Capítulo 07 – His brown eyes

hisbe

A cortina fez um barulho alto ao ser arrastada pelos trilhos que a prendiam. Siwon fechou a janela do apartamento, esperando que aquela luz vermelha piscando parasse de incomodar seus olhos. Ele deixou-se acomodar sobre uma almofada, fitando a televisão, ainda sem sono. Era madrugada, não havia barulho de carros, nem nada que parecesse se mover àquela hora da noite em Seul, e o único som abafado era o da TV mostrando um filme antigo e de péssima qualidade.

Siwon soltou o ar pesadamente. Seus cabelos estavam desarrumados, ele usava roupas desgastadas, porém confortáveis. Seus pés estavam cruzados sobre a mesinha de centro e ele roía as cutículas, distraidamente. Era estranho estar tão sozinho. Afinal, seus alunos preenchiam seus dias de forma que raramente ele aproveitava-se do silêncio. Aquela falta de presenças, de movimentos, de gritos, de risadas histéricas, o incomodava. Ele começava a ficar inquieto, e aquilo certamente não ajudaria nada naquela insônia que o abraçara na noite de sexta- feira.

Siwon estava tendo dificuldades para dormir desde o evento na biblioteca. Desde que seus lábios abusaram do tentador beijo de Kyuhyun. Ele escrevera e reescrevera cerca de dez cartas para Hyukjae e Donghae, elevando Kyuhyun, ressaboreando seu beijo, explicando e justificando seus atos, mas nenhuma soou convincente. Ele ainda era um monstro, por mais que buscasse a absolvição.

Naquela noite ele foi dormir pensando em todas as consequências de seus atos, de seus desejos e acabara sonhando com a prisão. Em seu imaginário, ele estava sentado em uma pequena cela, olhando para o teto, com os pés cruzados como naquela noite. Um guarda passou com seu cassetete batendo, tilintando pelas grades que o mantinham ali. Não havia livros a sua volta, nem gritos de crianças, nem a companhia de seus amigos, somente o guarda, indo e voltando.

Siwon acordou assustado, passando as mãos em seus pulsos em busca das algemas e apenas encontrando o silencioso quarto de Donghae. Aquilo estava tirando sua sanidade.

E como nas outras noites, Siwon sentou-se e divagou sobre Kyuhyun, sobre seu desejo por ele, sobre os acontecimentos do último mês. Aquele menino, era o próprio pecado, o tentava, brincava com ele e depois sorria, dizendo se tratar de um segredo. Certamente uma traquinagem das mais comuns, coisa de criança. Ele procurava em seu passado, traumas que pudessem leva-lo a ter tão sério distúrbio na vida adulta, mas não encontrava o predecessor de sua parafilia. Sua infância havia sido rígida quanto a religiosidade, mas tranquila e feliz em sua casa. Sua adolescência tampouco deixou-lhe traumas, com exceção da descoberta da sua sexualidade.

Ele lembrava aos seus treze anos, quando ele próprio era um tentador mancebo. Ele era atleta na sua escola, por mais que a matemática e a física lhe apetecessem mais. E ainda que andasse de mãos dadas com algumas meninas e fizesse pose para outras, era no vestiário que suas vontades se satisfaziam. Ele se recostava ao box e observava seus colegas de mesma idade se despindo, tomando banho e na saída, riam nus entre si, tudo tão inocente, menos para Siwon. Ele gostava de roçar-se aos meninos, sem que eles percebessem, de sentir seu aroma, de observar as protuberâncias de seus corpos.

Assim se seguiu sua adolescência entre olhares e toques, normalmente de pessoas da mesma idade que a sua. A coisa perdeu a graça na fase adulta. Adultos são complexos, são exigentes, são implicantes. Ele não tinha paciência para flertar, não tinha animo para a conquista e não tinha estômago para o que vinha com facilidade. Claro, jamais negaria que vez ou outra se entregava ao desfrute de pessoas de sua idade, mas nada, nem ninguém, podia ser comparado ao que Kyu lhe causava.

Siwon fizera demoradas analises de seus relacionamentos passados, e nenhum deles começou ou terminou de forma complexa. Era tudo coberto de uma futilidade e falsidade que ele se enojava ao pensar no assunto. Ao pensar nas infinitas imperfeições das pessoas com quem havia estado, a idade tenra de Kyu sequer parecia um grande obstáculo. Talvez se ele não fosse um criminoso, sua consciência não estivesse tão pesada.

Siwon pesquisou, sozinho na biblioteca pública, casos como os dele. Nos tempos antigos, como a idade antiga, era comum as pessoas se casarem com outras muito mais novas. Na idade média, crianças eram vistas como adultos em miniaturas, e adolescentes e seus desejos irrefreáveis eram eternamente incompreendidos. Ele não era o primeiro, tampouco seria o último a ter interesse em uma criança.

Entretanto, nem mesmo o discurso de Nabokov, o qual ele releu com afinco, nem os livros de história da infância e da sexualidade, mudavam o fato de que ele tinha um desvio psicológico. Apesar de não ter uma conotação tão forte e de nível tão bestial quanto a pedofilia, a pederastia era tampouco bem vista. Para Siwon, ainda era uma doença a qual ele havia descoberto recentemente. Antes tivesse ele a inteligência e esquizofrenia de John Nash, do que o potencial de um professor e a pederastia de um imperador grego.

Siwon bocejou demoradamente e se acomodou no sofá, tão confortavelmente quanto um sofá poderia ser. Um único beijo e ele já se considerava um criminoso pederasta. E ele não conseguia deixa-lo. Ele tinha plena consciência de que, levar Kyu para longe doeria como arrancar uma flecha venenosa de seu peito, e as chances de se curar eram mínimas. E preso na rede do menino, Siwon se via na pele do próprio H.H., se esgueirando em janelas e portas, buscando contatos, momentos a sós, e toques e cheiros.

Assim, com o peso da culpa, Siwon adormeceu profundamente, jogado sobre o sofá. Uma péssima noite para ter insônia, já que naquele sábado era a fatídica olimpíada de matemática. Ele deveria acordar em poucas horas e ir até a casa de Kyuhyun, encontra-lo. E, no auge de sua insanidade, quando tinha espasmos e se aliviava sozinho sobre os lençóis limpos de Donghae, Siwon sabia que não importava mais se ele ganharia ou não.

 

Seus pais haviam acabado de sair para um casamento, juntamente com sua noona. Eles iriam para uma cidade vizinha e somente voltariam a noite, o que dava a ele a liberdade que ele desejava. Kyuhyun tomava um iogurte, parado à porta de sua casa, esperando seu atrasado professor. Ele estava nervoso, ansioso e aquele atraso estranho não ajudava em nada em seu estado de espírito.

Kyuhyun estava ansiando por aquele sábado durante os últimos meses. A promessa de Siwon ecoava em sua mente, o pressionava, o relembrava de estudar cada vez mais. Ainda assim, ele não tinha certeza se ganharia e quais adversários encontraria naquela competição. E se fossem uma espécie de gênio? Daqueles que entram na faculdade aos dezesseis e terminam seu doutorado aos vinte?

Para Kyu, não era o prestígio de ganhar uma olimpíada assim que o preocupava, e sim, a premissa de perder uma oportunidade única de sair com seu professor, e contando com alguma sorte, e uma boa dose de ousadia, roubar-lhe outro de seus beijos. E ao pensar no assunto, novamente seu estomago embrulhou mais uma vez, e lá se foi metade do copo de iogurte para o lixo na sua varanda.

Aquele atraso era estranho, pois Siwon era sempre extremamente pontual e metódico. A preocupação de Kyu começava a aumentar quando viu o conhecido carro virando a esquerda em sua rua. Ele trancou a porta e esfregou as maçãs do rosto enquanto descia as escadarias, sua nova mania, passar as costas da mão pela pele irritada e com mais acne do que nunca. Siwon atribuía a acne ao seu nervosismo, Kyu o atribuía ao sabonete de cheiro ruim que sua irmã o emprestara.

Kyuhyun entrou no carro e respondeu timidamente ao discreto bom dia de Siwon. O professor não parecia bem humorado, utilizava um óculos escuro para esconder as olheiras enquanto saboreava o segundo copo de café daquela manhã. E lá estava o causador da sua insônia, entrando com ar grave em seu carro, tentando parecer um adulto ao esconder sua ansiedade, mas a deixando estampada em sua face como uma criança.

Além da saudação, Siwon pediu perdão por seu atraso, apesar de ainda não dar-lhe nenhuma justificativa. Kyuhyun acenou e acomodou-se no banco, esperando chegar ao local da competição. O menino estava abraçado a sua mochila, fitando a paisagem, sem observar o mais velho. Era tentador demais olhar para ele, e seu nervosismo só pioraria se ele o fizesse. Kyu deixou alguns suspiros escaparem, um especialmente pesado quando ele estacionou no local do evento.

Siwon terminou seu café e finalmente olhou para o menino que testava uma de suas canetas, riscando a palma de sua mão. Kyuhyun soltou o cinto, ao mesmo tempo que o mais velho e finalmente eles se entreolharam. O aluno percebeu as olheiras profundas do professor, apesar da feição como sempre neutra. O mais velho o abraçou discretamente pelos ombros, finalmente chamando a atenção do mesmo.

– Como está se sentindo?

– Nervoso. – Confessou Kyu. – Por que você se atrasou?

– Dormi pouco na noite passada. – Afirmou Siwon. – Não tenho dormido muito bem.

– Por que? Está preocupado com as olimpíadas?

– Não, com outros assuntos. – Contou-lhe o professor. – Você se alimentou? Seu rosto está vermelho, você andou esfregando ele, não?

– Eu quero muito ganhar isso. – Afirmou Kyuhyun. – E se eu não ganhar, você vai ficar desapontado?

– Não. – Disse Siwon, sorrindo discreto. – Vou ficar desapontado se eu perceber que você não se esforçou, que subjugou seus adversários ou que desistiu da competição. Aí eu vou ficar desapontado.

– Eu não sou um gênio, não sou tão bom assim com os números. – Disse Kyuhyun. – Eu não tenho tanta chance e sem essa medalha eu…

– Você o que? – Indagou Siwon, vendo o outro suspirar e se remexer incomodado.

– Sem medalha, sem encontro, não é? E então, sem abraços e sem carinhos. Você vai ser o professor Siwon até o próximo ano, nas próximas olimpíadas, quando supostamente eu vou ganhar.

– E quem você quer que eu seja, menino?

– O meu Wonnie. Eu sou Cho Kyuhyun na escola, Kyu em casa, aga quando eu estou doente e minha mãe cuida de mim, e Kyunie pra você, ou as vezes ‘menino’, ‘seu menino’. Já você é o professor Siwon na escola, na biblioteca, quando me deixa em casa e quando me traz às olimpíadas de matemática, é o Wonnie hyung quando vai ao cinema com os seus amigos e me lembra de sempre comer verduras no almoço, mas quando me abraça, quando se deixa levar mesmo que seja só um pouquinho, você é o Wonnie, só Wonnie, sem sulfixo. Meu Wonnie.

Siwon não respondeu, se perdendo nas feições e explicações dissimuladas de seu menino. Kyuhyun, que aguardava uma resposta, ficou decepcionado quando o outro ficou em silencio. Ele queria uma mínima chance de ficar com ele, mesmo que perdesse o campeonato. Era a condição do professor, contudo, aquilo estava tirando seu juízo. Foi a vez de Siwon suspirar pesadamente, para por fim, voltar a falar.

– Eu prometi que te levaria para um encontro, caso você ganhasse e se você não ganhar, não poderei te levar ao encontro. – Explicou Siwon, sentindo seu coração doer ao ver a decepção nas feições do outro. – Mas não vou te ignorar e te largar em casa. Você não vai deixar de ser meu menino, e eu não vou deixar de ser o seu Wonnie.

– Se eu ganhar, vou ter tudo o que eu quero?

– Vai ter o que for possível, nos limites do que a razão nos permite, Kyu.

– Está quase na hora. – Concluiu Kyuhyun, manhosamente desviando de seu abraço. – Vamos terminar logo com isso.

Siwon sorriu e saiu do carro ao mesmo tempo que o outro. Aluno e professor adentraram o grande auditório, onde as pessoas aguardavam. Kyuhyun dirigiu-se aos bastidores e logo, sentou-se em uma mesa contrária aos juízes, enquanto seu tutor se acomodou aos fundo do auditório. Sua consciência pesada temia ser flagrado trocando olhares íntimos demais com seu menino e por isso, ele se manteve escondido.

Kyuhyun estava visivelmente nervoso. Ele olhava para suas coxas, suando frio, e com seu estomago embrulhado. E aquilo somente passou quando as perguntas começaram. Kyu fazia tudo com certa pressa, e alguma destreza. Siwon vibrava em silencio a cada acerto do menino, e pelas suas contas, ele tivera um número pequeno de erros. Ou talvez seu psicológico estivesse decidido a ignora-los.

A primeira fase terminou na hora do almoço e Kyu e uma menina estranha de óculos de armação larga e aparelho seguiram para a final. Ele saiu do palco e os tremores em seu corpo ainda não haviam passado. Suas mãos suavam frio, deixando difícil segurar a caneta apesar de seu raciocínio se manter intacto. Ele não havia trocado mais do que dois olhares com Siwon e sua concentração estava ao máximo naquele dia.

A menina sorriu sugestiva para ele. Ela usava um óculos que parecia grande demais para seu rosto, o que a deixava com feições estranhas. Kyu não costumava reparar na aparência das pessoas, mas havia passado a última hora vendo-a acertar as equações e isso o deixou preocupado. Seria ela o empecilho entre ele e seu encontro com Siwon? Kyuhyun deixou-se ficar em uma cadeira próxima a saída, suspirando nervoso.

Entre alunos que saíam, desapontados, raivosos e chorosos, Kyuhyun reconheceu seu querido professor vindo em contra-fluxo. Ele desviou dos alunos e sorriu de canto ao chegar perto do menino, que não retribuiu o gesto. Ele havia concluido a primeira fase, e Siwon achou que isso melhoraria seu humor, mas a premissa da final na parte da tarde o deixava ainda mais ansioso e com vontade de que aquilo acabasse de uma vez. Kyu ergueu-se de uma vez e cruzou os braços com veemencia, antes de desatar a falar:

– Você nunca mais vai me inscrever em nada parecido! – Disse Kyuhyun. – Eu não gosto disso, Wonie-hyung, não gosto nem um pouquinho! Você não poderia ter me inscrito sem antes falar comigo, eu devia ter deixado isso pra lá. E agora eu estou aqui, com dor de barriga, suando mais do que nas aulas de Educação Física e eu nem sei se vou ganhar!

– Não precisa saber, Kyu. – Interrompeu Siwon, quando o menino parou para pegar fôlego. – Calma, você foi muito bem.

– Não fui não. – Afirmou Kyuhyun. – Eu só quero ir pra casa, está bem?

– Hoje pela manhã você queria outra coisa. – Disse Siwon com ar sugestivo, apoiando a mão nas costas do rapaz e o guiando para fora dali. – Vamos, meu menino, vamos tomar um ar.

– Eu não estou com fome, não quero almoçar e eu acho que mereço um bom suco de morango, você não acha?

– Acho que você precisa tentar comer. – Afirmou Siwon, virando em uma rua próxima ao lado do rapaz. – Não quero que desmaie no palco. Você está indo tão bem, criança, tão bem. Eu estou muito orgulhoso de você.

– Obrigado, professor. Mas eu ainda não ganhei a minha medalha e nem o meu encontro. – Afirmou Kyuhyun, manhoso. – O que eu errei na segunda pergunta, professor? Só a menina acertou!

– Você errou na inversão. – Disse Siwon, adentrando seu carro ao lado do outro. – Acho que você se distraiu, porque acertou perguntas bem mais difíceis. Seus oponentes não eram assim tão inteligentes, com exceção da menina quem vai competir com você agora. Ela é esperta.

– Por que diz isso?

– Ela é, Kyu, só não aparentou ser muito rápida, mas é bem inteligente. – Afirmou Siwon. – Eu quero que você ganhe, então não vou mentir para você e te tranquilizar. Ela é uma oponente difícil, meu menino, mas você é tão esperto quanto ela.

– E sou mais bonito também. – Concluiu Kyuhyun, fazendo o mais velho rir pela primeira vez naquele dia. Siwon estava feliz, radiante, mas não podia demonstrar toda sua euforia uma vez que o menino estava tão nervoso. – Você pode comprar o suco logo ali.

Siwon manobrou o carro imediatamente. Sem que o menino repetisse, ele saiu do veículo sendo observado pelo mesmo. Ele adentrou um restaurante e saiu de lá com um pequeno prato de isopor, e em seguida foi à barraca indicada pelo mais novo. Kyuhyun recostou-se ao banco para esperar por ele, suspirando cansado quando o mais velho acomodou-se ao seu lado. Siwon entregou-lhe um pequeno garfo de plástico, e mordeu um mandu que havia comprado.

Kyuhyun soltou o cinto e saboreou um gole do suco de morango que ele havia comprado. Ele viu Siwon erguer o braço e apoia-lo em seu ombro como no cinema. O menino sorriu sugestivo e apoiou o peso contra ele. O professor cortou um pedaço do salgado e levou até os lábios do menino que fez uma careta brincalhona. Ele já ia deixando de alimenta-lo, quando Kyu entreabriu os lábios.

Siwon aproximou o alimento novamente de seu rosto e desta vez foi prontamente recebido. Kyu tocou propositalmente seus lábios nos dedos do mais velho e em seguida deixou um beijo depositado ali. Ele não pôde deixar de notar novamente a maciez daquela pele, a qual ele beijara repetidas vezes em seu imaginário. Quando um pedaço da massa ficou depositada em sua boca, Siwon a retirou e a saboreou, desejando novamente beijar o menino.

Siwon tremeu e perdeu momentaneamente seu autocontrole. Aquela criança estava ali, o mesmo que o tirava o sono e povoava sua noite. Não precisava de muito para ele ter o que desejava, era só aproxima-lo, toma-lo em um abraço apertado e tocar seus lábios, saborea-los, abusa-los, deleitar-se naquelas sensações. Kyuhyun parecia ler seus pensamentos, pois o observava com tanta atenção, que o mais velho tinha certeza de que ele podia ouvi-los ou ao menos, adivinha-los.

– Você também quer, não quer? Quer exatamente o mesmo que eu. – Sussurrou Kyuhyun. – E você quase cede, quase.

– Guarde estes pensamentos só mais um pouquinho e depois falaremos deles.

– Depois, eu vou falar do que eu quiser, bem baixinho no seu ouvido.

– Vai. – Disse Siwon, levando a outra metade do bolinho aos lábios do menor. – Enquanto isso, vamos nos focar em sua alimentação. Eu não quero que desmaie no palco.

– Não vou desmaiar. – Concluiu Kyuhyun, deixando o peso sobre seus ombros e abrindo novamente a boca. – Posso te perguntar só mais uma coisa sobre aquele assunto?

– Pode. – Disse Siwon, deixando outro dos bolinhos na boca do mesmo, que o saboreou sem pressa. – Mas é a última, depois só vou responder perguntas de matemática.

– Está me dando de comer porque não quer me ver desmaiar, ou por que quer outro beijo nos dedos?

– Importa o que eu quero agora, Kyu? – Indagou Siwon, brevemente constrangido.

– Um pouco. – Disse Kyuhyun, segurando seu pulso e deixando um beijo estalado na ponta de seus dedos. – Se eu ganhar, e nós tivermos nosso encontro, eu quero que você relaxe. Eu acho que se você conseguir relaxar, você vai conseguir dormir. E você precisa dormir, professor. Se eu pudesse, dormiria do seu lado, sabia?

– Chega. – Interrompeu Siwon. – Não vamos falar disso agora, menino, pois eu vou me culpar e tirar a sua concentração. Termine de comer, já está na hora.

Kyuhyun sorriu e tratou de terminar sua refeição, assim como seu suco. Siwon deixou as embalagens em uma lixeira próxima à sua janela e eles voltaram ao concurso. O menino estava muito mais calmo, e parecia também confiante, apesar de ainda cauteloso. A plateia estava agora muito mais vazia e Kyu se acomodou de forma confortável em sua mesa, com o papel em branco à sua frente. E assim se deu início à segunda fase, mais complicada e cheia de perguntas complexas e com truques para faze-los errar.

A menina ia tão bem quanto Kyuhyun, seu número de erros e acertos aos poucos se equiparavam, deixando a competição equilibrada. Siwon estava tranquilo, até a pergunta de desempate. Se ele errasse aquela, Siwon não cumpriria sua promessa, e mais noites de insonia, beijando o menino em silêncio. O mais alto cruzou os dedos em seu colo, enquanto aqueles dedos longos rabiscavam o papel, ele esfregou a maçã do rosto e então concluiu.

A menina ainda calculava quando ele levantou a mão e entregou sua resposta. Siwon saiu de seu lugar, incapaz de permanecer sentado, enquanto os juizes corrigiam sua resposta. Eles trocaram demorados e indiscretos olhares, até o resultado. Talvez se soubessem o que estava em jogo, teriam mentido sobre a resposta, entretanto, alheios ao tratado de aluno e professor, os jurados deram à Kyuhyun a vitória.

Kyu comemorou discretamente, cumprimentou sua adversária, aceitou com honra sua medalha e tratou de correr para fora dali. Ele pegou seus pertences e antes que viessem parabeniza-lo, já estava ao lado do carro de Siwon, esperando pelo outro extremamente ansioso. O mais velho saiu do local em seguida, e sorriu ao ve-lo ali, pronto para receber seu verdadeiro prêmio.

Siwon riu da afobação de seu aluno. Ele não esperou para ser parabenizado e não se importou com a glória de ser o melhor aluno em matemática daquela região de Seul. Entretanto, lá estava ele, se remexendo inquieto, ostentando sua medalha no peito e o sorriso brincando nos lábios. O professor seria incapaz de afirmar o que sentiu ao se aproximar dele. Uma mistura de excitação, euforia, felicidade e é claro a culpa e o desgosto.

Kyuhyun pulou em seus braços quando ele se aproximou, despudorado, provocativo mas tão inocente. Parecia brincar, rir, divertir-se enquanto deixava seu corpo colar-se ao dele. Siwon riu ao abraça-lo pelos ombros, enquanto o sentia afundar o rosto em seu peito. O menino permitiu-se ouvir as batidas aceleradas e ritmadas do coração dele, feliz em saber como ele se sentia, por mais que seu rosto agora demonstrasse constrangimento.

Siwon o guiou para dentro do local novamente e fez Kyu cumprir suas obrigações sociais e depois anunciou a mentira de que o levaria para casa. Sua residência era o último lugar em que ele passaria. Certamente Siwon o levaria para seu próprio apartamento se já não fosse complicado o suficiente estar hospedado em outro lugar. Eles adentraram juntos no carro, ambos fitando a rua, não mais empolgados, mas silenciosos.

Era estranho ter a liberdade que almejaram, e não saber o que fazer com ela. Kyuhyun desviou o olhar pra as mãos em seu colo, constrangido de todos os pensamentos proibidos que teve com o professor durante o último mês. Todas suas fantasias de carícias, abraços e beijos, agora estavam ao seu alcance. Ele ganhara sua chance com muito esforço, agora deveria aproveita-la ao máximo.

Ainda sem fita-lo, Siwon estendeu a ele a mão. Agora ele era o Wonie, não mais o professor Siwon, e sua faceta tão esperada pelo menino, aquela faceta doente que ele tentava esconder, deveria satisfaze-lo. Kyu tomou-lhe a mão, deixando seus dedos se entrelaçarem aos dele imitando casais comuns de namorados, apenas imitando, pois eles passavam longe de ser um casal normal. Siwon deixou um beijo nas costas de sua mão, em um cumprimento cordial e romântico. As maçãs do rosto do menor ganharam um tom avermelhado e ele sorriu sem jeito.

– Onde você quer ir primeiro, Kyu?

– Tomar um latte em um café legal. – Pediu Kyuhyun. – Isso se estiver nos limites permitidos, não é?

– Acredito que está. – Afirmou Siwon dando partida em seu carro.

Kyuhyun silenciou aproveitando a deliciosa sensação de pertencimento que se apossava de seu peito. Eles percorreram o caminho em silêncio, confortador e cheio de tranquilidade. O estômago de Kyuhyun já não doía apesar de ele ainda não sentir fome. Talvez aquilo mudasse quando chegassem ao café escolhido pelo professor, obviamente afastado do bairro da escola e dos que eles moravam. Siwon não queria ser reconhecido.

O café era pequeno e discreto, com uma decoração em tons pastéis. Haviam muitos casais ali, todos eles de mãos dadas ou sorrindo um ao outro. Kyuhyun foi quem escolheu a mesa, próximo a uma janela de onde era possível ver o final da tarde, enquanto Siwon foi ao balcão fazer os pedidos. Ele voltou a se aproximar com dois copos de Latte Machiatto e logo o garçom trouxe um pedaço de torta de morango ao menino.

Kyuhyun saboreou o doce sem pressa, se permitindo fitar as feições agora tranquilas de Siwon que olhava a janela. Aquele era seu conto de fadas e seu príncipe encantado estava sentado à sua frente. O menino, ao contrário de seus momentos íntimos da biblioteca, não ousou toca-lo, por mais próxima que estivesse sua mão. Ele temia chamar atenção negativa, comprometer seu amado professor ou no pior dos casos ser separado dele.

– E depois? Aonde vamos? – Indagou Siwon, ainda fitando a rua, o que começou a deixar o menino incomodado.

– Escolha um lugar, professor. – Pediu Kyuhyun. – Por que não olha para mim?

– Estou tentando evitar seus olhos castanhos. – Afirmou Siwon. – Na esperança de poder mergulhar neles logo em seguida. Eu sei de um lugar.

Kyu sabia que aquele diálogo estava terminado, por mais que tivesse vontade de ler os pensamentos do professor. O mais velho pagou pelo que ambos haviam consumido e seguiu com ele para o carro, onde Siwon guiou para onde seu encontro findaria. Ele o viu estacionar o carro próximo à um bosque, agora vazio. O professor trancou o carro após ambos saírem e segurou sua mão para atravessarem o bosque.

Haviam poucas pessoas ali, e Siwon logo adentrou um beco pouco iluminado. Kyuhyun apertou sua mão à medida que ia ficando mais escuro até eles pararem em um canto isolado. Ele estava assustado, mas seguiu o professor quando este subiu até uma escadaria de saída de incêndio. Ele entendia sua lógica, a escadaria era escondida, era um prédio comercial que não funcionava aos sábados e as sombras da noite os escondiam dos olhos curiosos. Ele confiava em Siwon e sabia que ele havia estudado aquele lugar.

Kyuhyun suspirou pesadamente ao encostar os quadris na grade de proteção enferrujada. Ele estava ansioso e brincava com os dedos de sua mão que estava novamente suada. Siwon se aproximou com sutileza e deixou seu tato dedilhar o pescoço do menino. A pele dele estava morna e eriçou-se imediatamente ao seu toque. Tão sensível.

Siwon tinha certeza que lábio algum jamais havia se aproximado daquela pele imaculada. O rosto corado sob a luz fraca do poste do menino apenas reafirmava suas expectativas. Ele deixou seu corpo sutilmente colar ao dele, sentindo-o frágil sob seus tecidos. Kyuhyun afrouxou a gravata do professor e abriu um de seus botões, o fazendo sentir o frescor da noite, e finalmente o menor sorriu malicioso.

Ah, que sorriso irresistível. Como poderia ter tanta malícia em uma criança que não sabia de nada sobre a vida? Siwon tentava entender, enquanto seu olfato se perdia no cheiro do pescoço dele, e no sabor que agora seus lábios provavam tão sutilmente. Kyuhyun soltava grunhidos com o rosto afundado em sua camisa social. Em meio aos seus gemidos discretos, Siwon reconheceu um pedido.

– Na boca, Wonie. Na boca.

Siwon escorregou a mão por seu pescoço, enquanto o menino aos poucos se afastava de seu corpo. Sua cabeça pendeu para trás, enquanto seus lábios se entreabriam, repetindo seu pedido. A língua de Siwon percorreu seus lábios e finalmente invadiu sua boca, tomando seu tão desejado beijo. Era como um gole de água fria em um dia demasiado quente, reconfortante como uma risada depois de um dia difícil, luxurioso como o primeiro beijo da lua-de-mel.

Os braços do menino o envolveram pelo pescoço, em um abraço discreto. A camisa ergueu e deixou um pedaço da pele de sua cintura exposto, o que foi logo percebido pelo tato de Siwon que explorava aquele local. Era quente, macia, lisa como seda, e o professor revirava os olhos ao pensar na textura do resto de seu corpo. Tão pequeno e frágil, como poderia beijar como o beijava? Os olhos fechados, apenas aproveitando, roçando sua língua com afinco.

Kyuhyun aos poucos ousava em seus toques, se permitindo sentir seus braços musculosos e seus cabelos finos. Eles somente paravam quando o ar faltava em seus pulmões, e deixavam alguns selares e carícias discretas. Sem a real intenção de provoca-lo, Kyuhyun virou de costas e deixou seu corpo colar ao dele. Ele deixou a cabeça deitada em seu ombro, enquanto Siwon deixava beijos em seu rosto.

Entretanto a noite começou a avançar, e por mais que Siwon tivesse vontade de roubar mais beijos dele, ainda era responsável pela segurança e a chegada dele em casa. Kyu virou-se novamente para ele e tomou do mais alto alguns selares. O menino acariciou o rosto de seu amante o fitando carinhosamente. Ele sabia dos riscos, mas confiava cegamente naquele homem ali encostado, o tomando em seus braços.

– Kyunie, eu estou gostando muito de ficar aqui, mas está ficando tarde e…

– Não, Wonie! – Reclamou Kyuhyun, com seu ar manhoso. – Só mais um pouquinho.

– Está tarde e esse bairro não é dos melhores. – Afirmou Siwon. – Não pense que eu não vou sentir falta, porque eu vou.

– Podemos fazer de novo, na biblioteca mesmo.

– Não, Kyunie, na escola não podemos. – Afirmou Siwon. – Olha o lugar para onde eu trouxe você, eu estudei este lugar na medida do possível, para garantir que poderíamos fazer isso.

– É um bom lugar.

– Não, Kyu, é um lugar horrível. Eu quero te levar a um lugar melhor, mais confortável.

– Deixe de ser tão exigente. – Pediu Kyuhyun. – Vamos voltar semana que vem, aqui mesmo.

– Não vamos repetir lugares, eu andei procurando lugares melhores. – Afirmou Siwon. – Com alguma sorte, eu consigo um hotel para nós dois, passamos o dia lá, depois eu te deixo em casa e volto para dormir sozinho.

– Eu posso dormir com você, se quiser. Eu digo para a minha mãe que…

– Não.

– Por que? Podemos montar um plano, não podemos?

– Enquanto eu não domar essa vontade absurda de fazer todas as suas vontades, nem de te beijar sem parar, eu não vou dormir ao seu lado.

– Eu tenho tirado o seu sono? Você tirou o meu, Wonie. É como se eu continuasse sentindo o seu perfume no meu travesseiro. Mas eu não quero falar disso, fico envergonhado.

– Sim, você tem tirado o meu sono. – Respondeu Siwon. – Podemos falar mais disso aos poucos, mas lembre-se Kyu, sempre fora da escola. Lá, eu sou seu professor e você vai me tratar como professor.

– Não quero falar da escola. – Pediu Kyuhyun. – Eu sei que você é o profesor Siwon, mas o que eu quero é o meu Wonie. E eu não quero deixar o meu Wonie agora, mesmo estando tão tarde.

– O seu Wonie é responsável por você, por ser mais velho e ser adulto, e é por isso que eu não posso virar a noite aqui com você, por isso eu não te levo pra casa comigo e nem te beijo às escondidas na biblioteca. Porque você tem apenas treze anos e eu vinte e um, eu sou responsável e se der errado, quem tem que assumir o erro sou eu.

– E semana que vem? Podemos nos encontrar ou eu vou ter que conquistar isso também?

– Vou pensar nisso, vou pensar em um lugar mais confortável para nós dois. – Afirmou Siwon o apertando em seus braços. – Me dê mais um beijo, menino.

Kyuhyun fechou os olhos e se aninhou nos braços do rapaz antes de beija-lo, e se permitiu ficar ali enquanto seu fôlego suportou. Era delicioso beijar Siwon, ele o fazia com calma, o saboreando até que seu gosto estivesse impregnado em sua boca. O mais alto podia sentir o coração dele acelerado com as sensações que lhe causava, e como ele se deliciava com aquelas reações do menino. Era algo tão puro, mas que pendia com tanta veemência para o pecado, o promíscuo.

– Você vai me deixar em casa? – Indagou Kyuhyun.

– Sim, como eu havia prometido.

– E o que vai fazer depois?

– Vou para casa, descansar.

– E não vai encontrar ninguém?

– O que você quer perguntar, Kyu?

– Você não vai sair com outra pessoa neste final de semana, certo? Sabe, algum rapaz bonito como você, da sua idade?

– Não. Este é o meu único encontro amoroso, menino, com você. E acredite, eu queria tanto quanto você que pudéssemos dormir juntos esta noite. Eu ia te abraçar com bastante força, bem assim!

Kyuhyun riu quando o rapaz o ergueu pela cintura e encheu seu rosto de beijos. Ele o agarrou pelo pescoço e roubou dele mais alguns selares de seus lábios. Quando Siwon o colocou no chão novamente, ele estava radiante, deixando seu corpo se apoiar no dele. Eles desceram as escadas e fizeram todo o trajeto até o carro de mãos dadas. Kyu imaginava quando poderia andar assim com ele ao longo do rio Han, sem atrair olhares curiosos. Era um desejo bobo, porém romântico como a alma do menino.

Eles adentraram o carro agora silenciosos, relutantes em soltar as mãos. Durante todo o caminho, Siwon divagou sobre as possibilidades de leva-lo para casa e mante-lo em seus braços o resto da noite, por mais insano que parecesse. Kyuhyun parecia pensativo também, ele queria fazer companhia para Siwon o resto da noite e se possível ajuda-lo a adormecer. Foi quando ele teve uma ideia, que parecia infalível.

– Wonie, você tem telefone aonde você mora?

– Sim. – Respondeu o mais velho, simplista.

“Ótimo.”

E com isso, Kyuhyun concluiu seu raciocínio. Claro que o mais velho ficou intrigado e a primeira coisa que fez ao parar o carro na esquina da casa dele, foi dar-lhe o número para então perguntar qual era sua ideia. Kyuhyun pegou o papel e o pediu que esperasse, para então correr para fora do carro. Sua mochila ainda estava no banco de trás, assim ele não ficou preocupado em ficar esperando o resto da noite ali. A casa do menino ainda estava escura, o que significava que seus pais ainda não haviam chegado. Enquanto se perguntava se era seguro deixa-lo sozinho, ele voltou ainda correndo, trazendo algo em seus braços.

Um Kyuhyun ofegante jogou-se para dentro do carro com um sorriso triunfante. Ele colocou a blusa de lã fina e cinza amarrotada em seu colo. O mais alto olhou sem entender, enquanto o menino esperava por sua reação. O sorriso dele diminuiu ao perceber que teria que explicar seus pensamentos românticos e um tanto constrangedores.

– Eu imaginei que, como estou tirando seu sono, e você não tem um namorado para te abraçar, poderia dormir com a minha blusa e lembrar de mim. Talvez você dormisse melhor, não acha?

– Vou tentar. – Disse Siwon, o fitando carinhosamente. – Obrigado, Kyunie. E sobre o telefone…

– Eu só queria poder te desejar boa noite antes de dormir. – Afirmou Kyuhyun. – Para você não se sentir tão sozinho quando estiver no seu apartamento.

– Tudo bem, apenas não entre em nenhuma encrenca com os seus pais, está bem? – Disse Siwon acariciando seus cabelos.

– Obrigado pelo encontro, por me ajudar em matemática, por tudo Wonie. – Desejou Kyuhyun. – Nos vemos na escola, professor?

– Sim, nos vemos na escola. Boa noite, meu menino.

Kyuhyun jogou-lhe um beijo estalado à distância, agarrou sua mochila e saltou para fora do carro. Siwon o observou partir com uma sensação gostosa no estômago e uma imensa pontada de culpa cravada em seu peito. Ele era mesmo um doente pervertido e o objeto de sua perversão agora acenava para ele do portão de casa. Siwon piscou a lanterna de seu carro para ele e saiu dali, se ficasse mais alguns minutos ele não responderia por seus atos.

Kyuhyun deixou sua medalha sobre sua escrivaninha, afinal deveria mostra-la à sua mãe mais tarde. Após seu demorado banho, ele abraçou seu travesseiro, deixando seus dedos passearem pela boneca que havia ganhado de presente. Enquanto sua mente divagava pelos beijos que trocaram, além das carícias tão íntimas que era como se ele as sentisse novamente. As intenções de Siwon ainda eram um mistério para ele, mas perguntar poderia causar muito constrangimento, além de correr o risco de afasta-lo.

Quando ele percebeu já eram dez da noite e seus pais haviam telefonado e avisado que chegariam próximos àquele horário. Era sua última chance de falar com ele e desejar que ele tivesse bons sonhos. Com medo de ser flagrado, Kyuhyun pegou o telefone sem fio e se trancou no banheiro, para então discar o número anotado naquele pequeno pedaço de papel. No terceiro toque, a voz sonolenta de Siwon atendeu.

– Ahn, Wonie?

– Kyu-ah, achei que você já estivesse dormindo.

– Meus pais já estão chegando, então liguei para dizer boa noite. – Disse Kyuhyun. – E nada de ficar corrigindo provas até tarde, também não pode tomar café e nem coca-cola antes de ir para a cama, está bem?

– Está bem, meu menino. – Disse Siwon, sem conter um sorriso. – É bom ouvir a sua voz antes de dormir, sabia?

– Agora você está sendo bobo. – Riu-se Kyuhyun, ouvindo a risada gostosa dele do outro lado da linha. – Eu só queria que você soubesse, que eu estou pensando em você, e que você não é um professor ruim por ter me beijado hoje à tarde. Você é um ótimo professor, apesar de ser meio chato as vezes. Então, tire essas coisas da cabeça! Você pode ser mais velho, mas tudo que eu fiz com você hoje foi consciente, foi porque eu quis fazer. Hoje você pode dormir com o meu cheiro no seu travesseiro porque eu te dei a peça de roupa com que eu dormi, porque eu quero estar do seu lado.

– Ah Kyu, se o meu mundo fosse tão simples quanto o seu. – Desejou Siwon. – Obrigado, suas palavras são um conforto para mim.

– Boa noite, Wonie, sonhe com os anjos.

– Boa noite, meu menino. Tenha lindos sonhos.

Quando desligou o aparelho, Siwon deixou um sorriso bobo brincar em seus lábios. Eram palavras de uma criança, mergulhada em um conto de fadas, mas que à sua maneira acalmavam seu coração. Claro que aquele discurso não mudava em nada sua realidade, não era convincente, não tinha estrutura, mas era com o que ele se contentaria naquele dia. Ele se acomodou na sua cama e demorou-se deixando seus dedos tatearem o tecido da blusa do menino.

Aos poucos o cansaço tomou seu corpo e o sono o embalou. Com o sabor do menino impregnado em seus lábios e o cheiro da sua pele tomando suas narinas, ele seguiu para finalmente uma longa noite de descanso. Siwon dormiu por doze horas seguidas, sem sonhos, sem interrupções, apenas um demorado descanso. Era como se ele o acalmasse, com sua inocência, com seus beijos.

Kyuhyun não era somente seu segredo, mas seu maior pecado. Como pensar no futuro dava-lhe insônia, Siwon se permitiu aceitar sua atualidade e curti-la como se deve. Ele não o cobrava nada, a não ser momentos como aquele, em que trocavam beijos, caricias e sorrisos. Ele ainda era um criminoso, mas talvez pela primeira vez na história do mundo, seus crimes tinham o consentimento da vítima.

E nem de longe, sua vítima era inocente ou pura, como sua idade previa.

Anúncios