Eles eram observados pelos outros dois, um tanto constrangidos, ainda desacostumados com a nova situação do casal.

Junho pigarreou, a fim de chamar a atenção deles, e só então eles se soltaram. Junsu fitou seu irmão, sorrindo sem jeito, enquanto ele cruzava os braços em frente ao peito com ar severo. Micky segurou sua mão e eles se aproximaram dos dois, agora percebendo o clima constrangedor que havia se formado. Foi Yoohwan quem convidou-os para cozinha, para que Junho finalmente experimentasse o cupcake.

– Eu soube que você não deu nem um pedaço para o seu irmão. – Riu-se Yoochun, o agarrando pela cintura.

– É porque estava muito gostoso! – Justificou-se Junsu. – Eu gostei muito do seu presente.

– Onde você comprou? – Indagou Junho, fazendo seu irmão revirar os olhos.

– Eu fiz. – Disse Yoochun, soltando o abraço e tirando um dos cupcakes da geladeira e o entregando ao rapaz. – E eu decorei.

– Você é o que? Confeiteiro?

– Não, o nosso avô era. – Disse Yoohwan. – Ele ensinou para nós dois, mas só o hyung conseguiu aprender.

– É sério? Você aprendeu isso com o seu avô? – Disse Junsu, com ar surpreso.

– Ele era realmente bom nisso. – Disse Yoochun. – Um dia eu te ensino também.

– Eu não sou bom com trabalhos manuais. – Confessou Junsu. – Mas você é realmente muito bom nisso.

– Que bom que você gostou.

– É, não é ruim. – Disse Junho, mordendo outro grande pedaço do bolinho.

– Você quer mais um, Su-hyung?

– Não, ainda estou com o gosto do que eu comi hoje de manhã. – Afirmou Junsu. – E eu não quero que isso passe.

– Quando passar, eu faço outro pra você. – Disse Yoochun. – Um especial, só pra você.

– Eu vou esperar. – Afirmou Junsu. – Vamos ver o filme?

– Qual você quer ver? – Disse Yoochun, caminhando ao lado dele até a sala.

– Qualquer um. – Disse Junsu, dando de ombros. – Nós precisamos conversar, só nós dois.

– Eu sei que sim, mas não vou te tirar daqui agora, seu irmão vai se chatear. – Afirmou Micky. – Vamos combinar assim, vocês sentam aqui, escolhem um filme enquanto eu faço pipoca e no final, nós conversamos sozinhos ali na varanda ou no meu quarto.

– Está bem. – Disse Junsu, vendo seu irmão e Yoohwan voltando da cozinha, cada um comendo um cupcake. – Eu vou ganhar um beijo depois?

– Quantos você quiser. – Disse Yoochun.

Junsu riu e deixou-se cair sobre o sofá. Micky encurvou-se sobre ele e deixou um beijo estalado em sua testa, enquanto os outros dois sentavam-se ao lado dele e observavam a estante de filmes da sala. Junsu e Yoohwan entraram em uma discussão sobre qual gênero era o mais adequado para aquela tarde, dentre os que estavam na estante. Junho não estava interessado em filme algum e sem que eles percebessem, ele se afastou.

Yoochun estava parado próximo ao fogão quando ele entrou na cozinha. Ele estranhou a presença do rapaz sozinho e esperou por alguns instantes que seu irmão o seguisse, mas não aconteceu. As risadas de Junsu continuavam vindo da sala, acompanhadas pelas de Yoohwan. Micky cobriu a panela, enquanto o rapaz ia para próximo da mesa e apoiava os cotovelos em uma das cadeiras ali recostadas.

– Tem um copo d’água?

– Tem, claro. – Yoochun virou-se imediatamente para servi-lo, em uma tentativa de parecer gentil diante do rapaz.

– Você fez mesmo aquele bolinho? Não está zoando o meu irmão, está?

– Meu avô me ensinou, inclusive me deu as ferramentas. – Explicou Yoochun, apontando o saco de confeitar vazio no armário de vidro. – Ele me disse, que mesmo que eu não me tornasse um confeiteiro, algum dia eu teria uma namorada e iria querer agrada-la. Ele dizia que um homem é facilmente conquistado pelo estômago e uma mulher pelos detalhes.

– Você fez isso só pra agradar ele? – Indagou Junho recebendo o copo de água fresca. – Só por isso?

– Você nunca gostou de alguém de verdade? Alguém que você ame tanto que um único sorriso já vale todo um esforço?

– Não. – Disse Junho. – Ninguém nunca me despertou isso, mas deve ser porque eu não sou romântico como vocês dois.

– O Junsu é o mais romântico de nós dois, ao menos é isso o que eu penso. – Afirmou Yoochun.

– Você disse que ama o meu irmão, ou foi só uma figura de linguagem?

– Eu amo ele. – Disse Yoochun. – Ao menos, eu acredito que posso chamar isso de amor. Sabe, eu vejo um futuro ao lado do seu irmão, um futuro bom, entende?

– Um futuro? Um futuro escondido ou você se assumiria com ele? Porque eu conheço o meu irmão e eu sei que não falta muito para ele assumir a homossexualidade dele em público. Ele é corajoso, não se envergonha dela e não fosse o futebol que ele gosta tanto, acho que todo mundo já saberia.

– Eu acho que o seu time já sabe, Junho, mas deve ser o tipo de assunto que é melhor ignorar ou comentar quando vocês estão longe. – Afirmou Yoochun. – E respondendo a sua pergunta, é claro que eu me assumiria com ele, afinal, não é como se eu fosse perder amigos na faculdade.

– E a sua família? Seus pais?

– Aí é outra história. – Disse Yoochun, finalmente desligando a panela. – Eu vou precisar de um tempo pra isso, pra me ajeitar na vida, porque meu pai me colocaria pra fora e ele ainda paga a minha faculdade. Se eu me assumir amanhã, pode saber que a única carreira que eu vou conseguir é como atendente de fast food e morarei com o seu irmão em um porão de dois cômodos.

– Conosco não seria muito diferente. – Afirmou Junho. – Ele sempre foi o bebê da minha mãe, ela não vai aceitar com muita facilidade. Você sabe que vocês vão sofrer com isso, não sabe? Vai ser muito mais do que eu socando a sua cara e te chamando de viado, muito mais do que isso.

– Acha que eu estou animado pra isso? – Disse Yoochun, colocando a pipoca em grandes travessas. – Eu não faço questão de ficar na clandestinidade, eu e ele não somos criminosos, mas eu sei que não vai ser um mar de rosas. Por que está me perguntando essas coisas, Junho? O que você quer afinal?

– Eu estou testando você, caso você não tenha percebido. – Disse Junho. – Eu não consigo afastar ele de você e quanto mais eu tento afastar você dele, mais eu acabo errando e machucando o meu irmão. E é por isso que eu vou testar você e acredite, se eu descobrir que você é o babaca que eu acho que é, eu levarei pessoalmente o Junsu pra longe de você.

– Eu vou pedir o seu irmão em namoro. – Anunciou Yoochun, após colocar sal na pipoca. – Eu vou oficializar o meu relacionamento com ele.

– Você não acha que está indo rápido demais?

– Eu acho que preciso passar confiança para o Junsu, dar a segurança que ele precisa, e quando ele me questionar, eu preciso ter um posicionamento. E é por isso que eu preciso oficializar o que nós vivemos.

– Você vai assustar ele, isso sim. – Disse Junho, suspirando pesadamente.

– Eu assumo o risco. – Afirmou Micky. – Sabe, Junho, suas dúvidas não me incomodam, nem suas perguntas, nem seus comentários ácidos. Eu só não preciso de você tentando me separar dele. Proteja ele da maneira que mais parecer adequada, mas não envenene a mente dele contra mim.

– Se você ama mesmo o meu irmão, não me dê motivos pra isso.

Junho suspirou pesadamente e pegou o pote de pipoca, para voltar à sala lado a lado com o namorado de seu irmão. Ou futuro namorado, isso supondo que seu irmão iria aceitar aquele pedido absurdo e ridículo. Junho sentou-se em um sofá separado, olhando para seu irmão, e aquele brilho em seu olhar o deixou momentaneamente desesperado. Ele iria aceitar, Yoochun seria oficialmente seu namorado.

Junho nunca imaginou que, mais difícil do que aceitar a homossexualidade de seu irmão, seria aceitar o namorado que ele escolheu. Ele já havia imaginado como seria quando seu irmão decidisse se relacionar com outro homem, quando afinal, ele se obrigasse a aceitar um cunhado em sua vida. Entretanto, não esperava pelo cara mais mulherengo e arrogante que ele já conhecera. Logo Park Yoochun.

Mas como argumentar com atitudes tão carinhosas e delicadas? Como espalhar que Yoochun era um cretino quando ele abraçava seu irmão com tanta destreza e beijava seu rosto sem se importar com o resto do mundo? Como negar que ele estava apaixonado por Junsu quando seu olhar exprimia claramente aquela paixão? Ele o detestava, mas não conseguia mais negar o quanto aquele rapaz gostava de seu irmão.

Junho finalmente voltou sua atenção ao filme, decidido a deixar de lado seu irmão e o outro rapaz. Junsu, por sua vez, não estava particularmente feliz com a escolha do filme. Ele havia perdido em um jogo e por isso, Yoohwan havia escolhido o filme. E ele detestava filmes de terror, mesmo um bobo como aquele, A Bruxa de Blair. Enquanto Yoochun achava aquele filme sem graça, Junsu tinha arrepios com aquelas cenas.

Yoochun se aproveitava dos abraços apertados e do rosto do rapaz escondido contra seu ombro. Ele fechava os olhos nas cenas de suspense e puxava o ar com força quando o susto o pegava. Micky o achava engraçado, com suas reações e seu medo, mas temeu rir-se do rapaz e acabar chateando o mesmo. Junsu não teria se chateado, estava visivelmente assustado e infeliz com a escolha do filme.

Em um momento particularmente assustador, ao menos para Junsu, ele se levantou e disse que iria tomar um copo d’água. Um péssimo mentiroso. Yoochun não se aguentou e riu dele, mas o deixou se afastar e correr para a cozinha. Micky o observou desaparecer cômodo adentro, e ao voltar seu olhar, os outros dois também riam dele. Junho suspirou pesadamente e pela primeira vez eles se encararam, e sorriram.

Eles se entenderam, ao mesmo tempo em que compreendiam o jeito assustado e caprichoso de Junsu. Junho apontou a porta da cozinha e Micky se levantou de imediato, em busca do outro rapaz. Ele sabia que era sua função abraça-lo para que seu coração se acalmasse e ele esquecesse as cenas que vira na tela da TV. Junsu havia tomado o caminho para os fundos da sua casa, e lá Yoochun o encontrou.

Ele estava sentado no chão, conversando com o grande cachorro da família. Junsu conversava com o animal, brincando com ele e alisando seu pelo macio. Quando ergueu o olhar, seu sorriso se iluminou, o que arrancou de Micky um longo suspiro. Ah, aquele sorriso. Era como uma brisa fresca em um dia quente, ou um abraço forte em momento de angústia. Como ele desejava ser capaz achar um adjetivo para aquele sorriso, um que descrevesse as sensações que ele possuía ao fita-lo e talvez assim ele compreendesse melhor o que sentia por Junsu.

Micky sentou-se de frente para ele, e Junsu repentinamente ficou sério. Talvez fosse a sobriedade do momento, ou sua expressão que não deu a ele nenhuma abertura para brincadeiras. Como uma criança à espera de uma resposta sobre enigmas universais, Junsu pendeu o rosto de lado e o esperou se manifestasse. Talvez seu amado saísse correndo caso ele jogasse em sua face seus planos, logo, ele precisaria acalmar o rapaz. Uma vez que Micky não se manifestou, o outro decidiu falar. Repetir sua sentença do dia anterior e desta vez, observar sua reação:

– Eu amo você.

Ele estava reafirmando seu amor. Amor este que ele reconhecia em seu peito, que aceitava como seu, que carregava como uma cicatriz cravada em sua pele, a qual poderia ser encoberta, mas não retirada. Aquela não era uma frase banal, para ser usada no dia a dia, como meninas adolescentes que a usam com qualquer rapaz. Era uma frase explicativa, demonstrativa, que tentava englobar toda a junção de sentimentos que ele tinha por seu Yoochun. Seu amado Yoochun.

Yoochun o responderia, o diria que também o amava, mas aquilo era o suficiente? O que mais faltava afinal?  Como explicar um impulso como o amor? Como fazer-se entender diante de tanta complexidade? Era mais do que um desejo sexual, mais do que um carinho, era uma devoção que ele ainda não havia provado. E aquele desejo de proteção que ele possuía, que carregava consigo como seu carma.

Junsu estendeu as mãos, com as palmas viradas para cima, esperando que ele as segurasse. Micky se aproximou de tomou-lhe as mãos, deixando seus dedos acariciarem a pele do rapaz, fazendo-lhe cócegas. O coração de Junsu palpitava acelerado e suas mãos suavam frio diante de tamanho nervosismo. Ele já havia dito-lhe que também o amava, por que ele sentia tanto medo de sua reação?

– Eu também amo você.

Lá estava. A confirmação que ele desejou, e aquele olhar que o devorava desde o primeiro encontro. Os olhos negros de Yoochun atravessavam sua pele e perscrutavam sua alma, acalmando suas feridas e cuidando de sua pureza. Junsu jogou-se em seus braços como fizera momentos antes, no entanto, seu medo já havia se dissipado. Yoochun o protegeria de qualquer floresta mal-assombrada.

Micky pendeu o corpo para frente e deixou um selar estalado em seus lábios. O outro suspirou pesadamente, ainda estava temeroso, uma vez que ainda haviam muitos detalhes a serem explanados. Era estranho ficar nervoso desta maneira, ao lado de quem o fazia tão bem. Talvez fosse uma espécie de sexto sentido, ou as palavras venenosas de seu irmão gêmeo ecoando em sua mente. Yoochun o fitou demoradamente, e finalmente, voltou a se manifestar:

– E agora, Su? Agora que eu te amo, o que eu faço com isso?  Como lidar com o amor e com esse medo constante de te ver longe de mim? Quer dizer, ao mesmo tempo em que eu quero e preciso cuidar de você, tenho medo de exagerar, de te prender, de te monopolizar. Eu não entendo sobre nada disso, Su, sobre liberdade, sobre exagero. Não sei reagir ao ciúme, não sei me expressar adequadamente. Eu não tenho comigo nenhuma garantia de que te farei feliz.

– Eu também não entendo, e sei que eu devo estar metendo os pés pelas mãos, porque não te conheço o suficiente.

– E o amor exige conhecimento? Exige racionalidade? Exige cautela? Eu não sei se consigo atender a essas exigências enquanto tenho impulsos irracionais e incontroláveis de te abraçar.

– Chunnie, não tente entender o amor. – Afirmou Junsu. – O amor não foi feito para ser entendido. As pessoas discutem sobre ele desde sempre, declamam sobre eles em poemas, em músicas e nem mesmo uma coletânea deles foi capaz de explicar o amor em toda sua plenitude. Amor é amor, é isso o que você sente por mim, essa junção de pertencimento, possessividade, carinho, desespero. Essa busca pelo que é eterno, essa dúvida, isso tudo está incluído, no amor.

– E o que eu devo fazer com isso se estou impossibilitado de entender?

– Viver. Você deve viver com ele. Aceitar como seus os arrepios na sua pele, o suor frio das suas mãos e a palpitação acelerada do seu coração. E é claro, aceitar-se como meu. Meu Park Yoochun.

– Meu namorado. – Afirmou Yoochun. – Quer ser meu namorado, Junsu?

– Namorar? Você quer namorar? – Indagou Junsu, incapaz de disfarçar o brilho em seu olhar. – Quer dizer que quer assumir um compromisso comigo? Que quer se manter fiel a mim, e me respeitar? Respeitar o meu espaço, os meus desejos, o meu tempo e é claro, a minha família? Você está pronto para isso?

– Você está?

– Eu perguntei primeiro na verdade. – Riu-se Junsu, finalmente entendendo seu nervosismo anterior. Era isso o que ele estava esperando, um pedido de namoro. Era pura ansiedade, era algo por demasia antecipado, mas ainda assim ele estava feliz.

– Estou. – Afirmou Yoochun. – Eu quero ser o seu namorado, o seu Park Yoochun. E você? Quer ser o meu Junsu?

– Claro que eu quero. – Disse Junsu abrindo um largo sorriso. – Nós então somos namorados agora. Eu tenho um namorado.

– Mas e a faculdade, Su? As pessoas não vão gostar de nos ver juntos, ninguém vai gostar. E ainda temos nossos pais, nossa família.

– Não vamos contar para eles ainda. – Afirmou Junsu. – Eu gosto muito dos meninos do futebol e se nós contarmos, eles podem me tirar do time e retaliar o meu irmão e o seu. Isso não seria bom.

– Mas eu não vou negar. Não vou inventar histórias, ou disfarçar. Deixe que os boatos se espalhem, Su, deixe que comentem.

– Eu também não quero mentir. – Afirmou Junsu, sorrindo aventureiro. – Então vamos deixar os boatos correrem, deixe eles perderem tempo falando.

– Combinado. – Afirmou Yoochun, acomodando-se ao seu lado. – Um dia vamos nos casar, não vamos?

– Você acabou de me pedir em namoro, e já quer casar? – Riu-se Junsu, o sentindo passar a mão sobre seus ombros. – Nem fizemos amor ainda, você está pulando algumas fases.

– Agora está ficando interessante. – Afirmou Yoochun o apertando em seu abraço. – Dorme aqui em casa hoje?

– Yah! Me pediu em namoro só pra dormir comigo?

– Não seja bobo, eu estaria lambendo a sua barriga agora se minha intenção fosse te convencer de que eu sou bom nisso. – Disse Yoochun vendo-o corar violentamente. – E eu sou ótimo nisso, se quer saber.

– Não, não quero saber! – Disse Junsu, desconcertado. – E por que quer que eu durma aqui, então?

– Você já dormiu do lado de outro homem? – Indagou Yoochun. – Já dormiu abraçado a alguém? De mãos dadas? Com carinho nos cabelos?

– Já dormi de mãos dadas com o meu irmão, quando chovia. – Disse Junsu, com seu típico ar inocente. – Eu sei que você não vai querer só dormir, eu não sou bobo. O jeito que você me olha as vezes, o jeito que pressiona algumas partes do meu corpo, eu conheço as suas vontades, os seus desejos.

– Sabe? Sabe mesmo? Mesmo nunca experimentando? Nunca se deixando levar? – Indagou Yoochun.

– Você prometeu que não ia pressionar, que não ia ser apressado.

– Você é meu namorado agora. – Afirmou Yoochun. – Namorados transam, Junsu, e quando não transam, ao menos falam sobre isso.

– Agora não, Chunnie. – Pediu Junsu, visivelmente corado. – Outra hora nós podemos falar, quando estivermos sozinhos em casa.

– Fica pra dormir então.

Junsu estava um tanto ansioso, agora que sua cama estava finalmente montada no quarto de Yoochun. Ele raramente dormia fora de casa, muito menos em um quarto separado de seu irmão. A longa conversa com o rapaz, o fizera perceber que passar a noite talvez não fosse má ideia. Convencer seu irmão não fora assim tão fácil, mas agora ele podia ouvir suas risadas, juntamente com o maknae da família. E lá estava ele, sentado na cama do outro rapaz, observando seu quarto.

Tudo ali tinha a essência de Micky. Os quadros, os jogos, os livros, tudo organizado, mas sem muito capricho. A cama no centro estava pronta para que ele fosse dormir, e assim que o rapaz surgiu no quarto com os dentes escovados, eles estariam prontos e Micky tomaria seu lugar e ele se deitaria na cama ao lado.

Junsu era muito sonhador. Sempre fantasiara em sua mente, como seria dormir ao lado de um namorado. Não para fazer sexo, apenas dormir. Como deveria ser ter uma mão repousada sobre a sua, o corpo sendo enlaçado por braços fortes e uma respiração morna e úmida em sua nuca. Sentir seu coração falhar algumas batidas ao ouvir uma declaração de amor e finalmente mergulhar em seu mundo de sonhos. Agora aquilo parecia tão palpável que ele não conseguia deixar de sentir algum nervosismo.

Yoochun apareceu à porta do quarto com uma toalha no pescoço, trajando um pijama azul claro. Ele mal podia acreditar que Junsu iria dormir em seu quarto, e que eles haviam convencido o gêmeo mal a juntar-se a eles. Suas condições foram ridículas, mas eles haviam cumprido com elas até então. Entre elas, Micky ficou responsável pelo jantar de todos, e ele fizera um ótimo bibimbap para aquela noite.

Junsu estava mais do que satisfeito com sua refeição e agora com sua companhia. Micky fechou a porta do quarto e deixou a toalha em um apoio antes de se aproximar do rapaz e subir sobre a cama. Micky o agarrou pela cintura, e deixou um selar em seu pescoço, enquanto o rapaz pendia o corpo para trás para se afastar. Ele ainda tinha medo, e disso Yoochun não tinha dúvida alguma.

Ele ainda se lembrava de quando duvidou da inocência do rapaz. Ele observou seu sorriso, e acreditou ser incapaz de pertencer a uma pessoa adulta. Entretanto lá estava ele, com o corpo nunca tocado por outro homem antes, e a insegurança que a virgindade carrega. Junsu colou as costas na beirada da cama e o empurrou delicadamente pelo ombro, enquanto o outro pendia seu peso contra ele.

– Gostoso. – Disse Yoochun puxando-o pela cintura para que o rapaz o abraçasse.

– Não, Chunnie, não gosto deste apelido. – Disse Junsu o abraçando pelos ombros, enquanto o rapaz se deitava sobre ele. – É muito sexual.

– Qual você quer? – Indagou Yoochun erguendo somente o tronco, enquanto seu peso recaía sobre o corpo do rapaz, o pressionando contra o colchão.

– Qualquer um. – Disse Junsu, se remexendo embaixo de seu corpo, devido ao seu desconforto. Junsu engoliu seco e repousou suas mãos no tórax do rapaz. – Você gosta de deitar assim, por cima?

– Adoro. – Afirmou Micky, sorrindo lascivo. – Eu já sei o seu apelido.

– Qual?

– Dolphin. – Disse Junsu, deixando a ponta de seus dedos acariciarem os cabelos do outro.

– Quer dizer golfinho, não é? – Indagou Junsu. – Por que golfinho?

– Porque quando você ri, é igual a um golfinho. – Afirmou Yoochun, fazendo cocegas no outro, a fim de comprovar sua tese. Junsu se remexeu e socou seu peito, para que o outro parasse, enquanto sua risada característica ecoava pelo quarto.

– Está bem, está bem! – Disse Junsu suspirando pesadamente quando o outro parou de fazer cócegas, ainda ostentando um sorriso sapeca no rosto.

– Além disso, você sabia que existem estudos que comprovam a existência de golfinhos homossexuais. – Afirmou Yoochun, deixando-se deitar ao lado do rapaz. – E eles tem relacionamentos muito longos com seus companheiros golfinhos dentro do mar.

– Você está inventando isso. – Disse Junsu entre risos.

– Não, não, existe todo um estudo sobre a homossexualidade dos golfinhos. – Explicou Micky, vendo o rapaz rir-se novamente. – Vamos levantar daqui para eu poder trocar esse colchão de lugar?

– Onde você vai colocar ele?

– Ao lado do seu, é óbvio. – Afirmou Yoochun. – É avançar muito dormir abraçado com você hoje?

– Abraçado? – Indagou Junsu, estremecendo.

– Sim. – Afirmou Yoochun. – Um abraço bem apertado,  nós podemos segurar as mãos também se você gostar. Você pode sussurrar no meu ouvido tudo o que te der vontade, seus medos, suas vontades.

– Parece bom. – Disse Junsu, acariciando o rosto do outro.

Yoochun deixou um beijo em sua testa e eles se levantaram, a fim de mudar de posição. A cama foi arrastada e os colchões foram posicionados lado a lado. Eles ajeitaram cobertores, travesseiros, apagaram as luzes e se deixaram iluminar somente por um pequeno abajur. Junsu deitou-se primeiro, cobrindo seu corpo até os ombros, então seu namorado acomodou-se ao seu lado.

Seus lábios se encontraram, diversas vezes entre selares estalados e beijos demorados. Junsu apenas se afastava quando as mãos do rapaz, escondidas pelas cobertas, escorregavam por áreas indevidas de seu corpo. Micky entendia seus motivos, por mais que seus instintos dissessem que ele deveria ir além, que deveria ousar mais. Junsu tampouco tinha dó de suas vontades, distribuindo mordidas por seus lábios, seu queixo, seu pescoço.

Ele não sabia o quanto poderia provocar, o quão desejável era seu corpo, seu cheiro, seus lábios. Micky poderia abusar deles pelo resto da noite, deixa-los constantemente inchados e avermelhados como naquele momento. Entretanto, os bocejos do rapaz tornaram-se mais constantes e logo seus olhos começaram a ficar avermelhados e pesados. Yoochun não o obrigaria a se manter acordado e assim, deixou o outro se aninhar em seus braços.

Junsu não demorou nada a adormecer, sussurrando um “Boa noite” e outro “Eu amo você” antes de cair em seu próprio mundo de sonhos. E ali ficou Micky, velando seu sono por alguns momentos. Como alguém poderia julga-lo quando seu único desejo era apenas olhar para ele, velar seu sono e de alguma forma impedir que pesadelos assombrem seus sonhos? Seria mesmo um crime zelar assim por alguém?

Micky considerava seu maior acerto, até então, ter pedido Junsu em namoro. Assumir compromisso com ele, apenas reafirmaria sua fidelidade, seu apreço e é claro, aquele amor que não cabia em si e fugia pelos poros de sua pele. Junsu era seu porto seguro e agora, eles tinham um relacionamento para dividir. Muito mais do que trocar meia dúzia de beijos, eles agora pertenciam um ao outro.

Assim Yoochun adormeceu, embalado pelo aroma dos cabelos do rapaz, pelo peso de seu corpo e o som confortante de sua respiração pesada. Ele o amava, tanto quanto era amado. Sua vida parecia ter acabado de começar, e aos poucos ele descobria novas aventuras, novas sensações. Ficar com ele valia cada briga, cada abandono, cada sacrifício. E ele daria novamente seu suor, por mais uma noite com ele dormindo em seus braços. Como era bom ter Kim Junsu, como era bom ser seu Park Yoochun.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s